HÁ SEMPRE UM LIVRO...à nossa espera!

Blog sobre todos os livros que eu conseguir ler! Aqui, podem procurar um livro, ler a minha opinião ou, se quiserem, deixar apenas a vossa opinião sobre algum destes livros que já tenham lido. Podem, simplesmente, sugerir um livro para que eu o leia! Fico à espera das V. sugestões e comentários! Agradeço a V. estimada visita. Boas leituras!

Name: Claudia Sousa Dias
Location: Famalicão, Norte, Portugal

Bibliomaníaca e melómana. O resto terão de descobrir por vocês!

Monday, February 28, 2005

"Budapeste" de Chico Buarque (Dom Quixote)



“Budapeste” é um romance de reminiscências, marcado pelo diálogo interno de um intovertidíssimo “autor-sombra”que escreve livros para que escritores sem talento, assumam a autoria das suas obras e possam, consequentemente, brilhar pela sua pseudo-criatividade.

O autor anónimo, José Costa, é uma personagem que escreve narcisicamente e que se deleita com a sua própria escrita, quase com uma espécie de auto-erotismo que o faz negligenciar as pessoas mais próximas que gravitam à sua volta.

Contudo, a verdadeira paixão de José Costa é a língua e a literatura húngaras que o levam a viajar para Budapeste na esperança de conseguir a integração no hermético círculo cultural da cidade.

Budapeste seduz o cidadão de Ipanema pela tradição, beleza, história e pela aura de mistério que a envolve como uma neblina.

A impenetrabilidade do idioma e a frieza algo xenófoba do povo magiar, fazem sofrer o carioca de Ipanema de meia-idade, criando-lhe gigantescas dificuldades de integração, devido à segregação dos autóctones face àqueles que não aprendem o idioma nacional na perfeição.

Cansado da vida fácil e do glamour artificial da quentíssima Cidade Maravilhosa, José acaba por sucumbir à atracção pela cidade da Europa de Leste, pela língua e seus dialectos, pela sua poesia incarnados em Kriska, a sua musa e veículo de inserção na cultura dos magiares.

No final, assistimos a uma inversão de papéis, o homem-sombra torna-se estrela de um livro que não escreveu…

Nada pode ser perfeito…

“Budapeste” é um romance contemporâneo que parece ter sido inspirado num conto do dinamarquês Hans-Christian Andersen intitulado nada mais nada menos que “A Sombra”, no qual o protagonista perde, no final, a sua identidade tornando-se a sombra da sua própria sombra.

Em “Budapeste” assistimos ao diluir da identidade do narrador em relação à personagem do livro que ele teria escrito mas que, na realidade, não foi concebido por ele…

Um livro de prosa densa, nada fácil, de pensamento algo tortuoso, no qual domina uma personagem não só narcísica, mas algo esquizóide que, independentemente da sociedade em que se move, da maior ou menor compreensão do idioma com o qual se comunica, revela uma enorme dificuldade em estabelecer relações de amizade ou amor.

Chico Buarque constrói, em”Budapeste”, uma personagem incapaz de um afecto genuíno porque permanentemente imerso no vórtice da sua actividade intelectual que o absorve totalmente. Daí uma prosa quase que exclusivamente racional, praticamente desprovida de emoções.

Desconcertante.

Um verdadeiro quebra-cabeças.


Cláudia de Sousa Dias

"O Aprendiz de Cabalista"de Cesar Vidal (Ésquilo)



Amor, traição e morte: os três principais ingredientes de um romance histórico que poderia ser adaptado para o cinema ou teatro


Este livro é um romance histórico, passado em plena Europa dos Descobrimentos, cuja narrativa se inicia em Itália de 1525, durante o reinado do imperador Carlos V. que ordena a prisão do rabino Hayim Cordovero, um erudito, profundo conhecedor não só da Torah e do Talmude, mas também da alquimia e dos segredos da Cabala.

Interrogado pela Inquisição começa, então, a contar a história da sua vida.

É desta forma que entramos no romance propriamente dito recuando, cerca de três décadas e meia, até ao reinado dos Reis Católicos, mais propriamente, à altura dos acontecimentos que originaram a publicação do édito de expulsão dos judeus das terras de Aragão e Castela.

Cordovero revive, até ao mais ínfimo detalhe, a forma como foi conduzido, para não dizer manipulado, o julgamento de Yucé Franco recordando, simultaneamente, todo o ambiente social de franca hostilidade da população autóctone face aos judeus, esmiuçando motivos, dissecando emoções colectivas, procurando explicação na questão do social, do individual, da conjuntura económica.

Mas, para o então jovem Cordovero toda a explicação lógica parece insuficiente.

Até surgir alguém que lança uma hipótese diferente, ousada e que se insere nas raízes culturais e místicas do povo semita, fortemente inculcadas no inconsciente colectivo do mesmo e, sobretudo na mente extremamente sensível de Hayim Cordovero.

Segue-se o recordar da dor da perda, do exílio aliado à angústia da instabilidade de um judeu errante, num êxodo europeu através da França, Alemanha e que termina com a prisão em Itália.

E é durante esse êxodo, que desenvolve a aquisição do conhecimento, que compreende que os Goyim (não judeus) não são todos iguais.

E que conhece o amor.

Um amor que eclipsa tudo o mais: preceitos religiosos, morais, culturais…uma afeição que se sobrepõe a todos os outros afectos…

A felicidade suprema tem, contudo, um preço. A Divindade, ciumenta, não tolera um amor que A relega para um segundo plano, nem a sociedade perdoa uma ventura tão perfeita quanto indiferente à infelicidade alheia, implicando a violação de todas as normas do código ético então em vigor.

A mão invisível do Destino abate-se, impiedosa, sobre as personagens num final trágico, inesperado e de grande intensidade dramática.

Nesta obra, os leitores travam conhecimento com o humanismo de Reuchlin através do debate filosófico entre o judeu e o reformista precursor de Lutero.

Mas também se torna perceptível o gérmen do anti-semitismo germânico então latente e que se manifestaria, de uma forma catastrófica, quatro séculos mais tarde.

“O Aprendiz de Cabalista” é um romance de prosa acessível, linear, de carácter analítico embora, por vezes especulativo, resvalando, esporadicamente, numa tónica um pouco sentimentalista.

A busca de uma explicação para o inexplicável, porque parte integrante da natureza humana. Egoísmo/Altruísmo, Bem e Mal são as duas faces da mesma moeda, arquétipos opostos que coexistem em maior ou menor proporção na alma humana, desde o início dos tempos.

O livro poderia ser considerado banal, uma vez que o tema não é, de forma alguma original, se não fosse o sentimento de angústia e suspense, em crescendo, à medida que nos vamos aproximando dos últimos parágrafos, nos quais o cenário vai, progressivamente, sendo invadido por uma aura de fatalidade, à maneira das tragédias clássicas.

Catártico.


Cláudia de Sousa Dias

"A Viagem de Théo"de Catherine Clément (ASA)




O sincretismo religioso numa viagem à volta ao mundo ao mais puro estilo de Júlio Verne, com a tecnologia e mentalidade comtemporâneas


Théo é um inteligentíssimo e belo adolescente afectado por uma estranha doença que o está a debilitar progressivamente e à qual os médicos não conseguem fazer frente.

Quando parece não haver mais nada a fazer, surge a Tia Marthe, uma milionária excêntrica de carácter céptico e espírito cáustico, viajadíssima…

…que propõe aos pais de Théo, como último recurso, uma viagem à volta do mundo, numa demanda por uma cura alternativa à medicina ocidental, para o sobrinho.

Trata-se, nada mais, nada menos, de uma viagem espiritual ao mundo das religiões, visto que o mal que afecta Théo não parece ser de origem física…

“A Viagem de Théo” é um périplo à volta do mundo, cujo objectivo reside na procura do auto-conhecimento através do contacto com os outros povos, cada qual com a sua forma específica de lidar quer com o sagrado, quer com a doença.

Para tal, a Tia Marthe far-se-à acompanhar dos “informadores” devidamente credenciados na matéria em cada uma das etapas da referida viagem, tal como o faria o mais experiente dos antropólogos.

Mas a viagem de Théo implica, também, uma viagem introspectiva isto é, ao interior de si mesmo, ajudado pelos amigos que vai conquistando em Jerusalém, Cairo, Luxor, Roma, Deli, Benaresh, Darjeeling, Djakarta, Tóquio, Quioto, Moscovo, Istambul, Dakar, Casamansa, Baía, Nova Iorque, Praga até chegar a Delfos, terra dos seus antepassados gregos.

É exactamente na Grécia e no lado grego da sua família que se encontra a raiz e a solução do problema de Théo. A viagem será, para ele, um exercício mental executado segundo o molde de um vídeo-jogo, no qual são fornecidas pistas acerca da etapa seguinte que ele terá de decifrar com a ajuda da Pítia fatou a sua amiga-oráculo. Um estabelecer da ponte entre as suas raízes culturais gregas e a actualidade.

As personagens fascinam pelo conteúdo de informação e conhecimentos com que dotam o leitor de informação relevante acerca da sua própria cultura. A forma de transmissão destes conhecimentos é concretizada através do diálogo destas com Théo que, armado da audácia característica da sua extrema juventude, faz toda a espécie de perguntas, mesmo que politicamente incorrectas, às quais os seus informadores” respondem com toda a paciência e delicadeza do mundo…

Isto porque Théo é um jovem cuja beleza, melancolia e sede de conhecimento despertam, instantaneamente, o afecto e a simpatia de todos os que, com ele, travam conhecimento, apesar da sua impertinência.

Já a Tia Marthe (provavelmente a personagem com a qual a Autora mais se identifica) chama a atenção pelo seu cepticismo religioso que combina maravilhosamente com um humanismo agnóstico.

O diálogo destas duas personagens com os restantes intervenientes lembra, um pouco, as personagens Iblis e Lillith em “Jesus na Fogueira”, também da autoria de Catherine Clément.

Théo pode, assim, ser identificado com o lindíssimo anjo rebelde Iblis (ou Lúcifer) e a Tia Marthe com a indomável Lillith, a primeira mulher de Adão, segundo a tradição judaica do Talmude.

“A Viagem de Théo” é o caminho utilizado pela Autora para esclarecer as questões da metafísica e que muito se assemelha àquele utilizado por Sócrates na hermenêutica (estudo e interpretação dos textos sagrados) - o método interrogativo partindo do pressuposto “só sei que nada sei” , neste caso, da absoluta ignorância de Théo em matéria religiosa.

O objectivo último desta viagem parece ser não só o de tornar Théo, mas também os leitores – que participam silenciosamente no seu diálogo interrogativo – em cidadãos do mundo – como Théo em Delfos –, cohabitantes da mesma aldeia global, respeitando as diferentes formas de relacionar e reaproximar os dois mundos – o físico e o espiritual ou metafísico.

Um livro escrito num estilo acessível, mas cuidado e com o cunho estético pessoal de Catherine Clément, fazendo lembrar o “Filme Falado” de Manuel Oliveira.

Imperdível para quem ousar comer do fruto da árvore do conhecimento sem temer ser expulso do Paraíso…


Cláudia de Sousa Dias

"O Bosque dos pigmeus" de Isabel Allende (Difel)




“O Bosque dos Pigmeus” é o último volume da trilogia intitulada "As memórias da Águia e do Jaguar " que inclui também os títulos “A cidade dos deuses selvagens” e “O Reino do Dragão de Ouro”.

Desta vez, a acção passa-se no coração da selva africana algures entre o Quénia e o Ruanda, território fértil em conflitos étnicos, onde um grupo de guerrilheiros submete a tribo dos bantos e o pequeno povo da floresta: os pigmeus.

Os guerreiros dominam a população pelo medo, principalmente por fazerem acreditar possuir poderes sobrenaturais, o que implica mais uma missão (quase) impossível a ser levada a cabo por Nádia e Alexander. Que encarnam, respectivamente, o espírito da Águia e do Jaguar – os seus animais totémicos – em mais uma das atribuladas viagens da avó Kate – antropóloga e escritora ao serviço da revista International Geographic.

Neste terceiro volume, Allende explora, de uma forma acessível ao público adolescente, padrões de cultura, crenças e rituais de algumas tribos africanas, tais como: o casamento, o tratamento dos mortos, ritos de passagem, rituais de guerra, de voodu, de magia branca e negra, o mercado, vestuário…Trata-se de um caleidoscópio de cores, sons, etnias e de grande conteúdo para os apaixonados pela antropologia.

Para além disso, “O Bosque dos Pigmeus” é uma crítica velada aos regimes tirânicos e uma denúncia à ambição desenfreada daqueles que se servem dos mais frágeis para enriquecer rapidamente. A Autora chama a atenção, através do olhar crítico da avó Kate, para as atitudes etnocêntricas e de relativismo cultural da civilização do ocidente face às outras culturas, com o objectivo de sensibilizar as camadas etárias mais jovens para o respeito pelas outras culturas.

O misticismo típico de Isabel Allende, está patente na hipersensibilidade de Alex e Nádia e na relação destes com o seu respectivo animal totémico (influência do xamanismo dos índios americanos) que lhes possibilita estabelecer o contacto por via telepática com algumas das personagens dos volumes anteriores mesmo que localizadas em outros continentes ou que já não estejam entre os vivos! Afinal a magia é indissociável da literatura de Isabel Allende…que conjuga o animismo africano, com o xamanismo dos ameríndios e o budismo do oriente num sincretismo de crenças, personificando a coexistência pacífica dos povos baseada no respeito mútuo e mesmo na troca de elementos culturais…o triunfo do interculturalismo.

Mas enquanto que em “A cidade dos deuses selvagens” o drama é a tónica dominante, em “O reino do dragão de ouro” predomina a incrível sensação de adrenalina e perigo constante num ambiente eternamente agreste (sobretudo para a brasileira Nádia), n’ “O bosque dos pigmeus” sobressai a nota cómica pela presença de situações caricatas e altamente hilariantes como é o caso do episódio com o elefante ou a aterragem no meio da selva por uma extravagante piloto africana.

As personagens principais têm, por sua vez, uma faceta altamente cómica, primando pela excentricidade de hábitos e comportamentos:

- a avó Kate, antropóloga irreverente, de espírito cáustico, mal-humorada, fumadora de cachimbo e grande apreciadora de vodka;

- Angie Niderera, a exótica e exuberantíssima, piloto africana, insubmissa e protagonista de algumas de algumas das mais hilariantes cenas da obra;

- o irmão Fernando, missionário católico, obstinado, precipita o grupo na aventura no coração da selva;

- Maurice Membelé, chefe guerreiro e religioso explora bantos e pigmeus, para viver do contrabando.

O ritmo da narrativa é galopante num estilo corrido, sem muitas pausas, de grande riqueza de imagem o que possibilita a visualização do ambiente e das situações.

Uma obra pedagógica para quem gosta de conhecer outras culturas.

Uma trilogia que é um marco, na carreira da Autora.


Uma estreia brilhante no campo da literatura juvenil.



Cláudia de Sousa Dias

"Equador" de Miguel Sousa Tavares (Oficina do Livro)




Um dos melhores romances publicados em Portugal no ano de 2003

Luís Bernardo é um jovem empresário lisboeta, no início do sec.XX. Dotado de visão estratégica, facilmente se apercebe que as potências estrangeiras tentam, sob a capa de um “humanismo hipócrita”, eliminar a concorrência dos produtores portugueses de cacau, alegando o uso ilegal do trabalho escravo…e incentivando o boicote à compra do cacau S. Tomense…

Mas a realidade não é diferente da dos outros países colonizadores…Luís Bernardo escreve um artigo a denunciar a situação…

… e é convidado pelo próprio Rei D. Carlos a ocupar o lugar de governador das ilhas de S. Tomé e Príncipe durante três anos, sendo-lhe atribuída a missão de averiguar se há ou não trabalho escravo na referida colónia e convencer o cônsul inglês de que o trabalho escravo em Portugal já faz parte do passado.

Neste seu primeiro romance, Miguel Sousa Tavares deixa transparecer, na sua escrita neutra, objectiva no relato dos factos, a influência do jornalismo; e do Direito, pelo rigor, precisão e eficácia típicos de um jurista, patentes quer na investigação relativamente às condições de trabalho dos negros, quer na condução do interrogatório feito às testemunhas pelo mesmo personagem, numa brilhante prestação forense.

Ao lermos “Equador” temos, em muitos momentos da narrativa, a sensação de estarmos a ler as notícias da época ou a “ouvir” um noticiário televisivo.

Outra das grandes vantagens de “Equador” é a de colocar alguns pontos nos ii, em alguns episódios mais recentes da nossa história, nomeadamente: a descolonização, a relação entre colonizadores e colonizados, a implantação da república – feita com base num golpe de estado, numa época em que ainda não havia eleições livres - a relação de Portugal com outros países colonizadores, supostamente nossos aliados, a situação económica interna na época em questão e respectivas relações económicas internacionais. Mas sobretudo, a mentalidade das classes dirigentes da altura, como travão ao desenvolvimento económico pela falta de visão em perceber e acompanhar o ritmo da evolução da História da Humanidade…e evitar a decadência...

Tudo isto é colocado em evidência de uma forma extremamente pertinente e clara em “Equador” através das atitudes das personagens, numa brilhante análise histórica, político-jurídica e social como, aliás, Miguel Sousa Tavares já nos habituou como mediador em debates televisivos, como entrevistador ou cronista.

O paralelismo da situação económico-política de há um século atrás com a actualidade é mais do que evidente, sobretudo no que respeita ao panorama internacional – uma vez que o comportamento de algumas das principais potências económicas no início do sec. XX tem-se mostrado constante até à actualidade, como é o caso da Inglaterra.

Quanto ao romance propriamente dito, Miguel Sousa Tavares esmerou-se na construção das personagens Luís Bernardo – inteligente, culto, de visão estratégica, sedutor e solitário, um outsider na sociedade lisboeta de então, onde se destaca pela diferença, colocando-se um século adiante dos seus pares.

Está, apesar de tudo, mais próximo de David, o cônsul inglês, pelas ideias, cultura e forma de estar.

David é um autêntico camaleão, um cidadão do mundo, com a capacidade de se adaptar a qualquer lugar ou circunstância, inteligentíssimo, empreendedor, fleumático e totalmente devotado à sua mulher, Ann.

Por sua vez, Ann é uma personagem esfíngica, extremamente bela, culta e viajada, diferente de todas as outras mulheres que povoam o quotidiano de Luís Bernardo…

Os dados estão lançados para a erupção de um emocionante romance ao mais puro estilo de Eça de Queiroz.

Este é um livro intenso, profundamente sensorial, onde se sente o pulsar da vida em cada folha de árvore, em cada gota de chuva, em cada grão de areia das magníficas praias de S.Tomé…

Na descrição do clima, da paisagem, dos sons, dos cheiros, transpira uma sensualidade telúrica que lateja em cada palavra…

Um livro onde idealismo e realidade chocam frontalmente numa guerra entre razão ou dever e emoção ou vontade.

Uma estreia brilhante.

Um estrondoso sucesso editorial.

Merecido.


Cláudia de Sousa Dias

"Aves de Rapina" Wilbur Smith (Ulisseia)






“Aves de Rapina” é um romance de aventuras passado no séc.XVII que nos desvenda os mistérios da costa oriental africana e Médio Oriente. Um autêntico diário de bordo que irá, com certeza, seduzir os apaixonados pela arte de marear.

O virtuosismo de Wilbur Smith, num romance como este, consiste em relatar, com precisão cirúrgica, o quotidiano dos navegadores da época dos descobrimentos e a capacidade de adaptação humana em superar as limitações da tecnologia da época. Estas limitações traduzem-se na arte de navegar por mares ainda pouco conhecidos, com os ainda primitivos instrumentos de orientação que possibilitavam o cálculo rudimentar da latitude e da longitude.

A trama desenvolve-se num ambiente político de guerra entre a Holanda e a Inglaterra pelo domínio das rotas que garantem o monopólio do comércio das especiarias, numa altura em que se começa a observar o início do declínio da hegemonia portuguesa.

