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Name: Claudia Sousa Dias
Location: Famalicão, Norte, Portugal

Bibliomaníaca e melómana. O resto terão de descobrir por vocês!

Monday, July 14, 2008

"As Infernais Máquinas de Desejo do Doutor Hoffman" de Angela Carter (Dom Quixote)

Angela Carter nasceu em Inglaterra, em 1940, tornou-se autora de vários romances e contos. Agraciada unanimemente pela crítica, obteve, inclusive, os prémios Somerset Maugham e John Lewellyn Rhys.

A audaciosa estória de
As Infernais Máquinas de Desejo do Doutor Hoffman, tem como protagonista Desidério, um ser aparentemente anódino, dividido entre o mundo racional de um Ministro inteligente mas de imaginação limitada e o mundo do erotismo e imaginação desenfreada de um cientista genial, apesar de louco, cujo intuito é o de destruir a fronteira entre realidade e ficção, sonho e desejo. Ou, a linha estreita que separa a sanidade da loucura. No final, Desidério acaba por optar pela decisão menos arriscada.

A obra foi publicada, pela primeira vez em Inglaterra em 1972 (um ano antes do internacionalmente célebre
julgamento das três marias, em 1973), chegando a Portugal apenas treze anos depois.

A escrita de Carter é, segundo os especialistas, dotada de inúmeras intertextualidades, aludindo, muitas vezes, às obras de Sade e Beaudelaire, assim como aos contos tradicionais. A Autora preocupou-se em enfatizar o ridículo das relações de dominância existentes entre homens e mulheres quando se sobrepõe ao amor, seguindo o critério da análise psicanalítica, ficando patentes uma influência nitidamente freudiana e também de Bruno Bettelheim.

Após o período turbulento vivido na infância – foi obrigada a fugir de Londres durante os bombardeamentos da
Luftwaffe refugiando-se no Yorkshire – e de uma adolescência marcada pela luta contra a anorexia, a sua produção literária passou a ser particularmente prolifica e a ser largamente difundida após divorciar-se do primeiro marido. Passa então a dedicar-se não só ao romance mas também ao ensaio, à literatura fantástica e infantil, à poesia e ao jornalismo. A inclinação de Angela Carter pelo feminismo leva-a a reescrever textos de autores como Charles Beaudelaire e o Marquês de Sade. Entre as suas amizades encontram-se autores pouco convencionais e irreverentes como Salman Rushdie.

Angela Carter foi, sem dúvida, uma das autoras mais originais do século XX. A sua escrita abarca vários estilos literários e movimentos intelectuais do século transacto, como o pós-modernismmo, o feminismo, o estilo gótico, ficção científica, realismo mágico e, sobretudo, o surrealismo.

Foi, antes de tudo, uma escritora inconformista sempre com o objectivo de romper o espartilho de normas e estereótipos bolorentos, não só no que respeita ao socialmente correcto, como também aos próprios cânones da literatura. Viria a falecer de cancro em 1992 com apenas 51 anos.

As Infernais Máquinas de Desejo do Doutor Hoffman é uma obra inequivocamente surrealista apesar de lá encontrarmos, também, elementos característicos do realismo mágico, muito embora esta última categoria não faça justiça ao rigor intelectual que contextualiza a escrita de Angela Carter. Isto porque o realismo mágico tem um pendor muito mais emocional e místico que se traduz em acontecimentos bizarros e que carecem de uma explicação lógica, mas que são “colados” num fundo realista. O lado intelectual da Autora está bem patente ao colorir a ficção com as cores da sátira, acompanhada de uma explicação sociológica dos factos, algo que não cabe na estreiteza dos cânones da categoria do realismo mágico puro.

Segundo a própria Autora «a ideia de beleza inerente ao surrealismo, é como que uma convulsão. Sente-se mas não se vê. É um catalisador do sistema nervoso central. (…) A experiência do Belo é, tal como a experiência do Desejo, um abandono à Vertigem , embora o Belo não exista como tal. O que existe são imagens e objectos enigmáticos, maravilhosamente eróticos – ou a justaposição, de objectos, pessoas, ideias, que ultrapassam o número de associações de conceitos ou imagens que somos capazes de conceber. De certa forma, o Belo é posto ao serviço do exercício da Liberdade.

Relativamente à obra aqui tratada – As Infernais Máquinas de Desejo doDoutor Hoffman –, existem duas figuras arquetípicas em conflito que simbolizam o mundo racional, do Super-Ego e das normas sociais – O Ministro – e o irracional, o mundo dos Desejos, da Líbido e dos impulsos sem restrições seja de que tipo for. Ou seja, a Anti-Razão, representada pelo Doutor Hoffman. Neste obra, estabelece-se uma guerra fria permanente, onde se constrói uma história de espionagem que pode ser lida como uma paródia aos filmes de James Bond, ao opor um inteligente, embora limitado, Ministro da Determinação – autarca (ou pároco) de uma cidade anónima, algures na América do Sul, face ao excêntrico Doutor Hoffman, uma professor de metafísica (além de físico e químico) cujo objectivo é o de colocar a cidade sob o domínio das forças da não-razão, do Irracional. A persona de Hoffman, além de notoriamente freudiana. A sua construção é, também, nitidamente influenciada pelo anarquismo de André Breton que é também, fundador do movimento surrealista na escrita.

O protagonista, um suposto 007, no meio do fogo cruzado, entre duas forças opostas, é Desidério (cujo nome significa desejo, saudade ou nostalgia em italiano), um nome mais do que apropriado face às circunstâncias, um mestiço – branco e índio - ao serviço do Ministro. Um homem calmo sem, aparentemente, grandes propensões para manifestações emocionais. É, no entanto, alguém que durante toda a obra, se abstém de emitir juízos de valor, limitando-se a descrever objectivamente as situações. Desidério corresponde à figura a que Freud chamava de “o porteiro da consciência” – o Ego no homem. Aquele que filtra os impulsos e que tenta concretizá-los dentro das normas impostas pela sociedade ou pelo Super-Ego. Tenta agradar aos dois lados, como se verifica ao longo da história. Mas no final terá mesmo de efectuar uma escolha…

Desidério começa por tornar-se no agente secreto do ministro por ser uma das poucas pessoas que não se deixa afectar pela vaga de irracionalismo que afecta a população da cidade, ao subverter a ordem “normal” das coisas.
A natureza do conflito fica definida quando o Ministro e Desidério se reúnem com o embaixador do Doutor Hoffman. Trata-se, aparentemente de uma homem efeminado – mas cujo pescoço exibe uma pele de tal modo diáfana que é possíveis “visualizar um gole de vinho da Borgonha a descer-lhe pelo esófago”. Trata-se, na verdade, de Albertina, filha do doutor Hoffman, por quem Desidério se apaixona.

O diálogo entre a jovem travestida e o Ministro coloca bem patente até que ponto ambos se encontram em campos opostos e onde a filha do cientista faz eco das convicções de Carter relativamente à Beleza, à finalidade e ao conceito do Belo, colocando a Beleza ao serviço da Liberdade, a espelhar também, uma das mais conhecidas definições do surrealismo de André Breton:

«Um fio condutor entre dois mundos diametralmente opostos, o da vigília e o do sono, da realidade interior e exterior, razão e loucura, da quietude do conhecimento e do amor, da vida pela vida e pela revolução…”

A intenção da Autora ao escrever este livro seria a de descrever como seria um mundo onde tivesse tido lugar uma revolução surrealista.
A sua personagem Desidério, para preservar a cidade do caos da Não-Razão concorda em aceitar uma missão ultra-secreta, incumbida pelo Ministro – encontrar e liquidar o Doutor Hoffman. Desidério assume-se como o inspector da Verdade e é nessa categoria que visita a estância de férias de S. para investigar o proprietário de uma show erótico para turistas que lhe poderá fornecer uma pista acerca da localização do Doutor, uma vez que este terá sido professor de física do cientista revolucionário.

A Trama: A experimentação ou A viagem de Desidério pelos sete mares do surrealismo

A acção desenrola-se ao longo de sete capítulos.
Cada capítulo é como um palácio que se desdobra em inúmeras alas, salas e câmaras, que se desdobram ante os olhos da imaginação do leitor, em imagens que correspondem às diferentes faces do Desejo.
O primeiro, A cidade Sitiada, situa-se no ambiente governado pelo Ministro da Determinação, e é de onde parte Desidério na missão que lhe foi confiada. A cidade está imersa numa onda de Absurdo onde nada segue os trâmites da lógica e tudo se encontra invertido. As cenas descritas fazem lembrar muitas vezes uma pintura de Magritte, onde se sobrepõem dois planos correspondentes a duas paisagens diversas ou, então de Dalí, onde sobressai a provocação sexual, raiando, não raro, o grotesco.
Trata-se de uma crítica viperina a um sistema político cujas componentes entram em contradição pelo excesso de zelo no cumprimento das normas e onde as mulheres não têm voz activa. Algo que faz explodir a revolução da não-razão, despoletada pela subversão daquilo a que vulgarmente se chama de Loucura, levada a cabo pelo perverso Doutor, o espelho simétrico do Ministro.

No capítulo seguinte, A Mansão da Meia-Noite, o local da acção, situa-se um pouco afastado do centro da estância balnear, onde se encontra Desidério à procura da pista que o leve a Hoffman. Acaba por encontrar, em vez dele, o seu mentor, arruinado e a ganhar a vida a exibir quadros surrealistas, verdadeiras provocações ao Pudor e à Moral. As imagens contêm ousadas associações de símbolos, no meio dos quais, figura quase sempre a imagem de Albertina. Como se a Desidério estivesse a ser lançado um isco e, simultaneamente um aviso dissimulado da periculosidade de uma flor carnívora e venenosa.

A Mansão da Meia-Noite na qual Desidério fica hospedado enquanto está na cidade assemelha-se muito ao castelo da Bela Adormecida, por se encontrar sufocada por uma selva de roseiras que lentamente, estrangulam a casa e a engolem, insidiosas, trepadoras, com um aroma intoxicante que atordoa os sentidos, fazendo lembrar a descrição de Fabrizio de O Leopardo de Lampedusa a propósito das rosas sicilianas… e da simbologia sexual a elas associadas…Todo o capítulo se assemelha a um sonho erótico com alguns dos estereótipos mais comuns das fantasias do imaginário masculino, presentes, também, na maior parte dos contos de fadas, utilizando, contudo, os símbolos freudianos…

Na casa habitam três personagens estranhíssimas: uma governanta de personalidade tirânica que parece esquecer-se que é apenas governanta, um mordomo imbecil e uma jovem e frágil sonâmbula, filha do presidente da câmara, misteriosamente desaparecido e procurado pela polícia política. Os criados tratam a jovem-quase-criança sem algum respeito, de forma desabrida. A adolescente, mesmo acordada, parece viver num mundo de sonho, habitado apenas, pela, Música, pela Poesia e pela Arte…
O desejo da governanta é apoderar-se da casa. A jovem vê-se cada vez mais envolta pela situação anelante em que a colocam os criados e envolvida na teia que tecem à sua volta, da mesma forma que as trepadeiras espinhosas das roseiras envolvem a casa.

A jovem acaba por aparecer morta e a culpa, por recair em Desidério que não conseguiu resistir ao impulso atávico que lhe condensa o desejo de desflorar uma virgem…

Recomeça, então, mais uma série de peripécias impostas pela necessidade de fugir e que o obriga a prosseguir a tarefa que lhe foi imposta.

O Capítulo intitulado A Gente Ribeirinha passa-se na selva amazónica no seio de uma remota tribo escondida no meio da selva, que recolhe temporariamente Desidério. O chefe tribal acaba por ver na sua cultura mista uma mais valia preciosa para lidar com os brancos. Um facto que acaba, paradoxalmente, opor se virar contra ele vendo-se mais uma vez compelido a fugir.

