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Blog sobre todos os livros que eu conseguir ler! Aqui, podem procurar um livro, ler a minha opinião ou, se quiserem, deixar apenas a vossa opinião sobre algum destes livros que já tenham lido. Podem, simplesmente, sugerir um livro para que eu o leia! Fico à espera das V. sugestões e comentários! Agradeço a V. estimada visita. Boas leituras!

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Bibliomaníaca e melómana. O resto terão de descobrir por vocês!

Monday, January 28, 2013

"Adeus , minha Concubina" de Lillian Lee (ASA)




Tradução de José Luís Luna



Adeus minha concubina é o título de uma das mais belas e dramáticas peças do repertório da ópera tradicional chinesa (Nota do Editor).

Nos anos 30, os profissionais da ópera de Pequim eram treinados desde a mais tenra infância e submetidos a uma rigorosíssima disciplina, através da qual o erro era corrigido com espancamento, privação de comida, humilhações psicológicas. As condições de vida dos alunos, descritas nos primeiros capítulos do romance, são de extrema miséria, não lhes sendo dada sequer, a autonomia em relação ao próprio corpo, uma vez que são vendidos ao dono da escola pelos membros das suas próprias famílias. Lá, desenvolvem habilidades acrobáticas, arte marciais, expressão facial e modulação da voz. E também os laços de afectividade e camaradagem que se tornam mais apertados que quaisquer laços de sangue. A alfabetização dá-se, em contrapartida, só na idade adulta, com a instauração do regime maoísta, o qual faz da aprendizagem da leitura e da escrita componentes educativas obrigatórias, estendendo-as a todos os habitantes da República Popular da China.

Este foi um dos (poucos ) aspectos positivos do regime cuja a Revolução Cultural tentou eliminar todo e qualquer vestígio da China imperial e de carácter feudalista. O reverso da medalha é a perda total da autonomia devido à interferência, sem limites, do Estado na vida humana.

Lilian Lee consegue mostrar-nos, através de um belíssimo texto literário onde são intercalados alguns dos mais sublimes trechos poéticos da peça "Adeus minha Concubina", as mais revoltantes formas de violação dos Direitos Humanos mais básicos. A Autora exibe, sem qualquer pudor, a forma totalitária de difusão da propaganda ao regime maoísta que substitui e condiciona toda e qualquer forma de expressão artística, mutila a criatividade, expurgando qualquer manifestação de pensamento, do mais ínfimo vestígio de emoção para não deixar margem para um único átomo de individualismo. Trata-se da história do triunfo do Império da Censura e da Repressão. Todas as acções levadas a cabo pelos funcionários do Estado, têm como objectivo supremo a total submissão ao deus Mao, como conclui brilhantemente um dos personagens principais. Para isso recorre-se a métodos eficazes devido ao anonimato em que operam os seus especialistas, comosendo a delação. Encoraja-se também a traição, fomenta-se a inveja com vista à subjugação pelo medo e assim realizar o grande objectivo. Criar uma sociedade eficiente, produtiva e totalmente desumanizada.

Adeus minha Concubina não é apenas um livro que se serve de uma das mais belas e completas formas de expressão artística da China tradicional para ilustrar a situação política da época e os respectivos abalos sísmicos no seu tecido social e cultural ao longo do século XX e que se reflectem até aos dias de hoje. É, também, um riquíssimo texto literário, poético e trágico, que fala da história de um amor proibido, unilateral, e por isso mesmo recalcado, que não se pode exprimir livremente. Mas pode ser, igualmente, um documento de interesse histórico e sociológico que dá a conhecer uma sociedade desiludida por um quotidiano miserável e procura recorrer à arte como forma de evasão, uma válvula de escape para deixar fluir as emoções e ter acesso à vida heróica e sumptuosa dos seus interessantes personagens. O palco é, assim o local onde o sonho individual se materializa e o espaço onde cada um pode exprimir o que sente, recebendo o prémio do aplauso, que surge sempre que o público se identifica com o comportamento de uma determinado personagem. Até ao dia em que a própria ópera passar a ser censurada e o aplauso, controlado pela polícia política.

Adeus minha Concubina exibe a escrita de Lilian Lee no seu melhor, numa obra que reproduz, com um realismo quase cinematográfico, as alterações que a paisagem cultural que a China foi sofrendo ao longo do séc.XX, com o desmoronar do Império, a instauração da primeira República, a ocupação japonesa, a Guerra Civil entre nacionalistas e comunistas e a própria Revolução Cultural...

A visão dos bastidores de um palco onde todos os papéis, masculinos e femininos, são interpretados por homens, dá-nos uma perspectiva de amarga ironia exposta na clivagem entre o estatuto social dos actores e o dos personagens que interpretam, criando uma interessante analogia entre aquilo que se passa no palco e no bordel (a prostituta tem de ser, necessariamente, actriz) e a teia de relações de poder que tenta, por todos os meios, "lapidar" a Arte.

Um livro que permite compreender até que ponto os verbos "amar" e "suportar" se encontram em campos opostos.

E que, ao contrário daquilo que afirmava o pai da Revolução Cultural, enquanto o amor não tem justificação, o ódio, por sua vez, pode ter milhares de justificações diferentes.

Sublime e acutilante.


Cláudia de Sousa Dias

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Sunday, June 17, 2012

"A Rameira do Diabo" de Catherine Clément (ASA)


Tradução de Maria do Rosário Mendes

Filosofia, crítica e provocação, em formato de romance, com os principais pensadores do séc. XX como protagonistas



A Rameira do Diabo é o romance da deusa Razão que, por vezes, ao invés de estar ao serviço dos mais nobres ideais da Humanidade, assume o papel de prostituta ao serviço do Mal, servindo, unicamente, os interesses das classes ou potências dominantes.

Nesta obra, Catherine Clément não poupa ninguém ao analisar de forma crítica e com um acutilante cepticismo as ideias dos pensadores mais emblemáticos do séc. XX.

O cenário deste romance muito pouco convencional são os bastidores de um canal cultural francês para o qual a autora, que é também a protagonista do romance, tem de elaborar um documentário sobre o pensamento no sec. XX e sob as ordens de um produtor obcecado com o factor audiência.

Este, por vezes, tem uma enorme dificuldade em acompanhar o raciocínio de Catherine, professora catedrática de Filosofia, obrigando-a a uma série infinita de interrupções e cortes dos quais resulta o prolongamento infindável das filmagens, arriscando-se a extravasar largamente o orçamento.

O ponto de partida para este polémico documentário é o porquê da ocorrência do nazismo na Europa um continente que viu nascer Kant, Rousseau e outros humanistas e como antecipar os seus indícios de forma a evitar semelhante catástrofe no futuro.

A dada altura, a filósofa sugere, através de uma brilhante analogia, ao interpretar a obra La Peste de Albert Camus, que a doença de que fala o autor não é a bubónica mas o nazismo.

A propagação do fenómeno é incontrolável quando os objectivos da Razão se subvertem e esta se prostitui, como acontece com a adopção das Teorias Raciais da História.

Este romance pode ser um despertar do desejo de entender acontecimentos fundamentais, ocorridos no século passado e que, normalmente, não são muito debatidos ou analisados nas nossas aulas de História, tais como: a Conferência de Yalta, o Maio de 68 ou o golpe de estado na Pérsia (actual Irão) que derrubou a monarquia e ao qual sucedeu o regime teocrático dos Ayatollahs, que perdura até aos nossos dias e o consequente alcance das respectivas transformações a nível psicológico e social.

Mas Catherine Clément não se fica por aqui. A sua crítica demolidora estende-se a Freud e à psicanálise, à generalização abusiva da explicação do comportamento sexual tendo por base o complexo de Édipo e à perspectiva redutora que encara toda e qualquer neurose como sendo de origem sexual.

A sua forma de expressão é corrosiva e implacável. O brilhantismo da autora está patente na forma como esta encontra as falhas dos diferentes paradigmas (análise dos estudos antropológicos de Lévi-Strauss) estabelecendo as conexões mais impensáveis, sem contudo se prender à necessidade de demonstrar a validade e a veracidade das hipóteses por ela propostas, segundo as regras do método científico, deixando-nos a nós a tarefa de tentarmos encontrar um novo paradigma que cubra essas mesmas lacunas.O seu papel de "advogada do Diabo" contrasta fortemente com o conformismo do outro participante do documentário que é piedosa e significativamente apelidado pela própria ex-esposa de "chibinho", isto é, de cabritinho!

O toque "picante" deste pouco ortodoxo romance reside no foco dimensão humana dos filósofos do século precedente, que nós tendemos a considerar como deuses quando, na realidade, são apenas homens. É desta forma que Lévi-Srauss, Camus, Freud, Foucault, Lacan, Althusser, Sartre e muitos outros são "dissecados" perante o grande público, expondo os seus pensamentos e motivações mais viscerais, com o objectivo de despoletar a curiosidade e desenvolver, de uma forma extremamente divertida e lúdica, a capacidade crítica dos leitores.

Um livro que mostrar que a Razão, por vezes, também é corruptível. Imprescindível para aqueles que prezam a flexibilidade, a liberdade e a criatividade do pensamento.



Cláudia de Sousa Dias

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Thursday, September 01, 2011

"Viagem ao ponto de fuga" de Fernando Campos (Difel)


Uma colectânea de mini-contos para todas as idades onde se persegue a vida e a felicidade ao longo de uma estrada infinita...


