“Doze Histórias de Mulheres” – Vários (Dom Quixote)
Doze Histórias de Mulheres é uma colectânea de pequenos contos que reúne várias autoras de nacionalidade Portuguesa e Espanhola.
Estas mini-histórias tratam, sobretudo, de explorar emoções e comportamentos humanos que são, a maior parte deles, inerentes à cultura dos Países Ibéricos.
Os dois contos iniciais chegam aos nossos olhos pela pena de Carme Riera – A Reportagem – e Esther Tusquets – As subtis Leis da Simetria – duas autoras de terras de Espanha. A primeira história é assaz suculenta, agarra imediatamente o leitor com as suas frases enigmáticas, povoadas de subentendidos, expressivos silêncios, dando origem a uma irresistível envolvente de mistério. A atmosfera criada por Carme tresanda a transgressão, implícita na forma como as personagens secundárias tentam, a todo o custo, ocultar a informação. Um conto que fala de conflito entre culturas, da agressão aos costumes locais por forasteiros, do medo da exposição e quebra de tabus. E de punição.
Tusquets, por seu lado, apresenta uma história profundamente emotiva, contada na primeira pessoa. É um texto algo caótico na forma, mas de um preciosismo extremo quando se trata de descrever as nuances que compõem cada estado de alma em particular, ao elaborar um quadro de emoções comparável apenas à forma como os grandes génios da pintura manipulam a cor. O tema central é, nada mais, nada menos, do que a lei do boomerang nas relações afectivas. Um brilhante trabalho de introspecção contado, inteiramente, numa óptica psicológica em que o leitor se sente como psicanalista que ouve o paciente no divã.
Seguem-se as seis autoras portuguesas.
Helena Marques apresenta-nos A Mulher sem Rugas. Mostra-nos uma personagem feminina, casada com o trabalho, emancipada, independente mas que não descura a sua faceta femina. A mensagem do conto é a de que o stress causado pelo trabalho acelera o processo de depreciação da beleza feminina. O silogismo poderá ser questionável, mas o texto exibe uma elevada qualidade a nível da escrita, patente quer na descrição do estado interior de uma mulher obcecada pela perda da beleza e, consequentemente, de se fazer amar, quer na exactidão com que narra a alucinante cena na estação de caminho-de-ferro.
Inês Pedrosa expõe um tema muito semelhante ao apresentado por Esther Tusquets em Como de Costume, mas numa óptica completamente diferente, o olhar do antropólogo. O narrador é um observador participante, isto é, uma personagem que faz parte da história, mas que quase não intervém no desenrolar da narrativa, para além de não entrar na mente daqueles a quem observa, limitando-se a captar apenas a componente externa das atitudes. Tal como o antropólogo que convive directamente com os elementos da cultura que está a estudar, mas sem intervir, isto é, limita-se ao registo dos factos.
Segue-se a prestigiadíssima Lídia Jorge que expõe, em À Flor do Beijo, a revoltante desigualdade de oportunidades e, simultaneamente, a facilidade com que se pode defraudar as pessoas mais ingénuas ou inexperientes, num texto que disseca, de forma extremamente verosímil, o contexto da génese da exploração do trabalho infantil, aliado a formas mais obscuras de comércio. Da dificuldade em ultrapassar uma idade de transição para a vida adulta. Uma visão sociológica da realidade. Um relato acutilante.
Luísa Costa Gomes conta-nos Uma História muito longa e imbricada, uma mini-sátira que brinca com o saudosismo tipicamente português relativo seu período imperialista, através das actividades de um grupo de pseudo guias-turísticas constituída por um endiabrado bando de rapariguinhas do liceu. Estas divertem-se distorcer os factos históricos e a inventar peripécias para iludir o tédio nos tempos livres. Uma visão psicossocial que nos é dada pelas diferentes reacções dos turistas das mais diversas nacionalidades face às patranhas históricas contadas pelas divertidíssimas “diabinhas”. A Autora constrói, inspirada no modelo da psicologia social, um caleidoscópio de estereótipos psicossociais baseado nas reacções características de cada grupo.
Seguem-se os dois melhores textos desta mini-antologia de contos. São eles da autoria de Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, as duas controversas co-autoras de As novas Cartas Portuguesas.
O Azul-Cobalto de Maria Teresa Horta é uma história arrepiante que se lê de um só fôlego. Trata-se de uma escrita obsessiva, ou mesmo, maníaco-depressiva, traço fundamental da protagonista e narradora. É a história da privação dos afectos na infância e das suas consequências nefastas para a personalidade adulta. A genialidade do conto está, não só, na escrita de MTH, mas sobretudo no encadeamento dos acontecimentos. Carência. Obsessão. Abandono. Loucura. Causa e consequência. Como se se accionasse um mecanismo. A fatalidade está presente logo na primeira frase. E ao longo do texto in crescendum até atingir o clímax no final.