Este capítulo é revelador do interesse e Angela Carter pelas Ciências Antropológicas bem como d curiosidade insaciável da Autora em relação a outras culturas e, também, a ânsia de viajar pelo mundo. Inclui belíssimas descrições acerca da fauna amazónica e também da sonoridade fonética das tribos ribeirinhas, que quase não contactam com os caucasianos e as demais gentes da civilização urbana. A linguagem destas assemelha-se à das aves do ambiente circundante. E o sistema de estruturação familiar e social, bem como a relação com o sagrado são factores que facilitam a relação simbiótica com o ecossistema. A medicina tradicional e a alimentação característica destes povos são também mencionadas neste mesmo capítulo.

Já o capítulo que se segue – Os Acrobatas do Desejo – passa-se num circo itinerante, junto do qual Desidério opta por viajar, por lhe facilitar a camuflagem. Aqui a Autora faz notar o seu repúdio pelo chauvinismo masculino face à ânsia de domínio sobre a Mulher, ao colocar Desidério no lugar da mulher violada.

Apesar de tudo, todos os capítulos da obra acabam por ser revestidos de uma aura de onirismo, onde dificilmente conseguimos distinguir o sonho do estado de vigília. Por exemplo, a situação de violação à qual é submetido Desidério face à qual seria impossível qualquer hipótese de sobrevivência sem tratamento hospitalar, o que torna ainda mais credível a hipótese de os sete capítulos da obra serem, na realidade, o conteúdo onírico dos sonhos de Desidério.
Este, depois de fugir aos Acrobatas do Desejo e ao prosseguir o seu caminho, cruza-se com uma personagem sinistra e misteriosa – um estranho conde lituano, uma mistura de Mefistófeles, Vlad, o Empalador, e o Conde de Lautréameont.
Em todo este episódio está patente uma crítica estilizada aos estereótipos de Sade, outros dos autores que a influenciaram a escrita de Carter.

O ataque dos piratas ao navio onde viaja Desidério, o Conde e um misterioso e submisso criado, Lafleur, forma um conjunto de elementos que marcam mais um ponto de viragem na trama, estabelecendo, simultaneamente, a ligação com o cenário que se segue: a costa africana. Será aqui e no seio de uma tribo que canibais que será consumado o destino do Conde. Os acontecimentos sucedem-se e a sorte contempla, mais uma vez, Desidério, facto que corrobora a possibilidade de todas estas aventuras não serem mais do que sonhos de conteúdo sensorialmente real. Desidério aproveita o facto da tribo estar absorvida num dos seus rituais para se libertar a si e a Lafleur do jugo do Conde e também do chefe tribal, que mantém sob o seu domínio todas as mulheres da sua horda. Desidério, dispõe, neste momento da história, da possibilidade de materializar um desejo inconsciente: o de realizar uma acção heróica, permitindo à Autora assente na convicção de eliminar o paternalismo, o domínio e a tirania masculina face à situação das mulheres nas sociedades patriarcais.
A viagem é retomada, consistindo num período de pausa no desenvolvimento da trama, durante o qual se descobre que Lafleur é, na realidade, Albertina.

No capítulo que se segue, Perdidos num tempo nebuloso, ambos acabam, tal como indicia o título, por cair num lugar fora do espaço e do tempo, algures no coração da selva, no mítico país dos centauros onde a Autora enfatiza a importância da análise do mito no imaginário colectivo, à luz do pensamento de Freud e Jung, os fundadores da psicanálise. Isto porque, no país dos centauros está presente a articulação dos arquétipos feminino e masculino, a génese da necessidade de dominância masculina cujo objectivo reside no controlo da sexualidade feminina. Controlo esse ao qual está subjacente o medo da infidelidade, o receio do macho em ver-se preterido. Trata-se nada mais, nada menos, do que a vertente cultural, que se sobrepõe à biológica, que está na base da divisão de papéis segundo o género.
Ligada a esta ideia está também a materialização do pesadelo de Desidério em ver a mulher amada ser raptada e violada. São, também, abordados os aspectos da solidariedade masculina à qual não é alheia alguma inocência e, sobretudo, falta de premeditação destes centauros. Trata-se de fazer notar que por vezes esta necessidade de domínio nem sempre está ligada ao prazer de causar dor no outro como acontecia com a personagem do Conde e do Chefe tribal nos dois capítulos anteriores, mas sim na força do costume das tradições, por vezes milenares, fortemente enraizadas no imaginário colectivo.
A necessidade de punição/expiação das mulheres na cultura dos centauros, tal como acontece em quase todas as culturas – semíticas, africanas e algumas indo-europeias – ocorre, frequentemente, devido a uma interpretação do mito que favorece os interesses da classe dominante a qual utiliza o carisma dos sacerdotes junto das massas para o legitimar. Daí que, em quase todos os mitos de origem, seja atribuída à mulher a introdução do elemento do Mal e da Destruição, desde Pandora a Eva, sobretudo a partir do momento em que os homens se apercebem que não são as mulheres as únicas responsáveis pela geração de novos seres. Torna-se, a partir de então, urgente garantir a certeza masculina em relação à paternidade dos sucessores uma vez que está em causa a sucessão da chefia de um território…a partir de então, prolifera toda uma série de cultos ligados à fertilidade, envolvendo sacrifício humanos e rituais de expiação, desde a antiga Suméria, Assíria e Babilónia, até ao sacrifício do fundador do cristianismo.
E é precisamente na altura em que a tribo dos centauros se prepara para usar o casal humano num destes ritos sacrificiais, que ocorre mais uma reviravolta de forma ao casal escapar ileso.
Finalmente após mais um período de transição, os dois amantes acabam por chegar ao castelo do Doutor Hoffman, que Desidério reconhece como parte de um dos quadros da loja do velho professor de física, na estância de férias de S.

Chegamos, assim, ao capítulo ou sonho materializado final – O Castelo – onde nos são dados a conhecer dois cenários: a casa propriamente dita, o cenário aparente, superficial – ou seja, a parte visível do iceberg freudiano da consciência – e o interior da montanha, o qual simboliza o inconsciente, contendo os desejos mais inconfessáveis do ser humano. Que é, na verdade, a parte do cérebro humano que o Doutor Hoffman deseja que domine o mundo e que deverá ser sustentada pela eroto-energia, isto é, aquela que se liberta aquando da realização do acto sexual – a libido freudiana. Para tal, Hoffman mantém uma multidão de casais aprisionados em câmaras e drogados, de todas as raças e etnias de forma a produzirem o máximo de eroto-energia possível...

Esta sátira/fantasia tem como objectivo espelhar a revolução sexual dos anos 60/70, com a difusão dos novos métodos contraceptivos, conjuntamente com a libertação das amarras de cariz moral e religioso a que estavam sujeitas as mulheres. Mas ligado ao desejo de Hoffman de domínio do mundo através do controlo/estímulo da sexualidade humana pela injecção de químicos para o efeito, está também, subjacente a crítica a um certo desejo de revisionismo histórico em recriar e manipular a realidade pela alteração da percepção dos seres humanos, caindo precisamente no extremo oposto.

O capítulo final visa, também, parodiar a manipulação das massas pelos políticos ou ideólogos totalitários quer estes se sirvam da religião, da razão ou da ciência para o efeito, numa mais do que clara alusão ao nazismo…ou à guerra do Vietname… Por outro lado, a Autora faz também notar ser a alternativa do racionalismo capitalista ou tecnocrata, representado pelo Ministro, se revela um mundo assaz estéril, onde não há lugar para a imaginação ou para a criatividade.
No fundo, o que Angela Carter pretende é mostrar o ridículo da divisão de um mundo delimitado pelo “eixo do bem” e “eixo do mal” uma vez que não existe uma divisão real entre “bons” e “maus” mas antes entre “mais fortes” e mais fracos” ou vencedores e vencidos. Onde, no caso de serem os homens os mais fortes, caberá às mulheres serem submetidas às diversas situações de tortura…

A obra de Carter pode ser considerada, por tudo o quanto já foi dito, como sendo genial, embora contextualizada na época em que foi escrita e no movimento estético onde se enquadra: o Surrealismo e o pensamento de Sigmund Freud, o qual pode e muito bem ser identificado com o próprio Doutor Hoffman, o qual comanda os sonhos e o pensamento da humanidade através do controlo do inconsciente.
Uma obra desconcertante e, ao mesmo tempo, fascinante como um filme de David Lynch. Ou de Fellini.
Uma escritora que é, sem dúvida, uma referência marcante no panteão dos grandes autores do século XX.

Cláudia de Sousa Dias

Tuesday, July 01, 2008

"Era uma vez um Rapaz" de Nick Hornby (Teorema)

Um best-seller de um autor britânico, adaptado ao cinema, a falar de relações afectivas e novos tipos de estrutura familiar, que despontaram, já na década de 1990 e que, ao mesmo tempo, explora problemas como a socialização e o desenvolvimento de competências sociais nas crianças e jovens, bullying e diferentes tipos de violência em contexto escolar. Também o consumo das drogas leves em idade precoce e nos adultos, misantropia, individualismo na sociedade de consumo e suicídio são outros temas abordados pelo autor na obra.

Uma multiplicidade de temas de conteúdo dramático que é ,no entanto, tratada pela ironia inteligente do típico humor britânico, transformando um livro de teor, à partida, melodramático, numa divertida comédia, a raiar a sátira, que coloca em evidência as contradições presentes na vida familiar e social da Europa da viragem do século.


Era uma vez um rapaz trata, sobretudo, das diferentes formas de integração dos indivíduos, num país que é considerado como fazendo parte daquilo a que se chama a vanguarda da cultura ocidental na última década do segundo milénio. Algumas das contradições a envolver os ideais de liberdade preconizados pelos anos 1970, como a liberalização do consumo das drogas leves e da sexualidade feminina, estão ainda por resolver no final do século XX. Consequências que se fazem sentir, sobretudo, nos mais jovens onde se incluem Marcus e Ellie, que exibem comportamentos que exprimem as consequências menos positivas dessas mesmas contradições. Enquanto isso, os adultos, distraídos com os próprios conflitos existenciais, ignoram frequentemente as reais necessidades dos mais jovens.

As Personagens

Will, o protagonista adulto, é um celibatário convicto, a viver de rendimentos e a usufruir de uma existência dourada que lhe permite gozar, a tempo inteiro, do prazer de cuidar da aparência, comprar aquilo que gosta, seduzir as mulheres que se parecem com estrelas de cinema – pelo menos enquanto estas não se apercebem da sua frivolidade. Assume um estilo de vida hedonista a fazer lembrar a dolce vita dos antigos membros da corte imperial romana. A situação financeira de Will permite-lhe descurar o desenvolvimento de competências sociais, intelectuais e, sobretudo, profissionais. A falta de integração num grupo de trabalho, faz com que a rotina diária de Will seja composta por longas horas solitárias que preenche com o cuidado da logística da casa, compras, com o cuidado da imagem para além da observação das tendências da moda e dos novos estilos musicais. Will tem por hábito recorrer a complicados esquemas de acção para se aproximar das pessoas, usando de efabulações, meticulosamente planeadas – toda a conduta desta personagem envolve uma cuidadosa e detalhada premeditação – tecendo uma teia à volta delas, como uma aranha. Chega mesmo a inventar um filho para se aproximar da mulher que pretende seduzir.

No entanto, o aspecto fashion de Will torna-o dotado do perfil ideal para ser o consultor de imagem ou disk jockey. Se realmente quisesse e precisasse de trabalhar. Will reúne, no entanto, as condições que, mais tarde, farão dele o facilitador da integração social de Marcus – o jovem protagonista da história -, numa fase específica da vida deste.