O ponto de fuga é aquilo que, em pintura, se pode chamar de "ponto de convergência" e nos dá a ilusão de perspectiva. Este é o denominador comum das estórias contidas na obra composta por uma irresistível colectânea de mini-contos da autoria de Fernando Campos cujas publicações como A Casa do Pó e A Sala das Perguntas" estão já traduzidas em várias línguas. Nesta publicação, Fernando Campos tem o mérito de conseguir aliar a pintura à escrita, onde o ponto de fuga tanto pode ser a barraca longe da civilização urbana para onde se evade uma família lisboeta durante as férias, como o lugar, algures no infinito, para lá da linha do horizonte, onde duas rectas paralelas parecem encontrar-se, na fábula de Esopo, reiventada pelo autor - Aquiles e a Tartaruga.

O ponto de fuga, explicado com todas as letras no terceiro conto - A Caminho de Monsaraz"-, no qual o pintor\narrador explica demonstra a forma de encontrá-lo, ao volante do carro, a caminho da povoação alentejana.

O Autor, ao utilizar uma linguagem extremamente depurada, socorre-se da sua à sua extraordinária criatividade e vastíssimas referências culturais, relacionando conceitos tão abstractos e complexos como a Beleza, a Justiça, a Fraternidade e a Liberdade, brinca com as palavras, recorre ao uso de trocadilhos e lendas populares despertando, como que por magia, o interesse do leitor médio para as coisas mais eruditas.

Alguns dos contos são relatados em formato de poema como Luva Branca, no qual a fonte de calor é o ponto de fuga para onde converge a atenção do gato; e Tudo é possível excepto... - um poema filosófico sobre a perseguição da sabedoria absoluta como o ponto de fuga da história do saber.

O ponto de fuga pode situar-se, também, ao fundo da Rua da Alegria onde no refúgio do lar; pode ser o Paraíso, sem estar necessariaente localizado no céu bíblico, podendo ser até mesmo o próprio Inferno, se lá residirem aqueles que amamos.

Pode ser o lugar onde se evade a alma quando abandona o corpo - No cume da Montanha. Ou o Amor para a mente cartesiana dos Matemáticos em Números.


Em Flor de Estufa multiplicam-se as significações. Aqui podemos encontrar o ponto de fuga num templo de vidro, no meio dos Eucaliptos ou, a nível filosófico, na Verdade absoluta para onde tentam inclinar-se as opiniões das diferentes personagens. Ou a cor Branca, como reunião de todas as cores existentes... e, por último, o buraco no tecto de vidro para onde convergem os olhares de todas as plantas na ânsia de respirarem o ar livre sem o condicionamento da estufa, um cheirinho do conhecimento da realidade...

No conto intitulado Regressos o ponto de fuga é a linha do horizonte no quintal de uma casa em Lisboa onde se pode observar o mergulho de Febo no Oceano, após a corrida desenfreada pela Europa fora. O ponto de fuga situa-se, neste caso, onde o sol desaparece e está depositada a cultura lusitana, com todas as suas camadas, à semelhança do que acontece em geologia.

Um livro que tem a particularidade de desencadear ondas de choque no pensamento de quem o lê, à semelhança do impacto de um meteoro, cuja virtude está na simplicidade da linguagem e na construção frásica, partindo de de raciocínios simples e concretos para chegar, gradualmente, às formas de pensamento mais complexas e abstractas.

Fernando Campos estabelece a ponte entre a literatura, a pintura e a filosofia, unindo-as através de linhas que se interceptam e entrecruzam como teias de aranha.

Viagem ao ponto de Fuga é um concentrado de sabedoria, um perfume de "sophia" em estado puro.



Claudia de Sousa Dias

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Monday, July 18, 2011

"Salomé" de Oscar Wilde (Planeta Agostini)


Tradução de Isabel Barbudo


O Amor no limiar da Loucura, num vórtice passional onde se fundem as mais primitivas pulsões, recalcadas no inconsciente humano.

Oscar Wilde parte de uma história bíblica para a construção de uma belíssima peça de teatro, escrita originalmente em Francês. A estreia contou com a interpretação da mítica Sarah Bernhardt como protagonista.

A obra foi proibida em Inglaterra, tanto no tocante à publicação como à sua exibição em salas de espectáculos, por influência da ala protestante e conservadora no Parlamento que não permitia a representação de personagens da Bíblia.

A Salomé de Wilde obra é de de um dramatismo pungente, pela intensidade das emoções vertidas pelas personagens que intervém na trama, sendo pelo contrário, entusiasticamente aplaudida e aclamada na Cidade-Luz.

Olhando a obra do ponto de vista psicanalítico podemos, talvez, inferir que a construção do perfil psicológico das personagens nela contidas reflecte a controversa sexualidade do autor, isto é, uma homossexualidade camuflada, a par de uma misoginia mais do que evidente.

A corroborar o facto, podemos observar que todas as características do ideal de beleza física deWilde estão presentes na figura de João Baptista que é, para o autor, o (seu) verdadeiro objecto de desejo enquanto que este (Wilde) se projecta na figura de Salomé como a personagem que seduz, possuidora da aparência física que ele próprio idealiza como fazendo parte do eterno feminino e que ele próprio gostaria de poder ostentar (daí a malícia de Beardsley ao retratá-lo na imagem da perversa rainha Herodias, na célebre edição que foi destruída pelo Ãutor).

A faceta misógina do Oscar Wilde decide atribuir a Salomé a beleza de uma mulher fatal, mas diáfana, a qual ele identifica com a Lua - símbolo que personifica a ambiguidade e, simultaneamente, a fronteira entre a realidade e a loucura - facto ilustrado pelos presságios, evidentes em vários momentos deste drama intensíssimo, quando as personagens são advertidas do perigo de sucumbir à perda da razão pela excessiva contemplação da Lua (Salomé).

Porque a Lua, tal como a Princesa Real, possui uma face oculta (ao fim e ao cabo como o próprioWilde em relação à sua própria sexualidade, camuflada sob a capa de um casamento com e dois filhos). Esta ambiguidade apresenta-se em Salomé, na ausência total de limites quanto à satisfação dos seus desejos a que se opõe uma sua aparência angelical e inocente, a principal característica susceptível de enlouquecer quem por ela se deixa enfeitiçar.

Ao longo da peça vai sendo progressivamente desvendado o ambiente propício à tragédia, assinalada por presságios e pela ocorrência da morte daqueles que contemplam demasiado a figura lunar da Princesa Real. João Baptista é o único que salva a alma porque se abstém de a contemplar, agarrando-se firmemente à adoração do Filho do Homem para escapar à periculosidade da sedução feminina.

Mas não consegue salvar a vida. João Baptista cai no erro de humilhar alguém que sente a turbulência de um primeiro amor, que ele não compreende, e que se propõe a condenar sem piedade. Não esqueçamos que João Baptista é apenas humano. Não possui a perfeição espiritual de um filho directo de Deus. A Lua, que empresta a sua sedução à figura de Salomé e orgulho vingativo, na sua faceta de Hécate, reage violenta e passionalmente à rejeição, tirando a vida ao ser amado para concretizar aquilo o que não consegue realizar com ele vivo: o beijo que lhe foi negado.

Salomé, está impregnada do universo que povoa o inconsciente deste polémico autor britânico, com um complexo cocktail de pulsões, fobias, desejos ocultos, tabus sexuais e contradições que emanam do conflito entre o id, o ego e o superego do autor projectado nas personagens.

Salomé é a própria personificação do Desejo, das pulsões que são, normalmente, "castradas" pela religião, representada e defendida com uma paixão de verdadeiro fundamentalista, por João Baptista.

Uma história de amor, loucura e morte que Oscar Wilde legou para a posteridade e que obriga o leitor\espectador a reflectir acerca dos limites da paixão e da tolerância.


Cláudia de Sousa Dias

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Monday, June 27, 2011

"Cem anos de Solidão" de Gabriel García Márquez (Dom Quixote)


Tradução de Margarida Santiago

As vicissitudes do amor ao longo de várias gerações da mesma família até ao cumprimento de uma profecia...

O tema do livro mais lido de Gabriel García Márquez é o isolamento a que são sujeitos os habitantes da cidade de Macondo, no início do séc. XIX, devido aos condicionamentos impostos pelo relevo. Um facto que dificulta em extremo o contacto com o mundo exterior, o que leva a que Macondo sofra um atraso de vários séculos, em termos de desenvolvimento, em relação ao resto do mundo nos domínios científico e tecnológico, conservando um primitivismo endémico, quase medieval.

Só com a visita da tribo de ciganos de Melquíades - um grupo, andarilho imbuído de uma grande dose de espírito de aventura - é que chegam à cidade alguns vislumbres (muito difusos) acerca daquilo que se passa do lado de lá da serra. A capacidade especial de encantar pela arte da palavra e cativar a atenção dos habitantes de Macondo com novidades extravagantes, faz com que Melquíades e os seus, rapidamente conquistem a simpatia de toda a gente, pela facilidade com que estimulam a vontade de sonhar e o imaginário dos macondenses.

A chegada dos americanos traz, por outro lado, a prosperidade e o desenvolvimento económico e tecnológico nos sectores agrícola e industrial. Afáveis mas dominadores, não se misturam muito com a população local, apesar de conviverem com alguns membros das famílias indígenas mais ilustres. Até ao dia em decidem partir, após os reveses do clima, que destroem as infraestruturas económicas da região - agricultura de plantação.

