HÁ SEMPRE UM LIVRO...à nossa espera!

Blog sobre todos os livros que eu conseguir ler! Aqui, podem procurar um livro, ler a minha opinião ou, se quiserem, deixar apenas a vossa opinião sobre algum destes livros que já tenham lido. Podem, simplesmente, sugerir um livro para que eu o leia! Fico à espera das V. sugestões e comentários! Agradeço a V. estimada visita. Boas leituras!

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Bibliomaníaca e melómana. O resto terão de descobrir por vocês!

Wednesday, November 30, 2016

"Contos exemplares" Sophia de Mello Breyner Andresen (Contemporânea)

Wednesday, November 23, 2016

"A Gramática do Medo" de Maria Manuel Viana e Patrícia Reis (Dom Quixote)

Monday, October 31, 2016

"Jezebel" by Lesley Hazleton (Doubleday)

Friday, September 30, 2016

Contos Policiais - Vários Autores (Porto Editora)

Wednesday, August 31, 2016

"Caderno de Memórias Coloniais" de Isabela Figueiredo (Caminho)

Sunday, July 31, 2016

"A Terceira Miséria" de Hélia Correia (Relógio d'Água)




A obra da consagradíssima escritora Hélia Correia, uma das melhores escritoras das primeiras décadas deste século e de todo o século anterior, está dispersa por vários géneros literários, destacando-se a escrita em prosa, a qual se desdobra em romance, conto, novela. Mas também o teatro, a literatura infanto-juvenil e, por fim a poesia, não escapam ao seu ímpeto criativo. E, apesar de este último género literário ser aquele que conta, até ao momento, com menos publicações, a escrita poética de Hélia está sempre presente, inscrita no seu discurso, oral e escrito, até mesmo sob a forma de prosa.

Antes de A Terceira Miséria a autora havia apenas publicado um livro de poesia em forma de díptico A Pequena Morte/ Esse Eterno Canto (1986) em parceria com o poeta Jaime Rocha, seu companheiro, e, quase duas décadas depois, outro livro de poesia intitulado Apodera-te de Mim (2002). Dentro do género ficção, publicou as novelas O Separar das Águas (1981), Villa Celeste (1985) e Soma (1987) mais tarde reunidas no volume O Separar das Águas e outras Novelas (2012). É, no entanto, no romance que a sua produção literária se tem tornado mais profícua, contando com um vasto currículo publicado no âmbito deste género literário: O Número dos Vivos (1982) Montedemo (1983), A Fenda Erótica (1988), A Casa Eterna (1991), Insânia (1996), Lilias Fraser (2001, Prémio de Ficção PEN Clube 2001 e Prémio D. Dinis 2002), Antártida de Mil Folhas (2001) Bastardia (2005 e Prémio Máxima da Literatura 2006), Adoecer (2010, Prémio Fundação Inês de Castro e Prémio Especial do Júri Máxima de Literatura, 2011). Tem ainda dois volumes de contos publicados até à à data: Contos (2008) e Vinte Degraus e Outros Contos (2014, Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Branco, 2014), estando ainda vários deles dispersos por antologias e revistas literárias como a Granta Portugal e a Egoísta. Também o drama a seduz, tendo publicado a trilogia inspirada na Antiguidade Clássica Perdição, Exercício sobre Antígona (1991), O Rancor, Exercício sobre Helena (2000) e Desmesura, Exercício com Medeia (2006), Florbela (1991), O Segredo de Chantel (2005) e A Ilha Encantada (2008). A Terceira Miséria (2012) é o livro que a confirma como poeta, pelo qual recebe o Prémio de Poesia PEN Clube 2012 e o Prémio Correntes d'Escritas 2013. Este é o ano em que recebe também o Prémio Vergílio Ferreira pelo conjunto da sua obra. É ainda agraciada, em 2015, com o Prémio Camões.

