HÁ SEMPRE UM LIVRO...à nossa espera!

Blog sobre todos os livros que eu conseguir ler! Aqui, podem procurar um livro, ler a minha opinião ou, se quiserem, deixar apenas a vossa opinião sobre algum destes livros que já tenham lido. Podem, simplesmente, sugerir um livro para que eu o leia! Fico à espera das V. sugestões e comentários! Agradeço a V. estimada visita. Boas leituras!

Name: Claudia Sousa Dias
Location: Famalicão, Norte, Portugal

Bibliomaníaca e melómana. O resto terão de descobrir por vocês!

Monday, November 23, 2009

“Está a fazer-se cada vez mais tarde” de Antonio Tabucchi (Dom Quixote)

O exorcismo dos fantasmas nas relações amorosas que se vão esboroando no tempo, definhando até à dissolução final é o fio condutor deste romance.


Na verdade, as cartas podem ser lidas como se fossem contos, pois são independentes umas das outras, unindo-as apenas a melancolia do discurso narrativo e algumas personagens recorrentes.
A localização espacial distribui-se por vários locais da Europa Mediterrânica ou do Sul, Portugal incluído, passando por lugares como Creta, Heraklion, Lisboa, Veneza, Nápoles com uma escapadela a Paris.


As personagens incluem um narrador cuja complexidade faz lembrar os heterónimos de Fernando Pessoa – desde o médico ao músico ou ao encenador -, embora possuindo sempre a mesma “voz” que exprime anseios, angústias e problemas existenciais muito similares: há duas esposas, uma amante de longa data, as amantes ocasionais, o rival, aqueles que zelam pela saúde mental e física do narrador e protagonista.


O tempo esgota-se nas expectativas e nos sonhos adiados sine dia, na procura do amor inesquecível, absoluto e capaz de expulsar o maior inimigo do depressivo, quando instalado na rotina do quotidiano: o tédio.


Nos textos de Tabucchi, consegue-se identificar intertextualidades com Proust, Mann, Pessoa e inclusive conseguimos encontrar uma alusão a Alfredo Duarte na carta intitulada Estranha forma de vida, sem esquecer a referência a referência a Nikos Kazantzakis.


O tempo perdido pode ser recuperado através de um instante, susceptível de eclipsar toda uma vida de tédio. Esta expectativa parece ser aquilo que mantém o mesmo narrador agarrado à vida – e à escrita – cuja linha percorre os meandros do labirinto de emoções: o fio da vida, deixado por uma atenciosa Ariadne mas que, a qualquer momento pode ser cortado por uma das Parcas.
As intertextualidades estendem-se ao campo musical e às artes cénicas, nomeadamente na referência à
Norma de Bellini, na carta intitulada Casta Diva, e à música popular italiana, com especial incidência no sentimentalismo das canções napolitanas.


A extensa cultura do Autor abrange os múltiplos domínios da Arte como a literatura, a música, mas também o cinema e o teatro. Uma faceta que se projecta de tal forma no narrador principal, que não é de todo inverosímil que nos perguntemos se não se trata antes de um auto-retrato. Existem, várias possibilidades de leitura numa obra como esta: as cartas podem ser pequenas estórias independentes entre si. No entanto, no final é possível efectuar uma ligação entre elas como num puzzlle gigante que deixa, no entanto, alguns enigmas.

As Cartas são escritas, sobretudo, em tonalidades neutras ou sombrias. Variações de luz que advêm do cenário, onde a luminosidade parece, por vezes, oprimir o narrador, face à impossibilidade de partilhar/comungar os pequenos prazeres com alguém capaz de saborear na mesma medida a possibilidade da fruição do Prazer. Esta particularidade faz com que o discurso narrativo oscile entre uma narrativa serena, ora polvilhada de nostalgia ora apimentada de humor negro. As estórias desfilam como cariátides na fachada de um templo.


Um bilhete no meio do mar dá-nos a panorâmica de uma ilha grega através da narrativa que descreve o périplo pelo recantos mais pitorescos de um lugar agreste, pelo seu primitivismo e relevo acidentado, mais apropriado para cabras montesas do que propriamente para seres humanos. A faceta gourmet do narrador revela-se na descrição detalhada do processo da confecção artesanal do queijo típico da região, preparado com o cuidado e a devoção, votados normalmente ao cerimonial de um ritual religioso, onde até as ferramentas e utensílios usados no processo, adquirem um valor histórico, emocional e até mesmo sagrado, para os proprietários.

No discurso do narrador, desta estória está patente a ausência da partilha de pequenos prazeres que são o sal da vida e que o narrador saboreia com devoção. A impossibilidade de partilhá-los com o ser amado – que os não aprecia – acaba por fermentar sentimentos azedos onde cabem a mágoa e um certo rancor, aliados à solidão e à melancolia. E onde a vontade de salvar um bilhete, uma missiva que cai acidentalmente ao mar é tão ténue – ou o tédio está já de tal forma instalado – que impede a acção de qualquer uma das partes.


Na segunda carta, O Rio, cársico, que atravessa a montanha por dentro, acabando por dividi-la a meio é o mesmo que vai cavando um vale, um fosso interno na relação do narrador com a companheira. Sendo historiadora, a esposa desta personagem, vive voltada para o passado ao passo que o espírito questionador daquele leva –o a voltar-se para o futuro. Ambos se debruçam sobre tempos diferentes o que faz com que, ao cartesianismo de um deles e respectiva sujeição ao quotidiano se oponha a emotividade, o actuar por impulso do companheiro, motivado por um ideal.
A acção continua a passar-se na Grécia, desta vez na de Kazantzakis, mais propriamente em Heraklion. O narrador exprime a sua antipatia pelo polémico autor de A Última Tentação de Cristo, embora o admire e de certa forma o inveje, reconhecendo uni-los o sentimento de soberba. Na verdade, separa-os apenas a forma como o demonstram. O narrador vomita-o sob a forma de hybris, correndo o risco de incorrer na ira dos deuses, enquanto que, em Kazantzakis, esta manifesta-se sob a forma de coragem.
Esta narrativa em forma de carta, é uma reflexão sobre a fragmentação do tempo e o esboroar dos sonhos. E do desejo, que vai rasgando a alma ao meio, tal como nos rios cársicos, e que se manifesta num eterno adiar da felicidade a ser concretizada num futuro distante.


Forbidden Games é construída a partir de uma fotografia, uma imagem de uma mulher nua numa varanda parisiense. Na carta, é utilizada a imagem recorrente de uma jovem para atravessar o rio do tempo e inspirar uma arrebatada estória de paixão. Aqui, os tempos e as épocas confundem-se no cenário da Paris histórica, permanecendo intacta, através do tempo, a recordação de um intenso momento de fruição erótica debaixo do tecto nevado das amendoeiras em flor.


A Circulação do sangue é uma carta dedicada à “muito querida e amada” hemoglobina do narrador, uma dissertação acerca do medo da morte e do peso da idade, que se acumula progressivamente no líquido que corre nas veias, comprometendo a circulação. Sempre impregnada com o mais negro sarcasmo a emergir da reflexão sobre a relação entre ciências exactas e ciências humanas ou a relação entre o microcosmo cerebral e o macrocosmo que é o universo.


Em Casta Diva, o narrador mostra-se aos leitores na sua faceta de encenador, enquanto escreve uma carta à Prima Donna advertindo-a da necessidade de se submeter às suas directrizes, por mais excêntricas que lhe pareçam, sem questionar nem contestar. A versão da “Norma” imaginada por si foge aos cânones ditos “normais” ou clássicos, uma vez que alterna os diálogos melodramáticos que caracterizam a ópera, com o visual futurista dos cenários e guarda-roupa. O efeito final resulta num sincretismo temporal que se alia à mistura de estilos musicais e acabam por transformar um melodrama numa ópera buffa.
A referência ao papel das Parcas é de uma ironia e cepticismo macabro, no diálogo com a protagonista da peça de Bellini.
A analogia entre um sacerdote, em pleno acto sacrificial, com um cirurgião moderno só aumenta o aspecto tétrico da cena com os instrumentos de corte, dispostos diante daquele numa bandeja. A cena torna-se hilariante quando é encenada a fuga dos protagonistas numa potente motorizada. Mais uma vez, o rio da vida atravessa as épocas históricas, transportando os sedimentos de uma para a outra…até mesmo na mistura de ritmos e estilos musicais que juntam a música lírica às canções populares napolitanas e sambas cariocas…


Passei lá por casa mas não estavas, é mais uma narrativa em forma de carta. Um lugar na memória onde a amnésia se manifesta como o aprisionamento do passado numa carta dirigida, mais uma vez, a um amor, também ele já distante no tempo. Onde a reclusão forçada num paraíso artificial funciona como um íman, da mesma forma que a casinha de chocolate serviu para atrair Hansel e Gretel a uma armadilha. O discurso dominante na linguagem do narrador nesta carta, lembra um pouco a movimentação das personagens de Jacques Tati, onde o doente amnésico observa a sua vida de fora como se esta não lhe pertencesse. E não pertence, de facto…


A carta seguinte está relacionada com esta intitulando-se Da dificuldade de nos libertarmos do arame farpado ou da prisão murada para os excluídos. O narrador fala da evolução do século XX como sendo o tempo caracterizado pela trilogia do Zyclon B, da radioactividade e a do arame farpado (dos campos de concentração e das prisões). Todas elas formam de eliminarem aqueles que são indesejáveis para um ou mais grupos sociais.


