HÁ SEMPRE UM LIVRO...à nossa espera!

Blog sobre todos os livros que eu conseguir ler! Aqui, podem procurar um livro, ler a minha opinião ou, se quiserem, deixar apenas a vossa opinião sobre algum destes livros que já tenham lido. Podem, simplesmente, sugerir um livro para que eu o leia! Fico à espera das V. sugestões e comentários! Agradeço a V. estimada visita. Boas leituras!

Name: Claudia Sousa Dias
Location: Famalicão, Norte, Portugal

Bibliomaníaca e melómana. O resto terão de descobrir por vocês!

Saturday, July 04, 2009

“O Segredo da Trapezista” de Óscar Málaga Gallegos

Quem vive um dia de inocência e alegria é imortal

Uma estória que apela ao sonho, à fantasia e ao impudor, na exploração de tabus que não deixa de causar um pouco de incómodo.



O livro O Segredo da Trapezista é dedicado a duas mulheres que serviram de inspiração ao Autor como ele próprio afirma na sua dedicatória:

à minha avó cujo amor me alimenta a insensatez; a Xi Pei cujo amor me inventa

Trata-se de um romance de época, cuja acção decorre na Lima do sec. XIX, em 1931, que envolve a recordação de um dia mágico: o dia em que o circo chegou à cidade. A entrada triunfal de uma companhia de circo à beira da falência provoca o espanto e a curiosidade na população de uma cidade pacata, cuja rotina transforma os seus habitantes em seres apáticos e indolentes. Trata-se de um momento de cor e alegria na vida quem, até ali, sempre se movimentou num cenário com a mesma tonalidade monocromática.

O director, num acto desesperado para encontrar uma solução financeira para o seu empreendimento, de forma a evitar o fantasma da miséria, decide juntar o útil ao agradável ao deixar vir ao de cima o seu talento natural de proxeneta e, simultaneamente, aproveitar para satisfazer algumas pulsões sexuais proibidas, pelo que utiliza um pretexto ou motivo socialmente justificável a servir de atenuante como sendo o de “salvar o circo”.

Passa, então, a instruir sexualmente a trapezista, loira e adolescente, nas lides sexuais perante a impassibilidade dos restantes membros do circo, paralisados pelo medo da fome que os torna impotentes para reagir ao comportamento tirânico do patrão.

O livro é uma paródia à situação de crise mundial, estilizada através do recurso a uma alegoria de uma sociedade que tem no comando líderes ineptos a ocupare os postos de chefia de sectores fundamentais para a estruturação e articulação dos diversos agentes económicos, que dispõem dos seres anónimos como marionetas, eliminando os afectos espontâneos e o direito inato à procura do prazer e da felicidade.

Outro dos sectores visados pela crítica mordaz e pelo humor negro do Autor é a classe dos militares e, particularmente, a pusilanimidade dos generais que estão mais preocupados com a ostentação da farda e outros sinais de distinção social do que com o brio no trabalho e a finalidade do mesmo.

A prepotência dos mesmos militares face ao povo índio, na defesa dos interesses das classes privilegiadas e do colonialismo é outro tema explorado no romance, assim como o jornalismo ao serviço do Poder instituído. Esta última classe é particularmente visada pela língua viperina de Óscar Málaga Gallegos o qual classifica os jornalistas de propaganda do regime como “putas ao serviço do Governo”.

E para enfatizar ainda mais a puerilidade da figura do general emproado, o Autor cria a personagem Dom Juan de Alcazár y Benavente, um sujeito fraco, impotente e misógino que é sexualmente abusado pela mãe na tentativa desesperada para o transformar num homem. Com a introdução do elemento incesto, o Autor pretende dar um soco no estômago na sociedade pseudo-politicamente-correcta de Lima, sobretudo na hipocrisia instituída, composta por senhoras falsamente bem-comportadas e machos falsamente viris.

Por outro lado, é exaltada a dimensão do sonho e, também, da imaginação, da fantasia e inocência, envolvendo os diversos elementos do circo, que estão, no entanto, sob o jugo do director que os manipula como se de simples bestas se tratassem.

A atracção sexual espontânea que se estabelece entre a Trapezista Gémea Loira e o Comedor de Fogo sob o olhar benevolente do pachorrento paquiderme que os observa pelo canto do olho está à margem de tudo isso como sinal de independência e insubmissão.

Inocentes são também os habitantes de Lima os quais, como crianças que continuam a ser, muito depois de atingirem a idade adulta, continuam a deixar-se fascinar por seres estranhos, aberrações que só no circo conseguem encontrar um lugar e um sentido para a vida, tal como a mulher barbada, os anões ou o Homem mais Forte do Mundo.

O circo ficará para sempre gravado na memória das crianças da época, apesar dos estrangulamentos económicos e da escassez de dinheiro que atravessa. Os seus palhaços são evocados, muitas décadas mais tarde, pelos velhos que eram meninos na época quando compram caramelos com forma de palhaços em qualquer lojeca da esquina.

A repressão e o recalcamento da revolta

O staff do circo nutre, na realidade, um certo desprezo para com D. José, o Director do Circo.

E o Anão Grande urinou em cima da cadeira ainda quente que D. José ocupava sempre”.

O elefante, sendo a grande atracção do circo, conseguindo sempre mobilizar a atenção do público, devido à força, ao carácter selvagem e, simultaneamente dócil, que desperta sempre a simpatia alheia. Também o carácter independente de quem não se deixa levar por elogios fúteis de bajuladores que se acotovelam diante do aspecto pesado e algo grotesco da estranheza que causa “um animal que tem orelhas de planta silvestre, nariz de serpente, pernas de árvore e olhos de coelho”, ocupa um lugar simbólico muito especial na trama:

O circo era como o elefante: desconhecido, rugoso, selvagem, terno (…) a continuara a levar pelo mundo a sua irremediável solidão de ser diferente, descomunal e único (…) as pessoas vêm ao circo para se encherem de nostalgia perante a ideia de que um dia foram mais fortes que a natureza (…); o circo é a única igreja, a única religião que os homens têm na alma”.

Em relação à história e cultura Russa, introduzida pela farsa que a trapezista loira terá de interpretar a pedido do dono do circo, poderão ser encontradas algumas incongruências, propositadamente introduzidas de forma a haver coerência entre a ausência de quase total conhecimento da história e cultura europeia pelas gentes simples do Peru no sec XIX que nunca puseram os pés no velho Continente, como quando se referem a Hércules como o “Rei dos Romanos”.
Curiosamente a presença de alguns anacronismos nos nomes citados faz pensar que a obra pretende traçar um paralelismo entre as épocas que marcaram a evolução económica e política dos últimos séculos e que se reflecte directa e indirectamente no quotidiano do cidadão comum.
O Homem mais Forte do Mundo é outra das grandes atracções do Circo, está dividido entre o amor que sempre desde sempre pela mulher barbada e por uma sereia, mulher feminina, de aspecto delicado mas que exala um atroz odor a peixe. Trata-se de uma parábola, de contornos surrealistas a representar a utopia do amor ideal e a presença de um amor concreto a corresponder às pulsões terrenas dos sujeitos.

D. José, o dono do circo é, apesar dos seus defeitos, inquestionavelmente um líder que molda a personalidade do seu staff à sua própria imagem e semelhança tal como se vê pelo comentário do Comedor de Fogo para a Trapezista Loira: “No circo, todos somos parecidos com D. José”.

Mas em contrapartida “as ilusões nunca se apagam, transformam-se em recordações, papéis nos bolsos, e então já não vives a perseguir ilusões mas como um velho a proteger recordações, a encher os bolsos de coisas que não disseste”.
A nostalgia da juventude perdida de D. José e o amor são os elementos chave do romance, um dos principais vectores da estória a envolver os personagens, mobilizando-os.

Outro dos símbolos utilizados por OMG é o legado das floreiras deixado pelo pai de D. Juan de Benavente, o militar pusilânime violado pela mãe – mais uma parábola, desta vês referente à fragilidades de quem cede a todas as pressões vindas da sociedade, neste caso representadas pela família cujo expoente máximo de repressão está condensado na figura da mãe manipuladora através de uma relação edipiana.

Por outro lado, as floreiras como herança do pai, representam não o mecanismo de manutenção do património familiar mas, também, a necessidade de conservação da cultura e do património natural do Peru, ao invés de delapidá-lo tendo em vista apenas o lucro a curto prazo. Trata-se, também, da aspiração à imortalidade por parte de um indivíduo que dedicou a vida a construir algo e que, enquanto estiver intacta a sua obra, é como se se mantivesse viva uma parte de si próprio. As plantas das floreiras são como que o prolongamento da vida do pai de D. Juan Benavente. É por essa razão que, ainda vivo, cuida das floreiras “com o mesmo amor que os monges taoistas destilavam o suco luminoso do cinábrio”. Aqui o Autor não consegue deixar de demonstrar o imenso amor pela cultura oriental que se manifesta numa erudição refinada onde deixa transparecer a voz velada do narrador não participante.

A Trapezista Loira é seleccionada por D. José de forma a fazer-se passar por princesa russa com o objectivo de seduzir Dom Juan o qual, acabará por financiar o circo salvando-o da falência. Um dos aspectos mais cómicos da obra é a ignorância manifesta pela mesma Trapezista Loira e restantes personagens acerca do idioma russo. Ignorância que tenta a todo o custo disfarçar com um patético e minimalista arsenal de palavras que se reduzem a meia dúzia de figuras de proa do regime soviético num escandaloso anacronismo!