Marcus tem doze anos de idade. Mudou-se recentemente para Londres com a mãe. É um adolescente com inteligência bastante acima da média, gosto musical refinado, embora moldado pela mãe. É um bom aluno, responsável, obrigado a amadurecer precocemente devido à vivência do drama existencial da mãe, a qual tenta o suicídio no auge de uma depressão.

Ao contrário de Will, Marcus é um jovem que veste de forma démodé. Fora de moda é, também, o seu gosto musical a chamar a atenção dos alunos mais conflituosos – bulliers – que se divertem a persegui-lo, a ameaçá-lo de extorsão, a achincalhá-lo. A mãe insiste em alhear-se do problema.

A amizade com Will, que o incentiva a ser mais autónomo, vem em seu auxílio, no sentido de torná-lo exteriormente “menos diferente” em relação aos colegas. Com a cultura musical transmitida por Will – sempre ao corrente das novas tendências – Marcus consegue conquistar a amizade de Ellie, fã dos Nirvana e um dos elementos mais rebeldes do liceu. A jovem passa a tratá-lo com condescendência e algum paternalismo.

Marcus tenta encontrar em Will uma figura paternal, por sentir que este pode facilitar-lhe e muito – devido à identificação com o estilo de vida adolescente – a integração no seu grupo de pares.

Will, por seu turno, apesar da “alergia” a crianças acaba por sentir-se sensibilizado pela autenticidade e ausência de premeditação de Marcus.

Fiona, a mãe de Marcus, tem 38 anos e está encarregue do sustento da casa e do filho, após o divórcio. Inteligente e culta, revivalista da cultura hyppie dos anos 1970, pretende transmitir os mesmos ideais ao filho. Trabalha como terapeuta musical, com crianças autistas.

O ex-marido é um homem indolente, não pensa muito nas consequências do próprio comportamento – chega a enrolar um “charro” diante do filho e a pedir-lhe para ir buscar os utensílios que necessita para o fazer. Fuma haxixe como quem come torradas ao pequeno-almoço.

Rachel, a namorada de Will, é uma jovem bela, culta, inteligente e sofisticada, extremamente dinâmica no trabalho, por quem se sente fascinado.

Ellie, a jovem de quinze anos, amiga e aliada de Marcus, é uma garota rebelde e provocadora, que tenta chamar a atenção através de comportamentos que, por vezes, caem na alçada da conduta anti-social. Ellie provém de uma família onde os laços sociais e afectivos se estão a desintegrar e não sabe como agir. Acaba por exteriorizar a ira, germinada internamente pelo facto de o comportamento dos progenitores não ser aquilo que normalmente se espera, usando, muitas vezes, de violência não só contra alguns colegas mas também através de alguns actos de delinquência.

O Final

O desenrolar da trama aponta algumas tendências face à evolução das diferentes personagens.

Marcus torna-se um jovem mais integrado no grupo de pares mas, simultaneamente, mais distante do mundo dos adultos. Desenvolve a tendência inicial para tornar-se, em muitos aspectos, mais adulto do que os adultos com quem convive. Começa, no entanto, a fumar, ao mesmo tempo que se reveste de uma carapaça que o afasta da família, marcando a entrada na chamada Linha de Fractura da Adolescência. Apesar de tudo, já se consegue defender ou, pelo menos, evitar as situações de conflito ao desenvolver a inteligência emocional nas relações com o grupo de pares. Torna-se um jovem que acredita, sobretudo, nas relações de amizade e na ligação com vários grupos. O potencial para fomentar laços entre as pessoas, mesmo entre os adultos com quem convive, é uma característica que faz com que pouco a pouco, se torne mais seguro de si.

No tocante a Will, o Autor deixa os leitores entreverem a sua evolução através do olhar de Marcus e da sua extraordinária capacidade analítica. A perspicácia do jovem permite-lhe compreender que a relação entre Will e Rachel poderá não durar. Rachel é uma mulher cujo trabalho ocupa um lugar muito importante na própria vida ao passo que Will é um homem voltado sobretudo para o lazer. Uma discrepância que poderá levar à ruptura do relacionamento. Ao mesmo tempo o enfraquecimento dos laços sociais de Will, um ser cronicamente centrado em si mesmo, poderá acentuar uma já moderada dificuldade de integração e manutenção das poucas relações sociais do quotidiano ao longo do tempo.

Era uma vez um rapaz é, por tudo quanto foi dito, um retrato social inteligente da sociedade contemporânea que nos leva a olhar mais atentamente e de uma forma mais esclarecida as novas tendências de comportamento no mundo que nos rodeia.

Cláudia de Sousa Dias

Monday, June 23, 2008

“O Doutor Jivago” de Boris Pasternak (Europa-América)

O contexto histórico de O Doutor Jivago incide nas transformações sociais ocorridas logo após a Rvolução de Outubro de 1917 a qual culmina com a execução da família Romanov e a instauração do Regime Soviético, em vigor durante mais de 70 anos.

O romance valeu o Prémio Nobel ao Autor em 1958. Foi, no entanto, impedido de o receber pelas autoridades estatais da União Soviética que não permitiram a sua deslocação a Estocolmo para o efeito. Só em 1987 Pasternak será reabilitado por Gorbachov, dentro do movimento da
pereströika e a sua obra finalmente divulgada dentro do território da URSS.

O Doutor Jivago é, em muitos aspectos, revestido de carácter autobiográfico, uma vez que o protagonista do romance – um médico-escritor-pensador-poeta que coloca a nu as contradições do regime ao utilizar uma linguagem objectiva, na maior parte das vezes de pendor jornalístico, ou sob o formato de crónica, sempre sem recorrer a juízos de valor – vê-se, subitamente, privado de uma colocação estável, devido aos seus escritos e à livre expressão do Pensamento. Jivago é um homem fortemente ligado à realidade do quotidiano e, ao descrevê-la objectivamente, torna-se perigoso para os homens de ideias abstractas, por colocar em evidência o enorme abismo entre utopia e realidade.

A linha de desenvolvimento do o romance explora, através de quadros que ilustram cenas do quotidiano de todas as classes sociais que compõem a pirâmide social russa da época, através de uma análise fria e da utilização de uma linguagem de carácter informativo-jornalistica para descrever os factos históricos. Em ambas as situações, o narrador actua como um observador, um fotógrafo ou um camaraman, o qual manobra a sua objectiva para captar cenas individuais, envolvendo cidadãos anónimos mas inseridas num quadro de mudança estrutural a todos os níveis: económico, social e cultural.
Um olhar nem sempre conveniente para os órgãos difusores da propaganda comunista. Pasternak empenhou-se em mostrar como a dissecação das contradições decorrentes de uma total destruição da superestrutura político-jurídica e da interacção dos agentes económicos se traduziu num caos e desagregação económica e de uma situação de empobrecimento generalizado onde se junta a falta de bem consumíveis mais básicos.

A tomada de consciência colectiva desta desorganização iria colocar o novo governo numa situação embaraçosa que o desacreditaria sendo, desta forma, compreensível a necessidade de colocar uma obra deste género na sombra.

As transformações ocorridas no quotidiano das gentes da velha Rússia são-nos mostradas em O Doutor Jivago através da análise transversal da sociedade da época – finais da primeira Grande Guerra do século XX e interregno entre as duas Grandes Guerras, até ao final da Segunda Guerra Mundial.

A mudança mais notória é o desaparecimento de uma burguesia progressista e empreendera, de uma aristocracia agarrada às velhas tradições que remontam ao feudalismo e de uma classe intelectual proveniente destas duas facções, durante o reinado de Nicolau II. Parte dessa mesma classe intelectual acaba por se converter em burocratas, difusores da propaganda no novo regime, algo que Pasternak e o seu alter-ego, Jivago, se recusam a fazer, sofrendo as consequências da sua opção ou, melhor dizendo, da insistência da observação da neutralidade ideológica e manutenção da independência e integridade do pensamento individual e das atitudes face ao Estado.

O Czar Nicolau, apesar de ser uma personagem meramente figurativa neste romance, mostra-se como um governante que, apesar de ligado às tradições, se mostra receptivo a novas formas de governação de inspiração francesa quer no que toca ao desenvolvimento da indústria – a Rússia encontra-se nesta altura em pleno arranque da Revolução industrial – quer na orientação ideológica na forma de governar retirada do Iluminismo. Apesar das constantes ameaças ao regime, provenientes dos movimentos revolucionários de inspiração marxista que actuavam na sombra e intensificados pela revolta popular após a execução do mago e monge Rasputine – o qual Nicolau II considerava como charlatão, cínico e falso milagreiro – o Czar decide abolir a pena de morte, reinstaurada após a Revolução pelos Sovietes.

Os conflitos anteriores à Revolução de Outubro são, segundo o ponto de vista de Pasternak e confirmados por várias fontes históricas da época, despoletados pelos abusos de poder por parte de alguns elementos das classes mais favorecidas traduzindo-se em actos despóticos e de vandalismo verificando-se, simultânea e frequentemente, a impunidade dos mesmos. Uma classe representada claramente pelo escorregadio e camaleónico Komarovski ou Komarov, advogado burguês no tempo do Império e burocrata no novo regime, que se serve da sua posição para exigir favores sexuais a Lara, a protagonista feminina.

Os tumultos, as revoltas, as cenas urbanas e campestres têm, como pano de fundo, a tecedura de um cenário recheado de detalhes e cambiantes cromáticos, sonoros e cinestésicos que permitem a visualização de todas as cenas como se estivéssemos a ver um filme, passado não só em Moscovo, mas também na Sibéria, nos Urais, na fronteira com a Ásia e a Mongólia.

A escassez a nível generalizado está patente, sobretudo, nas cidades onde a dificuldade em adquirir lenha ou outro combustível para o aquecimento – face ao desaparecimento dos fornecedores e pelos rigorosos esquemas de racionamento decretados pelo Governo – agudiza a proliferação da fome, bem como das doenças infecciosas, apesar do silêncio generalizado relativamente à origem destes factos.
As alterações dos hábitos de toda uma sociedade, a começar pelas classes outrora mais favorecidas, traduz-se na ocupação de espaço no palacete da família da esposa de Jivago, Tonia, em Moscovo obrigando a família a deslocar-se primeiro para Varikino, na Sibéria junto aos Urais e, depois a procurar exílio em Paris.

As consequências da proibição no que respeita à produção e fornecimento de qualquer bem primário ou manufacturado ficam evidentes pela constatação de Jivago ao verificar que Tonia não consegue produzir pão, para consumo próprio e venda do excedente, no palácio de Varikino; ao enfrentar as dificuldades titânicas em encomendar uma peça de vestuário para uma emergência a uma costureira – toda a iniciativa privada está proibida – uma vez que tal só é possível nas fábricas estatais tendo de preencher, para o facto, uma requisição. Mesmo, uma nova fechadura para a porta da entrada da casa de Lara em Iuriatine, que se encontra partida, dada a impossibilidade de encontrar um serralheiro a exercer funções, não se consegue arranjar.

Boris Pasternak nunca critica o regime directamente para evitar transformar um romance que pretende descrever uma realidade social em contexto de mudança, num manifesto de contra propaganda comunista, o que lhe retiraria crédito e verosimilhança. E é esta última característica que, por estar tão impregnada no romance, aumenta exponencialmente a força o impacto do texto e obriga o leitor a reflectir sem submetê-lo a todo um esquema de argumentação ideológica e abstracta, vazia de conteúdo.

