HÁ SEMPRE UM LIVRO...à nossa espera!

Blog sobre todos os livros que eu conseguir ler! Aqui, podem procurar um livro, ler a minha opinião ou, se quiserem, deixar apenas a vossa opinião sobre algum destes livros que já tenham lido. Podem, simplesmente, sugerir um livro para que eu o leia! Fico à espera das V. sugestões e comentários! Agradeço a V. estimada visita. Boas leituras!

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Bibliomaníaca e melómana. O resto terão de descobrir por vocês!

Thursday, January 19, 2017

"Uma Ideia da Índia" de Alberto Moravia (Tinta-da-China)

Sunday, January 01, 2017

"The Church Mice at Christmas" by Graham Oakley (Templar Publishing)

Wednesday, November 30, 2016

"Contos exemplares" Sophia de Mello Breyner Andresen (Contemporânea)

Wednesday, November 23, 2016

"A Gramática do Medo" de Maria Manuel Viana e Patrícia Reis (Dom Quixote)

Monday, October 31, 2016

"Jezebel" by Lesley Hazleton (Doubleday)

Friday, September 30, 2016

Contos Policiais - Vários Autores (Porto Editora)

Wednesday, August 31, 2016

Caderno de Memórias Coloniais (Angelus Novos/ Caminho) e Notebook of Colonial Memories de Isabela Figueiredo



Trad. Para a versão inglesa de Anna Klobucka e Philip Rothwell


1. Enquanto ainda não temos na nossa posse o novo livro da Autora, A Gorda, debruçar-nos-emos sobre o seu primeiro livro, publicado sob o pseudónimo de Isabela Figueiredo, um livro de narrativas de cariz autobiográfico. A autora havia já publicado uma novela Conto é como quem diz, o qual obteve o Grande Prémio da Prosa da 1ª Mostra Portuguesa de Artes e Ideias, com o nome de Isabel Almeida Santos, seu nome de nascimento, omitindo o "Figueiredo".

2. Relativamente ao livro de que hoje aqui falamos, existem, actualmente três versões publicadas de Caderno de Memórias Coloniais. A primeira foi publicada pela Angelus Novus, como a primeira tentativa de transformar as crónicas autobiográficas postadas inicialmente nos blogues da autora “Novo Mundo” e “O Meu Mundo Perfeito”. Os blogues são sempre, segundo as palavras da autora, “um suporte que lhe serve de criação literária” e onde publica textos que “depois irá burilar até obter o polimento necessário para estarem prontos a serem editados em forma de livro”, conforme nos confessou a 18 de Junho durante um almoço, em Almada. O livro vem trazer à forma impressa uma compilação de crónicas devidamente ordenadas e cuja escrita obedece, já, a um cuidado trabalho de depuração e tratamento literários, em cuja voz estão de tal forma inscritas as marcas da autenticidade, evocadora de cores tão vividamente reais que jamais seria possível negar o teor literário do texto.

Isabela Figueiredo exibe uma escrita audaz, provocatória, anti-politicamente correcta, não se negando a usar o vernáculo sempre que o contexto o exige, e a exactidão da tonalidade discursiva obriga. Isabela é absolutamente perfeccionista quando se trata de exibir expor tudo o quanto uma sociedade pretensamente impoluta tencione ocultar da opinião pública. Isto porque a narradora de primeira pessoa de Caderno da Memórias Coloniais focaliza o olhar na experiência do quotidiano e da sua relação com os outros, em diferentes cenários no Moçambique enquanto colónia portuguesa e, depois, com o fim do Império, em pleno período de descolonização, a sua atenção centra-se no choque face às diferenças culturais e de mentalidade com que se depara no Portugal Continental nos primeiros anos após o 25 de Abril de 1974.

3. A forma como Isabela Figueiredo colocara, então, as questões do colonialismo e de género chamaram a atenção do mundo académico além fronteiras e, com o patrocínio da Fundação Luso-Americana surgiu a tradução desta narrativa autobiográfica para língua inglesa, pela mão de Anna Klobucka (professora de Portuguese and Women's and Gender Studies na Universidade de Dartmouth no Massachusetts) e de Philip Rothwell (professor de Portuguese Studies no King John II College na Universidade de Oxford), com o título de Notebook of Colonial Memories. No prefácio desta segunda versão, destinada ao leitores do universo Anglófono, Klobucka faz o enquadramento da obra e do discurso da narradora, situando-o no passado histórico e colonial português, destacando simultaneamente a temática da condição feminina numa sociedade então ainda profundamente patriarcal, e na qual o domínio masculino se fazia sentir em relação às mulheres, sobretudo africanas. Mais tarde, na terceira versão do “Caderno” (a que saiu recentemente, editada pela Caminho) a escritora moçambicana Paulina Chiziane afirmará que este domínio abrange tanto as mulheres europeias (as esposas portuguesas da metrópole casadas com os colonos) como as mulheres africanas. Sobre a questão de género e bem como da questão de domínio europeu e aculturação de que trata o livro, Klobucka aponta ainda para o confronto entre dois pontos de vista antagónicos sobre a forma de ver o mundo, representados pela narradora e pelo pai cuja memória evocada e recuperada neste livro:

«Notebook is a political text, but its politics are intensely personal. The narrative's central focus falls on its protagonist's relationship with her father, a man whom she loves very much, tenderly and viscerally, and whom she betrays by denouncing his racism and by refusing to stand on his side of the inflexibly antagonistic divide that structures colonial society and its afterlife.»




O livro todo persegue a missão de desmentir um passado colonial tradicionalmente caracterizado como “brando” e de um povo de, também, supostos “brandos costumes” (ideia disseminada institucionalmente pela propaganda política do Estado Novo). Missão essa que é, na nossa opinião conseguida com sucesso mediante a descrição de todo um conjunto de quadros ilustrativos que não deixam margem para dúvidas acerca daquilo que foi o colonialismo luso. O retrato é-nos projectado, segundo Klobucka, (2015:12) através do olhar da criança filha de um casal colonos brancos de classe média, mas a qual ainda assim faz parte da classe dominante, e cujo olhar desinteressado, revela uma sociedade detalhadamente estratificada, assente numa bem definida hierarquia racial, na qual impera de forma inequívoca o domínio de uma elite caucasiana.

4. Para introduzir a história, Isabela Figueiredo serve-se de um pequeno excerto do também autobiográfico romance de Paul Auster, Inventar a Solidão, como epígrafe, trazendo à luz o conflito que lhe serviu de impulso à escrita deste livro: o ponto de vista do pai acerca da colonização e da relação com os locais na terra de Moçambique e que este lhe tentara inculcar, mas ao qual Isabela sempre se opôs de pedra e cal. O páthos que perpassa no discurso na narradora reside na necessidade compulsiva de expor o seu próprio ponto de vista, em confronto com o do pai, mas sem ceder a um possível sentimento de culpa que a assalta ao expor a intimidade do pai, submetendo-a à avaliação axiológica do leitor:

«De cada vez que abria uma gaveta ou espreitava para dentro de um armário, sentia-me como um intruso, um ladrão, devassando os locais secretos da mente de um homem. A todo o momento esperava que o meu pai entrasse, parasse, incrédulo a olhar para mim e me perguntasse o que raio é que eu pensava que estava a fazer. Não me parecia justo que ele não pudesse protestar. Eu não tinha o direito de invadir a sua privacidade.»

É pois, como já se disse, a memória, o ponto de partida para a escrita deste livro, através da evocação da voz, da entoação do discurso, do olhar do pai sobre a realidade, o qual que nos surge através da constante relação dialógica com o ponto de vista da narradora. Relativamente a esta, o desdobramento enunciativo dá-nos o olhar da criança no passado e o da narradora adulta do tempo presente (itálicos meus a marcar duas acções que provêm destes dois pontos de vista, de dois locutores, o pai e a narradora adulta, respectivamente).

«Disse alto, com voz forte e jovial, muito perto da minha cabeça:

- Olá!

Era um olá grande, impositivo, ao qual me seria impossível não responder. Reconhecia a sua voz e, ainda no sono, pensei, não podes ser tu; tu já morreste.

E abri os olhos.» [Figueiredo, (2009), 2011: 9]


Este abrir de olhos é, obviamente metafórico. Porque é a partir desse instante que, no discurso da narradora, se abre a janela da memória, como se esta tivesse feito correr uma persiana e o filme do passado passasse a ser projectado diante dos nossos olhos, dado pela memória fotográfica, auditiva e cinestésica do fio de pensamentos e caldeirão emocional da locutora-narradora. O trecho seguinte reforça esta ideia de desdobramento enunciativo da a diferença da visão do mundo entre ambos os enunciadores, em que a fala o primeiro, Manuel, se encontra embutida no discurso da narradora, marcando os dois pontos de vista, abertamente antagónicos:

«Manuel deixou o seu coração em África. Também conheço quem lá tenha deixado dois automóveis ligeiros, um veículo todo-o-terreno, uma carrinha de carga mais uma camioneta, duas vivendas, três machambas, bem como a conta do Banco Nacional Ultramarino, já convertida em meticais.