Este é um romance no qual temos de ter em conta que o autor, sendo britânico e tendo feito, durante muitos anos, carreira no exército da Coroa ao serviço do Império, irá relatar os acontecimentos pelo ponto de vista dos corsários ingleses ao serviço de Sua Majestade, o Rei Charles II.

Desta forma, são profusamente descritas as tácticas de guerra de então, o uso do equipamento, a arte de bem esgrimir, cujos passos Smith dá a conhecer com o preciosismo de um virtuoso. Aliás, a caça e a guerra são duas das suas maiores paixões, presentes em todas as suas obras, como podemos observar na sua espectacular trilogia do Egipto: “O Sétimo Papiro”, “O Deus do Rio” e “O Mago”.

Aventura e fantasia são os ingredientes deste romance histórico que junta factos verídicos (a guerra entre a Holanda e a Inglaterra e a actividade corsária) com ficção
(o encontro com o mítico reino do Prestes João, guardião do Tabernáculo e do Santo Graal).

O romance é composto por personagens arquetípicas, divididas entre heróis e vilões. O Bem e o Mal sem nuances intermédias.

E, tal como em todas as suas obras, é, mais uma vez, inevitável a presença de uma loira perversa, de olhar felino e “nádegas como ovos de avestruz”- a grande vilã e protagonista das cenas mais escaldantes que recheiam os romances de Smith. Em contraste com a beleza exótica da moreníssima anglo-timorense - com a fisionomia típica das heroínas de Smith - que com ela, irá disputar o amor do protagonista, o belo corsário Hal Courtney.

Uma história light, mas divertida, para ser lida como quem vê um filme de aventuras ao estilo de “A Ilha das Cabeças Cortadas” ou “Os Piratas das Caraíbas”.

Possuidor de uma escrita objectiva, com muita acção e cenas com um nível de adrenalina impróprio para cardíacos, obriga o leitor a virar as páginas a um ritmo galopante, pode, por isso, considerar-se um livro de “fácil digestão”, pela pouca profundidade psicológica das personagens e da ausência de grandes análises histórico-políticas.


Um livro que pode perfeitamente ser vocacionado para o público adolescente.


Ideal para despertar o vício da leitura.




Cláudia de Sousa Dias

"Adeus minha Concubina" de Lilian Lee (ASA)




"Adeus minha concubina" é o título de uma das mais belas e dramáticas peças do repertório da ópera tradicional chinesa.





Nos anos 30, os profissionais da ópera de Pequim eram treinados desde a mais tenra infância e submetidos a uma rigorosíssima disciplina, através da qual o erro era corrigido com espancamento, privação de comida, humilhações psicológicas.


As condições de vida dos alunos, descritas nos primeiros capítulos do romance são de extrema miséria, não lhes sendo dada sequer, a autonomia em relação ao próprio corpo, uma vez que são vendidos ao dono da escola pelos membros das suas próprias famílias.




Lá, desenvolvem habilidades acrobáticas, arte marciais, expressão f acial emodulação da voz. E também laços de afectividade e camaradagem mais apertados que quaisquer laços de sangue.A alfabetização dá-se, em contrapartida, só na idade adulta com a instauração do regime maoísta que torna a aprendizagem da leitura e da escrita em componentes educativas obrigatórias, estendendo-as a todos os habitantes da República Popular da China.




Este foi um dos (poucos ) aspectos positivos do regime que com a Revolução Cultural tenta eliminar todo e qualquer vestígio da China imperial e de carácter feudalista. O reverso da medalha é a perda total da autonomia devido à interferência, sem limites, do Estado na vida humana.




Lilian Lee consegue mostrar-nos, através de um belíssimo texto literário onde são intercalados alguns dos mais sublimes trechos poéticos da peça "Adeus minha Concubina", as mais revoltantes formas de violação dos Direitos Humanos mais básicos.




Lee exibe, sem qualquer pudor, a forma como a difusão da propaganda ao regime maoísta substitui, condiciona e manipula toda e qualquer forma de expressão artística, mutila a criatividade, expurga toda e qualquer manifestação de pensamento, do mais ínfimo vestígio de emoção sem deixar margem para um único átomo de individualismo. O triunfo do Império da Censura e da Repressão. Todas as acções levadas a cabo pelos funcionários do Estado, têm como objectivo supremo a total submissão ao deus Mao, como conclui brilhantemente um dos personagens principais. Para isso recorre-se a métodos extremamente eficazes como a delação, encoraja-se a traição, fomenta-se a inveja, a subjugação pelo medo e, sobretudo, a desumanização.




"Adeus minha Concubina" não é apenas um livro que se serve de uma das mais belas e completas formas de expressão artística da China tradicional para ilustrar a situação política da época e os respectivos abalos sísmicos no seu tecido social e cultural.




É também um riquíssimo texto literário que fala da história de um amor proibido, unilateral, e por isso mesmo recalcado, que não se pode exprimir livremente.




Pode ser, também, um documento de interesse histórico e sociológico que dá a conhecer uma sociedade desiludida por um quotidiano miserável que recorre à arte como forma de evasão, uma válvula de escape para deixar fluir as emoções e ter acesso à vida heróica e sumptuosa dos seus interessantes personagens.




O palco é, assim o local onde o sonho individual se materializa. É também o espaço onde cada um pode exprimir o que sente, através do aplauso, quando se identifica com o comportamento de um determinado personagem.




Até a própria ópera passar a ser censurada e o aplauso, controlado pela polícia política.




"Adeus minha Concubina" exibe a escrita de Lilian Lee no seu melhor, numa obra que reproduz, com um realismo quase cinematográfico, as alterações que apaisagem cultural que a China foi sofrendo ao longo do séc.XX, com o desmoronar do Império, a instauração da primeira República, a ocupação japonesa, a Guerra Civil entre nacionalistas e comunistas, a Revolução Cultural...




E que nos proporciona uma visão daquilo que se passa nos bastidores de um palco onde todos os papéis, masculinos e femininos, são interpretados por homens, da clivagem entre o estatuto social dos actores e o dos personagens que interpretam, do paralelismo entre aquilo que se passa no palco e no bordel (a prostituta tem de ser, necessariamente, actriz) e da teia de relações de poder que tenta, por todos os meios, "lapidar" a Arte.




Um livro que mostra que os verbos "amar" e "suportar" se encontram em campos opostos.


E que, ao contrário daquilo que afirmava o pai da Revolução Cultural, enquanto o amor não tem justificação, o ódio sim, pode ter milhares de justificações diferentes.




Sublime e acutilante.


Cláudia de Sousa Dias

"Equilíbrios Pontuados" Jorge Reis-Sá (Edição de Autor)



Esta é uma edição limitada, cuja raridade a transforma, automaticamente numa mais-valia, de um dos mais pungentes livros de prosa poética publicados em 2004.

"Equilíbrios Pontuados" é um lindíssimo livro de narrativas onde, na primeira parte, intitulada "Por ser Preciso" (texto ao qual foi atribuído o Prémio Barbosa du Bocage), está impressa a dor da perda de alguém que é a bússola que norteia a existência do narrador.

A Dor e o Gelo, o Frio implacável do Inverno estão omnipresentes como autêntico presságio de Morte. Natal é época de gelo na Europa. O frio instala-se como uma garra queimando a pele, roendo os ossos e invade todos os cantos de uma casa tal como a Morte invade lentamente um corpo minado pela doença.

O branco nevado da capa do livro, em contraste com com a negrura carbonizada das letras - cor que é partilhada com o grafismo da árvore de Natal, isolada na brancura de uma desolação gelada.

Na segunda parte, cujo título dá o nome ao livro, são imortalizados alguns dos mais belos momentos de uma felicidade dourada, plena de nostalgia, que faz repercutir as cordas da emoção como alguns dos mais belos acordes se de uma guitarra portuguesa se tratasse...A pontuação de equilíbrio nas memórias povoadas de saudade...

A terceira parte - "Matéria dos Sentidos" é composta por episódios que marcaram o quotidiano do narrador de forma indelével.

Um livro com a qualidade literária a que Jorge Reis Sá já nos habituou e que fala da beleza de todas as emoções aliadas à memória que constitui a história da nossa vida, sem esquecer o humor - "Langor" e "Sexta -feira".

Uma lindíssima prenda de Natal que o Autor quis oferecer àqueles que amam a literatura.

Obrigada Jorge!

Cláudia

"A Montanha da Lua" de Manuela Monteiro (Campo das Letras)




“A Montanha da Lua” é um livro que contém cinco deliciosas histórias contadas num estilo poético, com intenções pedagógicas ao público jovem do 2º e 3º ciclos.



No dia da apresentação do livro, o Professor Vasco Moreira, dirigindo-se às centenas de crianças presentes no lançamento, frisou que Manuela Monteiro "foi uma princesa à qual foi destinada a missão de leccionar e que, com a reforma se transformou numa fada com o objectivo de não deixar a magia morrer através de livros que seduzem e palavras que enfeitiçam", apelidando “A Montanha da Lua” de “jóia literária”.

O livro foi ilustrado pela jovem Inês de Oliveira, uma ilustradora de estilo apresentativo e não representativo, motivo pelo qual, o corpete da sereia Ondina e os vestidos das fadas diferem daqueles descritos no texto.

As imagens são lindíssimas, apresentando uma espectacular técnica de trabalhar as sombras e os volumes, cores suaves, formas "fofinhas" que atraem os olhares e que nos convidam a levar o livro para casa.

Falando dos contos propriamente ditos, “Safira, a Borboleta Azul” é aquilo que Manuela chama de “a sua história ecológica, a sua história verde”. É um divertido conto que poderia ser contado em verso pois, praticamente, todo ele rima quando lido em voz alta e pretende passar a mensagem de conservação da natureza e o respeito pela vida animal.

“ A Montanha da Lua”, a história que dá título ao livro, é a da coragem de João Alegre e da sua audácia, persistência, em superar todos os obstáculos da inóspita montanha que separa a Cidade da Alegria da Cidade da Solidão.

“Ondina, a Sereia” é um conto que poderia ser de Andersen (Hans-Chistian)
ou Andresen (Sophia de M. B.). O primeiro pela presença pungente da Dor; a segunda pela profusão de elementos marinhos mencionados no texto, fazendo lembrar a escrita da lindíssima e recentemente falecida Sophia. Esta é a história do sonho na qual se procura a reconciliação entre o mundo materialista dos homens e o mundo das sereias que personifica o plano do ideal, da criatividade, das emoções, do Belo e do Sublime. O adjuvante será o pintor que fará o papel de psicólogo que impede o estiolar dos sonhos recalcados. Porque com a morte das sereias os seres humanos também acabariam por estiolar.

“ A princesa Marina” é a história de uma princesa rebelde com um “rosto de rosa de Maio”, cuja ambição é a de derrubar as barreiras de comunicação e, simultaneamente, melhorar as condições de vida dos habitantes do seu reino.

“ A Fadazinha da Avenida" é o conto mais pungente de Manuela Monteiro. É a sua história da Dor e da Esperança. Nela, vemos descrita a Avenida Narciso Ferreira (em Famalicão), sob o pseudónimo de Avenida da Liberdade, os seus habitantes e a casinha onde habitam as fadas que correm o risco de ficar sem emprego, tendo por isso que emigrar. Até que uma dia…

Mas para saberem mais terão de ler a história!…

As histórias de infanto-juvenis de Manuela Monteiro, para além de ricas em vocabulário e estilo, obrigam a ler nas entrelinhas para encontrarmos o seu significado latente. São também extremamente pedagógicas contribuindo para a construção da personalidade dos mais novos, transmitindo a importância de valores como a amizade, a solidariedade, o amor, o respeito pela natureza, o civismo…

Contos onde a referência ao isolamento e ensimesmamento é uma constante, tal como no lindíssimo romance de Gabriel García Marquez “Cem anos de Solidão”, onde só é preciso um toque da varinha mágica de uma fada, princesa ou sereia, ou da coragem de um menino, para que ela desapareça.

São histórias onde a cor da Alegria triunfa sobre o cinzentismo da Solidão.

Onde não há montanha que não possa ser escalada.

Mesmo que seja tão alta como a Lua.


Cláudia de Sousa Dias

"A Lei do Amor"de Laura Esquível (ASA)






Uma mensagem de paz e amor, com um espectacular CD a ilustrar os momentos mais dramáticos do texto.


Este é um livro completo e repleto de sensações visuais e auditivas. "A Lei do Amor" é o romance mais excêntrico de Laura Esquível.



Trata-se da história de uma jovem que, ao longo de várias vidas, irá tentar encontrar a sua alma gémea, que conseguirá como resultado de um longo aperfeiçoamento pessoal.



A trama, em si, pode ser considerada um autêntico conto de fadas para adultos, onde figuram anjos e demónios, como adjuvantes e oponentes das duas figuras protagonistas.



Esta é uma "fábula do futuro", como refere o editor, que relata os encontros e desencontros, amores e desamores das diferentes personagens, ao longo de várias vidas, durante as quais tentam corrigir os erros das existências anteriores com o objectivo de restabelecer a ordem, o equilíbrio, obedecendo à Lei do Amor (ou lei do Karma) que rege o Universo.



Este conto para adultos foi imaginado numa altura em que ainda não tinham sido inventados, ou pelo menos divulgados os telemóveis, ou a Internet. Torna-se, por isso, interessante observar as divergências entre a evolução tecnológica ocorrida nos últimos anos e aquela que é imaginada pela autora ao longo dos próximos dois séculos!



O estilo da escrita de Laura Esquível é, nesta obra, revestido de um condimentadíssimo sentido de humor tipicamente sul-americano - que já encontrámos em autores como Isabel Allende, Gabriel García Márquez ou Jorge Amado - temperado com uma boa dose de romantismo, optimismo e uma candura irresistível.



"A Lei do Amor" pretende ser uma sessão de psicanálise que, através da hipnose, possibilita a regressão da protagonista a épocas passadas, numa tentativa de avaliar os seus erros relativamente à forma de interagir, permitindo também aos leitores averiguar a quebra da Lei do Amor quanto à coexistência das diferentes civilizações no passado e fazer uma projecção relativamente ao futuro.



Através deste método, as personagens terão a oportunidade de poder colmatar as suas faltas restabelecendo uma nova ordem mundial, baseada na coexistência pacífica e no direito à diferença.



O prémio para a realização deste equilíbrio é o Amor na sua forma mais perfeita e brilhantemente ilustrada no apoteótico final, com a ária do final da ópera "Turandot" de Puccini como pano de fundo.



Um romance que tem a particularidade de ser ilustrado com algumas cenas em banda desenhada que são acompanhadas pelas músicas do CD que a ele vem agregado. Este inclui algumas das mais belas árias de Puccini para os momentos mais dramáticos e algumas canções populares mexicanas, interpretadas pela sensualíssima voz de Liliana Felipe.



Um conto que alia um extraordinário poder de imaginação a uma lindíssima mensagem de Amor muito adequada à quadra do Natal ou ao Dia dos Namorados.



Para oferecer a quem mais se gosta.



Cláudia de Sousa Dias

"Algumas letras" de Adriana Calcanhoto (Quasi)





Quando o fenómeno chamado Adriana Calcanhoto surgiu no cenário da música popular brasileira no final dos anos 80, a cantora, então uma ilustre desconhecida, foi saudada como a nova Elis Regina.

Gaúcha, tal como Elis, Adriana nasceu em Porto Alegre em 03 de Outubro de 1965. Foi descoberta quando cantava numa churrascaria.

Seis anos depois com quatro discos publicados, Adriana consolidou-se como uma das maiores intérpretes da actualidade e, também, como uma compositora de altíssimo nível que brinca com as palavras da mesma forma que brinca com o seu público. Adriana prestou tributo a Elis Regina, mas optou por ser ela própria.

No prefácio de “Algumas Letras” - uma publicação das Quasi Edições que inclui a maior parte dos seus poemas, alguns deles “musicados” outros não, acompanhados de um conjunto de não menos expressivas fotografias da cantora – Adriana refere que:

“Todas as letras seleccionadas neste livro foram esboçadas sempre na guitarra, nunca no papel. Só depois inauguradas como canção. Trabalhei cada uma em seus acabamentos como versos; aí experimentei acentos, transferi pesos de uma sílaba para outra, inseri brancos, cantei, deixei decantar, abandonei, retomei, incorporei acasos em profusão. Sempre atrás de rima ou sílaba mais sintética. Ou mais sonora. Ou mais confusa.

Aqui reunidas as que não rasguei. Sem as suas músicas. Cruas, nuas.”

A poesia de Adriana pode - apesar de ter nascido num país ao qual associamos, geralmente, o Verão - ser considerada poesia "de Inverno", isto é, intimista, que canta o desamor, a lembrança, a saudade e a melancolia como em “Vambora” e “Mais Feliz” até mesmo num poema como “Calor” no qual estão presentes todos os elementos físicos do Verão como o céu turquesa, o calor em extremo, a claridade intensa do Estio. Canções deliciosas cantadas numa cálida, suave e luminosa voz de sol de Inverno.

Na sua poesia são incluídos os elementos característicos da cultura brasileira como em “Parangolé Pamplona”, “Os Cariocas” e”Vamos comer Caetano”.

A poesia de intervenção é, também abordada por Adriana Calcanhoto em poemas como “Tons”, “Cidade Partida” e “Esquadros”, nas quais a poeta-compositora denuncia as desigualdades sociais num país de fortíssimos contrastes relativamente às clivagens sociais e indicadores de qualidade de vida, particularmente sentidos quer nos grandes centros urbanos, quer em diferentes zonas geográficas como o Norte e o Sul do País .

Adriana, tal como afirma no prefácio, brinca com as sílabas, parte as palavras, altera-lhes o sentido, cria interessantíssimos trocadilhos, joga com as repetições para fazer realçar uma determinada ideia em poesias depuradas até ao extremo – (de)cantadas – como facilmente nos apercebemos num poema como “O Surfista”, extremamente rico, apesar da extrema simplicidade, cuja última estrofe faz lembrar o ruído das ondas espumosas (leia-se afrodisíacas, pois Aphrodite em grego significa, precisamente, nascida da espuma…) a desfazerem-se na areia…

Poesia de Inverno numa paleta de cores estivais para oferecer neste Natal…

Em livro ou em Cd.

Ou porque não nas duas formas?


Cláudia de Sousa Dias

"Red Shoes" de Paulo Castro (Quasi)




As desordens afectivas na adolescência, a descoberta da sensualidade, o conflito inadaptação\integração.

“Red Shoes” é um livro que serve de legenda ao espectáculo com o mesmo nome encenado por Paulo Brandão. O texto, da autoria do psicanalista Paulo Castro, explora a temática do Desejo, no qual os pés surgem como fetiche, zona erógena por excelência e, a partir dos quais, é gerada toda a paleta de fantasias eróticas da protagonista.

Para Paulo Castro, o livro é o espelho daquilo que Paulo Brandão tentou mostrar em palco através da poesia-corpo em movimento de Joana Nossa.

O autor – a quem foi encomendado o texto por Paulo Brandão para servir de “legenda” ao espectáculo cénico – habituado a lidar com os problemas inerentes à adolescência, coloca em destaque a relevância dos primeiros 15 anos de vida na construção da personalidade e, principalmente, os transtornos afectivos típicos desta faixa etária tais como:

- o narcisismo;
- a descoberta da sexualidade
- a síndrome da adolescência

Este último traduz-se na alternância entre fases maníacas e depressivas que, segundo o parecer clínico do autor, não pode ser classificado de hipomania ou transtorno afectivo bipolar, precisamente por estarmos a falar de uma adolescente. Trata-se somente da angústia típica do crescimento, numa faixa etária em que os contornos da sexualidade se estão a definire, na qual, está a ser construída a orientação sexual do indivíduo. Sexualidade que é, inicialmente, narcísica, isto é, orientada exclusivamente para o próprio indivíduo durante a qual irá encontrar própria forma de canalizar a sua própria líbido.

No texto, encontramos também a fragmentação ou o desdobramento da personalidade, o afastamento do real, e o binómio inadaptação\integração com a referência ao Outro (simbolizado pelo espelho), ao suicídio (cena da banheira) e à auto-mutilação (lâminas de berbear).