A classe política acaba, também, por ser visada pelo Autor ao referir-se à grave crise ministerial, ocorrida em 1831, mas que voltaria a repetir-se no último quartel do século XX e cujos efeitos se fazem sentir, ainda no século XXI, adquirindo esta um carácter crónico e assumindo, ao mesmo tempo, uma faceta endémica que se traduz no marasmo a que é sujeita a vida dos cidadãos…

Dizem que acontece muito neste país, é uma epidemia…”

Dom Juan apaixona-se pela pseudo-virgem loira que é também uma falsa princesa russa. Esta vê-se a braços com a dificuldade crescente em manter a máscara. A desculpa é a do desconhecimento da língua para não falar com o noivo. A ausência de quase total de diálogo entre o casal também proporciona momento de alguma hilaridade, servindo para camuflar a quase total ausência de refinamento na jovem. Uma característica que é notada por quase todos os que habitam a casa de D. Juan de Benavente excepto pelo próprio. A Trapezista Loira revela, no entanto, uma garça e agilidade inerente à profissão desempenhada no circo evidenciando-se em cada gesto ou movimento de graça felina.

Por outro lado a paixão da “Princesa” pelo Comedor de Fogo torna-se cada vez mais difícil de ocultar…

Já para a mulher barbada só o amor paternal é verdadeiramente desinteressado. É por essa razão que está convencida de que é filha do elefante, por este afagá-la com a tromba “com a mesma ternura de um pai”: “ Aos pais, por maior que seja o seu amor, imensa que seja a sua ternura, só lhes é permitido tocar delicadamente nas filhas…”

O ponto de vista do amor absoluto para esta estranha mulher não deixa de ser sublime apesar de desconcertante:

Porque nós, as mulheres, prendemos a viver com os homens, a amá-los por serem tontos, por terem sonhos ridículos, aspirações medíocres, aprendemos a dividir o nosso amor em mil quartos e abrigamos os homens num deles, o mais pequeno, o mais húmido, o único que procuram e também aprendemos a viver com os outros quartos vazios e, de vez em quando, a receber surpreendidos visitantes que têm a chave, sem que nós algumas vez lha tenhamos entregue, mas o nosso maior sonho é um dia conhecer um ser tão pouco homem, mas tão parecido com Deus, que possa ocupar os nossos dez mil quartos de amor…”
Nenhum dos personagens masculinos da estória se aproxima dessa categoria, nem o Comedor de Fogo ou mesmo O Homem mais Forte do Mundo. São simplesmente seres humanos, inocentes, bravios e rudes que tentam ocupar o lugar que todos ocupam.

Como já foi referido, D. José é o modelo de conduta dos personagens masculinos do circo desta estória, como afirmou o Comedor de Fogo Romântico. E D. José é um homem incapaz de ensinar o amor a alguém, fixando-se apenas pelo ensinamento da “arte de salvar” o circo. Usando de competências sexuais, obviamente. No entanto há uma altura em que a trapezista loira deixa de ser capaz de exercer “a arte de salvar o circo” por estar apaixonada pelo Comedor de Fogo Romântico.

E, segundo o narrador, “As pessoas apaixonadas apagam todas as luzes do planeta para acender aquela que ilumina o rosto da pessoa amada. E atravessam o espelho para se juntarem a uma multidão de seres cegos que devoram com prazer as suas ilusões”. Que se apagam à medida que amadurecem e se transformam em recordações.

Com uma certa dose de cinismo de uma alma materialista D. José afirma: “Recorda toda a tua vidinha. A Verdade é apenas um problema técnico”, sendo que a memória comporta sempre uma certa dose de ficção.

O desgosto de amor do Comedor de Fogo Romântico, já no final da estória, num acesso de loucura, leva-o a tomar a resolução de por fim aos planos de D. José para as gentes do circo e, particularmente para a trapezista loira, fazendo lembrar um pouco o episódio de Samsão no templo de Dagon…

Um belo, chocante, provocador e sublime romance de um autor nos chegou trazido pelas “Correntes” do Atlântico que vêm desaguar à Póvoa.

Esperemos que mais vezes.


Cláudia de Sousa Dias

Monday, June 22, 2009

“Quase todas as Mulheres” de J.J. Armas Marcelo (Dom Quixote)

Detentor de uma vastíssima cultura literária, clássica e contemporânea, J.J. Armas Marcelo conta já com um extenso curriculum de publicações literárias, desde 1974, com El Camaleón sobre la Alfombra, que ganhou o Prémio Galdós, até Quase todas as Mulheres romance que arrebatou o Prémio Ciudad de Torrevieja, 2006. Da extensa lista de obras publicadas fazem parte, ainda, Estado de Coma y Callina (1978), Las Naves Quemadas (1982), El àrbol del Bien y del Mal (1985), Los Dioses de si mismos (1989), Madrid, Distrito Federal (1994), Cuándo éramos mejores (1997), Así en la Habana como en el Cielo (1998), El Niño de Luto y el Cocinero del Papa (2001), El Orden del Tigre (2003), assim como ensaios e biografias. Foi ainda, director do programa Los Libros, na TVE, durante quatro anos.

Quase todas as Mulheres é um romance híbrido que se desenrola a duas velocidades onde, dentro da narrativa principal, que é composta pelas estórias, devaneios e aventuras amorosas de um Casanova madrileno do século vinte, Nestor Rejón – um prestigiado ourives que se serve das qualidades eróticas das suas amantes para obter a inspiração de forma a executar belas esculturas em ouro e peças de joalharia fina –, se desenvolve a investigação levada a cabo pela namorada deste acerca da vida de Giuseppe Tommasi di Lampedusa, autor de O Leopardo.

Sobre a obra e o personagem central, Autor sintetiza a temática principal em poucas palavras:

Nestor Rejón descobre desde criança a beleza e os tesouros inabarcáveis que se escondem no corpo e na alma das mulheres. Com os anos, graças às suas esculturas em ouro, converte-se num ourives de renome internacional e, da sua tranquilidade madura, recorda todo um passado, como pesquisador de “ouro”, um metal precioso e misterioso como as mulheres que amou.”

No tempo presente da narrativa o protagonista vive um romance que parece ser a síntese das memórias eróticas de todas as estórias do passado, com a jovem anglo siciliana Sarah d’Allara.

À medida que ambos percorrem os lugares de uma tórrida beleza agreste em plena canícula siciliana fazendo lembrar algumas descrições de Fabrizio Salina no célebre romance de Lampedusa e alguns planos do filme homónimo de Visconti, pela mão de Sarah, que o conduz através dos meandros de uma investigação de contornos quase obsessivos da vida de Tommasi di Lampedusa e de O Leopardo. No entanto, nem tudo é perfeito: o ourives assiste, desconfiado e mordido pelo ciúme, ao assédio de Tony Limpito, o ex-namorado de Sarah que a persegue com o intuito de a reconquistar.

Uma das dimensões exaustivamente exploradas é a estória da cronologia erótica de Rejón, o qual, para além de exercer o ofício de ourives, trabalha como um verdadeiro mineiro no que diz respeito à pesquisa da alma feminina dentro da livre expressão individual do erotismo feminino. Esse é o “ouro” - que aqui simboliza, a felicidade, o estado de bem-aventurança ou, simplesmente, o prazer da luxúria - que tenta encontrar nas mulheres que se relaciona, sendo por quase todas as mulheres correspondido de uma forma ou de outra.

Rejón é, em todos os aspectos da vida, não só um esteta, mas um sibarita, amante do luxo, que aprecia e valoriza o belo em todos os aspectos da vida e que gosta de fruir o prazer na sua forma mais requintada -, algo que se reflecte na qualidade dos objectos com que gosta de se fazer rodear, sobretudo na decoração da casa denominada de La Cuppula, em Taormina terra que cativa pelo clima, pela paisagem soberba e pela gastronomia. Este refúgio de luxo é trata-se de um verdadeiro paraíso da arte, uma espécie de gruta de Ali-Bábá.

O artista do ouro” analisa e recorda, durante as horas de ócio, as relações que teve com as várias mulheres ao longo da vida ao longo da qual se foi dissipando a própria juventiude. No entanto executa essa mesma análise apenas do ponto de vista masculino, identificando as falhas e imperfeições apenas nas mulheres que nunca identifica totalmente com o seu ideal, exceptuando a última, Sarah d’Allara. O autor foca sobretudo o aspecto erótico e as afinidades – ou a falta delas – nas relações. Contudo existe sempre um distanciamento, patente na forma como cita repetidamente o nome completo de cada uma delas, como se só ouso do primeiro nome trouxesse uma proximidade excessiva, constituindo um peso demasiado grande na própria vida e nas emoções associadas à memória de cada uma delas, salvo em duas excepções: Eladia, a mulher que o inicia nas lides eróticas e Berta, a mãe das duas filhas.

A estória de Eladia reveste-se de um teor particularmente picante, de sabor proibido, envolvendo o pré-adolescente Nestor, que ainda nem sonhava em ser ourives, e a jovem empregada doméstica, fazendo lembrar Gonzalo Torrente Ballester e o início do romance “Filomeno, para meu pesar”. A lembrança da experiência com Eladia é como que um relâmpago um choque eléctrico que irá inspirar e despoletar os seus dotes artísticos que canaliza para o trabalho em ourivesaria. As sua primeira escultura em ouro é um sexo feminino, que lhe garante sucesso absoluto na sua primeira vernissage. Eladia é única que é tratada de forma mais intimista e, também, a única que Nestor deseja manter anónima pela omissão do sobrenome.

Berta Solán, a mulher com quem vem a casar, nunca lhe inspirou uma paixão arrebatadora mas é o relacionamento que consegue perdurar no tempo, uma mulher à qual permanece ligado, directa ou indirectamente devido às filhas que têm em comum.