As personagens masculinas da família Buendía têm todas, já de si, uma acentuada tendência para o cultivo da solidão, da autocontemplação, do isolamento-ensimesmamento de cujo expoente máximo é o patriarca José Arcadio, alquimista e inventor de projectos mirabolantes e irrealizáveis. Da mesma forma os filhos, Aureliano - ourives por amor à arte e guerreiro por amor a um ideal - , e José Arcadio, um jovem extremamente arredio, que acaba por se afastar da família para casar com a irmã adoptiva Rebeca, bem como os restantes descendentes varões, todos, mostram ambos uma relativa dificuldade em exteriorizar os afectos, ao preservarem para si a parte fundamental da própria alma e imaginário.

Quanto às personagens femininas, encontramos dois tipos diferentes: em primeiro lugar temos aquelas que vêm de fora do clã e casam ou se enamoram dos varões Buendía como Ùrsula, a matriarca - esteio da família - e Fernanda del Carpio, casada com Aureliano Segundo- beata austera e preconceituosa, o oposto de Úrsula. E depois há aquelas que carregam o sangue ou são herdeiras dos Buendía, como Amaranta no primeiro caso e Rebeca (esta adoptada) ambas irmãs de Aureliano e Jose Arcadio -, Remédios, a Bela, - mulher angélica mas de uma beleza fatal, vive um amor proibido ao qual se opõe Fernanda, amor esse cujo fim trágico acentua ainda mais o lado solitário das jovem e a sua tendência para viver no "mundo da Lua", acabando por tornar-se um ser imaterial. Aliás a imagem relativa à transformação desta figura quase mitológica que é Remédios, a Bela, após o desaparecimento do amante, tem um significado ambíguo que se desdobra ou numa total alienação da mente ou numa forma assaz poética de deixar o mundo dos vivos. Temos ainda Amaranta Úrsula, a mais nova das herdeiras, a viver um amor incestuoso, com o último varão dos Buendía e da qual nascerá um ser aberrante, durante cuja vida se cumprirá a profecia do cigano Melquíades (após a qual serão decifrados os seus misteriosos manuscritos) e o destino do clã.

Nesta obra, o autor dota as personagens de características, de certa forma, sobrenaturais, como o apaixonado de Remedios, a Bela, sempre rodeado de uma nuvem de borboletas, ou José Arcadio Buendía cuja morte despoletou um chuva de pétalas amarelas. Na obra de García Márquez, a cor amarela, ao contrário do dourado, que significa maldade ou corrupção, está associada a algo de mágico ou maravilhoso.

A amoralidade no amor, sentimento que, para Márquez, está completamente alheio a esse género de condicionalismos, também está presente neste belíssimo romance, não só no que respeita à tendência de ignorar um tabu fortemente implantado na nossa sociedade como é o caso do incesto, mas também pela quantidade de relações extra-conjugais presentes no romance, com destaque para a impressionante força telúrica da paixão escaldante entre Aureliano Segundo e Petra Cotes.

O realismo em "Cem anos de Solidão" está patente quando observamos como se manifesta a evolução do alheamento progressivo das personagens (Jose Arcadio Buendía e Aureliano) à medida que se aproxima a velhice e a hora da morte, distanciando-se do mundo quotidiano e refugiando-se na nostalgia das histórias do passado. É com estas mesmas histórias que os anciãos conseguem deleitar a imaginação das crianças - como acontece com a avó Úrsula, que se torna uma autêntica boneca, com a qual os mais novos se divertem a brincar - em nítido contraste com a indiferença dos adultos, aborvidos com os problemas do dia-a-dia.


Uma obra de grande intensidade que mostra a qualidade suprema deste autor colombiano ao qual foi atribuído o Prémio Nobel da Literatura em 1982 e do qual há sempre algo de novo a dizer.




Cláudia de Sousa Dias

E estes são os comentários retirados do post anterior do mesmo arquivo morto:

4 Comments:

Blogger Cleopatra said...

Uma maravilha.

11:28 PM
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Obrigada Cleópatra,pela visita e exploração do meu Blog!

CSd

1:05 PM
Blogger Mr. Nonsense said...

Passei por aqui para retribuir a visita que fez ao nosso blog e confesso que fiquei positivamente surpreendido!
Adorei tudo o que vi até agora (e não foi muito que o tempo é pouco) mas prometo voltar mais vezes.

Quanto a este livro em particular há já uns anos que o li pela última vez (mas já o li uma duzia de vezes) mas continuo a considera-lo um dos melhores romances alguma vez escritos e de "leitura obrigatória" a qualquer amante de livros.

Mais uma vez parabens pelo excelente blog e boas festas

1:40 PM
Blogger Claudia Sousa Dias said...

ainda bem que cá conseguiu chegar antes de este texto deixar de ficar visível no arquivo...


:-)


csd

11:56 PM

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Wednesday, June 15, 2011

"A Rainha do Sul" de Arturo Pérez-Reverte (ASA)


Tradução de Helena Pitta


A articulação do jogo de interesses, inserido na teia do mundo do crime à escala mundial, numa história de amor, traição e vingança.

A Rainha do Sul é um romance obtido a partir do resultado de um exaustivo trabalho de investigação, levado a cabo pelo autor, sobre a estruturação de uma economia paralela, à escala global.

Para poder levá-lo a cabo, o Autor teve de proceder à indagação sobre a vida de uma conhecida narcotraficante residente em Espanha e originária do México, a qual operava através de uma empresa que, por sua vez, mantinha a fachada de transportadora internacional de mercadorias.

Apesar de o nome e as circunstancias presentes no romance serem fictícios, o Auto partiu de factos reais e de vários testemunhos de personalidades estreitamente ligadas à conhecida rede de narcotráfico. É por esse motivo que um romance como este consegue traçar, em linhas gerais, um quadro tão verosímil, da forma como se articula o tráfico de haxixe e cocaína envolvendo as principais redes internacionais do crime organizado: a ligação de Espanha a Marrocos e à à Colômbia, funcionando o Sul do país de "nuestros hermanos" como um espécie de entreposto para o comércio de estupefacientes com toda a Europa, em conexão com as associações criminosas italianas (a Máfia da Sicília, a Camorra de Nápoles e a N'Dranghetta da Calábria) e com o narcotráfico com a Europa de Leste.

Juntamente ao tráfico de drogas, o autor deixa, também, entrever um pouco as ligações ao "tráfico de carne humana", concretamente nos bares de alterne da já referida zona turística espanhola.

Nesta obra, temos a oportunidade de observar, também, com minúcia, o desenrolar do processo de lavagem de dinheiro, as operações de transporte de droga, chantagem e esquemas de fuga à Lei a que se junta, muitas vezes, um trabalho de "parceria" de parte das autoridades oficiais (polícia, tribunais, autarquias, governo) com os narcotraficantes.

O ritmo da história é contado a duas velocidades: em primeiro lugar, temos o investigador-repórter que entrevista os principais intervenientes na história, em contacto com Teresa Mendoza a protagonista e anti-heoína (embora, na realidade a trafique, passo o trocadilho, a que não conseguimos resistir). Aqui, a narrativa adquire um ritmo mais lento para dar ao leitor a oportunidade de analisar e avaliar os acontecimentos e o carácter das personagens e, por vezes, manifestar os seus próprios pensamentos e pontos de vista.

Por outro lado, temos a parte do romance propriamente dito que implica o lado criativo do autor, na qual, o narrador, omnisciente e não participante, facilita a reconstituição dos episódios vividos pela protagonista e as demais personagens. A partir daqui, podemos identificar uma vilã que acaba por cativar os leitores pela inteligência argúcia e capacidade de sedução - apesar dos meios duvidosos que emprega para conseguir os seus objectivos - que encarna uma versão feminina da personagem Edmond Dantés no romance O Conde de Monte-Cristo de Alexandre Dumas, que é aqui substituído por uma tratar-se de uma mulher-fatal cuja finalidade é a de triunfar num mundo de homens, no qual irá assumir o papel de vingadora pela morte do namorado, morto em consequência de um ajuste de contas, ditado pela infracção das regras do jogo. Depois de passar algum tempo na prisão, Teresa irá, tal como a personagem de Dumas, encontrar os meios para consumar a sua vingança e procurar uma posição de liderança no mundo dos negócios de transporte de estupefacientes.

Uma "Condessa de Monte-Cristo" dos finais do sec. XX, mas retratada ao estilo frio e cáustico de Reverte, mas cujo final diverge, felizmente, em muito do do romancista francês do século XVIII.

Um texto brilhante, pródigo na utilização da gíria e calão dos narcotraficantes e do ambiente tenso de quem vive constantemente no fio da navalha.


Cláudia de Sousa Dias

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Wednesday, May 11, 2011

"A Torre dos Anjos" de Michel Peyramaure (Bizâncio)


Tradução: Carlos Correia Monteiro


O episódio na História do cristianismo na Europa a que muitos chamaram de "o segundo exílio na Babilónia" aquando da guerra dos cem anos...

Michel Peyramaure é autor de uma vasta obra ficcional, contando já com mais de 50 títulos publicados em França. Foi galardoado com o Prémio Alexandre Dumas pelo conjunto da sua obra.