O único ponto de contacto, tanto na peça como no texto, com o conto de Andersen com o mesmo nome, é a vaidade da protagonista durante a fase dos sapatos vermelhos – a fase da construção e definição dos contornos da sexualidade.

Durante a entrevista ao Jornal Cidade Hoje, Paulo Castro não deixou, contudo, de frisar que esta obra é apenas uma fotografia da personalidade da protagonista num dado momento da sua existência, enquanto que a vida propriamente dita, “é um filme acelerado, de lógica cartesiana duvidosa (António Damásio), mas pleno de desejo (Lacan), que se desenvolve em espiral”.

“É um momento na vida onde vamos encontrar despersonalização, desrealização, com todas as alterações da vivência do EU que isso implica”.

Daí decorre a ilustração de alguns quadros de psicose causados pela angústia do crescimento e a necessidade de afirmação do EU e do direito à diferença.

Na peça, os sapatos vermelhos, representam a multiplicidade de opções sexuais o que pressupõe uma fase durante a qual a orientação sexual é indefinida e as opções são infinitas – isto implica que a adolescente vá, durante este período, descobrir a forma de direccionar a líbido, finda a qual, irá proceder à sua própria escolha.

Os sapatos negros são, já, os desejos adultos como resultado da transformação ocorrida na fase anterior.

A referência ao Outro, que aparece no texto e que é representada, na peça, pelo espelho é um conceito de Lacan, do qual o autor se aproveita livremente, “sem qualquer responsabilidade teórica, através de um texto literário, sem preocupações académicas, pois não se trata de um compêndio de psicanálise”.

“O Outro é aquele que nos observa e que nos define quer pelo olhar (expressão facial), quer pela linguagem (verbal) e que é traduzido num discurso social de aceitação\reprovação de existência imaginária".

Todo o indivíduo é detentor, em primeiro lugar, da sua auto-imagem ou auto-conceito que tenta reproduzir para o outro recorrendo ao símbolo (através do qual representamos para os outros aquilo que pensamos de nós próprios – forma de vestir, linguagem utilizada, etc.). E entre estas duas noções está o Real – o imutável (ser homem ou mulher, com uma determinada idade cronológica…).

O Outro, em Red Shoes, representa a influência da sociedade no EU.

Para Paulo Brandão, o autor do posfácio do livro “é mais fácil construir um espectáculo do que falar verbalmente sobre o tema”, preferindo, indubitavelmente a linguagem do palco.

Na opinião do encenador, a adolescente retratada nada tem a ver com a Condessa Bathory (uma figura maldita da época medieval à semelhança do Conde Drácula de Coppola), à qual é comparada no prefácio de Jorge Reis Sá (o que só faz salientar a polissemia do texto, que tal como toda a obra de arte é aberta e, por isso sujeita a múltiplas interpretações) - o editor e autor do prefácio, J. Reis-Sá, estabelece uma analogia entre a cena da banheira da peça e o banho em sangue virginal como ritual de beleza da maléfica aristocrata que assim conservava a juventude.

A adolescente protagonizada por Joana Nossa, é multifacetada e é explorada em palco, nas suas múltiplas facetas: a infantil, a perversa, a generosa, a sensual, a imagética, a enérgica, a contida, a mágica, a malabarista, a construcionista…

O espectáculo e o livro são duas metades da mesma laranja, uma vez que o primeiro ilustra o segundo à semelhança de um filme mudo, no qual o texto literário funciona como legenda.

No entanto, o texto revela-se um elemento precioso para entender alguns transtornos afectivos da adolescência pois fornece-nos pistas indispensáveis à descodificação de alguns comportamentos que poderão parecer, à primeira vista, excêntricos.

Indispensável para pais e para professores.

Interessante para os profissionais da psicologia.

Obrigatório em qualquer biblioteca particular (e não só).
Não perca.

Cláudia de Sousa Dias

"Jesus na Fogueira" Catherine Clément (ASA)





A versão agnóstica dos Evangelhos, pela filósofa judia, num livro bomba-relógio que faz parecer "O Código DaVinci" uma historinha para crianças!

Catherine Clement é uma consagrada escritora e ensaísta judia radicada emFrança. Licenciada em Filosofia e Ciências Humanas na prestigiadaUniversidade da Sorbonne, guarda, nas suas memórias da infância, a marca indelével do desaparecimento de vários membros da sua família em Auschwitz.

Talvez, por isso, a sua personalidade assente nos pilares de um refinado espírito crítico e de análise, na busca contínua do porquê das coisas na procura de uma explicação racional para aquilo que, para o comum dos mortais, não tem explicação, numa luta contínua contra a ingenuidade da crença dogmática e da demagogia.

A fé é-lhe sepultada em Auschwitz juntamente com a sua família.

Daí o sua aversão em relação aos "führers" carismáticos que levam as multidões à histeria.

Daí a sua repugnância relativamente a líderes religiosos, fundamentalistas, sequiosos de poder, presentes em todos os credos: judeus farisaicos (aqueles que mais interesse tinham na morte de Cristo), "ayatollahs" muçulmanos e todo o tipo de fundamentalismo cristão que tente suprimir as outras culturas ou religiões.

São, talvez, estas as motivações que levam a romântica Catherine Clément, autora de romances históricos baseados em algumas das mais belas Histórias de amor do último milénio ("A Senhora", "Por Amor da Índia", "A ValsaInacabada" e "O Último Encontro) a elaborar, desta vez, um romance de cariz filosófico - na senda do já conhecido " A Rameira do Diabo", também da sua autoria.

A Autora aventura-se, agora, no campo da metafísica, construindo uma versão agnóstica dos Evangelhos. Catherine transporta-nos para uma viagem no tempo, fazendo-nos recuar dois milénios para "aterrar" na Palestina ocupada, então, pelos Romanos.

Estes vêem-se a braços com a rebeldia dos judeus que fazem tudo para preservar a sua cultura, tradições e religião, aguardando a chegada do Messias que os liberte do opressor romano que, além de sangrá-los com impostos, impõe arrogante e gradualmente, a sua própria cultura, os seus deuses, a sua gastronomia (nem sempre conforme as ultra-restritas normas judaicas), a sua língua, as suas instituições...

A extrema ousadia de Catherine, neste mais que polémico romance, não se limita a encontrar uma explicação racional para todas as situações que a Bíblia descreve como sendo milagres. Apresenta-nos, para além disso, um Cristo sobredotado, viajadíssimo, com conhecimentos de tratamento de desarranjos emocionais por hipnose, meditação, versado nas artes de yoga, com capacidade para entrar voluntariamente em catalepsia e com vastos conhecimentos em medicina.

Pessoa de carácter impulsivo, irascível, com uma generosa dose de rebeldia sem, contudo, partilhar do fanatismo dos zelotas, Cristo constitui um ultraje e uma séria ameaça ao poder dos fariseus.

Genial, embora um pouco surrealista, a hipótese lançada por Catherine acerca do modo como Cristo possa ter sobrevivido à crucificação. O único ponto onde a autora não consegue ser totalmente convincente reside na explicação da cura completa, ou quase, das feridas causadas pelos pregos.

Mas a ousadia da autora não se fica por aqui. Catherine questiona a própria existência de Deus e do Diabo. A narrativa é iniciada pela voz de uma mulher que facilmente podemos identificar com a própria Catherine e que, numa cidade algures no continente indiano, encontra um atraente e misterioso euroasiático, detentor de um conhecimento invulgara cerca das diferentes civilizações.

Tai, o sábio asiático, assumirá a identidade do Génio Maligno que lança aDúvida e Catherine, o espírito que duvida. Os dois vão identificar-se, respectivamente, com Lúcifer (simboliza a subversão) e Lillith(mulher-anjo-demónio que foi a primeira mulher de Adão, segundo a tradição judaicado Talmude), que irão contar a versão ateia da vida de Jesus...

Este é um livro provocador. Cujo objectivo é inquietar os espíritos. Mas quenos ajuda a pensar com um pouco de autonomia.

Porque só assim é possível o crescimento. Só assim se ultrapassa a infância do homem. E isto é válido tanto para cristãos como para muçulmanos, budistas ou ateus.

Podemos estar a ler heresia pura. Mas nada que Freud ou Nietsche não tenham já pensado antes de Catherine.

Felizmente, este livro foi escrito já no final do séc.XX. O que significa que o Jesus de Catherine não arderá na fogueira ateada pelos pobres de espírito.

Porque escrever implica sempre imaginar e construir, ou reconstruir, na maior parte das vezes. E obriga a elaborar hipóteses para preencher lacunas.

Porque sem liberdade de pensamento, não há criação.


Cláudia de Sousa Dias

Saturday, February 26, 2005

"Filmes Proibidos" Bruna Lombardi (Quasi)






A tentação do abismo num cenário de transição para a última década doséc.XX, coincidente com o final da Guerra Fria.




"Filmes Proibidos" vem mostrar-nos um lado de Bruna Lombardi pouco conhecido pela maior parte dos portugueses. Aqueles que estão habituados a vê-la apenas como um rosto das novelas ou do cinema brasileiro, deparam-se com uma escritora de talento, consagradíssima no Brasil, tanto no campo da poesia como na prosa.




O livro fala de uma mulher, sócia de uma produtora de cinema alternativo, que se dedica, também, à publicidade para sobreviver e financiar os seus projectos mais ousados.




Trata-se de uma personagem cuja descrição física não nos é desvendada mas sugerida, pois torna-se facilmente perceptível que estamos perante uma figura feminina detentora de um grande carisma e magnetismo sexual - características que partilha com a própria autora.




O discurso é narrado na primeira pessoa - embora o romance não possa ser considerado, de forma alguma, autobiográfico - percebendo-se, facilmente, a projecção do constante monólogo interior da escritora no fio condutor que orienta o pensamento da personagem.




A prosa de "Filmes Proibidos" transpira uma forte carga erótica, despida de falsos pudores. A protagonista e narradora é, contudo, extremamente cotundente quando expõe os aspectos mais pitorescos das restantes personagens e, sobretudo, meticulosamente crítica e exigente em relação a si própria.




Bruna Lombardi recorre, frequentemente, à sátira e à ironia para relatar o lado burlesco quer das personagens quer das situações.




O estilo é coloquial, muito próximo do discurso oral, recheado de interjeições típicas do português do Brasil, de algum calão e muitos diálogos entremeados com períodos de descrição e narrativa nos quais temos a oportunidade de "ouvir" um pouco a voz poética da actriz-escritora.


Bruna Lombardi explora, através da sua personagem, a possibilidade de se fazer a escolha errada relativamente aos afectos, mas permitindo ao ser humano o acesso ao conhecimento do outro lado da vida, aquele de que todos têm medo - o terreno pantanoso do desconhecido que é, por isso mesmo, imprevisível e incontrolável.




É um romance que fala da tentação de explorar o Inferno dos afectos instáveis, contudo possuidores da intensidade que não se encontra naquilo que é politicamente correcto.


E que leva a pensar que, por vezes, é necessário sair do Éden para conhecer a realidade à qual teimamos, muitas vezes, em fechar os olhos.




Impõe-se, depois, a necessidade de reunir as forças necessárias para encontrar o caminho de volta. A cura está no regresso ao equilíbrio. À embriaguez do Samsara segue-se a paz do Nirvana no qual está contida a realidade por inteiro.




Um livro que, apesar de extremamente acessível, está longe de ser considerado superficial, quer pelo realismo, quer pela vasta cultura que transparece no texto da Autora, quer, ainda, pela profundidade psicológica das personagens e pertinência dos temas abordados.



Supreendente e viciante desde a primeira até à última página.




Cláudia de Sousa Dias

Friday, February 25, 2005

"O Véu Pintado" de Somerset Maugham (ASA)



"...esse véu pintado a que os que vivem chamam vida..."

Este é o mote no qual Maugham se baseia para desenvolver um romance que fala da construção da personalidade que é esculpida, moldada pelas situações que se nos apresentam ao longo das nossas vidas.

Afinal a Vida é pintada ou construída com as cores do ambiente social que nos rodeia e também de acordo com as expectativas das pessoas com as quais temos de interagir.

Esta é, sobretudo, uma trama que exibe o talento do autor, patente no carácter de personagens cheias de contradições, capazes de atitudes extremas, revelando um profundo conhecimento da alma humana aliado a uma excepcional capacidade de observação.

Já no prefácio, o autor confessa ter-se inspirado numa passagem do Purgatório deDante, cuja heroína, Pia, é levada pelo marido, que suspeita que esta lhe é infiel, para um local remoto, impregnado de vapores sulfurosos, na esperança que estes condicionalismos lhe proporcionem uma morte lenta e discreta, pois teme opoder da sua família.

A vingança perfeita.

Mas as coisas não correm exactamente conforme havia previsto...

Katherine ou Kitty, a heroína do romance de Maugham, é uma jovem beldade, oriunda da classe média\alta britânica - um meio social onde impera a frivolidade -extremamente fútil e que, instigada pela mãe e pelas restantes figuras femininas do seu círculo (restrito) de amizades, procura um casamento através do qual possa ascender socialmente. Trata-se de uma personagem que vai sendo modelada à medida que se desenvolve a trama.

Esta é, sobretudo, a história da humanização de Kitty e da sua caminhada em direcção à autonomia em todas as suas dimensões: sentimental, económica e social.

Walter e Charlie são personagens que fascinam pela sua complexidade ou, se quisermos, pela sua dualidade. Walter, o marido de Kitty, de aparência agradável mas discreta, é um homem extremamente inteligente e detentor de uma enorme capacidade de amar. Mas, tal como o marido de Pia, é também capaz de odiar muito para além dos limites da sanidade mental.

Charlie, o amante de Kitty, é um homem belo e fascinante, possuidor do charme mundano de quem se move dentro dos círculos diplomáticos como um peixe na água e, principalmente, detentor de um enorme poder de sedução. O lado negativo de Charlie manifesta-se na sua frivolidade (que inicialmente o aproxima de Kitty, imersa num casamento onde proliferam a falta de afinidades eas dificuldades de comunicação), no excessivo apego às convenções, nalguma cobardia e dissimulação q.b.

Waddington, amigo de Walter e Kitty, será como que a consciência da nossa heroína no inferno de uma cidade cuja população está a ser dizimada pela cólera. Estamos perante uma personagem importantíssima que nos fala da presença britânica na China e da necessidade de ultrapassagem dos preconceitos de ordem social e cultural, apesar do aparente desdém em relação à sua amada descendente da nobreza manchu.

Em Kitty, esse desdém é impregnado de uma forte dose de etnocentrismo\xenófobo que será, também, ultrapassado pelo convívio com as crianças do orfanato oriundas de famílias vítimas da cólera .

Uma obra ímpar deste autor britânico, falecido em Nice em 1965, povoada depersonagens de grande densidade psicológica, cheias de conflitos emocionais.

Que transmite uma mensagem de tolerância e equidade, para aqueles que ousam pintar o véu da vida com cores diferentes daquelas que são aceites por uma maioria, muitas vezes, pouco esclarecida.

Um fortíssimo enredo passional, cujos ingredientes envolvem, amor, ódio, traição e morte.

Mas também uma história de crescimento interior e lucidez e um elogio à tolerância e à solidariedade.

Cláudia de Sousa Dias

Thursday, February 24, 2005

"Jaya" Gita Mehta (Ulisseia)





O abismo cultural entre a "Índia real" e a Índia britânica através do olhar de uma princesa do reino de Rajputan.


Baseando-se nos depoimentos de um número considerável de mulheres oriundas das mais antigas famílias reais indianas, Gita Mehta compõe uma interessantíssima personagem central de um belíssimo romance histórico que abarca toda a primeira metade do século XX, coincidente com o processo histórico que levou à independência da Índia e à desagregação do Império Britânico.

A ideia surgiu-lhe a partir de uma frase de Mahatma Gandhi que afirmava que "Quem quiser conhecer bem a Índia, terá de estudar as aldeias e as mulheres indianas."

Por isso, em "Jaya", temos a oportunidade temos a oportunidade de olhar para dentro de uma zenana (harém indiano) e de nos introduzirmos um pouco no seu misterioso e secreto (do ponto de vista ocidental) quotidiano permitindo-nos conhecer em profundidade as classes dirigentes da altura.

A autora, tendo nascido em 1943, Nova Deli, filha de um membro proeminente de um dos grupos que se batiam pela independência da Índia e que veio, mais tarde a tornar-se um dos líderes políticos do estado oriental de Orissa, estudou na Índia e no Reino Unido.

Fortemente impregnada destas duas culturas, tal como a sua personagem "Jaya", a sua escrita é extremamente forte, dando largas ao seu sentido crítico, especialmente quando coloca em evidência a prepotência dos colonizadores e o seu ostensivo desdém pelos costumes, tradições e gentes da Índia, Mehta não poupa ninguém desde o vice-rei ao primeiro-ministro Winston Churchill.

A princesa Jaya, sendo uma personagem de ficção revela, contudo, um carácter extremamente verosímil e sobretudo pragmático pois é composta por uma mistura de traços de personalidade de várias mulheres da realeza indiana para além de assumir algumas facetas da própria autora, como por exemplo: o facto de estar marcada pela herança cultural milenar transmitida pelos seus antepassados e a instrução de cariz ocidental adquirida através da tutoria dos seus preceptores britânicos ou, simplesmente anglófilos.

Jaya nasce numa família tradicional, mas ao casar com um príncipe de um reino vizinho é compelida a rejeitar a sua própria cultura e a ocidentalizar-se.

O dilema de Jaya será, consequentemente, o de conseguir integrar-se, ser aceite e respeitada quer na Índia Britânica quer na metrópole onde é vista como uma "Vénus negra".

Mas Jaya só conseguirá ter total autonomia e liberdade de acção quando assumir a posição de regente do reino após a morte do marido.

Entretanto, sopram os ventos de mudança, decorridas duas guerras à escala mundial, na qual a Jóia da Coroa do Império teve de tomar parte activa - por imposição do governo da Metrópole - findas as quais, as finanças do reino se encontram simplesmente esgotadas.

A revolução impõe-se a necessidade de reconhecer a independência do continente indiano sob o domínio britânico já não pode ser ignorada.

O Império desagrega-se e com ele a maior parte dos regimes políticos dos reinos indianos incluindo Sirpur onde reina Jaya e onde, a partir de agora se irão realizar eleições livres. Uma nova esperança de autonomia para as mulheres indianas?

Um belíssimo pedaço da história do século XX. Para analisar e ajudar-nos a entender a complexa realidade de um continente que continua a seduzir e a inspirar a humanidade.


Cláudia de Sousa Dias

"O Último Encontro" Catherine Clément (ASA)



Uma história contada a três vozes onde duas mulheres se digladiam até ao último fôlego, pelo amor do filosofo ao serviço do regime nazi no seu leito de morte - o polémico Martin Heidegger - naquela que foi uma das mais belas histórias de amor do século XX.

Tendo já habituado o seu público a romances de extrema beleza, marcados poramores impossíveis, como em "A Senhora", "A Valsa Inacabada" e "Por amor da Índia", Catherine Clément apresenta-nos, desta vez, uma história de amor que se sobrepõe a todas as correntes ideológicas vigentes na época, tal como a águia que sobrevoa as nuvens planando sobre as colunas de ar ascendentes.

Catherine conta-nos o desenrolar de uma paixão que obrigou Martin Heidegger a ignorar as convenções religiosas da cultura cristã, que sanciona o adultério, e as imposições do regime nazi, que não só proíbiam como puniam implacavelmente as ligações afectivas entre arianos e judeus.

Da mesma forma, a lindíssima e misteriosa Hannah Arendt, uma intelectual brilhante que, pouco antes do deflagrar da segunda grande guerra, apaixonou-se pelo seu professor de filosofia, católico luterano e associado ao partido nazi, arriscando-se à censura da comunidade judaica a que pertencia.

Nesta obra , Catherine Clément explora, de uma forma pouco ortodoxa, os dois arquétipos inconciliáveis da esposa e da amante, as míticas Eva e Lillith incarnadas em Elfriede - a esposa ariana de loiríssimos cabelos, cristalinos e azulíssimos olhos, acérrima defensora do partido de Hitler, empenhadíssima na recuperação da nação alemã no período entre as duas grandes guerras, esposa e mãe perfeita, a viga mestra que suporta o lar onde reside Martin Heidegger, a guardiã da paz do filósofo.