A Prima Odília de Maria Velho da Costa é inspirada nos dois arquétipos do feminino presentes em O Lago dos Cisnes: Odette, a mulher-anjo, luminosa, ideal, solar; Odília, sombria, austera, real, lunar. O dia e a noite. A narração é feita, mais uma vez, na primeira pessoa por uma personagem masculina como acontece no conto de Inês Pedrosa. Mas protagonista masculino de MVC revela muito mais acerca de si próprio. O ambiente do início do sec.XX , pouco antes da Primeira Grande Guerra, é aqui, magnificamente recriado tanto ao nível do guarda-roupa, como da decoração,da própria casa, hábitos da época, preconceitos, etc.
E voltamos às autoras de nacionalidade espanhola.
Montserrat Roig descreve, em Before the Civil War uma party estilo anos setenta, num lugar onde convergem uma enorme variedade de culturas e nacionalidades. Um ambiente representativo de uma sociedade caótica semelhante a uma micro-babel, onde são focadas as dificuldades de integração e de identidade para aqueles que são o produto de várias culturas.
Ofélia Grande de Andrés conta-nos a História do Porque não me chamo Concepción como a minha Avó. A busca das raízes e a reconstituição do passado com uma nota de nostalgia e de romance. É o mais romântico de todos os contos da obra.
E, por último, duas histórias que tocam a problemática da violência, sobretudo psicológica, dirigida às mulheres versando duas camadas sociais completamente diferentes.
Ao abordar o grupo daqueles que se podem considerar como excluídos sociais, faz lembrar, por vezes, um filme de Almodóvar, a internacionalmente consagrada Rosa Montero presenteia-nos com a originalíssima e insólita História de Paulo Pumilio, o anão mal-amado. Ou se preferirem as injustiças da Justiça pelo ponto de vista de um psicopata. Ou, se preferirem, de alguém que se auto-classifica de eterno incompreendido.
A visão de Soledad Puértolas foca o mesmo problema, mas situado ao nível da classe média-alta. É a história do psicopata de sucesso. O predador infalível, tal e qual a aranha que tece a teia de forma a apanhar a sua presa desprevenida. Um ser movido por afectos distorcidos, inquinados.
Por tudo isto, Doze Histórias de Mulheres é um livro imperdível.
Um colar com doze diamantes da mais pura água na literatura Ibérica.
O poder da palavra no feminino.
Cláudia de Sousa Dias
Estas mini-histórias tratam, sobretudo, de explorar emoções e comportamentos humanos que são, a maior parte deles, inerentes à cultura dos Países Ibéricos.
Os dois contos iniciais chegam aos nossos olhos pela pena de Carme Riera – A Reportagem – e Esther Tusquets – As subtis Leis da Simetria – duas autoras de terras de Espanha. A primeira história é assaz suculenta, agarra imediatamente o leitor com as suas frases enigmáticas, povoadas de subentendidos, expressivos silêncios, dando origem a uma irresistível envolvente de mistério. A atmosfera criada por Carme tresanda a transgressão, implícita na forma como as personagens secundárias tentam, a todo o custo, ocultar a informação. Um conto que fala de conflito entre culturas, da agressão aos costumes locais por forasteiros, do medo da exposição e quebra de tabus. E de punição.
Tusquets, por seu lado, apresenta uma história profundamente emotiva, contada na primeira pessoa. É um texto algo caótico na forma, mas de um preciosismo extremo quando se trata de descrever as nuances que compõem cada estado de alma em particular, ao elaborar um quadro de emoções comparável apenas à forma como os grandes génios da pintura manipulam a cor. O tema central é, nada mais, nada menos, do que a lei do boomerang nas relações afectivas. Um brilhante trabalho de introspecção contado, inteiramente, numa óptica psicológica em que o leitor se sente como psicanalista que ouve o paciente no divã.
Seguem-se as seis autoras portuguesas.
Helena Marques apresenta-nos A Mulher sem Rugas. Mostra-nos uma personagem feminina, casada com o trabalho, emancipada, independente mas que não descura a sua faceta femina. A mensagem do conto é a de que o stress causado pelo trabalho acelera o processo de depreciação da beleza feminina. O silogismo poderá ser questionável, mas o texto exibe uma elevada qualidade a nível da escrita, patente quer na descrição do estado interior de uma mulher obcecada pela perda da beleza e, consequentemente, de se fazer amar, quer na exactidão com que narra a alucinante cena na estação de caminho-de-ferro.