Boas novas lá de casa é mais uma carta dirigida a um fantasma onde o narrador opta por falar do crescimento e evolução intelectual dos netos, da carreira do filho de ambos, das qualidades da nora e… da amante do filho, decorrente da necessidade deste em manter uma relação extra-conjugal isenta de tabus. Esta carta é como que uma espécie de retaliação, um saldar de contas face à constatação da como a paixão nasce, se desvanece e morre, erodida pelo tempo tal como as pedras do rio, morrendo quando a vida perde o sal…


Para que serve uma harpa com uma só corda?, fala de mais um amor que se perde no tempo. Onde é notória a nostalgia sentida em relação a um amor por uma mulher socialmente admirada e cujo rumo, a dada altura, divergiu do protagonista. Uma fuga para oriente, como o objectivo de perseguir uma vocação, em direcção à Grécia, é o bálsamo que actua como paliativo, adormecendo o sentimento que, em Portugal, se chamaria de saudade. O protagonista tem as características mentais de um Odisseu, com a sede de aventuras e viagens pelo mar fora onde os afectos encontrados em cada porto não conseguem ofuscar o mais elevado de todos os sentimentos: o amor, sublimado pela Arte em forma de Música.


O artista vive para tocar a sua música num momento único. Mas de todos os lugares onde exerce a sua adorada profissão, Nápoles parece ser aquele com que mais se identifica, uma vez que, ali, as pessoas parecem todas ter também uma vida dupla: de dia, são operários hortaliceiros e peixeiros; e de noite, tornam-se músicos e cantores a interpretar Verdi ou canções napolitanas que falem de nostalgia…


Sendo bom como é… é a carta do ódio. Ou melhor um amor-ódio a alguém do passado onde a ironia amarga é a fachada que esconde um fervoroso rancor por se ter sido preterido. Trata-se de uma carta de quem não tem paciência para as justificações moralistas ou politicamente correctas de alguém que busca consolo através da sublimação, numa atitude socialmente malvista. Onde a busca de uma justificação altruísta, moral ou nobre serve para justificar o qualquer acto menos digno ou totalmente egoísta como mecanismo de defesa usado, por exemplo, para justificar “os cornos plantados na testa de alguém”. De onde emerge o sentimento de vingança, saboreada como o néctar dos deuses, numa personalidade rancorosa e sentimental que se oculta por detrás de um aparente cinismo.


Livros nunca escritos, viagens nunca feitas refere-se aos projectos, sempre adiados, onde a melancolia se encontra camuflada, sepultada, debaixo da máscara do sarcasmo. Nesta missiva, assistimos ao confronto entre o espírito cartesianos da jovem e o e o daqueles que mantém o espírito errante do poeta ou a atitude questionadora do filósofo.


Na carta A máscara cansou-se notamos uma deliciosa intertextualidade com William Shakespeare onde o narrador se identifica com Hamlet. Sendo que a amada é uma Ofélia que optou pela fuga à vida. O cenário é, tal como em “Casta Diva” vanguardista e atípico. O narrador traça um auto-retrato do homem que se esconde por detrás da máscara da cultura, da ironia e do sarcasmo: “sou orgulhoso, vingativo, e ambicioso; tenho mais pecados à mão do que pensamentos para os glosar”.
O suicídio desta Ofélia é a herança deixada ao Hamlet que escreve esta carta, juntamente com o remorso que lhe está inerente.


Estranha forma de vida é um título que remete para a letra de um fado cantado por Amália Rodrigues. Acção passa-se no Porto, na Ribeira, com reminiscências a uma infância passada em Barcelona. O estímulo que desperta a memória é a vendedora de laranjas que perambula pelas vielas da Cidade Invicta, ao mesmo tempo que trauteia uma morna de Cesária Évora. Um livro perdido , esquecido pelo hóspede anterior numa das gavetas do quarto de hotel faz companhia ao narrador que aqui é um viajante solitário, excêntrico, independente e misantropo, que gosta de “mijar para o mar tirando partido do vento”.


Véspera da Ascensão relata o reencontro, entremeado pelo divagar pela obra de poetas e escritores que estimulam artificialmente o imaginário ao recorrer aos químicos e ao álcool.
Sucedem-se imagens “de saudade e de tristeza porque ninguém poderá restituir-me o tempo que deixei escoar por entre os dedos do amor”.


Em Meus olhos claros, meus cabelos de mel, revive-se a história de um amor antigo, interdito pelas convenções sociais, porque nascido de uma amizade e tornado clandestino pela percepção, algo tardia, da paixão numa altura em que já não eram livres…


Te voglio, te cerco, te chiammo relata a teluricidade do encontro imaginário com a mulher que quis mudar o parquet do apartamento num dos textos anteriormente descritos…


A Carta a escrever é aquela que é dirigida, mais uma vez, à primeira mulher, morta, suicida, a eterna Ofélia. Fala-lhe dos netos e da vida: “nunca pensamos que o tempo é feito de gotas e que basta uma simples gota, para que o líquido se derrame pelo chão e a mancha se alastre e se perca”. Trata-se de uma carta pensada mas que nunca passou para o papel.


Por último, Está a fazer-se cada vez mais tarde é deliciosamente complexa, labiríntica, tal como aliás toda a obra. Esta carta é, no entanto, o corolário da obra até por conter dois narradores, estruturando-se uma carta que está contida noutra carta. A do primeiro narrador, consiste na missiva de alguma entidade suprema que aparenta comandar os destinos dos homens, como as antigas Parcas. Átropos, a Parca que corta o fio da vida está representada, aqui, no papel de amante do segundo narrador, que é também o protagonista do romance epistolar de que aqui tratamos. Encontra-se em Creta, o local da acção da primeira deste conjunto de cartas, deixando-nos adivinhar um final sinistro, enigmático, mas implacável.


A frase “Está a fazer-se cada vez mais tarde” soa, aqui, como uma sentença. O fio perde-se. Parte-se. No labirinto mais conhecido da História do Ocidente, por esta sombria Ariadne.


Uma obra digna do génio que a escreveu.

Cláudia de Sousa dias

Sunday, November 15, 2009

“Gineceu” de Cristina Nobre Soares (Papiro)


Um livro de short sories, contadas no feminino e editadas a partir da pré-publicação no blogue.
As estórias de Cristina Nobre Soares têm como protagonistas mulheres do povo, ou de origens humildes, cujo quotidiano e interesses são confinados ao espaço doméstico. De onde decorre uma certa incapacidade de conseguirem olhar de forma mais abrangente o mundo que as rodeia, isto é, fora da sua esfera de interesses mais imediatos.

Quase todas vêem no casamento (excepto, talvez a filha da protagonista da primeira estória) a porta de saída para os problemas económicos e o portal de entrada para a vida adulta, ou seja, fora da alçada dos pais ou da família de orientação. O casamento e o espaço doméstico – o gineceu – é o local para onde tentam evadir-se de um quotidiano de pobreza, tanto material quanto de espírito. Trata-se, no entanto, de uma libertação que acaba, quase sempre, por se revelar um equívoco e conduzir a uma vida de prisão, limitações e quando não mesmo a uma escravidão socialmente consentida, sobretudo quando não se possui habilitações que permitam maior flexibilidade na procura de emprego. Seguindo esta linha de raciocínio,pode-se ler este “Gineceu” como uma fotografia que caracteriza o Portugal, não só do Estado Novo, mas do século XX, já na transição para o século XXI e primeira década do novo milénio: o Portugal pequenino e mesquinho (característica que engloba ambos os géneros, embora a Autora só se refira directamente ao feminino) onde as mulheres são quase sempre as servas e nunca as senhoras (dominae).
A ideia está patente na cisão – poder-se-á mesmo dizer divórcio entre mentalidade feminina e masculina, inclusive nas gerações mais jovens, nas quais,rapazes e raparigas parecem ter sido objecto de inculcação dos mesmos estereótipos e preconceitos de gerações anteriores.

No“Gineceu” designação atribuída aos aposentos destinados exclusivamente às mulheres na Grécia Antiga) de Cristina Nobre Soares, destaca-se a criatividade e enquadramento histórico, na primeira estória, a qual recria os acontecimentos de um 25 de Abril de1974 como uma lufada de ar fresco a aliviar um apertadíssimo e sufocante espartilho de restrições a que a ausência de independência económica vota o género feminino.

Uma fracção de luz, no obscurantismo secular de uma cultura oitocentista.


Cláudia de Sousa Dias

Sunday, November 08, 2009

A Linguagem das Fontes” de Gustavo Martín Garzó (Teorema)



Gustavo Martín Garzo, nascido em Valladolid no ano de 1948, é licenciado em Filosofia e Letras tendo-se especializado em Psicologia. É fundador das revistas literárias Un ángel más e El signo del gorrión. Colaborou e participou em vários congressos de literatura. Está casado com a escritora Esperanza Ortega.
De entre a sua vasta obra literária destacam-se os seguintes títulos: 2001, La soñadora; 2000, El valle de las gigantas;1999, Las historias de Marta y Fernando; 1997, El pequeño heredero; 1997, Ña y Bel; 1996, La vida nueva; 1995, La princesa manca, 1995, Marea oculta; 1994, El lenguaje de las fuentes.