Quem é que não foi deixando os seus múltiplos corações algures? Eu há muitos anos que o substituí pela aorta.» [Figueiredo, (2009), 2011: 11]


Com este trecho, onde a alternância de pontos de vista é verbalmente marcada pela presença dos verbos na terceira e primeira pessoa, a autora deixa claro qual será o tom da narrativa ao longo de todo o livro, cuja pedra de toque é a forma como estes dois enunciadores vêm o mundo. A narradora procederá à desconstrução do ponto de vista que transmite a visão do Portugal colonial, representada neste trecho pela figura de Manuel, ao que opõe o seu olhar iconoclasta, inequivocamente expresso na última frase deste trecho, a qual foi suprimida na nova versão do “Caderno”. A dureza e paixão nela contidas é obliterada nesta nova versão para que seja o leitor ele mesmo a tirar as suas próprias conclusões ao longo do livro, deixando ao alocutário (destinatário da s palavras nele contidas) a tarefa de avaliar por si as situações descritas.


5. Falemos então das principais diferenças entre ambas as versões deste livro, publicadas em Língua Portuguesa. Apesar de haver algumas pequenas diferenças discursivas como a que mencionámos no ponto anterior, estas são no entanto, de pouca monta. A autora preocupou-se sobretudo em aprimorar a fluidez do texto ou levar o leitor a reflectir mais sobre o que leu. Trata-se de uma questão puramente estética, plástica, a que está na base deste género de alterações. Mas no final do livro há também frases que foram acrescentadas, capítulos que foram expandidos e outros acrescentados, alterando ligeiramente a sequencialidade de alguns deles em nome da coesão e coerência do texto final, de onde resulta que o fio condutor dos acontecimentos se torna muito mais inteligível para o leitor.

Na primeira versão existe ainda uma “Adenda” contendo cinco posts do primeiro blogue da autora, os quais poderão vir a integrar outros livros ainda a serem escritos: “Agosto”, “O odioso low-profile”, “Dinamitar o Cristo-Rei”, “O carro de Lama” e “Fígado de Porco”. Cinco peças cujo ambiente de fundo é já o Portugal das décadas que se seguem ao final do tempo narrativo nos últimos capítulos deste livro. Contém ainda uma entrevista com Isabela Figueiredo acompanhada da menção dos livros que mais influenciaram a sua escrita e contribuído também para a construção da sua própria identidade.



6. A temática e a descrição de situações paradigmáticas do Moçambique durante a administração portuguesa, surgem em textos curtos como se fossem cenas de um documentário e resumem atitudes ilustrativas de uma fronteira bem demarcada entre o “eles” e o “nós”, (fronteira essa que sempre que se dilui, diminui também a situação de perigo social, que é substituída pela entreajuda, como acontece no capítulo 29, já que a distância social cava sempre o germe do ódio). A respeito desta última questão, Paulina Chiziane, num prefácio escrito em forma de carta dirigida à autora, para esta segunda versão em português escreve o seguinte:

«A tua obra, Caderno de Memórias Coloniais, faz a análise a partir de um lugar proibido às mulheres castas: o sexo.

(…)

Até usaste palavras proibidas às meninas bonitas para mostrar que existe uma forma mais verdadeira de ver o mundo.»


Estas “palavras proibidas” não seriam exactamente as que Isabela Figueiredo ouviria da boca das mulheres dos colonos em relação às mulheres africanas mas ilustram perfeitamente e com exactidão o que pensavam delas. Apenas o recato as impedia de pronunciarem audivelmente a palavra “cona” por exemplo, mas que surge no discurso que pretende dar voz a uma forma de pensar comum àquela comunidade para melhor exprimir o desprezo a marcar a clivagem entre o “nós” e o “elas”, como já foi dito.

E Chiziane continua ainda:

«Este livro trata das relações de género, do colonialismo e do socialismo. Poucas são as obras literárias que tratam destas questões com tanta profundidade.

(…)

Que pena nós mulheres não podermos falar de sexo tão abertamente. Brancas ou pretas fomos todas castradas. Eu tenho a língua castrada e não te direi tanto. De bordados e de receitas, me é permitido falar, mas não sei bordar ou cozinhar. Falar de sexo é tabu.

