HÁ SEMPRE UM LIVRO...à nossa espera!

Blog sobre todos os livros que eu conseguir ler! Aqui, podem procurar um livro, ler a minha opinião ou, se quiserem, deixar apenas a vossa opinião sobre algum destes livros que já tenham lido. Podem, simplesmente, sugerir um livro para que eu o leia! Fico à espera das V. sugestões e comentários! Agradeço a V. estimada visita. Boas leituras!

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Bibliomaníaca e melómana. O resto terão de descobrir por vocês!

Sunday, July 31, 2016

"A Terceira Miséria" de Hélia Correia (Relógio d'Água)

Thursday, June 30, 2016

"O Vendedor de Passados" de José Eduardo Agualusa (Dom Quixote)

Wednesday, June 01, 2016

"The Book Thief" by Markus Zuzak (Black Swan)

Tuesday, May 31, 2016

Revista "Correntes d' Escritas" 2016 – António Lobo Antunes




A revista, publicada anualmente por ocasião do Festival Literário Correntes d'Escritas, a decorrer todos os anos em Fevereiro na Póvoa de Varzim, está dividida em três secções: uma, dedicada à ficção curta ou, simplesmente, textos em prosa, afim de proporcionar aos leitores uma pequena amostra dos estilo literário dos vários escritores participantes no evento; outra, dedicada à poesia com a mesma finalidade da anterior; e, por fim, uma única secção com textos dedicados ou inspirados na obra literária, do escritor em destaque naquele número da revista. Este ano, o autor a quem coube essa homenagem foi António Lobo Antunes, cujo rosto surge na capa com fotografia de Daniel Mordzinski.


Comecemos pelo final. Foi com enorme prazer que desfrutamos da elevadíssima qualidade dos textos incluídos no dossier de dedicado a António Lobo Antunes, com especial destaque para o ensaio de Ana Paula Arnaut sobre o tratamento dado às personagens femininas na obra antuniana, intitulado “Modelo(s) da personagem feminina na ficção de António Lobo Antunes” onde disserta sobre os pilares em em que assenta essa mesma construção ficcional operada por ALobA nos seus romances.

Harrie Lemmens focaliza a sua análise na polifonia existente no discurso literário de ALobA no belíssimo texto “Vozes ao redor – António Lobo Antunes em Holandês”. Lemmens não se limita a discutir as armadilhas da tradução para uma língua germânica como aquela que é proposta no título, mas chama sobretudo sobretudo a atenção para a penetrabilidade da ficção portuguesa de altíssimo nível como é o caso num país da Europa do Norte onde domina essencialmente a literatura escandinava ou anglo-saxónica.

A temática antuniana escolhida Maria Alzira Seixo incide na importância da metáfora vegetal/floral na obra de Lobo Antunes num maravilhoso ensaio intitulado “ As Flores do Inferno” numa clara ligação inter-textual com a obra de Rimbaud Un saison en Enfer. Maria Alzira Seixo centra a sua análise no poder da imagem, na temática da condição humana, na perseguição do valor universal como é a Verdade na obra antuniana, a qual ou se esconde geralmente por detrás de um véu ou máscara (aqui poderíamos encontrar paralelo na obra de Rawls quando se refere ao “véu da ignorância”) ou se retira discretamente para a sombra. Outro aspecto evidenciado pelo uso deste género de metáfora é o conflito entre o impulso de preservação da “condição de inteireza” do Eu e a noção do dever e fidelidade a alguém, que se manifesta na como ALobA utiliza a simbologia da estufa e dos jardins. Aqui a perspectiva de Seixo que converge, neste último aspecto com a análise de Norberto Vale Cardoso no texto “António Lobo Antunes: uma escrita preenchendo o vazio”.

Os últimos textos do dossier são da autoria de três escritores portugueses, Rui Vieira, Rui Zink e Valério Romão, os quais adquirem a forma de panegírico sobre a obra de Lobo Antunes. O primeiro, recria o processo de produção ficcional, através da (re)construção de uma cena do quotidiano transfigurada em ficção, onde são incorporadas situações e personagens da ficção de AlobA. O resultado é uma criação de pendor surrealista que poderia servir de base a um guião para uma curta-metragem inspirada no processo de criação da escrita literária. Já o outro Rui, Zink, claro, opta por um tom de admiração/devoção que raia a idolatria sem deixar de trair uma certa ironia eivada de uma pitada daquele célebre ciúme criativo (o mesmo que leva a deusa que dá o nome à capital grega a transformar Aracne em insecto), quando fala da “escrita que queima” (a de Lobo Antunes, pois claro). Uma escrita que afecta e muda o seu destinatário, que se inscreve no imaginário dos seus leitores, que os contagia, porque é impossível deixar de se sentir afectado por ela. A principal consequência é o risco de silenciar, apagar, contaminar as outras vozes do mesmo universo literário. Este último aspecto é explorado com mais detalhe na crónica de Valério Romão intitulada “Manual de Sobreviveñcia a Lobo Antunes”.
Deste dossier faz ainda parte o ensaio de Susana João Carvalho “A quantidade de vezes que treinámos esta cena”, ao longo do qual a autora opta por explorar a dimensão cinematográfica presente na obra de Lobo antunes, complementando o olhar sobre a imagética antuniana abordado também por Norberto do Vale Cardoso.


Recuando um pouco mais na revista, uma vez que começamos pela terceira parte, vamos ter à secção intermédia, dedicada à Poesia.

Os poetas que nela participam são Benjamim A.S.M. M'Bakassy, João Pedro Azul, José Manuel Mendes, J.A.S. Lopito Feijoó K., Luís Filipe Castro Mendes, Matilde Campilho e Rui Spranger.

De Benjamim A.S.M. M'Bakassy chegam até nós os poemas de teor político que se misturam com aqueles de carácter mais intimista, incidindo nas temáticas do Amor e da Liberdade. E, uma vez que estas se encontram estreitamente ligadas, não chega a espantar o leitor mais atento o emprego recorrente de metáforas alusivas ao prazer físico e aos fluídos corporais como nos poemas “Caracol-cisne” e “A Tosse dos Tambores”.

Caracol-cisne

Ainda te sujo nas pegadas que deixo
Nem de propósito
Deixo(-te)
O teu rasto
Como baba
De um caracol que já se despiu
Cisne

A tosse dos tambores

Ainda que estrando em mim
Seria igual
Ao outro
Eu
O desfigurador
O disforme
O Analfabeto
(…)
Ó arco-íris de sangue que te fazes poeta em mim
Na calada da noite me embalas na tosse dos tambores e não me ensinas a dançar
Ó sangue
Meu sangue
Dança por mim


Já na poesia de João Pedro Azul a tónica dominante no discurso é a melancolia que nele surge inscrita pelo recurso à modalização temporal, marcando a diferença entre o “antes” e o “agora”, para entreabrir uma janela para um passado marcado pela paixão e pelo desejo como contraponto a um tempo presente, o “agora” do sujeito poético. Nesse presente onde a chama agoniza, apagando-se na lentidão das horas, deixando em seu lugar o vazio como mostra o poema tripartido “VARIAÇÕES EM RÉ MENOR” sobretudo em “Manhã sem ti” e “Solo” ou na primeira parte de “a solidão cai” e nos versos finais de “frágeis manhãs de silêncio”.

Manhã sem ti

Manhã de todos os dias
inevitável manhã
Outrora doce
Agora simplesmente esquecida
Desperto para ti
E tu acolhes-me na tua melancolia
Manhã de sonhos desfeitos
Ouvia-te sussurrar
Nas árvores e nas janelas
De minha casa
E eras bem-vinda
O tempo apagava-se
E tu sorrias
Onde te perdeste
Minha bela manhã
Eu continuo aqui
Esperando a tua chegada
Em cada amanhecer

E enquanto José Manuel Mendes disserta sobre temas vários, sob a égide da estética surrealista, em diversos exercícios de estilo, Lopito Feijoo K. traz, pelas correntes marítimas do Atlântico, a poesia arrancada à terra, povoada de metáforas vegetais e animismos para exprimir a força telúrica que une o espírito humano ao solo e ao pó de onde veio em “Mami Wata” e “Larvas e Lágrimas” ou poemas de teor político eivados de revolta ou indignação como “Lar triste lar” e “Homem serere”.