A Torre dos Anjos é um romance histórico de elevada riqueza de pormenores de imagem e rigor histórico que nos transporta para a época medieval, colocando-nos em contacto com o mundo intelectual e artístico de então, através da personagem fictícia Júlio Grimaldi - o narrador - , funcionário laico do aparelho administrativo da corte pontifícia, que se encarrega de fazer a ponte entre a realidade factual e a criação do autor. É, através deste personagem, que tomamos contacto com a intimidade do grande poeta Petrarca e da sua musa, Laura de Sade, com os pintores Mateo Giacometti e Giotto, juntamente com os seus vícios e virtudes.
A trama inicia-se com a tentativa de rapto do Papa por Filipe, o Belo, Rei de França, que acabará por obrigar a Cúria a exilar-se naquele país, sendo-lhe desta forma, mais fácil, manobrar a eleição de um Sumo Pontífice, escolhendo alguém da sua preferência - Clemente V . A partir de então terá as condições ideais para deslocar as peças que compõem o complicado jogo de xadrez político que é a Europa.



A acção de desenrola-se durante o fatídico sec. XIV, em Avignon, a cidade provençal que foi, durante período de1309-1376, sede da Igreja Católica.


Durante os sessenta e oito anos de exílio da corte papal - o chamado "segundo exílio da Babilónia" (pela analogia com o episódio bíblico relativo exílio do povo judeu, na cidade mesopotâmica de Nabucodonosor, narrado no Antigo Testamento) - desta vez em Avignon, o "Trono de Pedro" foi ocupado por sete papas que assistiram aos horrores intermináveis da Guerra dos Cem Anos (conflito que esgotou a França e a Inglaterra desencadeando a fome pelo abandono das terras e pela devastação efectuada pelas pilhagens das companhias de mercenários) e ao flagelo da Peste Negra, que dizimou cerca de um terço da população provençal da época, chegando mesmo a vitimar cerca de dois terços da população em algumas regiões da Europa.


A descrição do trajecto da "Dama Negra" desde a China até à parte mais ocidental da Europa é, pelo autor, brilhantemente descrita, de uma forma sinistramente bela, tal como mostra a personificação com a qual apelidou a referida catástrofe, numa progressão que se assemelha à vaga de um maremoto e que tem o poder de desencadear, nos leitores, aquele arrepio na espinha semelhante à atracção que nos impele a olhar para o abismo - o fascínio mórbido da humanidade pelo horror.



Michel Peyramaure
possui a habilidade de ensinar história aos seus leitores, facultando-lhes a compreensão das raízes que estão na base da construção da Europa actual, as rivalidades e as alianças seculares entre os diferentes estados que a compõem. A obra tem o mérito de conseguir cativar o leitor através de uma prosa de elevada precisão evocativa, carnal e da recriação de um ambiente faustoso e prolífico em maquiavélicos escândalos políticos e sexuais.


Até ao dia em que o jogo das forças políticas se inverte na Europa e Avignon se vê, de repente, despojada do seu brilho e prosperidade, mediante o regresso da corte papal ao Vaticano.






Palácio papal de Avignon (Fonte: wikipédia)


Restam as lembranças evocadas por Júlio Grimaldi, agora guardião da "torre dos anjos" - na qual se encerravam os aposentos do Papa, a sua biblioteca e a chancelaria, no qual a partir de então, somente os fantasmas habitam, como as misteriosas "aparições" da Anã Vermelha que vagueia pela Torre e cuja identidade Grimaldi se esforçará por descobrir.

É esta a missão dos últimos dias da sua vida, num palácio agora deserto, vulnerável à pilhagem dos bandos de assaltantes a que assiste, impotente, tal como os restantes cidadãos avinhoenses "testemunhas de uma festa acabada".

Uma lição de história a não perder, nesta publicação da Bizâncio, acerca dos factos que originaram a tão polémica "Cisma do Ocidente".

Cláudia de Sousa Dias

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Wednesday, April 13, 2011

"A Aurora dos Bem-Amados" e "O Grande senhor" de Louis Gardel (Bizâncio)

Tradução de Clara Alvarez



Louis Gardel é um conhecido guionista francês e, também, que também gosta de escrever ficção. A presente obra é a história de uma saga respeitante às vicissitudes e intrigas palacianas no Império Otomano, escrita aqui em dois volumes, onde, a par da sucessão de dois monarcas ficamos a par de uma visão mais realista de um grande senho que deu origem à terrível lenda do Conde Drácula...
Louis Gardel foi, ainda, vencedor do prémio da Academia Francesa em 1980 com o romance "Fort Saganne". Em A Aurora dos Bem-Amados, o Autor dá a conhecer como se estabeleciam as relações de amor, amizade e poder, num cenário das mil e uma noites. A intriga gira em torno de um agitado período da História do Império Otomano, envolvendo os conflitos palacianos em torno da amizade do Sultão Solimão - mais tarde cognominado de O Magnífico - pelo seu homem de absoluta confiança, Ibrahim (um ex-escravo grego, obrigado a converter-se ao Islão na adolescência, que ascende posteriormente à posição de grão-vizir, braço direito do Sultão) e da sua paixão pela bela e cativante escrava Hurren (oferecida ao sultão por Ibraim), mais tarde convertida em Imperatriz. A estes dois sentimentos, amor e amizade, irá inicialmente aliar-se o Poder, que passará, depois, a dominá-los - tanto a Solimão como a Ibrahim - e, por fim, a submetê-los. Louis Gardel dá a entender, de uma forma muito simples e clara que são, na verdade, estes três ingredientes, a mola impulsionadora do curso da História, ao deixar entrever os meandros das intrigas do Serralho, os sangrentos conflitos relacionados com a luta pela sucessão ao trono (que inclusive, passa por cima de laços de parentesco muito próximos e acabam por degradar toda e qualquer forma de amor ou amizade), bem como as relações entre o Império Otomano e o Ocidente (que interferiren com as ambições de Carlos V e a pretensão ao domínio dos mares pela Sereníssima República de Veneza). É desta forma que a luta pelo poder se irá transformar numa impiedosa luta pela sobrevivência, num ambiente em que o Medo e a Inveja acabam por dominar as consciências: uma psicose social que é reforçada por um sistema que permite a ascensão ao trono baseando-se não na sucessão do filho mais velho, mas na nomeação do membro da família considerado mais capaz, alçgo que se torna, na prática, na sobrevivência da "águia" mais forte, ou o "falcão"mais implacável. O harém é outro ninho de víboras, devido à rivalidade entre os clãs oriundos das "proles" das diferentes esposas do Sultão. As intrigas e mexericos sucedem-se. Neste romance sobressai, mais do que tudo, a ideia de que, o gozo do favoritismo, quer seja concedido pelo cargo, quer pelo casamento ou concubinato, implica um estado de vulnerabilidade, face a todo um conjunto de armadilhas políticas que podem culminar na morte dos, até então, hiper-privilegiados. Uma história que, apesar de ocorrida na Turquia do séc.XVI, tem a frescura do vento da actualidade.
Em O Grande Senhor é destacado o amor obsessivo pelo Poder e a secundarização do amor nas suas múltiplas facetas.

Neste romance, que é a sequela de A Aurora dos Bem-Amados, Louis Gardel analisa, num texto de grande densidade psicológica, a evolução do reinado de Solimão, o Magnífico, rei supremo do Império Otomano. O livro explora a dimensão psicológica do conturbadíssimo reinado deste monarca, explicando as motivações mais profundas que o levam a condenar à morte, o filho mais velho, Mustafá, em cuja popularidade vê, simultaneamente, uma ameaça e uma afronta ao seu poder absoluto. Mais tarde assiste, impotente, ao afundar de Cihangir, o seu filho favorito, no abismo da depressão. A perda de Cihangir, deficiente físico e, por isso, incapaz de se tornar um rival, é um duro golpe para este imperador despótico, consciente de que este jovem frágil foi, talvez, o único ser humano que o amou de forma incondicional. Por outro lado, a sua relação com a Imperatriz Russiana, ou Hurrem, a Feliz, sofre também uma série de turbulências dado o carácter manipulador e o apurado instinto de sobrevivência desta soberana que tenta, pelos meios mais tortuosos, fazer com que o Sultão abdique, nomeando o seu filho Bajazeto como seu sucessor. A Imperatriz, mesmo depois de destituída da beleza e do temperamento dominador, consegue, já no outono da sua existência, recuperar o amor do sultão para morrer pouco tempo depois. O que não a impede entretanto de usar essa proximidade para fazer valer os seus interesses. Esta é uma morte que, tal como a de Cihangir, não deixa Solimão indiferente, pois trata-se dasua grande paixão da juventude. Frustradas as tentativas de Russiana para fazer Bajazeto ascender ao Sultanato, devido às armadilhas políticas engendradas pelo seu corrupto e maquiavélico irmão Selim, o Bêbado, Solimão, vê o seu filho mais velho ser estrangulado por ordem de Selim, juntamente com os seus cinco netos, filhos de Bajazeto. Minado pela doença, Solimão consegue ainda, como prémio de consolação, consolidar o seu domínio na região dos balcãs até à Hungria - situação geopolítica que gera o embrião que eclodirá, muito tempo depois, já no sec. XX, em alguns dos mais graves e intrincados conflitos ocorridos na Europa com repercussões a nível mundial (a 1ª Grande Guerra de 1914/18 e a Guerra dos Balcãs já na última década do século passado). Próximo do fim , com as articulações paralisadas pela ancilose, perdido no deserto da solidão do Poder Absoluto, o monarca reencontra em Efraim, o pequeno judeu corcunda, cujas mãos o aliviam das dores atrozes que atormentam os últimos dias da sua existência, a sua derradeira fonte de afecto. Na deficiência física deste assistente do seu médico pessoal, o Sultão recorda o malogrado filho Cihangir. Antes do fim, consegue, ainda, acabar com o último foco de resistência cristã em Szigetvar, minando a resistência da Cidade onde se encontram os Soldados de Deus que, tal como os soldados de Allah, não hesitam quando têm de escolher entre o paraíso e a desonra. Expira, sem o conhecimento do seu exército, mantido na dúvida até chegar a Istambul pelo fiel Efraim, onde se procederão as exéquias. Solimão morre vitorioso, às portas da Europa e do Ocidente, mas afastado dos descendentes que lhe restam: Selim, o filho corrupto que despreza e Mihirimar, uma cópia patética de Russiana, cuja alma alimentada pelo fanatismo religioso pretende compensar o deserto afectivo que a rodeia. Solimão, consegue, apesar de tudo, ter por companhia nos seus últimos momentos, alguém capaz de uma dedicação sem precedentes e desinteressada. Um drama das mil e uma noites que pretende transmitir a mensagem de que, por vezes, a felicidade está na palavra Renúncia. Um romance sublime para quem gosta de mergulhar nas raízes da História e descobrir o mundo actual. Cláudia de Sousa Dias.