A jovem Sarah d’Allara, o amor da idade madura é, simultaneamente, a imagem de Angélica do filme O Leopardo de Visconti ou seja, a projecção de um ideal de beleza rosto da mulher siciliana.

Sarah d’Allara é a investigadora da vida de Lampedusa cujo resultado Rejón relata nas suas memórias, percorrendo com a jovem o recantos da ilha por onde aquele passeava a sua solidão contemplativa e, inclusive, a pastelaria onde diariamente se sentava a escrever e a comer bolos.

É pelos olhos de d’Allara que Rejón fica a conhecer, integrando nas suas memórias, os maneirismos perfeccionistas, a tristeza crónica, os gostos pessoais, a extraordinária capacidade de observação e perspicácia em constatar e analisar a mentalidade de uma sociedade que, apesar do avanço dos séculos, nunca sai do marasmo, do imobilismo. O Autor consegue captar, de forma exaustiva e cheia de detalhes, a personalidade introvertida do escritor siciliano, ao servir-se do discurso inflamado da personagem Sarah como canal e do olhar analítico do esteta que é o protagonista, Rejón para transmitir ao leitor a deliciosa crónica de uma viagem de sonho cujo pretexto é o de conhecer in loco os lugares de perambulação diária de um dos melhores autores da língua italiana de sempre.

J.J. Armas Marcelo tinha afirmado numa entrevista concedida em 2007 na Póvoa de Varzim, durante o encontro internacional de escritores de expressão ibérica, Correntes d’Escritas, tendo sido este livro fruto de uma vontade de tecer uma merecida homenagem a um escritor como Lampedusa.

A tragédia do desamor e solidão do escrito a par de um imenso amor à escrita e à literatura cujo contributo e valor só foi reconhecido postumamente, sobretudo pelos sicilianos.


Cláudia Sousa Dias

Prémio


«O selo deste prémio foi criado a pensar nos blogs que demonstram talento, seja nas artes, nas letras, nas ciências, na poesia ou em qualquer outra área e que, com isso, enriquecem a blogosfera e a vida dos seus leitores.»
O galardão foi-me atribuído pela Teresa do com-livros e membro da direcção do Orgia Literária.
Lemniscata: curva geométrica com a forma semelhante à de um 8; lugar geométrico dos pontos tais que o produto das distâncias a dois pontos fixos é constante. Lemniscato: ornado de fitas; do grego lemniskos, do latim, lemniscu; fita que pendia das coroas de louro destinadas aos vencedores. (in Dicionário da Língua Portuguesa, Porto Editora)
de acordo com as regras atribuo o Prémio deste post aos seguintes blogues:




à Isabel Mendes Ferreira do Piano http://www.mendesferreira.blogspot.com/


à Marta, a água que dá vida ao próprio planeta que é o http://www.havidaemmarta.blogspot.com/


ao Miguel (Dante) Carvalho por http://www.adevidacomedia.wordpress.com/






e, claro, à minha querida Elipse pelas sua palavras em linha em http://www.osentidodaspalavras.blogspot.com/


Monday, June 15, 2009

“o remorso de baltazar serapião” de Valter Hugo Mãe (Quidnovi)

Com este romance que arrebatou o Prémio Saramago, Valter Hugo Mãe traça um retrato da época medieval, aproveitando para ir ao fundo da questão da violência doméstica ao usar uma sincretismo estilístico, adaptando o uso da ironia a uma parábola à violência doméstica.

As raízes de uma mentalidade falocrática que se estendem até às profundezas do subsolo dos arquétipos culturais que parecem manter-se vivos até aos dias de hoje, em que morrem cerca de dez mulheres por ano, vítimas de violência doméstica, é o tema base que se pretende explorar no romance.

O autor pretende com esta obra demonstrar que à necessidade de domínio à qual está subjacente a violência, prende-se muitas vezes com o desejo de posse aliado a um ciúme patológico que atinge, não raro, proporções que acabam por cair no domínio da paranóia, de onde advém a necessidade de submeter com o pretexto de “educar” as mulheres pelo medo.

o mundo que as mulheres imaginavam era torpe e falacioso, viam coisas e convenciam-se de estupidez por opção (…) cheias de vícios de sonhos como delírios de gente acordada como se (…) tivessem sido envenenadas por cobra má (…). Aos homens se pudesse ser dado maior ócio, alguma coisa boa ainda podia vir, como artes várias, destreza de pintura, por exemplo, mas às raparigas nada lhes dava o ócio, , mesmo para bordarem tão parecidas com estarem a fazer nada,, havia que lhes dar severas lições (…), de outro modo trocariam os pontos e os seus trabalhos seriam estropiados, sem beleza, ofensivos para a dignidade da mesa.

O mote para o desenvolvimento da narrativa prende-se com a citação de Jorge Melícias:

Há a boca pisada de pedras e o remorso
é uma parede mordida pelo eco
.

No que toca ao estilo, o texto, totalmente desprovido de maiúsculas, foi intencionalmente dotado com esta particularidade de forma a acelerar a leitura da narrativa que está imersa em toda uma retórica de inspiração medieval cujo arcaísmo exprime o pensamento das gentes simples que atribuem uma explicação sobrenatural a tudo aquilo que não conseguem explicar, inclusive algumas marcas do raciocínio intuitivo tradicionalmente atribuídas às mulheres.

A personagem feminina principal é Ermesinda, silenciada pela via do terror, que se concretiza quer em ameaças verbais quer em torturas físicas.

No contexto social Idade Média, em que se desenvolve a acção, apesar da transversalidade que a transporta para a época contemporânea, a fêmea humana é equiparada a uma vaca ou sarga, animal que é o responsável pela alcunha da família, “os sargas”, os quais tratam a vaca como se esta fosse membro da família, inclusivamente melhor do que os membros femininos do mesmo agregado, uma vez que esta dá carne e leite.

A mãe de Baltazar é, inclusive, tratada como um ser biologicamente inferior que só serve para procriar.

a minha mãe não discernia senão sobre a lida da casa. estropiada do pé, pouco capaz de ver, ficara inutilizada para as coisas dos senhores (…), uma mulher é ser de pouca fala , como se quer parideira e calada (…) ajeitada nos atributos, procriadora, cuidadosa com as crianças e calada para não estragar os filhos com os seus erros. também para não espalhar pela vizinhança a alma secreta da família, que há coisas do decoro da casa que se devem confinar aos nossos.

E, como se depreende pela leitura do parágrafo, o silêncio é o maior inimigo das mulheres.
Brunilde, a irmã de Baltazar, vai trabalhar para os senhores, de quem a família é vassala, onde é abusada sexualmente. Resolve tirar proveito da situação mas, também, não estaria em condições de se negar aos favores do seu suserano.

Brunilde exibe, no entanto, uma submissão aparente para garantir a sobrevivência, utilizando como ferramenta o próprio poder sexual. Para Baltazar inclusive este saber começava a tornar-se suspeito: a brunilde achava que dom afonso era pouco competente e eu começava a desconfiar que alguém mais se punha nela, tão sabedora começava a soar.

Baltazar escolhe para esposa uma jovem totalmente diferente de Brunilde. Ermesinda é dona de uma beleza radiosa, é protegida pelos pais e, no limiar da adolescência, casa com Baltazar mal lhe vem a primeira menstruação.

a minha mulher haveria de ser ermesinda. eu sabia quem ela era (…). era filha de um pobre homem que o meu pai conhecia a vida toda. mais nova que eu dois anos, queriam casá-la para que se tivesse em honras antes que algum malandro lhe deitasse a mão.

Já Aldegundes , o irmão mais novo, é um jovem cuja sensibilidade o prende à doçura do olhar de uma vaca, mais propriamente da sarga, responsável pela alcunha da família, sofrendo de forma atroz quando tem de se mudar – e à vaca – para alojar o casal.

Outro arquétipo feminino explorado é o da mulher que vive autónoma, mas que para tal utiliza a sexualidade à custa da qual sobrevive, mantendo um certo ascendente sobre a população masculina, graças à sua actividade: a prostituta Teresa Diaba.

a teresa diaba era quem vinha muito por mim isto é, era quem valia a Baltazar para lhe satisfazer os apetites antes de casar com Ermesinda.

parecia uma cadela no cio, farejando, aninhada pelos cantos das árvores e dos muros, à espera de ser surpreendida por macho que a tivesse. Era toda carne viva (…). abria-se como lençóis estendidos e recebia um homem com valentia sem queixa nem esmorecimento. era como gostava, total de fúria e vontade, sem parar, a ganir de prazer. (…) estropiada da cabeça, torta de braços, feia, ela só servia de mamas, pernas e buracos

A Teresa Diaba representa a atracção pelo grotesco, algo que não é preciso cuidar ou preservar. É com base nesta premissa que Baltazar estropia mais tarde Ermesinda. Para não ter de estar em cuidados quando está para fora, na esperança que ela não chame a atenção de eventuais predadores de beleza. No entanto, o ciúme patológico a raiar a esquizofrenia acaba por encontrar pretextos para justificar o prolongamento dos maus tratos, mesmo após a beleza de Ermesinda estar completamente destruída.

Baltazar tem o comportamento modelado pela forma como o pai trata a mãe ignorando, inclusive, o grave estado de saúde em que esta se encontra, com requintes de sadismo levados até às últimas consequências:

o curandeiro, eu notei, sabia que ao meu pai aproveitava muito a tortice da minha mãe. com o pé a modos de pouco andar, ela havia de estar sempre por ali e mais que a faria do meu pai, pudesse acontecer um dia, à minha mãe não lhe valeria corrida alguma.