E Hannah, a moreníssima estudante judia, errante, apátrida, dotada de uma inteligência invulgar, que simboliza o Oriente grego para o filósofo. Que, tal como a mulher-demónio Lillith, vem abalar a paz de espírito de Martin , como o ventode Leste.

Catherine Clément explora, a partir do discurso destas duas mulheres, as diferenças abissais de carácter entre as duas figuras femininas, cujo único ponto em comum foi o de terem amado o filósofo, caído em desgraça após a vitória dos Aliados.

Martin Heidegger é-nos apresentado no seu leito de morte, em estado de coma,mas não totalmente inconsciente, atormentado por sonhos\pesadelos onde as memórias se sucedem num vórtice interminável quase que à velocidade da luz e atormentado pela impiedosa disputa que as suas duas mulheres insistem em prolongar até ao seu último suspiro.

O seu estado de semi-consciência permite-lhe ter uma vaga percepção de tudo aquilo que passa à sua volta. À medida que se aproximam os derradeiros momentos da sua vida, diluem-se as fronteiras entre passado e presente, confundem-se os pensamentos que se sucedem a uma velocidade suicida.

Tenta, desesperadamente, escapar à decadência - isto é, à maldição de ficar aprisionado num dado momento da história, sem acompanhar a evolução dostempos.

Mas o tempo engole-o.

E o seu afecto dividido dilacera-o.

Esta é uma história contada a três vozes, onde podemos testemunhar o pragmatismo, o extremo o sentido de dever e o espantoso grau de possessividade no discurso de Elfriede. Ao qual se contrapõe o cosmopolitismo, a efervescência e a passionalidade e um acutilante sentido de ironia em Hannah e as perigosas oscilações de ritmos na "voz" de Heidegger num discurso, ora de uma tranquilidade nostálgica, ora de uma turbulência de tufão do Pacífico, numa tentativa desesperada de escapar ao abraço da Morte.

Catherine Clément oferece, mais uma vez, ao seu público uma história de um sublime amor proibido, entre duas almas que são como duas chamas que ardem em campos opostos.

Entre duas pessoas que significam duas formas de estar na sociedade irremediavelmente antagónicas: o nazi e a judia.

Um romance dolorosamente belo.

Que nos fala de um amor de uma beleza impossível.

Feito à medida de seres superiores.

Como Martin e Hannah.


Cláudia de Sousa Dias

"Zona Xis" Urbano Tavares Rodrigues (Quasi)




A fronteira entre a luz e as trevas, numa impressionante conjugação entre poesia, arquitectura e fotografia crindo uma ponto de convergência entre estas três áreas


Estamos, mais uma vez, perante um tesouro literário de qualidade indiscutivelmente superior a que a Quasi já nos habituou.

Nesta “Zona Xis”, a poesia de Urbano Tavares Rodrigues aparece, à primeira vista, quase como uma legenda do excelente trabalho de fotografia de Joel Moniz.

A justaposição da poesia ou, neste caso, da prosa poética, vem multiplicar as significações possíveis a atribuir a estas duas formas de arte que, por si só, já são polissémicas, ou seja, possibilitam uma multiplicidade de interpretações.

Nas imagens, encontramos uma beleza fria, incorporada num impressionante jogo de luz e sombra que permite esculpir volumes gradativamente numa escala de cinzentos – esta cor impera destacando-se pelo seu carácter de tonalidade intermédia, fronteiriça, remetendo para o título do livro.

É também frequente o contraste entre ângulos agudos e obtusos linhas que se interceptam bruscamente, linhas paralelas que só se encontram no infinito ou falsas perspectivas criadas pelo contraste claro/escuro. Tal como por vezes, acontece com os seres humanos.

Podemos também distinguir o poderoso contraste entre estilos arquitectónicos justapostos – a beleza clássica do passado e o minimalismo do presente.

O poeta, por seu lado, começa por falar de “casas fantasmais e quase sem janelas” sugerindo a ideia de ausência de luz e de vida. De facto, a cor que é inexistente em todas as fotografias, está, também, ausente em quase todos os textos-legenda. Quando é referida fala-se apenas de cores nocturnas ou espectrais como os azuis, o fumo, a prata, o luar sugerindo fortemente o spleen Beaudelairiano.

Urbano Tavares Rodrigues fala, igualmente, do crepúsculo como uma zona fronteiriça entre a vigília e o sono, entre a vida e a morte da alma como “jardins anoitecendo”.

A luz solar tem um lugar de destaque. Em diversos trechos a luz que jorra da clarabóia nas fotografias de Joel Moniz é identificada com a “lâmpada” ou “candelabro oriental” cujo feixe ilumina as paredes (ou as consciências) lisas e nuas, conduzindo o olhar, mostrando o Caminho à anima humana.

A luz é, na poesia de Urbano Tavares Rodrigues, o símbolo da liberdade de expressão que se opõe às trevas que a prisão, as grades, o medo e o peso opressivo da escuridão potenciam o amordaçar das consciências pela “ditadura do silêncio”.

A luz é também sinónimo de amor. Um amor cuja perfeição foi cristalizada algures no passado (o vidro está também presente nas fotografias de Joel), mumificado em saudade.

O mar – o azul que não se vê mas que está para lá das dunas e montanhas (obstáculos) – é o regresso ao estado líquido, como no ventre materno. O que sugere, talvez, a esperança de um recomeço de uma vida para além da morte. Ou o reencontro do amor após uma separação forçada. Ou até a morte como libertação ou passaporte para a liberdade como ilustra “ o remate em cruz de uma cúpula” com a imensidão celeste como pano de fundo na página adjacente.

As forças parecem, contudo, esgotar-se antes de atingir a praia – o limiar da Zona Xis.
O tempo e o vento da Mudança fazem desmoronar as falsas perspectivas – pps 36 e 37.

Quando nos aproximamos do final, os textos deixam de ser acompanhados por fotografias. Na última delas vemos, inclusive o predomínio do branco em relação aos tons sombrios apesar da desolação da paisagem invernal – um sinal de convalescença?

O poeta começa então a referir laivos que cores diurnas - “o amarelo martirizado dos estames” -, que começam a impor a sua presença dolorosa - “as feridas interiores a sararem no tumulto do casarão amarelo (amarelo - desespero), “folhas doentes (amarelas) dos tamarindos” ou “ o teu sorriso mais violeta (sombrio) que carmim”.
Nos últimos trechos a vida e o amor caminham de mãos dadas .

O luar espectral dilui-se e é substituído pela omnipresença do azul libertador, portador da paz, da serenidade e do bem-estar.

Sublime.


Cláudia de Sousa Dias

"O Afinador de Pianos" de Daniel Mason (ASA)



O casamento perfeito entre a Palavra e a Música cujo resultado se reflecte numa criação literária com uma qualidade estética incomparável

Edgar Drake vive uma existência tranquila em Londres, com um casamento estável, sem filhos e com algumas dificuldades económicas.

Completamente apaixonado pelo seu trabalho - a afinação de pianos -, passa a maior parte do tempo na sua oficina, submerso em ferramentas e rodeado por"esqueletos" de pianos, quando não tem de se deslocar a casa dos clientes para trabalhar.

Um dia, recebe uma proposta irresistível do Ministério de Guerra, convidando-o a deslocar-se até à Birmânia afim de reparar um piano raríssimo.

Drake nãotem como recusar, apesar de esta decisão alterar por completo todos os aspectos da sua vida.Vai então sujeitar-se a uma longa e atribulada viagem transcontinental que consiste num dos mais belos trechos do romance descrito por Drake, nas suas cartas à esposa, Katherine, mostrando-lhe, extasiado, a mudança do clima, da paisagem, dos costumes, das gentes.

Chegando ao seu destino - uma remota localidade na Birmânia Oriental - ascoisas começam a complicar-se : conflitos diplomáticos entre colonizadores e olonizados, assaltos de tribos autóctones de salteadores e/ou guerrilheiros...Mas o major-médico Anthony Carroll é um importante elemento na mediação daquilo que parece ser um conflito intercultural num local "onde os deuses desfrutam a música e onde um piano pode ser usado para rezar".

O major Carroll é, por um lado, uma personagem muito sui generis que desenvolve uma forma de comunicação muito especial e uma proximidade bastante invulgar com os povos dos estados Shan, onde o conflito se encontra latente. Um homem diferente, que não parece ter a pretensão de "educar" as populações indígenas preocupando-se, ao invés, em respeitar os seus costumes e crenças.

Edgar Drake conhece também Khin Myo, uma bela, exótica e enigmática mulher daBirmânia. Entre eles desenvolve-se uma relação situada, algures, no limiar entre a amizade e o amor, pois ambos têm compromissos com outras pessoas.

Khin Mio é, desta forma, uma ninfa Calypso na companhia da qual este Ulisses britânico irá prologar a sua estada em terras do Extremo Oriente antes deregressar à sua Ítaca, onde o espera a sua Penélope/Katherine.Mas não se adivinha fácil o regresso às sombrias terras britânicas, com o sol da Birmânia no pensamento.

A música está sempre presente ao longo de todo o romance, não só pela constante referência a instrumentos musicais, ferramentas e processos de afinação, como também pela contínua associação de melodias e sons da natureza aos aspectos visuais da paisagem criando quadros sublimes. O que confere ao texto uma beleza etérea, quase sobrenatural.

O final é totalmente inesperado, aberto.

O drama instala-se e é deixado ao leitor imaginar o futuro das personagens.

"O Afinador de Pianos" é uma viagem de uma beleza indescritível ao Extremo Oriente onde a Música impera como símbolo do Belo como valor absoluto e onde desempenha o papel de mediadora da Paz.

Cláudia de Sousa Dias

"Na Corda Bamba" de Joanne Harris (ASA)



A celebérrima autora dos best-sellers "Chocolate", "Cinco Quartos de Laranja", "Vinho Mágico" e "A Praia Roubada", leva-nos, desta vez, a efectuar uma viagem no tempo. Mais propriamente à França do séc. XVII.

Neste romance, J.H. conta-nos a história de uma jovem actriz e equilibrista que integra um grupo de saltimbancos. As circunstâncias obrigam-na fugir e a refugiar-se, incógnita, num convento para escapar a uma acusação de bruxaria.

Lá, encontra, durante cinco anos, a paz e a segurança que lhe permitem criar a filha.

Mas a morte da idosa abadessa, Mère Marie, coincide com a chegada de Guy LeMerle - uma sinistra figura do passado da ex-Donzela Alada, agora disfarçado de Père Colombin - que irá moldar a personalidade da nova abadessa: uma pré-adolescente, arrogante mas totalmente vulnerável, oriunda de uma família nobre e corrupta.

Os dois protagonistas - O Melro e a Donzela Alada - vão digladiar-se durante toda a trama, brilhantemente arquitectada pela autora, num impressionante jogo de poder.

Guy LeMerle, que representa para a Donzela Alada a sua "ave de mau agoiro"é, na verdade, um homem extremamente perigoso. Demagogo, manipulador, joga com as fragilidades emocionais das ingénuas religiosas que habitam o, até então, pacífico convento.

Uma ave maléfica que semeia a intriga, gera o conflito, espalha o medo, usando o poder de sugestão. Excelente actor, jogador exímio, fascinado pelo perigo, gosta de viver a vida "na corda bamba". Cínico até à medula, é motivado por um único desejo: a vingança. Para tal, não olha a meios para atingir os seus fins.

LeMerle é um perfeito Lúcifer, perversamente sedutor, incapaz de qualquer manifestação genuína de afecto e,por isso mesmo, facilmente induz o seu rebanho de dóceis religiosas a comportarem-se como deseja.

A tranquilidade paradisíaca do convento transforma-se num Inferno de desconfiança onde prolifera a mesquinhez, a delação e a calúnia.

Em contrapartida, a Donzela Alada é a única que pode apreciar condignamente as capacidades histriónicas deste melro perverso.

Juliette é uma mulher racional, bastante mais instruída do que as suas companheiras, mas possui, alguns pontos fracos: o seu cabelo ruivo aliado aos conhecimentos acerca das propriedades químicas das plantas e à capacidade de ler oTarot colocam-na, facilmente, face à possibilidade de ser conotada como bruxa -envenenadora.

Para não falar da sua filha Fleur - instrumento que o Melro não hesita em utilizar para silenciá-la.

Apesar de tudo, Juliette revela-se uma jogadora à altura, pois é a única que está apta a lidar com as mesmas armas do seu ex-amante.

Este pode, de longe, considerar-se o melhor livro de Joanne Harris até hoje escrito, ultrapassando até o seu delicioso "Chocolate", não só pela complexidade do carácter das várias personagens que figuram no romance, mas sobretudo pela suprema qualidade literária do texto, que ilustra de maneira muito vívida a complexidade da natureza humana.

E, principalmente, pela construção de uma personagem que pode ser considerada como o maior vilão conhecido, ultrapassando mesmo um Iago do "Othello" ou o detestável Scarpia da "Tosca", pela capacidade de usar da mentira, da dissimulação, das meias-verdades, pela periculosidade da sua maligna sedução.

Um vilão assustadoramente real.

Sem o lirismo das obras anteriores, "Na Corda Bamba"conserva alguns traços em comum com as mesmas, nomeadamente, a espantosa força de carácter e lucidez, típicas das suas heroínas, em Juliette.

O final é alucinante, um verdadeiro vórtice de emoções, oscilando ao ritmo próprio de uma montanha russa.

É especialmente interessante a alternância de discurso entre os dois protagonistas. Os capítulos narrados pelo Melro são assinalados com a pinta de espadas - símbolo do masculino, representa a lança ou o falo -, em contraste com os capítulos narrados pela Donzela Alada, Juliette, identificados pela pinta de copas - símbolo do feminino que pretende representar o cálice ou o útero.

Um impressionante jogo de equilibrismo no qual o último a cair é quem triunfa.

A eterna luta entre oBem e o Mal.

Entre a Mulher e a Serpente.

Quem será o vencedor?

Se é que a luta tem um fim...


Cláudia de Sousa Dias

"Biologia do Homem" Jorge Reis Sá (Quasi)



Estamos perante mais um lindíssimo livro lançado pelas Quasi Edições cujo lançamento contou com a mais valia da lindíssima voz de Mafalda Veiga.

Esta obra do jovem autor e editor famalicense é um misto de poesia e prosa poética na qual se nota, no aspecto formal, a nítida influência da romântica e nostálgica escrita de Maria do Rosário Pedreira, mas cuja temática reflecte a sensibilidade única de Jorge Reis-Sá.

“Biologia do Homem” é, sobretudo, um livro de memórias. “Todo o poema é memória” (pag. 33). Na primeira parte intitulada “Caminho de Candeeira” o autor reconstrói os momentos felizes de uma infância dourada, edénica, a qual é narrada com uma precisão quase cinematográfica, mostrando cenas do dia-a-dia, rituais em família, a solidez da Amizade gerada na infância, os lugares das brincadeiras infantis, a Escola e o despertar do prazer da aquisição do conhecimento.

Mas também a omnipresença indelével, como uma profunda cicatriz no tórax, do primeiro contacto com a Morte.

E claro, como não podia deixar de ser a referência ao primeiro amor e à sua estreitíssima ligação com a poesia como faz questão de mostrar nos poemas “A definição do Amor” (pág.29) e “Get Real” (pag30) onde afirma, respectivamente, que “Todo o poema é amor” e que “O primeiro amor é sempre anterior às letras, à escrita do primeiro verso”. E só os verdadeiros poetas sabem o quanto existe de verdade nestas duas afirmações.

A poesia de Jorge Reis-Sá é memória viva, dolorosa ou feliz, impregnada, por vezes de melancolia ou do gosto amargo da ausência como no poema “A Morte Continuada”. Poemas que narram uma existência feliz, estival, mas que por vezes são invadidos pela gélida nortada que anuncia a chegada do frio traduzindo-se em versos que apunhalam a alma de quem os lê como no “Poema ao Filho” (pag.17), no já citado “Morte Continuada”e, sobretudo, no último verso de “Pela Manhã o Pão” – poemas de Amor e Morte.

Na segunda parte do livro – “Força de Coriolis” -, o poeta utiliza esta expressão que é normalmente atribuída a um fenómeno físico, mas cujo significado, em linguagem poética, pode traduzir-se numa revolução do quotidiano que obriga a uma reestruturação completa de uma forma de vida tal como a Força de Coriolis que, após a passagem da linha do Equador, obriga a água em redemoinho a correr em sentido contrário. Ou, já agora, a direcção do vento após a passagem do olho do furacão.

Nesta segunda parte, Jorge Reis-Sá presta homenagem às pessoas mais importantes da sua vida: a mãe, e esposa, os amigos mais próximos, as pessoas que mais admira.

É a parte da sua autobiografia que corresponde à vida de jovem adulto que vai desde as memórias do tempo da faculdade à concretização dos seus sonhos de realização pessoal, passando pela descoberta do amor adulto, intenso e completo como nos poemas “Poderia dizer-te” (pag 37) e “O quarto da Morta” (pag 40), este último com a presença das aves consagradas à deusa Afrodite. Dois textos de prosa poética que poderiam facilmente ser considerados duas lindíssimas cartas de amor.

A poesia de Jorge reflecte também a sua vastíssima cultura, um ecletismo que abrange não só a literatura, mas também a música, o cinema e as restantes Artes do Espectáculo.

“Biologia do Homem” é o livro em que o poeta desnuda a sua alma para entrar em contacto consigo próprio e com as suas raízes à imagem e semelhança da criança cujo corpo nu repousa em total contacto com a natureza na lindíssima fotografia da capa. Um livro que apela à ecologia da alma humana e à integração no seu respectivo ecossistema natural: os afectos. O regresso às origens.

Um livro no qual abundam a criatividade e o talento mas que é, acima de tudo, autêntico.

Belo e autêntico.



Cláudia de Sousa Dias

"O Impressionista" Hari Kunzru (ASA)



O esbater dos contornos da identidade, numa sociedade e época em que o racismo e a xenofobia implicam necessidade de integração e adaptação e, consequentemente, a perda da própria personalidade

O Impressionista" é um romance cuja acção se inicia na Índia Britânica dos anos 20.

Pran Nath, a personagem principal, é um adolescente mimado, oriundo de uma das mais prestigiadas castas da Índia: os Brâmanes (sacerdotes ou intelectuais). Mas a sua origem tem uma mácula: a da bastardia.

De repente, as suas características físicas - típicas de um ariano - passam a ser objecto de suspeita por parte dos seus conterrâneos e parentes, ávidos da fortuna do jovem.

O desmascarar das suas origens leva-o à expulsão da sua casta transformando-o num Pária - num excluído social - o que vai obrigá-lo a uma mudança de identidade.

As circunstâncias levam-no a assumir o papel de rapariga e a fazer parte de uma sinistra teia que integra uma complicada rede de tráfico humano envolvendomuitas das mais poderosas figuras do Governo Britânico na Índia.

Para preservar a sua identidade sexual, Pran Nath tem de agarrar a oportunidade de fuga logo que esta se lhe depara.

Mais uma vez, muda de nome passando à aprendizagem da sua "anglicização", absorvendo os hábitos e a cultura Britânicos - processo que se completará após a emigração para a metrópole e a usurpação da identidade de um conhecido seu que morre tragicamente.

Em Londres, veste perfeitamente a máscara do típico estudante inglês. Contudo, basta-lhe a mudança de ambiente para se sentir novamente desenquadrado desencadeando, mais uma vez, a necessidade camaleónica de se transfigurar para se confundir com a paisagem social que o rodeia.

"O Impressionista" é um romance cujo tema central é a despersonalização. Os contornos do EU esbatem-se, tal como os contornos numa pintura impressionista, deixando de haver, praticamente, diferença entre a verdadeira personalidade do protagonista e as máscaras que ele utiliza para sobreviver.

O EGO dilui-se.

