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Monday, May 31, 2010

O Doente Inglês de Michael Ondaatje (Dom Quixote)




Michael Ondaatje nasceu no Sri Lanka a 12 de Setembro de 1943. Em 1954 foi viver para Inglaterra e, desde 1962, estabeleceu residência no Canadá onde é considerado um dos mais proeminentes escritores contemporâneos daquele país. Possui uma vasta obra que se reparte por vários géneros literários, sobretudo o conto e a poesia, mas é ao romance que deve a sua notoriedade. E foi precisamente O Doente Inglês que, após ter sido adaptado ao cinema por Anthony Minghella, o tornou mundialmente conhecido. O Doente Inglês ou The English Patient, foi vencedor do Booker Prize 1992 e, também, do Governor General’s Literary Award for Fiction no mesmo ano.

O Doente Inglês é uma obra de invulgar talento , escrita em meados dos anos 1990, isto é, durante o interregno das duas Guerras do Golfo. No entanto, ao invés de optar por um romance de propaganda ao Ocidente, Ondaatje recusa-se a esconder o peso da acção dos Países Aliados, na configuração das tensões geopolíticas que resultaram do desfecho da segunda Grande Guerra.

1. Contexto histórico e localização espacial: uma casa em ruínas a norte de Florença

A história passada na Vila de San Girolamo representa um microcosmos representativo do drama pelo qual estava a passar a Itália durante a retirada alemã na fase final da guerra. O território intensamente minado, tornava impossível as actividades diárias mais banais como cultivar a terra colher frutos das árvores, tirar água de um poço. Os próprios móveis das casas e instrumentos musicais encontravam-se armadilhados. Também as cidades se encontravam inabitáveis e com o património histórico e cultural gravemente danificado.


Na villa, paredes com paisagens trompe l’oeil confundem-se com a paisagem natural: o interior está em contacto com o ar livre, devido ao desmoronamento das paredes após o impacto das bombas.



A fome grassa em Itália e, na villa San Girolamo, não é excepção, Hana nunca consegue saciar completamente a fome. Chega mesmo a deambular pela cidadezinha mais próxima, junto das padarias para sentir apenas o cheiro do pão recém-saído do forno.


1.1 A acção Principal

O romance desenvolve-se em dois tempos, não muito distantes entre si, e dois lugares diversos, ganhando sentido através do encaixe de duas narrativas paralelas. A narrativa principal desenrola-se lentamente mas já a aproxiamar-se o desfecho da guerra, logo após a retirada das forças alemãs do território italiano, o qual é, nesta fase, é passado a pente fino pelos Aliados, numa minuciosa operação de desminagem.




Entretanto, no Extremo Oriente, a guerra continua, envolvendo a participação massiva do E.U.A.




Mas a Villa a norte de Florença está parcialmente destruída. Serviu de hospital provisório que foi cedo trasladado para outro local com melhores condições, ficando a Villa apenas com quatro ocupantes: um doente terminal com o com corpo quase carbonizado; uma enfermeira de espírito missionário, que se responsabiliza pelo seu bem-estar na tentativa de colmatar uma ausência; um outro mutilado de guerra, frequentador da casa da jovem e amigo da família; e, mais tarde, um perito em desminagem, vindo da Índia e dos últimos dias do Império britânico, que se junta ao trio.

As personagens que de movimentam dentro da narrativa principal desenvolvem uma intensa e complexa rede de relações, condicionada por uma que se caracteriza pelo elevado risco que implica viver num território detalhada e perversamente semeado de bombas, cujo objectivo é exterminar indiscriminadamente civis e militares. O ritmo da acção é lento, pautado pelas sombras que deslizam nas paredes parcialmente destruídas, como se de um relógio de sol se tratasse. Os sentimentos vão-se entrelaçando entre as quatro personagens como trepadeiras, formando uma espécie de quadrado amoroso entre Hana e os três homens com quem a jovem convive no dia-a-dia.

Com o misterioso doente que no hospital diziam ser “inglês” Hana entabula uma relação de dever que se mistura com a compaixão pelo sofrimento do ex-piloto, ao qual compara a um Cristo. Hana vê nele um mártir, com o corpo quase totalmente destruído pelo fogo. À compaixão soma-se a admiração, pelo ao saber e pela vasta cultura que aquele insiste em partilhar com a jovem. Em troca, Hana lê-lhe os livros que, entretanto, apodrecem na biblioteca, exposta às intempéries. Dedica-lhe também, um amor filial, semelhante àquele que sentiria pelo pai, falecido entrtanto.