Enquanto isso a maior preocupação da família continua a ser a vaca…

o aldegundes pedia ao curandeiro pela sarga constantemente. que fosse a vê-la (…) se nos dissesse como engordá-la, ainda que as nossas rações fossem nenhumas de tanta pobreza
De onde a vaca toma o lugar da mãe como se pode constatar na página 36.

o curandeiro farto de garantir que a minha mãe estava seca como uma pedra, impossível vir dali uma criança, bicho ou coisa. não pode vir nada, gritava (…) como arranjou estes filhos, conte-nos o senhor sarga, porque da sua mulher nem adianta pensar nisso (…)éramos filhos da sarga (…) éramos como filhos da sarga.

Baltazar desenvolve a partir do modelo de conduta do pai um bestial complexo de Othello, o ciúme paranóico, destituído de qualquer vestígio de fundamento, que é ampliado pelo sucedido com Brunilde, que o leva a intimidar e a aterrorizar a esposa com o objectivo de a dissuadir a ser-lhe infiel – um dia. Pior ainda quando dom Afonso mostra interesse na presença de Ermesinda como serviçal na casa grande.

Aldegundes, apesar de alguma animalidade e de um profundo amor espiritual e físico pela vaca - ironia de que se serve mais uma vez o Autor para caricaturar a pseudo-virilidade lusitana, apesar de amante de uma vaca, é um homem que tem a sensibilidade que lhe permite captar aquilo que a alma das pessoas tem de belo, através do talento como pintor, ao transfigurar as figuras humanas, envolvendo-as, simultaneamente, numa aura divina.

O “lado mau” da personalidade feminina está incarnado na esposa do senhor das terras a quem Baltazar presta vassalagem, dona Catarina. A maldade desta prende-se, não tanto com a questão de género, mas de classe. Dona Catarina tem um ciúme tão patológico quanto Baltazar mas não podendo dirigir o seu ódio ao marido, que a humilha possuindo as servas, volta-o contra as criadas.

Possui uma mente corrompida que a leva a cometer lenocínio aquando da visita do rei, ameaçando as criadas com castigos corporais caso algumas delas se recuse a aceder a algum pedido mais extravagante. A inveja, a cupidez e o ódio são as emoções que predominam numa mulher de carácter particularmente azedo, consciente da impunidade:

“…ouvi-o dizer da beleza de todas vós. servi-lo-eis se vos pedir, que ao rei não se recusa putice…” .

A temática das superstições medievais é, também abordada na obra, como o receio do “mau olhado”, o recurso ao ocultismo e à feitiçaria, apesar de recearem, de alguma forma, as artes mágicas.

Uma figura feminina que tem tanto de interessante como de misteriosa é a da mulher queimada, que percebe das propriedades das plantas, para efectuar mezinhas e curar doenças inflamações e dores musculares, embora não recuse também algum trabalho para afastar “males do espírito”.

“Sabe coisas de bruxa, a mulher queimada…”.

Esta mulher queimada que se depreende ter escapado aos maus tratos com a viuvez tem como função na estória criar o contraste, marcando a diferença com a charlatã, em quem os irmãos “sargas” decidem confiar. Esta última, consegue extorquir-lhes quase todo o dinheiro que possuem em troca dos segredos que envolvem um estranho ritual para afastar o mesmo tão receado mau olhado e que, ao invés, os afasta das pessoas que se convencem da sua insanidade mental ou de uma eventual possessão demoníaca, receando o contágio...

Valter Hugo Mãe serve-se da personagem da mulher queimada, na realidade uma viúva, vítima de maus tratos enquanto casada – para dar, também, realce ao estigma social a que eram votadas as mulheres solitárias que detinham alguns conhecimentos de botânica e das propriedades medicinais das plantas, como se vê pela voz do narrador na página 108.

é que às mulheres deus dá conhecimento de algo que não dá aos homens.

Já para Baltazar …a mulher queimada ligava-se ao inferno, tinha domínios desnaturais a permitirem-lhe capacidades de mais proveito que a força de mil homens.

Ao regressar da corte, juntamente com o irmão, Baltazar encontra um jovem deficiente físico o qual acaba por juntar-se a Baltazar e a Aldegundes.

A forma como Baltazar vê o corpo feminino não deixa de ser curiosa, como se admirasse a beleza de um animal que lhe é inferior:

As mulheres só são belas porque têm parecenças com os homens, como os homens são a imagem de deus. (…) se se parecessem mais com cabras do que com homens nem natureza para nós teriam precisão de nos parecer sem alcançar igualdade que para isso estamos cá nós.

Na corte, Baltazar e Aldegundes notam com estupefacção a ausência de loucos “de espírito”, isto é de doentes mentais, observando pelo contrário a presença de vários deficientes físicos.

tanta gente estropiada na terra de el-rei.

São ambos expulsos da corte por suspeita de acordo com o inimigo divino. Regressam à própria terra numa carroça onde “ajeitam os três cus”. Durante o trajecto de regresso Baltazar especula acerca de como o amor se pode tornar uma armadilha:

expliquei ao dagoberto que o amor era uma maldade dos homens, assim como um plano esperto para fazer com que as mulheres se abeirassem deles e se mantivessem ali sem outro propósito senão ficar. O amor é uma maldade dos homens porque junta as mulheres aos homens numa direcção que só a eles compete (…) a maldade dos homens é igual à voz das mulheres.

A extinção de Ermesinda que sucumbe aos maus tratos e abusos sexuais sucessivos é a alegoria ao inferno de muitas mulheres que vem todos os anos engrossar o rio negro das vítimas da loucura dos homens.

completas seriam (as mulheres) se deus as trouxesse ao mundo mudas (pag 187. ).

Após o que a violência extrema leva a consequências extremas:

afastaram-se da minha ermesinda que, imóvel, respirou menos, respirou menos, respirou menos, não respirou.

a sarga mugiu de modo lancinante.

Depois a hybris, a seguir a impotência.

E, com o cair do pano, o remorso.




Cláudia de Sousa Dias

Saturday, May 30, 2009

“Um Pintor na Corte” de Sonia Overall (Civilização)

Após uma carreira consolidada como crítica e editora, Sonia Overall decide começar, ela própria, a produzir obra literária. Um pintor na Corte é o seu primeiro romance editado em Portugal.

A Autora dedicou grande parte do seu tempo consagrado à produção deste romance, à pesquisa sobre a pintura do período Tudor e, em particular, à vida e obra do mestre Hillyarde, o pintor-mor do período final do reinado de Elizabeth I.

O tema central de Um Pintor na Corte gira à volta da rede de intrigas que se gera dentro e à volta das oficinas de pintura, especializadas em retratos de figuras eminentes da corte. Tratando-se de um regime totalitário, uma vez que a monarquia absolutista da “rainha Virgem” como então lhe chamavam, dava margem para o triunfo dos bajuladores, isto é, daqueles que pintavam os seus clientes, favorecendo-os. Um facto que, logo à partida, coloca Rob em franca desvantagem, uma vez que o extremo realismo com que executa o seu trabalho, através de um estudo minucioso das feições, da cor e das proporções da estatura e do corpo humano, das articulações dos músculos e dos nervos da precisão com que executa cada ruga, cada movimento sugerido pelas sobrancelhas e pela veracidade com que imprime os esgares que conferem o colorido à personalidade de cada um, não agrada, de todo, a quem quer ser adulado.

Os quadros de Rob colocam-no num patamar muito superior em relação aos seus pares. Mas são, também, a sua própria ruína, uma vez que clientes vaidosos e hipócritas não gostam de ver expostos os seus pontos fracos.

Outro aspecto focado pela Autora é a forte concorrência enfrentada pela Guilda dos pintores britânicos face à escola flamenga dos Países-Baixos, que se traduz num acirrado sentimento xenófobo a todas as obras de arte ou artistas vindos “de fora”.

A principal falha na construção do romance é sobretudo ideológica, prendendo-se na persistência de alguns lugares comuns e estereótipos, como por exemplo, a forma como tanto o narrador como as personagens, se referem aos “católicos”, sempre pejorativamente tratados de “papistas” e retratados como pessoas “não confiáveis”. O principal anti-herói, Petty, amigo de Rob, surge no final como uma espécie de Judas do Renascimento agindo com astúcia e velhacaria, ao colocar as convicções políticas e religiosas – de pendor papista, claro – acima das relações de amizade e da ética, deixando-se levar por rancores mesquinhos.

Por outro lado, a questão emocional é desenvolvida a par da carreira de Rob através de uma estranha parceria com Kat, uma popular cortesã, cuja beleza consegue angariar ao pintor vários clientes importantes, colocando-o quase que numa posição de proxeneta.
Rob é um jovem belo e sensível, mas paradoxalmente frio e puritano, que se mantém, apesar de uma paixão platónica por Kat, fiel a um amor do passado – embora a muito custo –, fruto de uma promessa resultante da trágica morte da noiva, cujo acidente na carruagem, a caminho da Igreja, lhe expõe o interior do corpo: a carne dilacerada, as vísceras, o rosto exangue em contraste com o tom violáceo dos lábios. Uma imagem cujo impacto lhe fica gravado na memória de forma indelével e que acaba por servir de inspiração para o próprio trabalho, estimulando-o a representar os seus quadros com o maior realismo e fidelidade possíveis, tanto no que respeita às cores como às formas, passando a dedicar-se ao estudo anatómico dos corpos.
Por outro lado, a frustração de Kat impele-a a tentar encontrar um sucedâneo do acto sexual que não consegue consumar com Rob e, simultaneamente a procurar compensar o desejo com os inúmeros amantes que lhes proporcionam, também, o padrão de vida que ambos desejam…Mas Kat acabará por pagar um preço elevado por ser a musa de um pintor excêntrico como Dudley…

A maior qualidade na escrita de Sonia Overall reside nas fabulosas descrições onde o realismo impresso na escrita só se pode comparar à pintura executada pelo seu personagem.