Hari Kunzru, cujo "O Impressionista" foi considerado pelo jornal "The Observer" como "o melhor primeiro romance britânico de 2002," é detentor de uma escrita fria, implacável, de um realismo acutilante combinado com um humor tipicamente britânico, minucioso até ao extremo nos detalhes que levam a uma evocação perfeita das sensações e a uma nítida visualização de todos os ambientes descritos, o que cria um forte contraste com o título do livro.

Este autor anglo-indiano define, com olhar de lince, os choques culturais entre duas sociedades aparentemente antagónicas, mas cujo racismo exacerbado não permite que seres "híbridos" se enquadrem em qualquer uma delas e muito menos que possam adquirir prestígio social.

O simples facto de um indivíduo possuir os genes de duas etnias diferentes, com fenótipos tão díspares é, tanto na Índia como na Inglaterra da primeira metade do Séc. XX, um estigma de degradação e inferioridade moral congénita.

Através da descrição dos ambientes sociais, Kunzru foca a violência e maustratos a crianças, permitida dentro do meio familiar, o tráfico e utilização de crianças como brinquedos sexuais em bordéis especializados, a hipocrisia e frivolidade da alta sociedade no Império britânico.

Estamos perante um autor que, apesar de ser extremamente crítico, consegue abster-se da tentação de mencionar qualquer tipo de juízo de valor deixando ao leitor a tarefa de efectuar a sua própria avaliação.

O livro é valorizado pela apresentação, no final, de um glossário que explica o significado dos termos menos conhecidos da língua local largamente utilizados na Índia Britânica.

Um romance que, quer pela sua semelhança com acontecimentos que envolveram algumas das mais prestigiadas figuras públicas em Portugal nos últimos tempos, quer pela relevância a nível da compreensão da política internacional da actualidade, não conseguirá deixar ninguém indiferente.

Cláudia de Sousa Dias

"Salomé" de Oscar Wilde (Planeta deAdostini; Gradiva)



O Amor no limiar da Loucura, num vórtice passional onde se fundem as mais primitivas pulsões recalcadas no inconsciente humano

Oscar Wilde partiu de uma história bíblica para a construção de uma brilhante peça de teatro - facto que lhe valeu a proibição da publicação e exibição em Inglaterra por influência da ala protestante que proibia a representação de personagens da Bíblia - de um dramatismo pungente pela intensidade das emoções vertidas pelas personagens que intervém na trama.

A peça foi, originalmente, composta em língua francesa e interpretada em Paris pela carismática e sedutora actriz dos finais do sec. XiX e início do sec. XX - Sarah Bernhadt - e grandemente aplaudida na Cidade-Luz.

Olhando a obra do ponto de vista psicanalítico podemos, talvez, inferir que a construção do perfil psicológico das personagens reflecte a controversa sexualidade do autor, isto é, uma homossexualidade camuflada e uma misoginia mais do que evidente.

A corroborar o facto, podemos observar que todas as características do ideal de beleza física de Wilde estão presentes na figura de João Baptista que é, para o autor, o (seu) verdadeiro objecto de desejo enquanto que este (Wilde) se projecta na figura de Salomé, possuidora da aparência física que ele gostaria de exibir.

A faceta misógina do autor incarna uma mulher de beleza fatal, mas diáfana, a qual ele identifica com a Lua - um símbolo que personifica a ambiguidade e simultaneamente a fronteira entre a realidade e a loucura - facto ilustrado pelos presságios patentes em vários momentos deste drama intensíssimo, quando as personagens são advertidas do perigo de sucumbir à perda da razão pela excessiva contemplação da Lua\Salomé.

Porque a Lua, tal como a Princesa Real, possui uma face oculta (ao fim e ao cabo como o próprio Wilde em relação à sua própria sexualidade camuflada sob a capa de um casamento com e dois filhos) que, em Salomé, será a ausência total de limites quanto à satisfação do seu desejo e que se opõe à sua aparência angélica e è sua capacidade de enlouquecer quem por ela se deixa enfeitiçar.

Ao longo da peça vai sendo porém, progressivamente, desvendado o ambiente propício à tragédia assinalado por presságios, pela ocorrência da morte daqueles que contemplam demasiado a figura lunar de Salomé.

João Baptista é o único que salva a alma abstendo-se de a contemplar agarrando-se firmemente à adoração do Filho do Homem para escapar à periculosidade da sedução feminina.

Mas não consegue salvar a vida.

Porque cai no erro de humilhar alguém que sente a turbulência de um primeiro amor que ele não compreende e que se propõe a condenar sem piedade. Não esqueçamos que João Baptista é apenas um humano. Não possui a perfeição espiritual de um filho directo de Deus. A Lua sedutora na figura de Salomé reage violenta e passionalmente tirando a vida ao ser amado para concretizar aquilo que não consegue realizar com ele vivo: o beijo que ele lhe negou.

"Salomé", ao contrário da maior parte da obra de Wilde - onde sobressai a mais fina ironia -, está impregnada do universo que povoa o inconsciente deste polémico autor britânico, com um complexo cocktail de pulsões, fobias, desejos ocultos, tabus sexuais e contradições que emanam do conflito entre o id, o ego e o superego do autor projectado nas personagens.

Salomé é a própria personificação do Desejo, das pulsões que são, normalmente, "castradas" pela religião, defendida com uma paixão de verdadeiro fundamentalista por João Baptista.

Uma história de amor, loucura e morte que Wilde legou para a posteridade e que obriga o leitor\espectador a reflectir acerca dos limites da paixão e da tolerância.


Cláudia de Sousa Dias

"Viagem ao Ponto de Fuga" de Fernando Campos (Difel)





Uma intercecção de saberes numa colectânea de mini-contos para todas as idades


O ponto de fuga é aquilo que, em pintura, se pode chamar de ponto de convergência e nos dá a ilusão de perspectiva.

Este é o denominador comum da obra referida no título, uma colectânea de mini-contos da autoria de Fernando Campos cujas publicações como "A Casa do Pó" e "A Sala das Perguntas" estão traduzidas em várias línguas.

Nesta lindíssima publicação que alia a pintura à escrita, o ponto de fuga tanto pode ser a barraca longe da civilização urbana para onde se evade uma família lisboeta durante as férias, como aquele ponto, algures no infinito, lá na linha do horizonte, onde duas rectas paralelas parecem encontrar-se, na fábula de Esopo reiventada pelo autor - "Aquiles e a Tartaruga".

O ponto de fuga, apesar de estar presente em todos os mini-contos aqui reunidos, só é, contudo, explicado no terceiro conto - "A Caminho de Monsaraz"- no qual o pintor\narrador explica explica concretamente como encontar o ponto de fuga ao volante do carro a caminho da povoação alentejana.

O autor, ao utilizar uma linguagem extremamente simples e recorrendo à sua extraordinária criatividade e vastíssima cultura, consegue explicar conceitos tão abstractos e complexos como a Beleza, a Justiça, a Fraternidade e a Liberdade brincando com as palavras, recorrendo ao uso de trocadilhos e das lendas populares despertando, como que por magia, o interesse do leitor médio para as coisas mais eruditas.

Alguns dos contos são relatados em formato de poema como "Luva Branca", no qual a fonte de calor é o ponto de fuga para onde converge a atenção do gato; e "Tudo é possível excepto... - poema filosófico que pretende ilustrar a perseguição da sabedoria absoluta como o ponto de fuga da história do saber.

O ponto de fuga pode ser também o sonho ao fundo da "Rua da Alegria" onde se encontra o refúgio do lar; pode ser o Paraíso, que poderá não estar invariavelmente localizado no céu bíblico, isto é, o paraíso poderia ser inclusive, o próprio Inferno, se lá residirem aqueles que amamos.

Pode ser o lugar onde se evade a alma quando abandona o corpo - "No cume da Montanha". Ou o Amor para a mente lógica dos Matemáticos - "Números".

Em "Flor de Estufa" proliferam as significações. Aqui podemos encontrar o ponto de fuga no templo de vidro, isto é a estufa no meio dos Eucaliptos ou, a nível filosófico, a Verdade para onde se inclinam as opiniões das diferentes personagens, a cor Branca como reunião de todas as cores existentes e, por último, o buraco no tecto de vidro para onde convergem os olhares de todas as plantas na ânsia de respirarem o ar livre sem o condicionamento da estufa, um cheirinho do conhecimento da realidade...

Por fim, o conto intitulado "Regressos" o ponto de fuga é a linha do horizonte no quintal de uma casa em Lisboa onde se pode observar o mergulho de Febo no Oceano, isto é, o pôr-do-sol, após uma corrida desenfreada pela Europa fora. O ponto de fuga situa-se, neste caso, onde o sol desaparece e onde está contida toda a cultura lusitana com todas as suas camadas à semelhança do que acontece em geologia.

Um livro lindíssimo, que obriga à reflexão e que tem a particularidade de desencadear ondas de choque no pensamento de quem o lê, à semelhança de uma pedrada num charco ou de um impacto de um meteoro.

A virtude deste livro está na simplicidade da linguagem e da construção frásica conjugadas com o facto de partir de raciocínios simples e concretos para chegar, gradualmente, às formas de pensamento mais complexas e abstractas.

Fernando Campos estabelece a ponte entre a literatura, a pintura e a filosofia, unindo-as através de "linhas que se interceptam e entracruzam como teias de aranha".

"Viagem ao ponto de Fuga" é um concentrado de sabedoria, e à semelhança das obras de um Jostein Gaarder, um perfume de "sophia" em estado puro.



Claudia de Sousa Dias

Wednesday, February 23, 2005

"A Rameira do Diabo" Catherine Clément (ASA)



Filosofia, crítica e provocação, em formato de romance, com os principais pensadores do séc. XX como protagonistas


A Rameira do Diabo" é o romance da deusa Razão que, por vezes, ao invés de estar ao serviço dos mais nobres ideais da Humanidade, assume o papel de prostituta ao serviço do Mal, servindo, unicamente, os interesses das classes ou potências dominantes.

Nesta obra, Catherine Clément não poupa ninguém ao analisar de forma crítica e com um acutilante cepticismo as ideias dos pensadores mais emblemáticos doséc. XX.

O cenário deste originalíssimo romance enquadra-se nos bastidores de um canal cultural francês para o qual a autora, que é também a protagonista do romance, tem de elaborar um documentário sobre o pensamento no sec. XX, sob as ordens de um produtor obcecado com o factor audiência.

Este, por vezes, tem uma enorme dificuldade em acompanhar o raciocínio deCatherine, professora catedrática de Filosofia, obrigando-a a uma série infinita de interrupções e cortes dos quais resulta o prolongamento infindável das filmagens, arriscando-se a extravasar largamente o orçamento.

O ponto de partida para este mais que polémico documentário é o porquê da ocorrência do nazismo na Europa de Kant, Rousseau e outros humanistas, como prever e evitar semelhante catástrofe no futuro.

A dada altura, a filósofa sugere, através de uma brilhante analogia, ao interpretar a obra "La Peste" de Albert Camus, que a doença de que fala o autor não é a bubónica mas o nazismo.

A propagação do fenómeno é incontrolável quando os objectivos da Razão se subvertem e esta se prostitui, como acontece com a adopção dasTeorias Raciais da História.

Este romance pode ser um despertar do desejo de entender acontecimentos fundamentais ocorridos no século passado e que, normalmente, não são muito debatidos ou analisados nas nossas aulas de História, tais como: aConferência de Yalta, o Maio de 68 ou o golpe de estado na Pérsia (actualIrão) que derrubou a monarquia e ao qual sucedeu o regime dos Ayatollahs, que perdura até aos nossos dias e o alcance das respectivas transformações anível psicológico e social.

Mas Catherine Clément não se fica por aqui. A sua crítica demolidora estende-se a Freud e à psicanálise, à generalização abusiva da explicação do comportamento sexual tendo por base o complexo de Édipo e à perspectiva redutora que encara toda e qualquer neurose como sendo de origem sexual.

A sua forma de expressão é corrosiva e implacável.O brilhantismo da autora está patente na forma como esta encontra as falhas dos diferentes paradigmas (análise dos estudos antropológicos de Lévi-Strauss) estabelecendo as conexões mais impensáveis, sem contudo se prender à necessidade de demonstrar a validade e a veracidade das hipóteses por ela propostas, segundo as regras do método científico, deixando-nos a nós a tarefa de tentarmos encontrar um novo paradigma que cubra essas mesmas lacunas.O seu papel de "advogada do Diabo" contrasta fortemente com o conformismo do outro participante do documentário que é piedosa e significativamente apelidado pela própria ex-esposa de "chibinho", isto é, de cabritinho!

O toque "picante" deste pouco ortodoxo romance centra-se, sobretudo, na dimensão humana dos filósofos do século precedente, que nós tendemos a considerar como deuses quando, na realidade, são apenas homens recheados de defeitos e virtudes.É desta forma que Lévi-Srauss, Camus, Freud, Foucault, Lacan, Althusser, Sartre e muitos outros são "dissecados" perante o grande público, expondo os seus pensamentos e motivações mais viscerais, com o objectivo de despoletar a curiosidade e desenvolver, de uma forma extremamente divertida e lúdica, a capacidade crítica dos leitores.

Um livro que pretende mostrar que a Razão, por vezes, também é corruptível.

Imprescindível para aqueles que prezam a flexibilidade, a liberdade e a criatividade do pensamento.

Para aqueles que ambicionam ser águias em vez de ovelhas ou cabritinhos!

Cláudia de Sousa Dias

" A Torre dos Anjos" de Michel Peyramaure (Bizâncio)


O segundo exílio na Babilónia aquando da guerra dos cem anos

Michel Peyramaure é autor de uma vasta obra ficcional, contando já com mais de 50 títulos publicados em França, tendo também sido galardoado com o Prémio Alexandre Dumas pelo conjunto da sua obra.

A acção de " A Torre dos Anjos" desenrola-se durante o fatídico sec. XIV em Avignon, a cidade provençal que foi, durante período de1309-1376, sede da Igreja Católica.

A trama inicia-se com a tentativa de rapto do Papa por Filipe, o Belo, Rei de França que acabará por obrigar aCúria a exilar-se em França, sendo-lhe desta forma, mais fácil, manobrar a eleição de um Sumo Pontífice, da sua preferência - Clemente V - e, a partir daí, manobrar as peças que compõem o complicado jogo de xadrez político que é a Europa.

Durante os 68 anos de exílio da corte papal - o chamado "segundo exílio da Babilónia" (pela analogia com o exílio do povo judeu na cidade mesopotâmica de Nabucodonosor narrado no Antigo Testamento) - em Avignon, o Trono de Pedro foi ocupado por sete papas que assistiram aos horrores intermináveis da Guerrados Cem Anos (conflito que esgotou a França e a Inglaterra desencadeando a fome pelo abandono das terras e pela devastação efectuada pelas pilhagens das Companhias de mercenários) e ao flagelo da Peste Negra que dizimou cerca de um terço da população provençal da época, chegando mesmo a vitimar cerca de dois terços em algumas regiões da Europa.

A descrição do trajecto da "Dama Negra" desde a China até à parte mai socidental da Europa é, pelo autor, brilhantemente descrita, de uma forma sinistramente bela, tal como mostra a personificação com a qual apelidou a referida catástrofe, numa progressão que se assemelha à vaga de um maremoto e que tem o poder de desencadear, nos leitores, aquele arrepio na espinha semelhante à atracção que nos impele a olhar para o abismo - o fascínio mórbido da humanidade pelo horror.

"A Torre dos Anjos" é um romance histórico de elevada riqueza de pormenores de imagem e rigor histórico que nos transporta para a época medieval colocando-nos em contacto com o mundo intelectual e artístico de então, através da personagem fictícia Júlio Grimaldi - o narrador - , funcionário laico do aparelho administrativo da corte pontifícia, que se encarrega defazer a ponte entre a realidade factual e a criação do autor. É, através deste personagem, que tomamos contacto com a intimidade do grande poeta Petrarca e da sua musa, Laura de Sade, com os pintores Mateo Giacometti e Giotto, seus vícios e virtudes.

Michel Peyramaure possui a habilidade de ensinar história aos seus leitores, possibilitando-nos compreender as raízes que estão na base da construção da Europa actual, as rivalidades e as alianças seculares entre os diferentes estados que a compõem, cativando-nos através da sua prosa de elevada precisão evocativa, mas acessível, carnal, de uma ambiente faustoso e prolífico em maquiavélicos escândalos políticos e sexuais.

Até ao dia em que o jogo das forças políticas se inverte na Europa e Avignon se vê, de repente, despojada do seu brilho e prosperidade mediante o regresso da corte papal ao Vaticano.

Restam as lembranças evocadas por Júlio Grimaldi, agora guardião da "Torredos Anjos" - na qual se encerravam os aposentos do Santo Padre, a sua biblioteca e a chancelaria - e onde somente os fantasmas habitam, nomeadamenteas misteriosas "aparições" da Anã Vermelha que vagueia pela Torre e cuja identidade Grimaldi se esforçará por descobrir.

É esta a missão dos últimos dias da sua vida, num palácio agora deserto, vulnerável à pilhagem dos bandos a que assiste, impotente, tal como os restantes cidadãos avinhoenses "testemunhas de uma festa acabada".

Uma lição de história a não perder, nesta publicação da Bizâncio, acerca dos factos que originaram a tão polémica "Cisma do Ocidente".

Cláudia de Sousa Dias

"Musk"de Percy Kemp (Bizâncio)



A sedução animal do olfacto num frasco de perfume em vias de extinção

"Musk" é a divertida história do agente secreto Armand Eme cujo hobby preferido é... a sedução.

Um homem meticuloso até ao extremo - sobretudo no que respeita ao cuidado da sua toilette -, alguém cuja personalidade marcadamente narcisista, que vive apenas para si próprio e para quem a vaidade é tudo o que lhe resta uma vez que, na sua vida, não há mais ninguém suficientemente importante aquem dedicar a atenção nos tempos de ócio...

O que explica que esta personagem se sinta completamente desorientada ao ver-se privada da sua principal arma de sedução: o perfume "Musk".

Este aroma, devido à imposição da nova gerência da empresa que o produz, é retirado do mercado, sendo substituído por uma nova fórmula, com o objectivode satisfazer os novos objectivos de produção. O que obriga a que o musk, produzido pelas glândulas sexuais de uma espécie de antílope em vias de extinção, deixe de ser comercializado. Em seu lugar, é colocado um produto de odor semelhante mas de origem sintética. A protecção da espécie e as exigências do mercado obligent.

E o senhor Eme encontra-se despojado, espoliado do seu mais eficaz afrodisíaco. Que lhe é tanto mais necessário quanto maior o inexorável avanço da idade que o vai, lentamente, privando dos seus encantos naturais. Conservados pela ilusão mágica do perfume - efeito placebo.

Consequentemente, a história gira em torno das mais extravagantes estratégias eleboradas pelo protagonista para conseguir arrecadar a maior quantidade de perfume possível de tão erógeno aroma. Para prolongar um pouco mais a vida, a juventude e a capacidade de suscitar desejo no sexo oposto.

A história de "Musk" ilustra um pouco aquilo que acontece com as grandes marcas de alta perfumaria. Até há algumas décadas atrás, estas dedicavam-se a elaborar fórmulas de luxo destinadas ao consumo de uma élite. Hoje em dia, o mercado da alta perfumaria estende-se às massas. É, pois, necessário produzir em grandes quantidades e com o mínimo de custos. O que obriga à substituição de alguns ingredientes extremamente caros ou de difícil obtenção - como é o caso do âmbar cinzento, há algum tempo atrás mencionado no telejornal, proveniente das baleias-cachalote (presente em perfumes como "Amarige" de Givenchy e "Chanel nº19"), agora substituído porum ingrediente de odor semelhante proveniente das agulhas de pinheiro; ou do célebre fixador do perfume "Joy", de Jean Patou, cujo extracto implica o sacrifício de inúmeros exemplares de uma rara espécie de esporpião, e que obrigou a retirar o perfume do circuito comercial português, encontrando-se à venda apenas num número bastante restrito de países entre os quais a Françae os E.U.A.