(…)

O colonialismo era baseado no catolicismo e no patriarcado. Para a representação desse sistema não poderia existir melhor imagem senão a do pai racista através do qual transcorrem todas as ideologias e práticas coloniais.

(…)

[No livro] A mulher branca é invisível, é silenciada, demonstrando dessa forma que as mulheres brancas são as principais vítimas da violência do colonialismo antes dos negros. Elas não tinham direito à sua própria sexualidade, tinham que ter o sexo estreito e curto tal como os colonizados não tinham direito à sua terra e à sua liberdade (…).» (Figueiredo, 2015: 15-17)


7. Mas para além da questão colonial, da questão do racismo e de género (a qual transcende ainda as duas primeiras, sobrepondo-se-lhes e ultrapassando-as como vemos no discurso de Chiziane), Isabela Figueiredo foca, também, a questão da pobreza e falta de desenvolvimento ou investimento em infraestruturas do Portugal Continental antes da revolução, ao descrever a casa da avó e o choque visual, climático e de mentalidade relativamente à expressão corporal da própria feminilidade e sexualidade bem como da forma de se apresentar em público ao chegar ao Continente europeu.

A dureza do tom do discurso da narradora não abranda ao deparar-se com o cenário do Portugal do pós-guerra colonial e, nomeadamente da casa que a vai acolher:

«Logo à entrada da casa, ainda do lado de fora escutava-se o cacarejar de galinhas e o arrulhar de pombos e rolas.
Quando a minha avó abriu a porta, encarei um estreito corredor, com chão e paredes de cimento, a céu aberto. Aos meus pés, um enorme ralo. A porta abriu para a direita e, depois de entrarmos, reparei que atrás dela se encontrava o tanque de lavar roupa e enorme bacias de zinco.
Conforme progredia ao longo do corredor de acesso, os dejetos das aves apareciam difusamente, tornando-se um tapete de merda cada vez mais espesso ao longo do percurso, desembocando num pátio interior com as dimensões de um pequeno quarto, onde tinha mandado erguer uma capoeira, de porta sempre aberta. Era lá que escondia uma lata com notas de vinte escudos. As suas modestas poupanças.

(…)

A porta de casa, finalmente. Ela abriu-a a merda alastrava pelo chão, mais varrida. Tinha havido também ali um esforço de limpeza e arrumação.
As galinhas entraram antes de nós, enquanto a minha avó ia falando com elas, meninas, meninas, a mãe está aqui, a mãe chegou.

A cozinha. Frente à porta, encostada à parede, a mesa sólida, escura, polida pelo tempo, com baixos-relevos da usura entre os veios da madeira, e duas enormes gavetas onde guardava sacos de pão, duro e mole.

À direita, num dos cantos, o poial de alvenaria onde mantinha o fogão a petróleo, e, no outro, um velho armário alto, envidraçado, onde guardava a louça e os tachos. Tudo escuro e escurecido.
À esquerda, caixas de cartão, com a nossa tralha, ainda fechada (…).

Sobre essas caixas, outras, de madeira, eram nicho de galinhas entrevadas. A minha avó tinha amor às avezinhas nascidas com defeitos congénitos. Não as vendia, como à restante criação. Tratava-as à parte, cuidando-as com desvelo de mãe, mudando-lhes diariamente a palha, dando-lhes de comer à mão, limpando-as como se limpam os bebés. As galinhas correspondiam a esse amor, fazendo-se entender, comunicavam numa linguagem só delas, mulher e galinhas, que enternecia.

Pela cozinha voavam livremente pombas, rolas e pardais, empoleirados no alto das caixas e do armário.
À esquerda, uma porta dava acesso ao quarto da minha avó. Ao abri-la, saiu de dentro a Chinita, uma franga branquinha que por lá ficara fechada desde a madrugada, enquanto me foram buscar ao aeroporto. Poias pelo chão, uma ou outra, sobretudo os seus restos, mal desencascados. Os pombos voavam pelo quarto, espantando-se com os nossos movimentos.» (Figueiredo, 2015: 175-177)