Laivos de surrealismo que aparecem sob a forma de sonhos, delírios, visões, alucinações, por via natural ou química, são algumas da principais marcas presentes no discurso narrativo da personagem principal, José, marido de Maria, uma das figuras centrais do Evangelho que, nesta estória de ficção, acumula a função de narrador, criando uma evidente intertextualidade com o autor de A última Tentação de Cristo, Nikos Kazantzakis.

José e Maria revelam-se aos olhos do leitor, neste romance de Gustavo Martín Garzó, como protagonistas de uma história de paixão, posse e fúria, por onde vagueiam sombras de anjos que vigiam de perto a voragem do desejo e do desastre.


José, enquanto apaixonado, é submetido a um conjunto de forças que não compreende ou domina, revelando-se como uma personagem tão enigmática quanto inquietante.
Da mesma forma, a personagem Maria, construída por Garzó, deixa entrever alguns traços de personalidade insuspeitáveis e mesmo susceptíveis de despoletar alguma polémica.


Gustavo Martín Garzó obteve com este romance, o Prémio Nacional da Narrativa em Espanha no ano de 1994 e é considerado como um dos autores mais prestigiados do país vizinho.


Personagens e Trama


José, enquanto narrador, é um homem que se perde no tumultuoso rio das suas memórias, sobretudo no momento em que sente aproximar-se a hora derradeira. Recorda, sobretudo, Maria enquanto adolescente, o noivado e o estranho consentimento do pai.


A acção desenrola-se no interior da mente do envelhecido e solitário carpinteiro, num monólogo interior, polvilhado de alucinações visuais, auditivas e conflituosos diálogos com anjos. Sonha acordado com estranhos seres antropomórficos que identifica com seres angélicos, imateriais e de força descomunal, que julgam ser os responsáveis pelos controle dos seus movimentos, tendo como dever monitorizá-lo. José parece, também, sofrer de crises periódicas de privação de sentidos que antecedem as visões/alucinações.


Os anjos de Garzó


Os chamados “anjos” que se acostumou a ver periodicamente são seres de beleza andrógina, frios e incapazes de sentirem emoções. Têm aspecto masculino, mas são desprovidos de pénis, assemelhando-se a eunucos – daí a dificuldade em controlar algumas necessidades de cariz fisiológico. O que leva o leitor a concluir tratarem-se de seres de carne e osso, submetidos a um tipo de mutilação, comum na época, em algumas civilizações orientais. Os poderes de que gozam parecem ser fruto da imaginação delirante e dos medicamentos ingeridos pelo velho carpinteiro.
Maria é, também, frequentemente assolada pela visita desses “anjos” que a deixam perturbada, com o espírito alienado e com acentuadas alterações de humor.


Ambos os cônjuges parecem sofrer, cada qual, de um tipo específico de esquizofrenia, sendo esta estimulada tanto pelo crescente estado de senilidade de José quanto pela ingestão de substâncias mitigadoras da dores atrozes do num braço em processo de gangrena, após sofrer um acidente de trabalho. No caso de Maria, a tendência para sofrer visões e alucinações parece estar associada aos acessos se epilepsia, facto que perece relacionar-se com episódios de alteração da percepção.


Esta mãe de Jesus de Nazaré – personagem que quase não é mencionada ao longo do livro, estando praticamente ausente do pensamento do pai adoptivo - , construída por Garzó, apresenta-se-nos com uma deficiência física: uma mutilação resultante de uma pancada na mão com um objecto contundente tendo, a partir de então, gangrenado e sofrido uma amputação. O resultado de um castigo físico dado pelo pai como punição de uma tendência socialmente mal vista na sociedade judaica: a cleptomania. O livro é, portanto uma chamada de atenção para a tendência para levar ao extremo a aplicação da lei e respectiva punição.


A simbologia das fontes


O título A Linguagem das Fontes advém da tradição judaica que associa a presença feminina à água que mata a sede.


Para os conhecedores das estórias do Livro mais reproduzido de sempre - a Bíblia, para quem não sabe – as figuras femininas mais veneradas estão sempre associadas à água, como Rebeca, Raquel, a mulher de Samaria, cujo papel é o de abastecer as casas, a família, os animais, do bem indispensável à vida. A “Fonte” é, assim, a metáfora do útero do qual sai a vida (água).


Nos textos mais antigos da tradição judaica, a beleza poética das palavras exprime o apreço pelas coisas simples e, por vezes, rudes, estão presentes no quotidiano. No dia-a-dia de José, à beleza agreste do ambiente e das mulheres locais, junta-se os medos e as superstições quando se trata de interpretar fenómenos que não compreende, lidando com alguma dificuldade com os “anjos” que impedem a consumação do casamento com a mulher que ama.


Já Maria revela-se ao leitor através dos olhos de José, como um ser simultaneamente frágil e detentor de uma força igual à dos anjos que lhe assolam o espírito. A jovem mostra-se assim capaz de atingir extremos de crueldade e de compaixão, o que faz dela um ser paradoxal, cheio de contradições. Maria tem, assim, atitudes completamente díspares como é o caso do episódio com o jovem pastor, espancado até à morte, durante o qual a jovem pensa apenas em testar o próprio poder e da solidariedade com o eunuco Gratus, vítima da crueldade de Herodes. além de que Maria, neste romance, aparece com uma personalidade algo sibilina, conseguindo prever, por exemplo, algumas atitudes do monarca despótico, o que lhe possibilita a sobrevivência no meio da adversidade. O instinto de protecção associado ao impulso e sentimentos maternais estão muito vincados na sua personalidade.


Realismo Mágico


Mais do que o surrealismo, o realismo mágico parece ser o estilo dominante na escrita de Gustavo Martín Garzó em A Linguagem das Fontes, sendo disso exemplo, os transes a que são submetidas as duas personagens principais. Em relação a Maria, esta Ficava como que a ouvir vozes no silêncio e no seu olhar havia então uma qualidade de estranheza que podia dar ao seu rosto uma expressão displicente e até cruel, fazendo José sentir-se como aquele que ao entrar em casa descobre logo que ninguém estava à sua espera e que deve retirar-se imediatamente.


Sabendo o lugar de importância que, na tradição judaica, se atribui à hospitalidade, esta comportamento da protagonista feminina assemelhar-se-ia, segundo as crenças da época, a uma estreita relação com o sobrenatural.


Outro elemento de forte carga simbólica é a presença da estrela Sírius, assim como o seu posicionamento, associado ao aparecimento daquilo que acredita ser um anjo, a coincidir com as crises de epilepsia.


Também a presença do anjo que assoma ao imaginário de José, no final da vida e já em avançado estado de senilidade, ao qual chama de Abdenago, devido à sua obstinação e temperamento indomável, faz lembrar um eunuco oriental de características helénicas.


O semblante é sinistro, frio, desprovido de emoções, uma vez que a sua missão parece ser realmente, o de transportar o protagonista para o Vale da Morte.


O realismo mágico está presente no quotidiano do casal e, particularmente, nos últimos dias de vida da personagem-narrador, pela presença de fenómenos aparentemente inexplicáveis como os figos que amadurecem inesperadamente antes do tempo ou do massacre das galinhas, dentro da capoeira. Também a recordação de José da visita do “Anjo” a Maria, na altura da fuga para o Egipto, logo após a tragédia sucedida com Gratus, parece ser uma ligeira deturpação dos acontecimentos relacionada com a visita dos eunucos da Corte, amigos de Gratus e dos seus amigos.


Para quem lê a obra, Abdenago assemelha-se mais a um eunuco, vítima de um flagelo semelhante ao do pastor, devorado pelos chacais, mas cujas capacidades são amplificadas, quer pela ingestão de substâncias químicas do ancião quer pela alteração de consciência e deturpação perceptiva da esposa. Abdenago, a quem José toma por um anjo, tem um comportamento estranho, lembrando antes um sicário, enviado pela corte com a missão de envenenar José com um opiáceo dissolvido no vinho. Ou, ou de lhe aliviar as dores, preparando-o para a morte. Trata-se da personagem mais ambígua do romance. O que é uma mais-valia para o já de si elevado teor de polissemia da obra. O ataque cardíaco que marca o dramático final da obra é, também, atribuído a este misterioso benfeitor.


Do blog http://leganasdulcesenojospicantes.blogspot.com/extraímos a análise mais exacta da personagem Abdenago e a sua relação com José:


Leer sobre Abdenago puede ser todo un shock, no sólo por la descripción física que hace Martín Garzo del personaje (constitución humana, expresión atormentada cercana al pathos laocooteniano, esfínteres incontrolados, respiración forzosa, voz metálica) o porque el autor lo dota de cualidades que según la tradición católica estos no poseen (como por ejemplo leer el pensamiento), sino por ese proceso de metamorfosis tan desagradable, agónico y degenerativo que lo acerca tanto a la especie humana y que casi nos degrada. Abdenago, al igual que otros que rondaban a José, estaba muy lejos, valga la redundancia, de cualquier imagen angelical. Más bien, todo lo contrario. Se les presenta como entes agresivos, violentos, vengativos, dispuestos a todo.
Sin duda alguna, si José es el verdadero protagonista (y merecido) de " El lenguaje de las Fuentes" (Gustavo Martín Garzo, 1994) por la trascendencia de su persona como padre de El Mesías, Abdenago es la gran revelación de la novela. De hecho, desde que la leí allá por el año 2002, estoy esperando una novela especialmente dedicada a las andanzas de Abdenago por la tierra...En fin, un ángel caído, como muchos otros
.


