HÁ SEMPRE UM LIVRO...à nossa espera!

Blog sobre todos os livros que eu conseguir ler! Aqui, podem procurar um livro, ler a minha opinião ou, se quiserem, deixar apenas a vossa opinião sobre algum destes livros que já tenham lido. Podem, simplesmente, sugerir um livro para que eu o leia! Fico à espera das V. sugestões e comentários! Agradeço a V. estimada visita. Boas leituras!

Name: Claudia Sousa Dias
Location: Famalicão, Norte, Portugal

Bibliomaníaca e melómana. O resto terão de descobrir por vocês!

Monday, June 22, 2009

“Quase todas as Mulheres” de J.J. Armas Marcelo (Dom Quixote)

Detentor de uma vastíssima cultura literária, clássica e contemporânea, J.J. Armas Marcelo conta já com um extenso curriculum de publicações literárias, desde 1974, com El Camaleón sobre la Alfombra, que ganhou o Prémio Galdós, até Quase todas as Mulheres romance que arrebatou o Prémio Ciudad de Torrevieja, 2006. Da extensa lista de obras publicadas fazem parte, ainda, Estado de Coma y Callina (1978), Las Naves Quemadas (1982), El àrbol del Bien y del Mal (1985), Los Dioses de si mismos (1989), Madrid, Distrito Federal (1994), Cuándo éramos mejores (1997), Así en la Habana como en el Cielo (1998), El Niño de Luto y el Cocinero del Papa (2001), El Orden del Tigre (2003), assim como ensaios e biografias. Foi ainda, director do programa Los Libros, na TVE, durante quatro anos.

Quase todas as Mulheres é um romance híbrido que se desenrola a duas velocidades onde, dentro da narrativa principal, que é composta pelas estórias, devaneios e aventuras amorosas de um Casanova madrileno do século vinte, Nestor Rejón – um prestigiado ourives que se serve das qualidades eróticas das suas amantes para obter a inspiração de forma a executar belas esculturas em ouro e peças de joalharia fina –, se desenvolve a investigação levada a cabo pela namorada deste acerca da vida de Giuseppe Tommasi di Lampedusa, autor de O Leopardo.

Sobre a obra e o personagem central, Autor sintetiza a temática principal em poucas palavras:

Nestor Rejón descobre desde criança a beleza e os tesouros inabarcáveis que se escondem no corpo e na alma das mulheres. Com os anos, graças às suas esculturas em ouro, converte-se num ourives de renome internacional e, da sua tranquilidade madura, recorda todo um passado, como pesquisador de “ouro”, um metal precioso e misterioso como as mulheres que amou.”

No tempo presente da narrativa o protagonista vive um romance que parece ser a síntese das memórias eróticas de todas as estórias do passado, com a jovem anglo siciliana Sarah d’Allara.

À medida que ambos percorrem os lugares de uma tórrida beleza agreste em plena canícula siciliana fazendo lembrar algumas descrições de Fabrizio Salina no célebre romance de Lampedusa e alguns planos do filme homónimo de Visconti, pela mão de Sarah, que o conduz através dos meandros de uma investigação de contornos quase obsessivos da vida de Tommasi di Lampedusa e de O Leopardo. No entanto, nem tudo é perfeito: o ourives assiste, desconfiado e mordido pelo ciúme, ao assédio de Tony Limpito, o ex-namorado de Sarah que a persegue com o intuito de a reconquistar.

Uma das dimensões exaustivamente exploradas é a estória da cronologia erótica de Rejón, o qual, para além de exercer o ofício de ourives, trabalha como um verdadeiro mineiro no que diz respeito à pesquisa da alma feminina dentro da livre expressão individual do erotismo feminino. Esse é o “ouro” - que aqui simboliza, a felicidade, o estado de bem-aventurança ou, simplesmente, o prazer da luxúria - que tenta encontrar nas mulheres que se relaciona, sendo por quase todas as mulheres correspondido de uma forma ou de outra.

Rejón é, em todos os aspectos da vida, não só um esteta, mas um sibarita, amante do luxo, que aprecia e valoriza o belo em todos os aspectos da vida e que gosta de fruir o prazer na sua forma mais requintada -, algo que se reflecte na qualidade dos objectos com que gosta de se fazer rodear, sobretudo na decoração da casa denominada de La Cuppula, em Taormina terra que cativa pelo clima, pela paisagem soberba e pela gastronomia. Este refúgio de luxo é trata-se de um verdadeiro paraíso da arte, uma espécie de gruta de Ali-Bábá.