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Sunday, April 03, 2011

"Como Água para Chocolate" de Laura Esquível (ASA)

Tradução do Espanhol do México por Cristina Rodriguez revista por Elena Piatok de Mattos (Adida cultural da embaixada do México)


Há seis anos atrás classifiquei este livro como "um suculento best-seller que se degusta até à última página".

Talvez por falar tanto de comida. E de misturar um caleidoscópio de emoções daquilo que parece ser um melodrama do início do século XX com sabores, receitas aromáticas, com o apimentado e algo sarcástico humor mexicano.

Este é um romance construído com base num conflito entre tradição e afectos.

O cenário da acção é o México rural, do início do séc.XX. Mamã Elena é uma mulher seca, amarga, de carácter dominador, que administra o seu rancho e, simultaneamente, a sua família com mão de ferro. O seu despotismo determinará que Tita, a mais jovem das três filhas da proprietária, sacrifique a expressão e concretização dos seus afectos para cuidar da mãe durante a velhice. A despótica matriarca delibera que Pedro, o apaixonado de Tita, case com Rosaura, a filha mais velha, Mamã Elena está, nada mais nada menos, que a unir o útil ao agradável: Tita é a mais a filha mais dócil e diligente de toda a sua prole.

Mas Pedro, só aceita a imposição porque é a única forma de estar próximo da mulher que ama.

A paixão reprimida de Tita por Pedro é sublimada através da arte culinária, pois é na cozinha, ao manipular temperos e alimentos que Tita usufrui de total liberdade para exprimir o que sente. Ao elaborar pratos sofisticados, Tita projecta emoções, sufocadas por uma tradição obsoleta e desumana, na comida. Emoções que, através de um processo semelhante à osmose, são por sua vez, transferidas para aqueles que se deliciam com as iguarias da protagonista. E que neles despoletam os comportamentos mais bizarros sendo, desta forma, levados a agir segundo a perspectiva e forma de sentir de Tita.

Por exemplo: a indisposição geral que se abate sobre os convidados durante o casamento de Pedro e Rosaura, logo após ingerirem o bolo que Tita é obrigada a confeccionar. Um mal-estar que é confundido com uma invulgar e extremamente violenta intoxicação alimentar, a qual se manifesta num estrondoso vomitório colectivo. No entanto, trata-se apenas da forma como Tita gostaria de exteriorizar o que sente face ao atentado contra o livre arbítrio dos dois amantes.
Outro exemplo é o "incêndio" que deflagra no corpo de Gertrudis, a irmã domeio, após degustar um prato afrodisíaco de Tita - codornizes com pétalas de rosa - que a leva a fugir, montada na garupa á semelhança de Lady Godiva renascida, com um revolucionário.

Cada capítulo de Como Água para Chocolate é iniciado com uma receita à qual está, de algum modo, associada uma forte carga emocional.

A paixão de Tita por Pedro deixa-a mesmo "como água para chocolate" (bebida mexicana preparada com água e cacau), expressão idiomática que significa: em ponto de ebulição. Mas esta bebida só se forma quando os dois ingredientes se misturam...e o amor também, ou seja quando duas almas se fundem à temperatura da água ao formar o chocolate quente. Mas ao fazê-lo, as duas substâncias deixam de existir para formar o novo composto...

Logo que a presença gelada de Mamã Elena deixa de exercer a sua influência na livre expressão dos afectos dos dois protagonistas, a poderosa reacção alquímica ocorrida entre eles corre o risco de provocar uma combustão espontânea, idêntica ao accionar de todos os detonadores de um arsenal de explosivos como profetiza Jonh, o médico da família...

O estilo da Autora incide sobretudo num discurso onde predomina o uso da hipérbole, do exagero e até do absurdo para melhor enfatizar o ridículo da contradição ente a moral associada aos costumes e tradições – mores – e a ética fundamental e universal, que reside no livre arbítrio, no direito inalienável de cada indivíduo efectuar as suas escolhas e, com base nelas, construir a própria vida.

Um romance, que incide num tema clássico, onde o amor é negado aos protagonistas, e onde se "cozinha" muito mais do que receitas emocionais: um mundo imaginário onde ocorre a vulcanização de uma paixão proibida, dentro do género do realismo mágico, ao estilo de Jorge Amado ou Gabriel García Márquez.

Cláudia de Sousa Dias

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Monday, February 28, 2011

"Musk" de Percy Kemp (Bizâncio)


A tragicomédia da sedução olfactiva e animal contidas num num frasco de perfume em vias de extinção é a essência deste romance. "Musk" é história da loucura obsessiva do agente secreto Armand Eme (M de Musk) cujo hobby preferido é a sedução, num divertida paródia aos filmes de 007.
O personagem é um homem narcisista e meticuloso ao extremo - sobretudo no tocante ao cuidado da sua toilette -, vive apenas em função de si mesmo, de tal modo que a vaidade parece ser tudo o que lhe resta já que, na sua vida, não há mais ninguém suficientemente importante a quem dedicar a atenção nos tempos de ócio...

Esta é, talvez, a explicação para que esta personagem se sinta completamente desorientada quando se vê, subitamente, privada da sua principal arma de sedução: o perfume Musk.

Este aroma, devido à imposição da nova gerência da empresa que o produz, é retirado do mercado, sendo substituído por uma nova fórmula, com o objectivo de satisfazer os novos objectivos de produção e não necessariamente para proteger a espécie animal que contribui para o seu fabrico. O que obriga a que o musk, produzido pelas glândulas sexuais de uma espécie de antílope em vias de extinção, deixe de ser comercializado. Em seu lugar, é colocado um produto de odor semelhante, mas de origem sintética. A protecção da espécie e as exigências do mercado obligent.

E o senhor Eme vê-se então despojado, espoliado do seu mais eficaz afrodisíaco. Que lhe é tanto mais necessário quanto maior o inexorável avanço da idade que o vai, lentamente, privando dos seus encantos naturais. Conservados pela ilusão mágica do perfume - autêntico efeito placebo.

Consequentemente, a história gira em torno das mais extravagantes estratégias elaboradas pelo protagonista de forma a conseguir arrecadar a maior quantidade de perfume possível de tão erógeno aroma e prolongar um pouco mais a vida, a juventude e a capacidade de suscitar desejo no sexo oposto.

A história de Musk ilustra um pouco aquilo que acontece com as grandes marcas de alta perfumaria. Até há algumas décadas atrás, estas dedicavam-se a elaborar fórmulas de luxo destinadas ao consumo de uma élite. Hoje em dia, o mercado da alta perfumaria estende-se às massas. É, pois, necessário produzir em grandes quantidades e com o mínimo de custos, obrigando à substituição de alguns ingredientes, extremamente caros, ou de difícil obtenção -, como é o caso do âmbar cinzento, há algum tempo atrás mencionado nas notícias, proveniente das baleias-cachalote (presente em perfumes de marcas de tradição parfumeur), agora substituído porum ingrediente de odor semelhante proveniente das agulhas de pinheiro; ou do célebre fixador do desaparecido perfume Joy, de Jean Patou, cujo extracto implica o sacrifício de inúmeros exemplares de uma rara espécie de escorpião, o que obrigou a retirar o perfume do circuito comercial português, encontrando-se à venda apenas num número bastante restrito de países entre os quais a França e E.U.A.

A escolha do tema, por parte do Autor, teve como inspiração a substituição dos ingredientes da sua marca de chocolates preferida, juntamente com uma pequena alteração do respectivo invólucro. Esta situação levou-o a estabelecer um paralelismo com o mundo da perfumaria, construindo uma personagem que faz lembrar um pouco a obsessão de Jean-Baptiste Grenouille, o vilão de O Perfume de Patrick Süskind.

Um conto para desfutar durante o fim-de-semana do bom humor ao estilo britânico de Percy Kemp.