O Amor como temática principal inserido em contexto histórico adverso

Outro tema-chave de O Doutor Jivago é o Amor, ou não fosse um poeta a personagem principal. O amor está presente em todas as suas manifestações, desde o amor filial – logo na primeira cena, com Iuri Jivago como protagonista no funeral da mãe – a colocar em evidência o carácter ultra sensível do protagonista cuja debilidade física, ainda embrionária, acabará por vitimá-lo pouco depois de atingir os quarenta anos. A expressão deste amor filial em Iuri é, depois, transferida para os pais de Tonia, que acabam por adoptá-lo até entrar, oficialmente, para a família após casar com a irmã adoptiva.
Jivago e Tonia vivem, durante muitos anos, como irmãos e desenvolvem um afecto mútuo e genuíno.
Tonia é dotada de um espírito pragmático e grande desembaraço, adquirido durante o período em que estuda Direito, em Paris. É através de do percurso de Tonia e, mais tarde de Lara, que nos apercebemos que, no início do século XX, as mulheres da alta média e alta burguesia eram incentivadas ou, pelo menos não eram impedidas de frequentarem o ensino superior e exercer profissões liberais, o que não acontecia na maior parte dos países da Europa Ocidental, Portugal inclusive.

O carácter de Tonia cria um forte contraste com a índole sonhadora e romântica de Jivago, que escolhe a profissão de médico, com o objectivo de ser útil à sociedade, por um lado – e, também, para garantir uma colocação que lhe permita sustentar uma família. Para além da Medicina, Jivago dedica-se apaixonadamente à escrita. Como poeta, filósofo e esteta desinteressado das questões materiais, abdica da herança paterna em favor dos irmãos, para não dispersar a energia em conflitos jurídicos que poderiam impedir, quer o desenvolvimento do lado criativo da personalidade quer a concentração necessária ao exercício da profissão e a dedicação aos estudos.
Com a chegada da adolescência nasce, entre Tonia e Jivago, um amor adolescente, largamente incentivado pela mãe de Tonia, sobretudo quando esta se encontra fatalmente doente.

Mas o aparecimento acidental de Lara na vida de Iuri, já depois de casado, despoleta autêntica uma revolução, um caos emocional no íntimo de Iuri Jivago, tanto quanto o comunismo subverte as estruturas da velha Rússia de raízes feudais. Lara representa para Jivago O Ideal de Eterno feminino, a própria Inspiração.
Na verdade, ambos têm muito em comum, desde a forma de ver o mundo até aos gostos estéticos. Mas a característica principal dos dois amantes é o altruísmo. Lara e Jivago são, ao mesmo tempo, semelhantes e complementares: à faceta sonhadora e idealista de Jivago, junta-se o pragmatismo de Lara para a resolução dos pequenos grandes problemas do quotidiano, como a prática de enfermagem e resolução de problemas logísticos em casa. Aluna brilhante, Lara é uma jovem que pretende continuar os estudos para poder leccionar – um impulso para trabalhar para a colectividade muito semelhante ao de Jivago. Tudo isto reúne um conjunto de factores que reforçam uma atracção espontânea, recíproca e imediata, entre o par romântico da obra.

Em relação ao marido de Lara, Pavel Antipov, Lara alimenta por ele um forte sentimento de amizade e solidariedade a par de admiração. No entanto, Lara “ama-o com a cabeça e não com o coração”…

Antipov é um indivíduo bem intencionado mas no qual se nota, logo a partir da descrição do seu aspecto exterior, um a excessivo apego à ordem, à arrumação, a par de um sentido de dever que o leva a colocar a obediência às normas num patamar que supera, inclusive, os afectos.
Por seu lado, Jivago acaba por simpatizar com o marido de Lara, intuindo também, o fim deste, como consequência do desenrolar dos acontecimentos que ditam a marcha da história. O excessivo apego às regras acaba por tornar Antipov inconveniente ao próprio regime.

Nos últimos oito anos da vida, Jivago encontra uma terceira mulher – Marina – de origem humilde, mas que não consegue fazê-lo esquecer Lara. Jivago perde até a vontade de lutar, de escrever, de combater a própria doença, desde muito cedo auto diagnosticada…

A síntese
A ligação entre os dois temas principais, paralelamente desenvolvidos, é o despoletar de mudanças radicais que, tanto as ambições políticas como o amor, desencadeiam no Homem. A desagregação das estruturas, causada pelo primeiro termo, traz ao de cima, em situações extremas, impulsos tão bestiais como a antropofagia. A única coisa que o Estado não consegue expropriar – porque ainda mais rebelde que as reviravoltas políticas dos grupos mais extremistas – é o amor. Principalmente o amor que não cabe dentro de convenções sociais, do sentido do dever…O amor por Lara é algo a que Jivago se agarra com “unhas e dentes” porque é a única coisa que lhe resta. Quando lho retiram, por intermédio de Komarov, deixa de se importar seja com o que for. O astuto advogado revela uma conduta que faz lembrar Scarpia – o vilão da ópera de Puccini ou o Shakespeariano Iago.

O Simbolismo na escrita de Boris Pasternak

A beleza, o romantismo e a melancolia, profundamente enraizados na tradição cultural do imaginário russo estão, em O Doutor Jivago, presentes sobretudo nas lendas e canções tradicionais em vários momentos do romance, onde se destaca a ladainha entoada pela velha curandeira, “rival” de Jivago no tratamento das feridas de guerra dos soldados da unidade onde este se encontra destacado, no Exército Vermelho, pouco antes de desertar.

A identificação da paisagem visual com o estado de alma de Jivago, frequente na obra, causa um forte impacto visual, ao desempenhar o papel de canalizadora de emoções. O gelo e a infinita gradação de nuances de branco e cinza na paisagem siberiana traduzem, normalmente, o desespero; o carácter eterno e a solidez de árvores como as bétulas, os abetos e os pinheiros, essenciais à sobrevivência por fornecerem a madeira indispensável ao aquecimento nas habitações, são um presença que transmite conforto.
Os pássaros como os corvos e as gralhas, são sinalizadores de mau presságio, com o seu crocitar escarninho. Também o narrador, quando quer mostrar a linha de pensamento de Jivago, identifica-o com o rouxinol, ave de aspecto insignificante, mas cujo canto tem o poder de deslumbrar o mundo – tal como a poesia de Jivago. O uivar dos lobos em Varikyno, que perturba o par romântico da obra, anuncia a aproximação do Inimigo – Komarov e o Exército Vermelho – no encalço de Jivago após a deserção. Os lobos são, também, presságio de morte violenta – a de Antipov.
A Lua, em Pasternak, está, também, carregada de simbolismo. O luar, reflectido na neve em Varikyno, transforma a noite numa claridade feérica, mágica e fantasmal, que “ilumina sem aquecer” ao erguer-se no horizonte da noite siberiana. Trata-se de um presságio de separação para os amantes…
Em vários momentos, ao longo do romance, a presença da Lua, sobretudo quando aureolada de vermelho, está fortemente conotada com acontecimentos trágicos, como na página 132, a simbolizar um conflito na rua entre duas facções opostas: “Por detrás do ninho de corvos, surgiu a lua, uma lua cheia, vermelha e escura, alta e monstruosa (…). E depois, no capítulo VII, antes de um banho de sangue: (…) “ia alta a Lua, e o mundo mergulhava nessa luz espessa como num charco de alvaiade (…) vielas mortas vinham desembocar na praça (…) essa noite banhada pela Lua, maravilhava como a misericórdia divina ou como o dom dos visionários”. A Lua, apesar de fascinante, parece sempre estar associada a alguma divindade misteriosa e terrível como a deusa Hécate nos antigos Gregos…

Outro ícone carregado de simbolismo é a “Sorveira gelada”, árvore de folha perene, coberta de neve e bagas vermelhas de que os pássaros se alimentam como os necrófagos – humanos e animais – se alimentam dos cadáveres sangrentos dos soldados mortos…A arvore está localizada junto à vala comum onde é executado um grupo de desertores…
É junto dessa sorveira que Jivago decide empreender a fuga em direcção à aldeia siberiana de Varikyno e a empreender uma penosa odisseia através de uma das zonas mais geladas do globo, fingindo recolher algumas bagas para, tal como os pássaros enganar a fome…
Mais tarde, é à visão, bela e fatal, de uma árvore semelhante que Jivago associa a morte de Antipov, o qual se suicida…A Jivago, as gotas de sangue sob a neve, junto ao barracão do palácio em Varikyno, lembram-lhe as bagas da sorveira brava e o sangue dos desertores executados pelos burocratas do regime.

Para Iuri, a vida termina com a partida de Lara, contra a vontade de ambos, forçada pelas circunstâncias. Para além de se ver privado da pessoa que ama, a mutilação da livre expressão do pensamento, da criatividade na escrita e na arte como “expressão de verdade individual”, obriga-o a escolher a renúncia e a sobrevivência, o que lhe tira o ânimo até para o exercício da Medicina.
Jivago não deixa de notar que, até os seus melhores amigos, submetidos e enquadrados de alguma forma no regime, são falhos no que toca à originalidade, limitando-se a repetir fórmulas decoradas baseadas em conceitos abstractos. Jivago sente que os parceiros de outrora se “venderam”.
Nem a intervenção, do misterioso irmão Evgraf, membro da polícia secreta, sempre presente nos momentos cruciais, consegue evitar que Iuri se afunde…Este consegue apenas reunir os escritos de Iuri, incluindo os Poemas a Lara e publicá-los já após a sua morte.
Afinal, na Nova Ordem, os problemas do anterior regime persistem. No fundo, o essencial não muda nunca.
Por mais revoluções que se façam, haverá sempre presas e predadores.

Cláudia de Sousa Dias

Thursday, June 12, 2008

“O Alpendre Dourado” de Tatiana Tolstoi (Dom Quixote)

O Alpendre Dourado é uma das colectâneas de contos desta escritora da ex União Soviética a incidir na temática da descrição dos comportamentos, emoções e sonhos de toda uma galeria de personagens-tipo numa geração pós revolucionária, em confronto com aquela que a precedeu. São duas gerações que coexistem, no final de uma época de transição, nomeadamente, nas décadas de 60 e 70 do século vinte, altura em que a economia soviética está já a funcionar a todo o vapor.

A esmagadora maioria destas personagens tem em comum uma profunda nostalgia face ao passado, aureolado pelo
glamour do Romantismo, patente sobretudo na maneira como se vestem – roupas em segunda e terceira mão, de há várias décadas atrás, muitas vezes produto de um espólio de guerra e objectos de arte provenientes de expropriações ou, pura e simplesmente, do empobrecimento das famílias da velha elite aristocrática ou da alta burguesia, inúmeras vezes revendidos no mercado negro.

Mas aquilo que une realmente as personagens de Tatiana Tolstoi é, principalmente, uma atitude estética que atravessa a fronteira do tempo e os revezes da Fortuna, as dificuldades do quotidiano no que respeita às condições de habitação, aquecimento, a escassez de alimentos, tendo como pilar uma tentativa de nivelar as condições económicas e dos rendimentos impostas pelo Estado. Trata-se de uma atitude estética voltada para o romantismo de um passado com pouco mais de meio século que está patente na preservação do culto da Beleza, da Arte, do Amor e da Poesia, apesar da realidade sombria e gélida do ambiente circundante.

O Alpendre Dourado acaba por ser a evocação dos desejos, dos medos presentes em todas as fases da vida humana desde a infância até à velhice, daqueles que se recusam a abdicar da poesia no coração e na alma.