O estranho carácter de Maria não fica nada a dever ao de Abdenago em matéria de ambiguidade, cabendo-lhe para além do que já foi dito, uma certa dose de dissimulação, característica tradicionalmente atribuída às mulheres, tendo como base o capítulo do Génesis. O José de Garzó parece, no entanto, encontrar a chave que explica este comportamento:


Talvez porque aqueles encontros com os anjos deixassem nela aquele obscuro transtorno em relação à própria constituição do real; talvez porque a mentira e o engano tivessem uma profunda raiz paradisíaca e fossem indissociáveis da felicidade e da satisfação.


Ao que não é alheio o medo do castigo ao assumir-se como um ser “diferente” que talvez aumente esta necessidade de ocultação dos fenómenos a que estão associadas estas visitas. José, numa das suas alucinações, chega a ver a esposa às cavalitas de um destes “anjos”, o que lhe despoleta um acesso de ciúme.


O flagelo da castração


O romance A Linguagem das Fontes aborda a questão da castração masculina, muito comum em algumas culturas orientais, na época. Há um jovem púbere que é raptado, violado e castrado por um grupo de beduínos e cuja situação é mantida em segredo pelos homens de etnia judaica, cujo pudor faz com que tentem manter as mulheres ignorantes da situação. No entanto, a curiosidade destas é superior à prudência dos homens. As mulheres judias são retratadas por Garzó como detentoras da de um sentimento de compaixão e solidariedade que atinge o patamar do sublime. Principalmente no que toca ao momento da fuga e suicídio deste, após o que é devorado pelos chacais, animal conotado segundo a tradição bíblica, às forças do Mal.


Um aspecto de grande ousadia por parte de Garzó, ainda neste romance, consiste na insinuação de que Maria poderia ter sido violada, durante uma privação de sentidos, deixando no ar a dúvida de que a concepção do filho da Virgem ser de origem divina ou sobrenatural, ao lançar a suspeita de se tratar antes de um fenómeno tão comum quanto a reprodução da humanidade. Outro, será o acentuar da senilidade de José, à medida que a narrativa se aproxima do seu terminus.


Um curto romance deste José com uma jovem beduína, durante a estadia no Egipto, não consegue ofuscar este amor obsessivo, apesar da beleza perfeita da adolescente. Ele abandonara Puah e, anos depois, fora Maria a pagar-lhe com a mesma moeda.


“(…)Não protestou quando a viu dirigir-se para Jerusalém para ser integrada nos círculos secretos dos seguidores do seu filho, com quem nunca consegui simpatizar”.


O final da narrativa está já marcado pelo episódio da invasão de Israel pelos Romanos.


E as últimas cenas são protagonizadas por presença de Maria, intacta na sua beleza de jovem, e pelo sinistro anjo que abandona o cenário após ver concluída a sua missão: observar e prestar assistência e encaminhamento para a morte do pai daquele que então se intitulava “o Messias”.


Uma narrativa que tem tanto de belo e sublime como de intrigante.



Cláudia de Sousa Dias

Sunday, November 01, 2009

“O Cão Vermelho” de Louis de Bernières (ASA)



No início de 1998 fui a Perth, na Austrália, com o objectivo de participar num festival literário. Previamente acordada estava uma visita a Karratha, onde deveria integrar,também, um jantar literário. Karratha é uma cidade no Norte, composta por várias áreas de terra vermelha, rocha e mato. A paisagem é extraordinária. Imagino que Marte deve ser semelhante. Decidi explorar a zona e descobri uma estátua de bronze – o Cão Vermelho – nas imediações da cidade de Dampier. Senti imediatamente que tinha de desvendar o passado daquele cão (…).

Regressei alguns meses mais tarde e passei duas maravilhosas semanas a recolher histórias sobre ele e a visitar os lugares por onde ele passara, escrevendo à medida que viajava.

Espero que o meu gato nunca descubra que escrevi uma história em honra de um cão
.


Louis de Bernières

Ao basear-se numa história de factos verídicos, Louis de Bernières, constrói uma série de relatos que, embora interligados e seguindo uma ordem cronológica, podem ser lidos separadamente como se de contos se tratassem. Os episódios reunidos neste volume são a tentativa de reconstituição do percurso da vida, curta mas atribulada, de um rafeiro australiano, andarilho e independente, mas insinuante, a ponto de construir uma vasta rede de amigos, solidários e sempre prontos a ajudá-lo, a alimentá-lo e a dar-lhe guarida.

De acordo com os dados recolhidos pelo Autor, em Karratha, o verdadeiro Cão Vermelho nasceu em 1971 e morreu em 20 de Novembro de 1979.


As estórias relatadas no livro são retiradas de episódios que realmente ocorreram, tendo apenas sido alterado o nome das personagens, com excepção de John.

A consulta às bibliotecas públicas de Perth, Dampier e Karratha, bem como o périplo pelas livrarias locais, serviram de base à pesquisa efectuada para a reconstituição da vida do cão vagabundo australiano. Os dois relatos, totalmente factuais, nos quais se baseia para elaborar O Cão Vermelho encontram-se fora do mercado livreiro, pelo que não podem ser adquiridos, mesmo que nos desloquemos propositadamente à Austrália esse objectivo. Um destes relatos foi elaborado por Nancy Gillepsie e está na Biblioteca de Perth, sendo datado de 1983; e o de Beverly Duckel (1993), disponível apenas no posto de turismo de Karratha.

As estórias são agrupadas consoante as fases conhecidas da vida do Cão Vermelho. Assim, nos primeiros três episódios, o Vermelho vive com o casal Collins, que o apelida de Tally-Ho.
Logo nas primeiras páginas, apercebem-nos que o bicharoco tem o dom de cativar a simpatia e de estimular a generosidade daqueles com quem se cruza. Andarilho e matreiro, sabe insinuar-se junto das pessoas certas para arranjar comida apesar do sério problema de flatulência – uma potentíssima arma química – de que sofre, obrigando aqueles que o hospedam a manter os espaços onde se encontra, devidamente arejados. Este facto, adicionado à impressionante voracidade que o caracteriza, obriga a que os seus benfeitores estejam sempre com um olho posto no jantar enquanto realizam outras actividades.

Ao conhecer John, dá-se um ponto de viragem no percurso de vida do Cão Vermelho o qual passa, a partir daí, a ser conhecido apenas por esse nome. John será o seu companheiro de eleição em cujo domicílio se sente realmente em casa, onde sempre regressa nos intervalos das suas explorações pelo continente australiano. Aumenta consideravelmente o número de amizades cuja fidelidade resiste a toda a prova. Sobretudo à pestilência, como é o caso de Nancy, Patsy e dos trabalhadores da central de camionagem, colegas e passageiros de John.
No entanto, a morte inesperada de John, marca o início do período de errância na vida do Cão Vermelho que já não é interrompida pelos regressos a casa do amigo.


O episódio que relata o acidente de John altera, também, a coloratura emocional da obra, que se tinge de tons dramáticos a partir do momento em que os amigos e colegas deste se apercebem que o animal não tem consciência da morte do amigo, julgando-o perdido ou que, simplesmente, decidiu abandoná-lo passando, então, a procurá-lo mundo fora. A trama caminha, a partir de então, seguindo o rumo de uma intensidade dramática em crescendum até atingir o ponto culminante, no final. Um processo que é entremeado por episódios divertidos, para aliviar a sobrecarga emocional, onde o Autor faz o enquadramento da trama na paisagem na paisagem geográfica com a inclusão de elementos climáticos, assim como da fauna e flora australiana, a que se junta, também, a dimensão humana e ecológica. Louis de Bernières faz uma chamada de atenção para a forma como os humanos invadem progressivamente o território selvagem, com grave prejuízo para as espécies locais. O Autor utiliza as peregrinações do Cão Vermelho como pretexto para chamar a atenção para a tragédia que é o número de mortes de Kangurus e Wallabies, nas auto-estradas da Austrália, por atropelamento.

Simultaneamente está, também, impressa no texto a dualidade da Natureza humana que permite com que se trate outros seres vivos com requintes de crueldade ou, pelo contrário, com uma afeição tão evidente como a forte ligação do Homem, à Natureza que age, nesta estória age, de forma paradoxal, como força humanizadora. A mensagem que se pretende passar é a de que o amor e os afectos são a chave, o sentido único da vida. Principalmente aquele amor que não coloca grilhetas nem entraves à acção do Outro.

O autor mostra-se, também, empenhado em revelar o ridículo e a estupidez da observância de ódios mesquinhos, da avareza, da inveja e da má vontade daqueles que envenenam cães, gatos, dingos e outros animais com estricnina ou outros métodos de crueldade inimaginável.

O Cão Vermelho é um animal invulgar. Com muito de humano. Por vezes mais humano do que a maior parte dos homens. Um rafeiro avermelhado que possui uma memória, sentido de orientação e inteligência emocional bastante acima da média: para viajar não precisa de GPS e tem grande facilidade em seleccionar amigos, excluindo automaticamente pessoas de carácter duvidoso ou mau carácter. Em relação aos outros animais, possui uma excelente capacidade de transformar inimigos em aliados – como é o caso do Gato Vermelho, num episódio digno das melhores estórias de Garfield.