Cláudia de Sousa Dias

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Wednesday, January 12, 2011

"O sonho Masai" de Justin Cartwright (ASA)


Um romance que se lê com volúpia, humor e muito espírito crítico



Justin Cartwright nasceu na África do Sul e vive, actualmente, em Londres sendo, já desde o início da sua carreira literária, considerado pela crítica especializada como um dos mais interessantes escritores ingleses contemporâneos.

Em O Sonho Masai, o Autor explora os processos de aculturação sofrida pelos povos daquele reguião equatorial africana, sob forte influência da cultura britânica manifesta nos hábitos, padrões de cultura e normas de conduta daquele povo emblemático da nação Queniana.

Mas o que torna esta obra realmente interessante, sobretudo para os apaixonados das ciências sociais (com especial destaque para a antropologia e sociologia pela referência constante a nomes como Margaret Mead, Émile Durkheim, Marcel Mauss e Claude Lévi-Strauss) é o facto de este autor ousar estabelecer uma analogia entre os hábitos considerados "selvagens" da cultura da sociedade Masai e os da Europa da Segunda Guerra Mundial.

O conteúdo da obra oscila ao ritmo de duas histórias, contadas em paralelo, situadas em duas épocas diferentes: nos anos 1990 do séc.XX, o escritor Tim Curtiz é encarregue de elaborar um argumento para um filme sobre a etnóloga judia Claude Casson, a qual dedicou a sua vida profissional ao estudo da cultura Masai, nos anos 30, e ao regressar à Europa, durante a 2ª Guerra Mundial, acaba por falecer em Auschwitz, vítima da selvajaria ariana e da cegueira mental da própria família. Tim recolhe elementos da vida de Claude, através do testemunho de personagens suas contemporâneas e recorre, frequentemente, ao uso da analogia. Liga, desta forma, a sua vida pessoal e afectiva à da etnóloga acabando por estabelecer um fio condutor que une o passado ao presente.

Ao longo de todo o desenrolar da narrativa, o leitor tem a sensação de estar a assistir a um documentário da BBC. Pela alternância permanente entre cenas passadas num e noutro ambiente, o leitor mais atento é obrigado a repensar o conceito de "selvagem", pela comparação de comportamentos individuais e colectivos inerentes às duas culturas.

As descrições são pormenorizadas, detalhistas e dotadas de um realismo brutal, assemelhando-se, por vezes, às de Patrick Süskind em O Perfume (como a descrição do ambiente infecto de uma sala de cinema, no 1º capítulo).

Um livro humanista e demolidor no que toca à destruição de estereótipos e preconceitos. Suculento para quem é dono de uma mente aberta, a permitir olhar para as civilizações do ponto de vista do relativismo cultural e do interculturalismo. Ideal para quem gosta de pensar.

Cláudia de Sousa Dias

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Tuesday, November 30, 2010

"Mariana" de Manuela Monteiro (Quasi)


Mariana é uma adorável colectânea de contos da escritora famalicense Manuela Monteiro, ex-professora de português, que agora se dedica inteiramente à escrita. Inclui quatro pequenos contos que relatam, numa linguagem poética e cheia de ternura, vários momentos da vida e à qual a autora apelida de "o meu livro de afectos".

Ao percorrermos as páginas do conto inicial que dá nome ao livro, deparamo-nos com o cenário idílico do ambiente académico de Coimbra, nos anos 50, que ilustra a turbulência interior do universo afectivo de uma jovem estudante de letras de onde se salienta a expressão do direito à diferença e a ânsia de liberdade de escolha, um traço de personalidade em comum com o carácter insubmisso da autora.

" Mariana" é uma lindíssima narrativa que permite ao leitor reviver a intensidade de um primeiro amor ao qual se mistura o romantismo dos ideais da Revolução Francesa - Liberté, Egalité, Fraternité.

O nome Mariana também não é escolhido por acaso. No texto, transparece a ideia de ter sido precisamente inspirado em "Marianne" o símbolo da República Francesa, devido à preferência da protagonista face a autores desta mesma nacionalidade. Este conto é detentor, para além de uma forte riqueza emocional, de uma aura de secretismo, sobretudo quando se refere ao grupo que se reune "à mesa do canto esquerdo do bar da faculdade", na qual, muitas vezes, a linguagem cifrada dos seus membros faz lembrar um pouco a atmosfera do de um livro de espionagem devido às actividades dos membros do referido grupo que actuam clandestinamente, enquanto conspiram contra o regime totaslitário.

Um pormenor de beleza extraordinária é a introdução, no início de cada capítulo, de um extracto de "o Cântico dos Cânticos", o mais poético dos textos bíblicos, de que a autora se serve para ilustrar a intensidade telúrica do amor e a beleza perfeita do amor entre Mariana e Miguel, marcado pela tragédia, o preço pago pela audácia.

Em "O Avô" a autora recupera a infância perdida expressa nas cores, sabores, perfumes e nos momentos únicos de uma idade dourada e cristalizada no tempo. Uma viagem ao Hades para recuperar um ente querido à semelhança do mito de Orfeu e Euridice.

Em "O Menino" estamos perante um refúgio idílico que representa, mais uma vez, a idade de oiro de uma criança à volta da qual todos se empenham em criar "um paraíso" no qual ela é protegida face às adversidades, evitando os desgostos que elas próprias sofreram na tentativa de lhe proporcionar um crescimento saudável, sem traumas. Edénico. Daí o tecto abobadado no quarto da criança pintado com anjos a velarem pela tranquilidade do seu sono.

Por último, "A Avó" reflecte já a fase madura da vida de alguém que cuja existência foi dedicada a adquirir sabedoria e a transmiti-la às gerações vindouras. É precisamente o que faz esta avó moderna, culta, ao seu neto a quem chama de "passarinho" que corre para ela depois da aulas "com as asas abertas".

Este conto tem a particularidade de proporcionar-nos aos leitores que por ele se deixam fascinar, o reconhecimento de alguns lugares mais característicos como: a Escola Primária, a casa na qual vive um velha senhora com muitos gatos, as grades verdes da escola, o lago em frente à Igreja...

Uma história que tem, tal como a primeira, a intenção de explicar às gerações vindouras a carga idealista da palavra liberdade, personificada, desta vez, pelo símbolo da pomba com as asas abertas tal como o "passarinho" a "voar" para fora da sala de aula em direcção ao espaço aberto onde pode brincar (quase) sem restrições e perpetuar a lembrança de Marianne/ Mariana.

Para manter vivo um mito sem idade e um sonho intemporal. O retrato de uma época de crença no futuro e de esperança. Uma realidade bem diversa da dos dias de hoje.



Cláudia de Sousa Dias

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Tuesday, September 28, 2010

"Siddhartha" de Hermann Hesse (Casa das Letras)



A vida do fundador do Budismo num texto de uma beleza sublime, onde se evidenciam os valores mais universais.

Estamos perante uma das mais belas obras deste autor germânico nascido em Wuttenberg em 1877 e laureado com o Prémio Nobel em 1946. "Um poema indiano" que exprime uma rara capacidade de descrever a beleza e, simultaneamente, de extraí-la de cada átomo do Universo.

É desta forma que descreve a trajectória de vida de Siddhartha, filho de um brâmane ( sacerdote e intelectual Hindú) que opta por abandonar o conforto da vida palaciana e a segurança de uma existência privilegiada, garantida pelo nascimento e explorar o mundo que o rodeia, com o objectivo de saciar a sua infinita sede de Conhecimento.

Submete-se, numa primeira fase, às privações características de um estilo de vida ascético, depois jogará o jogo do Samsara (o mundo das sensações) ao apaixonar-se pela belíssima cortesã Kamala, tendo, para tal, de sumeter-se às regras de um mundo onde impera a opulência e a volúpia. Mas para ele, as sensações são um mero veículo de aquisição de conhecimento.


Mas a serenidade do Nirvana só é conseguida por Siddhartha quando este é tocado por aquele tipo de amor absoluto e incondicional como aquele que um pai sente por um filho e sofrer por esse amor, igualando-se aos restantes mortais - o chamado "povo das crianças". Menos frio e mais empático, o brâmane aproxima-se das pessoas, interessa-se por elas diferenciando-se delas apenas num pormenor: a consciência.

Em Siddhartha a procura do verdadeiro "Eu" da Alma, do perfeito equilíbrio - a ambição de alcançar o Nirvana - está presente ao longo de todo o romance.

Siddhartha é uma história sublime cuja finalidade é mostrar que através do amor pela humanidade que se encontra verdadeiro Caminho para atingir a perfeição de um Buda (o ser perfeito contemporâneo de Siddharta que, segundo a tradição budista, não precisa de reencarnar).

Para Siddhartha, amar o Mundo é mais importante que explicá-lo. Daí defender que a liberdade nunca pode provir de uma doutrina seja ela qual for. Estas, no entender do protagonista, são apenas "palavras, sem dureza, moleza, arestas, cheiro, gosto"...Por isso, não se podem amar as palavras...Mas pode amar-se as pessoas.

Deste ponto de vista, as diferenças entre civilizações, religiões, culturas ou ideologias esbatem-se e aproximam os homens e facilitando a coexistência no Globo.

Uma utopia talvez tão velha como a Humanidade. Mas que vale sempre a pena perseguir. Que o digam Cristo e Ghandi.