Mami Wata

Estende-se extensa
amargurada lavra com listradas plantações
adormecendo sobre o manto de um rio
(…)

Peixes, répteis, plásticos banheiras e bestas
entre um passado algo por ventura
(…)

  • Eis que MAMI WATA reluz sereia
    qual Féniz nas sobras da sombra relaxando e
    enquanto isso o continente clama...espera e desespera!

Alguns dos melhores poemas incluídos na Revista Correntes d'Escritas são da autoria de Luís Filipe Castro Mendes. Particularmente sublime mostra-se, desde logo, o primeiro, “Sicília, Setembro”, aludindo aos naufrágios em Lampedusa; e, logo a seguir, “Depois da Festa”, o poema que fala de memória e esquecimento, que é o que acontece ao amor quando fenece. Em “Árvores”, o sujeito poético usa a retórica afim de mostrar ao interlocutor todo um leque de possibilidades de interpretação à questão colocada logo no início do poema. Por último, “Fonte” alude à inspiração, à Musa, que permite que a memória daquilo que escapa à atenção dos historiadores se inscreva na poesia.

Sicília, Setembro

Temos perto de nós os invasores
e numa terra de ruínas o silêncio
faz-se mais luminosa esta certeza
que nada sabemos do que virá breve.

Os guerreiros não esperavam aliados
e os comerciantes junto aos novos templos
dispunham o trigo, as tintas, as pedrinhas:
que importa o rei cunhado nas moedas?

Temos perto de nós os invasores
e o ruído da História soberana:
som e fúria, só no fim saberemos
do que estivemos tanto tempo à espera.

As ondas são mais baixas neste mar
e as civilizações, bem vês, são só a espuma...

Templo de Selinunte, Sicília

Depois da Festa

Basta olhares-me nos olhos: estão vazios.
Das imagens e das luzes que passara,
ficou o rasto amargo das memórias
que melhor não fossem ditas nem pensadas.
Tu não guardas nada, tu atravessas
as coisas que foram vida e alegria
e no que te demoras há o rasto
do que para sempre sobrou da tua vida.
O fim da festa é sempre um bom momento
para tomares por ti o peso à alegria
e sorrires com os teus olhos: estão vazios.
Nunca teve uma história o que te deram
nem a tua sombra na terra fez o dia.


Matilde Campilho foi a mais jovem participante nos painéis das Correntes d'Escritas de 2016. A revista revela-nos uma pequena mostra da sua poesia desconcertante, logo no primeiro poema, “Príncipe no Roseiral”, ao longo do qual desfaz todos os estereótipos associados à ideia do Príncipe Encantado dos contos de fadas ou dos romances sentimentais ou das temáticas exploradas nas telenovelas. O poema é a negação de tudo isso porque é um poema de protesto contra o esquecimento dos invisíveis na sociedade.

Príncipe no roseiral

Escute lá
isto é um poema
não fala de amor
não fala de cachecóis
azuis sobre os ombros
do cantor que suspende
os calcanhares
na berma do rochedo
Não fala do rolex
nem da bandeirola
da federação uruguaia
de esgrima
Não fala do lago drenado
na floresta americana
Não diz nada sobre
confeitaria fedorenta
que recebe os notívagos
para o café da manhã
quando o dia já virou
Isto é um poema
não fala de comoções
na missa das sete
nem da porcentagem
de mulheres que se espantam
com a imagem do marido
aparando a barba no ocaso
Não fala de tratores quebrados
na floresta americana
não fala da ideia de morte
na cidade dos revolucionários
Não fala de choro
não fala de virgens confusas
não fala de publicitários
de cotovelos gastos
Nem de manadas de cervos
Escute só
isto é um poema
não vai alinhar conceitos
do tipo liberdade igualdade e fé
Não vai ajeitar o cabelo
da menina que trabalha
com afinco na caixa registradora
do supermercado
Não vai melhorar
Não vai melhorar
isto é um poema
escute só
não fala de amor
não fala de santos
não fala de Deus
e nem fala do lavrador
que dedicou 38 anos
a descobrir uma visão
quase mística
do homem que canta
e atravessa
a estrada nacional 117
para chegar a casa
ou a algum lugar
próximo de casa.

A mesma intenção iconoclasta encontra-se inscrita no discurso poético dos dois textos em prosa “Conversa de fim de tarde depois de três anos de exílio” e “M”. O primeiro apresenta-se como um retrato de uma cena do quotidiano onde sobressaem as diferenças culturais (e de personalidade) entre dois seres opostos que se atraem como dois átomos de diferentes carga iónica. O segundo, como uma série de curtíssimas metragens a compor o caudal vertiginoso e sincopado do fio de pensamentos da voz poética nele transmitida. Por último, em “Texaco” as imagens surgem em catadupa a sugerir uma fome de vida coexistente com a permanência de um vazio constante, onde o amor é procurado como a última gota de água no deserto e como o antídoto para uma mundo em destruição.

E finalizamos a secção dedicada à poesia com o poeta Rui Spranger a marcar presença com quatro pequenos grandes poemas: “Praia do Norte”, a lembrar o cenário de um casamento tradicional no qual é notória a paixão já desgastada pelos anos numa relação onde só as crianças parecem ser o objecto do amor. Enquanto isso, os corpos dos adultos que as geraram estão já tão gélidos quanto o mar das praias do Norte.

Praia do Norte

Na praia só a alegria das crianças
inspira amor e cuidado
Depois há o mar demasiado frio
O teu corpo demasiado frio
a consciência da fragilidade do meu

O vazio e o frio são elementos que aparecem relacionados com a falta de amor, o arrefecimento da paixão, temática que surge novamente em “Ainda não a despedida”, onde se fala essencialmente de ausência. Neste poema, apesar da referência explícita ao Verão como o tempo presente no momento em que o poema é enunciado, altura do ano em que as casas mesmo no Norte não são frias, o locutor refere as “divisões frias” da casa que serve de cenário ao poema, projectando no local o estado anímico do sujeito poético.

Ainda não a despedida

É verão
A casa está agora vazia sem ti
E não sei qual de nós os dois é o fantasma
Que circula nestas divisões frias
E o vazio de fora e ao vazio de dentro
A abaterem-se sobre mim.

Os outro dois poemas, “Naquele tempo em que o amor” e “Trazer-te assim pela mão” são, respectivamente, o contraponto dos dois anteriores. Estes dois podem ser lidos separadamente, apesar de estarem relacionados. O contraste nestes dois pares de poemas advém da modalização temporal, onde estes últimos são os poemas que dizem respeito ao “outrora” quando o amor era “presente”. Os dois últimos versos do poema de Spranger que encerra a secção de poesia da revista Correntes d'Escritas 2016 tiram contudo, por serem talvez redundantes e apostarem numa rima fácil (presente/carente), alguma da força ao poema.


A primeira parte da Revista diz respeito a textos em prosa, sendo eles na sua maioria contos, crónicas ou relatos de Ana Cássia Rebelo, Antônio Torres, Cláudia Clemente, João Felgar, Manuela Gonzaga, Miguel Real e Raquel Patriarca.