O artista do ouro” analisa e recorda, durante as horas de ócio, as relações que teve com as várias mulheres ao longo da vida ao longo da qual se foi dissipando a própria juventiude. No entanto executa essa mesma análise apenas do ponto de vista masculino, identificando as falhas e imperfeições apenas nas mulheres que nunca identifica totalmente com o seu ideal, exceptuando a última, Sarah d’Allara. O autor foca sobretudo o aspecto erótico e as afinidades – ou a falta delas – nas relações. Contudo existe sempre um distanciamento, patente na forma como cita repetidamente o nome completo de cada uma delas, como se só ouso do primeiro nome trouxesse uma proximidade excessiva, constituindo um peso demasiado grande na própria vida e nas emoções associadas à memória de cada uma delas, salvo em duas excepções: Eladia, a mulher que o inicia nas lides eróticas e Berta, a mãe das duas filhas.

A estória de Eladia reveste-se de um teor particularmente picante, de sabor proibido, envolvendo o pré-adolescente Nestor, que ainda nem sonhava em ser ourives, e a jovem empregada doméstica, fazendo lembrar Gonzalo Torrente Ballester e o início do romance “Filomeno, para meu pesar”. A lembrança da experiência com Eladia é como que um relâmpago um choque eléctrico que irá inspirar e despoletar os seus dotes artísticos que canaliza para o trabalho em ourivesaria. As sua primeira escultura em ouro é um sexo feminino, que lhe garante sucesso absoluto na sua primeira vernissage. Eladia é única que é tratada de forma mais intimista e, também, a única que Nestor deseja manter anónima pela omissão do sobrenome.

Berta Solán, a mulher com quem vem a casar, nunca lhe inspirou uma paixão arrebatadora mas é o relacionamento que consegue perdurar no tempo, uma mulher à qual permanece ligado, directa ou indirectamente devido às filhas que têm em comum.

A jovem Sarah d’Allara, o amor da idade madura é, simultaneamente, a imagem de Angélica do filme O Leopardo de Visconti ou seja, a projecção de um ideal de beleza rosto da mulher siciliana.

Sarah d’Allara é a investigadora da vida de Lampedusa cujo resultado Rejón relata nas suas memórias, percorrendo com a jovem o recantos da ilha por onde aquele passeava a sua solidão contemplativa e, inclusive, a pastelaria onde diariamente se sentava a escrever e a comer bolos.

É pelos olhos de d’Allara que Rejón fica a conhecer, integrando nas suas memórias, os maneirismos perfeccionistas, a tristeza crónica, os gostos pessoais, a extraordinária capacidade de observação e perspicácia em constatar e analisar a mentalidade de uma sociedade que, apesar do avanço dos séculos, nunca sai do marasmo, do imobilismo. O Autor consegue captar, de forma exaustiva e cheia de detalhes, a personalidade introvertida do escritor siciliano, ao servir-se do discurso inflamado da personagem Sarah como canal e do olhar analítico do esteta que é o protagonista, Rejón para transmitir ao leitor a deliciosa crónica de uma viagem de sonho cujo pretexto é o de conhecer in loco os lugares de perambulação diária de um dos melhores autores da língua italiana de sempre.

J.J. Armas Marcelo tinha afirmado numa entrevista concedida em 2007 na Póvoa de Varzim, durante o encontro internacional de escritores de expressão ibérica, Correntes d’Escritas, tendo sido este livro fruto de uma vontade de tecer uma merecida homenagem a um escritor como Lampedusa.

A tragédia do desamor e solidão do escrito a par de um imenso amor à escrita e à literatura cujo contributo e valor só foi reconhecido postumamente, sobretudo pelos sicilianos.


Cláudia Sousa Dias

Prémio


«O selo deste prémio foi criado a pensar nos blogs que demonstram talento, seja nas artes, nas letras, nas ciências, na poesia ou em qualquer outra área e que, com isso, enriquecem a blogosfera e a vida dos seus leitores.»
O galardão foi-me atribuído pela Teresa do com-livros e membro da direcção do Orgia Literária.
Lemniscata: curva geométrica com a forma semelhante à de um 8; lugar geométrico dos pontos tais que o produto das distâncias a dois pontos fixos é constante. Lemniscato: ornado de fitas; do grego lemniskos, do latim, lemniscu; fita que pendia das coroas de louro destinadas aos vencedores. (in Dicionário da Língua Portuguesa, Porto Editora)
de acordo com as regras atribuo o Prémio deste post aos seguintes blogues:




à Isabel Mendes Ferreira do Piano http://www.mendesferreira.blogspot.com/


à Marta, a água que dá vida ao próprio planeta que é o http://www.havidaemmarta.blogspot.com/


ao Miguel (Dante) Carvalho por http://www.adevidacomedia.wordpress.com/






e, claro, à minha querida Elipse pelas sua palavras em linha em http://www.osentidodaspalavras.blogspot.com/


Monday, June 15, 2009

“o remorso de baltazar serapião” de Valter Hugo Mãe (Quidnovi)

Com este romance que arrebatou o Prémio Saramago, Valter Hugo Mãe traça um retrato da época medieval, aproveitando para ir ao fundo da questão da violência doméstica ao usar uma sincretismo estilístico, adaptando o uso da ironia a uma parábola à violência doméstica.

As raízes de uma mentalidade falocrática que se estendem até às profundezas do subsolo dos arquétipos culturais que parecem manter-se vivos até aos dias de hoje, em que morrem cerca de dez mulheres por ano, vítimas de violência doméstica, é o tema base que se pretende explorar no romance.

O autor pretende com esta obra demonstrar que à necessidade de domínio à qual está subjacente a violência, prende-se muitas vezes com o desejo de posse aliado a um ciúme patológico que atinge, não raro, proporções que acabam por cair no domínio da paranóia, de onde advém a necessidade de submeter com o pretexto de “educar” as mulheres pelo medo.

o mundo que as mulheres imaginavam era torpe e falacioso, viam coisas e convenciam-se de estupidez por opção (…) cheias de vícios de sonhos como delírios de gente acordada como se (…) tivessem sido envenenadas por cobra má (…). Aos homens se pudesse ser dado maior ócio, alguma coisa boa ainda podia vir, como artes várias, destreza de pintura, por exemplo, mas às raparigas nada lhes dava o ócio, , mesmo para bordarem tão parecidas com estarem a fazer nada,, havia que lhes dar severas lições (…), de outro modo trocariam os pontos e os seus trabalhos seriam estropiados, sem beleza, ofensivos para a dignidade da mesa.

O mote para o desenvolvimento da narrativa prende-se com a citação de Jorge Melícias:

Há a boca pisada de pedras e o remorso
é uma parede mordida pelo eco
.

No que toca ao estilo, o texto, totalmente desprovido de maiúsculas, foi intencionalmente dotado com esta particularidade de forma a acelerar a leitura da narrativa que está imersa em toda uma retórica de inspiração medieval cujo arcaísmo exprime o pensamento das gentes simples que atribuem uma explicação sobrenatural a tudo aquilo que não conseguem explicar, inclusive algumas marcas do raciocínio intuitivo tradicionalmente atribuídas às mulheres.

A personagem feminina principal é Ermesinda, silenciada pela via do terror, que se concretiza quer em ameaças verbais quer em torturas físicas.

No contexto social Idade Média, em que se desenvolve a acção, apesar da transversalidade que a transporta para a época contemporânea, a fêmea humana é equiparada a uma vaca ou sarga, animal que é o responsável pela alcunha da família, “os sargas”, os quais tratam a vaca como se esta fosse membro da família, inclusivamente melhor do que os membros femininos do mesmo agregado, uma vez que esta dá carne e leite.

A mãe de Baltazar é, inclusive, tratada como um ser biologicamente inferior que só serve para procriar.

a minha mãe não discernia senão sobre a lida da casa. estropiada do pé, pouco capaz de ver, ficara inutilizada para as coisas dos senhores (…), uma mulher é ser de pouca fala , como se quer parideira e calada (…) ajeitada nos atributos, procriadora, cuidadosa com as crianças e calada para não estragar os filhos com os seus erros. também para não espalhar pela vizinhança a alma secreta da família, que há coisas do decoro da casa que se devem confinar aos nossos.

E, como se depreende pela leitura do parágrafo, o silêncio é o maior inimigo das mulheres.
Brunilde, a irmã de Baltazar, vai trabalhar para os senhores, de quem a família é vassala, onde é abusada sexualmente. Resolve tirar proveito da situação mas, também, não estaria em condições de se negar aos favores do seu suserano.

