A Cicatriz do Ar – Jorge Fallorca e “A Mulher Descalça” Jorge Fallorca
a do Autor, que desconstrói a narrativa, fragmentando-a e dando-lhe a configuração de um espelho quebrado;
e a do leitor, que tenta de forma obsessiva reconstituir a acção e recolocar as peças no seu devido lugar, de maneira a compor o quadro final.
O autor de língua Castelhana Enrique Vila-Matas, de que já falámos neste blogue, dá o mote da acção, expresso na ciitação em epígrafe, da qual Fallorca se serve para sintetizar a essência da trama. Vila-Matas é um autor que escreve sobre o acto de escrever e o processo mental que antecede e acompanha a escrita – a qual em A Mulher Descalça assume a forma binária de inspiração e desinspiração, tal como o movimento rítmico de sístole e diástole. o qual servirá de paradigma ao Autor deste livro, como ponto de partida à construção da personagem central.
Na análise que faz sobre os romances policiais ou de intriga policial de Autores como Roberto Bolaño, Riccardo Piglia ou Paul Auster os quais situam, tal como Jorge Fallorca, um detective - ou um jornalista/escritor no lugar de detective -, na posição central da trama, Fallorca faz o mesmo para este livro. Contudo, no presente caso, o local da acção começa por ser, aparentemente, uma aldeia do norte, provavelmente Mortágua - a colina, o cabelo, a várzea – um lugar onde o tempo não passa e tudo parece estagnado, tal como refere JF na entrevista a António Cabrita ao semanário Expresso, em 2002.
O primeiro parágrafo do texto faz lembrar, precisamente, o autor de 2666: um crime, sangrento, perpetrado com requintes de crueldade, a carregar a marca do ódio, construído num cenário onde a vítima é rebaixada à categoria de animal: pendurada pelos pés, tal como um porco, um boi ou um cabrito, com uma maçã na boca e pronta a ser esquartejada.
Ocorre, também, um furto: os sapatos da vítima desapareceram. As suspeitas espalham-se, todos desconfiam de todos e todos receiam a desconfiança do outro. Trata-se de uma aldeia onde a as pessoas se preocupam com o que os outros possam pensar, receando serem apontadas como suspeitas, apenas pelo facto de exibirem uns sapatos novos. Durante um largo período de tempo, todos na comunidade suspendem a vida normal e passam a viver em função do que aconteceu.
O leitor, no entanto, logo no primeiro parágrafo, percebe que está diante de um crime que vai ficar por resolver. As personagens são anónimas, nada se sabe sobre a sua identidade ou passado. Todos – tal como a vítima, a mulher descalça – estão ali de passagem.
O leitor consegue, entretanto, obter um vislumbre dos factos ocorridos, através reconstituição da trajectória de várias personagens que estiveram, directa ou indirectamente, ligadas à pessoa assassinada.
E, tal como acontece com a identidade do ginocida ou feminicida em série em 2666 de Bolaño, na fronteira norte do México, não temos aqui, no norte beirão, em Portugal, uma personagem central que consiga colar os fragmentos da história e reconstituir a peça original. Temos sim, um escritor, um jornalista que sofre um trauma e um subsequente um lapso de memória. Este mesmo escritor/jornalista é assaltado por flashes, reminiscências do passado, a surgir-lhe como relâmpagos os quais lhe ocorrem, intermitentes, mas sem conseguir lembrar-se do “filme” na totalidade. A vai disponde estes estilhaços de memória que lhe vão desfilando na mente, ao longo de uma sucessão de capítulos, sem respeitar necessariamente uma ordem espacial ou cronológica. A única ordem temporal que é respeitada é a do aparecimento desses mesmos clarões de memória. Ao leitor, caberá apenas reconstruir a sucessão espácio-temporal e preencher os “buracos” da trama, lançando ao ar as hipóteses que se multiplicam.
Após o primeiro quadro, a vítima pendurada na árvore, a causar terror e espanto na comunidade, apresenta-se o quadro seguinte: a imagem da mulher descalça, que foi vista a estender a corda entre duas árvores. A forasteira, foi vista a aproximar-se do local do crime, descalça, e tudo indica que tenha sido ela a roubar os sapatos ao morto. A mulher olha a cena e “lê a morte no chão” – isto é, a agonia da vítima escrita a vermelho, um recurso estilístico que leva os leitores a aperceberem-se da dor que lhe é infligida.
No terceiro quadro, assistimos a uma regressão temporal: o escritor viaja acompanhado do bloco-notas onde tem escrito nos apontamentos que chegou ao local para cometer um crime. Literário, supomos nós.