Relativamente a Caravaggio, o mutilado de guerra, amigo de família - um homem de cerca de quarenta anos que começa a perder a sua fulgurante beleza - Hana trata-o como a um primo, ou tio, pelo qual tivesse tido um dia uma paixoneta de adolescente. Transfere-lhe um pouco da compaixão dedicada ao seu doente acamado, pois as dores em provenientes da mutilação dos polegares aquando da tortura, sofrida as mãos da Gestapo, obrigam-no também, a depender de morfina.
Caravaggio nutre pela jovem uma espécie de amor platónico, que se consolida pela resistência de que dá provas durante a estadia na Villa.

A relação que nasce entre Hana e Kip, o engenheiro mecânico perito em minas, é de outra natureza. A atracção erótica vai-se manifestando com o convívio diário, é intensificada pela sensação de segurança e protecção que lhe proporciona não apenas o saber técnico como perito em minas mas, sobretudo, pela postura de Kip em relação à vida, o equilíbrio, a serenidade e o sangue frio e, também, uma invulgar capacidade de adaptação à mudança.



Kip é meticuloso mas delicado, não possui o menor resquício de vaidade, exibicionismo ou tendência para a "vanglória". O desapego de Kip provém da crença de que a morte não existe, só a transformação, o que lhe dá uma certa invulnerabilidade em situações face às quais a maior parte dos ocidentais ficariam dominados pelo terror ou pânico.

1.2 Os diálogos de Almásy, o Doente inglês, e as restantes personagens

Para Almásy, Hana é o seu elo de ligação com o exterior. Depende dela para tudo. A jovem é simultaneamente a filha que não teve, uma irmã e uma mãe. É, também, a ouvinte. Hana é o público diante da qual abre a porta do próprio passado, guiando-a através de um tortuoso labirinto de memórias. Hana torna-se umo pretexto o ex-piloto libertar o páthos da sua paixão por Catherine, que parece sair de um dos clássicos dramas gregos. A narração é catarse.

E assim chegamos à acção secundária, embutida dentro da acção principal. O catalisador desta acção dramática é um livro de Heródoto, do qual Almásy jamais se separa e que lhe serve de base para as suas investigações como cartógrafo do deserto norte-africano.

O referido livro começa por captar a atenção de Hana, sobretudo pelas anotações nas margens e folhas soltas, inseridas entre as páginas da obra, levando-a a espreitar a vida secreta do seu”doente inglês”. O mesmo livro tinha antes atraído, também a atenção de Katharine Clifford, de forma irresistível, deixando-a fascinada por uma lenda antiga onde se misturam paixão, traição e vingança.

Caravaggio também se interessa pelo passado de Almásy, cuja identidade permanece incógnita, para os restantes ocupantes da Villa, durante a maior parte do romance. Caravaggio sente-se, ainda, dentro do seu papel de espião, apesar de a guerra estar praticamente acabada. Não mede esforços para encontrar um culpado para a sua condição de mutilado de guerra. Assume, por isso, o papel de advogado de acusação, se não mesmo o de juiz. Recorre, inclusive, a métodos questionáveis, sobretudo se aplicados a um doente: uma espécie de "soro da verdade", fabricado à base de uma mistura entre morfina e álcool.



Kip é o único elemento masculino que vive na casa com quem o doente “inglês” encontra afinidades. Lazlo Almásy é, também, um perito em bombas e armamento, tornando-se extremamente útil a Kip por conhecer com detalhe os engenhos alemães e a melhor forma de os utilizar. Kip admira-lhe um quase inesgotável reservatório de conhecimentos e o estoicismo. Almásy, por sua vez, admira a discrição, a destreza e o desapego do jovem.

2. O clássico triângulo amoroso


Almásy, Katharine e Clifford formam um triângulo amoroso, construído segundo os moldes das tragédias clássicas. A narrativa secundária, de que faz parte a vida passada do piloto e geógrafo Lazlo Almásy, acaba por ser a parte da memória que o mantém agarrado à vida, após o acidente. O próprio narrador, através do olhar de Hana, dá a entender que toda a vitalidade do “doente inglês” se encontra concentrada no cérebro e a maior parte da actividade mental, voltada para o passado.

A forma como Almásy conhece os Clifford, é anterior à guerra. Quando se dá o primeiro encontro entre o trio, em pleno deserto, esta é, ainda, uma possibilidade que se vai tornando cada vez mais verosímil. Quando a guerra está eminente, os conhecimentos de Lazlo tornam-se uma preocupação para os países Aliados, que receiam que o inimigo venha a beneficiar dos seus conhecimentos.

Almásy desconhece as intenções de Clifford. Este cativa-o com a sua jovialidade e displicência de milionário excêntrico. Mas a forte atracção sexual que surge entrea Almásy e Katharine é quase imediata, embora de início Almásy não se aperceba. O estado de paixão só se activa através do uso da palavra: primeiro quando a ouve declamar um poema e depois de a ouvir ler um episódio do seu volume de Heródoto: a história do Rei Candaules e de uma rainha de fatal beleza.