Se não, veja-se as descrições que se seguem:

«Os olhos do homem, pequenos e de expressão porcina, expressavam malevolência e ossos fracturados» (pp. 51).

E sobre a Rainha, aos 50 anos:

«Ela era magnificente: aterradora, de faces magras e absurdamente pintadas. Maravilhosa, apesar de estar a aproximar-se da fase da Lua Nova da sua vida, tendo deixado a juventude para trás (…). A estrutura óssea da sua testa e nariz era saliente, de expressão fria, como mármore italiano desgastado pelo tempo e bem polido. Os seus olhos reflectiam argúcia e secura, eram escuros e perscrutantes (…). Conseguia ver as linhas com tanta clareza, cada aplicação da pintura que ela tinha na face, todas as partículas de pó branco, que tive a sensação de ser uma mosca que zunia e brilhava ao lado dela. Copiei todos os ângulos das suas bochechas onde, em tempos idos, tinham existido curvas suaves: passei a papel todas as concavidades que eram fruto do envelhecimento e rugas de preocupação. As linhas do nariz dela revelavam orgulho e vaidade, o queixo falava das suas obrigações e os olhos encovados davam-nos a saber das desilusões dos tempos em que era donzela. A fronte, que continuava macia, era régia (…) era aí que o peso das coroas fora sustentado. Desenhei tudo o que aí via: avareza e temor, azedume e contentamento, os desejos de uma mulher e os anseios pelos prazeres simples».

É óbvio que quem pinta assim fará mais inimigos do que aliados ao longo da careira, sobretudo num regime totalitário.
E quem escreve como Overall acabará por ser inevitavelmente um mestre após dedicar-se a tempo inteiro a uma actividade tão absorvente como a escrita.

Cláudia de Sousa Dias

Sunday, May 24, 2009

“De Amor e de Sombra” de Isabel Allende (Difel)

É um dos primeiros e, também, menos conhecidos romances de Isabel Allende no qual sobressai uma escrita ora sensual e telúrica, ora visceral e amarga. Esta última característica deve-se, sobretudo, ao humor negro da Autora, cujo sarcasmo se encontra bem explícito, logo nas primeiras páginas da obra, pela referência ao piedoso nome atribuído pela mãe da protagonista ao lar de idosos de que é proprietária, A vontade de Deus. A Mãe de Irene gere a instituição como se de um armazém de carcaças à espera da morte se tratasse, cuidando deles com a mesma consideração que poderia dispensar a um monte de fatos carunchosos ou móveis semi-apodrecidos.

A ironia está presente no contraste entre o nome do edifício, revelador de um fatalismo conformista, e a rispidez com que as enfermeiras tratam os hóspedes. Beatriz Beltrán conduz o “negócio” como uma mera casa comercial.

Beatriz é aquilo a que se chama de uma “alpinista social”, oriunda da classe media-baixa, de carácter frívolo, superficial e completamente inconsciente da realidade social fora dos muros de A Vontade de Deus. Uma mulher que se preocupa apenas com o seu aspecto e com a manutenção do status quo e padrão de vida que conseguiu, a duras penas. O pai de Irene (também ele desaparecido, mas não exactamente por razões políticas) é membro de uma das mais antigas famílias chilenas, de raízes aristocráticas. Trata-se, no entanto, de um homem irresponsável, sonhador e indomável, causador da angústia de Irene e Beatriz.

Por outro lado, o título da obra remete para um drama passional, onde o desenrolar do conflito demonstra como a cumplicidade em situações adversas fortalece uma união e ajuda a consolidar laços. A passionalidade é a imagem de marca da prosa de Allende cuja precisão evocativa deixa no leitor uma marca indelével. A mesma característica explica, em grande parte, a simbologia, do título De Amor e de Sombra. Porque se trata, realmente de uma história de amor desenvolvida na “sombra” isto é, na clandestinidade. E porque Francisco Leal, o herói romântico da história se dedica precisamente a actividades clandestinas como o exercício da Psicologia – cujo ensino foi proibido depois do golpe de estado militar, que culminou com a morte do Presidente Salvador Allende –, por ser considerada uma actividade “subversiva” e “perigosa”, e a facilitar a fuga de presos políticos para fora do Chile, no tempo de Pinochet. Leal, que obteve o doutoramento em Psicologia anos E.U.A. vê-se, de um momento para o outro sem emprego e obrigado a mudar de ramo, tornando-se fotógrafo de uma revista feminina de moda para sobreviver. Lá, conhece Irene, a filha da dona de A Vontade de Deus. Irene acompanha Francisco nas reportagens e vai-se apercebendo, gradualmente, das actividades clandestinas do colega quer no que toca ao exercício da psicologia quer em algo ainda mais “obscuro”. Francisco ocupa o tempo livre a conseguir documentos falsos para os prisioneiros políticos, ajudado pelo irmão, o sacerdote José Leal, que conta com a simpatia e cumplicidade do cardeal.

Enquanto que o primeiro romance de Isabel Allende, A Casa dos Espíritos, incide nos cem anos de história do Chile que antecederam a o golpe de estado militar, De Amor e de Sombra passa-se alguns anos depois desta ocorrer, quando o novo regime parece já estar consolidado. De Amor e de Sombra chama a atenção para o violento “drama dos desaparecidos”, um episódio vergonhoso da história do Chile que diz respeito ao desaparecimento de milhares de presos políticos, “aqueles a que a Polícia política leva e não devolve”.
O sentido da impunidade e a prepotência das forças da ordem, bem como o abuso de autoridade são explorados até à exaustão. Senão vejamos:

Neste contexto não é preciso pertencer-se a um partido político da oposição para se ser encarcerado ou proscrito: basta ser membro de um sindicato”.

Como exemplo, Isabel Allende mostra a situação da família Leal onde o pai de Francisco, professor de Literatura é saneado e Javier, o cientista, o outro irmão de Francisco, é segregado do mercado de trabalho pelo simples facto de ter sido filiado num sindicato. Uma violência para uma família que valoriza o trabalho acima de tudo como símbolo da dignidade humana.

Mas o cúmulo da prepotência sob a forma de exibicionismo é o que acontece em casa de Evangelina, uma jovem deficiente, doente com epilepsia, trocada à nascença e, por isso, pouco amada pela família, torna-se vítima da rigidez e pusilanimidade dos funcionários do hospital estatal e da brutalidade e intolerância da polícia política. A desordem mental da jovem é mal interpretada pela população local que a confunde com possessão demoníaca ou, se calhar, fruto de intervenção divina, causadora de prováveis “milagres”. Uma crença que é facilmente disseminada numa população onde grassa o analfabetismo. Por outro lado, a rigidez associada ao regime militar não tolera o comportamento de Evangelina por ser incontrolável e, como tal, subversivo, devendo por isso ser “metida na ordem” pelas autoridades. Evangelina acabará por ser levada e incluída no contingente daqueles que “não voltam”. A sua detenção é o ponto de viragem da história porque o seu desaparecimento vai obrigar Irene, que assistiu, junto com Francisco, ao acontecimento, a “agir na sombra” e a integrar o grupo daqueles que passam para o outro lado da fronteira, aqueles que estão, politicamente, em situação difícil.

O encantamento que surge logo nas primeiras páginas deste romance que agarra o leitor e o faz virar sofregamente página sobre página acentua-se a partir desta altura.

Também a existência de uma multiplicidade de personagens com origens sociais muito díspares que, a dado momento, se cruzam em prol de um objectivo comum constitui um encanto adicional, sobretudo porque confere ao carácter de Irene, uma jovem de ascendência aristocrática, uma personalidade modulada que se vai aprofundando ao longo da narrativa, à medida que se envolve emocionalmente com Francisco e com as causas a que está ligado.

O intenso erotismo contido na descrição de uma cena de amor, reveladora de uma sexualidade telúrica, entre Francisco e Irene é um dos mais belos trechos do romance, tendência que se torna um pouco menos acentuada nos romances posteriores da mesma autora.

Da mesma forma, a profunda emotividade e pungente nostalgia presentes nas entrelinhas do texto que descreve a cena de despedida dos pais de Francisco, no final, coincidindo com a partida para Espanha, adquire o formato de um relato onde só não está presente a palavra “saudade” por uma questão semiótica, causando um impacto profundo em quem lê, pela sensação de despojamento deixada pela necessidade de abandonar algumas das pessoas a quem mais se ama.
A partida para o exílio e a odisseia a que obriga a extenuante travessia da cordilheira dos Andes até ao outro lado da fronteira com a Argentina, é de uma capacidade de percepção sensorial e nitidez fora do comum, onde se sente a presença quase que palpável de uma dolorosa saudade antecipada e de uma avassaladora sensação de desolação e desenraizamento…

De Amor e de Sombra só não é um romance de excelência pelo facto de, por vezes, a Autora não conseguir evitar a tentação de emitir juízos de valor, mas é o livro onde Isabel Allende melhor desenvolve um discurso poético no qual as emoções fluem como um rio em todo o seu caudal, aproximando-se da foz e onde os acontecimentos parecem conspirar para o envolvimento de ambos os protagonistas.

A obra literária pode ser complementada com o filme de Elizabeth Kaplan no qual se destaca a interpretação de Antonio Banderas, num dos seus melhores papéis, assim como o que emana de magnetismo de Jennifer Connely a iluminar todas as sombras que possam subsistir no enredo deste sedutor e absorvente romance.

