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Thursday, August 19, 2010

“Thaïs” de Anatole France (Antígona)




Anatole France é o pseudónimo de Jacques Anatole François Thibault, nascido a 16 de Abril de 1844, Paris e falecido a 12 de Outubro, Saint-Cyr-sur-Loire, em 1924. Publicou o seu primeiro livro em 1868, altura em que desempenhava as funções de assistente de biblioteca, na Biblioteca do Senado. A sua produção literária é vasta, abrangendo vários géneros literários entre os quais a poesia – o primeiro volume de poemas, Les poêmes Dorés, sai em 1873. É agraciado com o prémio outorgado pela Academia Francesa em 1881, pelo romance Le crime de Sylvestre Bonnard. Seguem-se outros títulos como O Lírio vermelho, O Poço de sta Clara, A Rebelião dos Anjos, A Ilha dos Pinguins e Thaïs. Este último aborda a temática do Desejo segundo a perspectiva que vai ao encontro do modelo explicativo do comportamento inspirado na escola psicanalítica, tendo por base o conflito entre as pulsões do inconsciente, ou ID, e as restrições impostas pela sociedade, o superego. No caso de Thaïs trata-se de restrições de ordem mais religiosa do que ética que visam regular os desejos, os apetites, sobretudo sexuais, dos humanos e à questão do conflito entre o princípio do prazer e o princípio da realidade.

A acção passa-se em Alexandria, já na fase da decadência do Império Romano, altura em que o Cristianismo começa a estender a sua influência às classes dominantes. Apesar de ocupada então pelos Romanos e previamente helenizada por Alexandre, a capital do Egipto, enquanto província romana, permitiu sempre uma relativa liberdade de culto, bastante mais evidente do que nas outras províncias romanas. Os elementos ficcionais do romance coincidem com o período no qual Constantino está prestes a publicar o edital fará do Cristianismo a religião oficial do Império. Contudo Thais é escrita e publicada no período final do romantismo, no século XIX, sendo o Autor um homem devotado à Ciência, à Razão, à necessidade absoluta de laicização do Estado, implicando a separação de poderes entre este e a Igreja, como defende um dos personagens presentes na cena do banquete. O romance, na altura em que foi publicado pela primeira vez, causou grande impacto na opinião pública. E o mesmo romance, viria a servir de base para a composição da ópera de Massenet com o mesmo nome.

Anatole France viria a receber, algumas décadas mais tarde, em 1921, precisamente três anos antes da sua morte, o Prémio Nobel da Literatura.

Thaïs

A acção do romance passa-se em Alexandria, na altura em que o cristianismo deixa de estar sujeito às perseguições pelo facto de, até então, ser visto como uma seita clandestina. No entanto, o excesso de zelo por parte de alguns monges como Pafnúcio, o protagonista, é especialmente visado pela refinada ironia do Autor, patente na descrição das atitudes do anacoreta, tido como santo.
O objectivo de Pafnúcio seria obter um tal grau de pureza espiritual que obrigaria a passar por caminhos que pressupunham privações de um rigor extremo, as quais incluíam não só a supressão dos desejos carnais como também os cuidados básicos de higiene, insistindo em ver no sofrimento causado por infecções e noutras perturbações orgânicas, causadas por prolongados jejuns, uma forma de aproximação à divindade. Chega mesmo a fazer do alto de uma das colunas de um velho monumento em ruínas, o seu habitat, à maneira dos ninhos das cegonhas para, dessa forma, se elevar acima do resto da humanidade e aproximar-se de Deus.

Por terem sempre presente a ideia de pecado original, recusavam aos seus corpos não apenas os prazeres e os contentamentos mas até mesmo esses cuidados que, de acordo com as ideias do século, são considerados indispensáveis. Unia-os a crença que as doenças dos nossos membros purificavam as nossas almas (…) as úlceras e as chagas os mais gloriosos adornos que a carne poderia receber (…).


Ao longo de toda a narrativa, contada pelo ponto de vista Pafnúcio a Beleza, a Saúde e o bem-estar, jamais são vistos como virtudes em si mesmas, mas como inimigos da própria Virtude. Alguns tipos sociais ou étnicos são, igualmente associados a determinadas facetas do mal pelo mesmo eremita:


Anjos semelhantes a adolescentes, que para caminhar se serviam de um bordão como o dos viajantes, costumavam visitar os eremitérios, enquanto os demónios, sob a forma de etíopes ou de animais, erravam em volta dos eremitas, com o fim de os induzir em tentação (…).