A imagem da casa onde habita a avó não espelha apenas a personalidade da anciã, mas também e sobretudo a  sua condição social. É, em primeiro lugar, o retrato da pobreza a que se junta a solidão e o abandono, numa situação bastante semelhante à esmagadora maioria da população portuguesa de meados dos anos 1970. No texto de Figueiredo vemos que a casa está tomada pelos seres alados, pombas, rolas e outras aves, partilhando a dona da casa o espaço com elas e a elas se lhe igualando. Os pássaros vão sempre ocupando o espaço doméstico à medida que este se vai esvaziando da presença humana. Algo similar acontece também no filme “Amour” de Michael Hannecke, quando a morte começa a assediar o apartamento do casal idoso, de onde cada vez mais está longe a família e o casal cada vez mais imerso na solidão. 
Contudo ao contrário do que sucede no filme de Hannecke, na casa desta avó assalta-nos a ausência de conforto que Figueiredo nos desvela e atira aos olhos de forma absolutamente crua e, quase que diria, impiedosa. A casa da avó é o retrato de uma época em que a maioria do território nacional não era coberto pela rede de saneamento, assim como a água canalizada a partir da rede pública:

“Na casa da minha avó não havia casa-de-banho. As lavagens e as necessidades fisiológicas eram feitas ao lado do tanque, sem telha, junto à entrada onde existia o ralo, único esgoto da casa. Não havia, portanto, águas quentes, a menos que as aquecêssemos numa panela e as carregássemos até à enorme bacia de zinco, junto ao tanque.
Para aquecer os pés, a minha avó tinha, como grande luxo, um pequeno calorífero, atravessado por dois tubos brancos horizontais. (…) Havia ainda uma eficaz botija de água quente, em metal, que passou para a minha cama.
Só nesse ano percebi o que o meu pai dizia quando explicava que não éramos pobres nem ricos mas remediados. Ser pobre era dormir num colchão de palha. Ser pobre era comer toucinho cozido com batatas e couves. Ser pobre era tomar banho numa bacia larga, no pequeno pátio onde a minha avó lavava para fora a roupa das senhoras que lhe pagavam. Ser pobre era ouvir a minha avó dizer que mais valia lavar roupa para fora do que estudar, porque estudar não dava de comer a ninguém. Era viver num quarto cuja pequena janela dava para o galinheiro e vender pombos, borrachos e galinhas a chorar por vê-los partir, porque o dinheiro calava o afeto e a dor...

(…)

Os comboios iam para o norte ou para o sul. Eu também estava de passagem, não sabendo para onde nem quando. Uma coisa era certa, o futuro estendia-se à minha frente e eu voltaria a ter uma casa como sabia que uma casa deveria ser. Não que a minha vida fosse indigna, porque a pobreza não era uma falha moral. Mas eu conhecia outra vida. Tinha estacionado num tempo difícil, mas à minha frente estendia-se todo o futuro.» (Figueiredo, 2015: 180-181)

São vários os pontos de vista que se cruzam neste trecho: a visão do mundo da avó que tem como "grande luxo" a posse de um “pequeno calorífero” (ver como os adjectivos de significado simétrico expressam dois olhares antagónicos) que é menos eficaz, contudo, do que uma botija de água quente. Nas três formas de olhar a situação socio-económica do local que serve de cenário à narrativa (o pai, a avó e a narradora), vemos a aproximação do texto à realidade que é uns dos elementos do texto presentes neste livro que conferem maior valor literário à obra.

8. O capitulo 41 da nova versão do Caderno é uma adenda à primeira versão, onde a autora detalha ainda mais a imagem de si que a avó projecta para o mundo: trata-se de uma anciã a viver em situação de pobreza sim - e a qual é identificada pela narradora como vimos no trecho anteriormente citado -, austera até ao âmago, mas bondosa. E neste capítulo, percebemos que esta bondade não se restringe apenas aos animais, mas também aos humanos, sobretudo àqueles que são desprezados pela comunidade, como o Senhor Paulino, que “gostava de homens”. Este ethos projectado pela avó é o de mulher-mãe, não apenas de filhos biológicos, mas de todos os que precisam de amor maternal, humanos ou não. Trata-se no entanto de uma imagem, absolutamente assexuada, indo ao encontro do que afirmava Chiziane relativamente à sexualidade feminina das mulheres portuguesas no texto preambular que antecede a narrative deste Caderno. 