Cláudia Clemente e João Felgar escolheram cada qual um conto cujo cenário se passa num cemitério. Clemente preferiu um cemitério parisiense, cheio de sombras e mausoléus, e um porteiro português (claro, o porteiro tinha de ser português), para dotar a sua história, “O Brinco de Pérola”, de uma atmosfera gótica com um toque de surrealismo. Por seu lado, Felgar escolhe um cemitério inglês, mas situado em Portugal, para compor uma história onde a tónica dominante é a melancolia a servir de base à fidelidade, ao amor e à devoção caninos demonstrados pela zeladora (portuguesa, of course) do mesmo cemitério, em cuidar dos mortos de Sua Majestade em território luso durante décadas a fio. A impressionante capacidade da protagonista de “Da Rainha sempre gostei” em dedicar-se voluntariamente a uma figura que encarna a realeza evidencia uma mentalidade conservadora, o noção de hierarquia, como se sempre tivesse vivido numa época feudal.

Há também um ligeiro travo a literatura gótica, embora de forma marginal, no conto de Ana Cássia Rebelo, “A vida inteira pela frente”. Rebelo brinca com a superstição que liga os gatos pretos à ideia de “má sorte”, enraizada na tradição oral europeia, para utilizá-la como índice de que a vida da protagonista poderá sofrer uma variação, inflectindo para uma período menos solar. O conto tem como tema central a expectativa do casamento defraudada pela noiva virgem na noite de núpcias. O texto é marcadamente feminista e a simbologia do gato adquire, ali, o valor de questionamento, de dúvida ou até mesmo de recusa da sociedade patriarcal, na forma como é encarada a sexualidade feminina (apenas e só dentro dos sagrados laços do matrimónio), tal como era há não muitas décadas atrás.

Antônio Torres preferiu o cenário do Porto, situada nos já algo longínquos anos 1960, para a sua história de cariz autobiográfico, num período que marcou o início da sua carreira como jornalista. Torres propôs-se retratar o ambiente na Invicta, na sua faceta mais boémia e hedonista algo que se evidencia logo a partir do título do conto, “O Porto bebido e revivido”, onde as vicissitudes da sua profissão e o choque cultural, fruto das vincadas diferenças de mentalidade lusa e brasileira, estão patentes quer nos equívocos semânticos de ambas as variantes da Língua Portuguesa, quer na forma do protagonista olhar o real em contraste com os outros participantes na história.

Manuela Gonzaga trouxe-nos um texto situado algures entre a prosa e a poesia “Só de pensar nela”. Um conto erótico, com a volúpia de um quadro de Rubens ou Poussin e um toque de onirismo estilhaçado, no final, pela luz crua da realidade.

Miguel Real recria um episódio do Evangelho “As Bodas de Caná”, mas deslocalizado para a área metropolitana de Lisboa – Alcântara, Cacém, Carcavelos – e actualizado para os dias de hoje. O resultado é a junção sincrética entre magia, fé e milagres que se misturam no mesmo cadinho de onde sai uma história que em nada fica a dever aos episódios ritualísticos de alguns romance de Jorge Amado (O Sumiço da Santa ou Tenda dos Milagres). Miguel Real torna-se assim o autor do melhor conto da revista.


Raquel Patriarca escolhe um conto em forma de carta, “Caminho para Damasco” na qual o narrador anónimo (um Eu que se dirige a um tu, ambos anónimos) se questiona ao seu interlocutor num estilo simultaneamente reflexivo e informal, sem grande preocupação com o formalismo literário, usando expressões coloquiais para questionar o Outro sobre ética e os limites de liberdade (sobretudo de expressão) sendo que esta última choca violentamente (e com frequência) com o uso da palavra como agressão.

A revista Correntes d' Escritas é algo que um amante de literatura nunca poderá deixar de ter na sua estante, quanto mais não seja pelos dossiers que exploram a obra dos melhores autores portugueses nas últimas décadas.



Londres, 30 de Abril de 2014

Cláudia de Sousa Dias

Saturday, April 30, 2016

"Plenilúnio" de António Muñoz de Molina (Editorial Notícias)




Tradução de Mário Ventura


Vida e obra

O Autor do livro de que falamos hoje, Antonio Muñoz Molina para além da carreira dedicada ao Jornalismo e ao Ensino, tem publicada uma vasta obra literária a qual lhe granjeou já vários prémios, sendo também membro da Real Academia Espanhola. Como cronista, atingiu notoriedade com a coluna assinada nos jornais Die Welt e El País. De entre os títulos de obras literárias publicadas destacam-se: O Inverno em Lisboa (Prémio Nacional da Literatura e Prémio da Crítica, 1988), Beltenebros, o Cavaleiro Polaco (Prémio Planeta e Prémio Nacional de Narrativa, 1992), Mistérios de Madrid, Nada do outro Mundo, O Dono do Segredo, Ardor Guerreiro, El Robinson Urbano e La Suerte del Éden. Para ele, o jornalismo e a literatura, são actividades afins, às quais junta ainda o interesse pela História da Arte, disciplina que chegou a leccionar na Universidade de Granada, sendo que todas elas têm a escrita como denominador comum. E é precisamente nesta região do Sul de Espanha, a Andaluzia, que vamos encontrar o local principal de acção de Plenilúnio, o romance de trata este post e que foi, inclusivamente, adaptado ao cinema.

A temática e a génese da trama

Segundo as palavras do autor, retiradas da entrevista dada a Justo Serna e publicada no respectivo blogue, www.ojosdepapel.com a ideia para o romance, que o autor dedica à sua esposa, a escritora Elvira Lindo, havia surgido da seguinte forma:

Las primeras pistas sobre (…) “Plenilunio” las tuve en 1987”. Muñoz Molina há declarado que reparó en una fotografia publicada en un periodico americano de un individuo de rostro bondadoso acusado de un crímen horrible quando estaba com “El Jinete Polaco”, a raíz de una noticia concreta que le impresionó. Esto le llevó a cuestionarse si los rasgos del rotro y muy especialmente de la mirada, delatan la conciencia del mal.


E assim surge o embrião do protagonista de Plenilúnio, um detective cuja vida pessoal está devastada pelo terrorismo levado a cabo pela ETA e, por isso, é transferido do País Vasco, mais propriamente da cidade de Bilbao. Trata-se de um homem habituado a trabalhar casos relacionados com terrorismo e situações de violência extrema, criminosos aos quais é normalmente difícil seguir o rasto. A acção situa-se nas décadas que se seguiram imediatamente à queda do franquismo, em plena transição democrática mas em termos espaciais há uma modalização: o local onde se movimenta o protagonista oscila entre Bilbao e o sul do País onde é incumbido da missão de desvendar um crime de natureza sexual que tem vindo a horrorizar a população de uma pequena cidade anónima na Andaluzia: uma menina, de nome Fátima, aparece morta após ter sido sadicamente violada e mutilada. A aparente invisibilidade do assassino desperta o terror e o pânico na população local, ao mesmo tempo que deixa que um rasto de pânico tome conta das suas vidas. Pelo menos até o assunto ser parcialmente esquecido e o predador voltar a atacar. Os crimes ocorrem sempre em noite de lua cheia – de plenilúnio.

Ironicamente, fora a necessidade de uma vida mais calma e obtenção de um quotidiano de relativa segurança, impossíveis de serem à época usufruídos pelo polícia em Bilbao, aliados a um sentimento de desalento provocados pela degradação da estabilidade psicológica da esposa e a impossível tensão psicológica,gerada a partir do trabalho de inspector que o levam a esta cidade onde supostamente encontraria alguma paz, até pelo facto de se tratar da cidade onde passou a adolescência num internato jesuíta. No entanto, pouco depois de chegar o inspector, ao deparar-se com este caso de contornos macabros, irá imediatamente activar os traços obsessivos da sua personalidade fazendo do predador sexual e assassino a sua própria presa. Na verdade um e outro são, herói e vilão, implacáveis predadores, embora com uma única diferença que os coloca em pólos opostos: a compaixão e empatia no primeiro que está totalmente ausente no carácter do segundo. E é nesta dicotomia, que Muñoz Molina constrói toda esta narrativa polarizada. Nesta polarização assenta toda a progressão da intriga, aumentando a tensão e os suspense até a um ponto quase insuportável até se chegar, por fim, o desenlace da trama, a um posterior anti-clímax, seguindo-se um inesperado fazendo jus ao desenvolvimento espelhado de ambas as personagens que se opõem, com um destino igualmente trágico para ambos.

