Pages

Sunday, November 15, 2009

“Gineceu” de Cristina Nobre Soares (Papiro)


Um livro de short sories, contadas no feminino e editadas a partir da pré-publicação no blogue.
As estórias de Cristina Nobre Soares têm como protagonistas mulheres do povo, ou de origens humildes, cujo quotidiano e interesses são confinados ao espaço doméstico. De onde decorre uma certa incapacidade de conseguirem olhar de forma mais abrangente o mundo que as rodeia, isto é, fora da sua esfera de interesses mais imediatos.

Quase todas vêem no casamento (excepto, talvez a filha da protagonista da primeira estória) a porta de saída para os problemas económicos e o portal de entrada para a vida adulta, ou seja, fora da alçada dos pais ou da família de orientação. O casamento e o espaço doméstico – o gineceu – é o local para onde tentam evadir-se de um quotidiano de pobreza, tanto material quanto de espírito. Trata-se, no entanto, de uma libertação que acaba, quase sempre, por se revelar um equívoco e conduzir a uma vida de prisão, limitações e quando não mesmo a uma escravidão socialmente consentida, sobretudo quando não se possui habilitações que permitam maior flexibilidade na procura de emprego. Seguindo esta linha de raciocínio,pode-se ler este “Gineceu” como uma fotografia que caracteriza o Portugal, não só do Estado Novo, mas do século XX, já na transição para o século XXI e primeira década do novo milénio: o Portugal pequenino e mesquinho (característica que engloba ambos os géneros, embora a Autora só se refira directamente ao feminino) onde as mulheres são quase sempre as servas e nunca as senhoras (dominae).
A ideia está patente na cisão – poder-se-á mesmo dizer divórcio entre mentalidade feminina e masculina, inclusive nas gerações mais jovens, nas quais,rapazes e raparigas parecem ter sido objecto de inculcação dos mesmos estereótipos e preconceitos de gerações anteriores.

No“Gineceu” designação atribuída aos aposentos destinados exclusivamente às mulheres na Grécia Antiga) de Cristina Nobre Soares, destaca-se a criatividade e enquadramento histórico, na primeira estória, a qual recria os acontecimentos de um 25 de Abril de1974 como uma lufada de ar fresco a aliviar um apertadíssimo e sufocante espartilho de restrições a que a ausência de independência económica vota o género feminino.

Uma fracção de luz, no obscurantismo secular de uma cultura oitocentista.


Cláudia de Sousa Dias

9 comments:

  1. Vou lê-lo de certeza.
    Boa semana.


    beijinhos

    ReplyDelete
  2. obrigada, Maria.

    ;-)

    para ti também


    beijos



    csd

    ReplyDelete
  3. Tenho-o. E, facilmente faria minhas, as palavras da CSD.

    ReplyDelete
  4. muito obrigada LN e Spectrum.


    abraço.


    csd

    ReplyDelete
  5. uma constipação demolidora não me deixou ir à apresentação. Nem encontrei ainda o livro.

    Passei para te ler :)

    Beijinhos
    T.

    ReplyDelete
  6. obrigada, Teresa!

    um grande bdeijinho.


    csd

    ReplyDelete
  7. ok...fica feita a divulgação.


    csd

    ReplyDelete

Note: Only a member of this blog may post a comment.