Brunilde exibe, no entanto, uma submissão aparente para garantir a sobrevivência, utilizando como ferramenta o próprio poder sexual. Para Baltazar inclusive este saber começava a tornar-se suspeito: a brunilde achava que dom afonso era pouco competente e eu começava a desconfiar que alguém mais se punha nela, tão sabedora começava a soar.

Baltazar escolhe para esposa uma jovem totalmente diferente de Brunilde. Ermesinda é dona de uma beleza radiosa, é protegida pelos pais e, no limiar da adolescência, casa com Baltazar mal lhe vem a primeira menstruação.

a minha mulher haveria de ser ermesinda. eu sabia quem ela era (…). era filha de um pobre homem que o meu pai conhecia a vida toda. mais nova que eu dois anos, queriam casá-la para que se tivesse em honras antes que algum malandro lhe deitasse a mão.

Já Aldegundes , o irmão mais novo, é um jovem cuja sensibilidade o prende à doçura do olhar de uma vaca, mais propriamente da sarga, responsável pela alcunha da família, sofrendo de forma atroz quando tem de se mudar – e à vaca – para alojar o casal.

Outro arquétipo feminino explorado é o da mulher que vive autónoma, mas que para tal utiliza a sexualidade à custa da qual sobrevive, mantendo um certo ascendente sobre a população masculina, graças à sua actividade: a prostituta Teresa Diaba.

a teresa diaba era quem vinha muito por mim isto é, era quem valia a Baltazar para lhe satisfazer os apetites antes de casar com Ermesinda.

parecia uma cadela no cio, farejando, aninhada pelos cantos das árvores e dos muros, à espera de ser surpreendida por macho que a tivesse. Era toda carne viva (…). abria-se como lençóis estendidos e recebia um homem com valentia sem queixa nem esmorecimento. era como gostava, total de fúria e vontade, sem parar, a ganir de prazer. (…) estropiada da cabeça, torta de braços, feia, ela só servia de mamas, pernas e buracos

A Teresa Diaba representa a atracção pelo grotesco, algo que não é preciso cuidar ou preservar. É com base nesta premissa que Baltazar estropia mais tarde Ermesinda. Para não ter de estar em cuidados quando está para fora, na esperança que ela não chame a atenção de eventuais predadores de beleza. No entanto, o ciúme patológico a raiar a esquizofrenia acaba por encontrar pretextos para justificar o prolongamento dos maus tratos, mesmo após a beleza de Ermesinda estar completamente destruída.

Baltazar tem o comportamento modelado pela forma como o pai trata a mãe ignorando, inclusive, o grave estado de saúde em que esta se encontra, com requintes de sadismo levados até às últimas consequências:

o curandeiro, eu notei, sabia que ao meu pai aproveitava muito a tortice da minha mãe. com o pé a modos de pouco andar, ela havia de estar sempre por ali e mais que a faria do meu pai, pudesse acontecer um dia, à minha mãe não lhe valeria corrida alguma.

Enquanto isso a maior preocupação da família continua a ser a vaca…

o aldegundes pedia ao curandeiro pela sarga constantemente. que fosse a vê-la (…) se nos dissesse como engordá-la, ainda que as nossas rações fossem nenhumas de tanta pobreza
De onde a vaca toma o lugar da mãe como se pode constatar na página 36.

o curandeiro farto de garantir que a minha mãe estava seca como uma pedra, impossível vir dali uma criança, bicho ou coisa. não pode vir nada, gritava (…) como arranjou estes filhos, conte-nos o senhor sarga, porque da sua mulher nem adianta pensar nisso (…)éramos filhos da sarga (…) éramos como filhos da sarga.

Baltazar desenvolve a partir do modelo de conduta do pai um bestial complexo de Othello, o ciúme paranóico, destituído de qualquer vestígio de fundamento, que é ampliado pelo sucedido com Brunilde, que o leva a intimidar e a aterrorizar a esposa com o objectivo de a dissuadir a ser-lhe infiel – um dia. Pior ainda quando dom Afonso mostra interesse na presença de Ermesinda como serviçal na casa grande.

Aldegundes, apesar de alguma animalidade e de um profundo amor espiritual e físico pela vaca - ironia de que se serve mais uma vez o Autor para caricaturar a pseudo-virilidade lusitana, apesar de amante de uma vaca, é um homem que tem a sensibilidade que lhe permite captar aquilo que a alma das pessoas tem de belo, através do talento como pintor, ao transfigurar as figuras humanas, envolvendo-as, simultaneamente, numa aura divina.