A narrativa ou os vários planos narrativos que se interceptam

No site da Fnac1 comenta-se que:

Este livro não é apenas um policial com personagens extremas, é, também, um ensaio sobre as várias camadas de uma sociedade apodrecida, onde há homens e mulheres que procuram uma urgente resolução para os seus problemas, mas os agravam nessa procura.

A trama é desenvolvida a partir de dois pontos de vista antagónicos, vertidos na terceira pessoa, um narrador omnisciente, em cujo discurso estão embutidos os pensamentos de dois outros enunciadores secundários – duas vozes citadas indirectamente pelo narrador de terceira pessoa o qual é conhecedor de todos os estados anímicos do herói quer do vilão. Estes dois enunciadores têm ambos a sua actividade e pensamento totalmente focalizados na respectiva obsessão: um deles, não apenas na de encontrar o rasto do criminoso, mas sobretudo na compreensão da natureza do mal (daí a compulsão em procurar o olhar do assassino, saber como encara as pessoas, o mundo, a sociedade); e o outro, que exprime no discurso, além do prazer da perseguição das presas, uma inexcedível fome de poder e vingança face à sociedade a qual, no seu entender, lhe nega as oportunidades e o destaque de que julga ser merecedor. O sentimento de impunidade que inscrito no discurso que lhe é imputado reforça-lhe a conduta e a auto-confiança, estimulando-o a prosseguir no mesmo caminho, assenta numa falsa sensação de segurança que lhe advém da semi-invisibilidade, a coberto da noite de lua cheia, sua cúmplice e testemunha. Esta pseudo-invisibilidade funciona como elemento de distorção do real, tornando possível o estímulo a uma conduta que baseada numa atitude de imprudente soberba, lhe permite arriscar cada vez mais.

Plenilúnio pode ser classificado como um romance negro, uma história trágica, onde o discurso antagónico de ambos os enunciadores, que o narrador convoca e incorpora no seu próprio discurso, alimenta a trama policial. Mais: estes discursos polarizados de ambos as personagens alimentam-se mutuamente, canibalisticamente, mantendo a tensão a um nível quase insustentável de forma a prender o leitor que segue o fio da trama de forma quase tão obstinada quanto as personagens perseguem os seus próprios fins. Esta tensão só é aliviada de quando em quando, pelo entrecruzar de outros planos narrativos, como o relato da vida passada do narrador no País Vasco ou o desenvolvimento da relação amorosa deste com Susana, a professora de Fátima.

Esta é, no entanto uma escrita que exige um leitor paciente, que goste de processar a escrita frase a frase, seguindo o fio condutor e a linha de pensamento das personagens. Vários leitores apontaram, já, esta característica do romance, chamando a atenção para o ritmo pausado em que se vai desenrolando a trama e, simultaneamente, para o grau de introspecção das personagens principais2.


Tempo e espaço: relação entre a época, o contexto histórico-social e o local da acção para a construção de um romance de costumes tingido de “negro”

Poder-se-á dizer que Plenilúnio surge no nosso universo como um dos melhores romances policiais que surgiram nos últimos quinze anos, apesar de o autor preferir não enquadrar a obra neste género narrativo mas olhá-la antes como um romance de costumes ou o retrato social de uma época. O plot anda à volta de um assassinato na Espanha pós-franquista, na altura em que o activismo terrorista da ETA atravessava a sua fase mais agressiva e mediática, invadindo os telejornais e obrigando o estado espanhol a manter as suas forças de segurança em alerta máximo, sendo que é neste contexto histórico-social que vamos encontrar o protagonista.

A cidade para onde é transferido o inspector e onde ocorre o crime nunca é nomeada, mas são vagamente descritos a sua localização no território e relevo. O narrador menciona tratar-se de uma cidade “alta e interior”, no vale do Guadiana e os subúrbios ou arredores da mesma onde decorrem vários episódios da acção descrevem uma paisagem muito semelhante à do Alentejo, árida e tórrida semeada de sobreiros e olivais. Serrano (2010) arrisca dizer que se trata de Úbeda, cidade Natal do autor, a que Molina atribui a designação literária de Mágina nos seus romances e onde se pode facilmente identificar alguns elementos característicos dessa mesma cidade como a estátua do General Franco, o parque de Cava ou a parte renascentista da mesma.

Para datar a acção no tempo também é necessário usar o método dedutivo, por via indirecta, que permite situar a acção na primeira metade dos anos '90 do século XX. O facto de o romance ser publicado pela primeira vez em 1997, faz com que a acção só possa ser anterior a essa data, e a localização de todas as referências ao franquismo no passado, colocam a acção no intervalo de tempo entre 1975 e 1995 pela referência a factos contemporâneos nas vozes quer do narrador quer das personagens como a guerra na antiga Jugoslávia, ocorrida no início da última década do século XX. Nota-se também a influência do modus operandi e secretismo do assassino com o do filme “O Silêncio do Inocentes”, referido também no texto pelo narrador e do assassino de O Perfume de Patrick Süskind, romance que teve grande impacto no público apreciador de literatura contemporânea na mesma época, apesar de publicado alguns anos antes (1985).

A par disto, o romance dá especial destaque a vários temas que apaixonavam a opinião pública, alguns deles tratados como tabu em décadas anteriores na Península Ibérica: a violência e abuso sexual de menores, a caducidade das relações pela extinção dos pilares afectivos em que assentam, o terrorismo e a forma insidiosa como este vai corroendo a vida dos cidadãos que são directamente por ele afectados. Sem esquecer a dissecação e exposição detalhada da forma de pensar do criminoso, mostrado aqui como um ser incapaz de amar seja quem for excepto a si próprio, deixando ao leitor o caminho aberto para canalizar toda a sua simpatia para as vítimas que, em momento algum, tiveram hipótese de se defender. Molina deixa também entrever a crítica implícita, no discurso do narrador, face ao vampirismo da comunicação social cujo voraz apetite pela audiências a leva a transformar um violador e assassino numa estrela a ocupar lugar de destaque em noticiários e jornais. O livro pode ser apresentado também na forma de manifesto contra a violência quer individual perpetrada pelo criminoso solitário, que colectiva levada a cabo por um grupo terrorista.


Personagens e trama: a relação entre as personagens secundárias e o protagonista

O assassino é um vendedor de peixe, de aparência perfeitamente anódina, lembrando a sua caracterização psicológica e social do personagem de Patrick Süskind em O Perfume (Das Parfum, Die Gechichte eines Mörders, no original), de 1985. O facto de, tal como o protagonista do romance do autor alemão, o também anónimo oponente do protagonista de Molina trabalhar remexendo nas vísceras dos peixes e tem as mãos marcadas pelo trabalho que executa (mãos de unhas partidas e sujas, com as quais também remexe nas entranhas das vítimas) aproxima-o de Jean Baptiste Grenouille que nasceu precisamente debaixo da bancada do peixe e, ao fazê-lo, leva de imediato a vida à própria mãe que morre durante o parto. Mas ao contrário do personagem de Süskind que já nasce a assassinar (embora ainda involuntariamente) o de Molina é construído pela forma como a sociedade se estratifica, exclui os menos favorecidos e os não amados. No entanto, um e outro são seres que passam igualmente despercebidos não só pelo aspecto físico de homem comum cuja aparência não é propriamente cativante mas sobretudo pelo estatuto social que (não) possuem, desempenhando um trabalho considerado, braçal, “sujo” e por isso mesmo olhado, regra geral, como pouco edificante, mas necessário à estrutura social. Na Andaluzia de Molina é necessário haver alguém que trate do peixe para consumo e na Grasse do romance de Süskind é necessário alguém que faça o trabalho braçal e por vezes sujo da extracção das essências exigindo um olfacto especialmente apurado. Também um e outro são seres cuja parafilia se constrói ao longo do tempo pela incapacidade ou inabilidade demonstrada para o amor.