A escolha do tema, por parte do autor, teve como inspiração a substituição dos ingredientes da sua marca de chocolates preferida, juntamente com uma pequena alteração do respectivo invólucro. Esta situação levou-o a estabelecer um paralelismo com o mundo da perfumaria, construindo uma personagem que faz lembrar um pouco a obsessão de Jean-Baptiste Grenouille, o vilão de "o Perfume" de Patrick Süskind.

Um conto para desfutar durante o fim-de-semana do bom humor ao estilo britânico de Percy Kemp.

Cláudia de Sousa Dias

"O deus das pequenas coisas" Arundhati Roy (ASA)



A poesia em forma de romance numa das mais belas obras literárias do século XX

"O deus das Pequenas Coisas" é um romance passado na Índia, estado de Kerala, nos anos 60/70 do século XX, onde vamos encontrar uma população que incorporou os hábitos dos colonizadores europeus (a música, a religião, a forma de vestir, o cinema...).

Ao mesmo tempo, conserva ainda a maior parte das suas tradições, hábitos e, inclusive, alguns dos seus tabus ancestrais, tais como: a marginalização dos intocáveis (aqueles que no sistema de castas - estratos sociais - hindu desempenham as tarefas mais abjectas) tendo, por isso, de manter-se à margem dos "tocáveis" para não "contaminá-los".

O marxismo e o cristianismo são as novidades vindas da Europa que ameaçam derrubar esta grande barreira social. Pelo menos teoricamente.

O livro desta autora indiana, em muitos aspectos autobiográfico é, antes de mais, uma história de amor tão pungente como a de "Romeu e Julieta" ou "Abelardo e Heloísa". E das diferentes formas de manifestar o amor numa sociedade onde as barreiras são tantas que as coisas mais importantes ficam sempre por dizer. Onde só as pequenas coisas são mencionadas, num ambiente social onde há que obedecer a normas rigorosas acerca de quem deve ser amado. E quanto. E como.

"O deus das pequenas coisas" é uma paleta de amores proibidos: dois gémeos que se amam com uma intensidade que ultrapassa os laços de sangue, a avó cuja história de amor tem as cicatrizes da violência, a tia-avó que esconde a paixão pelo Reverendo Mullingham sob uma capa de austeridade e repressão, o tio que não ultrapassa o desamor pela sua musa britânica...

E no centro desta teia de amores amaldiçoados está a mãe dos gémeos e seu amor por Velutha, o líder sindicalista intocável - uma dupla ameaça para esta família, dona da fábrica Pickles Paraíso.

A duplamente estigmatizada Ammu, mãe dos gémeos - quer pelo divórcio quer pela entrega a uma paixão, que ameaça pôr em causa a imagem da família perante a sociedade -, aliada a um acidente que vitima a prima idolatrada quando esta se encontra na companhia dos dois irmãos, trará fortes convulsões que vão abalar a infância destas duas crianças.

As repetições e as frases de uma só palavra aumentam consideravelmente a intensidade do texto. Os adjectivos utilizados são enriquecidos porque incorporados em ousadíssimas sinestesias, metáforas e personificações - "O bambu amarelo chorou" ou " Os cotovelos da noite, repousando na água observavam" -, ao mesmo tempo que somos bombardeados com presságios que nos fazem adivinhar o que se vai passar a seguir. Em vários momentos do texto, o sentimento crescente de angústia, no leitor, torna-se quase que insuportável.

As Pequenas Coisas são descritas até ao mais ínfimo pormenor, como que para prolongar ao máximo a durabilidade daqueles momentos preciosos, porque proibidos, obrigando as personagens a agarrarem-se às pequenas coisas, porque tudo pode mudar um dia.

As Grandes coisas têm de ficar latentes para aqueles que sabem nada possuir. Para aqueles que não têm futuro.

Porque são as pequenas coisas que os ligam ao Amor, à Loucura, à Esperança, à Infinita Alegria.

Um livro recomendado para as pessoas que sabem que amar sem limites tem um preço que as pessoas vulgares não estão dispostas a assumir.


Cláudia de Sousa Dias

"O Grande Senhor" de Louis Gardel (Bizâncio)



O amor obsessivo pelo Poder, a secundarização do amor na suas diversas facetas

Neste romance, uma sequela de "A Aurora dos Bem-Amados", Louis Gardel analisa, num texto de grande densidade psicológica, a evolução do reinado deSolimão, o magnífico, rei supremo do Império Otomano.

O livro explora a dimensão psicológica do conturbadíssimo reinado deste monarca, explicando as motivações mais profundas que o levam a condenar à morte, o filho mais velho, Mustafá, em cuja popularidade vê, simultaneamente, uma ameaça e uma afronta ao seu poder absoluto.

Mais tarde assiste, impotente, ao afundar de Cihangir, o seu filho favorito, no abismo da depressão. A perda de Cihangir, deficiente físico e, por isso, incapaz de se tornar um rival, é um duro golpe para este imperador despótico, consciente de que este foi, talvez, o único ser humano que o amou de forma incondicional.

Por outro lado, a sua relação com a Imperatriz Russiana, ou Hurrem, a Feliz, sofre também uma série de turbulências dado o carácter manipulador e o apurado instinto de sobrevivência desta soberana que tenta, pelos meios mais tortuosos, fazer com que o Sultão abdique, nomeando o seu filho Bajazeto como seu sucessor.

A Imperatriz, apesar de destituída da sua beleza e do seu temperamento dominador, consegue, já no outono da sua existência, recuperar o amor do sultão para morrer pouco tempo depois. O que não impede entretanto de usar essa proximidade para fazer valer os seus interesses.

Mas esta é uma morte que, tal como a de Cihangir, não deixa Solimão indiferente, pois trata-se dasua grande paixão da juventude.

Frustradas as tentativas de Russiana para fazer Bajazeto ascender ao Sultanato, devido às armadilhas políticas engendradas pelo seu corrupto e maquiavélicoirmão Selim, o Bêbado, Solimão, vê o seu filho mais velho ser estrangulado por ordem de Selim juntamente com os seus cinco netos, filhos de Bajazeto.

Minado pela doença, Solimão consegue ainda, como prémio de consolação ,consolidar o seu domínio na região dos balcãs até à Hungria - situação geopolítica que gera o embrião que eclodrá, muito tempo depois, já no sec. XX, em alguns dos mais graves e intrincados conflitos ocorridos na Europa com repercussões a nível mundial (a 1ª Grande Guerra de 1914/18 e a Guerra dos Balcãs já na última década do século passado).

Próximo do fim , com as articulações paralisadas pela ancilose, perdido no deserto da solidão do Poder Absoluto, o monarca reencontra em Efraim, o pequeno judeu corcunda, cujas mãos o aliviam das dores atrozes que atormentam os últimos dias da sua existência, a sua derradeira fonte de afecto.

Na deficiência física deste assistente do seu médico pessoal, o Sultão recorda o seu malogrado filho Cihangir.

Antes do fim, consegue, ainda, acabar com o último foco de resistência cristã em Szigetvar, minando a resistência da Cidade onde se encontram os Soldados de Deus, que, tal como os soldados de Allah, não hesitam quando têm de escolher entre o paraíso e a desonra.

Expira, sem o conhecimento do seu exército, mantido na dúvida até chegar aIstambul pelo fiel Efraim (que se encarregou secretamente de embalsamar o corpopara a viagem), onde se procederão as exéquias. Morre vitorioso, às portas da Europa do Ocidente, mas afastado dos descendentes que lhe restam: Selim, o filho corrupto que despreza e Mihirimar, uma cópia patética de Russiana cuja alma alimentada pelo fanatismo religioso pretende compensar o deserto afectivo que a rodeia.

Solimão, consegue, apesar de tudo, ter por companhia nos seus últimos momentos, alguém capaz de uma dedicação sem precedentes e desinteressada.

Um drama das mil e uma noites que pretende transmitir a mensagem de que, por vezes, a felicidade está na palavra Renúncia.

Ou a paz de espírito - num ambiente onde reinam a paranóia aliada à ambição desmedida.

Um romance sublime para quem gosta de mergulhar nas raízes da História e descobrir o mundo actual.

Cláudia de Sousa Dias

"A Aurora dos Bem-Amados" de Louis Gardel (Bizâncio)





O Amor, a Amizade e o Poder num cenário das mil e uma noites.


O autor desta empolgante saga é um conhecidíssimo romancista francês que se dedica também a escrever argumentos para a indústria cinematográfica, foi vencedor do prémio da Academia Francesa em 1980 com o romance "Fort Saganne".

Desta vez, a intriga gira em torno de um agitado período da História do império otomano, envolvendo os conflitos palacianos em torno da amizade do Sultão Solimão, mais tarde cognominado de "O Magnífico", pelo seu homem de absoluta confiança, Ibrahim (um ex-escravo grego, obrigado a converter-se ao Islão na adolescência, ascendendo à posição de grão-vizir, braço direito do Sultão) e da sua paixão pela bela e cativante escrava Hurren (oferecida ao sultão por Ibraim), mais tarde convertida em Imperatriz.

A estes dois sentimentos, irá inicialmente aliar-se o Poder, que passará, depois, a dominá-los e, por fim, a submetê-los.

Gardel mostra-nos, de uma forma muito resumida e acessível, que são, na verdade, estes três ingredientes, a mola que impulsiona o curso da História, deixando entrever os meandros das intrigas do Serralho, os sangrentos conflitos relacionados com a luta pela sucessão ao trono (que inclusive, passa por cima dos laços de parentesco mais chegados e acabam por degradar toda e qualquer forma de amor ou amizade), as relações entre o Império Otomano e o Ocidente(que vão interferir com as ambições de Carlos V e com a pretensão ao domínio dos mares pela Sereníssima República de Veneza).

É desta forma que a luta pelo poder irá transformar-se numa luta pela sobrevivência, num ambiente em que o medo e a inveja acabam por dominar as consciências.

Esta psicose social é reforçada pelo sistema que permite a ascensão ao trono baseando-se não na sucessão do filho mais velho, mas na designação do membro da família considerado mais capaz o que se traduz, na prática, pela sobrevivência da "águia" mais forte, ou o "falcão"mais implacável.

O harém é outro poço de conflitos devido à rivalidade entre os clãs oriundos das "proles" das diferentes esposas do Sultão. As intrigas e mexericos sucedem-se.

Neste romance sobressai, mais do que tudo, a ideia de que, o gozo do favoritismo, quer seja concedido pelo cargo, quer pelo casamento ou concubinato, implica um estado de vulnerabilidade face a todo um conjunto de armadilhas políticas que podem culminar na morte dos, até então, hiper-privilegiados.

Uma história que, apesar de ocorrida na Turquia do séc.XVI, tem a frescura do vento da actualidade.

Cláudia de Sousa Dias.

"Cem anos de Solidão" Gabriel García Márquez (Dom Quixote)


As vicissitudes do amor ao longo de várias gerações da mesma família até ao cumprimento de uma profecia

O tema do livro é o isolamento dos habitantes da cidade de Macondo, no início do sec.XIX, devido aos condicionamentos impostos pelo relevo, facto que dificulta em extremo o contacto com o mundo exterior. O que0 leva a que Macondo sofra um atraso de vários séculos em relação ao resto do mundo nos domínios científico e tecnológico, conservando um primitivismo endémico quase medieval.

Só com a visita da tribo de ciganos de Melquíades - grupo andarilho imbuído de uma grande dose de espírito de aventura - é que chegam à cidade alguns vislumbres (muito difusos) acerca daquilo que se passa do lado de lá da serra.

Com a sua capacidade de encantar pela arte da palavra e de cativar com as suas novidades extravagantes, Melquíades e os seus, rapidamente conquistam a simpatia de toda a gente pela facilidade com que estimulam a vontade de sonhar e o imaginário dos macondenses.

A chegada dos americanos traz, por outro lado, a prosperidade e o desenvolvimento económico e tecnológico nos sectores agrícola e industrial. Afáveis mas dominadores, não se misturam muito com a população local apesar de conviverem com alguns membros das famílias indígenas mais ilustres. Até ao dia em decidem partir, após os reveses do clima, que destroem as infraestruturas económicas da região - agricultura de plantação.

As personagens masculinas da família Buendía têm todas uma acentuada tendência para o cultivo da solidão, da autocontemplação, do isolamento-ensimesmamento de cujo expoente máximo é o patriarca José Arcadio Buendía, alquimista e inventor de projectos mirabolantes e irrealizáveis; seu, filhos, Aureliano - ourives por amor à arte e guerreiro por amor a um ideal - , seu outro filho Jose Arcadio, extremamente arredio e que acaba por se afastar da família para casar com a irmã adoptiva Rebeca, bem como os restantes descendentes varões, todos mostram uma relativa dificuldade em exteriorizar os afectos ao preservarem para si a parte fundamental da sua própria alma.

Quanto às personagens femininas, encontramos dois tipos diferentes: em primeiro lugar temos aquelas que casam ou que se enamoram dos varões Buendía como Ùrsula, a matriarca - esteio da família - Fernanda del Carpio, casada com Aureliano Segundo- beata austera e preconceituosa, o oposto de Úrsula, Amaranta e Rebeca (esta adoptada) ambas irmãs de Aureliano e Jose Arcadio - ,Remédios, a Bela, - mulher angélica mas de uma beleza fatal - que vive um amor proibido ao qual se opõe Fernanda, um amor cujo fim trágico acentua ainda mais o seu lado solitário e a sua tendência para viver no mundo da Lua acabando por tornar-se um ser imaterial. Aliás a iamagem relativa à transformação desta quase que mitológica Bela, após o desaparecimento do seu amante, tem um significado polissémico que se pode desdobrar quer numa total alienação da mente quer numa forma extremamente poética de deixar o mundo dos vivos), por outro lado temos Amaranta Úrsula que vive um amor incestuoso (amor esse que é um acontecimento recorrente do sucedido com a sua antepassada a Tia-Avó Amaranta), com o último varão dos Buendía e do qual nascerá um ser aberrante, durante cuja vida se cumprirá a profecia do cigano Melquíades (após a qual serão decifrados os seus misteriosos manuscritos) e o destino do clã Buendía.

Nesta obra, o autor dota as personagens de características algo sobrenaturais, como o apaixonado de Remedios, a Bela, sempre rodeado de uma nuvem de borboletas, ou José Arcadio Buendía cuja morte despoletou um chuva de pétalas amarelas.

A amoralidade no amor, que para Márquez, está completamente alheio a esse género de condicionalismos, também está presente neste belíssimo romance não só no que respeita a ignorar um tabu fortemente implantado na nossa sociedade como é o caso do incesto, mas também pela quantidade de relações extra-conjugais, sobretudo a paixão escaldante entre Aureliano Segundo e sua amante Petra Cotes.

O realismo em "Cem anos de Solidão" está presente quando observamos o alheamento progressivo das personagens (Jose Arcadio Buendía e Aureliano) à medida que se aproxima a hora da sua morte, distanciando-se da realidade quotidiana e refugiando-se na nostalgia das histórias do passado. É com estas histórias que conseguem deleitar a imaginação das crianças - como acontece com Úrsula que se torna uma autêntica boneca, com a qual os mais novos se divertem a brincar - em contraste com a indiferença dos adultos aborvidos com os problemas do dia-a-dia.


Uma obra de grande intensidade telúrica que mostra a qualidade suprema deste autor colombiano ao qual foi atribuído o Prémio Nobel da Literatura em 1982 e do qual há sempre algo de novo a dizer.

Um livro sempre actual.


Claudia de Sousa Dias

"A Rainha do Sul" Arturo Pérez-Reverte (ASA)



A articulação do jogo de interesses na teia do mundo do crime à escala mundial numa história de amor, traição e vingança

"A Rainha do Sul" é um romance obtido a partir do resultado de um exaustivo trabalho de investigação levado a cabo pelo autor, sobre a estruturação de uma economia paralela à escala mundial.

Para poder levá-lo a cabo, teve de proceder à indagação sobre a vida de uma conhecida narcotraficante residente em Espanha, mas originária do México que operava através de uma empresa que, por sua vez, mantinha a fachada de transportadora internacional de mercadorias.

Partindo de vários testemunhos de personalidades estreitamente ligadas à denominada "Rainha do Sul", irá aperceber-se de que forma se articula o tráfico de haxixe e cocaína com as principais redes internacionais do crime organizado: ligações de Espanha a Marrocos, à Colômbia, funcionando o Sul do país de "nuestros hermanos" como entreposto para o comércio de estupefacientes com toda a Europa, em conexão com as associações criminosas italianas (a Máfia da Sicília, a Camorra de Nápoles e a N'Dranghetta da Calábria) e com o narcotráfico com a Europa de Leste.

Juntamente ao tráfico de drogas, o autor deixa, também, entrever um pouco as ligações ao "tráfico de carne humana", concretamente nos bares de alterne da já referida zona turística espanhola.

Nesta obra, temos a oportunidade de observar com minúcia o desenrolar do processo de lavagem de dinheiro, as operações de transporte de droga, chantagem e esquemas de fuga à Lei aos quais se junta, muitas vezes, um trabalho de "parceria" da parte das autoridades oficiais (polícia, tribunais, autarquias, governo) com os narcotraficantes.

O ritmo da história é contado a duas velocidades: em primeiro lugar, temos o investigador-repórter que entrevista os principais intervenientes na história em contacto com Teresa Mendoza. Aqui, a narrativa adquire um ritmo mais lento para permitir ao narrador analisar e avaliar o entrevistado e, por vezes, manifestar os seus próprios pensamentos e pontos de vista.

Por outro lado, temos a parte do romance propriamente dito que implica o lado criativo do autor, na qual, o narrador, omnisciente e não participante, facilita a reconstituição dos episódios vividos pela protagonista e das cenas que envolvem as personagens entrevistadas. A partir daqui, podemos identificar uma heroína/vilã que encarna uma versão feminina da personagem Edmond Dantés do romance "O Conde de Monte-Cristo" de Alexandre Dumas. Com a diferença de tratar-se de uma mulher-fatal dos nossos dias que, para triunfar num mundo de homens, irá assumir o papel de vingadora pela morte de um namorado assassinado em consequência de um ajuste de contas ditado pela infracção das regras do jogo. Depois de passar algum tempo na prisão, Teresa irá, tal como a personagem de Dumas, encontrar os meios para consumar a sua vingança e procurar uma posição no mundo dos negócios de transporte de estupefacientes.

Uma "Condessa de Monte-Cristo" dos finais do sec. XX, mas retratada ao estilo frio e cáustico de Reverte, que teve o cuidado de alterar os nomes das personagens e das localidades mencionadas na obra.

Um texto brilhante, pródigo na utilização da gíria e calão dos narcotraficantes e do ambiente tenso de quem vive constantemente no fio da navalha.


Cláudia de Sousa Dias

"A Senhora Sócrates"de Gerald Messadié (Quetzal)



Um romance policial com a Atenas do período da democracia de Péricles como pano de fundo.

É neste ambiente que ocorre um violento assassínio às portas da casa de Sócrates que desperta a indignação de Xantipa, a esposa do filósofo, uma mulher de origem modesta e de nível cultural reduzido, mas de brilhante espírito dedutivo e poder de argumentação. Nela, o desejo de justiça é acentuado, sobretudo, depois de conhecer o filho da vítima, uma criança desprotegida e que mobiliza o seu instinto maternal.

Inspirada por Némesis - a deusa da vingança temida pelos próprios deuses - Xantipa irá de indício em indício, perseguir a Verdade na busca dos culpados da morte de Filípides. Mas o conhecimento público da verdade incomoda. Principalmente quando compromete personagens ligadas às altas esferas do Poder. Uma história tão velha e tão actual. Sobretudo porque o móbil do crime prende-se com razões políticas, nomeadamente, com um conflito interpartidário que envolve democratas e oligarcas e ao qual está, indirecta e inconscientemente ligado, um homem fatalmente belo: Alcibíades. E que é, nada mais nada menos do que o sobrinho de Péricles, o primeiro estratega da Cidade.

Na segunda parte do livro, já depois da morte de Péricles, Xantipa, visionária e encarada pelo vulgo como uma sacerdotisa oficiosa de Némesis, prevê que a ruína de Atenas chegará pela mão de Alcibíades.