Louis de Bernières não deixa de utilizar o humor, tal como já nos habituamos a ver em obras como O Bandolim do Capitão Corelli alternadas com cenas de grande intensidade dramática ou trágica.

O texto final é digno quase que de um conto de Hans Christian Andersen ou de uma tragédia de Sófocles.
No entanto, a lembrança que permanece após a leitura de O Cão Vermelho, é a de uma estória de amor que envolve o protagonista e é enfatizada pelos sentimentos opostos dos antagonistas, como contraponto. A sátira e o riso são utilizados como catalisadores da ternura e do afecto, indispensáveis a todos aqueles que, de facto, se sentem vivos e vivem a vida na plenitude, na ânsia de encontrar o amor e saciar a sede infinita de liberdade.


Cláudia de Sousa Dias

Monday, October 26, 2009

“O Apocalipse dos Trabalhadores” de Valter Hugo Mãe (Quidnovi)




Num registo totalmente diverso do mundo medieval, povoado de expressões a lembrar a linguagem arcaica de épocas remotas em “o romance de baltazar serapião”, Valter Hugo Mãe revela-nos, neste seu Apocalipse… o mundo das trabalhadoras domésticas no interior do País e, simultaneamente, as dificuldades com que se deparam os imigrantes, vindos dos antigos países ditos “do Leste”(de acordo com a divisão ideológica da Europa no período da Guerra Fria) em Portugal. Com este livro, Valter Hugo Mãe permite que nos deslumbremos com a nostalgia, que nos é revelada pela sua forma de olhar os relacionamentos a partir da uma visão do amor numa franja da sociedade onde a existência é muito precária. Onde segundo o Autor, “no quotidiano está sempre presente o sentimento de perda, efectiva ou eminente.


Um dos aspectos mais cativantes do livro, é a referência a uma vida inteligível ou pelo menos espiritual, após a morte, com capacidade de pensar e raciocinar dotada de sentido de humor, sentido crítico e até, de algum veneno.


No discurso post- mortem de Maria da Graça, estão presente sob a forma de alegoria, uma virulenta crítica social, face à forma como as crenças são inculcadas pelas instituições, na mente do cidadão comum. Segundo o autor: “Era preciso muita lata para deus existir. Só deus foi incapaz de criar felicidade no mundo. Deus, a Cinderela e os Dragões estão extintos”.


A ideia de precariedade é, também, reforçada com a presença da morte, no romance, com o falecimento do Senhor Ferreira, o que irá despoletar toda a tragédia.


Valter Hugo Mãe é, também, um Autor a quem assusta a ideia do fascismo bem como a existência de algum saudosismo relativamente à época em que vigorava em Portugal um regime totalitário. Daí, também, a descrição em O Apocalipse dos Trabalhadores do mundo a que foram submetidos durante muito tempo, os trabalhadores na Ucrânia e que procuram, hoje em dia, Portugal, para eles “o país das flores”, em alusão à Revolução dos Cravos. Um país onde se faz uma revolução que é, sobretudo, poética, sem derramamento de sangue. A imigração é, simultaneamente, uma oportunidade para escapar a uma existência onde a precariedade é ainda maior e onde o fantasma da fome assombrou, durante demasiado tempo, a vida de muitas famílias. Trata-se de um encontro entre pessoas de origens diferentes, habituadas a níveis diferentes de precariedade.


O livro deveria ser, inicialmente, chamado de A Morte dos Tolos. A opção por este título deve-se à intenção de facultar uma compreensão mais imediata da temática do livro, apesar da perda de alguma da beleza poética do título inicial, mais em consonância com o estilo e o discurso, presente na prosa do Autor nesta obra.


A trama


Ao entrarmos nas estórias que se desenvolvem em paralelo neste romance, deparamo-nos, em primeiro lugar, com a aparente leveza dos diálogos entre Maria da Graça e Quitéria, cujos diálogos, apesar de se referirem aos mais triviais assuntos do quotidiano, abarcam o mais profundo do sentido da vida dos seres humanos.


Os amores controversos entre Maria da Graça e o Sr. Ferreira, do qual temos, de início, temos alguma dificuldade em descortinar a afeição por detrás daquilo que parece ser uma exibição de poder de um dos lados e interesse económico do outro. No entanto, vamo-nos apercebendo de uma forma gradual, da crescente admiração de Maria da Graça pelo patrão e da preocupação deste relativamente ao futuro da empregada.


Da mesma forma evolui o romance entre Quitéria, amiga de Maria da Graça, e o imigrante ucraniano Andryi que começa por ser apenas uma relação física mas de onde parte a afeição que surge com a convivência.


Em ambos os casos, é perceptível que a precariedade laboral condiciona a vida afectiva das pessoas, sobretudo no caso da protagonista, Maria da Graça, que chega a afirmar, no início, na altura em que envenena a sopa do marido com lixívia para que a indisposição deste a liberte da obrigação de ter relações sexuais com este, que “ o amor é para quem não tem nada que fazer”. A precariedade financeira condiciona muitas vezes a possibilidade de um divórcio e abertura de novo caminhos na busca dos afectos.


Maria da Graça e Quitéria são mulheres terrenas, autênticos rochedos humanos como são as varinas de Vila do Conde – a terra onde habita o Autor –, mas a viver em Bragança. Aliás, a própria Maria da Graça é mulher de um pescador, Augusto, que passa largos meses em alto-mar, visitando-a de longe a longe. Enquanto isso, Maria da Graça trabalha em casa do Senhor Ferreira, o qual abusa sexualmente dela. No entanto, aquela deixa-se fascinar pela sua erudição, uma vez que é o patrão quem lhe dá a conhecer um mundo maravilhoso até então, para ela, desconhecido: o universo da Beleza e da Arte. É pela mão do Senhor Ferreira que Maria da Graça contacta com a profundidade obscura das notas do Requiem de Mozart, com os contrastes dados pelos jogos de luz e sombra nas pinceladas de Goya ou dos nostálgicos e amargos versos de Rilke.


Maria da Graça odeia cada vez mais o marido e, embora não o queira matar, envenena-o aos poucos, colocando-lhe lixívia na sopa como forma de se vingar da existência de tédio que lhe proporciona. Na cama, inclusive.


Quitéria, a amiga e confidente, também empregada de limpeza, tem um amante. Ucraniano, jovem e belo: o Andryi. Este mantém-se, inicialmente, reservado, pouco interessado nas mulheres portuguesas, de constituição atarracada, escuras e gordas. No entanto, acaba por se afeiçoar a Quitéria, quase vinte anos mais velha, pela dedicação que esta lhe vota.


O enfoque dado à imigração vinda dos países de leste vem trazer uma lufada de ar fresco ao panorama da literatura portuguesa que raramente explora esta temática, salvo honrosas excepções como Luísa Monteiro ou Maria Velho da Costa. Valter Hugo Mãe traz um pouco de luz acerca de determinado período da história, vivido na Ucrânia durante o século vinte, assolado pela forme naquele país.


O Apocalipse dos Trabalhadores é, na realidade, um fresco que envolve as classes socialmente menos favorecidas em Portugal: um autêntico quadro social isento de considerações moralistas ou moralizantes.


Maria da Graça, por exemplo, não se importa de envenenar gradualmente o marido. Fá-lo sem ponta de remorso. Não se coíbe, também, de insultar o Senhor Ferreira quando este não está presente, apesar de a fascinar. Sente-se, no entanto, diminuída face à erudição do homem a quem admira.


Quitéria, por seu lado, extorque dinheiro às famílias dos mortos, cobrado 50 euros por sessão, como carpideira, “salário de médico”, obtido à custa da exploração da dor alheia.
Os vestígios da consciência surgem por via do remorso, tema já abordado em no anterior romance de Valter Hugo Mãe, o remorso de baltazar serapião. O mesmo remorso está patente nos pesadelos de Maria da Graça que se debate, às portas do Paraíso, em acesa discussão com S. Pedro, que lhe nega a entrada e o pedido para visitar o Senhor Ferreira.


A cena que se desenrola à entrada do Paraíso constitui uma alegoria ao mercado que se gera à volta das crenças individuais e das necessidades espirituais de cada um. São Pedro é-nos apresentado como um velho rabugento (à semelhança de muitos sacerdotes farisaicos), um burocrata, cuja missão é a de dificultar a entrada para o Paraíso ou o aceso à felicidade. Assume uma postura impávida e serena, de uma indiferença total aos vendilhões diante da porta que dá acesso ao céu, os quais tentam arrecadar os últimos cobres aos moribundos, tentando-os com recordações terrenas do mundo material.


Para Maria da Graça, cuja vida deixou de fazer sentido depois da partida do Senhor Ferreira, a morte a apresenta-se como o único caminho para ir em busca do amor e deixar para trás toda uma existência medíocre.