Cláudia de Sousa Dias

Monday, May 18, 2009

“A Fronteira de Vidro” de Carlos Fuentes (Dom Quixote)

Carlos Fuentes é um autor mexicano cuja obra incide nas transformações políticas e sociais ocorridas ao longo dos últimos dois séculos, num país onde as oportunidades escasseiam e o outro lado da fronteira seduz como o canto das sereias na Odisseia de Homero. Com A Fronteira de Vidro o Autor efectua uma análise multidimensional da realidade mexicana e norte-americana, observando as diferentes faces do mesmo prisma, sob o ponto de vista económico, político, social, cultural, psicológico.

Trata-se de um conjunto de estórias que podem ser lidas separadamente mas onde verificamos existir algumas personagens que se repetem. Uma delas em particular serve de fio condutor entre os diferentes
sketches, interligando-os, ao aparecer ora como protagonista ora como personagem secundária ou, ainda, como mero figurante: trata-se de Leonardo Barroso, o magnate que lidera um poderoso lobby económico e político, manipulando habilmente o principal partido no poder.

As pequenas estórias de A Fronteira de Vidro ilustram as transformações ocorridas em território mexicano nos últimos duzentos anos, inclusive os avanços e recuos da fronteira entre o México e os Estados Unidos onde se comprova a notória degradação económica, manifesta numa crise endémica, permanente, da qual parece impossível emergir uma solução viável e construtiva, mas onde grassa o Desemprego, o êxodo rural, a criminalidade, a emergência de uma economia paralela e a corrupção.

A primeira destas estórias, A Capitalina, fala de uma jovem de deslumbrante beleza morena, oriunda da capital, de origem aristocrática, que viaja para o interior em virtude de um acordo entre as famílias com objectivos matrimoniais (e materiais). Michelina Laborde descende de uma antiga família de elite na cidade do México que ascende aos primeiros colonizadores. Arruinados, apostam na jovem como o passaporte para a manutenção do status quo e o padrão de vida a que estão habituados. O noivo é o filho do padrinho de Michelina, Marianito, que não consegue interessar-se por mulheres a não ser platonicamente e através da literatura. Michelina revela uma extraordinária capacidade de premeditação e, simultaneamente, de vulnerabilidade ao permitir deixar-se seduzir pelo sogro. A jovem percebe que ao aliar-se a um homem que incarna uma figura paternal, ser-lhe-á possível juntar o útil ao agradável, até porque, normalmente, costuma sentir-se incomodada “com a tirania dos homens jovens e belos”.

Leonardo Barroso, parece ser um novo-rico que gosta de exibir ostensivamente sinais de poder económico, ao copiar, por exemplo, os modelos americanos de exibicionismo como a mansão “Tara” do filme “E tudo o Vento levou” ou carros caríssimos que amontoa como se de cabeças de gado se tratasse: Manadas de Porsches, Mercedes, BMW’s que repousavam como mastodontes nas garagens (…). A casa dos Barroso era Tudor-Normanda (…), só faltava o ribeiro do Rio Avon e a cabeça de Ana Bolena num cesto.
O autor não perdoa nem mesmo a vulgar frivolidade das mulheres que habitam ou frequentam a mansão dos Barroso, dentre as quais onde se destaca a extrema beleza e distinção de Michelina.

Era a única sem plásticas faciais (…) e sentou-se, muito sorridente e amável, entre a vintena de mulheres ricas, perfumadas, aperaltadas com roupas do outro lado da fronteira, cobertas de jóias, quase todas com os cabelos pintados de acaju, algumas com óculos de máscara veneziana, outras usando aquosamente as suas lentes de contacto.

O discurso da fêmeas da alta roda perece ser, também, condizente com a aparência:

vimos todas do convento, todas passamos por colégios de freiras (…), todas nos libertámos um dias…mas se já estamos de regresso ao convento…sozinhas, sem homens, mas só a pensar neles….
Mulheres que definham no meio da abundância, ignoradas pelos maridos que buscam compensação no luxo e no prazer de gastar o dinheiro daqueles que as ignoram.

A seguir, no outro lado da fronteira, chega-nos o conto O Estudante de Medicina – Juan Zamora – filho do advogado, honesto e incorruptível, de Leonardo Barroso – e pobre. Juan consegue estudar nos EUA unicamente por especial favor do patrão do pai, que actua como mecenas.
Mas para melhor ser aceite e impressionar as mentes simplórias dos puritanos e deslumbrados americanos, o jovem faz-se passar por filho de um grande latifundiário e aristocrata rural, um “Charro”, para conquistar prestígio social e sentir-se compensado pela mágoa que lhe causa a segregação social, fruto da sua homossexualidade.
Zamora sente-se “olhado de lado” pelos seus anfitriões de mentalidade calvinista, por causa das suas preferências sexuais. Estes, no entanto, invejam-lhe a ascendência “nobre”.
Esta estória apresenta uma curiosa descrição, física e psicológica, dos estudantes americanos efectuada, a partir da forma como se vestem:

Usam bonés de basebol que não tiram nem dentro de casa para cumprimentar as mulheres (um olhar antropológico para mostrar o desconhecimento do significado das palavras “cavalheirismo” e “cortesia”). Raras vezes se barbeiam por completo (…). Usam camisolas sem mangas, mostrando constantemente os pêlos das axilas (…). Quando querem ser realmente informais usam o boné de basebol ao contrário, com a pala a proteger-lhe a nuca.

Compreendeu que o ar descuidado ligava os estudantes, era uma forma de igualizar a origem social para que ninguém perguntasse acerca da origem familiar ou do status económico.

No entanto o mundo da faculdade é como que um lugar à parte no universo americano: em casa respeitavam-no pelas suas origens e só por elas engolem, a custo, a sua homossexualidade.
Jim, o amante de Zamora, acaba por se casar para fazer a vontade à família.

Uma estória que poderia ter inspirado a ideia para O Segredo de Brockeback Mountain ou ter nascido de uma transposição ,para os tempos actuais, de uma drama vindo de remotas épocas helénicas.

Em O Despojo, o Autor faz a apologia à gastronomia mexicana, incompreensível para o paladar americano, habituado à comida “de plástico”.

A difusão da culinária americana é feita por Dioniso Baco Rangel, o qual se atribui a missão de evangelizar o paladar americano fazendo-o converter-se aos prazeres pantagruélicos da comida da terra de Pancho Villa e aculturar, apenas e só neste aspecto, os habitantes a norte da fronteira cristalina de Rio Bravo, da mesma forma que os americanos fizeram – a todos os níveis – com os territórios que compreendem regiões tão extensas quanto o Texas ou o Novo México.
Na sua crítica ao irracionalismo que parece caminhar lado a lado com a vanguarda científica, a estranheza norte-americana solicitava a sua atenção: Agradava-lhe descobrir que sob os lugares comuns da sociedade uniforme (…), sem personalidade culinária, se agitava um mundo multiforme, corrosivo (…) que acreditava a pés juntos que a fé e não o bisturi bastavam para curar um tumor pulmonar (…) como num país cheio de gente receosa de cruzar olhares com outras pessoas na rua porque poderiam ser cientólogos com o direito de matar quem não comungasse das suas ideias, assassinos libertos do manicómio e pessoas superdotadas, homossexuais vingativos, armados com seringas com HIV, neonazis de cabeça rapada, dispostos a degolar toda a gente de tez escura. Rangel também concedia os gringos todo o bem do mundo, salvo o de uma cultura aristocrática.
Trata-se, aqui, de uma reflexão sociológica sobre o tecido social mexicano que é comparado com o dos Estados Unidos:

no México, até um bandido era cortês, até um analfabeto era culto, até uma criança sabe dizer os bons-dias, até um político sabe comportar-se como uma dama, até uma dama sabe comportar-se como um político, até os entrevados eram acrobatas no arame e até os revolucionários tinham o bom-gosto de acreditar na Virgem de Guadalupe.

Carlos Fuentes chama, ainda, a atenção para a caracterização morfológica incidindo, sobretudo, nas avantajadas massas de gordura que revestem os corpos das mulheres norte-americanas.
O autor não resiste a introduzir uma nota de realismo mágico, numa piscadela de olho a Laura Esquível, ao colocar Dioniso Rangel sentado num restaurante americano - mas de comida tradicional – para comer comida “verdadeira”, onde cada prato traz consigo uma miragem que se lhe materializa diante dos olhos, sob a forma de uma mulher com características, morfológicas ou de personalidade, do prato que representa. Há, no emprego desta alegoria por parte do Autor uma evidente analogia entre cada prato e os diferentes tipos sociais de mulheres norte-americanas que provavelmente os consomem.
Assim, o cocktail de camarão de camarão é uma “entrada “ que personifica a sofisticada mulher nova-iorquina que aparece nas capas das revistas. È culta, sofisticada, refinada e elaborada mas entediada com a vida, anoréctica, isto é, um prato muito bonito, mas que não alimenta.
O tipo de mulher que afirma Apenas suporto os homens que me mentem. A mentira é o único mistério no amor.

Já a mulher trazida pela visão deste Dioniso Baco pela sopa americana, encorpada e rica em gordura, é uma mulher em tudo excessiva, nas falas, nos adereços e nas carnes (gordas).
Mas típico “bom bife americano” é, para o protagonista, a visão da mulher bela e elegante, cuja imagem corresponde à executiva de sucesso. É, contudo, obcecada pelo trabalhado sendo, por isso, também, dificilmente digerível.
Depois, vem o gelado de limão corta-sabores. Este traz a visão da mulher perfeita, porque diferente, ideal, mas que deixa escapar por entre os dedos enquanto o gelado se derrete por perder demasiado tempo a observá-la em devaneio. É o tipo de mulher que, “sem ser bela, é radiosa” e que transmite tranquilidade e bem-estar.
Por último, a sobremesa, uma mulher de sobrecarga calórica, descomunal, fanática militante dos Direitos das Mulheres Gordas!