A lenda assume um pendor marcadamente feminista, por ao expressar a raiva de uma mulher que se vê exposta e exibida como um objecto. Katharine identifica-se com a personagem e acaba por precipitar os acontecimentos, como se o episódio narrado pelo historiador funcionasse como uma profecia e exercesse sobre as personagens uma espécie de sortilégio.
A paixão entre ambosperece estr, no entanto, directamente ligada ao sofrimento. A Almásy porque o começa a consumir o ciúme; a Katharine porque não suporta a duplicidade a que a obriga a condição de amante. Os próprios encontros entre ambos chegam a assumir uma faceta patológica: Katharine manifesta comportamentos algo violentos com Lazlo, maltratando-o fisicamente, o que faz com que a relação adquira laivos de Sado-masoquismo. O próprio colega de equipa de Lazlo, Maddox, chega a comentar as contusões e escoriações de Almásy, ao que este responde com galhardia mesclada de fleuma britânica.



A história de Katharine e Lazlo desenvolve-se de forma ligeiramente diferente da do rei Candaules. É o marido ciumento quem desencadeia a tragédia, numa altura em que a mulher e o rival já não são amantes, porque não suporta saber-se suplantado.

3. A morte de Maddox. A guerra como barreira afectiva

Maddox, o melhor amigo de Almásy, desempenha o papel de amigo, confidente e conselheiro embora se possa pensar que a afeição por Almásy ultrapasse a esfera da amizade. Maddox ocupa uma posição discreta na trama, mas de suma importância, uma vez que exibe um desgosto que parece avolumar-se à medida que a história de Lazlo e Katharine se desenrola.




Sobretudo depois de sempre ter desempenhado a função de “guardião” do amigo. É a personagem que mais se preocupa em alertar Almásy para que se mostre discreto na manifestação de qualquer tipo de sentimento envolvendo Katharine, chamando a atenção para o facto de Clifford ser um homem com muitos amigos influentes.

As circunstâncias em que se dá o suicídio de Maddox, já regressado a Inglaterra, durante um serviço religioso onde o sacerdote anglicano anuncia o início da guerra e aproveita para exortar a população a nela participar activamente, forma um dos episódios mais dramáticos do romance.




Maddox aproveita o discurso demagógico do pastor para demonstrar o que pensa face ao absurdo da guerra e protestar de forma violenta contra uma hipócrita e demagógica exortação ao morticínio em nome da conservação de um império, ao cometer suicídio. Maddox escolhe uma forma dramáticapara demonstrar um profundo desprezo e ao mesmo tempo dar largas ao desespero, enfatizando assim o repúdio categórico pelo absurdo da guerra, que se destina a sublinhar apenas e só, a estupidez do género humano e a avidez de uma minoria.




Um motivo não menos importante para esta atitude de Maddox é, porém, de ordem afectiva. É-lhe insuportável olhar alguém - Almásy - por quem sempre sentiu afecto, como um inimigo. Almásy torna-se, para os britânicos, persona non grata por ter vendido por seus conhecimentos aos Alemães, após ter recebido a recusa de auxílio por parte de um dos burocratas do exército Britânico na tentativa de socorrer Katharine.

Neste romance Michael Ondaatje utilizando a beleza da escrita e a descrição do absurdo para sublinhar a forma irracional em como a guerra divide pessoas. Situações como a de Almásy e Maddox, Almásy e Katharine e, até, entre Hana e Kip são disso exemplo.




O relacionamento do par romântico da narrativa principal não conseguiu, por exemplo, sobreviver ao final daguerra, apesar da cumplicidade nascida na rotina diária, da necessidade de partilha de um espaço exíguo e um esforço supremo de solidariedade entre os ocupantes da Villa em ruínas.


Na perspectiva de Ondaatje, o deflagrar das bombas atómicas em Hiroshima e Nagasaki do outro lado do planeta é capaz de destruir, também, o amor entre duas pessoas a milhares de quilómetros de distância: Kip, até então admirador da cultura ocidental e, particularmente, da eficiência e organização britânicas, passa a repudiar tudo o que lhe lembra o Ocidente e, sobretudo, o Imperialismo Britânico. Não suporta inclusive a presença da mulher que ama, apesar de nacionalidade canadiana.




Kip solidariza-se com os seus familiares na Índia, passando a partilhar dos ideiais revolucionários e desejo de independência do irmão mais velho, preso na Índia por questões políticas, pela contestação da presença de potências europeias noutros continentes.




Kip está convencido de que estas nações não são capazes de olhar os humanos com outras tonalidades de pele em termos de igualdade, ao contrário da propaganda política e demagógica que foi, na altura e no pós-guerra, largamente difundida pelos Aliados, uma vez que acredita ser impensável os EUA deflagrarem a bomba atónica no Velho Continente.