Os ascetas, julgando-se furiosamente assediados pelas legiões demoníacas, defendiam-se com a ajuda de Deus e dos anjos, praticando os jejuns, as penitências e as mortificações.

Por vezes, o aguilhão dos desejos carnais dilacerava-os tão cruelmente que chegavam a gritar de dor e a responder com as suas lamentações aos uivos das hienas esfomeadas que erravam sob o céu estrelado. Nessas alturas, os demónios adquiriam formas deslumbrantes. Porque os demónios, embora feios na realidade revestem-se por vezes de uma beleza aparente, que não permite discernir a sua natureza íntima.

Do estilo poético deste género da narrativa faz parte o uso da hipérbole (os uivos de desejo em resposta às necessidades corporais que assediariam os monges como hienas) para melhor ilustrar a obsessão e a deturpação ideológica de Pafnúcio. A batalha travada pelo anacoreta não é, na verdade, nem contra o mundo nem contra o género feminino, mas contra si mesmo. Contra o próprio corpo.

Pafnúcio é proveniente de uma família abastada de Alexandria. Foi educado desde cedo a agir segundo o princípio do prazer, mas ao sujeitar-se a uma filosofia estranha – o Cristianismo – que pressupõe uma série de regras e restrições, tendo em vista a moderação e o respeito pelo Outro, o monge deturpa a sua essência, que seria o protesto contra a repressão, o imperialismo romano e a extorsão dos povos colonizados através dos pesados tributos impostos pelos Romanos. As consequências desta deturpação manifestam-se numa progressiva e degradação física e mental do protagonista. A mensagem que o Autor pretende fazer passar em Thaïs consiste em mostrar o absurdo a que leva todo o fanatismo religioso, à luz das ideias do Iluminismo e da devoção ao ideal da Razão, embora encontremos, também laivos da teoria psicanalítica, explicativa do comportamento de Freud.


Paradoxalmente, é na altura em que Pafnúcio julga ter conseguido a tão almejada perfeição, que se apercebe ter sido tudo em vão acabando, na realidade, por destruir a própria vida e a da mulher a quem amava…


Thaïs - Uma tragédia em três actos


Apesar de ter sido escrito sob a forma de romance, Thaïs é uma obra facilmente adaptável ao teatro, não só pelo uso pelo recurso frequente aos diálogos mas pela própria estrutura dramática, tripartida e desenvolvida segundo os mesmos cânones das tragédias clássicas: o páthos de Thaïs e Pafnúcio, a presença da Fatalidade, a hybris ou a soberba do protagonista, o reconhecimento ou anankê e a punição expiação no final, sinal da implacabilidade de Némesis, do Destino ou do dedo de Jahveh.


Parte I – O Lótus

A flor do Lótus é, para os orientais, o símbolo da beleza e, para os antigos Egípcios, a personificação da Pureza. É uma flor que cresce contudo, num pântano, emergindo do lodo e crescendo em direcção ao céu. Possui uma beleza nívea e ofuscante como a bela cortesã e dançarina, de origem humilde, Thaïs, a qual é pelo autor identificada com aquela flor causadora também de embriaguez ou alucinações por algumas comunidades que na Antiguidade a usavam como alucinogéneo. Thaïs tem uma infância difícil, recheada de maus-tratos e exposta socialmente a um ambiente hostil, onde estão presentes o álcool e a violência. Thaïs seria, por isso, uma criança em risco e em situação extremamente vulnerável. Sobretudo porque ser, também, extremamente bela. Conta, inicialmente, com a protecção de um escravo etíope, apreciando-lhe a veia humanitária, e tomando contacto com a nova religião oriunda de terras da Palestina, o Cristianismo. O escravo é, entretanto, afastado e Thaïs aliciada a vender o corpo por uma reputada proxeneta, caçadora de “talentos” e com ligação às altas esferas do poder da sociedade alexandrina, a qual decide treiná-la nas artes de Tersipcore e de Vénus.


Pafnúcio conhece Thaïs durante um espectáculo, antes de se tornar monge. Após abraçar a nova religião, persegue-o a obsessão de “salvar” a deslumbrante cortesã e bailarina. Na verdade, Pafnúcio não suporta perdê-la para os possuidores de fortunas lhe garantem o acesso a sua casa e aos seus favores.