Hélia Correia é licenciada em Filologia Românica e mestre em Teatro da Antiguidade Clássica o que terá influenciado largamente a sua escrita sobretudo no âmbito do teatro e da poesia. O livro de que hoje falamos, A Terceira Miséria, emana directamente influência da literatura clássica, já que surgiu como homenagem à Grécia, à cultura grega, enfatizando a respectiva importância na memória histórica que sustenta o edifício cultural e civilização europeia, numa altura em que a mesma Europa decidia impor pesadas sanções económicas àquele país. O livro surge, assim, como forma de protesto, numa atitude reactiva às política tecno-burocratas que lançaram centenas de milhares de pessoas para a pobreza e o desemprego, despoletando uma vaga de imigração apenas comparável à que sofreria Portugal, cerca de dois anos depois.

O livro A Terceira Miséria consiste numa obra composta por um único poema, dividido em trinta e três fragmentos, que brota da necessidade dar resposta à questão que assombrava o Eu da poeta: para que servem os poetas em tempos de indigência? O que equivale a interrogarmo-nos para que serve a cultura, a filosofia, a estética, as artes, a procura do conhecimento pelo puro prazer, sem ter em vista fins utilitários ou critérios económico-financeiros. É, pois, a este conflito que pretende dar resposta este livro composto por um único poema, cuja tónica do discurso é em si uma catarse (como afirma a autora no discurso de agradecimento na altura da entrega do Prémio Correntes d'Escritas na Póvoa de Varzim1) alicerçada no diálogo inter-textual entre o sujeito poético e os poetas e pensadores ao longo de várias épocas históricas, desde a Antiguidade Clássica passando pelo Romantismo, Modernismo e pós-Modernismo. Este recurso à intertextualidade permite ao sujeito poético a construção de um discurso polifónico onde, na voz do locutor, ecoam vozes de outros poetas, filósofos, historiadores, artífices da palavra, que vão surgindo com uma intencionalidade à qual nunca é alheio o discurso político que a questão lançada inicialmente convoca e que está já muito longe de dizer apenas respeito à Grécia ou à Europa. O diálogo inter-textual com poetas e filósofos, à semelhança da viagem no tempo efectuada pela personagem Orlando de Virginia Woolf, ao transpôr barreiras geográficas e temporais, é a pedra de toque necessária à construção do discurso poético de A Terceira Miséria exprimindo-se nas alusões a Plutarco, Tucídides , Ésquilo, Hölderlin, Nietzsche, Byron, Llansol, Wescott (que o blogger Camel&Coca-cola se encarrega de explorar aqui2). Não nos vamos deter aqui a explorar as intertextualidades, fragmento a fragmento, como já fizeram outros autores que aqui referenciamos, mas optaremos por ligar a mensagem poética numa leitura mundana à conjuntura social e política cujo desenrolar parece dar origem a uma preocupante configuração da realidade a afectar todo o planeta.

O título do livro pressupõe o desdobramento de uma perspectiva tripartida da qual se pode olhar o significado da palavra “miséria”, que assume três rostos: o primeiro, refere-se ao sentimento de abandono experimentado pelo homem face à deserção, ao abandono dos deuses, que o deixam à mercê do seu destino; o segundo, representa a morte dos mesmos deuses pelo facto de os homens se cansarem do seu silêncio cessando, consequentemente, de os procurar; e, por fim, o terceiro rosto da miséria, na sua expressão mais nefasta e absoluta, será o esquecimento, o desvanecimento, que se manifesta, na sua forma mais extrema, pela destruição de símbolos e santuários que preservam essa mesma memória ancestral (bibliotecas, museus, livros), ou seja, o apagamento da História. A principal consequência para a Humanidade deste estilhaçar da memória será a perda da identidade (vide pg. 29):

A terceira miséria é esta, a de hoje.
A de quem já não ouve nem pergunta.
A de quem já não recorda. E, ao contrário
Do orgulhoso Péricles, se torna
Num entre os mais, num entre os que se entregam,
Nos que vão misturar-se como um líquido
Num líquido maior, perdida a forma,
Desfeita em pó a estátua.

A relação entre esta forma extrema de miséria espiritual e a necessidade de instituir uma ética e estética democráticas através da cultura é invocada através do golpe de audácia de todos os que ousam não se deixar levar ao sabor da corrente, assumindo um posicionamento político marginal que, muitas vezes, parece assumir para os ditos “normais” a forma de loucura, como Hölderlin ou Nietzsche,(o primeiro, vítima do abandono dos deuses e o segundo, consciente da sua morte3) sendo que, quer o isolamento de um quer o pensamento divergente de outro, são vistos pelos que sempre se querem situar dentro do status quo, como a sempre incómoda loucura revolucionária, encarada, quase sempre, como uma forma afrontosa forma de hybris pelo pensamento dominante.