Inês Pedrosa expõe um tema muito semelhante ao apresentado por Esther Tusquets em Como de Costume, mas numa óptica completamente diferente, o olhar do antropólogo. O narrador é um observador participante, isto é, uma personagem que faz parte da história, mas que quase não intervém no desenrolar da narrativa, para além de não entrar na mente daqueles a quem observa, limitando-se a captar apenas a componente externa das atitudes. Tal como o antropólogo que convive directamente com os elementos da cultura que está a estudar, mas sem intervir, isto é, limita-se ao registo dos factos.
Segue-se a prestigiadíssima Lídia Jorge que expõe, em À Flor do Beijo, a revoltante desigualdade de oportunidades e, simultaneamente, a facilidade com que se pode defraudar as pessoas mais ingénuas ou inexperientes, num texto que disseca, de forma extremamente verosímil, o contexto da génese da exploração do trabalho infantil, aliado a formas mais obscuras de comércio. Da dificuldade em ultrapassar uma idade de transição para a vida adulta. Uma visão sociológica da realidade. Um relato acutilante.
Luísa Costa Gomes conta-nos Uma História muito longa e imbricada, uma mini-sátira que brinca com o saudosismo tipicamente português relativo seu período imperialista, através das actividades de um grupo de pseudo guias-turísticas constituída por um endiabrado bando de rapariguinhas do liceu. Estas divertem-se distorcer os factos históricos e a inventar peripécias para iludir o tédio nos tempos livres. Uma visão psicossocial que nos é dada pelas diferentes reacções dos turistas das mais diversas nacionalidades face às patranhas históricas contadas pelas divertidíssimas “diabinhas”. A Autora constrói, inspirada no modelo da psicologia social, um caleidoscópio de estereótipos psicossociais baseado nas reacções características de cada grupo.
Seguem-se os dois melhores textos desta mini-antologia de contos. São eles da autoria de Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, as duas controversas co-autoras de As novas Cartas Portuguesas.
O Azul-Cobalto de Maria Teresa Horta é uma história arrepiante que se lê de um só fôlego. Trata-se de uma escrita obsessiva, ou mesmo, maníaco-depressiva, traço fundamental da protagonista e narradora. É a história da privação dos afectos na infância e das suas consequências nefastas para a personalidade adulta. A genialidade do conto está, não só, na escrita de MTH, mas sobretudo no encadeamento dos acontecimentos. Carência. Obsessão. Abandono. Loucura. Causa e consequência. Como se se accionasse um mecanismo. A fatalidade está presente logo na primeira frase. E ao longo do texto in crescendum até atingir o clímax no final.
A Prima Odília de Maria Velho da Costa é inspirada nos dois arquétipos do feminino presentes em O Lago dos Cisnes: Odette, a mulher-anjo, luminosa, ideal, solar; Odília, sombria, austera, real, lunar. O dia e a noite. A narração é feita, mais uma vez, na primeira pessoa por uma personagem masculina como acontece no conto de Inês Pedrosa. Mas protagonista masculino de MVC revela muito mais acerca de si próprio. O ambiente do início do sec.XX , pouco antes da Primeira Grande Guerra, é aqui, magnificamente recriado tanto ao nível do guarda-roupa, como da decoração,da própria casa, hábitos da época, preconceitos, etc.
E voltamos às autoras de nacionalidade espanhola.
Montserrat Roig descreve, em Before the Civil War uma party estilo anos setenta, num lugar onde convergem uma enorme variedade de culturas e nacionalidades. Um ambiente representativo de uma sociedade caótica semelhante a uma micro-babel, onde são focadas as dificuldades de integração e de identidade para aqueles que são o produto de várias culturas.
Ofélia Grande de Andrés conta-nos a História do Porque não me chamo Concepción como a minha Avó. A busca das raízes e a reconstituição do passado com uma nota de nostalgia e de romance. É o mais romântico de todos os contos da obra.
E, por último, duas histórias que tocam a problemática da violência, sobretudo psicológica, dirigida às mulheres versando duas camadas sociais completamente diferentes.
Ao abordar o grupo daqueles que se podem considerar como excluídos sociais, faz lembrar, por vezes, um filme de Almodóvar, a internacionalmente consagrada Rosa Montero presenteia-nos com a originalíssima e insólita História de Paulo Pumilio, o anão mal-amado. Ou se preferirem as injustiças da Justiça pelo ponto de vista de um psicopata. Ou, se preferirem, de alguém que se auto-classifica de eterno incompreendido.
A visão de Soledad Puértolas foca o mesmo problema, mas situado ao nível da classe média-alta. É a história do psicopata de sucesso. O predador infalível, tal e qual a aranha que tece a teia de forma a apanhar a sua presa desprevenida. Um ser movido por afectos distorcidos, inquinados.
Por tudo isto, Doze Histórias de Mulheres é um livro imperdível.
Um colar com doze diamantes da mais pura água na literatura Ibérica.
O poder da palavra no feminino.
Cláudia de Sousa Dias