Thaïs é a incarnanão da Beleza e do Prazer, dois dos luxos mais ambicionados. Mas apesar de das adulações e das honrarias que lhe dispensam, a beldade começa a ficar saturada e ser vista como um objecto, entediando-se com as relações superficiais. Após atravessar uma crise existencial que a lança num período depressivo, acaba por se deixar seduzir pelas promessas de Pafnúcio, acreditando encontrar na religião e no retiro conventual a paz que procura, isolada dos seus predadores. Thaïs procura na realidade um portal para a libertação e o respeito votado pela sociedade. Mas no fundo o que Thaïs deseja realmente é o amor em termos absolutos e a amizade destituída de interesse.


Uma personagem utilizada como contraponto em relação a Pafnúcio é o abade Palémon, agricultor e jardineiro, cujo maior gosto assenta no cultivo de um pequeno quintal. Este clérigo de índole pacífica e sem grandes ambições quer materiais quer no tocante a honrarias e veneração dos outros, manifesta grande empatia pelos seres mais tímidos, esquivos, conseguindo mediante paciência infinita, conquistar-lhes a confiança. Palémon é um Cristão para o qual a ambição extrema no sentido de conseguir a perfeição é uma forma de soberba, preferindo encontrar a beleza nas coisas simples e procurar a delicadeza e mansidão das criaturas pacíficas.


Possa então o Senhor abençoar a tua resolução, tal como tem abençoado as minhas alfaces! Todas as manhãs, ele, com a sua força, derrama o orvalho sobre o jardim e a sua bondade faz-me glorificá-lo pelos pepinos e abóboras que me dá. Porque nada é mais temível do que os movimentos desordenados que perturbam os corações (…).

O seu estilo de vida indicia estar o protagonista a perder o seu tempo a tentar igualar a divindade quando deveria amar os outros seres, fossem eles belos ou feios mas possuindo a bondade intrínseca das criaturas selvagens não corrompidas pela sociedade. A construção deste personagem por Anatole France reside inequivocamente na concepção do homem por Jacques Rousseau e a teoria do “bom selvagem”, crente que é a sociedade que corrompe o homem, dotando-o da hybris, do orgulho, manifesto numa ambição desmedida, quer material quer espiritual, traduzindo-se em estados de alma “doentios”:

Por vezes, esse arrebatamento mergulha-nos numa alegria desregrada e aquele que a eles se abandona faz com que ressoe no ar corrompido, o riso sombrio das bestas. Essa lamentável alegria arrasta o pecador para todo o tipo de desordens.


O discurso de Palémon é uma espécie de prenúncio ou indício que faz antever um pouco a actuação de Pafnúcio ao longo do romance. Palémon desempenha em Thaïs a função de um oráculo, como nas tragédias clássicas, ao passo que Pafnúcio surge como um profeta do Antigo Testamento, anunciador de tragédias e cataclismos se a humanidade não sucumbir, por medo, à submissão diante de um Deus omnipotente e vingador. Enquanto isso, Palémon continua a apreciação do fervor religioso como prejudicial à saúde mental dos homens, que vai conhecendo durante a vida monacal:


... foi-me dado perceber, na minha já longa vida, que o cenobita não tem pior inimigo que a tristeza. Refiro-me a essa tenaz melancolia que me envolve a alma como uma bruma e a esconde da luz de Deus.


Este convite à moderação do fervor religioso radica no pensamento racional nascido directamente do Iluminismo ao qual Anatole France vai beber a maior parte do pensamento, manifesto nas entrelinhas do romance e na própria linguagem:


Irmão Palemon, pretendo, com efeito, glorificar o Senhor. Fortifica-me com o teu conselho pois tem o dom de iluminar e o pecado nunca conseguir obscurecer e claridade da tua inteligência.


Sonhos, visões e alucinações


Todos os sonhos de Pafnúcio exprimem, nesta fase, um conflito. Não só aquele que opõe o princípio do prazer ao da realidade mas também a contradição decorrente da distorção do conteúdo dos Evangelhos. Pafnúcio é o homem que perde de vista os fins ao emaranhar-se no labirinto dos meios. Um forte indício desta mesma desorientação é aquele que se exprime na expressão de desagrado da estátua durante o sonho. Trata-se, um aviso do próprio inconsciente Pafnúcio estaria a deturpar o conceito de fé e da relação com o Outro. O erro advém do exagero, que por sua vez, tem radica, como já foi dito, em sentimentos como o orgulho ou a soberba, motivo de ofensa grave para todo o género de divindade – pagã ou cristâ – e susceptível de atrair uma forma exemplar de punição. E Pafnúcio chega mesmo ao ponto de escolher o cimo de uma coluna para viver e elevar-se relativamente ao resto dos homens, distanciando-se do exercício da humildade para se destacar aos olhos de Deus querendo igualar-se-lhe. Ora se Javeh não o permitiria ao Anjo favorito jamais poderia admitir semelhante audácia num homem. Pafnúcio não parece ter consciência de alimenta dentro de si, uma forma subtil de Desejo, ou Tentação: a da Imortalidade. Ou, pelo menos, a de se tornar igual ao Deus que imagina, ou mesmo o desejo de se tornar, ele próprio Deus e dono do destino dos homens. O grande pecado de Pafnúcio não é a luxúria, à qual por mais que tente, não é de todo imune, mas a vaidade e o desejo de poder e de influenciar as massas, de dominar os homens.