A Terceira Miséria é escrito um pouco antes da febre de apagamento da memória histórica que tomou como missão o DAESH na Síria e no Iraque e que fora já precedido pela actividade terrorista da Al-Qaeda e partido Taliban, responsáveis pela destruição de monumentos históricos locais num impulso de xenofobia religiosa no Afganistão, poderão ser outra das fontes de inspiração que levou a autora a escrever este livro, pois o sujeito poético assume nele o papel de pitonisa, a avisar a humanidade, tal como Cassandra de Tróia, para o perigo da destruição da memória, da história e da identidade cultural levando posteriormente à alienação. E a seguir à alienação vem a manipulação a par da escravatura. A poeta denuncia-o, como já referimos, em jeito de catarse ou mesmo como uma espécie de exorcismo face à antevisão da iminente chegada do caos generalizado veiculado simultaneamente pelo ódio que gera a divisão entre o “nós” e os “outros” e pelo excesso de avidez económica, a fim de inspirar alguma lucidez na humanidade. Como contraponto à loucura destruidora do ser humano motivado pelaganância e pela sede ilimitada de poder, Hélia Correia convoca os guardiães do conhecimento, os que indagam e exploram o universo, os criadores de Beleza, como a vanguarda numa guerra contra a indigência espiritual, mas sempre sem divorciar a estética da ética que a fundamenta, a fim de que a arte não se torne uma criação vazia de sentido. Foi precisamente este o ponto de vista enfatizado pela autora, em Fevereiro deste ano, durante uma leitura do livro na Fundação Cupertino de Miranda, em que lembrava os ouvintes de que os soldados do exército nazi levavam na mochila os poemas de Hölderlin como antídoto à extrema dureza da guerra, onde a beleza da palavra se opunha ao espectáculo de extrema miséria e fealdade da guerra. Mas os olhos de quem lia as palavras só atendiam à forma, à sonoridade, à musicalidade das palavras e não ao seu significado. A Alemanha do século das luzes tinha-se bestializado. Nesta perspectiva, a beleza palavra não se encontra aqui pois restrita ao seu conteúdo material, formal ou fonético mas visa sobretudo o alcance espiritual e emocional que, em última análise, se revela responsável pela deterioração ou não das relações dos humanos entre si e destes com o planeta, onde o ser humano no auge da sua miséria espiritual se mostra geralmente como um ser não apenas desumanizado, mas bestializado. E a mesma bestialização provém do facto de as palavras se esvaziarem do seu conteúdo. Esta relação entre pobreza material e espiritual e a bestialização da relações humanas não aparece exclusivamente neste volume da obra Heliana. Trata-se de uma correlação que surge também na escrita ficcional da autora como faz notar Anabela Martins Coutinho a propósito da novela da autora Bastardia4 (sublinhados meus):

«Hélia Correia, nesta novela, enquadra efectivamente a sua acção no campo e povoa o espaço com gente rude e triste. As suas personagens são, na fase inicial da novela, fracas de espírito e inocentes e, por tal facto, os seus atos podem podem levá-las à loucura ou à total infelicidade

É também disto que trata A Terceira Miséria, no seu estágio mais terrível, a fase que a humanidade parece estar agora a atravessar, onde a iliteracia e a pobreza espiritual instilam loucura e a infelicidade entre os homens, levando-os a desprezar os valores estéticos e éticos, inscritos na produção artística, literária e filosófica, para privilegiar o critério do utilitarismo, como dá a entender António Cabrita em “Pequenos passos para uma Ecologia política”5:

«O sublime desaparece quando a humanidade, tendo sido lançada na parte mais baixa da roda da fortuna, toca o fundo. O homem torna-se mais pobre, mesmo enquanto pensa estar enriquecendo (…). No universo deste utilitarismo, um martelo vale mais do que uma sinfonia, uma faca mais do que um poema, uma chave de fendas mais do que um quadro: porque é fácil compreender a eficácia de um utensílio, enquanto que é difícil compreender para que pode servir a música, a literatura ou a arte».