As marcas de detergentes como recurso de estilo para descrição de um universo muito particular


A referência constante a marcas de detergentes e lixívias no texto de O Apocalipse dos Trabalhadores, acaba por sublinhar uma das principais características das mulheres portuguesas das classes trabalhadoras: a preocupação com as limpezas e o asseio das casas., num ambiente em que a reputação das mulheres está espelhada no brilho dos móveis e dos espelhos ou no rutilar dos copos, cristalinos ou não. E no caso de empregadas domésticas como Maria da Graça e Quitéria, o mundo dos detergentes é, de facto, o seu universo. O mesmo universo cujos limites Maria da Graça consegue transpor os limites com o homem a quem ama, e com o qual descobre que não veio ao mundo unicamente para ser mulher-a-dias. A partir de então apercebe-se que a mulher não tem apenas funções higiénicas ou anti-sépticas, do arranjo do espaço doméstico e do trabalho caseiro. De certa forma, pode-se considerar O Apocalipse dos Trabalhadores como mais um romance defensor dos direitos das mulheres de Valter Hugo Mãe.



Portugal é um Cão Rafeiro


Numa impressionante alegoria, o Autor, num golpe de ousadia nunca antes visto, caracteriza o país na figura de um animal aparentemente insignificante, a que quase ninguém dá importância, mas que consegue sobreviver no meio de grandes dificuldades. Um país que revela a grandeza no meio da mais pura e reles insignificância.


A personagem Portugal, um cão cujo nome é atribuído pelo Sr. Ferreira, num rasgo de humor, abundantemente regado com o vinagre da ironia. Portugal é, assim, um cão que passa completamente despercebido, olhado com desprezo pela maioria dos seus pares – os janotas ricos - tal como o nosso País é, muitas vezes visto pelos parceiros da U.E (basta ver os termos com que Berlusconi se refere a Portugal, quando pretende desculpar a própria conduta). Assim em O Apocalipse dos Trabalhadores Portugal é o cão (ou o país) submisso, obediente mas manhoso, sensível e …impotente. Segundo o narrador: “ um rectângulo castanho, pulguento e…imprestável.” Um retrato impiedoso em relação ao nível de desenvolvimento, capacidades e mentalidade de um povo que se mantém, alegre e despreocupadamente, feliz na mediocridade.


O Apocalipse dos Trabalhadores vem, assim, confirmar o talento e o brilhantismo de um Autor, considerado por José Saramago como “um tsunami” na literatura portuguesa contemporânea, de humor displicentemente negro, que ao sintetizar a personalidade colectiva de um povo na figura de um rafeiro reflecte, por si só, a marca da genialidade.


Cláudia de Sousa Dias

Saturday, October 17, 2009

“A Idade da Inocência” de Edith Wharton (Europa América)



Edith Jones, Wharton pelo casamento, nasce em 1862 em Nova Iorque, no seio de uma sãs famílias mais tradicionais e abastadas da Costa Leste. Educada na Europa, movimenta-se dentro do círculo das elites de ambos os continentes, no ambiente restrito da aristocracia e da alta burguesia financeira, deparando-se com o desafio imposto pela sua personalidade anti-convencional em vencer os preconceitos típicos de uma sociedade ultra-conservadora para fazer aquilo de que mais gosta: escrever e publicar.
Aos 23 anos casa com o banqueiro Edward Robin Wharton, de quem se divorcia vinte e oito anos depois.
A sua primeira publicação de sucesso data de 1902 com
The Valley of Decision. Antes tinha escrito The Touchstone (1900). No entanto, o primeiro grande romance só é publicado em 1905, coincidindo com a época do divórcio, cuja temática incide numa virulenta crítica à alta sociedade norte-americana.

O pendor realista está muito presente na obra desta autora, de espírito inconformista, o que se evidencia sobretudo em Ethan Frome (1911) a enfatizar a luta individual face à pressões sociais orientadoras da conduta; e, também, em The Custom of the Country de 1913. Mas é com A Idade da Inocência que em 1921 obtém o Prémio Pulitzer e o reconhecimento internacional como escritora. Contou, também, com o apoio incondicional de um grande amigo, o escritor Henry James, nome que dispensa apresentações.

Edith Wharton passa a viver em Paris, a partir de 1907 e, em 1915, é condecorada com a Legião de Honra Francesa pelo auxílio prestado a refugiados de guerra. Virá a falecer em França, na localidade de Saint-Brice-sous-Fôret, em 1936.


A trama de A Idade da Inocência gira à volta de um triângulo amoroso composto por Newland Archer, advogado, oriundo de uma família abastada, gestor das propriedades do vasto clã que inclui a própria família e a da mulher. As suas inclinações afectivas colocam-no num dilema que opõe o seu carinho por May – a jovem com quem parece destinado a casar-se e que perece reunir todos os atributos considerados válidos e que a tornam elegível para esposa de alguém com os pergaminhos de Newland – à paixão que nutre pela Condessa Olenska que, após passar uma longa temporada na Europa regressa, divorciada e com modos afrancesados, a remeter levemente para a licenciosidade da corte de Versailles no tempo do Rei-Sol.

Archer é, também, um jovem de espírito inconformista – mas só em privado – que é sufocado pelo apertadíssimo espartilho das normas de conduta social, num meio onde a aparência de verticalidade e uma reputação sem mácula é tudo o que conta para a preservação do prestígio social desejável para se ser um modelo de conduta, invejado e imitado pelos demais. O equilíbrio precário entre impulsos e desejos a necessidade de submissão às convenções associados ao medo de se ser marginalizado levam Archer ao dilema existencial no qual reside o motor de desenvolvimento da narrativa.
May, a jovem com quem Archer é por todos os que o rodeiam subtilmente pressionado a casar, tem todas as qualidades que é suposto reunir uma jovem esposa de um advogado em início de carreira. Muito jovem, inexperiente, amante do exercício físico intenso, May não partilha do entusiasmo de Newland Archer pelas artes plásticas, arquitectura e paixão pelas letras. Talvez por a família da própria May ser de índole essencialmente pragmática, com os interesses centrados exclusivamente nos negócios e na vida social, os Weelland não conseguem interessar-se por actividades do foro intelectual senão superficialmente. A forma como May foi educada teve como prioridade o apego excessivo às convenções, o que cria algumas dificuldades no que respeita à conciliação das próprias afinidades com as de Archer. May é uma mulher inteligente mas frívola, com capacidade para amar mas a quem a educação revestiu de uma camada de gelo de tal forma espessa que se torna impossível de derreter. May tem sempre o gesto e o tom de voz certo para cada ocasião, tendo também desenvolvido a capacidade de colorir uma contrariedade ou censura com um sorriso ou uma frase apaziguadora. No entanto, esta característica acabará por fazer dela uma pessoa dissimulada e incapaz de enfrentar as situações, preferindo optar pela manipulação.

Ellen Olenska, legalmente casada com um aristocrata europeu reside em Paris. Prima de May, foi educada pela irreverente tia Medora Manson e pela maliciosa e condescendente Avó Catherine, as quais ajudaram a moldar uma personalidade tão inconformista quanto a de Archer. Após escandalizar a ultra-conservadora elite da costa este nova-iorquina, ao debutar com um vestido de cetim preto. Casa-se com um nobre da Europa do Leste, mudando-se para o Velho Continente, onde vive durante largos anos, numa atmosfera de luxo rendilhado de boémia, mas onde é respeitada. O fracasso do casamento com um marido de personalidade autocrática, além de dissipador, leva-a a regressar ao ninho da família de origem em busca de refúgio. Ao chegar, depara-se com a muralha das convenções. Todos parecem estranhar a sua maneira de vestir, ao olhar desconfiadas a figura da Condessa, desta vez num vestido de corte império, totalmente deslocada da figura estilizada das damas do início da belle époque, que olham com receio os seus modos exuberantes, recheados de estrangeirismos. No entanto, o principal motivo de receio é que a nódoa que constitui o estigma social altamente pejorativo de “mulher divorciada”, possa macular, de alguma forma, a aparência impoluta da imagem moral da família Weelland-Archer. O que mais abominam é a publicidade negativa que possa ser associada a um escândalo de ordem sentimental. Por isso, não é de estranhar que seja precisamente a família mais próxima a recear a presença da condessa Olenska. Sobretudo pela possibilidade de esta desviar a atenção de Archer relativamente à noiva. Por outro lado, temem a possibilidade de os seus pares lhe virarem as costas, recusando-se a sentar à mesa com uma mulher “transviada”. Na realidade, a maior parte dos convidados para o jantar de boas vindas a Olenska declina o convite. Para isso, será necessário recorrer aos Van der Luyden, o casal mais idolatrado e inacessível da Costa. O controlo social é apertadíssimo contando, para tal, com a minúcia que raia a mesquinhez dos árbitros das elegâncias, peritos em mexericos, como Sillerton Jackson que se entretém a apontar as supostas falhas dos outros de forma a desviar a atenção da própria conduta.


Olenska gosta de quebrar convenções a cada momento, apesar dos esforços para não o fazer – tanto na forma de vestir como na conduta em sociedade como, por exemplo, ao falar com homens, nem sempre bem conceituados no que toca a respeitabilidade com as mulheres, a qualquer altura do dia, independentemente do estado civil.
No entanto, a superioridade do carácter de Olenska destaca-se pela coerência com que ultrapassa convenções sem se sujeitar aos convencionalismos impostos pela opinião pública acerca de si própria. Sobretudo a de quem a não conhece directamente, a ela e às circunstâncias em que toma determinadas atitudes.

Quando Mrs Beaufort cai em desgraça, devido à imprudência do marido nos negócios, a solidariedade de Olenska para com a prima é de uma coragem a toda a prova, ao contraria a atitude dos seus pares, que decidem votar o casal ao ostracismo, mediante um imprudente lance financeiro. Defendem, também, que uma escolha mal calculada deve ser mantida indefinidamente.