Noutro momento da narrativa, a caminho da casa de Thaïs, Pafnúcio cruza-se com um monge hindú/budista em pleno acto de meditação. Ao alexandrino, parece-lhe absurda a aspiração a uma ausência total de desejos sem esperar qualquer recompensa, pelo menos numa vida após a morte. Pafnúcio é incapaz de apreender a noção de equilíbrio interno pela neutralização do desejo ao invés de o reprimir, posição defendida por Timocles de Cós, ao qual a perfeição parece ser passível de ser atingida pelo exercício ou prática desinteressada do Bem em busca de equilíbrio – interno e por acréscimo externo, isto é em relação com a sociedade – sem esperar recompensa ou qualquer espécie de retorno.

Pafnúcio perece ser, por outro lado, impelido pelo impulso de destruição. Esta faceta da sua personalidade parece ter sido inspirada numa figura que causou terror no tempo do Renascimento: o monge Savonarola, conhecido por destruir inúmeras obras de arte e livros, aos quais considerava profanos, em vários auto-de-fé. Este Pafnúcio de Anatole France faz o mesmo com objectos artísticos, livros e tudo o que se pode associar à cultura helenístico-romana ou egípcia os quais entende rivalizarem com a atenção exclusiva exigida pelo austero Deus que imagina. Para este asceta fundamentalista, toda a Beleza, sobretudo quando expressa em forma de Arte criada pelo Homem, transporta atrás de si o Desejo e a Cobiça, afastando os homens de Deus.

A Mulher, representada por Thaïs, está directamente ligada ao Desejo carnal, podendo ser um elemento susceptível de exercer o poder ou a autoridade sobre os homens uma espécie de concorrência directa ao poder exercido pelo clero. Ao converter uma figura carismática e influente como Thaïs, Pafnúcio ganha credibilidade junto das massas populares, convencido da sua superioridade não só em relação à hetaira e cortesã mas também em relação aos intelectuais e filósofos seus contemporâneos. Um dos momentos mais altos do romance é o banquete em casa da jovem cortesã, onde se reúne toda uma corte de sábios, filósofos e políticos não só de Alexandria, mas de várias partes do Império. O cinismo e o cepticismo são a tónica dominante nas discussões que têm lugar durante o banquete. No entanto a desconfiança de Pafnúcio em relação ao amor e ao desejo, parecem radicar apenas e só no medo da vulnerabilidade, não se afasta muito do cinismo de alguns convivas que afirmam que “o amor é uma doença do fígado”.


Parte II - O Papiro a discussão filosófica em casa de Thaïs

Na segunda parte tomar conhecimento com a personalidade e estilo de vida de Thaïs até à altura em que esta opta, persuadida por Pafnúcio, por entrar para a vida conventual. Durante o banquete em sua casa, no qual está presente Pafnúcio, acompanhado pelo armador Nicias, amigo de outrora, acorrem altos funcionários do Império, artistas e filósofos, assim como outras beldades, embora menos conceituadas que Thaïs.

Discute-se a Virtude, a Beleza, o relativismo – usando uma fábula de Esopo. Zenotémis expõe uma genial interpretação do Antigo Testamento judaico; Hermodoro aborda a teoria filosófico mística de Hermes Trimegisto; Nícias mostra-se um nihilista pírrico e Cota, um defensor do despotismo esclarecido, regime no qual o Estado estaria acima de todas as coisas e gozaria de plenos poderes para interferir na vida privada dos cidadãos. Durante a sua exposição, Hermodoro diz temer o futuro da Europa, antevendo o Império invadido pelas tribos bárbaras do Norte e do Oriente. Nas entrelinhas, nota-se o receio do Autor pelas consequências da guerra franco-prussiana fazendo uma clara analogia /transposição entre duas épocas com um abismo temporal de mais de 1500 anos.