Já no no capítulo 44, outro acréscimo à versão anterior na continuidade do capítulo anterior, onde a narradora aborda a questão do eclodir da feminilidade do próprio corpo e o assédio agressivo de que começa a ser alvo. Neste novo capítulo é, contudo, explorado outro lado da questão e de uma forma bastante mais cirúrgica desta necessidade constante de defesa do próprio corpo: a questão da diferença abissal entre a imagem pública, o  ethos colectivo, e o eu em privado, o ethos individual, de um predador sexual, que só o leitor fica a conhecer através do discurso narradora que o conhecera, o evoca, cita e descreve: o Ti Gusto, que explora o trabalho de jovens adolescentes na sua pequena oficina de cerâmica e das quais abusa sexualmente, a lembrar uma das mais abjectas personagens do romance de Jorge Amado, Tieta do Agreste. A autora que aqui se aproxima da narradora recorre explicitamente à intertextualidade com o romance do autor baiano, ao chamar às extremamente jovens trabalhadoras do Ti Gusto, na altura suas colegas de trabalho, de “cabritinhas”:

«No Verão de 76 mudei de paradeiro. A minha avó clamava que eu não tinha jugo nem tino, que era incontrolável, queria acompanhar raparigas mais velhas que já sabiam tudo sobre namorados, e fumavam: más companhias.
(…)
No novo paradeiro, o Ti Gusto mantinha uma fábrica de louça na garagem. Fazia terrinas decorativas em barro, decoradas com flores coloridas na tampa e nas asas, tudo do mesmo material.
(…)
O Ti Gusto empregava umas raparigas da minha idade, que lhe faziam o acabamento de louça, e ali aprendiam a compor os mais belos floreados, em barro, pintando-os de cor-de-rosa e amarelo, as florinhas a verde...

(…) O Ti Gusto cheirava a suor e a vinho misturados. A roupa exalava um odor velho, ácido, pastoso. Uns fios de cabelo gordurosos caíam-lhe sobre a testa oleosa. A barba suja por fazer. A barriga empinava-se-lhe, e as fraldas das camisas de flanela saíam-lhe por debaixo do pullover. Coçava os órgãos sexuais amiúde, com as mãos sujas de barro, e as nódoas de terra seca manchavam-lhe a braguilha como símbolo do seu pecado.

O Ti Gusto fechava a porta aos domingos à tarde, por causa do frio. E ia-se encostando. Pousava as manápulas grosseiras no meu cabelo, agarrava-se o queixo, apanhava-me os braços e a cintura como se fosse o meu mais delicado protetor. O homem roçava-se em mim pelas estreitezas da fábrica. Sentia-lhe o sexo teso, enquanto me desviava. Empurrava-me contra a porta de zinco ondulado para me apalpar as mamas, esmagando-se contra mim, como podia, enquanto me esgueirava e, para não o irritar, disfarçava a consciência da ameaça, não se lembrasse ele de me vedar a saída.

Tinha uma filha entrevada, encerrada em casa como uma doente maligna. Dizia-se que tinha tido azar, coitado do homem, só uma filha, e ainda por cima com uma doença perversa. Uma aleijada.

(...)Toda a gente considerava o Ti Gusto um homem muito bom, porque tendo a filha incapaz, não a atirara para um asilo, era fiel a uma mulher que nem barriga tivera para lhe dar um herdeiro macho e são. O Ti Gusto era a lamentada fina-flor do drama e virtudes provincianas.

Eu e as cabritinhas das terrinas conhecíamos-lhe outra missa, e nela, o oficiante era um suíno de patilhas.» (Figueiredo, 2015: 194-198)

O livro, no entanto, transcende em muito as questões de género, racismo e pobreza material que temos vindo a explorar e onde à primeira vista domina a primeira. Há, no entanto, algo mais subtil que se sobrepõe a tudo isto de forma ainda mais abrangente que é a questão da mentalidade colectiva de um povo, durante séculos reprimido do direito a sonhar ou aspirar a uma vida melhor, quer pela controle férreo das religião institucional e oficial, quer pelo clima, quer pelos condicionalismos políticos ou socio-económicos que resulta numa comunidade de pessoas que se apresentam vergadas por uma vida em que só há lugar para o trabalho, o sofrimento e a tristeza, sofrendo de uma maldade miudinha e insidiosa onde a ideia dominante é a de que na vida não há lugar para o estudo ou o laze e a felicidade alheia surge como uma afronta de carácter quase obsceno. Tudo o contrário da mente cheia de sonhos e insubmissão da narradora:

«A metrópole era suja, feia, pálida, gelada. Os Portugueses da metrópole eram pequeninos de ideias, tão pequeninos e estúpidos e atrasados e alcoviteiros. Feios, cheios de cieiro e pele de galinha, as extremidades do corpo rebentadas pelo frio e excesso de toucinho com couves. Que triste gente! Divertiam-se a mofar connosco, atirando-nos à cara que estava difícil, pois estava, que aqui não havia pretinhas para nos lavarem os pezinhos e o rabinho, que tínhamos de trabalhar, os preguiçosos de merda, que nunca fizeram a ponta de um corno pela vida, que nunca souberam o que era construir uma vida e perdê-la, os tristes, os pequeninos e, os conformados. Sabiam lá eles o que eram os pretos, e o que éramos nós, e o que tínhamos acabado de viver, filhos de uma puta brava. Insignificantes cabrõezinhos, se eu havia de dizer a verdade, se eu havia alguma vez de dizer a verdade.» (Figueiredo, 2015: 199)