São pois os guardiães das artes e das belas-letras quem detém a capacidade de demonstrar o engano a que leva a supremacia dos novos reis Midas que Hélia denuncia em A Terceira Miséria e como já o havia feito em obras anteriores, atirando para a multidão a locução polifónica em defesa nos valores primordiais arquetípicos como a Beleza, a Verdade, o Amor, o Saber e aos quais que alude, também, Cabrita ao citar Keynes:

«De fato, a produção industrial moderna eleva o nível médio sem atenuar a desigualdade entre as classes e, somando tudo, remedeia só casualmente o desconforto social».


E agora deixo-vos com esta breve interpretação sociológica e política do ethos sibilino da voz poética da musa contemporânea das letras lusas para que o eco das suas palavras reverbere como uma toada incessante e persistente como um alarme nos vossos ouvidos pelo menos até ao fim da presente década. Tenham uma boa semana.



Londres, 31 de Julho de 2016,
Cláudia de Sousa Dias

1http://bibliotecariodebabel.com/geral/helia-correia-ao-receber-o-premio-casino-da-povoa/
2http://camelecocacola.blogspot.co.uk/2012/03/helia-correia-terceira-miseria.html
3https://mjcantinho.com/2016/05/29/a-terceira-miseria-de-helia-correia/
4http://revistas.ua.pt/index.php/formabreve/article/viewFile/2800/2625

5https://caliban.pt/pequenos-passos-para-uma-ecologia-pol%C3%ADtica-ceebfa25c516#.n94n3oyhj

Thursday, June 30, 2016

"O Vendedor de Passados" de José Eduardo Agualusa (Dom Quixote)



De acordo com a nota da editora na contracapa desta obra de ficção de Agualusa, o protagonista desempenha um “estranho ofício” no qual "...vende passados falsos" a "clientes, prósperos empresários, políticos, generais (…) [e] fabrica-lhes uma genealogia de luxo, memórias felizes, consegue-lhes os retratos dos ancestrais ilustres".

Este é o terceiro livro de José Eduardo Agualusa a ser comentado neste blogue que chega até nós escrito num registo bastante mais leve que o romance em jeito de crónica Estação das Chuvas – obra marcadamente trangenérica, situada algures entre a ficção, a reportagem, o documentário histórico e o registo poético, é considerado talvez o melhor livro jamais escrito pelo autor – e do romance em prosa poética, com narrador autodiegético Um Estanho em Goa – obra que se caracteriza pelo teor marcadamente literário que lhe advém não apenas do discurso poético imbuído de melancolia do narrador mas sobretudo pelo diálogo inter-textual com obras de outros autores (uma característica recorrente na obra de Agualusa): tal como o poema “Endechas a Bárbara Escrava” de Luís Vaz de Camões ou o romance Nocturno Indiano de Antonio Tabucchi ou ainda pela alusão à heteronímia de Fernando Pessoa, através do desdobramento da identidade do protagonista. 

Contrariamente a estas duas obras, o O Vendedor de Passados embora se enquadre igualmente no género literário, apresenta-se num registo diametralmente oposto. A trama consiste numa farsa, de cariz vincadamente satírico, onde o narrador, tal como acontece em A Metamorfose de Kafka, em Flush de Woolf ou recuando até à Antiguidade Clássica, com as fábulas de Esopo, apresenta-se com uma morfologia animal mas assume um ethos que se manifesta através de um pensamento tipicamente antropocêntrico, ao projectar reflexões sobre o comportamento, cultura sentimentos e vaidades humanas. Este narrador nomeado Eulálio pelo protagonista, Félix Ventura, assume a aparência física de uma osga a viver na sombra e nas frestas das paredes da casa do seu hospedeiro, passando assim relativamente despercebido, afastando-se do lugar central da trama, enquanto focaliza o olhar em Ventura que passa a vida a estudar, investigar vidas alheias para vender passados ilustres por encomenda, desenhados à medida das expectativas dos seus clientes.