Cláudia de Sousa Dias

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Monday, August 02, 2010

"A Casa das Areias" de Luísa Monteiro (Huguin)


O talento e o espírito crítico de uma escritora famalicense num romance que vem recuperar tradições já desaparecidas e recriar o ambiente da primeira metade do século passado


A acção de A Casa das Areias desenrola-se ao longo de todo o séc. XX e situa-se, sobretudo, na região de Famalicão e arredores. Este facto só é detectado pela associação de algumas das personagens a figuras da história e literatura portuguesa (como Bernardino Machado, Camilo Castelo Branco ou Adolfo Casais Monteiro) como sendo seus conterrâneos.

O conteúdo da narrativa baseia-se na saga de duas famílias religiosa e culturalmente opostas: a família de Ana, judia, culta, requintada, liberal que acompanha a evolução dos tempos e das mentalidades; a família de Camilo, cristã, rude, tosca, violenta na qual se evidencia, de forma chocante, o abismo entre a detenção de riqueza e a ausência de educação e instrução sobretudo nas mulheres.

A Autora serve-se desta diferença abissal para criticar acerrimamente os "brandos costumes" portugueses, sob o consentimento tácito do pároco da Igreja na figura do Pároco da aldeia que aceita a violência doméstica como algo de natural.

Ao longo da narrativa, as mulheres da família de Camilo sofrem horrores no seu quotidiano, violações dos seus direitos mais fundamentais sendo consideradas pouco mais do que animais de trabalho e reprodutoras.

Por outro lado, na família de Ana, as mulheres têm acesso à cultura, participam na gestão da casa e, no que toca à protagonista, trata-se de uma mulher que, ao longo da primeira metade do séc. XX, se encontra mais de cinco décadas à frente da mentalidade da sua época.

Este vanguardismo é-lhe facultado pelas vantagem de ser economicamente independente o que lhe garante total liberdade no que toca à sexualidade: utiliza os seus amantes por um curto período de tempo, ou seja apenas o necessário para conceber - a produção independente numa época em que não se ouvia sequer falar de inseminação artificial. Com Ana os papéis invertem-se passando o elemento masculino a assumir o papel de mero reprodutor.

A riqueza da protagonista e as obras de solidariedade que promove para a povoação bem como o facto de ser dadora de uma quantidade significativa de postos de trabalho na sua terra permite-lhe assegurar o respeito da população fazendo refrear as más-línguas.

Ana não assume o papel de uma Eva, a esposa perfeita em linguagem bíblica, mas de uma Lillith, a mulher-demónio irreverente cuja rebeldia não permite que se encaixe no modelo convencional de mulher-esposa-mãe-de-família. Todas as mulheres do ramo judeu são Lilliths em potencial mas só conseguem sê-lo em pleno quando integradas na Casa das Areias, o refúgio de Ana.

Quando saem do lar materno assumem algumas características de Eva sem nunca conseguirem assumir totalmente a personagem de qualquer dos dois arquétipos femininos. Tornam-se figuras algo híbridas tal como Teresa ou Esmeralda.

No ramo cristão, só a jovem adolescente Janete, dotada de uma extrema sensibilidade, talento e inteligência, consegue fugir à tradição. Fuga essa que só é perdoada pelo facto de esta desde cedo se revelar como uma criança de comportamentos marcadamente anti-sociais, algo esquizóide, com sérias dificuldades em distinguir a fantasia da realidade.

Somente no dealbar do séc. XXI é que se concretiza a possibilidade de uma Lilith descendente de ambas as famílias, herdeira dos traços de personalidade de Ana e da sensibilidade e talento de Janete, poderá exprimir a sua rebeldia e inconformismo mas fora do limite da Casa das Areias e da cidade onde nasceu tornando-se cidadã do mundo.

No texto, aquilo que transparece é que a intenção da autora é a de criticar a violação dos direitos da Mulher recorrendo, para isso, à comparação de dois modelos radicalmente opostos de estrutura familiar e imaginando um perfil feminino totalmente alienado da época (1ª metade do séc. XX) como Ana, a judia sedutora. Isto porque sabemos perfeitamente que a sociedade não perdoa a quem se desvia da norma, sobretudo porque no Minho rural a palavra "judeu" é frequentemente conotada de "cruel".

No último quartel do séc XX assistimos a uma lenta, gradual mas notória mudança que nos dá a entender que começa a haver um espaço para quem quer ser diferente mas, apesar disso, é ainda necessário sair da terra Natal para que o crescimento e desenvolvimento pessoal se possa efectuar em pleno.

A escrita em "A Casa das Areias" revela uma riqueza de linguagem povoada de regionalismos (ex: "eira", "Masseira","uvas americanas", "pêras D. Joaquina", etc.) evocando cheiros, sabores, a mentalidade típica da região e fazendo ressuscitar costumes e tradições já desaparecidas (ex: "as cornetadas") o que lhe confere todo um interesse antropológico que não pode deixar de ser levado em conta.

Esta é uma obra para ser lida saboreando os pormenores. Cada palavra evoca a memória de um passado não muito distante e que poderá ainda fazer parte de uma forma endémica de algumas localidades, mais remotas do país.

Uma bela sátira social cheia de ironia e, simultaneamente, uma ode à emancipação da Mulher.


Cláudia de Sousa Dias

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Friday, July 09, 2010

"Presságio de Fogo" de Marion Zimer Bradley (Difel) e "A Canção de Tróia" de Colleen McCullough (Difel))



O rapto de Helena de Esparta e a guerra de Tróia: o mesmo episódio histórico sob dois pontos de vista opostos, isto é, o dos vencedores e o dos vencidos. São duas diversas, porque opostas, formas de descrever o cenário que deu origem à epopeia A Ilíada do poeta cego Homero. Tanto, que nem parece tratar-se da mesma história.




Em Presságio de Fogo, Marion Zimmer Bradley mostra-nos o cerco da cidade de Tróia, descrito por Cassandra, a princesa visionária. As heroínas são as mulheres e o olhar é feminino. Feminino e feminista uma vez que são elas quem, na realidade detém o poder da vida e da morte que asseguram a sobrevivência encarregando-se das colheitas e das tarefas do quotidiano que mantém acesa a chama do lar, enquanto os homens brincam às guerras e aos soldados.




Helena, a beldade suprema, incarnação de Aphrodite possui o encanto que actua, no entanto, como uma maldição, sobretudo com os homens, embora nem mesmo as mulheres consigam ser-lhe indiferentes; Andrómaca, mulher de Heitor, a esposa exemplar; Hécuba, rainha e mãe, sofre com a morte dos seus filhos e a destruição da cidade; e, claro, Cassandra, a narradora omnisciente mas que, apesar da suprema inteligência e coragem com que foi dotada, será, pela maldição do deus Apolo, condenada ao descrédito dos homens incapazes de reconhecer o méritro e o valor de uma mulher superior.




Uma narrativa fascinante que nos permite vislumbrar o mundo e o imaginário femininos e até a ambígua sexualidade da Mulher na Antiguidade. A Autora empenha-se em espelhar em figuras femininas arquetípicas da Antiguidade, a capacidade de amar, a coragem na adversidade, e a demonstração do sublime nas suas várias dimensões em detrimento da brutalidade e ambições mesquinhas dos homens, numa sociedade onde estes só se alcançam o prestígio através da guerra. Salvo duas honrosas excepções: o brilhantismo, a astúcia e o talento diplomático de Ulisses (destituído da ambição desmedida dos seus companheiros de armas) do lado grego; o encanto de sedutor de Eneias, do lado Troiano. Mas ambos são apadrinhados ou melhor "amadrinhados" por duas deusas: Athena e Aphrodite, respectivamente. Trata-se de duas personagens que detêm, também, um papel preponderante em A Canção de Tróia, de Colleen McCullough, embora caracterizadas de forma totalmente diferente: aqui, a astúcia de Ulisses atinge laivos de cinismo, num homem que não se detém perante limitações de ordem ética. Alguém para o qual os fins justificam os meios. Já Eneias, por seu lado, perde grande parte da nobreza de espírito que o caracterizava na obra de Bradley, apresentando-se como um indivíduo frívolo, narcisista e afectado.




O conteúdo da narrativa de A Canção de Tróia parece estar bastante mais próximo da versão de A Ilíada do autor original - Homero. Esta autora australiana que à data da publicação tinha já encetado a obra épica O Primeiro Homem de Roma, onde a personalidade de Lucio Cornélio Sila poderá ser confundida com a do seu Ulisses e a de Júlio César com este Eneias que ostenta laivos de pedantismo. McCullough conta-nos a história do ponto de vista grego e masculino, criando um forte contraste com a versão feminista de Marion Z. Bradley. Aqui, a narração distribui-se pelos principais intervenientes no enredo, os quais nos dão a conhecer o seu próprio ponto de vista, motivações e personalidade. É assim que ficamos a conhecer o brilhantismo estratégico e táctico de Aquiles, a coragem de Heitor, a capacidade de amar de Pátroclo, a ambição ilimitada de Agamémnon, o peso da (i)responsabilidade de Príamo, a luxúria de Helena, a única narradora feminina.




Cabe assim ao leitor juntar as peças do puzzle e tirar as suas próprias conclusões. As mulheres perdem, em A Canção de Tróia, a maior parte do protagonismo passando - com excepção de Helena - à categoria de figurantes.