E aqui temos o outro lado da questão. O que faz desencadear o sentimento de raiva exposto na voz da narradora. A ignorância arrogante e o preconceito que gera a indiferença pelo destino de quem lá está a viver o pesadelo da prisão e da tortura.

Como contraponto, a explicar sentimento de ira e de humilhação que perpassa no discurso da narradora, temos o capítulo seguinte, o qual, nesta versão é desenvolvido relativamente ao texto da versão anterior, permitindo ao leitor ficar a conhecer factos que antes se apresentavam com lacunas, através da alternância de cenários em termos espaciais, permitindo ao leitor vislumbrar o cenário de prisão e tortura sofrido pelo pai ou o destino de um objecto de valor que lhe foi entregue e se perde pelo caminho.

«O meu pai ia apodrecendo numa prisão da Frelimo, por ter afirmado em público, que Samora Machel não passava de um reles auxiliar de enfermeiro. Conhecendo o meu pai, acredito que terá acrescentado qualquer outro mimo como «preto de merda», ou pior.
Isto aconteceu em 1978. Eu estava em Portugal há três anos e ele trabalhava em Cabora Bassa. Saiu do cárcere, irreconhecível e calado, após longa e angustiante intervenção da minha mãe, a qual conheceu alguém que era amigo de outrem, que se dava com Graça Machel, a quem se foram escrevendo cartas com pedidos de clemência. O assunto acabou por se resolver, até porque o meu pai nunca foi a julgamento.
A prisão do meu pai foi sempre tabu na família. Ele nunca nos falou sobre o que se passou lá dentro, e nós tivemos pudor em perguntar, pelo que imagino o pior. (...)

O meu pai era um gabarolas bem disposto, portanto, se não lhe ocorreu gabar-se sobre os meus feitos heroicos desta fase, nem sequer uma gracinha, é provável que não tenham existido, e que a coisa não lhe tenha corrido bem.

(...)

Conhecendo-o, tenho a certeza de que lhes deve ter chamado pretos de merda, a todos, e todos os dias, e que terá apanhado forte e feio, sem dó, sem hora. Conhecendo-o, dói-me imaginá-lo espancado, humilhado, vergado por aqueles que antes vergou. Dormindo no chão de cimento, ao molho com os condenados de delito comum.

Para os brancos que decidiram ficar nas ex-colónias, após a independência, por solidariedade com os movimentos de libertação, ou por não terem outra escolha, ou não quererem tê-la, a vida não ficou fácil. 
Os brancos que ficaram em África tornaram-se alvo fácil de numerosas vinganças. Eram suspeitos. Os seus passos e palavras, vigiados pelas instituições, pelos comités de bairro, pelos vizinhos. Era preciso cuidado com o que se dizia e fazia. Qualquer deslize seria considerado colonialista, e não havia piedade, o preço era alto. A denúncia constante. A prisão. Os campos de reeducação.» (Figueiredo, 2015:201-203)

O livro termina com um epílogo em que a narradora fala da morte dos pais algumas décadas depois, deixando em aberto o futuro da protagonista, como uma incógnita.

Ao longo de toda a narrativa factor tempo é o núcleo de todo o discurso, com a presença da constante dicotomia entre passado e presente onde assenta o desdobramento do eu – o olhar da narradora adulta e o olhar da menina que faz o transbordo entre dois continentes, duas culturas e que é testemunha da mudança de regime no país de chegada, com todas as transformações sociais que isso implicou nos quarenta anos seguintes, ao fim dos quais volta o olhar para o passado como se fosse um filme, reconstruindo-o, ressuscitando-o. É precisamente o que diz no prólogo a esta última edição a que dá o título de “Palavras Prévias”, que nos soa familiar evocando as primeiras palavras do livro do Génesis:

«No princípio eu era de carne e estava na terra. Começou assim. Não pensei em mim como rapariga, nem como branca, nem como rica ou pobre. Não pensei porque não era preciso. Eu era de carne e estava viva.» (Figueiredo, 2015: 7)