O protagonista, o inspector recé-chegado à cidade segundo as palavras de Anastacio Serrano no seu artigo “Estudio Crítico de Plenilunio de Antonio Muñoz Molina” publicado no blogue Erudición y Crítica,3 aponta para outra dicotomia na narrativa: a criação do contraponto desta trama “negra” com a história de amor desenvolvida e envolvendo o inspector e Susana Grey, a professora de ambas as vítimas que surgem no romance. O assassino-violador insinua que o seu rival, o homem que o quer desmascarar e prender, teve um passado de delator na Espanha franquista, colaborador da Polícia Política, mas não há nada dentro do monólogo interior do mesmo inspector que corrobore a tese do assassino, em cujo discurso se nota uma evidente intenção de desvalorizar o único homem que é para si uma ameaça. Serrano valida, no entanto as palavras do discurso do assassino, sem comparar o ponto de vista deste com o discurso interior quer da outra parte interessada quer das restantes personagens, ponto de vista do qual nós preferimos distanciar-nos.

Logo a seguir temos Susana Grey, a qual, além de formar o par romântico com o inspector, tem uma relação próxima com uma das vítimas, Fátima, a primeira criança violada e, posteriormente, assassinada. Serrano descreve Susana como uma “mulher culta, apreciadora de literatura e música”. É também ela o ponto de ligação entre o inspector e as restantes personagens, uma vez que é simultaneamente namorada do inspector, amiga do médico forense Ferreras, professora da criança assassinada e da outra vítima sobrevivente e cliente do assassino. Susana é uma mulher divorciada que está a refazer a sua vida e “ultrapassar o fracasso matrimonial, o medo e a solidão” (Serrano, 2010).

No nível imediatamente a seguir temos duas personagens secundárias mas que desempenham funções importantes na trama: o Padre Orduña, sacerdote jesuíta reformado, antigo mestre do inspector, cuja presença e atitudes têm como finalidade marcar o limite entre o franquismo e a época de transição democrática (Serrano, 2010):

«Aparece caracterizado como um padre trabalhador empenhado em conciliar o cristianismo com o comunismo. Trata-se de uma figura arquetípica dos últimos anos da ditadura. Trata-se de um homem de outra época, a realidade desenraizou-o e não encontra lugar na nova sociedade. O seu papel no romance consiste em contextualizar a infância do inspector, que é filho de um homem perseguido durante a guerra civil e ao qual, não conseguiu transmitir os seus ideais. Cumpre também a função de escutar o inspector numa espécie de confissão laica mediante a qual ficamos a conhecer as suas frustrações e debilidades.» (tradução minha)

A segunda personagem que se encontra também neste patamar de importância na trama é o médico Ferreras que desempenha duas funções no romance: a primeira, a de fornecer os detalhes da morte e violação das duas crianças. A segunda é a de informar o leitor do passado de Susana, recém-chegada à cidade, pois era amigo do marido desta até à altura em que aquele decide partir com a jovem que era então sua namorada. Para Serrano, este é um personagem que passa uma imagem de homem jovial, impulsivo e um pouco fanfarrão.

Quanto à esposa do inspector, também ela anónima, esta desempenha um papel marginal mas que ajuda a compreender a atitude do inspector no tempo em que se desenrola a narrativa, à construção da sua caracterização psicológica e a compreender a enorme carga de solidão e melancolia que perpassa quer no seu discurso quer nas atitudes. Outro papel marginal mas essencial é o de Fátima, a primeira vítima, a criança assassinada que o inspector só conhece depois de morta, através do depoimento da professora, de fotos e de vídeos caseiros, fornecidos pelos pais. É originária de uma família operária e também a melhor aluna da turma. Na mesma situação encontra-se Paula, a segunda menina atacada pelo violador e que sobrevive por uma unha negra. Ao revelar uma coragem e força extremas torna-se essencial para o desenvolvimento da trama e a identificar o assassino.

Todas as personagens de Plenilúnio, excepto Susana, mostram-se resignadas ou, de certa forma, conformistas no tocante à procura da felicidade, como faz notar Serrano (2010):

(...) El inspector há llevado una vida dura en Bilbao, que há provocado la enfermedad mental de su mujer. El asesino muestra su frustración familiar y vital. El Padre Orduña acusa el fracaso de sus ideales y el olvido a que está sometido. Susana Grey, la maestra, lleva una vida solitaria, provocada por el fracaso matrimonial y por el abandono de su hijo en la adolescencia. Susana es el único personage que luta contra su vida gris. Ella lleva la iniciativa en la relación amorosa com el inspector y además toma la determinación de abandonarlo todo para un cambio de vida en Madrid.
(…) Susana, la maestra, representa a la mujer moderna, y liberada de las ataduras de la época de la dictadura.»

Esta caracterização positiva da única personagem feminina no romance, a única também a ter esta componente tão favorável tem como consequência a aproximação com o leitor, numa primeira instância, e posterior identificação com ela. Esta disposição para atribuir a caracterização favorável e positiva à única personagem feminina do romance aproxima Antonio Muñoz Molina do também romancista Umberto Eco, o esteta e semiólogo italiano, que optou por dar o mesmo tratamento às personagens femininas que aparecem nos seus romances O Pêndulo de Foucault publicado dez anos antes de Plenilúnio, voltando a fazê-lo na sua mais recente obra ficcional, Número zero.


Espaços interiores e as personagens

Mas as casas e os espaços interiores, públicos e privados, onde se movimentam as personagens têm, também um papel fundamental no romance. Estas não servem apenas para ajudar à caracterização das personagens mas também para ajudar à caracterização social pela forma como são apresentados os espaços públicos, ajudando à contextualização e à construção da atmosfera social onde se passa a acção e ao traçar de todo um retrato social de época que caracteriza o bildungsroman o que Molina consegue de forma magistral.


O Papel da Noite e da Lua

O romance é desenvolvido, na sua maior parte, durante durante as horas nocturnas, sendo os acontecimentos mais importantes passados sob a vigilância da lua cheia, tais como os ataques às vítimas do pedófilo-assassino vendedor de peixe ou o encontro amoroso entre Susana e o Inspector. Somente a partir do antepenúltimo capítulo, após a superação do temor colectivo do assassino, é que a história começa a passar-se à luz do dia. A lua, inclusivamente, é mencionada em quase todos os capítulos, surgindo logo no título, sendo que é nos capítulos onde a tensão psicológica se encontra no seu ponto culminante que a Lua aparece cheia. Serrano (2010) chama a atenção para o facto de ser a mesma Lua ser também a peça chave para a resolução do crime, uma vez que é a intuição do inspector que lhe revela que o assassino irá atacar novamente na noite de lua cheia. Ainda segundo Serrano, todo este protagonismo da Lua nos momentos de maior terror no romance está associado à crença popular de que a lua cheia incita as pessoas ao Mal.

O romance foi amplamente premiado em vários países acumulando o Prémio Euskadi de Plata (1997), o Prémio Femina Étranger, para o melhor romance estrangeiro publicado em França (1998), o Prémio Elle (1998) e o Prémio Crisol (1998). No ano 2000, estreou a sua adaptação ao cinema, realizado por Imanol Uribe. A adaptação esteve a cargo de Elvira Lindo, esposa do autor e a interpretação de Miguel Ángel Solá (inspector), Fernando Fernán-Gomez (Padre Orduña) e Juan Diego Botto (o assassino-violador).

A tradução para esta edição da Editorial Notícias não está, infelizmente, à altura da qualidade da prosa de Molina nem da extrema complexidade do enredo, não apenas por ser um trabalho de conversão para a Língua Portuguesa demasiado literal, mas também por não ter em conta as diferenças semânticas existentes entre muitas palavras comuns ao Português e ao Castelhano, ou mesmo a diferença de valor pragmático que vai da língua de Cervantes à língua de Camões.