A seguir, temos fragmentos de breves contactos com outros intervenientes da história. Não sabemos exactamente que tipo de relação tem o escritor tem com a mulher descalça ou a vitima com esta, mas sabemos que se conhecem. Da personalidade deste escritor- mistério, depreendemos ainda que se trata de alguém habituado a viajar e que gosta de apreciar os cambiantes da paisagem.
Outro quadro marcante é a pensão onde o chefe da estação é arrastado e onde se aloja o escritor, o qual assiste (ou participa, não sabemos ao certo) na cena. E o quarto, onde presentemente se encontra a escrever a história do crime.
Nunca nos chegamos a aperceber do mootivo que levou a que o mesmo crime acontecesse. O leitor é apenas testemunha ocasional que também está naquele(s) local (is) de passagem. sem nunca chegar a conhecer nenhum dos intervenientes, observando apenas o comportamento e atitudes externas:gestos e movimentos. A partir daqui, seremos sempre nós, leitores a construir a nossa própria versão da história.
Há várias personagens que morrem nesta intriga policial:
- O chefe da estação.
- A mulher que está descalça, no final, quando atravessa o rio, sem saber nadar, atrás de uma miragem, numa espécie de sonambulismo.
Há em todas estas mortes algo de onírico, de surrealista precisamente por não haver uma sequência espácio-temporal de acontecimentos que obedeça a uma sequência cronológica.
Existem várias sobreposições tanto no que respeita aos locais (a colina em Mortágua, a estação em Aljustrel e o quarto da pensão onde está hospedado o escritor, no largo do Rato) como ao tempo. Não sabemos exactamente a localização temporal da história porque não há referência a factos ou datas e as regressões também dificultam a situação numa época específica. É-nos somente concedido um vislumbre de que os factos poderão ter ocorrido há mais de três décadas atrás no momento em que o escritor entra na redacção do jornal e é suspenso o barulho da máquina de escrever: o acontecimento dá-se antes da generalização do uso dos computadores na redacção dos jornais.
Este episódio dá-se na altura em que a mulher descalça vai ao jornal entregar as chaves que encontrou e colocar um anúncio. Há aqui uma sobreposição: perece que ambos se vão encontrar no momento em que o escritor vai à redacção à procura das chaves e a mulher descalça vai levar as mesmas chaves à redacção do jornal para lá colocar o anúncio que informa da perda das chaves. Esta poderá ser a altura em que se conheceram. Ou não. Este poderá ser o momento zero da narrativa em termos cronológicos. A história parece é contada do fim para o princípio, a ordem temporal é suspensa e a tentativa de ordenação dos factos dá-se apenas durante a conversa do escritor com um amigo no deserto onde, aí sim, se percebe que aquela cena ocorre num momento posterior aos acontecimentos da trama principal.
A reconstituição temporal é, pois, o grande desafio lançado ao leitor e o verdadeiro quebra-cabeças da história. Um exercício mental a que nos obriga Jorge Fallorca, fruto de uma imensa curiosidade felina de que sofremos compulsivamente, nós leitores, apaixonados pela grande Deusa que é a Literatura.
Cláudia de Sousa Dias
11.11.2011 e revisto a 12.11.2011

Escritor, poeta, tradutor e Autor do Blogue Nem sempre a Lápis – crónicas, aforismos, excertos de traduções d a sua autoria, música e cinema…Jorge Fallorca é um autor de escrita indisciplinada, intuitiva, errante, ao sabor das emoções e de inspiração marcadamente sensorial.
Ainda adolescente, decidie fugir daquilo a que chama de “Norte asfixiante” – o autor é natural de Mortágua , aldeia situada num vale, abaixo do nível do mar, ao fundo do qual jaz uma várzea, próxima a Santa Comba Dão. Mortágua, do latim Morta Lacum – a significar precisamente “água estagnada” - é uma localidade onde o tempo parece não passar e a mudança se recusa a ocorrer, onde “o mundo desacontece”. Jorge Fallorca sai de Mortágua para ir para a tropa e aproveita a oportunidade para dar um volte face ao curso da própria vida, agitar as águas paradas à sua volta, escoando-se para Lisboa com o firme propósito de aí, dar livre expressão à própria criatividade.
Colaborou no suplemento cultural & etc, do Diário de Lisboa, tendo a sua formação cultural e literária até então sido construída com base no proveito das visitas periódicas da Biblioteca Itinerante da Fundação Calouste Gulbenkian a Mortágua.