O “lado mau” da personalidade feminina está incarnado na esposa do senhor das terras a quem Baltazar presta vassalagem, dona Catarina. A maldade desta prende-se, não tanto com a questão de género, mas de classe. Dona Catarina tem um ciúme tão patológico quanto Baltazar mas não podendo dirigir o seu ódio ao marido, que a humilha possuindo as servas, volta-o contra as criadas.

Possui uma mente corrompida que a leva a cometer lenocínio aquando da visita do rei, ameaçando as criadas com castigos corporais caso algumas delas se recuse a aceder a algum pedido mais extravagante. A inveja, a cupidez e o ódio são as emoções que predominam numa mulher de carácter particularmente azedo, consciente da impunidade:

“…ouvi-o dizer da beleza de todas vós. servi-lo-eis se vos pedir, que ao rei não se recusa putice…” .

A temática das superstições medievais é, também abordada na obra, como o receio do “mau olhado”, o recurso ao ocultismo e à feitiçaria, apesar de recearem, de alguma forma, as artes mágicas.

Uma figura feminina que tem tanto de interessante como de misteriosa é a da mulher queimada, que percebe das propriedades das plantas, para efectuar mezinhas e curar doenças inflamações e dores musculares, embora não recuse também algum trabalho para afastar “males do espírito”.

“Sabe coisas de bruxa, a mulher queimada…”.

Esta mulher queimada que se depreende ter escapado aos maus tratos com a viuvez tem como função na estória criar o contraste, marcando a diferença com a charlatã, em quem os irmãos “sargas” decidem confiar. Esta última, consegue extorquir-lhes quase todo o dinheiro que possuem em troca dos segredos que envolvem um estranho ritual para afastar o mesmo tão receado mau olhado e que, ao invés, os afasta das pessoas que se convencem da sua insanidade mental ou de uma eventual possessão demoníaca, receando o contágio...

Valter Hugo Mãe serve-se da personagem da mulher queimada, na realidade uma viúva, vítima de maus tratos enquanto casada – para dar, também, realce ao estigma social a que eram votadas as mulheres solitárias que detinham alguns conhecimentos de botânica e das propriedades medicinais das plantas, como se vê pela voz do narrador na página 108.

é que às mulheres deus dá conhecimento de algo que não dá aos homens.

Já para Baltazar …a mulher queimada ligava-se ao inferno, tinha domínios desnaturais a permitirem-lhe capacidades de mais proveito que a força de mil homens.

Ao regressar da corte, juntamente com o irmão, Baltazar encontra um jovem deficiente físico o qual acaba por juntar-se a Baltazar e a Aldegundes.

A forma como Baltazar vê o corpo feminino não deixa de ser curiosa, como se admirasse a beleza de um animal que lhe é inferior:

As mulheres só são belas porque têm parecenças com os homens, como os homens são a imagem de deus. (…) se se parecessem mais com cabras do que com homens nem natureza para nós teriam precisão de nos parecer sem alcançar igualdade que para isso estamos cá nós.

Na corte, Baltazar e Aldegundes notam com estupefacção a ausência de loucos “de espírito”, isto é de doentes mentais, observando pelo contrário a presença de vários deficientes físicos.

tanta gente estropiada na terra de el-rei.

São ambos expulsos da corte por suspeita de acordo com o inimigo divino. Regressam à própria terra numa carroça onde “ajeitam os três cus”. Durante o trajecto de regresso Baltazar especula acerca de como o amor se pode tornar uma armadilha:

expliquei ao dagoberto que o amor era uma maldade dos homens, assim como um plano esperto para fazer com que as mulheres se abeirassem deles e se mantivessem ali sem outro propósito senão ficar. O amor é uma maldade dos homens porque junta as mulheres aos homens numa direcção que só a eles compete (…) a maldade dos homens é igual à voz das mulheres.

A extinção de Ermesinda que sucumbe aos maus tratos e abusos sexuais sucessivos é a alegoria ao inferno de muitas mulheres que vem todos os anos engrossar o rio negro das vítimas da loucura dos homens.

completas seriam (as mulheres) se deus as trouxesse ao mundo mudas (pag 187. ).

Após o que a violência extrema leva a consequências extremas:

afastaram-se da minha ermesinda que, imóvel, respirou menos, respirou menos, respirou menos, não respirou.

a sarga mugiu de modo lancinante.

Depois a hybris, a seguir a impotência.

E, com o cair do pano, o remorso.




Cláudia de Sousa Dias