No voo a caminho de Lisboa, a narradora já pensa em si como mulher, projectando no sonho o seu eu interior, a sua forma de se sentir mulher, feminina mas sobretudo fêmea. É ele é é outra, sendo esta alteridade a projecção do seu eu sensual num corpo feminino perfeito, ideal ou idealizado por si, de acordo com um cânone de beleza simultaneamente intemporal mas actual, clássica, mas rebelde, como o de uma antiga divindade qua tanto vai beber ao classicismo europeu como à sensualidade africana, descrita no belíssimo capítulo 36. Mas o desejo de ostentar esta feminilidade sensual com o orgulho de uma rainha de um império assente não na guerra nem no poder das armas mas no poder da beleza e do amor, anuncia já o violento choque cultural que aconteceria mais tarde, com a impossibilidade de se enquadrar no estereótipo de comportamento esperado numa jovem mulher em Portugal, caracterizado pela modéstia e pelo recato. Uma inadaptabilidade e que a sua avó viria a confirmar:

«Apagam-se as luzes no interior da aeronave. faltam muitas horas para aterrarmos em Lisboa. Podemos descansar os nossos pesados restos coloniais, se conseguirmos fechar os olhos por minutos. Adormecer. Sonhar.

Não a conheço. É uma mulher morena, bronzeada, alta, imponente. Veste um fato de saia e casaco de sarja branca, justo. Traz uns enormes óculos escuros de armação branca.
Recostada num sofá individual, branco, descai o busto negligentemente, entreabrindo as pernas de frente para as enormes janelas franqueadas à brisa feliz da primavera; as cortinas de fino algodão branco, translúcidas, esvoaçam como as de uma casa de praia à beira-mar.

As mãos morenas, com irrepreensíveis unhas brancas; os cotovelos apenas pousados nos braços do sofá. Como alguém que se oferece para receber uma dádiva.

(...)

A voz de uma outra mulher, que atravessa, apressada, carregando à cintura uma trouxa de roupa para lavar, informa-me, indiferente, «esta é a filha do teu pai». Ouço e corrijo de imediato, mentalmente, «esta é a outra filha do meu pai».
Acordada pela voz que passou, a mulher majestosa levanta-se, alisa a saia antes de se endireitar, volta-se para mim e estende-me o braço, sorrindo, olhando-me por cima dos óculos. É bonita, caramba.
É uma mulher enorme, inteira, com um longo e farto cabelo escuro, umas longas pernas bem torneadas, como uma miss das ex-colónias, como a Ana Paula Almeida, como a Riquita...Sinto-me insignificante perante o esplendor sensual daquela filha do meu pai.
Assim que me estende o braço, as frentes do casaco, desabotoado, mas encostado ainda ao peito, abrem-se completamente, e expõem todo o seu tronco: e vejo-a nua da cintura para cima. Estende-me o braço, mas eu não posso responder com o meu, porque agora olho apenas aquele espaço nu até ao recorte púbico que a saia descaída permite.
Um nu escultórico, de mármore: as mamas crescidas e cheias, espetadas na minha direcção como setas, os pequenos mamilos tesos, de um castanho quase rosa, o abdómen musculado, esticado, o ventre liso, a perfeita curva da anca. E como se, consciente de tanta majestade, tivesse desejado tornar-se irreal, toda a sua pele brilha sobre o bronzeado, acrescentada de luz. Uma finíssima película de pó prateado cobre-lhe o pescoço, as mamas, o abdómen, o ventre, as ancas, cada milímetro da suas generosa pele. Pinta-a. Veste-a de nudez. E tal nudez é o tesouro. Mantém o braço estendido na minha direcção. Continua a sorrir, a olhar-me por cima dos óculos, qua ainda não tirou. Quer ser minha amiga, embora não mo tenha dito. Vai dizer-mo agora. Não trocámos uma palavra. Mas vai falar agora.
Sinto medo. Sinto muito medo da filha do meu pai.

E depois chegamos a Lisboa.»

Sim, este Caderno de Memórias Coloniais é o choque de uma sociedade fechada, patriarcal, sexualmente repressiva face ao orgulho de livre expressão do corpo feminino. Africano e europeu. Se tivesse sido escrito e publicado antes do 25 de Abril de 1974 seria alvo de outro processo semelhante ao sofrido pelo internacionalmente célebre livro Novas Cartas Portuguesas conhecido por "as Três Marias". Este livro é do mesmo calibre.

Obrigada, Isabela.


Mindelo, 31 de Agosto de 2016

Cláudia de Sousa Dias