Desta forma, O Alpendre Dourado e Outras Estórias coloca-nos frente a frente com figuras como Maria Ivanovna, uma nanny de outros tempos que, ao tentar educar os filhos de uma família proeminente no novo regime, tem de enfrentar a arrogância de uma nova geração que, desligada das tradições, deseja cortar radicalmente com todo um passado cultural e os valores de um mundo que já não existe. A melancolia da prosa conjuga-se com a tristeza e angústia presentes nas lendas e canções tradicionais que causam o repúdio dos mais jovens, cuja mente está voltada para o pragmatismo do quotidiano para desgosto da velha ama a qual deseja, a todo o custo, preservar a cultura secular do imaginário russo.

Por outro lado, a velha cozinheira, cujo espírito maternal cumula as crianças de mimos e atenções é mais facilmente aceite. O amor consegue atingir mais facilmente o seu objectivo do que a severidade profissional da preceptora de Bem-me-quer, mal-me-quer.

Um homem idoso, evoca a beleza da vida através da voz da cantora lírica Vera Vasilievna; ao utilizar uma escrita auditiva, a Autora usa a voz de uma diva como mensageira de um passado que privilegiava a Beleza, neste caso personificada pelo Canto. Este passado chega aos ouvidos do protagonista através de um velho e obsoleto gramofone. Velho e obsoleto como a sociedade onde outrora brilhava. Mas com a beleza canora de um pássaro exótico numa selva tropical ou na tranquilidade retemperadora de um ambiente bucólico. A prosa de Tatiana Tolstoi sugere-nos um infindável caleidoscópio de imagens que, canalizadas através da música, possibilitam a evasão do mundo cinzento e sombrio da cidade para uma infinita paleta de cores no conto Rio Okervil.

Em Doce Chura a beleza da Poesia tem como tema o Amor, trazido à luz do dia por uma idosa de noventa anos que evoca os três maridos e o amante, homens que marcam as diferentes fases de uma longa vida, que podemos identificar da seguinte forma: a fase do fausto e do glamour, no primeiro casamento; a liberdade intelectual no segundo; a repressão e as concessões em nome da paz doméstica no terceiro tendo como contrapartida a estabilidade e ausência de solidão;. E, por outro lado, o custo da oportunidade perdida de uma promessa de paixão e aventura em terras distantes e o que se deixou de fazer em nome de uma estabilidade que dura menos do que uma vida. Na velhice a companhia da Memória e da Tristeza de não saber qual seria o percurso se a escolha tivesse sido diferente, são os sentimentos que assombram o quotidiano dos últimos dia desta personagem.

Em quase todas as personagens de Tatiana Tolstoi o empobrecimento torna-se visível através da decadência exposta sobretudo no vestuário, ilustrado em frases como «As meias caídas, os sapatos rotos, o vestido negro, lustroso e puído».

O Alpendre Dourado, o mais bem conseguido de todos os contos desta colectânea, fala da abnegação e benevolência do Tio Pacha – cuja descrição física muito se assemelha á do pais da Autora - da aversão do narrador à primeira mulher deste, do imenso amor do Tio pela segunda mulher, Margarita, do melancólico fim, um estiolar suave como o apagar da vida de um pequeno pássaro debaixo da luz dourada do alpendre dourado. Este é o conto emblemático da obra por marcar o abismo que separa duas gerações: uma devotada ao amor à família e ao trabalho; a outra, desfigurada, erodida pela indiferença do Tempo que escorre pelos dedos como areia e da eterna luz dourada no alpendre onde repousam as cinzas do Tio querido.

A Caça ao Mamute fala de uma beldade, Zoya, de um amor mirrado pela diferença de caracteres e expectativas, pela apetência pelo supérfluo, frivolidades e, ao mesmo tempo, que se sobrepõe à desesperança face à falta de oportunidades.

Em O Círculo, o humor e a sátira estão patentes na descrição da forma como um sexagenário, descontente com o casamento, consegue arranjar amantes para fugir ao tédio instalado no lar pela rotina. Tudo começa numa lavandaria…

Já em Uma Folha em branco, a comédia transforma-se em drama e a tonalidade sanguínea do vermelho emerge das trevas a anunciar a tragédia. O descontentamento e a depressão instalam-se no seio de uma família urbana que vê as oportunidades de melhoria de condições de vida a serem constantemente goradas. O sul aparece no imaginário da filha de Leon Tostoi como um Éden a alcançar, um lugar de Boa Esperança, de calor e vida, sobretudo com a paisagem marítima como cenário a sugerir um desejo de fuga, evasão. Há, aqui a expressão de dois arquétipos femininos, duas mulheres alegóricas que encontram correspondente em duas mulheres físicas que personificam os dois modelos clássicos do eterno feminino: a esposa e a amante ou, se quisermos Eva e Lillith. Uma impele para a Vida, o Prazer e a Aventura a outra, por seu lado abre a porta ao tédio e à depressão, uma doença que se instala de forma quase definitiva numa apartamento sombrio e húmido que coloca em risco a vida dos seres mais frágeis que nele habitam: as crianças. A falta de uma solução alternativa para o problema implica a fuga através do sonho. Outra solução será talvez a lobotomia que impeça o Homem - ou a Mulher – de sonhar. Que faça com que o ser humano não pense e seja apenas…uma folha em branco.

Fogo e Pó mostra-nos Svetlana Pirka, a ladra de livros, uma curiosa personagem, idealista e sem defesas, inocente, que tem a particularidade de processar lentamente a informação recebida, dando sempre uma resposta desfasada em relação às mais diversas situações, numa espécie de autismo…
A cínica indiferença dos que a rodeiam é a característica colocada em evidência neste pequeno conto onde o desrespeito pela diferença e a ausência de sentimentos de solidariedade, apenas exaltam a candura e extrema sensibilidade da protagonista.

Encontro com um pássaro é outra estória belíssima onde a Inocência se encontra face a face com a magia da Sedução. Petya é uma criança ingénua que acredita em bruxas, monstros, duendes e fadas. Conhece uma mulher misteriosa, dona de uma estranha beleza, e desenvolve uma paixão infantil pela jovem, com ar de diva do cinema dos anos 20/30 – Tamila –, cujo charme sedutor de feiticeira de tempos imemoriais, envolta em lendas e naquilo que diz serem “amuletos mágicos” estimula, ainda mais, a já fértil imaginação de Petya.
Tamila passa os dias a contar histórias intermináveis sobre pássaros mitológicos e lendas tradicionais, recheadas de personagens de beleza impossível e conquista de imortalidade. Uma Sherazade da primeira metade do século XX . Mas a Vida encarrega-se de desenganar Petya, ao apresentar-se-lhe com as suas cores reais…O Destino, de que Tamila se esqueceu de lhe falar, é omnipotente.

Sonhos felizes meu filho relata as reviravoltas da vida através do percurso de um casaco de astrakan sucessivamente roubado. Trata-se de uma estória onde se evidencia a insanidade de um projecto utópico de nivelação social que entra em franca contradição com os desejos mais comuns de todas as origens sociais, à semelhança do que acontece em Sonya …

O Faquir põe em destaque a facilidade com que as pessoas se deixam iludir por uma aparência de luxo e fausto a cobrir um ídolo que se vem a revelar possuidor de pés de barro. A ausência total de valores mais profundos e intemporais está condensada numa personagem que se mostra desde o início, grotesca no seu exibicionismo. Por outro lado a idolatria das face às coisas materiais nas gerações mais jovens e a necessidade de afirmação pela ostentação de Riqueza, proporcionam uma inversão de prioridades, levando ai fechar dos olhos face a uma vulgaridade mais do que evidente.

A estória de mais uma personagem a figurar no grupo dos excluídos está patente no conto Peters, onde a obsessão de um ser mal-amado, que não interage socialmente, molda um carácter que acaba por se revelar um perigo social…

A prosa de Tatiana Tolstoi, é sempre recheada de detalhes visuais, luz e sombra, dourados e cinzentos, uma paleta de cores visuais e emotivas que nos fazem sentir como se estivéssemos diante de uma galeria de quadros que desfilam diante dos nossos olhos como um filme mudo das primeiras décadas do cinema. Ou, se quisermos, como se estivéssemos diante da janela de um comboio…

Treze pequenas grandes pinturas sociais da Rússia soviética nos anos 1920 e 1970. Treze boas razões para iniciar a leitura da obra de uma das mais geniais descendentes do Grande Leon Tolstoi…

Cláudia de Sousa Dias

Saturday, May 31, 2008

Babel Babilónia” de Nelson Oliveira

Babel Babilónia é uma obra que podemos considerar como uma novela atípica, uma vez que é constituída por vários segmentos – ou fragmentos –, pequenas estórias, as quais, apesar de poderem ser lidas separadamente, formam, na realidade, uma sequência cronológica.
O denominador comum, presente em todos estes fragmentos, que nos surgem sob a forma de pequenas estórias do quotidiano, é o conflito baseado numa dicotomia composta pelo trinómio Progresso-Ciência-Tecnologia
versus Natureza-Biologia-Mundo Vegetal. O final é aberto deixando-nos a possibilidade de, a esta narrativa, serem acrescentados novos episódios…

As situações do quotidiano descritas em Babel Babilónia têm, como cenário, uma pequena cidade rural , no interior do estado de São Paulo, onde a erecção de uma torre de várias dezenas de andares irá gerar acerada controvérsia, divisão de opiniões e, mesmo, algumas reacções que podemos, sem sombra de dúvida, classificar de extremistas.

Face à problemática da verticalização e das vantagens imediatas que este fenómeno normalmente associado ao crescimento urbano implica, as discussões germinam, mais ou menos acaloradas, em todas as classes sociais e níveis etários. As opiniões dividem-se entre aqueles que defendem o avanço da tecnologia e a emancipação da Natureza com base na rejeição da Biologia, isto é, que apoiam incondicionalmente a urbanização e a disseminação de uma cultura essencialmente urbana e tecnológica e daqueles que Luiz Roberto Guedes, autor do prefácio da obra, «valorizam a adaptação espiritual à inércia plena» do Mundo Vegetal, onde se pode talvez encontrar uma certa influência do budismo-taoísmo pela «busca do equilíbrio na eternidade do momento presente» (Sic).

Segundo o próprio Nelson Oliveira, na Grande Metrópole não falamos todos a mesma língua quando o tema é o chamado “Progresso Humano” no seu vector destrutivo.
Entre a pressão dos lobbies, a favor da verticalização, e a reacção da ala mais crítica da população que defende a manutenção dos padrões de qualidade de vida para a maioria dos cidadãos – baseada num planeamento urbano cuidado, de forma a impedir a excessiva concentração demográfica na mesma área, numa tentativa de minimizar as assimetrias no que toca à densidade populacional e consequente degradação do meio pela contaminação das águas, emissão excessiva de monóxido de carbono e outros factores que coloquem em perigo a saúde pública. O aumento da criminalidade é outra das consequências associadas ao fenómeno assim como situações de exclusão social devido à discrepância entre as reais qualificações da mão-de-obra existente e as exigências – irreais, para não dizer utópicas – do mercado de trabalho. Tudo isto acaba por desembocar em conflitos mais ou menos graves, casos dramáticos de pobreza, em violento contraste com uma opulência que atinge os limites da obscenidade.