Perante isto, Olenska escolhe desde cedo, viver de acordo com as próprias regras e ser ela própria a seleccionar as suas amizades. Primeiro, num contexto social onde lhe é permitido fazê-lo, como a Paris da viragem do século XIX para o século XX, onde conquista o prestígio social por mérito próprio, depois junto da família de origem, após o divórcio e, por último, novamente em Paris. Outro aspecto que faz com que Olenska se destaque da tribo a que pertence tem a ver com o estratagema “airoso”, dotado de falsa solidariedade, com que esta se tenta livrar dela, como o elemento incómodo, fazendo questão de sempre se afirmar como dona do seu próprio nariz e fazer o que muito bem entende. A própria família Van der Luyden, idolatrada pela mesma tribo como o protótipo da perfeição, acaba por ajudar a família de Ellen e May na altura de se livrarem daquela por a considerarem uma ameaça ao casamento de May. Para tal, organizam-lhe um jantar de despedida como se a homenageassem. Nesse momento, Ellen Olenska apercebe-se que todos a tomam por amante de Archer. Na realidade este chega, por duas vezes, a pensar em abandonar a cidade e traçar um plano de vida em comum com Olenska. Mas acaba sempre por ceder às pressões familiares, quer antes quer depois do casamento.

No epílogo, percebemos o lento processo de mudança, a marcar o comportamento das gerações seguintes, numa perspectiva optimista que transparece no discurso da Autora. Nos mais velhos, as atitudes e inibições solidificadas durante tantos anos, tendem a persistir. Só os jovens se movimentam segundo outras premissas. Assim se explica a atitude passiva de Archer numa altura em que poderia ter invertido o rumo das vidas de ambos, deixando-se levar pela inércia e comodismo. Atitude que transporta consigo, ao longo de toda a vida, passadas cerca de duas décadas. Isto porque a acção do tempo colabora no sentido da erodir a vontade e a iniciativa. Trata-se de uma das ideias mais importantes que a Autora pretende transmitir: Archer, após analisar todo o leque de oportunidades perdidas, apercebe-se de que viveu uma felicidade a meia haste, sem usufruir de todo o seu potencial.


Nesta fase da vida, Archer observa o comportamento dos jovens da geração a que pertencem os seus próprios filhos e de May, nos anos vinte do novo século, cuja mentalidade revolucionária favorece o afrouxamento das convenções, tal como acontece no vestuário, onde é abolido o espartilho e as saias começam a deixar ver as pernas.


Também nesta altura as fronteiras entre as classes sociais parecem ter ficado mais permeáveis, permitindo por exemplo, o fechar de olhos relativamente à origem de algumas fortunas. A mudança geracional ocorrida nos E.U.A., neste curto espaço de tempo, acompanha a evolução tecnológica, com a introdução e a disseminação do uso do telefone, as viagens mais rápidas. Tudo factores que aproximam a pessoas e agem como facilitadores da interacção social no sentido de permitirem ultrapassar algumas barreiras, desmantelar alguns preconceitos e desvalorizar estereótipos.


No entanto, a mensagem mais importante do romance é aquela que é introduzida por Ellen Olenska quando se refere à figura da Górgona que, ao contrário da lenda, não transforma propriamente os homens - ou as mulheres – em pedra. Apenas os endurece, no sentido em que “seca as lágrimas”. É a perda da inocência, onde o homem ganha, em troca, a resistência ao sofrimento. Ambos - inocência e sofrimento - se desintegram, devassados pela fria luz da realidade.


Onde o preço a pagar será, talvez, as emoções, doravante petrificadas…

Cláudia de Sousa Dias

Thursday, October 08, 2009

“Terna é a Noite” de Scott.Fitzgerald (Relógio d’Água)


Imagem: quadro de Tamara de Lempicka que serviu de base à capa do livro editado pela Relógio d'Água em 1991

Escrito nos anos trinta, Terna é a Noite possui uma faceta autobiográfica bastante vincada: findo o casamento com Zelda, Fitzgerald solitário, refugia-se no álcool e na memória de um casamento cheio de convulsões devido, em grande parte, à doença da esposa, afectada pela esquizofrenia.


A temática de Terna é a Noite é rica e envolvente porque dotada de verosimilhança, sobretudo no que diz respeito ao desenvolvimento e amadurecimento das relações conjugais, ao incidir abarcando a convivência quotidiana com uma doente de esquizofrenia e, também, no contacto com as consequências de situações de abuso sexual, pedofilia, nas máscaras subjacentes ao desempenho dos papéis sociais aos quais corresponde determinado estatuto, na ligação do alcoolismo ao stress e à frustração de expectativas e ambições e sobretudo ao delicado relacionamento que se estabelece entre um médico e uma doente, quando estas duas categorias de pessoas se tornam um casal.


A primeira parte do romance passa-se na Riviera Francesa em 1925, onde o casal Diver vive rodeado de uma atmosfera de luxo e trava conhecimento com um elemento que acaba por ser o catalisador que irá precipitar o fim da relação - a jovem actriz Rosemary Hoyt. Aliás, nesta fase, a narrativa chega-nos, precisamente, pelo olhar de Rosemary, que recorda a forma idílica como conheceu o casal, alguns anos depois de os factos acontecerem.

O segundo abalo na relação dos dois protagonistas é precipitado pelo aparecimento de Tommy Braban, o milionário arrogante e algo exibicionista, que dará o golpe definitivo no casamento de ambos.


A primeira parte serve assim para dar a conhecer o cenário onde decorre a parte principal da acção – numa pequena povoação à beira-mar de Cannes - e apresentar as personagens e a forma como se articulam, definindo a orientação do desenvolvimento da estória.


Personagens

Assim, Nicole Warren Diver é uma jovem de vinte e quatro anos, que domina a praia defronte do hotel onde está hospedada, no apogeu da sua beleza: “…estatura alta e imponente, semelhante a uma estátua de Rodin, feições correctas, boca discreta”.


Nicole é extremamente rica, herdeira de uma das maiores fortunas dos Estados Unidos. Tem, ainda, uma personalidade esfíngica que magnetiza aqueles que a rodeiam. No entanto, quem convive diariamente com Nicole apercebe-se de seu temperamento inseguro e do raciocínio desorganizado: “Acolá existia um poço cuja cobertura estava sempre molhada e escorregadia, mesmo nos dias mais quentes. Nicole (…) gostava de ser activa, embora às vezes desse a impressão de indolência que era ao mesmo tempo estática e evocativa. Resultava isto de conhecer vários mundos e não acreditar em nenhum deles e assim, conservava-se silenciosa, compartilhando a sua urbanidade com uma exactidão que se aproximava da mesquinhez.”


A raiz desta personalidade reside num facto ocorrido nos primeiros anos da adolescência cujas consequências são a perda de confiança em elementos do sexo masculino. Confiança que é, aos poucos, reconquistada com a ajuda de Dick, conceituado psicólogo que exerce actividade na prestigiada clínica Suíça onde se conhecem vindo a casar alguns poucos anos depois.


A narradora Rosemary Hoyt começa por ser uma adolescente fortemente influenciada e manipulada pela mãe, a qual utiliza a beleza da filha como capital, investindo com a frieza de um agente de marketing na carreira da filha como actriz. Elsie, a mãe de Rosemary, “…casou duas vezes e o seu estoicismo bem-humorado não fizera mais do que aprofundar-se (…) e qualquer deles deixara um património que Elsie empregara na educação da filha (…) cultivava na rapariga um idealismo que ao presente a levava a ver o mundo pelos olhos da mãe (…). (…) Nutria prudente desconfiança por tudo o que fosse trivial, vulgar; contudo, o inesperado êxito da filha no cinema aconselhou a senhora Speers a achar oportuno conduzi-la a sentimentos afectivos: não lhe desagradava que o idealismo forte, exigente e inquieto de Rosemary se concentrasse em algo que não fosse ela mesma”. Mrs. Speers educa, portanto, Rosemary para que possa garantir a própria independência e fazer sempre aquilo que tem vontade: "Eduquei-te para o trabalho e não propriamente para casar (…) joga todos os recursos. Aconteça o que acontecer não serás prejudicada porque estás economicamente garantida”. Mais tarde, o segundo narrador, faz a ligação desta forma de pensar ao verdadeiro temperamento da jovem ao reflectir que apesar de moldada pela mãe: “ O seu fundo real tem muito de irlandês: romântico e ilógico”.


Rosemary, nos primeiros dias da estadia na Riviera, começa por se entediar. A calma e a tranquilidade do lugar, feito para umas férias pachorrentas, não se adequa ao seu impulso adolescente para a aventura e diversão. Rosemary achava a vida em França vazia e antiquada. Até conhecer os Divers.


Dick Diver, o marido de Nicole é um psiquiatra completamente integrado no mundo científico e académico da Europa, tendo publicado vários livros, inspirados na corrente psicanalítica que na época era considerada de vanguarda. Conhece Nicole Warren, durante o internamento desta, no hospital onde trabalha conjuntamente com o Dr. Dömller, seu amigo e mentor. Dick acaba por apaixonar-se pela jovem, sendo que não é o responsável directo pelo tratamento desta, cuja terapia está, na realidade, a cargo do colega.