De que adianta iludirmo-nos? O império (Romano ou Napoleónico?), agonizante, tornou-se para os bárbaros (Germanos ou prussianos?) uma presa fácil. As cidades, edificadas pelo génio helénico e pela ciência latina em breve serão saqueadas por selvagens ébrios. A Arte e a Filosofia deixarão de existir na terra.

As conclusões retiradas do banquete de Thaïs não agradam muito a Pafnúcio, o qual vê esbaterem-se, talvez demasiadamente para a sua forma simplificada de raciocínio, as fronteiras entre o Bem e o Mal, como na parábola das azeitonas de Hermodoro em resposta ao problema levantado por Nícias: A que chamas tu bem e mal?.

Ao que Hermodoro ...mostrou um pequeno asno feito em metal de Corinto que carregava dois cestos, um com azeitonas brancas e outro com azeitonas pretas:
- Reparem nestas azeitonas – disse-lhe – o nosso olhar deleita-se agradavelmente com o contraste das suas cores, e ficamos satisfeitos por estas serem mais claras e as outras serem mais escuras. Porém, se fossem todas dotadas de pensamento e de conhecimento, as brancas diriam: é bom que a azeitona seja branca e mau que seja preta e o conjunto de azeitonas pretas detestaria o conjunto das azeitonas brancas. Temos sobre isso um melhor discernimento, porque estamos acima delas tal como os deuses estão acima de nós. Para o homem, que apenas vê metade das coisas, o mal é um mal; para Deus que tudo vê e tudo compreende o mal é um bem. Claro que a fealdade é feia e não bela. Mas se tudo fosse belo, o todo não seria belo. Por isso, devemos concluir que é bom que exista o mal como exemplarmente demonstrou o segundo Platão, mais ilustre do que o primeiro.

Trata-se de uma parábola que demonstra a inutilidade e o erro da não-aceitação da diferença assim como o erro do desejo de supremacia de algumas religiões ou nações, culturas ou civilizações sobre outras. Eucrito sublinha a importância das motivações: da consciência e da intenção face à atitude daquele que pratica o mal. (…) O mal é um mal, não para o mundo, cuja indestrutível harmonia não pode destruir, mas para o maldoso que o pratica, podendo não o praticar.

O debate prossegue, discutindo-se o amor e o poder da Beleza até Thaïs se sentir saturada e desiludida por ser tratada apenas como mais um objecto, ou obra de arte, expulsando, num acto de impaciência, os convivas da sala. É a oportunidade pela qual Pafnúcio, como um verdadeiro Rasputine, aguarda por intuir em Thaïs uma certa insatisfação com a vida, aliada a um sentimento de tédio recorrente bem como a vontade não ser reconhecida como apenas um objecto que se deseja possuir. Pafnúcio recorre a todo o seu arsenal de argumentos para a convencer a largar todos os seus bens – destruindo grande parte deles - e entrar para um convento de forma a se purificar dos seus pecados.

III Parte – O Eufórbio


A terceira parte é na verdade quase um epílogo onde ocorre o desenlace, uma espécie de anticlímax, que se segue ao final do segundo acto. O percurso das duas personagens – Thaïs e Pafnúcio – é divergente, tanto no estilo de vida que adoptam como na forma de conquistar a admiração e o reconhecimento da sociedade. O eufórbio é uma planta dúbia: algumas espécies servem de medicamento e são utilizadas como cataplasma para curar feridas; noutras ou utilizada em determinadas dosagens ou ainda combinada com outras substâncias, o seu suco é venenoso. A fé poderá ter o mesmo efeito duplo consoante a “dose “ com que é aplicada; se no primeiro caso poderá ajudar a curar os males da alma (por exemplo, depressão), no segundo poderá agravá-los (comportamentos esquizóides, afastamento da realidade, loucura). Thaïs e Pafnúcio tornam-se os dois paradigmas opostos da aplicação da planta do “eufórbio” que é a fé.

Pafnúcio regressa ao deserto com o objectivo de continuar a aprimorar o seu aperfeiçoamento espiritual. Continua, no entanto, assolado por pesadelos e visões, fruto dos seus prolongados jejuns A ausência de Thaïs – a qual, após a expiação dos excessos da vida anterior, prossegue uma calma vida no convento onde exerce a influência nas jovens noviças - não lhe diminui o desejo e os “demónios” continuam a habitar dentro de si. Pafnúcio desejou e obteve a erradicação da beleza de Thaïs para não amar. Mas não consegue destruir a lembrança dessa mesma beleza. A consumação da tragédia no final do “terceiro acto” revela o erro e proporciona o reconhecimento.