Uma última palavra para a capa do livro que ilustra de forma brilhante a tragicidade e a atmosfera “negra” do romance: um quadro de Goya representando Cronos (o Tempo) a devorar os seus filhos. Também o Tempo, a longo prazo no romance, se encarrega de devorar as vidas das personagens, destruindo-lhes lentamente os sonhos e tornando a vida desprovida de sentido.

Aguarda-se nova tradução e reedição da obra que recoloque Antonio Muñoz Molina de volta aos escaparates das livrarias portuguesas.


Londres, 20 de Abril de 2013

Cláudia de Sousa Dias





3 http://erudicion.blogspot.pt/2010/12/estudio-critico-de-plenilunio-de.html

Webgrafia consultada:

https://es.wikipedia.org/wiki/Antonio_Mu%C3%B1oz_Molina

http://www.goodreads.com/author/show/39280.Antonio_Mu_oz_Molina

http://erudicion.blogspot.co.uk/2010/12/estudio-critico-de-plenilunio-de.html

http://www.edu.xunta.gal/centros/iesmilladoiro/system/files/TEMA%20Plenilunio%202015.pdf

http://www.quelibroleo.com/plenilunio

http://www.fnac.pt/Plenilunio-ANTONIO-MUNOZ-MOLINA/a12318



Thursday, March 31, 2016

Um post sobre um livro que não é literatura

Vidas Suspensas: histórias de mulheres, vítimas de violência doméstica, que lutam nos tribunais pelos direitos dos seus filhos” organização de Rita Montez com fotos de Nuno Correia


Antes de mais, gostaríamnos de aqui frisar que, contrariamente ao habitual, o conteúdo deste post não diz respeita a uma obra literária. Trata-se, inclusive, de um livro cuja importância não se define sequer pela qualidade da prosa. O motivo que nos leva a falar de uma publicação deste género tem, a ver com a pertinência do conteúdo em e não relativamente ao estilo ou à forma. A edição está a cargo da Associação Portuguesa das Mulheres Juristas e diz respeito a um trabalho jornalístico levado a cabo por Rita Montez, jornalista da Revista Visão, que compilou e trabalhou na reconstituição de vários depoimentos que relatam alguns dos mais estarrecedores casos de violência doméstica ocorridos em Portugal nas últimas décadas. A (in)eficácia dos meios existentes de protecção à vítima, as lacunas na lei, a falta de coordenação das instituições neste domínio específico do Direito onde se cruzam os ramos do Direito Penal com o Direito da Família, o preconceito cultural de uma boa parte dos magistrados portugueses são alguns dos aspectos mais enfatizados pela autora desta publicação.

As mulheres entrevistadas são oriundas de todos os estratos sociais abrangendo operárias, administrativas empresárias, medicas e mesmo juízas. A autora preocupou-se, também, com a representatividade geográfica fazendo com que o conjunto de entrevistadas cobrisse o território de norte a sul do País.

Os relatos que compõem o livro não nos parecem, no entanto, discursos autênticos, isto é, aparentam ser a transcrição exacta dos discursos das mulheres cujas histórias são aqui reunidas, devido à ausência de sinalização, das pausas, hesitações, silêncios, para não falar de ser notório o discurso estar lexicalmente homogeneizado nos vários depoimentos. É pena, porque a obra perde parte da sua autenticidade. A transcrição de uma entrevista seguindo um guião que, podendo ser mais ou menos rígido, deveria ter pelo menos um conjunto de linhas básicas de orientação e figurar no livro terminado com uma conclusão elaborada por parte de um narrador ou jornalista. Isto beneficiaria o leitor não só em termos de autenticidade como já foi referido, mas também de fiabilidade e qualidade jornalística e científica, facilitando a comparação dos casos entre si. Mas é, no entanto, já bastante positivo que uma publicação como este tenha visto a luz do dia.

Do conjunto de relatos que fazem parte deste livro (que não sabemos se constituirá ou não uma amostra representativa de uma realidade nacional devido à ausência de detalhes relativamente à metodologia utilizada que levou à selecção destes casos em particular) sobressai o factor respeitante a uma excessiva departamentalização das instituições e falta de coordenação de esforços das mesmas no sentido de proteger as vítimas e a sociedade. Essa mesma falta de coordenação exprime-se sobretudo na presença de decisões contraditórias entre o Tribunal Penal e o Tribunal de Família, tal como sucede no caso em que o Tribunal de família decide no sentido de os filhos do casal continuarem a a ser expostos à presença do cônjuge agressor, tendo este último sido condenado pelo Tribunal Penal por tentativa de homicídio à progenitora das crianças e tendo estas testemunhado o facto.

O quadro de vulnerabilidade das vítimas de violência doméstica apresentado pela autora do livro mostra-se, de acordo com os relatos nele contidos, assaz preocupante, por ser essencialmente o resultado também da cultura que parece dominar parte da magistratura em Portugal e que assenta no pressuposto de que um mau marido, namorado ou companheiro, independentemente de demonstrar uma conduta violenta para com a companheira, possa ser um bom pai. O que na verdade se passa nos casos aqui apresentados é que não é ainda interiorizado por parte de alguns decisores nos tribunais, sobretudo no âmbito da jurisprudência, é que os comportamentos violentos são em regra apreendidos por modelação em idades precoces, pelo que a convivência com um adulto agressivo, além de se mostrar negativa na formação da personalidade da criança, coloca-la-á, a médio e longo prazo, em risco de sofrer uma agressão ou de vir a praticar o mesmo tipo de comportamento agressivo no futuro.

Nesta compilação de Vidas Suspensas deparamo-nos com um catálogo de tudo quanto se possa esperar de uma relação disfuncional, desequilibrada, com vista ao silenciamento e à submissão do outro, quer pela via física quer psicológica: espancamentos, agressão com arma branca, violação, insultos, humilhações, lenocínio. Num dos casos descritos, o Tribunal de Família decreta a obrigatoriedade de permissão pelo cônjuge agredido de visitas semanais à cadeia de um menor ao progenitor agressor que havia esfaqueado a mãe do mesmo menor. Há também um caso mediático a envolver agressões, proxenetismo e lenocínio que facilmente se reconhece como um episódio que figurou durante meses nos tablóides nacionais e inclusive, nalgumas revistas cor-de-rosa.

Frisando, mais uma vez, não estarmos hoje a falar de literatura, a obra de que aqui falamos não deixa de ser uma publicação de interesse relevante, a apresentar-se como um resumo de um estudo de casos, cujo objectivo é apontar as falhas na protecção aos cidadãos em situação particularmente vulnerável.

Londres, 30.03.2016


Cláudia de Sousa Dias

Tuesday, March 01, 2016

"A Fossa" de Aleksandr I. Kuprine (Slávia Edições)



Tradução da língua russa por Dina Paulista e Margarida Savko de Brito


Com uma expressiva capa, inspirada no quadro intitulado À la Beauté (1922) de Otto Dix, A Fossa, ou Yama no original, constituiu por si só uma ousadia, uma lufada de ar fresco no meio editorial português, apesar de se encontrar, actualmente esgotada. Sendo Alexandr Kuprine um autor praticamente desconhecido em Portugal, o leitor fica, no entanto, a perceber a importância da sua obra logo que se detém a ler a badana com a nota do editor, a colocá-lo na mesma linha da tradição literária de Lev Tolstoi e Fiodor Dostoievski.