Face à decepcionante gastronomia americana e à tentativa frustrada de disseminar a culinária do México, este gourmet decide regressar às origens, mas nu como veio ao mundo, limpo de qualquer vestígio poluente do mais ínfimo traço cultural norte-americano. E é nesta figura que chega à fronteira. Despojado.

A fronteira entre o México e os estados Unidos é marcada por uma linha imaginária a que o Autor chama de A Raia do Esquecimento (O Risco, devido a um erro de tradução). La Raya (no original) é a linha, a fronteira, o limiar, uma metáfora que dá título a uma estória na qual o narrador, um idoso, vítima de um avc, está parado no meio do nada, na linha de fronteira entre a vida e a morte, entre o México e os estados Unidos. Um lugar ermo, longe de tudo e de todos onde tenta escapar ao controle das autoridades norte-americanas as quais nem sempre actuam de forma pacífica, estancar a hemorragia humana que corre do caótico país vizinho, para o lado norte do Rio Bravo, à procura de melhores oportunidades. O teor do texto está impregnado de uma amarga ironia, da denúncia da desumanidade a que são sujeitos os imigrantes clandestinos, sobretudo numa região de tal forma inóspita que tudo o que lá acontece é esquecido ou ignorado. Principalmente vestígios de crimes praticados ao abrigo da lei. Tal como na mente de um moribundo, onde tudo desaparece. No limiar da morte está a Raya ou a linha, a fronteira do esquecimento junto ao cristalino Rio Bravo, a fronteira de vidro (la frontera de cristal, no original).

Quem me detesta? Quem me abandonou aqui, a meio da noite? (…) Ninguém me conhece? Ninguém me espera. Ninguém me abandonou. Foi o mundo. O mundo largou-me.

A ironia, presente neste conto, é que o idoso largado no meio do nada é parente pobre de Leonardo Barroso, o qual exporta mão-de-obra barata para os EUA e que gere, no México, uma fábrica de televisores americanos, com mão-de-obra quase escrava, ignorando a lei laboral.

Esta realidade é analisada à lupa no conto Malintzin das Fábricas, um trocadilho com o nome da amante índia do capitão Cortés. A Malintzin deste conto é uma bela operária da fábrica de televisores de Leonardo Barroso, na fronteira mexicana.

As trabalhadoras sustentam as famílias enquanto que os homens estão, normalmente, ociosos.
Marina, a Malintzin das fábricas, percorre o caminho de casa em duas horas de autocarro, em cima de saltos altíssimos, que substitui por calçado mais cómodo à entrada da fábrica. Namora Rolando, indolente e ocioso de profissão, dedicando-se a negócios duvidosos.

Este conto relata, também a tragédia de Dinorah, a qual não tem com quem deixar o filho durante o horário de trabalho. Ou de Rosa Lupe que tem de aguentar o assédio sexual da chefe para sustentar o seu marido “doméstico”.
Carlos Fuentes mostra a dureza do quotidiano das famílias rurais, empobrecidas pela divisão das respectivas propriedades pelos filhos o que faz com que as jovens tenham de trabalhar nas fábricas para sustentar as famílias. É, também, notória a capacidade de trabalho destas, muito superior à dos homens.
A única que não está ligada a um homem indolente ou irresponsável é Candelária , a Chefe da Comissão de Trabalhadores, casada com um líder sindical. Cande, como lhe chamam as colegas, enfrenta a prepotência dos chefes – prepotência sobretudo sexual – que confiam na submissão das jovens, fruto da extrema necessidade de emprego e escassez de oportunidades. Enquanto as operárias da fábrica de televisores enfrentam os abusos dos chefes uma criança morre e Michelina prostitui-se com o sogro, dono da Fábrica. E da nora.

O conto que se segue, As Amigas ilustra a relação que se estabelece entre uma patroa norte-americana de educação do tipo colonial e mentalidade esclavagista dos Estados do Sul, enraizada no tempo da Guerra de Secessão. Apesar de a acção decorrer no século vinte, a forma de pensar de Miss Amy Dunbar, não é muito diferente dos donos das antigas plantações de algodão da Virgínia ou da Carolina do Sul, na altura do conflito entes Confederados e Ianques.

Há-de haver alguém cuja necessidade de emprego seja mais forte que o orgulho.
No entanto, as coisas não parecem correr-lhe como espera. A “raça negra” pôs-se toda de acordo, aos olhos de Miss Amy, para lhe negar serviços, uma vez que o carácter intratável não lhe permite conservar as empregadas mais de um mês.

Miss Amy, chamada menina como todas as senhoras da cidade do delta (Memphis), com direito às duas formas de tratamento, a da maturidade matrimonial e a de uma dupla infância, meninas aos quinze e outra vez aos oitenta
Serve-se de estereótipos para rotular as pessoas, incluindo os mexicanos, segundo ela com fama de “folgazões” até travar conhecimento com a dócil Josefina, a última esperança do sobrinho, Archibald, em encontrar alguém que consiga cuidar da insuportável tia. Archibald arranja-lhe emprego, em troca, tentará libertar-lhe o marido, preso em consequência de um tiroteio ao passar a fronteira.
A velha senhora faz tudo para que Josefina cometa um deslize, para ter a oportunidade de a rebaixar, o que neste caso, parece ser extremamente difícil.
Archibald concorda em dar aulas de Direito ao marido de Josefina, na prisão, se esta trabalhar para a tia. Aulas pagas por Josefina.
Um dia a curiosidade insaciável de Miss Amy faz-lhe conceder permissão a Josefina para realizar uma festa tradicional com a família, mas o sadismo daquela faz com que não resista e humilhá-la diante de todos.
Até que… Josefina consegue descobrir o passado secreto da patroa e a origem do ódio que nutre em relação ao mundo…e dá-lhe a chave apara a cura.

A Fronteira de Vidro, conto que dá o nome ao livro, relata uma viagem de avião, a caminho dos EUA, em primeira e em segunda classe.
Na primeira classe estão Leonardo e Michelina. Curiosamente, apenas e só neste episódio conseguimos desvendar um pouco do interior de Michelina, onde se quebra um pouco a imagem da deusa perfeita ou imagem de capa de revista. A jovem invejada por muitas mulheres da mesma idade, abstém-se de ter vida própria, suprimindo a capacidade de amar, apenas para evitar a ruína da família e manter longe a ameaça da pobreza.
A descrença no amor, no trabalho, provenientes quer da cultura quer da educação familiar, num meio onde os jovens casam com dotes, sendo este o factor decisivo para se seleccionar uma esposa. Uma escolha onde interferem as famílias e que acaba por inlfuenciar a orientação da paixão dos filhos varões e criar para estes uma escala de eligibilidade que pesa nas decisões por maior que seja a paixão.
Lisandro Chavez, um jovem oriundo da classe média também se encontra no avião mas tem de se encaminhar para a classe turística. Ao fazê-lo, passa por Michelina. Reconhece-a como a jovem a quem as famílias dos colegas aconselhavam a não casar, pela escassez do dote. Lisandro vai para os Estados Unidos à procura de emprego conseguindo um lugar de lavador de janelas, num dos muitos arranha-céus de uma grande metrópole.
No Estados Unidos, acredita-se no trabalho, não se escolhe trabalho e é-se remunerado pelo trabalho. Ou, pelo menos, os trabalhadores legalizados são-no.

Enquanto lava a parte de fora das janelas, Lisandro apaixona-se por uma executiva de ar doce, debruçada sobre uma secretária. E Audrey deixa-se prender, por um instante, pela expressão amável do lavador de janelas…um instante, um fragmento, onde dois seres românticos e desiludidos pela vida, se deixam levar pelo sonho. Mas basta uma distracção…para que o desencontro aconteça.

A Aposta é a estória de Leandro Reyes e do retrato da eterna monotonia da vida de um taxista no México, a quem o acaso faz colidir com um amor nascido do improvável por uma guia turística espanhola de passagem pelo país dos Maias e dos Incas, de visita às ruínas das civilizações antigas. Uma mudança de emprego vem facilitar o romance de ambos. Mas o azar espreita, vindo de uma brincadeira de um gang de jovens delinquentes em Alcalá, que desempenha a função da tesoura das Parcas.

Por último, Rio Grande, Rio Bravo, o último dos contos deste volume, vem reunir todas as personagens das estórias anteriores como um epílogo, para cada uma delas. A beleza deste conto é acrescida pela ligação do fio condutor da História, que mergulha as suas raízes na situação desencadeada a partir da colonização, da chegada das caravelas de Colombo ao Novo Continente. A visão global de quatro séculos de história traz-nos a clarividência, ao permitir a tomada de consciência das clivagens entre os dois lados da fronteira, através de todas as faces do mesmo sólido – social, política, económica, cultural.

Neste conto é-nos dado o desenvolvimento da situação da maior parte das personagens secundárias das estórias anteriores, desde o cozinheiro Benito Ayala, Dan Polenski, o polícia racista, a Serafín Romero, chefe de um bando de delinquentes mexicano especialista em assaltos a comboios e no transporte de imigrantes ilegais na fronteira. Do outro lado, estão Eloíno e Mário, os fiscais no meio do fogo cruzado. Juan Zamora o médico sensível e altruísta encontra a oportunidade de quitar a dívida ao antigo patrão do pai. A única personagem inédita é o poeta José Francisco, sentado na Harley Davidson, enquanto atira ao vento os poemas revolucionários, esperança de mudar o mundo…

Enquanto isso, o mesmo mundo ameaça vingar-se contra quem criou a situação insustentável gerada à volta da “fronteira de vidro” enquanto o vento rebelde espalha a poesia que infiltra na mole humana o desejo da mudança e a esperança apoiada num sonho aparentemente impossível…

Será?