A protagonista da trama central é Beatriz, que aparece em diferentes episódios e tem uma relação algo mística com a Natureza, como se esta fosse uma entidade humana. Aliás, logo no primeiro episódio, no mundo que rodeia a Beatriz, ainda criança, a Natureza e a Biologia sobrepõem-se ainda à Cultura, num tempo que corresponde, de certa forma, à idade do ouro da jovem protagonista que habita um paraíso protegido. Mas Beatriz não resiste a espreitar o que se encontra para lá do Muro…
E, para lá do Muro está um rio que traz na corrente a cultura urbana em cujas águas alterosas o pai perde a vida….O rio traz sedimentos da cultura da metrópole como a deificação do Trabalho, a voracidade do Dinheiro a Ganância, que se infiltram insidiosamente pelas fendas do muro, pelo concreto. Mas por entre as fendas espreitam, também, os líquenes, os musgos, a vegetação apodrecida, a terra o húmus, o odor do próprio rio…que tudo leva com ele: a vida, os olhos do Afogado, comidos pelos peixes…

No final, o ser humano converte-se em alimento da biologia Nemésica que reclama o terreno que lhe foi roubado…
A última cena é uma espécie de ritual antigo, a fazer lembrar os Mistérios de Elêusis, que Luiz Roberto Guedes apelida de «uma integração alquímica, órfica, mágica, consequência da batalha final entre conservadores e progressistas.

Mas em Babel Babilónia existem, também outras personagens, protagonistas de outras estórias, paralelas à de Beatriz, que se relacionam directa ou indirectamente com ela, como Marlene e Jorge – dois jovens corruptos e ambiciosos, sendo a primeira suficientemente inteligente para se manter na sombra, utilizando a camuflagem dada por uma profissão que lhe confere respeitabilidade e o segundo, mais ingénuo, mas com uma tendência bastante vincada para dramatizar a situação e para a auto-indulgência. Por outro lado, o comodismo leva-o a optar sempre pelo caminho mais fácil para atingir os objectivos a que se propõe. Manifesta igualmente uma recusa irrevogável em entender que é exactamente pela inércia, quer do pensamento quer da acção, que o círculo se fecha à sua volta levando-o a afundar-se, cada vez mais, num charco de areias movediças como o sub mundo do Crime…

Há, também Onofre, um idoso saudosista, que revive a infância espelhada no brilho dos olhos que observam a energia despendida pelas crianças que jogam futebol na rua. No entanto, já só os olhos conseguem acompanhar as correrias.
A linguagem utilizada pelo narrador é idêntica à de um locutor de rádio ao fazer o relato de um jogo de futebol, usando o mesmo tom coloquial e interjeições, tal como a gíria do desporto mesclada com o calão dos miúdos de rua…

Os gatos vadios como Sansão e Dalila são protagonistas a mais uma história paralela à de Beatriz, após invadir o quintal da casa da jovem. Esta, desde pequena, tem vindo a desenvolver uma forma muito especial de comportamento anti-social, depois do desaparecimento do pai, uma vítima do chamado Progresso. Beatriz deseja humilhar os outros exibindo uma “perfeição” algo pedante, atirando-lhes à cara uma superioridade que conjuga com uma indiferença felina, superior à do casal de gatos vadios que habita temporariamente o seu quintal…

Mas o episódio mais violento da obra consegue ser aquele em que duas crianças discutam selvaticamente acerca da verticalização. As duas defendem pontos de vista opostos, inculcados pelos pais, como se percebe pelo discurso de ambas no episódio Corrida de Elevador.
Já o proxenetismo e o sexo utilizado como suborno por alguém que aproveita um pretexto para usufruir do prazer de ultrapassar os limites compõem uma estória onde personagens como Gustavo e Débora são meros brinquedos, manipuláveis e substituíveis, traduz a desumanização progressiva que a construção da selva urbana acarreta e onde os fins, aliados ao individualismo na sua forma mais extrema, justificam os meios e a fragilidade humana de uns dá lugar ao cinismo oportunista de outros.

Beatriz surge, novamente, cada vez com traços mais evidentes de desenvolvimento de personalidade anti-social, a fechar-se cada vez mais no seu mundo, onde os outros contam cada vez menos. A jovem age sempre de uma forma algo despótica, como se fosse ela, apenas e só, no centro do seu mundo, fechada na torre de marfim, imersa no próprio narcisismo. Neste episódio há, no entanto, um encontro entre misticismo, a tocar na fronteira do realismo mágico, com o racionalismo cartesiano, dois pontos de vista que se digladiam, mais uma vez, numa luta onde não há lugar para vencedores nem vencidos…

Depois, existem crianças como Dudu que desaparecem no Lusco-Fusco, a ilustrar a ineficácia e ineficiência das forças da ordem. O destino de Dudu só será conhecido mais tarde, ao surgir de uma forma totalmente inesperada e já crescido, noutro episódio.

Aqui termina a primeira parte da obra, intitulada de Anunciação, onde é propagada a mensagem, isto é, a divulgação de uma mudança a ser introduzida e as diferentes reacções que lhe correspondem, incluindo expectativas e medos relativamente às pequenas alterações, já em curso, no quotidiano da pequena comunidade.

Na segunda parte desta alegoria, a Mudança está a ser operada a todo o vapor.

A primeira deste conjunto de cenas de transformação do quotidiano é, aparentemente um banal diálogo entre mãe e filha, cheio de repetições, onde se nota a ausências de nomes próprios assim como de um verdadeiro diálogo entre dois dos intervenientes: os pais da jovem que ajuda a mãe a preparar o jantar. A jovem tem a única a função, em sentido restrito, de verificar se o pai toma os remédios. Trata-se de um lar onde a filha é, também, e num sentido mais amplo, a única ponte a unir o casal e onde paira a sombra de um irmão ausente, acerca do qual se percebe estar a enveredar por um caminho que cada vez mais o afasta da família. A metástase do individualismo, gélido e cortante, acaba por diluir cada vez mais os laços familiares empurrando os seus membros para uma inevitável dissolução.

Zen e a arte de ocupar os espaços vazios trata da estória dos já mencionados Jorge e Marlene – uma estória que se desenvolve única e exclusivamente através de uma troca de e-mails, onde a insistência de Jorge choca com a indiferença e frieza de Marlene. Jorge refugia-se no passado recusando-se a perceber que o laço que os unia de quebrou definitivamente.

A violência extrema de crimes como sequestros, a impunidade, as vítimas que pagam pelos erros de terceiros proliferam em estórias como Retaliação. Ou como na do “gordo” Cácá, nascido em berço de ouro, na elite da grande metrópole, cujo ventre proeminente, físico deformado e precocemente envelhecido pela lassidão e por uma voracidade desmedida, transformam-no num ser mal-amado, apesar de rico. Cácá sonha com mulheres belas ou jovens púberes, mas tem de se limitar aos condicionalismos dos “feios”, “porcos” e pouco amados. A falta de disciplina e pouco afecto com que é brindado desde a infância ajudam ao desenvolvimento de uma faceta que em nada lhe ajuda a regredir o problema que se traduz numa tendência para ser “o bombo da festa”. A resposta é sempre a inércia, a indiferença, a escolha do caminho mais fácil. Mesmo quando se trata de ajudar alguém. Para quê afinal? Alguém, algum dia, faria o mesmo por ele? Se calhar, nem a própria mãe…

A visão do Autor acerca do apocalipse que é a invasão da pequena cidade rural pela Grande Babel começa com o projecto de construção do prédio de altura monstruosa, mas só se desenvolve na altura da sua implementação no terreno, o que desencadeia um verdadeiro Armaggedon ou o emergir de uma Nova Atlântida, marcada pela fatalidade…

Marlene surge novamente, a viver na sombra, mascarada sob a camuflagem perfeita de executiva perfeita, convive diariamente com o medo constante de ser descoberta a sua vida secreta, o esqueleto que guarda dentro do armário que é a sua vida privada... É o arquétipo oposto de Beatriz, cuja soberba consiste numa exibição agressiva - e, em muitos casos ofensiva -, da própria integridade e o pior defeito: o orgulho desmedido face à própria perfeição, traduzida no cumprimento rigoroso de todos os princípios que defende, o que a coloca acima dos demais.

Na estória Para onde vai a luz quando o medo acende o escuro as personagens da obra vão aparecendo sucessivamente à medida que se apercebem das consequências de uma decisão que se revelou nefasta, acabando por serem fulminadas com a Revelação da fúria nemésica da Natureza que decide impor a sua vontade aos homens.
O prédio foi erigido, o circo está armado e a sorte, lançada. O círio, esse arderá muito em breve.

Os últimos quatro mini-contos ou estórias formam como que um epílogo ao qual o Autor atribui o título de Redenção. Esta “redenção” é, nada mais nada menos do que o regresso do Homem às suas raízes biológicas e à fusão com o meio vegetal. Para tal recorre à imagem, do sacrifício de um ser imaculado, aumentando a dramaticidade através de um ritual a fazer lembrar os povos antigos da Arcádia…

A prosa de Nelson Oliveira é, sobretudo, um manifesto contra à urbanização e a destruição do meio ambiente assim como a progressiva degradação da qualidade de vida à escala Global. Tudo para usufruto de uma minoria de sátrapas a alta finança e das grandes multinacionais…
Ao lermos as frases deste Autor, carregadas de um pessimismo nihilista no que toca à crença da evolução dos seres humanos como pessoas – ao lermos Babel Babilónia – percebemos que o Autor pensa que, apesar dos progressos operados pela espécie humana na área da tecnologia, economia e cultura, o Homem não aprende com os erros. Por outro lado, o Autor acredita no romantismo da pequena minoria que tenta remar contra a maré. Dos que lutam contra os moinhos de vento. Os últimos textos da obra remetem-nos para a cegueira humana leva, invariavelmente, a que grupos extremistas, adversários da mesma guerra, esbatam, cada vez mais, as fronteiras entre o bem e o mal. Uma tendência que é, sempre foi, o grande flagelo da humanidade. Que aniquila o homem como ser social.

Babel Babilónia é, por tudo o que foi dito, o manifesto de um agnosticismo pagão ou se quisermos anti-cristão, pelas frequentes intertextualidades com a Bíblia, que visa destruir a ditadura de um Eu que já não consegue suportar o olhar do Outro.

Cláudia de Sousa Dias

Thursday, May 15, 2008

"À Procura do Imperador" de Roberto Pazzi (Dom Quixote)

Conhecido, durante muito tempo, apenas como poeta, Roberto Pazzi publica o seu primeiro romance em 1985, precisamente Á Procura do Imperador, o qual virá a obter o Prémio Campiello. Publica, ainda e posteriormente, mais dois romances intitulados La Principessa e il Drago (1986) e La Malatia del Tempo (1987).

À procura do Imperador é o relato do percurso do regimento Preobajenski, o qual, perdido na Sibéria durante a Revolução, tem a seu cargo a missão de procurar o Czar, entretanto em prisão domiciliária em Iecaterinemburgo, cidade mineira dos Urais, nos confins do Império, junto à fronteira asiática…

No prefácio, o ensaísta Giovanni Raboni comenta o facto de o Autor sempre ter sentido, desde tenra idade, um estranho fascínio pelo destino da família Romanov, episódio histórico que “sempre influenciou, de uma forma mais ou menos obscura, as raízes da suas imaginação” (sic). De acordo com Raboni, é após uma viagem efectuada à então União Soviética onde visita a Residência Imperial que Pazzi “é surpreendido por uma acutilante e inexplicável sensação de dejá vu” (sic) provavelmente fruto de reminiscências históricas, alimentadas e ampliadas por uma fértil imaginação e, simultaneamente, por uma forte sensibilidade, que o leva a constituir “o impulso originário de uma invenção romanesca (…); uma espécie de curto-circuito, uma identificação fulmínea e fatal entre narrador e narrado” (sic).