Dados Biográficos

Kuprine nasce em Narovtchat, uma pequena cidade de província situada na região de Pemza, junto ao rio Sura, afluente do Volga. As suas origens são de ascendência tártara e aristocrática, por via materna, tendo a família empobrecido gradualmente ao longo de todo o século XIX. Alexandr Kuprine socorria-se das suas origens tártaras para explicar o seu próprio temperamento, considerado por alguns seus contemporâneos como “explosivo”, “enérgico” e “indomável”. Viveu em Moscovo dos três aos vinte anos de idade e, após frequentar o colégio militar, serviu o exército do czar como oficial de baixa patente o que lhe facultou a oportunidade de conhecer as zonas mais remotas da Rússia Imperial. Quatro anos depois, abandonará a vida e a carreira militar para se dedicar à actividade literária , imiscuindo-se, para tal, no quotidiano de vários tipos de comunidades diversas, à semelhança do que fazem os antropólogos quando aplicam o método etnográfico a qualquer comunidade que seja seu objecto de estudo. O interesse de Kuprine incidiu em grupos variados, desde comunidades de actores e artistas de circo, pescadores e operários fabris. Para o romance em questão, o foco de interesse foi uma pequena cidade situada no meio do nada entre a Rússia, a Bielorrússia e a Ucrânia onde, durante muito tempo, a prostituição fora a principal actividade comercial aí desenvolvida. Na verdade, Kuprine mostrava especial interesse em abordar nos seus romances temas relacionados com a marginalidade, estigmatização e exclusão social ou, ainda, situações de grande densidade e tensão psicológica. A sua passagem por Kiev em 1894 e, depois pela Bielorrússia, nos últimos anos dessa década, permitiram-lhe recolher dados para o cenário do romance de que aqui falamos hoje. Foi também nesta altura que desenvolveu a experiência como jornalista, a qual marca fortemente a escrita desta obra. Assuntos como a caça, os cães e os cavalos também foram objecto do seu interesse e tratamento literário noutras obras. Aquando da Primeira Guerra Mundial, o escritor de A Fossa foi novamente chamado ao serviço militar. Em 1918, depois da Revolução de Outubro e do final da Primeira Guerra Mundial, Kuprine emigraria para França, país onde viveu durante dezoito anos, tal como aconteceria com um elevado número de compatriotas seus, sobretudo intelectuais e aristocratas. Além de escritor, Kuprine foi também piloto e explorador, de espírito andarilho sempre à procura de aventura e território pouco explorados.

A Obra

A obras de Alexandr Kuprine mais conhecidas são O Duelo (1905), Moloch (1896), Olesya (1898), O Jovem Capitão Rybnikhov (1906), Esmeralda (1907) e A Pulseira de Granadas (1911), a qual foi, algumas décadas mais tarde, adaptada ao cinema, mais precisamente em 1965.

A Fossa (Yama) que, em inglês recebe o título de The Pitt, começou a ser escrita em 1908, sendo somente terminada oito anos mais tarde, é vista como a sua obra mais emblemática, ambiciosa e controversa. Para o leitor que esteja familiarizado com o campo epistemológico das ciências sociais, a caracterização dos vários cenários que servem de base à construção da trama pode facilmente ser conotada com o olhar de um antropólogo que decida focalizar-se no fenómeno da prostituição como seu objecto de estudo, partindo de uma caracterização realista para, logo a seguir, passar à construção ficcional e romanesca. O local da acção consiste num lugar de passagem, uma grande cidade mas afastada das cidades mais próximas, situada estrategicamente no ponto de intercepção de várias povoações: um local de confluência de várias rotas comerciais, por onde passava o correio nos postilhões e onde as carruagens mudavam de cavalos e os condutores podiam descansar a meio da viagem nas inúmeras estalagens que por ali havia. A essa região deram o nome de Yama, a Fossa. Um locar perfeito para o florescimento, a dada altura, do negócio da prostituição.

I - A primeira parte do romance inicia com a descrição panorâmica daquela zona geográfica, afunilando em seguida para uma rápida caracterização da cidade, das ruas, dos edifícios e, por fim, do bordel onde decorrerá a acção de toda a primeira secção do romance. O conteúdo temático deste primeiro volume causou imediatamente polémica generalizada quando foi primeiramente publicado, ao passo que os dois que se seguiram (que nesta edição surgem acoplados ao primeiro) foram recebidos com relativa passividade. Esta diferença de reacção deve-se sobretudo ao vincado realismo do primeiro volume, em acentuado contraste com um certo lirismo dos dois restantes. O romance chegou a ser criticado pelos contemporâneos de Kuprine, como Tolstoi, que o acusava de excesso de materialismo realista. No entanto muitos apoiavam-no, inclusive membros do círculo intelectual feminino russo. A Fossa é o seu último grande trabalho, considerado para muitos um ponto de inflexão na qualidade do seu trabalho como escritor o qual entrará, a partir de então, em declínio.
Deixo-vos aqui um excerto com os primeiros parágrafos:

«Há muito tempo, muito antes do aparecimento dos caminhos-de-ferro, no arrebalde mais afastado de uma grande cidade do Sul, viviam, geração após geração, os postilhões – os do Estado e os que trabalhavam por conta própria. Por esta razão, toda esta terra se chamava Aldeia Yamskaya, a Aldeia dos Postilhões, ou simplesmente, Yamskaya, Yamki – que significa “pequenas fossas” - ou, ainda mais brevemente, Yama – a Fossa. Mais tarde, quando a locomotiva a vapor substituiu o carro puxado a cavalo, a afoita tribo dos postilhões foi perdendo pouco a pouco os seus hábitos extravagantes e os costumes arrojados, passando a ter outras ocupações, dividindo-se e dispersando-se. Mas a Yama – a Fossa – guardou durante muitos anos – até aos dias de hoje – a reputação duvidosa de um lugar divertido, boémio, propício a brigas e de noite não muito seguro..

Muito naturalmente, nas ruínas dos antigos e aconchegantes ninhos, onde outrora as libertinas mulheres dos soldados e as rechonchudas viúvas dos postilhões de sobrancelhas negras, vendiam clandestinamente vodka e amor livre, começaram a surgir os prostíbulos abertos, autorizados pela administração local, geridos pelo controlo oficial e submetidos a regras intencionalmente severas. No final do século XIX, as duas ruas da Yama – a grande e a Pequena Yamskaya – foram ocupadas, dos dois lados, exclusivamente por bordéis. Restaram apenas cinco ou seis casas particulares, mas também aí se instalaram tabernas, cervejarias e retalhistas, que satisfaziam as necessidades de prostituição da Yama.
O modo de vida, os hábitos e os costumes são quase idênticos em quase todos os trinta e poucos estabelecimentos...»

O afunilamento da focalização do olhar do narrador prossegue com a descrição e classificação do tipo de bordéis, de acordo com o estrato social dos clientes, do tipo de mulheres que cada qual destes estabelecimentos oferece (idade, grau de beleza e perfeição física, saúde, origem social, grau de refinamento, etc.):

«O estabelecimento mais chique é o de Treppel, à entrada da Rua Grande Yamskaya, a primeira casa à esquerda. É um negócio já antigo. O dono actual tem um apelido diferente e faz parte da presidência do conselho da cidade. É uma casa de dois andares, verde e branca, construída no alambicado e decadente estilo pseudo-russo do arquitecto Ropet: as cumeeiras e as portadas das janelas, talhadas em forma de galo, têm fragmentos de madeira debruados, num rendilhado do mesmo material; há um tapete e uma passadeira branca na escada; na antecâmara, um urso empalhado segura com as patas dianteiras uma bandeja de madeira para os cartões de visita; no salão de dança, o chão é de madeira e vêem-se pesados cortinados de seda carmesim e de tule nas janelas; ao longo das paredes, cadeiras brancas pintadas a ouro e espelhos com molduras douradas; existem dois gabinetes com tapetes, divãs e macios pufes de cetim; nos quartos, candeeiros cor-de-rosa e azuis, cobertores forrados de seda grossa e almofadas limpas; as meretrizes apresentam-se com decotados vestidos de baile debruados a pele ou então mascaram-se usando luxuriosos fatos de carnaval de hussardos, de pajens, de pescadoras, de alunas de liceu, sendo a maior parte delas alemãs de Leste – mulheres fortes, bonitas, de corpo branco e seios opulentos. Nesta casa de Treppel uma visita custa três rublos e uma noite inteira dez.