Jorge Fallorca é um escritor que associa a literatura e a experiência da escrita à experiência vivida no quotidiano. Um facto que se torna evidente para quem lê as crónicas de A cicatriz do Ar. As influências literárias que mais se evidenciam nas inúmeras intertextualidades da sua escrita são constituídas por um desfile de estrelas do universo da Literatura Mundial: J. Luís Borges, Michaux, Herberto Helder, Aquilino Ribeiro…
A escrita de J. Fallorca é por excelência insubmissa e ousada de tal forma fracturante que chega a acusar grande parte dos escritores contemporâneos de superficialidade e mediatismo. Aqueles que escrevem sobretudo para as revistas de papel couché – “Couché mais jamais touché” – afirma com despudor.
N’algumas crónicas de A Cicatriz do Ar e sobretudo na intrigante trama policial A Mulher descalça, Jorge Fallorca projecta a atmosfera intelectual e socialmente mutiladora do Norte rural e sobretudo beirão, ao afirmar na entrevista a António Cabrita ao semanário Expresso, em 2002, o seguinte:
A Beira, e tudo o que é Norte, as brumas, a bruxaria, a cacicagem padreca, tudo isso me asfixia, é demasiado bolorento.
Após um interregno a que chamou de “dez anos de repouso criativo” - a que poderíamos nós chamar de Síndrome de Bartleby, um trema tão do agrado de Enrique Vila-matas, escritor de língua castelhana a que Fallorca vai buscar a epígrafe do novo livro – Fallorca regressa com uma absorvente intriga policial da qual falaremos mais tarde: A Mulher Descalça.
Depois de publicar Longe do Mundo, Jorge Fallorca adopta uma escrita “muito mais narrativa e controlada”. Numa palavra: contemplativa.
J.Fallorca é um Autor que se afirma adepto da “indisciplina da urgência”, cuja escrita parte da memória que sofre o processo de esquecimento e recordação, pela arte de evocar o passado, invocando-o. A arte de seleccionar a memória é feita através da dança dos processos de supressão ou esquecimento e retenção, a que Autor chama “arte de decantação”, como se faz ao vinho mais rico. Neste caso trata-se de um processo de decantação, feito com minúcia e a longo prazo, após as frases sofrerem o tempo necessário de repouso e serem transfiguradas pelo processo mental de selecção, eliminação. O Autor de que hoje tratamos é alguém que observa o real como “o caudal onde nos libertamos do fingimento, das armadilhas da sedução”.
Em A Cicatriz do ar encontramos dois tipos de textos: Bloco-Notas (parte I) e A cicatriz do Ar (parteII).
Bloco-Notas é constituído sobretudo por crónicas de viagens. Trata-se de uma escrita muito vegetal, pictórica, a registar as diversas gradações de luz e sombra, à medida que se vai modificando a paisagem. É uma escrita errante, porque andarilha.
A casa é sempre o lugar de refúgio, de intermezzo entre viagens. Outro dos elementos recorrentes nestas crónicas é o impacto dos livros no Autor e na forma como estes afectam o curso do seu pensamento que é tudo menos Morta Lacum…N’A cicatriz do Ar damo-nos conta da dimensão que para o Autor adquire a poesia e da grandeza dos poetas a quem chama de “os latifundiários da alma”. Mais uma vez, apercebemo-nos do que é, para o Autor, o processo poético de decantação e da aprendizagem ao longo da vida da “arte de se tornar poeta”, ou seja, da forma como a poesia se constrói a partir daquilo a que chama “momentos congelados do quotidiano” (p.23)
N’ A cicatriz do ar presenciamos sobretudo, a alternância e, por vezes a sobreposição de relatos do quotidiano, com breves instantes de poesia (24). Ou do bailado entre sarcasmo e nostalgia, onde onirismo e surrealismo estão presentes em relatos de sonhos ou projecções das preocupações do dia-a-dia , que afectam o estado de vigília e se manifestam ampliadas durante o sono.
O sentido do pitoresco e a ligação com a terra são-nos dados pela presença de onomatopeia, dos regionalismos e registo de diferentes sotaques (p.30 e 31).
A poesia de Jorge Fallorca é uma poesia animista, onde, na Natureza, está, normalmente projectado o reflexo da alma humana.
Para o Autor, O sul continua a ser uma transgressão (33), motivo pelo qual o Algarve e o Norte de África continuam a ser lugares de eleição para a inspiração poética. A Paisagem vai mudando da desolação da Beira e do cabeço de Mortágua para o quadro do litoral algarvio. O insólito invade o quotidiano e a escrita está na linha de fronteira entre o desejo da partilha e o impulso à clausura.