De facto, a perda da supremacia da Ática face às outras cidades do mundo grego da altura, tem, de uma forma ou de outra, não só a ver com as sucessivas traições de Alcibíades, mas também com a instabilidade política que grassa na Cidade o que a torna, devido ao seu esplendor, num alvo preferencial da cupidez dos invasores pois, segundo o próprio autor, "o mel atrai as moscas".

É pela mão de Alcibíades que, primeiro os espartanos e depois os persas, invadem a Pólis. O vaticínio de Xantipa cumpre-se e a maldição de Némesis também.

Finalmente, assiste-se ao triunfo do hedonismo, à procura desenfreada dos prazeres e ao primado do económico que se sobrepõe ao ideal como sempre acontece em épocas de crise.

Sobrevivem apenas aqueles que, não sendo necessariamente medíocres, por vezes, são mesmo detentores de um brilhante espírito crítico e de análise, mas possuidores da capacidade de camuflagem do camaleão, isto é, aqueles que têm a lucidez de permanecerem na sombra como Taqui e Demis, os eternos frequentadores da taberna de Aristides. Para estes, é necessário saber resistir à tentação da procura do protagonismo (hybris) que cabe aos deuses atraindo dessa forma a inveja (phtonos) dos deuses e dos homens medíocres.

O mesmo não aconteceu com Sócrates, Protágoras e Anaxágoras cujo pensamento ultrapassava, em larga medida, a época em que viveram, cujas opiniões jamais poderiam deixar alguém indiferente. Por isso, nunca poderiam ocupar uma posição de segundo plano. Daí que estes últimos tenham sido objecto das intrigas dos seus inimigos e forçados a acabar os seus dias no exílio.

Por outro lado, a desilusão de Sócrates face à conduta dos chefes responsáveis pelo governo da Cidade-Estado, nomeadamente de Alcibíades e da sua heteria, fê-lo mergulhar num estado depressivo e a não evitar as armadilhas que o levaram à condenação à morte. A desistência da luta pela vida por parte de Sócrates ao submeter-se à condenação à morte quando poderia, de facto, optar pela fuga e pela vida no exílio, deve-se ao facto de os seus ideais não se enquadrarem na sociedade da época e a certeza de que, fosse ele viver para onde fosse, a história repetir-se-ia.

A escrita de Gerald Messadié, autor de "L´Homme qui devient Dieu", " Histoire Générale de l'Antisémitisme" "Moise", "David", "História geral do Diabo", e "História geral de Deus", é altamente provocadora, original, seduzindo o leitor logo na primeira página ao fazer a apologia da beleza feminina imediatamente seguida da sua antítese, utilizando generosamente o tempero de um humor acutilante.

Podemos observar também o elevado nível de lucidez durante o jantar em casa de Aspásia, eminente cortesã e amante de Péricles, através de um controverso diálogo entre os convivas e Protágoras, um dos já mencionados condenados ao exílio por desrespeito aos deuses. É possível também apercebermo-nos de que, nem todas as figuras que conquistaram a imortalidade devido ao seu talento eram, necessariamente, íntegras, mas por vezes, como é o caso de Aristófanes, facilmente afectadas pela Phtonos.

Destaque para o brilhantismo do capítulo intitulado "Advertência aos viajantes", no qual o autor explica a mentalidade do povo grego da altura bem como as suas fragilidades, para além de fornecer ao leitor as pistas que o farão adivinhar o destino da cidade e da desagregação do Império.

Por último, já no epílogo, os comentários contundentes de Diógenes, o Cínico, ao deitarem por terra a Teoria das Formas de Platão, transmitem a sensação de estarmos perante o espectro, a sombra de um Sócrates rebelde, "enlouquecido", que desmascara toda uma corrente de pensamento pretensamente socrático, reescrita por alguém que utiliza o prestígio de um filósofo preterido pela sociedade para construir a sua própria reputação sem ter, na devida altura, lutado pela sua defesa.

Um livro que é uma obra prima da literatura contemporânea e que fala de um mundo desaparecido, mas que sempre ocupará um lugar preponderante na história da civilização ocidental.

Para o autor "Atenas poderia ter sido eterna. Mas os gregos eram homens."

Para que não esqueçamos que todo o império contém em si o gérmen da sua própria destruição.


Cláudia de Sousa Dias

"Como água para Chocolate" de Laura Esquível (ASA)



Um suculento best-seller que se degusta até à última página

Este é um romance construído com base num conflito entre tradição e afectos.

Estamos no México rural, no início do séc.XX. Mamã Elena, uma mulher seca, amarga, de carácter dominador, administra o seu rancho e, simultaneamente, a sua família com mão de ferro. O seu despotismo determinará que Tita, a mais jovem das suas três filhas, sacrifique a expressão e concretização dos seus afectos para cuidar da mãe durante a velhice. Ao deliberar que Pedro, o apaixonado de Tita, case com Rosaura, a filha mais velha, Mamã Elena está, nada mais nada menos, que a unir o útil ao agradável: Tita é a mais a filha mais dócil e diligente de toda a sua prole.

Pedro, por seu lado, só aceita a imposição porque é a única forma de estar próximo da mulher que ama.

A paixão reprimida de Tita por Pedro é sublimada através das artes culinárias, pois é na cozinha, ao manipular temperor e alimentos, na arte de combinar - e criar - sabores que que Tita usufrui de total liberdade para exprimir o que sente. Ao elaborar os pratos mais sofisticados, Tita projecta as suas emoções, sufocadas por uma tradição obsoleta e desumana, na comida. Emoções que, através de um processo semelhante à osmose, são por sua vez, transferidas para aqueles que se deliciam com as iguarias da protagonista. E que neles despoletam os comportamentos mais bizarros sendo, desta forma, levados a agir segundo a perspectiva e forma de sentir de Tita.

Por exemplo: a indisposição geral que se abate sobre os convidados durante o casamento de Pedro e Rosaura depois de ingerirem o bolo que Tita é obrigada a confeccionar. Um mal-estar que é confundido com uma invulgar e extremamente violenta intoxicação alimentar, a qual se manifesta num estrondoso vomitório colectivo. No entanto, trata-se apenas da forma como Tita gostaria de exteriorizar o que sente face ao atentado contra o livre arbítrio dos dois amantes.
Outro exemplo é o "incêndio" que deflagra no corpo de Gertrudis, a irmã domeio, após degustar um prato afrodisíaco de Tita - codornizes com pétalas de rosa - que a leva a fugir, montada na garupa á semelhança de Lady Godiva renascida, com um revolucionário.

Cada capítulo de Como Água para Chocolate" é iniciado com uma receita à qual está, de algum modo, associada uma forte carga emocional.

A paixão de Tita por Pedro deixa-a mesmo "como água para chocolate" (bebida mexicana preparada com água e cacau), expressão idiomática que significa: em ponto de ebulição. Mas esta bebida só se forma quando os dois ingredientes se misturam...e o amor também, ou seja quando duas almas se fundem á temperatura da água ao formar o chocolate quente. Contudo, ao fazê-lo, as duas substâncias deixam de existir para formar o novo composto...

Logo que a presença gelada de Mamã Elena deixa de exercer a sua influência na livre expressão dos afectos dos dois protagonistas, a poderosa reacção alquímica ocorrida entre eles corre o risco de provocar uma combustão espontânea, idêntica ao accionar de todos os detonadores de um arsenal de explosivos como profetiza Jonh, o médico da família...

O estilo da Autora incide sobretudo num discurso onde predomina o uso da hipérbole, do exagero e até do absurdo para melhor enfatizar o ridículo da contradição ente a moral associada aos costumes e tradições – mores – e a ética fundamental e universal, que reside no livre arbítrio, no direito inalienável de cada indivíduo efectuar as suas escolhas e, com base nelas, construir a própria vida.

Um romance, que incide num tema clássico, onde o amor é negado aos protagonistas, e onde se "cozinha" muito mais dp que receitas emocionais: um mundo imaginário onde ocorre a vulcanização de uma paixão proibida, dentro do género do realismo mágico, ao estilo de Jorge Amado ou Garcia Marquez.

Laura Esquível coloca, ainda, a interessante questão da necessidade de desafio da autoridade materna e da sobreposição e integração do papel tradicional da mulher – pois Tita é a perfeita dona de casa, com uma capacidade de trabalho fora do comum, que acumula semdificuldade o papel de esposa e amante em simultâneo, tanto pela afectividade como pela sensualidade que imprime quer nos cozinhados quer na livre exteriorização da sua sexualidade.

Um romance de "cama e na mesa" tal como ilustra a epígrafe que dá o mote para o desenvolvimento da trama:

Para a mesa e para a cama
Só uma vez se chama


Um romance que trata da passagem gradual da tirania dos costumes e da obediência à família para a ditadura dos afectos e dos sentidos...Para oferecer a alguém especial.


Cláudia de Sousa Dias

"O Sonho Masai" de Justin Cartwright (ASA)








Um romance que se lê com volúpia, humor e muito espírito crítico




Justin Cartwright nasceu na África do Sul e vive, actualmente, em Londres e é, desde o início da sua carreira literária, considerado pela crítica especializada como um dos mais interessantes escritores ingleses contemporâneos.

Em "O Sonho Masai" o autor debruça-se sobre temas que obrigam à reflexão, como por exemplo, a aculturação, dada a influência da cultura britânica nos hábitos, padrões de cultura e normas de conduta Masai, povo emblemático da nação Queniana.

Mas o que torna esta obra realmente interessante, sobretudo para os apaixonados das ciências sociais (com especial destaque para a antropologia e sociologia pela referência constante a nomes como Margaret Mead, Émile Durkheim, Marcel Mauss e Claude Lévi-Strauss) é o facto de este autor ousar estabelecer uma analogia entre os hábitos considerados "selvagens" da cultura da sociedade Masai e os da Europa da Segunda Guerra Mundial.

O conteúdo da obra oscila ao ritmo de duas histórias contadas em paralelo mas situadas em duas épocas diferentes: nos anos 90 do séc.XX, o escritor Tim Curtiz é encarregue de elaborar um argumento para um filme sobre a etnóloga judia Claude Casson que dedica a sua vida profissional ao estudo da cultura Masai nos anos 30 e que, ao regressar à Europa durante a 2ª Guerra Mundial, acaba por falecer em Auschwitz vítima da selvajaria ariana e da cegueira mental da sua própria família. Tim recolhe elementos da vida de Claude, através do testemunho de personagens suas contemporâneas e recorre, frequentemente, ao uso da analogia. Liga, desta forma, a sua vida pessoal e afectiva à da etnóloga, estabelecendo um fio condutor que une o passado ao presente.

Ao longo de todo o desenrolar da narrativa, o leitor tem a sensação de estar a assistir a um documentário da BBC. Pela alternância permanente entre cenas passadas num e noutro ambiente, o leitor mais atento é obrigado a repensar o conceito de "selvagem" pela comparação de comportamentos individuais e colectivos inerentes às duas culturas.

As descrições são pormenorizadas, detalhistas e dotadas de um realismo brutal, assemelhando-se, por vezes, às de Patrick Süskind em "O Perfume" (como a descrição do ambiente infecto de uma sala de cinema, no 1º capítulo).

Um livro humanista e demolidor no que toca à destruição de estereótipos e preconceitos. Suculento para quem é dono de uma mente aberta que permite olhar para as civilizações tendo em conta o relativismo cultural. Ideal para quem gosta de pensar.

Cláudia de Sousa Dias

"Uma deusa na Bruma" de João Aguiar (ASA)





Um romance histórico passado em terras do Litoral Norte português, numa escrita acessível e cativante para todas as idades

Este é um livro que fala de um romance em terras da Póvoa de Varzim, mais concretamente, na Cividade de Terroso, fazendo-nos recuar na Máquina do Tempo até ao séc.II A. C.

Trata-se de um romance histórico cuja acção abrange a zona sul da antiga Calécia (entre Douro-e-Minho), no qual encontramos referência a personagens históricas como Viriato e Décimo Júnio Bruto.

João Aguiar mostra-nos a possibilidade de observarmos o quotidiano dos habitantes de Tarróbriga (Terroso), suas relações comerciais, sistema de estratificação social, o papel das mulheres na sociedade da época, os conflitos e rivalidades com as povoações vizinhas e, sobretudo, a sua religião e respectivos rituais num estilo fluido e absorvente.

Uma obra que, para além de possuir o encantamento e a magia dos romances celtas de Marion Zimmer Bradley, permite-nos visualizar de que forma a cultura dos povos pré-romanos da Península Ibérica irá colidir com a chegada das Legiões de Bruto.

João Aguiar exibe aos seus leitores o legado deixado por estas duas culturas para a posteridade, cujo contributo é igualmente válido e determinante: "...pela parte que me toca, o meu interesse afectivo reparte-se, igualmente, pelos dois mundos que, há mais de dois mil anos, se defrontaram em toda a Península Ibérica. Precisámos de ambos e de muitos outros, para sermos o que somos".

A não perder. Para ir de férias numa viagem no tempo.


Cláudia de Sousa Dias

"Mariana" de Manuela Monteiro (Quasi)



"Mariana" é uma adorável colectânea de contos da escritora famalicense Manuela Monteiro, ex-professora de português, que agora se dedica inteiramente à escrita.

"Mariana" inclui quatro pequenos contos que relatam, numa linguagem poética e cheia de ternura, vários momentos da vida e à qual a autora apelida de "o meu livro de afectos".

Ao percorrermos as páginas do conto inicial que dá nome ao livro, deparamo-nos com o cenário idílico do ambiente académico de Coimbra nos anos 50 que ilustra a turbulência interior do universo afectivo de uma jovem estudante de letras do qual se destacam: a expressão do direito à diferença e a ânsia de liberdade de escolha, um traço de personalidade em comum com o carácter insubmisso da autora.

" Mariana" é uma lindíssima narrativa que permite ao leitor reviver a intensidade de um primeiro amor ao qual se mistura o romantismo dos ideais da Revolução Francesa - Liberté, Egalité, Fraternité.

O nome Mariana também não é escolhido por acaso. No texto transparece a ideia de ter sido precisamente inspirado em "Marianne" o símbolo da República Francesa, pela preferência da protagonista face a autores desta mesma nacionalidade. Este conto é detentor, para além de uma forte riqueza emocional, de uma aura de secretismo, sobretudo quando se refere ao grupo que se reune "à mesa do canto esquerdo do bar da faculdade", na qual, muitas vezes a linguagem cifrada dos seus membros faz lembrar um pouco a atmosfera do romance "De amor e de sombra" de Isabel Allende. devido `ss actividade dos membros do referido grupo que actuam clandestinamente enquanto conspiram contra o regime.

Um pormenor de beleza extraordinária é a introdução, no início de cada capítulo, de um extracto de "o Cântico dos Cânticos", o mais poético dos textos bíblicos de que a autora se serve para ilustrar a intensidade telúrica do amor entre Mariana e Miguel, marcado pela tragédia, o preço pago pela audácia.

Em "o Avô" a autora recupera a infância perdida expressa nas cores, sabores, perfumes e nos momentos únicos de uma idade dourada e cristalizada no tempo. Uma viagem ao Hades para recuiperar um ente querido à semelhança do mito de Orfeu e Euridice.

Em "O Menino" estamos perante um refúgio idílico que representa, mais uma vez, a idade de oiro de uma criança à volta da qual todos se empenham em criar "um paraíso" no qual ela seja protegida face às adversidades da vida evitando os desgostos que elas próprias sofreram para garantir-lhe um crescimento saudável. Daí o tecto abobadado no quarto da criança pintado com anjos para velarem pela tranquilidade do seu sono.

Por último, "A Avó" reflecte já a fase madura da vida de alguém que cuja existência foi dedicada a adquirir sabedoria e a transmiti-la às gerações vindouras. É precisamente o que faz esta avó moderna, culta, ao seu neto a quem chama de "passarinho" que corre para ela depois da aulas "com as asas abertas".

Este conto tem a particularidade de proporcionar-nos aos leitores que por ele se deixam fascinar, o reconhecimento de alguns lugares mais característicos como: a Escola Primária, a casa na qual vive a senhora com muitos gatos, as grades verdes da escola, o lago em frente à Igreja...

uma história que tem, tal como a primeira, a intenção de explicar às gerações vindouras a carga idealista da palavra liberdade, personificada, desta vez pelo símbolo da pomba com as asas abertas tal como o "passarinho" a "voar" para fora da sala de aula em direcção ao espaço aberto onde pode brincar (quase) sem restrições e perpetuar a lembrança de Marianne/ Mariana.

Para manter vivo um mito sem idade e um sonho intemporal.



Cláudia de Sousa Dias

"Siddhartha" de Herman Hesse ( Editorial Notícias)



A vida do fundador do Budismo num texto de uma beleza sublime onde se evidenciam os valores mais universais

Estamos perante uma das mais belas obras deste autor germânico nascido em Wuttenberg em 1877 e laureado com o Prémio Nobel em 1946. "Um poema indiano" que exprime uma rara capacidade de descrever a beleza e, simultaneamente, de extraí-la de cada átomo do Universo.

É desta forma que descreve a trajectória de vida de Siddhartha, filho de um brâmane ( sacerdote e intelectual Hindú) que opta por abandonar o conforto da vida palaciana e a segurança de uma existência privilegiada, garantida pelo nascimento, para explorar o mundo que o rodeia, com o objectivo de saciar a sua infinita sede de aprender.

Submete-se, numa primeira fase, às privações características de um estilo de vida ascético, depois jogará o jogo do Samsara (o mundo das sensações) ao apaixonar-se pela belíssima cortesã Kamala, tendo, para isso, de sumeter-se às regras de um mundo onde impera a opulência e a volúpia. Mas para ele, as sensações são um mero veículo de aquisição de conhecimento.


Mas a serenidade do Nirvana só é conseguida por Siddhartha quando este é tocado por aquele tipo de amor absoluto e incondicional como aquele que um pai sente por um filho e de sofrer por esse amor igualando-se aos restantes mortais - o chamado "povo das crianças". Menos frio e mais empático, o brâmane aproxima-se das pessoas, interessa-se por elas diferenciando-se delas apenas num pormenor: consciência.

Em "Siddhartha" a procura do verdadeiro "Eu" da Alma, do perfeito equilíbrio - a ambição de alcançar o Nirvana - está presente ao longo de todo o romance.

"Siddhartha" é uma história sublime cuja finalidade é a de mostrar que é através do amor pela humanidade que se encontra verdadeiro caminho para atingir a perfeição de um Buda (o ser perfeito contemporâneo de Siddharta que, segundo a tradição budista não precisa de reencarnar).

Para Siddhartha amar o Mundo é mais importante que explicá-lo. Daí defender que a liberdade nunca pode provir de uma doutrina seja ela qual for. Estas, no entender do protagonista, são apenas "palavras, sem dureza, moleza, arestas, cheiro, gosto"...Por isso não se podem amar as palavras...Mas pode amar-se as pessoas.

Deste ponto de vista, as diferenças entre civilizações, religiões, culturas ou ideologias políticas esbatem-se aproximando os homens e facilitando a coexistência no Globo.

Uma utopia talvez tão velha como a humanidade. Mas que vale sempre a pena perseguir. Que o digam Cristo e Ghandi.

Só é preciso que haja receptividade...

Cláudia de Sousa Dias

"A Casa das Areias "de Luísa Monteiro (Hugin)

O talento e o espírito crítico de uma escritora famalicense num romance que vem recuperar tradições já desaparecidas e recriar o ambiente da primeira metade do século passado


A acção de "A Casa das Areias" desenrola-se ao longo de todo o séc.XX e situa-se, sobretudo, na região de Famalicão e arredores. Este facto só é detectado pela associação de algumas das personagens a figuras da história e literatura portuguesa (como Bernardino Machado, Camilo Castelo Branco ou Adolfo Casais Monteiro) como sendo seus conterrâneos.

O conteúdo da narrativa baseia-se na saga de duas famílias religiosa e culturalmente opostas: a família de Ana, judia, culta, requintadíssima, liberal que acompanha a evolução dos tempos e das mentalidades; a família de Camilo, cristã, rude, tosca, violenta na qual se evidencia de uma forma chocante o abismo entre a detenção de riqueza e a ausência de educação e instrução sobretudo nas mulheres.