Cláudia de Sousa Dias

Sunday, April 26, 2009

“O Conquistador” de Almeida Faria (Caminho)

Esta é uma divertida novela de Almeida Faria, marcada pelo toque de realismo mágico/surrealismo a lembrar um pouco o estilo brejeiro e o humor, cheio de especiarias, de Jorge Amado.

O misticismo que envolve o lendário desaparecimento de D. Sebastião surge, nesta obra, para servir de enquadramento ao ambiente insólito que rodeia o nascimento do protagonista, homónimo do rei desaparecido em Alcácer-Quibir. Sebastião adquire o nome do malogrado monarca por ter nascido no dia consagrado ao Santo com o mesmo nome. O fenómeno é contado pela avó Catarina, que se serve do inverosímil, para camuflar a origem incerta da paternidade do neto, onde está presente uma intertextualidade com o episódio da mitologia hindu que explica a criação – o nascimento de Brama –, ou até mesmo com a mitologia egípcia relacionada com o nascimento de Rá.


Por outro lado, as bizarras personagens que assistem à chegada do jovem Sebastião ao mundo, parecem saídas de um quadro de Hieronymous Bosch ou Dalí vão desaparecendo à medida que este cresce.
O nascimento de Sebastião é assinalado por um espectacular terramoto, que parece anunciar tratar-se este de alguém que irá gerar controvérsia e provocar cataclismos pessoais, sociais e nacionais
.

O recurso à hipérbole e à utilização do absurdo estão associados à infância do pequeno Sebastião – vindo das brumas como a reencarnação do antigo soberano, para realizar aquilo que ele não realizou na outra vida: as conquistas amorosas. Este decide então, já adulto, contar as suas memórias, por altura do seu 24º aniversário, propondo-se relatar as suas façanhas sexuais, missão que acredita firmemente ter sido incumbido de realizar com o regresso à vida terrena.

A primeira fase da vida do jovem passa-se na casa do farol, situada no cabo da Rocha. É uma infância marcada por privações, vivida com a avó, mas onde não falta o afecto, garantido pela anciã. Esta imprime-lhe a marca cultural de onde se salienta a importância cultural dos saberes tradicionais, superstições e rituais de esconjura do mal, criando uma intertextualidade com o conteúdio das lendas e à tradição ocultista de de S. Cipriano, bem como todo um manancial de provérbios que reúnem o saber popular.

A passagem à adolescência, dá lugar a um período de transição onde se nota a tendência para uma priápica sexualidade, a par do fascínio pela música anglo saxónica nos anos, na época do apogeu do rock n’roll, dos bailes de garagem e daquele estilo que dança que o Autor compara a um ataque de epilepsia mas que coexiste com as danças consideradas clássicas para a época, como a valsa, o tango e o paso doble. O início da socialização do protagonista com o grupo de pares onde adquire e aperfeiçoa a capacidade de agangariar admiradoras

A sexualidade precoce do jovem manifesta-se, contudo, logo na pré-adolescência, entre os 8 e os 10 anos, um proto-erotismo /fetichismo cujo principal objecto é a professora primária, Justina, mulher que transpira sexo por todas as costuras e com a qual um dia Sebastião vai – ou sonha que vai – à caça dos pássaros numa praia deserta lá para os lados do Cabo da Roca.

A trama é composta por pequenos episódios ou sketches, marcados por uma divertida heresia e humor negro cujo objectivo é o de afrontar a “beatice” do Estado Novo, principalmente nas cenas em que o protagonista se dispõe a relatar os jogos de competição e proezas sexuais entre os colegas.
O primeiro grande amor do já adolescente Sebastião é uma jovem culta e inteligente, vinda do EUA que passa as férias em Portugal na residência de Verão de Gloria Swanson.

Sebastião possui uma cultura de raiz clássica, adquirida no liceu, expressa na sua prosa pela referência a Láquesis, uma das filhas da Justiça, irmã de Némesis. O convívio com a namorada dá-lhe a oportunidade de aperfeiçoar o inglês e aperceber-se das deficiências do ensino dessa língua no ensino secundário português de então. Os namorados passam a utilizar o quarto de Gloria Swanson para dar largas às suas fantasias eróticas.

Clara é um amor de Estio que precisa de superar o trauma que envolve o complexo de rejeição por parte da mãe. Os caseiros, em casa da velha diva americana, olham a adolescente com evidente desconfiança - a estrangeira perversa que seduz “um menino inocente” sem nunca imaginar que a realidade é precisamente o contrário…Ao fazer o liceu, Sebastião tem de se mudar para a cidade onde vai morar, também com a avó Catarina. Nesta fase, salienta-se o retrato grotesco de um professor pedante, cuja linguagem barroca o faz frequentemente cair no ridículo, assim como o papel de “corno manso” da responsabilidade da mulher – fêmea insaciável e omnívora.

A propósito da decoração de gosto duvidoso da casa do professor, num prédio setecentista o autor torna-se particularmente satírico:

Toda a divisão (…) tinha um ar de casa de putas em dia de Entrudo, numa amálgama onde nem faltava um jacaré-bébé, embalsamado no topo de uma coluna entre plantas de plástico e penas de avestruz”.

A mulher do professor Gabriel, Julieta, é irmã de Justina, a professora primária cuja concupiscência parece ser transmitida por via genética.

No capítulo VI temos, mais uma vez, a referência à cultura clássica desta vez com a alusão a Artemísia, onde se nota o sincretismo religioso entre o paganismo da Antiguidade Clássica e o panteão dos santos cristãos.

Deve-se, no entanto, salientar que também o narrador cai, por vezes, no “pecado” do personagem Gabriel Gago de Carvalho pelo uso de palavras eruditas para descrever coisas triviais como “leporélico” para designar “gordo” ou “pos-prandial”, para designar, “depois do almoço”.

O fascínio exercido pelo poder de sedução de uma mulher da classe alta - uma verdadeira Helena de Tróia , bela e despudorada, mas cujo casamento é apenas um contrato formalizado e consequentemente não consegue evitar comportar-se como uma mulher disponível.

Helena convence Sebastião a acompanhá-la a Paris onde este, para além de prosseguir os estudos e ingressar na universidade, passa a dedicar-se ao seu passatempo favorito: desenvolver a sua actividade de artesão do sexo ou, a muito ovidiana “arte de amar”.

O horóscopo feito por Helena regista, apesar de muita efabulação, os principais traços de personalidade de Sebastião. Helena sendo proveniente do Brasil, país do sincretismo cultural por excelência, pertence, ainda, a uma estranha associação, constituída na Cidade –Luz:

a Societé pour usage convenable des hommes na qual deseja integrar Sebastião para que este possa dar vazão ao desejo sexual de um vasto conjunto de mulheres ricas e sexualmente carentes. O excesso de actividade sexual e principalmente, o “rame rame” de confidências sempre iguais obrigam-no a regressar do exílio, uma vez que a procura desenfreada do prazer, em Paris, parece ser, nada mais nada menos, do que a tentativa desesperada para esquecer Clara, cuja recordação permanece gravada na memória. Clara é a mulher com quem consegue conversar, que não fala de assuntos triviais, da “vidinha” medíocre como se depreende do texto que se segue:

Não foram os esforços eróticos que iam dando cabo de mim em Paris, foi a odisseia de escutar horas a fio mulheres, contando-me as suas vidas (…), Se não aguentava mais a logorreia das convencidas de si e das Julietas soporíferas levava-as a um concerto que as obrigasse a estarem caladas (…). Mesmo assim, achava preferível a companhia delas a ter de aturar as bazófias, balelas e verdades eternas dos representantes do meu sexo”.

Uma das poucas amizades deste amante rebelde foi um amigo da boémia, estudante de medicina, cuja paixão era o desenho: a descrição dos seus esboços inclui-o, definitivamente, dentro do movimento surrealista com o qual se identifica o Autor:

Por ali deambulava uma fauna heróica e feroz (…) que sai dos meus sonhos. Fiquei siderado diante daquele bestiário de seres mais ou menos humanos, daquela irisão e zombaria de todas as formas de vida, terrestre ou celeste, animal ou anímica”.

Sebastião acaba por decidir refugiar-se no promontório da infância perdida, onde os ventos uivam como no romance de Emily Brontë, e que podem explicar o aparecimento de tantas lendas ligadas ao sobrenatural, ao poder das forças da natureza: fantasmas, demónios, monstros marinhos…

Não admira que em tão áspero sítio as pessoas procurem, aumentar o invisível, preenchendo-o de estórias para afugentar assombrações e noites temíveis…

Um obra onde abunda o humor sobretudo quando se fala dos estereótipos femininos da época e, em particular, em tudo o que diz respeito à sexualidade, mas na qual o protagonista se consegue situar, apesar de tudo, acima da visão estreita que comporta o quadro de referências da época, pela impressão positiva que Clara lhe deixa na memória afectiva. É, também, pela pena do Autor que obtemos uma das mais fiéis descrições da luminosidade que envolve a cidade de Lisboa, a partir do alto das colinas, com vista para o Tejo, cuja doçura se espelha nas entrelinhas de uma prosa bela e provocadora…


Cláudia de Sousa Dias