Um dos momentos mais importantes de toda a narrativa é a cena que incluiu o diálogo entre o pai de Nicole e o médico desta, o Dr. Dömller, onde o Autor consegue imprimir, num primor de subtileza, a verdadeira personalidade do pai da jovem, camuflada nas entrelinhas: trata-se de um ser vaidoso e egocêntrico, excessivamente preocupado com a imagem e o estatuto e por isso dado a atitudes de pendor hipócrita.


O diálogo entre o médico e o pai de Nicole desenvolve-se de uma forma inteligente e perspicaz. Um combate do qual Warren sai irremediavelmente derrotado, posto a nu olhar aquilino de Dömmler. Nas falas de ambos os interlocutores, o leitor mais atento poderá encontrar as falhas, as contradições as incongruências, as mentiras, que constroem a máscara exibida por uma sociedade pelo suposto perfeito cavalheiro que é, na verdade, um sujeito perito em esconder-se atrás de uma aparência irrepreensível e de um estatuto intocável.


Dick é, no entanto um homem que, apesar de liberal tem uma educação marcadamente conservadora: no início, sente-se desconfortável face à disparidade causada pela abissal diferença no que respeita à sua situação económica e a de Nicole. Por outro lado, a atitude demonstrada em relação aos negros assume um carácter paternalista, sobretudo na cena em que trata a cunhada de Mary, de origem indonésia, como criada. O preconceito em relação aos homossexuais espelha, também, a crença em voga na época, que preconizava toda e qualquer manifestação fora do contexto heterossexual como uma doença.


O desgaste acumulado pela necessidade de exercer a profissão de médico vinte e quatro horas por dia, fruto da doença da mulher acabará por minar-lhe o equilíbrio psíquico e ajudá-lo a precipitar-se no abismo da dependência do álcool, que usa como anestésico emocional.


Dick, visto por Rosemary


Para a jovem, “Dick Diver constituía uma aventura notável: acreditava-se que fazia concessões especiais a cada um, consoante a sua originalidade, oculta sob compromissos antigos (…) abria-lhes a porta do seu divertido mundo. Enquanto se entregassem por completo, Dick só se interessava por torná-los felizes, mas ao primeiro dealbar da dúvida, ele evaporava-se-lhes à vista, deixando pouca recordação comunicável do que dissera ou fizera.”


O casamento dos Divers e a relação com Rosemary


O casal Diver (“os mergulhadores” que passavam a vida na praia durante a estadia na Riviera) conhece Rosemary em Junho de 1925 na atmosfera de luxo e ócio da Riviera francesa, onde os turistas milionários passam as tardes preguiçosamente entre a praia e o hotel.
Dick sente-se, durante algum tempo, atraído pela extrema beleza e juventude de Rosemary. Esta, por sua vez, deixa-se deslumbrar pela maturidade e refinamento do médico/ psiquiatra o impudor paradoxalmente misturado com a candura adolescente com que se declara a Dick desarmam-no perante a paixão fulminante demonstrada pela jovem.


Inicialmente, a juventude de Rosemary constitui uma lufada de ar fresco em comparação com a personalidade instável de Nicole. Uma vantagem que vai, gradualmente, perdendo à medida que entra na idade adulta e que se vai aperfeiçoando na carreira de actriz, tornando-se frívola à medida que as suas formas vão ganhando contornos mais roliços.. enquanto isso Nicole conserva a figura esbelta da juventude e vai, gradualmente também, afirmando a própria personalidade, à medida que adquire segurança, caminhando no sentido da superação da doença.


Nicole apercebe-se quase instantaneamente da atracção de Rosemary por Dick, os olhares, suspiros, postura, etc…


A situação do casamento de ambos é descrita pelo poema declamado por Lanier, filho do casal. Trata-se de uma provocação do autor, ao colocar uns versos aparentemente inocentes na boca de uma criança que deixam, subliminarmente, transparecer frases de elevada conotação erótica a ilustrar a relação do casal sem que, aparentemente ninguém se aperceba.


O Rival


Tommy Braban entra, logo no início do romance em acesa competição com Dick, com o objectivo de cativar a atenção de Nicole, desvalorizando o marido, Tommy não duvida nem por um momento de que sairá vencedor. Comporta-se como um verdadeiro militar, utiliza o pensamento estratégico, um César nascido para o triunfo, que no entanto adopta uma atitude descaradamente chauvinista em relação às classes sociais mais humildes, não as considerando como pessoas e ao olhá-las como a cidadãos de segunda categoria. É como é o caso da opinião que exprime quando lhe perguntam se não tem curiosidade em saber o que se passa na cabeça dos criados referindo-se-lhes como "…mentes velhas, fragmentos de loiça, pontas de lápis…”, a que se junta um ódio vincado ao mundo onde está implantado o regime comunista. Apesar de tudo, Nicole insiste em vê-lo como um herói, apesar da sua arrogância. Porque a ela sim, trata-a como a uma igual. Braban é alguém que não está constantemente a analisá-la ou a interpretar as suas atitudes como faz o marido, levando-a a condicionar o comportamento e a agir consoante expectativas que não são a s suas.


Os Americanos vistos por um Socialista Europeu


Das diferenças ideológicas nasce o confronto entre Tommy Braban e o Casal McKisko. Trata-se de um par algo pedante constituído por um escritor que pretende ascender à categoria de Joyce, sem nunca o conseguir, refugiando-se no álcool, sem nunca ultrapassar a fronteira de mediocridade, juntamente com a esposa, Violet, a fazer coro com ele.


McKisko e Braban, entram em conflito, uma vez que o escritor sente dificuldade em aceitar a imposição de alguém a cuja obtusidade o coloca numa categoria inferior a si próprio.


“ … perante um homem que lhe parecia obtuso e a quem não reconhecia superioridade preferia concluir que Braban era o produto de uma mundo arcaico e, como tal, desprovido de valor. O contacto de McKisko com as classes privilegiadas da América impressionara-o contra o pretensiosismo destas…” Braban é obviamente incluído nesta categoria.


Terna é a Noite


As noites na Riviera são suaves, amenas, ternas. De uma tepidez que confere ao cenário todo um clima propenso à sedução e ao romance.


Um sortilégio que envolve todas as personagens cujos defeitos contrastam com o esplendor do cenário. O autor utiliza, aqui, a ironia para sublinhar determinadas atitudes das personagens sobretudo nos aspectos mais torpes. O lixo emocional disposto e exposto, sobre um fundo de luxo, beleza e glamour:


Envolvera-os a magia daquele sul quente e suave: a noite de garras de veludo; o marulho distante e fantástico do mediterrâneo”.


Uma personagem que parece ser recorrente em Fitzgerald é a do artista que se afunda numa espiral de auto destruição. Neste romance é-lhe atribuído o nome de Abe North, o músico suicida, alcoolizado, personagem idêntica a ao pianista que frequentava a mansão de Jay Gatsby em “O Grande Gatsby”.

As origens Sociais da principais figuras femininas de “Terna é a Noite


No romance “Terna é a Noite” observamos que o trunfo de cada uma das figuras femininas que aí intervêm depende da linhagem e de efectuarem ou não um bom casamento. Nicole é neta de um capitalista americano e de um aristocrata de origem germânica , o Conde Lippe Weissenfeld . No entanto, transita de um casamento com um psicólogo onde se começa a notar a decadência profissional e pessoal para uma união com um portento, protótipo de macho bem sucedido. Mary North esposa de Abe, o músico suicida e depois, de um príncipe oriental é filha de um operário por um lado e descendente do presidente Tyler por outro. O seu estatuto muda radicalmente após o segundo casamento. Já Rosemary, proveniente da baixa burguesia e acidentalmente catapultada para o estrelato, mediante a própria beleza e o calculismo da mãe. É a única que tenta fugir ao enquadramento tradicional nos estereótipos clássicos que são normalmente atribuídos às mulheres: o de esposa e o de cortesã, sem haver lugar ao meio termo ou a uma categoria alternativa. O percurso de Rosemary segue o caminho em direcção à autonomia, dentro do mundo artístico. Corre, no entanto, o risco de vier a ser utilizada pela poderosa máquina do marketing da Meca do cinema que tende cada vez mais a empurrá-la para a segunda categoria.


Há várias considerações de carácter social que são referenciadas no texto como por exemplo, as oscilações de humor, tipicamente anglo saxónicas, em Paris, principalmente no que toca aos americanos. O autor explica, também, o crescimento do capitalismo a partir do desenvolvimento das necessidades ou capricho dos ricos a partir de uma ida às compras de Nicole.
É prestado também o tributo à amizade como o afecto mais duradouro porque despromovida de interesse ou desejo de posse: “…ao contrário dos amantes, não possuíam passado ; aos contrário dos esposos não possuíam futuro”, referindo-se particularmente à relação de Abe North e Nicole.


Outra referência de particular importância é o facto de aos negros ser-lhes vedada a entrada em hotéis de luxo na Paris e na Riviera do período entre as duas grandes guerras.

Terna é a Noite é, por isso, um maravilhoso fresco que expõe o retrato social de um tipo de elite que marcou uma época: a alta sociedade da era do jazz nos países anglo-saxónicos, que se movimentam dentro e fora do seu país, nem sempre como um peixe dentro de água, e que se destacam pela vulnerabilidade emocional e debilidade que traz a marca da sua queda, na viragem da década.

Cláudia de Sousa dias