A Canção de Tróia exalta, sobretudo a solidariedade (e, em alguns casos, o amor) entre companheiros de guerra e nações que se unem para conseguir um objectivo comum: recuperar a esposa de um Aliado, "raptada" pelo inimigo também ele estratégico, o príncipe troiano, herdeiro de um reino que é o principal obstáculo à hegemonia do Aqueus no Ponto Euxino: a federação das cidades-estado gregas pretendia obter o controlo das rotas comerciais marítimas, nomeadamente o controlo do Bósforo que dá acesso ao Mar Negro e que se encontrava, então, sob o domínio troiano, facto que também é mencionado em Presságio de Fogo.




Uma chamada de atenção para o contraste entre os motivos manifestos e os motivos latentes que estão, na maior parte das vezes, na origem de uma guerra. Tal como nos dias de hoje.




Dois romances históricos a expor o verso e o reverso do mesmo episódio histórico. Um e outro povoadoas de personagens arrebatadoras que, para além dos nomes, têm em comum a sujeição à irrevogabilidade do Destino e ao capricho dos deuses; a alvorada de uma revolução religiosa, que obriga a pensar onde acaba o respeito pelos deuses e começa a loucura dos homens.




Trata-se, além disso, de uma época fascinante porque coincidente com a transição de uma sociedade matrilinear, onde impera o poder da Mmulher para uma outra, regida pelo arquétipo masculino. Dois mergulhos, sob ângulos diferentes, num dos episódios mais sedutores da história da civilização ocidental, fonte de inesgotável inspiração de poetas, pintores, escultores, cineastas, encenadores...




A não perder.






Cláudia de Sousa Dias
5 Comments:
Cleopatra said...

Li duas vezes e gostei muito. Gosto deste tipo de livros e contextos.Bom Livro.
11:27 PM

É, simplesmente fascinante!
CSd

nandokas said...

Olá Cláudia,
Peço a tua permissão para te contar como cheguei até aqui.
Posso?...Há cerca de dez anos li o livro “Presságio de Fogo” e, na ocasião, escrevi no computador um ‘textozito’ baseado naquele livro. Volvidos estes anos, e como há um ano criei um blogue, resolvi nesta altura lá publicar o tal texto. Mas, então, reparei que no mesmo não fiz referência ao nome da autora, do qual agora já não me lembrava e, por outro lado, já não podia consultar o livro porque desconheço o seu paradeiro. Daí que fui à internet efectuar a pesquisa pelo título. E…E… foi assim que cheguei a este teu ‘post’. E, assim, tive a possibilidade de acrecentar uma nota ao texto para mencionar o nome da escritora americana. E, por isso, para ti o meu agradecimento.Hoje publiquei no meu ‘tretas’ o texto a que acima me refiro com o título “Calcanhar de Aquiles…”.
Se considerares algum interesse numa espreitadela até lá, acredita que serás bem recebida, ok?Entretanto, já li este teu ‘post’ e outros publicados posteriormente. Vou deixar aqui a minha opinião acerca deste e, quanto aos outros, comentarei no mais recente.
Acho este teu ‘post’ excelente, pela forma simples, clara e correcta como o escreveste, pelo menos no que respeita ao “Presságio de Fogo” [não conheço o outro livro].
Simplicidade de escrita, clareza no conteúdo da tua opinião e correcção no enquadramento da narrativa da autora. E que bem que me soube recordá-lo através das tuas palavras, dado que foi um livro cuja leitura me entusiasmou imenso na altura.
E, por me teres levado até essa recordação, o meu outro agradecimento.E, por fim, os meus parabéns!
Notas: Há cerca de 2 horas atrás tentei colocar este comentário aqui, mas, creio que devido a problemas de conectividade com o Blogger, o texto desapareceu na… blogosfera! Por isso, esta é a 2ª versão.

nandokas said...

Olá Cláudia,
Depois de publicar o comentário anterior, reparei que ficou registado às 05:05 PM e sem data. Como o teu 'post' é de Fev/2005, quero dar-te a situação do 'tempo' do meu comentário: 27/11/2007 às01:09.
Até!

Olá Nandokas!
não consegui ver a confusão com os comentários, mas têm acontecido tantas coisas estranhas...o nº de comentários já está correctamente mencionado em todos os posts(penso eu), mas actualmente há 21 textos do arquivo de fevereiro (dias 23) de 2005 que deixaram de estar disponíveis ao público em geral...
csd

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Monday, June 07, 2010

"Uma Deusa na Bruma" de João Aguiar (ASA)

em jeito de homenagem...



Um romance histórico, passado em terras do Litoral Norte português, e uma escrita acessível, cativante. Para todas as idades.





Este é um livro que nos transporta para terras da Póvoa de Varzim, mais concretamente, na Cividade de Terroso, fazendo-nos recuar na Máquina do Tempo até ao séc.II A. C. A acção abrange a zona sul da antiga Calécia (entre Douro-e-Minho), ao longo da qual encontramos referência a personagens históricas como Viriato e Décimo Júnio Bruto.





João Aguiar mostra-nos a possibilidade de observarmos o quotidiano dos habitantes de Tarróbriga (Terroso), as suas relações comerciais e o respectivo sistema de estratificação social, assim como o papel das mulheres na sociedade da época, os conflitos e as rivalidades com as povoações vizinhas e, sobretudo, a religião e respectivos rituais, num estilo fluido e absorvente.





Uma Deusa na Bruma é uma obra que, para além de possuir o encantamento e a magia dos romances celtas de Marion Zimmer Bradley, nos permite visualizar a forma como a cultura dos povos pré-romanos da Península Ibérica colide com a chegada das Legiões de Bruto.





João Aguiar mostra aos leitores o legado ancestral que nos foi deixado por duas civilizações rivais, que coexistiram na mesma época e no mesmo território.





Um contributo que segundo o Autor, é igualmente válido e determinante, tanto do lado roamno como do lado lusitano:





...pela parte que me toca, o meu interesse afectivo reparte-se, igualmente, pelos dois mundos que, há mais de dois mil anos, se defrontaram em toda a Península Ibérica. Precisámos de ambos e de muitos outros, para sermos o que somos.





A não perder. Para ir de férias numa viagem no tempo.








Cláudia de Sousa Dias

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Monday, April 19, 2010

O Amante do Vulcão de Susan Sontag (Quetzal)



Segundo Enric González (Visão 7 de Agosto de 2003) "Susan Sontag não se entusiasma com o termo «intelectual» que é o que melhor a define. De qualquer modo, é autora de quatro romances, dezenas de ensaios, milhares de artigos e vários filmes. Abordou todos os problemas comtemporâneos e faz parte da Academia dos EUA. Nesse ano, recebeu o Prémio Príncipe das Astúrias de Letras pela sua «profundidade de pensamento e qualidade estética».


Foi casada com um professor de Sociologia, venceu por duas vezes o cancro e viveu de perto guerras como a do Vietname, do Yom e da Bósnia vindo a falecer em Dezembro de 2004.Trata-se uma mulher dos nossos dias que se atreveu a criticar, de forma igualmente contundente e implacável, George W. Bush e Fidel Castro. Alguém que, sendo de origem judia, declarava-se «200% laica» e que, relativamente à questão israelo-palestiniana considerava que «a tragédia consiste no facto de as duas partes estarem igualmente equivocadas.»"


O Amante do Vulcão é um retrato de uma época conturbada, uma obra de ficção que conta com personagens verídicas caricaturadas e uma heroína portuguesa, cujo nome se encontra, normalmente, ausente nos compêndios escolares de História de Portugal.


Nápoles, 1772. A população vive ao ritmo das erupções do Vesúvio, em contacto com as ruínas que evocam o passado de Pompeia. No entanto, outro género de cataclismo faz tremer os detentores do poder numa cidade cuja paisagem é dominada pelo mítico habitat do deus Vulcano: a difusão dos ideais da Revolução Francesa. O receio do impacto das ideias revolucionárias nas classes mais desfavorecidas, desencadeia uma onda de repressão por parte das autoridades de Nápoles.Usando o seu acutilante e perspicaz sentido crítico, Susan Sontag faz uma caracterização realista de algumas figuras históricas da época, ao desmantelar a faceta mítica e heróica de personagens como Napoleão, Lord Nelson, Sir William Hamilton (famoso coleccionador e comerciante de obras de arte britânico) e sua mulher Emma (amante de Lord Nelson), bela, inteligente e inculta.


Em O Amante do Vulcão ficamos a saber qual o papel, o grau de influência do Barão Scarpia (tornado mundialmente célebre através da ópera Tosca de Puccini) e, curiosamente, assistimos ao emergir do reino das sombras, de uma heroína portuguesa: Leonor da Fonseca Pimentel. Trata-se da única personagem do livro que não é ridicularizada pelas célebres alfinetadas verbais de Sontag. Leonor Pimentel, poetisa, jornalista, foi uma mulher ...ardente, veemente, que não compreendia o cinismo, queria que as coisas fossem melhores para mais do que uns poucos.


Alguém que no sécculo XVIII defendeu a importância da educação, ao mostrar não haver diferença entre capacidade intelectual masculina e feminina: ...sentia-me feliz por poder esquecer que não era mais que uma mulher. Era fácil esquecer que era, em muitas das nossas reuniões, a única mulher. Queria ser pura chama.


Leon o r da Fonseca Pimentel poderia ter vivido no Sec. XXI. Uma (quase) esquecida heroína portuguesa.



Cláudia de Sousa Dias

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