A autora serve-se desta diferença abissal para criticar acerrimamente os "brandos costumes" portugueses, sob o consentimento tácito do pároco da Igreja na figura do Pároco da aldeia que aceita a violência doméstica como algo de natural.

Ao longo da narrativa, as mulheres da família de Camilo sofrem horrores no seu quotidiano, violações dos seus direitos mais fundamentais sendo consideradas pouco mais do que animais de trabalho e reprodutoras.

Por outro lado, na família de Ana, as mulheres têm acesso à cultura, participam na gestão da casa e, no que toca à protagonista, trata-se de uma mulher que, ao longo da primeira metade do séc.XX, se encontra mais de cinco décadas à frente da mentalidade da sua época.

Este vanguardismo é-lhe facultado pelas vantagem de ser economicamente independente o que lhe garante total liberdade no que toca à sexualidade: utiliza os seus amantes por um curto período de tempo, ou seja apenas o necessário para conceber - a produção independente numa época em que não se ouvia sequer falar de inseminação artificial. Com Ana os papéis invertem-se passando o elemento masculino a assumir o papel de mero reprodutor.

A riqueza da protagonista e as obras de solidariedade que promove para a povoação bem como o facto de ser dadora de uma quantidade significativa de postos de trabalho na sua terra permite-lhe assegurar o respeito da população fazendo refrear as más-línguas.

Ana não assume o papel de uma Eva, a esposa perfeita em linguagem bíblica, mas de uma Lillith, a mulher-demónio irreverente cuja rebeldia não permite que se encaixe no modelo convencional de mulher-esposa-mãe-de-família. Todas as mulheres do ramo judeu são Lilliths em potencial mas só conseguem sê-lo em pleno quando integradas na Casa das Areias, o refúgio de Ana.

Quando saem do lar materno assumem algumas características de Eva sem nunca conseguirem assumir totalmente a personagem de qualquer dos dois arquétipos femininos. Tornam-se figuras algo híbridas tal como Teresa ou Esmeralda.

No ramo cristão, só a jovem adolescente Janete, dotada de uma extrema sensibilidade, talento e inteligência, consegue fugir à tradição. Fuga essa que só é perdoada pelo facto de esta desde cedo se revelar como uma criança de comportamentos marcadamente anti-sociais, algo esquizóide, com sérias dificuldades em distinguir a fantasia da realidade.

Somente no dealbar do séc.XXI é que se concretiza a possibilidade de uma Lilith descendente de ambas as famílias, herdeira dos traços de personalidade de Ana e da sensibilidade e talento de Janete, poderá exprimir a sua rebeldia e inconformismo mas fora do limite da Casa das Areias e da cidade onde nasceu tornando-se cidadã do mundo.

No texto, aquilo que transparece é que a intenção da autora é a de criticar a violação dos direitos da Mulher recorrendo, para isso, à comparação de dois modelos radicalmente opostos de estrutura familiar e imaginando um perfil feminino totalmente alienado da época (1ª metade do séc. XX) como Ana, a judia sedutora. Isto porque sabemos perfeitamente que a sociedade não perdoa a quem se desvia da norma, sobretudo porque no Minho rural a palavra "judeu" é frequentemente conotada de "cruel".

No último quartel do séc XX assistimos a uma lenta, gradual mas notória mudança que nos dá a entender que começa a haver um espaço para quem quer ser diferente mas, apesar disso, é ainda necessário sair da terra Natal para que o crescimento e desenvolvimento pessoal se possa efectuar em pleno.

A escrita em "A Casa das Areias" revela uma riqueza de linguagem povoada de regionalismos (ex: "eira", "Masseira","uvas americanas", "pêras D. Joaquina", etc.) evocando cheiros, sabores, a mentalidade típica da região e fazendo ressuscitar costumes e tradições já desaparecidas (ex: "as cornetadas") o que lhe confere todo um interesse antropológico que não pode deixar de ser levado em conta.

Esta é uma obra para ser lida saboreando os pormenores. Cada palavra evoca a memória de um passado não muito distante e que poderá ainda fazer parte de uma forma endémica de algumas localidades, mais remotas do país.

Uma bela sátira social cheia de ironia e, simultaneamente, uma ode à emancipação da Mulher.


Cláudia de Sousa Dias

"O Reino do Dragão de Ouro" de Isabel Allende (Difel)




A sequela de "A Cidade dos Deuses Selvagens", como segundo volume da trilogia "AS Memórias da Águia e do Jaguar" vem mitigar a sensação de algo que ficou "inacabado"quando chegamos ao último parágrafo do referido romance desta autora sul-americana.


Em "O Reino do Dragão de Ouro" conseguimos ficar a par de alguns aspectos que ficaram por concluir no volume anterior, entre os quais: a vitória relativamente à primeira fase da luta contra a doença que afectou a mãe de Alexander e o reencontro de Alexander com Nádia Santos a sua amiga de terras de Vera Cruz.

Os dois jovens são, mais uma vez, recrutados pela excêntrica avó Kate, antropóloga e jornalista da revista "International Geographic", para mais uma viagem de investigação a um dos locais mais inacessíveis do planeta: o minúsculo reino do Dragão de Ouro no coração dos Himalaias.

Desta vez, para além de se depararem novamente com a possibilidade de conviverem com uma forma de civilização totalmente diferente da sua, os dois jovens terão de suportar as dificuldades de um dos climas e relevos mais adversos do globo, sobretudo para quem está habituado a zonas mais temperadas como Alexander ou mesmo tropicais como Nádia.

O livro cativa o leitor pelo facto de oferecer, de uma forma bastante acessível, a possibilidade de comparar culturas diferentes e de observar a forma como estas podem coexistir sem que haja propriamente choque de culturas. Este surge quando, de um dos lados ou de ambos, nasce a ambição desmedida e o desrespeito pela vida humana. Nesta linha de pensamento, tomamos contacto, através do lama Tensing, com a filosofia do budismo que encarna os valores da compaixão, do respeito pela natureza, pela vida e pela paz.

Neta obra, à semelhança do volume anterior, há também espaço para a fantasia que se traduz na exploração da lenda do Vale do Yeti (O Abominável Homem das Neves) e do Dragão de Ouro, a estátua milenar da sabedoria que protege o pequeno reino escondido entre os picos da cordilheira mais alta do mundo.

Mais um romance desta autora originária do Chile destinado a um público sem idade.




Cláudia de Sousa Dias

"A Cidade dos Deuses Selvagens" de Isabel Allende (Difel)


O primeiro volume da trilogia "As Memórias da Águia e do Jaguar" - a estreia de Isabel Allende na literatura juvenil

A instabilidade do ambiente familiar em casa do jovem adolescente Alexander Cold, motivada pela doença que afecta a sua mãe, obriga a que este tenha que ficar temporariamente com a sua avó.

Mas esta não é uma avó tradicional. Excêntrica, de espírito indomável, a avó de Alex é uma consagrada antropóloga, constantemente a viajar para os mais remotos cantos do globo.

Deta vez, irá arrastar o neto até ao coração da selva amazónica com o objectivo de estudar a cultura de uma tribo quase desaparecida e descobrir a origem de uma estranha criatura semi-humana que tem o hábito de dilacerar os intrusos.

O jovem Alexander participará, juntamente com a sua avó e os restantes elementos que integram uma equipa da International Geographic, numa série de aventuras que incluem a descoberta de espécies fantásticas, o contacto com o misticismo da cultura tribal dum povo que vive na mais perfeita simbiose com o seu meio ambiente, a descoberta de novos focos de afectividade e até a possibilidade de encontrar um tratamento alternativo para a doença que desencadeou o drama familiar do protagonista.

Allende mostra-nos, de forma brilhante, como as mais básicas pulsões do inconsciente humano - as paixões e os desejos - podem desencadear o conflito que torna, muitas vezes, impossível a coexistência de duas civilizações diferentes.

Neste romance, Isabel Allende foge um pouco ao seu estilo habitual, conseguindo cativar a atenção do público adolescente aliando o verosímil ao maravilhoso, através da conjugação de temas que dominam a actualidade - como a ecologia, a cobiça, o racismo, a luta pelo poder - condimentados com a fantasia que povoa o imaginário dos mais novos conferindo a esta obra uma candura irresistível, dotada daquela magia que seduz o público de todas as idades.



Claudia de Sousa Dias

"Presságio de Fogo" de Marion Zimmer Bradley e"A Canção deTróia" de Colleen McCullough (Difel)









O rapto de Helena e a guerra de Tróia - o mesmo episódio histórico sob dois pontos de vista opostos: o dos vencedores e o dos vencidos


Estas são duas formas de descrever o cenário que deu origem à epopeia "A Ilíada" de Homero. Mas contadas de tal forma diferente, que não parece, de todo, a mesma história. Em "O Presságio de Fogo", Marion Zimmer Bradley mostra-nos o cerco da cidade de Tróia, contada por Cassandra, a princesa visionária.

Nesta obra, as heroínas são as mulheres. Helena, a beldade suprema, cujo encanto é, sobretudo para os homens, como que uma maldição; Andrómaca, a esposa exemplar; Hécuba, a rainha e mãe, que sofre com a morte dos seus filhos e a destruição da cidade; e, claro, Cassandra, a narradora omnisciente mas que, apesar de ser detentora de uma suprema inteligência e coragem, será, pela maldição do deus Apolo, condenada ao descrédito.

Uma narrativa fascinante que nos permite vislumbrar o mundo e o imaginário femininos e até a ambígua sexualidade da Mulher na Antiguidade, na qual a autora nos mostra a capacidade de amar e a coragem femininas na adversidade em detrimento da brutalidade e ambições mesquinhas dos homens, numa sociedade onde estes só se realizam e alcançam o prestígio através da guerra.

Duas únicas excepções com destaque para: o brilhantismo, a astúcia e o talento diplomático de Ulisses (destituído da ambição desmedida dos seus companheiros de armas) do lado grego; e o encanto de Eneias do lado Troiano.

Estas duas personagens têm, também, um papel preponderante em "A Canção de Tróia", embora caracterizadas de forma totalmente diferente. Aqui, a astúcia de Ulisses atinge laivos de cinismo num homem que não se detém perante limitações de ordem ética, alguém para o qual os fins justificam os meios. Eneias, por seu lado, perde grande parte da nobreza de espírito que o caracterizava na obra de Bradley, apresentando-se como um indivíduo frívolo, extrememente narcisista e afectado.

O conteúdo da narrativa de "A Canção de Tróia" de Colleen McCullough está bastante mais próxima da versão de "A Ilíada" do autor original - Homero. Esta consagrada autora australiana conta-nos a história do ponto de vista grego e masculino em oposição à versão feminista de Marion Z. Bradley.

Nesta obra, a narrativa está distribuída pelos principais intervenientes no enredo.Estes mostram-nos, cada qual, o seu próprio ponto de vista, as suas motivações e a sua personalidade.

Desta forma, é-nos dado o brilhantismo estratégico e táctico de Aquiles, a coragem de Heitor, a capacidade de amar de Pátroclo, a ambição ilimitada de Agamémnon, o peso da (i)responsabilidade de Príamo, a luxúria de Helena.. Cabe assim ao leitor juntar as peças do puzzle e tirar as suas próprias conclusões. As mulheres perdem, consequentemente, a maior parte do protagonismo passando - com excepção de Helena, que detem a narrativa de alguns capítulos da história - à categoria de figurantes.

"A Canção de Tróia" exalta, sobretudo a solidariedade (e, em alguns casos, o amor) entre companheiros de guerra e entre nações que se unem para conseguir um objectivo comum: recuperar Helena, "raptada" pelo príncipe troiano, mas sobretudo, conseguir para a federação das cidades-estado gregas a hegemonia das rotas comerciais marítimas, nomeadamente o controlo do Bósforo que dá acesso ao Mar Negro e que se encontra sob o domínio troiano.

Uma chamada de atenção para o contraste entre os motivos manifestos e os motivos latentes que dão, na maior parte das vezes, origem a uma guerra. Tal como nos dias de hoje.

Dois romances históricos que mostram o verso e o reverso do mesmo episódio histórico. Uma e outra povoadas de personagens arrebatadoras que, para além dos nomes, têm em comum a sujeição à irrevogabilidade do destino e ao capricho dos deuses e a alvorada de uma revolução religiosa, que nos obriga a reflectir onde acaba o respeito pelos deuses e começa a loucura dos homens, numa transição de uma sociedade matrilinear onde impera o poder da mulher para uma outra regida pelo arquétipo masculino.

Um mergulho num dos episódios mais sedutores da história da civilização ocidental, que é fonte de inesgotável inspiração de poetas, pintores, escultores, cineastas, encenadores... A não perder.

Cláudia de Sousa Dias

O Amante do Vulcão de Susan Sontag (Quetzal)









Um retrato de uma época conturbada, com personagens verídicas caricaturadas e uma heroína portuguesa, cujo nome se encontra, normalmente, ausente dos compêndios escolares de História de Portugal

Nápoles, 1772. A população vive ao ritmo das erupções do Vesúvio, em contacto com as ruínas que evocam o passado de Pompeia. No entanto, uma ameaça de outro género de cataclismo faz tremer os detentores do poder na cidade cuja paisagem é dominada pelo mítico habitat do deus Vulcano: a difusão dos ideais da Revolução Francesa. O receio do seu impacto nas classes mais desfavorecidas desencadeia uma onda de repressão por parte das autoridades de Nápoles.

Usando o seu acutilante e perspicaz sentido crítico, Susan Sontag faz uma caracterização bastante realista de algumas figuras históricas da época desmantelando a faceta mítica e heróica em personagens como Napoleão, Lord Nelson, Sir William Hamilton (famoso coleccionador e comerciante de obras de arte britânico) e sua mulher Emma (amante de Lord Nelson), bela, inteligente e inculta.

Em "O Amante do Vulcão" ficamos a saber qual o papel, o grau de influência do Barão Scarpia (tornado mundialmente célebre através da ópera "Tosca" de Puccini) e, curiosamente, assistimos ao emergir do reino das sombras, uma heroína portuguesa: Leonor da Fonseca Pimentel. Trata-se da única personagem do livro que não é ridicularizada pelas célebres alfinetadas de Sontag. Leonor Pimentel, poetisa, jornalista, uma mulher "...ardente, veemente," que " não compreendia o cinismo, queria que as coisas fossem melhores para mais do que uns poucos". Alguém que no sec XVIII defende a importância da educação e que mostra não haver diferença entre capacidade intelectual masculina e feminina: "...sentia-me feliz por poder esquecer que não era mais que uma mulher. Era fácil esquecer que era, em muitas das nossas reuniões, a única mulher. Queria ser pura chama."

Uma Mulher que poderia ter vivido no Sec. XXI. Uma mulher como Susan Sontag.

Segundo Enric González (Visão 7 de Agosto de 2003) "Susan Sontag não se entusiasma com o termo «intelectual» que é o que melhor a define. De qualquer modo, é autora de quatro romances, dezenas de ensaios, milhares de artigos e vários filmes. Abordou todos os problemas comtemporâneos e faz parte da Academia dos EUA. Nesse ano, recebeu o Prémio Príncipe das Astúrias de Letras pela sua «profundidade de pensamento e qualidade estética». Foi casada com um professor de Sociologia, venceu por duas vezes o cancro e viveu de perto guerras como a do Vietname, do Yom e da Bósnia vindo a falecer em Dezembro de 2004.

Trata-se uma mulher dos nossos dias que se atreveu a criticar, de forma igualmente contundente e implacável, George W. Bush e Fidel Castro. Alguém que, sendo de origem judia, declarava-se "200% laica" e que, relativamente à questão israelo-palestiniana considerava que "a tragédia consiste no facto de as duas partes estarem igualmente equivocadas."

Alguém que tem muito em comum com Leonor da Fonseca Pimentel. Uma quase esquecida heroína portuguesa.

Cláudia de Sousa Dias

A Ilha dos Jacintos Cortados de Gonzalo Torrente Ballester (Difel)





Um livro de qualidade superior, tanto na trama propriamente dita, como na prosa ilustrada com o cunho pessoal de um dos mais talentosos escritores do país de nuestros hermanos

Gonzalo Torrente Ballester é um autor cuja prolífica actividade literária se divide por vários géneros: o romance, o ensaio (decorrenteda sua actividade como docente) e crítica literária.

Trata-se de um autor de grande versatilidade temática cuja prosa foi considerada como sendo "de carácter intelectual, por vezes difícil, mas que, na verdade, consegue chegar a todo o tipo de público" tendo sido concluído em 1980, por altura do septuagésimo aniversário do autor.

Esta é uma inteligente sátira social e histórica, onde os jacintos cortados simbolizam, nada mais nada menos, que as vítimas da repressão face à liberdade de pensamento, de expressão, sexual...um romance onde se misturam realidade e fantasia, amor, erotismo e melancolia. Um erotismo que é, segundo o editor, "isento de pornografia", aliado a uma "melancolia sem sentimentalismo".

O livro fala-nos de um amor não correspondido de um genial professor de literatura, de origem espanhola, numa universidade nos Estados Unidos pela bela e inteligente Ariadne, namorada de um não menos brilhante colega seu.

Ao conhecer a lindíssima jovem de ascendência grega, o professor, imbuído do ardente temperamento latino da Europa mediterrânica, não resistirá a fantasiar e divagar inventando um amor impossível pela encantadora Ariadne. Uma característica que faz parte integrante do carácter desta personagem que, sempre que encontra uma mulher bela e intelectualmente dotada, tenta, invariavelmente, encontrar nela a mais pequena sombra de infelicidade e, simultaneamente, exagerar ao máximo os defeitos do respectivo objecto amado.

É então que decide escrever os seus cadernos durante a estadia outonal numa pequena estância de férias, isolada do resto do mundo. O romance é composto por cartas de amor de uma beleza ímpar, intercaladas com viagens a uma outra época histórica (a Revolução Francesa), usando o fogo ou os espelhos como veículo e servindo Ariadne como o fio condutor entre passado e presente, entre o mundo real e o onírico, tal como no celebérrimo episódio no labirinto de Creta que conhecemos da mitologia clássica.

O raciocínio do narrador está longe de ser linear, sendo, pelo contrário, recheado de meandros e tão vertiginoso como uma montanha russa.

Ao discurso poético do tempo presente opõe-se uma refinadíssima ironia aplicada quer às personagens históricas do passado quer às fictícias. Sobretudo quando se refere às Parcas (figuras mitológicas que decidiam o destino dos homens), guardiãs da moral e bons costumes, que se dedicam a espiar as relações ilícitas dos habitantes da Górgona ou Ilha dos Jacintos Cortados (ou castrados?) para depois denunciá-los às autoridades, numa época em que o adultério era punido com pena de morte.

A personalidade obsessiva, persuasiva e manipuladora do narrador impõe-se em ambos os planos, pois muitas das figuras que estão idealizadas no presente, surgem caricaturadas com os defeitos exagerados quando efectua a regressão a épocas passadas. É assim que o impotente e complexado namorado de Ariadne aparece projectado na figura de Ascanio Aldobrandini, autoridade máxima da Górgona (mais uma figura castradora da mitologia clássica que transformava os homens que acontemplassem em pedra...) recalcado, mal-amado, traído pela mulher e pela amante...

Da mesma forma, o amor platónico e a admiração pelas beldades cultas do presente surge transfigurado em requintado erotismo e perversão nas figuras femininas do passado...com a sua máxima expressão na requintada festa erótica que reúne algumas das mais proeminentes personagens históricas da época como Chateaubriand ou o príncipe de Metternich...

Um livro genial porque invulgar na forma escrita e na qualidade estilística da prosa e, por isso, comparável a alguns dos ícones da literatura universal doSec. XX. como Gabriel García Márquez, José Saramago ou António Lobo Antunes.

Provocador pela acutilância com que ataca tabus e falsos moralismos.

Impiedoso na destruição de estereótipos e preconceitos.

Um livro para aqueles que não se contentam com lugares comuns...

Cláudia Sousa Dias