Ao avançar na trama, o leitor fica ciente que esta se estrutura na diluição das fronteiras do Tempo, dado que, o narrador, por ser uma reencarnação no corpo de um réptil  de uma alma humana que viveu na Angola outrora colonizada por portugueses, assume o papel de mediador entre as duas épocas. Eulálio é o ponto de contacto entre a Angola colonial, administrada localmente e governada a partir da metrópole por portugueses e a Angola contemporânea do pós-guerra civil ainda marcada pelas lutas intestinas que se seguiram depois da Independência. A Osga é a pedra de toque que marca a modalização temporal de forma a mostrar dois mundos paralelos: dois contextos sócio-históricos radicalmente diferentes que moldaram o país e que inscreveram o respectivo estilo governativo nas populações locais. A grande questão levantada por este livro tem a ver com o grau de influência, no estilo de vida das populações locais, por cada um destes estilos de governação, a par das consequências do mesmo choque cultural sofrido no passado e ainda avaliar a forma como estas duas maneiras de ver e estar no mundo (europeia e africana) conseguem hoje coexistir no mesmo território.

O Vendedor de Passados é uma obra literária, que apesar da aparente simplicidade, tem implícita, quer na sua estrutura quer na própria evolução das personagens, a relação dialógica de amor-ódio entre o impulso de preservação e transmissão da cultura ancestral (centrada da tradição oral e património imaterial) e a tendência para a sobreposição e domínio da cultura assente na palavra escrita, de raiz europeia e disseminada, sobretudo, durante a presença colonial portuguesa naquele país. Esta ideia é amplamente explorada pela investigadora Ana Bezerra da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (Bezerra, 2011:133-134)1:

«Tecer considerações sobre tradição na África abre de imediato uma fenda entre o universo tradicional antes da presença do colonizador e o complexo de silêncio e reescritas que marca a presença da força colonial nesse ambiente, até mesmo no instante em que se fala de uma 'pós- colonização'. As imagens desse abismo são sentidas nessa prosa de Agualusa diante de uma burguesia que deseja rever seus passados, realizando praticamente uma apologia ao arquétipo lusitano.
(…)
Félix [Ventura] então articula via projeto escrito o apagamento da tradição africana e a invenção dos moldes europeus para essa parcela da população [a burguesia emergente do pós- colonialismo] que resolveu inscrever-se segundo o aval português.»

Bezerra (2011) defende ainda que a metáfora associada à figura arquetípica deste vendedor muito pouco ortodoxo é o recurso utilizado pelo autor para explorar o percurso histórico da colonização portuguesa em África estreitamente ligada à tentativa de apagamento do passado cultural ancestral africano. Um processo que em Antropologia Cultural chamamos de aculturação e que despoleta, não raro, todo um conjunto de consequências que são demonstradas com as atitudes das personagens que povoam o universo do romance O Vendedor de Passados:

«A escrita de Agualusa revela (…) a abertura de novos espaços no signo da pós-colonização, uma vez que pelo fluxo memorial se interroga o momento actual do ser angolano» (Bezerra, 2011:134).

E a forma de se proceder a este “interrogar-se” processa-se através:

«...[d]o diálogo entre o tradicionalismo e um mundo cada vez mais conectado em que as fronteiras outrora estabelecidas, parecem permeáveis, à escuta das culturas dos demais povos até mesmo para que a sua própria cultura torne-se audível, depois de um longo período de declarada marginalização frente ao universo cultural europeu.
(...)
Nesse sentido, a tradição é recuperada via memória., para depois se falar de um mecanismo de reconstrução e de multiplicidade, mesmo que seja pelo mecanismo do colonizador – a escrita – o que permitiria, de uma certa maneira, uma condição internacional de falar do seu território e para além dele (…)» (Bezerra, 2011:134-135).

Toda a construção do romance comporta em si a ideia de construção de identidade, remetendo imediatamente para a noção de persona, máscara, como se as personagens se submetessem a uma operação para mudança de rosto na mais radical das metamorfoses. Ou como acontece no teatro desde a antiguidade clássica e como acontece no dia-a-dia com a comunicação em que cada actor social representa um determinado papel. 