Os muros que se erguem durante a guerra parecem, inclusive, prolongar-se pela vida fora, muitas décadas depois do seu términus. De facto, as muralhas ideológicas erguidas depois da guerra colocaram o mundo sob tensão nas quase cinco décadas seguintes, agudizando-se com a situação no Médio Oriente, anos mais tarde, após a invasão da Faixa de Gaza por Israele com o barril de pólvora em que se transformaram as relações com países como o Irão, o Iraque e o Afeganistão.

O Doente Inglês foi escrito durante o interregno das duas guerras do Golfo Pérsico, nos anos 1990, podendo perfeitamente ler-se nas entrelinhas e pela atitude de Kip, o papel que tiveram os Aliados na formação das tensões geopolíticas que hoje se fazem sentir.



O que não se consegue explicar é a omissão no filme de Anthony Minghella da reacção de Kip ao lançamento das bombas como resultado do ataque a japonês a Pearl Harbour, optando antes por criar um final adocicado e pouco convincente para um filme que, apesar de tudo, conseguiu arrecadar o Óscar devido, muito provavelmente, à fotografia e ao excelente desempenho dos actores principais.

4. A escrita de Ondaatje



Do livro O Doente Inglês destacamos, para além da mestria com que Michael Ondaatje consegue encaixar uma estória dentro de outra, a beleza das páginas que falam dos ventos do deserto, da devastação da Europa logo após a retirada alemã, da descrição dos rituais das tribos nómadas do deserto, do vívido realismo colocado na descrição de exóticas melodias, saídas dos instrumentos musicais dos beduínos, da eficácia da medicina tradicional dos povos do deserto, com os seus inúmeros unguentos e mezinhas.

A escrita de Michael Ondaatje tem muito de poético. Trata-se aliás, como já foi mencionado, de um autor que conta, no seu curriculum, com vários volumes de poesia. Na prosa, as cenas retratadas que se revestem de um evidente teor poético, assemelham-se à descrição de quadros ou fotografias. Algo que facilita muito a adaptação ao cinema, pela composição de quadros ou planos detalhados, que parecem ajustar-se perfeitamente à objectiva de uma camaraman. As cenas descritas são como fragmentos de tempo, contextualizadas e explicadas pelos diálogos entre as diferentes personagens. Trata-se de uma escrita predominantemente visual e, em segunda instância, táctil e auditiva, como vemos na descrição do tilintar dos frascos de vidro do boticário que trata das horrendas queimaduras de Almásy.


Para o protagonista do romance, as pessoas desfilam diante de si como presentes oferecidos generosamente por uma entidade superior a quem não sabe se há-de chamar Deus, Sorte, ou Acaso.




Katharine, Clifford, Maddox e, depois, Hana, Kip e Caravaggio o boticário os colegas de equipa e muitos outros.



O romance pretende demonstrar que deixar as convicções desfazerem algo que lhe é superior pode preservar algo como a cultura, a identidade e a civilização mas perde-se algo que é vital: a felicidade.




Que sempre poderá estar do outro lado do muro.


Cláudia de Sousa Dias

15 Comments:

Blogger Catrapulhas said...

Boas.

Exma. Sra. Cláudia Sousa Dias, estava eu à procura de criticas literárias em relação ao livro de "Ensaio Sobre a Cegueira" , e encontro seu blog por mero acaso. Um feliz acaso, diga-se de passagem.

Resumidamente:Estou a desenvolver um trabalho sobre o já dito livro de José Saramago e gostaria de saber se posso transcrever algumas das suas opiniões para o meu trabalho?

Peço desculpa pela intromissão e, já agora, de não comentar o propósito do seu post, neste caso o livro.

Se possível, aguardo uma resposta.

Cumprimentos.

11:15 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Não vejo inconveniente algum, desde que cite o blogue e o autor do texto, colocando as frases dentro de aspas ou em itálico.


csd

10:49 AM  
Blogger Catrapulhas said...

Claro!

Em relação a isso pode estar descansada.

Muito obrigado.

Cumprimentos.

9:37 PM  
Blogger Ricardo Antonio Lucas Camargo said...

Assisti à película de Anthony Minghella há alguns anos, e não cheguei a ler ainda o livro. Contudo, compreende-se - embora não se justifique - o porquê de se ter suprimido do filme a reação de Kip à notícia da deflagração da bomba atômica. Dificilmente teria ele sequer sido indicado ao Oscar de melhor filme, se tivesse albergado esta passagem de real desumanidade por parte dos aliados, que vinham a aplicar ao Japão a mesma lógica que combatiam no Eixo - a varrição da face da Terra de quem não pudesse ser considerado irmão, para eles -. Curiosamente, Almasy, mesmo tendo-se colocado ao lado alemão durante a Guerra, se identifica com Kip, que supostamente seria "inferior", porque não ariano. