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Sunday, April 26, 2026

"Contos da Montanha" de Miguel Torga (Coimbra Editora)

da 5ª edição, revista e aumentada, 1976] 1ª PARTE Contos da Montanha foi publicado pela primeira vez em 1941, estava a Europa mergulhada na segunda guerra mundial e Portugal no auge do período mais repressivo do regime totalitário que que se prolongou por quase metade do século XX. O livro mal saiu do prelo para ser, logo a seguir, censurado e ver condicionada e depois proibida a sua publicação em Portugali. As edições seguintes foram publicadas no Brasil, sendo a edição aqui analisada a 5ª, à data, mas só e ainda a primeira sem cortes nem censura (incluindo auto-censura): apenas em 1976, dois anos depois da Revolução de Abril de 1974ii. Há cinquenta anos, portanto. Estes Contos da Montanha são contos serranos, que vagueiam pelo distrito de Vila Real, relatando situações do dia-a-dia, passadas nas aldeias mais recônditas do distrito e onde a Natureza agreste impunha um quotidiano marcado pela pobreza e pela ligação à terra - a qual se anima de forma antropomorfizada. Na introdução à obra, o próprio autor descreve o essencial do que é, para si, a profissão de escritor, no contexto de uma ditadura como a do Estado Novo e a dificuldade implícita em trazer os seus textos à luz do dia e fazê-la chegar aos olhos dos seu leitores em tal contexto político. Nesta 5ª edição inclui-se, ainda, o prefácio à 4ª edição de 1968, anterior a esta, já no fim do reinado de Salazar, reaproveitando-o para nesta edição pós-25 de Abril : «Depois de muitos anos de desterro, regressam novamente ao território natal os heróis deste atribulado livro. Numa época em que tantos portugueses de carne e osso emigraram por fome de pão, exilaram-se eles, lusitanos de papel e tinta, por falta de liberdade. Enfarpelados num duro surrobeco de embarcadiços, lá se foram afoitadamente em demanda do Brasil, o seio sempre acolhedor das nossas aflições. E ali viveram generosamente, acarinhados, assistidos de longe pela ternura correctiva do autor. Voltam agora ao berço, roídos de saudades. E não é sem apreensão que os vejo pisar, já menos toscos de aparência, o amado chão de origem. É que muita água correu sob a ponte, desde que se ausentaram. Quatro décadas de opressão desfiguraram completamente a paisagem do país. A humana e a outra. Velhos desamparados, adultos desiludidos, jovens revoltados - num palco de desolação. Almas amarfanhadas e terras em pousio. Que alento poderá receber dum ambiente assim uma esperança de torna-viagem? Mas a pátria é um íman, mesmo quando a universalidade do homem, como neste preciso momento, sai finalmente dos tacanhos limites do planeta. Poucos resistem à sua atracção ao verem-se longe dela, seja qual for a órbita em que se movam. Até os seus filhos de ficção. Por mais fartura que tenham pelo mundo a cabo, é com o ninho onde nasceram que sonham noite e dia. É que só nele se exprimem correctamente, estão certos nos gestos, são realmente quem são. De maneira que não me atrevi a contrariar a vinda das minhas humildes criaturas, como a prudência talvez aconselhasse. Pelo contrário, favoreci-a. Pode ser que o exemplo seja seguido e o êxodo, que empobreceu a nação, comece a fazer-se em sentido inverso, e as nossas misérias e tristezas mudem de fisionomia. Portugal necessita urgentemente de ser repovoado.». S. Martinho da Anta, Natal de 1968, Miguel Torga E é porque conheço o poder dessa força gravitacional que nos puxa de volta às origens que trago aqui hoje as palavras desta introdução. A ensaísta Teresa Rita Lopesiii afirma que “divido inevitavelmente entre a terra e o mar, Torga escolhe sem hesitação a terra, a Grande Deusa Mãe, a que presta culto permanente”. Aliás, como iremos verificar pela análise conto a conto, a figura materna abnegada, que esquece de si em favor das suas crias é o arquétipo feminino que é caracterizado de forma absolutamente positiva, de acordo com a mentalidade da época, transposta para os contos pelo autor: é esta a caracterização ontológica mais valorizada da condição feminina, apresentada pelas vozes quer do narrador quer das restantes personagens. Miguel Torga é considerado um escritor da segunda fase do Modernismo Português, isto é, conotado com o movimento do Presencismo, por ser um autor-colaborador da Revista Presença, tendo-se distanciado da Revista Orpheu por divergências estéticas: não se limitando ao objectivo do ‘orfismo’ - romper com o padrão estético-literário vigente -, o presencismo visava interrogar o sentido da existência humana, muito ao estilo dos escritores existencialistas franceses. Li este livro já em 2022, quando andava ainda entre “cá” e “lá”, com um doutoramento inacabado até hoje por via dessa divisão, como se tivesse a necessidade de me clonar para estar presente, a toda a hora em dois lugares diferentes a distar vários milhares de quilómetros entre si. E a sentir o peso da divisão entre futuro e passado a puxar-me em direcções opostas. De volta ao rectângulo territorial da minha língua materna, eu, nascida no Minho, no Vale do Ave, sinto-me finalmente à vontade para comentar estes contos, escritos há tantos anos, por alguém que como eu também saiu do país, mas cuja mente e imaginário nunca deixaram a paisagem do lugar que o viu nascer, neste caso, a serra transmontana. Um mundo que era um enclave, inserido numa Europa que atravessava um período de caos e destruição e aparecia absolutamente fechado ao exterior: aparentemente protegido, mas que estiolava dado o peso da miséria física e espiritual que sobre aquele lugar de natureza agreste se abatia. O ensaio de Teresa Rita Lopes sobre a obra Torguiana em geral continua actual, sobretudo quando fala do papel da paisagem natural na sua escrita: «[S]ob a ameaça de um apocalipse sem grandeza, [onde] o bicho homem, a braços com a consciência e a nostalgia de uma Natureza perdida, tenta, na sua luta com o absurdo, lançar a âncora da sua fé, numa ideologia, numa religião qualquer. E o fanatismo, a alienação, a cegueira são, muitas vezes, o preço desse acto de fé. Torga, o incansável batalhador pela liberdade do homem perante toda e qualquer prepotência, do Estado ou da Igreja, declara-se um espírito religioso mas sem um credo em particulariv». A investigadora e ensaísta deu conta de como a paisagem que interfere na vida de homens e mulheres que habitam a terra como se navegassem no útero materno molda as condutas pessoais exigindo dos humanos uma submissão total aos seus condicionalismos: «Parece-me que é como uma paisagem que a sua obra tem hoje de ser contemplada: os montes que a compõem, os “fragões” (como diz da sua paisagem nativa de Trás-os-Montes) podem parecer todos iguais. Mas constituem, no seu conjunto, um amplo horizonte que é preciso, primeiro, ver de longe, e depois palmilhar, bem calçado, os seus declives e arestas (...) de sentidos atentos ao estremecer da vida, de pêlo ou pena, que se solte atrás de cada pedregulho, de cada tojov.» É o que me proponho fazer aqui. Mas para além deste aspecto, já notado por TRL vou sobretudo focalizar a minha lupa analítica no papel que as mulheres ocupam nas comunidades descritas pelo Autor em Contos da Montanha. Passemos então à análise dos contos propriamente dita que será feita em cinco partes e distribuída pelos links que se seguem nos comentários. Vila Nova de Famalicão, 25 de Abril de 2026

1 comment:

  1. primeira parte (Wordpress e revista Caliban)

    https://medium.com/revista-caliban/contos-da-montanha-de-miguel-torga-coimbra-1%C2%AA-parte-13121a99f00e?postPublishedType=repub

    https://hasempreumlivro.wordpress.com/2026/04/25/contos-da-montanha-de-miguel-torga-coimbra-editora/?fbclid=IwY2xjawRaJWhleHRuA2FlbQIxMQBzcnRjBmFwcF9pZBAyMjIwMzkxNzg4MjAwODkyAAEeG4l7EyPOSi22hZ0GtUEzakVTX_0dNdf7QIhn6nP_PQVXpeLlysnngiRQ5zM_aem_jAZH0sxGx-izrQvT-vgB5A

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