À Procura do Imperador é, sem sombra de dúvida, “um romance-obsessão (…) e é um romance “convencional”, na sua acepção mais nobre” (sic), onde “uma ininterrupta e intensa actividade mental cindiu em duas a obsessão” (sic), e onde está patente, também, a divisão da estrutura narrativa em dois planos distintos, formando duas narrativas paralelas. Uma delas espelha o fascínio claustrofóbico da prisão ou de um exílio em prisão domiciliária na cidade de Iecaterinemburgo, perdida nos confis dos Urais; e a outra a sedução através do fascínio aventureiro-picaresco da Viagem, o sonho da procura dos espaços incertos e hostis que é a a odisseia siberiana do Exército Branco, leal ao Czar. Raboni afirma serem estes dois planos “duas formas típicas do imaginário romanesco que Pazzi soube conjugar admiravelmente (…) por terem renascido dentro de si a partir da mesma estranha emoção”
Trata-se de duas histórias marginais, dois finais dramáticos, para não dizer marcados pela fatalidade. Duas causas perdidas, as quais, ainda de acordo com Raboni, “são sempre da predilecção dos poetas”.

Personagens

Em À procura do Imperador encontramos personagens que representam não só figuras, históricas, mas também personagens colectivas. Entre estas, duas em concreto, são representativas de duas épocas distintas e de dois sistemas sociais em conflito: o Exército Branco – o baluarte da Velha Rússia que mantém uma estrutura social ainda com todas as componentes do feudalismo – sobretudo nas relações entre camponeses e aristocratas latifundiários – mas que começa já a dar sinais de entrada numa nova era - uma mescla de Iluminismo com Revolução Industrial – e as forças revolucionárias do Exército Vermelho que reivindicam uma sociedade igualitária de inspiração marxista com o objectivo de conseguir melhores condições de vida para a classe operária e camponesa. O governo do Czar é derrubado e Lenine torna-se o novo “czar”, numa altura em que começam a ser lançadas as bases para o regime que vem a ser a URSS.

Mas nesta obra, o factor mais importante é o Drama e o crescente avolumar da Tragédia que atinge o seu ponto culminante com a chegada daquilo que resta do Exército Branco a Iecaterinemburgo.
A saga do regimento Preobajensky, chefiado pelo príncipe Ypsilante faz lembrar um pouco o episódio das Termópilas por se tratar da luta por uma causa, que se sabe perdida desde o início. Mesmo assim, o Príncipe persiste na estratégia desesperada que sabe ser praticamente um suicídio, por falta de alternativa ou de informações coerentes e fidedignas. A travessia da Sibéria, a partir da cidade de Vaquitino – cidade onde o telégrafo já não funciona há vários meses, e onde as notícias chegam deturpadas e desfasadas no tempo – em pleno Inverno, em direcção a Tobolsk, a cidade onde se julga estar preso o Imperador. A cruzada através do deserto siberiano lembra a viagem de Ulisses cuja travessia do Mediterrâneo, recheada de peripécias, cheia de imprevistos, tem muitas semelhanças com a saga destes jovens soldados, cuja dependência do álcool é uma porta aberta para todo o tipo de alucinações, delírios e comportamentos imprevisíveis. Para além do o frio, também o isolamento e a falta de conforto muito contribuíram para o deteriorar da sanidade mental da maior parte dos soldados. Na realidade, “Vaquitino era de tal modo distante que os mercadores Tártaros faziam sempre testamento ao partirem para lá, na Primavera”. A odisseia dos argonautas siberianos ao atravessar o frio impiedoso do Inverno, numa paisagem que tem tanto de bela – com o seu branco infinito, omnipresente e resplandecente na luminosidade da Lua e das estrelas – como de opressiva, é geradora de um sentimento colectivo de desesperança, onde o único antídoto usado no combate ao frio, à estagnação da circulação sanguínea e à depressão, reside nas reservas de vodka, cuidadosamente racionada.

O próprio príncipe Ypsilante tem sérias dúvidas quanto à veracidade das informações obtidas em Vaquitino, acerca do paradeiro do Czar. Dúvidas essas que consegue cuidadosamente ocultar do exército, de forma a impedir rebelião. Ypsilante decide, assim, insistir na procura do seu Imperador, através do deserto siberiano, numa última e cega esperança de preservar o mundo onde sempre viveu. Por que a Rússia do presente que está a viver já não é “a sua”, nem a dos seus soldados. È a dos Sovietes, dos Burocratas do Exército Vermelho.
Os soldados Brancos começam por atravessar o rigoroso Inverno siberiano, passando depois à violenta e inóspita primavera, cujo degelo transforma o terreno num mar de lama e a marcha num pesadelo. Segue-se-lhe a beleza fulgurante do Verão das imediações do Círculo Polar Árctico. Entretanto, a Morte vai ceifando impiedosa e inexoravelmente as hostes, cada vez mais débeis, dizimando um exército que não trava uma única batalha. Salvo com os elementos da Natureza. Como por exemplo, a profundidade misteriosa da floresta, onde se esconde o fantasmal tigre siberiano, já próxima dos Urais, aterroriza os soldados, divide opiniões dificultando uma coordenação eficaz. Alguns aventuram-se apenas pela segurança que lhes transmite o conhecimento da região do pequeno mongol, experiente na caça ao tigre um conhecimento ancestral, transmitido pelos anciãos da tribo de onde é originário.
Passam Tobolsk, onde constatam desanimados não se encontrar lá a família imperial, como adivinhava já Ypsilante. São, já, pouquíssimos os soldados que conseguem chegar a Iecaterinemburgo, esfarrapados e sem condições de defenderem seja o que for. Para além de terem também chegado demasiado tarde.

Desde o início, que na prisão domiciliária, em casa do Engenheiro Ipatiev, na cidade mineira de Catarina a Grande, os Romanov aguardam o salvamento heróico pelo Exército Perdido, mas à medida que os meses passam a esperança vai-se esvaindo pouco a pouco, tal como os sonhos. Enquanto isso, um contingente anormal de várias espécies de pássaros, bandos e bandos de aves de várias espécies vão chegando sucessivamente à cidade e rodeando o palácio Ipatiev, numa estranha migração fora de época.

Pássaros em vez de soldados.
Tudo leva a crer tratar-se de uma alegoria-personificação, utilizada pelo Autor, a simbolizar as almas que se libertam e cujas asas transpõem todos os obstáculos, naturais e humanos, até chegar ao Imperador, atraídas por ele como por um íman. Para a sua águia imperial. A rainha das aves que pousa no telhado do palácio, pouco antes de chegarem os últimos elementos do exército do Czar. O César da Terceira Roma. A Águia levanta voo, finalmente, após a morte do Imperador.
Este tipo de alegoria confere ao romance uma nota de realismo mágico e fá-lo ultrapassar as fronteiras do convencional romance histórico. Um recurso que confere à trama uma aura de drama que se torna sublime, impressionante, porque emanada directamente da veia poética do Autor.

Nos dias que antecedem a sua morte, Nicolau II recorda o passado, analisa-o à luz dos acontecimentos recentes que puseram fim à monarquia e retira lucidez e coragem dessas recordações, ao mesmo tempo que coloca de parte todas as loucas esperanças de que as coisas voltem a ser como antes.
A Czarina e as filhas afundam-se, pelo contrário e cada vez mais, em ilusões e falsas esperanças.

A Czarina Alexandra, conservadora e saudosista dos privilégios reais recusa-se a aceitar a realidade ao enfrentar os seus carcereiros com sobranceria. Por outro lado, o sofrimento do pequeno Czarevitch, hemofílico, sensível e cada vez mais débil, flagela-a com uma angústia que cresce a uma velocidade galopante. Refugia-se na religião como analgésico, relembrando com saudade o mago Rasputine, o monge dissidente, odiado pelo Czar, que percebia nele um charlatão, sedento de poder.

Por outro lado, o maquiavelismo de Tatiana, a mais rebelde das filhas e, simultaneamente, a mais frágil, procura na magia e nos ensinamentos do Mestre a fuga ao pesadelo do seu quotidiano, leva-a a encarar com desprezo a candura dos irmãos, responsabilizando, simultaneamente o pai pelo sucedido à família e ao seu mentor, Rasputine.
Já a empática Olga tenta sempre apaziguar as angústias de todos enquanto que a beleza e vivacidade de Maria, a candura de Anastasia, a debilidade e a alma sensível de Alexis deixam no ar uma impressão de tragédia, como se estivéssemos no meio da trama da Ilíada a assistir ao destino de Ifigénia, aos dotes visionários de Cassandra, à coragem de Heitor, ao fatalismo conformista de Príamo e Hécuba.
A casa Ipatiev é isso mesmo. A cidadela de Tróia sitiada e, posteriormente, imolada pelos invasores – o Exército Vermelho.

O presságio de morte é anunciado pela árvore raquítica que dá à luz um fruto doente – uma romã, envenenada, provavelmente, pela jazida de minério radioactivo - à semelhança do príncipe Alexis, o herdeiro de sangue doente como os grãos vermelhos contaminados do fruto que liberta a família real da humilhação de ser exterminada pelas mãos dos seus carrascos…

Um final belo, trágico, cheio de poesia, que poderia, muito bem ter inspirado o autor do guião de A Queda de Hitler e do Terceiro Reich, numa das suas últimas cenas…

Uma recriação de um poeta e romancista italiano, do final do século XX, daquilo que poderia muito bem ter sido os últimos dias dos Romanov.

Uma saga que mergulha directamente no berço da Grande Literatura da civilização ocidental: as obras dos antigos mestres gregos.

Cláudia de Sousa Dias

Tuesday, May 06, 2008

“Os Mistérios de Havana” de Zoe Valdés (Dom Quixote)

Zoe Valdés é natural de Havana, nascida em 1959 e vive, actualmente, em Paris. Frequentou a Universidade de La Habana, onde estudou Filologia, tendo colaborado com a UNESCO na Delegação de Cuba e no Gabinete Cultural da Embaixada de Cuba em Paris. Foi guionista de cinema e subdirectora da Revista de Cine Cubano no Instituto Cubano de Arte e Indústria Cinematográfica até Dezembro de 1994.

Até aí tinha já publicado: dois volumes de poesia –
Respuesta para vivir e Todo para una Sombra –, a colectânea de contos Traficantes de Belleza e os romances La nada quotidiana, Ira de Angeles e La Hija del Embajador, este último vencedor do Prémio Novela Breve Juan March Cencillo, 1996. Publicou, ainda, Te dí la vida entera - finalista do Prémio Planeta, 1996 e Café Nostalgía. Em Portugal, foram publicados os romances Querido Primeiro Amor e Milagre em Miami.

Mistérios de Havana é, por sua vez, uma compilação de contos e lendas do imaginário tradicional cubano, ou então, de figuras carismáticas retiradas da História de Cuba, homens e mulheres que deixaram a sua marca na memória colectiva e que foram, por sua vez, transformados em mito por via da tradição oral.

Zoe Valdés recria, desta forma, muitos destes episódios transformados em lenda, após serem recontados ao longo de sucessivas gerações correspondendo, cada um deles a um cenário da capital cubana quer antes quer depois da Revolução, dando lugar a vários paralelismos e analogias entre épocas diferentes e encontrando padrões de comportamento recorrentes que se vão repetindo ao longo do tempo e que caracterizam a maneira de ser do povo
habanero.

Sonhos, visões, premonições, cartas, biografias, relatos são o ponto de partida para várias estórias, (re)construídas, na maior parte das vezes, a partir de documentos cuidadosamente guardados ou de depoimentos de testemunhas oculares que inspiraram a Autora, a qual, a partir daí, parte para a montagem das peças do puzzlle que engloba vários episódios históricos da cidade de Havana, polvilhando-os com uma pitada de realismo mágico, misturado com um pouco de ficção como acontece na belíssima estória intitulada A Pena de José Martí.

O objectivo da Autora é o de mostrar a História e a Cultura cubana do ponto de vista poético e fazer o levantamento de lendas e tradições às quaisl adiciona a componente ficcional.