A edificação estrutural da trama assenta numa relação dicotómica a vários níveis, desde a fisionomia e genética de Felix Ventura, o qual é negro e, contudo, albino; a sua cultura emana directamente da raiz africana, mas está fortemente impregnada da influência da cultura europeia, sobretudo no tocante ao conhecimento da Literatura. Isto permite-lhe dispor da extensa bagagem cultural dotando-o de capacidades extraordinárias  de forma a poder desempenhar a profissão de vendedor/criador de passados falsos, construtor de identidades feitas à medida das expectativas dos seus clientes, como o mais especializado dos alfaiates. Um ficcionista pragmático, portanto. Os clientes de Félix Ventura são sobretudo homens que enriqueceram a uma velocidade meteórica e, não raro, de forma assaz suspeita, a procurar desesperadamente um passado limpo e ilustre, ambicionando um adequado (na sua óptica) reconhecimento social.

A forma como todos estes factores, influem hoje na transformação da mentalidade colectiva é amplamente explorada pela personagem Félix Ventura em seu próprio benefício, uma vez que este possui, simultaneamente, a capacidade de ouvir e a agudeza de espírito de um psicanalista e o oportunismo de um gestor de marketing que tenta vender um produto a uma dada clientela. É neste sentido que O Vendedor de Passados apela à “concepção híbrida africana com o corolário do processo colonial” (Mata, 2003:46, op.cit in Bezerra, 2011:134), sendo que na obra de Agualusa a tradição é recuperada pela via da memória, cujo veículo é a voz do narrador

O realismo mágico é outra característica a ocupar uma posição de destaque no romance, através da figura da osga Eulálio. Este é, nada mais nada menos, do que o invólucro físico que encerra um ser espiritual que atravessa o tempo e cuja memória, aditiva e intemporal, funde, por um lado, a magia de que se revestem os contos de tradição oral africana com o pendor surrealista e experimentalista do modernismo do início do século XX na literatura europeia (quem não se lembra da personagem Orlando de Virginia Woolf que atravessa os séculos assumindo corpos diferentes ou a narrativa a cargo da cadela Flush?).

Outro aspecto a destacar nesta divertida obra será a função arquetípica das personagens, como Buchmann, o ministro corrupto de conduta mais do que duvidosa, que busca um passado irrepreensível,  a fim de que lhe seja atribuído o respeito e prestígio social de que se quer objecto mas cujas atitudes o traem a todo o momento pois não resiste ao recurso a ameaças, veladas ou não para conseguir os seus intentos. Ou a fotógrafa Angela, personagem de cariz heróico, idealista, que procura a verdade para além das aparências, o oposto de Ventura, que a mascara por profissão. A única personagem que é caracterizada de forma positiva no romance. Agualusa tal como Umberto Eco concede essa homenagem às mulheres na sua obra ficcional.

Pode-se destacar ainda a forma coloquial como a osga Eulálio vai narrando a trama incorporando o léxico da língua local sem o destacar a itálico para reforçar ainda mais a ideia de sincretismo cultural através da fusão linguística no aspecto lexicográfico.

Por último, convém salientar o papel do narrador como testemunha e dinamizador da relação dialógica entre os dois tempos da trama, a mediação entre o ethos individual e colectivo das personagens secundárias ao invés de enveredar os esforços para o apagamento do primeiro que é o que tenta fazer o protagonista, Félix Ventura. Sendo a osga um narrador omnisciente esta acaba por ser, ela também, uma personagem, uma vez que além de narrar a trama na primeira pessoa também interage com o protagonista de forma marginal. Esta característica híbrida de narrador-testemunha coloca-a na categoria de narrador homodiegético.

Sendo assim, apesar de O Vendedor de Passados ser uma história “leve”, com um registo que facilmente se enquadra no género comédia satírica, uma leitura mais aprofundada mostra-nos que o tema nela tratado é de extrema seriedade: a questão ontológica da identidade colectiva.


Londres, 30 de Junho de 2016

Cláudia de Sousa Dias





1Bezerra, Ana Cristina Pinto, 2011, “Entre Memória e Tradições na Escrita de O Vendedor de Passados, de Agualusa” in Estação Literária, Londrina, Vagão-volume 8 Parte A, pp.132-141, dez.2011, Rio Grande do Norte.