A Cicatriz do Ar pode ser o relâmpago de uma ideia, o aflorar à memória de algo que estava esquecido, sepultado nas dunas do inconsciente. Ou a inspiração que surge quando menos se espera.
Nada me enternece mais do que vê-la finalmente debruçada a brincar aos jardins nesta terra que tanto desejou e descobriu para se entregar, até me humedecer o olhar.
O local privilegiado de observação é a casa na colina, um lugar marginal, de fronteira, entre o céu e a terra. O ninho da águia. Ou, se preferirmos, entre o mar e a montanha: a água, a terra e as pedras.
A Natureza é o outro prato da balança que permite o equilíbrio do ser humano. No outro extremo está a cultura, isto é, a porção do homem que é burilada pelo meio, pela dita civilização. Na escrita de J. Fallorca, a subjectividade das palavras é-nos dada pelas inúmeras sinestesias.
Soa-me a nenúfares, mas tresanda a frutos.
No que respeita aos livros, o Autor, tal como qualquer coleccionador e leitor compulsivo, vê-se a braços com a falta de espaços para guardar todos os livros: o mesmo se passando com a memória. É mais uma vez obrigado a recorrer ao processo de selecção/eliminação.
Para Jorge Fallorca o processo de escrita resume-se a aprendizagem e memória, onde o sortilégio das palavras e das letras se combinam com a paixão pela vida, que se cruza com uma insaciável curiosidade, cuja sede só se sacia com a leitura.
Na escrita deste Bloco-Notas, sobressai, mais do que tudo, a associação de estímulos: imagens e cheiros ardentemente impossíveis de serem combinados “Glicínias e urina”. (62)
O regresso às origens e a evocação do passado são, por vezes, despoletados pelo surgir inesperado de um elemento do passado que ajuda a recriar o quadro de uma época distante e alimentados pela cumplicidade, observância do mesmo código de conduta.
Nete Bloco-notas As palavras são a casa do escritor. O seu refúgio. O seu Graal.
A Cicatriz do Ar
Todo lo que se disse es poesía
Todo lo que se escribe es prosa
Todo lo que se mueve es poesía
Todo lo que no cambia es prosa
Nicanor Parra
Os textos da segunda parte do livro, A Cicatriz do Ar são inequivocamente poesia. Móveis, flexíveis, podendo o leitor conferir-lhe o seu ritmo pessoal ao modular intencionalmente a frase com a tonalidade da voz, as pausas, criando a própria métrica, da respiração única e individual de cada um.
A Cicatriz do Ar pode ser lida com a voz cava de uma sibila, uma pitonisa, como quem lê um oráculo. As palavras, aqui, lançam um sortilégio, com o sabor de uma profecia. Enigmáticas, obscuras.
Ou o contrário. Pode ser lida com a voz angélica de um adolescente.
Uma poesia que poderá ilustrar o abandono dos homens pelos seus deuses, ou do povo pelos seus governantes, eternos tiranos, como na antiga Hélade, antes da democracia de Péricles.
A escrita prossegue com a mesma errância do espírito, mas desta feita, pelos subterrâneos da mente. Os versos de Fallorca soltam-se, violentos e selvagens como o torvelinho de um vento do deserto, da loucura do sirocco. Por vezes, parecem pintar a destruição do corpo, a erosão causada pela passagem das areias do tempo.
A natureza, hostil, mas ainda incólume é evocada através do mar ou do vento trazendo mais uma vez à luz, a memória, soterrada.
A ânsia ou desejo de liberdade absoluta está patente na imensidão da paisagem matinal do deserto ou do mar, visto da amurada de um veleiro.
Nos últimos textos, é descrita a paixão da liberdade e dos excessos motivados pela descompressão que se segue à opressão.
O silêncio surgirá depois, constante e imenso, como a voz da natureza hostil.
“o luar por onde se escoa a vida rumo ao esquecimento”. Os últimos textos falam de morte, de uma vida que se dissolve no ar, deixando apenas um leve rasto de fumo – a cicatriz no ar.
Ou a errância de um Orfeu pelo Hades.
Cláudia de Sousa Dias
12.11.2011

2 Comments:
Já me transportei para o local do crime com a tua tão eficaz descrição!
Terá sido... o mordomo???!!!
Beijinhos,
Madalena
É uma incógnita...!
csd
Post a Comment
<< Home