A Clivagem entre Ciência e Religião

O conflito entre a fé e a ciência, nomeadamente a Medicina, para curar as doenças da alma, é uma das grandes preocupações dos filósofos iluministas do século XVIII. E mais ainda, no século XIX, com as descobertas científicas e, também, com o aparecimento da Psicologia como ciência autónoma em relação à Filosofia. A colagem desta linha de raciocínio na época em que vivem Thaïs e Pafnúcio é proporcionada pela intervenção de Lúcio Cota na cena em que exibe o seu cepticismo quanto aos poderes curativos e a eficácia dos supostos milagres de Pafnúcio:

Viva, Pafnúcio. Que fazes tu, aí em cima? (...)terá essa coluna para o teu espírito uma conotação fálica? (...) Por Júpiter, estás a ouvir o que diz, Aristeu? (...) O nefelococcífero exerce, como tu, a Medicina! Que me dizes de um tão elevado colega??.

(Aristeu)

É possível que ele cure, melhor até do que eu próprio, certas doenças como, por exemplo, a epilepsia (...), a causa desse mal está em parte, na imaginação e tens de reconhecer, Lúcio, que este monge, empoleirado naquela cabeça de deusa, impressiona mais fortemente a imaginação dos doentes do que eu, curvado no meu laboratório, no meio de grosas e almofarizes. Existem forças, Lúcio, infinitamente mais poderosas que a ciência e a razão.

(Cota)

Quais?

(Aristeu)

A Ignorância e a Loucura.

A crítica aos fazedores de falsos milagres é impiedosa assim como a demonstração da eficácia do poder de auto-sugestão da mente nos seres mais impressionáveis.

Assim Thaïs é uma obra revolucionária, de um Autor mundialmente reconhecido embora não do conhecimento das massas, mas capaz de influenciar alguns dos Autores portugueses mais progressistas como Eça de Queirós e o recentemente falecido, também Prémio Nobel da Literatura, José Saramago.






Cláudia de Sousa Dias

6 Comments:

Blogger Baudolino said...

Gosto muito de reflectir sobre estas questões da influência na literatura, na arte, em geral, no sentido em que todos os textos são reescritas do que somos em dado momento e todos os textos acabam por conter-nos, com a nossa circunstãncia. Reflexão pretensiosa, esta, mas foi sobre isto que fiquei a pensar na sequência de ler o teu excelente texto sobre esta obra de AFrance.

12:45 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

nada disso...tu é que és extremamente generoso aqui com a "escrevinhadora, Bau...

CSD

4:27 PM  
Blogger Ricardo Antonio Lucas Camargo said...

Li esta narrativa de Anatole France em um volume que englobava "A queda dos anjos" e "O jogral de Notre-Dame". A questão do "mal-estar da civilização" a que Freud se referia está exposta, aí, em toda sua nudez. Da ópera - em que Paphnuce se converteu em Athanaël, por problemas de rima - só tive a oportunidade de ouvir a famosa peça para violino que se situa no entreato, a "Méditation". É curioso como Thaïs muito tem da Esther Gobseck de Balzac, em busca da purificação de uma vida antes dedicada às orgias, e que tem na figura do impiedoso sacerdote a imagem da salvação, com a diferença de que Paphnuce/Athanaël é um sacerdote sinceramente fanático que, depois, vem a sucumbir ao desejo insatisfeito de possuir Thaïs e passa, inclusive, a negar a própria existência de Deus - num certo sentido, Anatole, que era ateu, mostra como o fanatismo constitui um dos caminhos mais curtos para a descrença -, ao passo que Carlos Herrera/Jacques Collin é um falso padre, um criminoso que manipula as pessoas a seu redor conforme os seus próprios caprichos.

3:38 AM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

eu, de Anatole France para além deste só li ainda "a Ilha dos Pinguins" mas são muito boas sugestões...

:-)


csd

10:45 PM  
OpenID djamb said...

Belíssimo post, como sempre! :)

12:08 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Obrigada Djamb! Dou-lhe os parabéns por conseguir ler este texto que mais parece um camião tir!

DEscobri o Autor em 2004, com a alegoria "A Ilha dos Pinguins" publicada pelas edições do Diário de Notícias, na colecção Prémios Nobel, mas só agora li esta obra-prima!


um grande abraço


csd

4:34 PM  

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