Os três estabelecimentos de dois rublos – o de Sófia Vassílievna, o Velho Kiev e o de Anna Márkovna – são mais simples e mais pobres. As outras casas da Grande Yamskaya, são as de um rublo e são ainda piores. Na Pequena Yamskaya, visitada por soldados, ladrões de quinta categoria, artesãos e todo o tipo de gentinha e onde cobram por visita cinquenta copeques ou menos, o ambiente não pode ser mais sujo ou miserável: o chão da sala apresenta-se irregular, gasto e lascado; as janelas estão tapadas com panos de andrinopla vermelha; os quartos, como boxes de estábulo, são separados por finas divisórias que não chegam até ao tecto, e sobre as camas, por cima das enxergas usadas, vêem-se, amarrotados de qualquer maneira, rasgados e encardidos pela passagem do tempo, cheios de manchas, os lençóis e os cobertores de baeta esburacados; o ar é pestilento, misturado de fumo, evaporações alcoólicas e ejaculações humanas; as mulheres, vestidas com trapos de algodão coloridos, têm quase todas as vozes roucas ou fanhosas, os narizes semi-encovados da sífilis e rostos que guardam os vestígios e os arranhões da tareia da véspera, ingenuamente pintados com a ajuda do maço de tabaco vermelho, molhado com saliva».


A estrutura social descrita por Kuprine assemelha-se à organização por castas do sistema social indiano. Inclusivamente, o olhar do narrador quando descreve a Pequena Yamskaya, perde um pouco da sua objectividade, acabando por sucumbir a um certo sentimento de repugnância face ao ambiente daquela zona da cidade, como atesta o substantivo declinado no diminutivo “gentinha”, fazendo equivaler os frequentadores e as trabalhadoras do sexo dos bordéis mais miseráveis ao estatuto de “párias” (os excluídos do sistema de castas praticado na Índia). Para não nos alongarmos demasiado na dissecação desta obra literária com prolongadas análises de teor sociológico ou na exploração dos meandros da descrição psicológica das personagens que é meticulosamente efectuada ao longo da narrativa, assim como as relações de hierarquia dentro do bordel, ou as relações de amor-ódio que as prostitutas estabelecem entre si e com os clientes que frequentam o estabelecimento, o que exigiria do texto uma envergadura equivalente à de uma tese de doutoramento, passemos então à segunda parte do romance.

II - No início deste segundo volume, ocorre uma prolepse, um avanço no tempo de dez anos na Yama, período em que se processa um sem-número de transformações a vários níveis: social, económico e, inclusive tecnológico:

«Ainda hoje, volvidos dez anos, os antigos habitantes da Yama se recordam bem daquele ano próspero em acontecimentos nefastos, sórdidos e sangrentos, que começou por uma série de pequenos escândalos insignificantes e terminou na decisão da Administração Local de, um belo dia, arrasar por completo os velhos e habituais antros de prostituição, por ela própria criados, distribuindo depois o que deles sobrou pelos hospitais, prisões e ruas da grande cidade. Ainda hoje algumas das poucas sobreviventes, antigas patroas e governantas dessas casas, mulheres já completamente decrépitas, gordas e roucas como buldogues velhos, se recordam dessa destruição geral com mágoa, horror e simplória perplexidade.
Assim como batatas caídas de uma saca rota que se vai rompendo cada vez mais, começaram a aumentar as brigas, os roubos, as doenças, os assassínios e os suicídios, parecendo que ninguém era culpado de nada. Todas as desavenças começaram pura e simplesmente a tornar-se cada vez mais frequentes, a acumular-se umas em cima das outras, a crescer e a alargar tal e qual uma pequena bola de neve chutada pelos pés de uma criança e que ao rolar se vai tornando cada vez maior por causa da neve semi-derretida que se vai pegando a ela. Passados alguns momentos já a bola é maior do que a altura de um homem e, por fim, basta apenas um ligeiro toque para que ela se precipite em direcção ao barranco e role por ali abaixo formando uma enorme avalanche. As velhas patroas e governantas desses prostíbulos nunca tinham ouvido falar do destino, mas, no fundo da alma, todas elas sentiam a sua misteriosa presença nas desgraças inelutáveis daquele ano terrível.».

O narrador utiliza a prolepse no primeiro parágrafo desta segunda parte do romance, para assinalar o corte com a narrativa da primeira parte. Este corte é marcado por uma mudança brusca que altera a caracterização do cenário que dá corpo à localização espacial da trama. Segue-se um segundo parágrafo cheio de indícios, que permitem ao leitor antecipar, embora de forma ainda nebulosa, as directrizes que estão na base do desenvolvimento da história, o qual é todo um processo que desemboca na decadência do comércio do sexo na Yama e na progressiva degradação das vidas de contornos melodramáticos das heroínas da primeira parte, as quais verão os seus sonhos desfazerem-se, ruindo lenta e inexoravelmente, as suas expectativas.

Também o ponto de vista prevalecente da narrativa começa aqui a mudar de foco e a centrar-se antes no grupo de estudantes que frequenta regularmente o bordel de Anna Márkovna, nas suas paixões, ideais, interesses e anseios, no seu olhar sobre a sociedade e, particularmente, no papel que as mulheres nela ocupam. Aqui, ponto de vista dominante é, bastante mais ainda do que na primeira parte, o masculino.

III - Na terceira e última parte, o narrador surpreende os leitores ao fazer notar que, dentro da trama geral, sempre narrada na terceira pessoa, por uma voz omnisciente, há uma outra voz embutida que verte uma narrativa encaixada, a história da prostituta Liuba e do estudante Likhonine. O ponto de vista de Liuba é mediado pelo do narrador principal, heterodiegético, aparecendo ora em discurso indirecto (onde se vê o ponto de vista do narrador face às personagens, Liuba incluída) ora em discurso indirecto livre (onde a voz de Liuba surge embutida no discurso do narrador):

«Foi toda esta longa e atribulada história que Liuba contara soluçando no ombro de Gênia. É claro que toda esta tragicomédia foi apresentada por ela com uma interpretação muito diferente da realidade vivida.
Segundo as suas palavras, Likhonine só a tinha levado consigo para se entreter um pouco com ela, para a impressionar, para se servir da sua tolice até se fartar e expulsá-la depois. E ela, idiota, que verdadeiramente se havia apaixonado por ele, que tinha uns ciúmes danados de todos aqueles guedelhudos de cinturões de pele, viu-se então enredada nesta baixaria: ele combinou com o seu colega de modo a que este, estando ali com ela, de propósito a começasse a abraçar no momento em que ele, Likhonine, entrasse, visse aquilo, pudesse armar um escândalo e a despejasse no meio da rua.

Na versão dela havia tanto de verdade como de mentira, as duas partes estavam equilibradas, mas, como quer que fosse, ela acreditava que as coisas assim aconteceram.».


A multiplicidade de pontos de vista, que se reflecte no cruzamento de várias formas de olhar o real, ora justapondo ora aglutinando a visão do narrador e das personagens, assim como a profusão de detalhes com que o autor preenche o discurso narrativo, a par da habilidade com que atribui ao narrador a capacidade de dar a perceber o efeito da passagem do tempo nas personagens, na cidade e na própria região da Yama conferem a a dimensão épica e polifónica à obra, fazendo dela um dos grandes clássicos da literatura russa, publicado no início do século XX. Apesar disso, Alexsandr Kuprine não é dos autores russos mais divulgados em Portugal, pelo que que já vai sendo altura de se pensar em publicar outras obras do autor e, sobretudo, na reedição deste soberbo retrato da Yama, A Fossa de um Império extinto.


Londres, 30 de Março de 1016

Cláudia de Sousa Dias