Jorge Manach, cronista habanero a quem a autora dedica a obra, afirma que "o tradicionalismo mais não é que uma nostalgia, uma atitude estética para com o passado…”.

Zoe Valdés publicou o presente livro na Colômbia e depois em Espanha, encontrando sérias dificuldades em conseguir a autorização da sua publicação em Cuba, o que não surpreende ninguém que percorra as páginas de Os Mistérios de Havana, visto que alguns dos episódios contados, apesar de conterem uma forte dose de ficção, adquirem um teor crítico face ao regime político de Fidel Castro, tornam o livro assaz inconveniente, para um chefe de estado que não admite que a sua autoridade seja posta em causa, omitindo a todo o custo toda e qualquer falha ou contradição decorrente das suas decisões políticas menos felizes.

Mas também os amores trágicos, os choques culturais provenientes do colonialismo, em estórias como Habanaguana – uma possível explicação, ou várias, para o nome da capital cubana – ou a prepotência de uma classe dominante, patente na frieza com que se executa um crime teor passional perpetrado com a precisão e a minúcia dos movimentos de um cortador de carnes verdes, as origens multiraciais dos ritmos da música cubana, a beleza fatal de duas crioulas matadoras, são outros dos temas escolhidos e que inspiram a fertilíssima imaginação e criatividade de Zoe Valdés. Assim como a figura de um esteta, homem das lides políticas, crítico literário e de moda, bem como as suas paixões, que servem, também, de motivo de inspiração para um conto um pouco autobiográfico onde o exílio surge como solução face à incompatibilidade entre a livre expressão e o desenvolvimento intelectual dentro de um regime autocrático – apesar de a estória se passar no século XIX – onde domina um cenário propenso à criação de mal-entendidos, onde vigora um regime censório. Mesmo assim há, ainda, espaço para o nascimento de uma amizade que consegue atravessar a distância de um oceano.

As lendas continuam a ser desfiadas como as contas de um rosário.

Uma deleas é a decorrente do misterioso desaparecimento de uma criança que dá origem às hipóteses mais mirabolantes, o mesmo acontecendo com a presença de fantasmas e misteriosas aparições – mistura de elementos factuais com ficção e sonho, têm também lugar nos Mistérios… de Valdés.

É desta forma que nos apercebemos que as arbitrariedades que tiveram lugar no último quartel do século XIX continuam a marcar presença ao longo de todo o século XX como faz notar o narrador de Os oito Estudantes de Medicina.

O erotismo também marca a sua presença, sobretudo em estórias como A condessa Crioula, onde se fala de dois amantes intelectuais que mantém a paixão na sombra, devido aos respectivos casamentos de conveniência decretados pela família…uma conflito entre a ética individual e a pseudo-moral familiar. Um tema recorrente no imaginário da Autora.

Também o abismo entre a lenda e a realidade dos factos, atestados por documentos históricos, mostra a acentuada “queda” para o romantismo, a tragédia, as paixões dramáticas e violentas em lendas como a de Santa Flora.
O idealismo romântico e o pronunciado gosto pela Utopia que envolve as relações afectivas são projectados em estórias como a do intelectual sonhador, de origem germânica, apaixonado por negras e mestiças de Cuba, pela comida local e pelo clima dos trópicos, como ilustra o sugestivo título O Barão Alemão da esquina da Rua dos Inquisidores com a Rua da Muralha.

A lenda do belo mulato de olhos verdes – Andrés Petit – dá-nos uma descrição física que se repete por várias vezes em personagens masculinas valdesianas detentoras de forte carisma sexual, a sugerir o ideal de beleza e sensualidade masculinas, presentes no imaginário da Autora e transportado para a sua escrita.
A estória do feiticeiro e curandeiro Andrés Petit deixa a dúvida no ar em relação às suas origens e morte, envolvidas em mistério, acerca das quais não há versão unânime. Fica assim, cristalizado para a posteridade, o carisma de um Rasputine cubano…

Os amores clandestinos da aristocrata e idealista Emília Casanova, do marido Eugéne, da crioula Cecília Valdés e do jornalista-escritor, Cirillo Villaverde, formam um quarteto invulgar cujas paixões momentâneas os levam, numa quente tarde de Verão, a ingressar nos prazeres do swing, são os quatro pilares de um conto de grande ousadia…

Sequem-se os poetas que caminham no limiar da lucidez e da loucura como no conto O Observador Invisível, a trágica estória de Juan Clemente Zenea e de Adah Menkhen, numa terra e num lugar onde as vozes visionárias dos poetas soam como as trombetas do juízo final nos regimes despóticos, onde são, normalmente, encarceradas e abafadas atrás dos muros das prisões…

Dos Mistérios… habaneros fazem parte, também, estórias contadas no feminino, como a da precoce e sobredotada menina-poeta, Juana Borrero, que compôs um brilhante texto erótico com apenas doze anos de idade e que a Autora enquadra num conto sublime intitulado de A Virgem Triste.

Mas dos Mistérios de Havana fazem parte, também, estórias contadas exclusivamente no masculino. Como a da paixão impossível do poeta pelo general, cuja marca principal é a da intensa electricidade expressa num erotismo contido, mais sugerido do que explícito, num requintado quarto do Hotel Inglaterra, à média luz…

Outra estranha e surpreendente forma de (d)escrever o erotismo é-nos revelada através da inverosímil afinidade entre uma aristocrata e uma estranha turba de macacos cujo amor à dona permanece intacto e fiel até à morte, numa estranha alegoria de um amor que supera as diferenças de carácter intelectual.

Por outro lado, a importância das afinidades intelectuais é, também, destacada numa estória de amizade, onde duas mulheres de inteligência invulgar, embora provenientes de épocas e origens sociais diferentes, trocam impressões acerca daquilo que sentem relativamente à problemática que afecta a vida de ambas: o exílio. Uma, no passado, e outra, num futuro muito próximo.

Os pregões tradicionais do início do século XIX, proibidos pelo regime de El Comandante-en-Jefe, como El Manisero e a presença das notas sopradas pela flauta de Pã do amolador de navalhas, são também motivos para elaborar uma estória assim como a hipocrisia de um estado que tenta ocultar uma das principais chagas sociais que pulula nas ruas de Havana: a miséria e a crueldade indiferente do Estado para com aqueles que sofrem na pele as consequências dessa carestia – sobretudo as crianças – na estória Marta Abreu visita o Paseo del Prado,72.

Da mesma forma, a invulgar circunstância de uma mulher hermafrodita que hesita entre duas orientações sexuais opostas em Paulina, a grande, no Teatro de Shangai, faz parte do insólito que povoa a o imaginário colectivo das gentes de Cuba e dos Mistérios Valdesianos.


Recheada de realismo mágico é, tal como A Pena de José Martí, a lenda de um feitiço de beleza e juventude no conto intitulado Catalina e a Rosa de Carne assim como o insustentável peso da fatalidade na pequena estória a que a Autora dá o título de A Milagreira.
Após o drama segue-se um divertido episódio que descreve uma hilariante confusão num funeral, atribuída ao carácter brincalhão do defunto, cujo espírito se supõe andar pelas imediações a semear a discórdia…
Segue-se uma estória de guerra civil, emanada do sub mundo ligado à prostituição, onde dois bandos rivais se defrontam pelo domínio do território. O conflito estala entre Yarini e Radamés, dois proxenetas de bairros vizinhos, desembocando numa rixa monumental que culmina na batalha de San Quintín entre franceses e cubanos…tudo por causa das putas…(sic).

Depois é o fantasma de Jorge Manach que aparece a uma menina, vestindo a pele de Lujan, a sua criação literária, o seu alter-ego, num sonho erótico a diluir as fronteiras entre passado e presente…

A síndrome do exílio, a nostalgia da cidade e a saudade da família continuam a guiar a pena de Zoe Valdês no relato O Peregrino Imóvel, numa crítica (in)directa a Fidel.

São muitas as farpas e virotes apontados quer de forma explicita, quer nas entrelinhas ao Comediante-en-jefe (sic), tal como é satiricamente parodiado Fidel Castro nalguns dos seus relatos mais violentos. Verificámos que, na realidade, à medida que os mistérios e as lendas da cidade de Havana vão avançando no tempo, o teor da escrita de Valdés vai-se tornando progressivamente mais violento e menos romântico: a linguagem apaixonada e sonhadora, contida nas frases dos primeiros textos que envolve as personagens na neblina do Tempo, neblina essa que tempera os sentimentos mais violentos, vai dando lugar a um discurso transbordante de fel, cuja acidez é ampliada pelo calor esturricante do eterno verão cubano, onde as variações de temperatura praticamente não existem ao longo do ano.
A alegoria da Miséria prossegue, encarnada num mendigo que julga ser a reencarnação de Vítor Hugo – um “miserável”. Um retrato contundente daquilo em que se transformaram as ruas de Havana, ou melhor, da Havana à qual não têm acesso os turistas – uma cidade suja e faminta que tenta passar uma falsa imagem de sofisticação, é-nos dada a conhecer em O Cavalheiro de Paris.
Menos directa e mais subtil, o conto Flor dedicado a uma insólita poetisa, a mais nova dos irmãos Loynez, dotada de tal sentido de independência que não hesita em apagar a própria beleza para não ser objecto de disputa ou posse masculina. Uma atitude que é confundida com loucura, como geralmente acontece com aqueles que defendem as próprias convicções entrando em choque com as normas de conduta social em vigor ou quando essas mesmas convicções entram em conflito com a opinião da maioria.
Por seu lado, Carlos Manuel, irmão de Flor, poeta também, revela uma acentuada tendência para a auto-destruição, enquanto que Enrique, o outro irmão, sofre de fotofobia renegando a luz e assumindo-se como o poeta apaixonando pela Noite.
Menos insólita mas igualmente pouco verosímil é a lenda da dançarina de rumba Alicia Paula e um suposto exílio da mesma com o sedutor Errol Flynn.
Já o despudor, presente no conto A Chinesa, é uma machadada no tradicional machismo latino, introduzida no imaginário cubano, através de uma curiosa inversão de papéis - num conto cheio de humor onde uma mendiga assedia violentamente os homens que se cruzam com ela na rua.
Também o mito do boxeur habanero de Kid Chocolate pôs-te K.O. exibe o talento para a efabulação do povo cubano.
A estórias continuam com os relatos dos excluídos, enlouquecidos e miseráveis que deambulam pelas ruas de Havana, enfatizando a hipocrisia de todo um regime como em O Equilibrista dos Contentores ou em A Marquesa do Tencent – esta a história de uma anciã, pateticamente aprisionada no passado. A crítica social, impertinente e pícara, d’As Anedotas de Pepito – a fazerem lembrar o “Joãozinho” português – que se serve da sua suposta inocência para parodiar descaradamente o regime, é um dos relatos mais virulentos de toda a obra.
Mas é com alegoria da mais grotesca Miséria, da Fome e da Sede de O Pior dos Verões que Valdés atinge um grau de violência na escrita que raia a obscenidade.

Por último, a autora finaliza este conjunto de estórias com dois relatos satíricos cujo intuito seria o de exibir a mediocridade dos falsos intelectuais que vêem em Miami o paraísos das suas ocas vaidades. Enquanto isso, a narradora sonha, pelo contrário, com a fusão entre a Havana natal com o alegre veaudeville a evocar a belle époque da capital francesa preferindo, de longe, a sua fantasia à boçalidade americana.


Os Mistérios de Havana são, portanto, um conjunto de “fotografias” que atravessam mais de dois séculos de episódios insólitos, numa terra onde os tiranos não conseguem apagar a alegria de viver e a vivacidade de um povo, cuja liberdade de expressão só se consegue manifestar, na sua plenitude, na distância imposta pelo exílio…


Cláudia de Sousa Dias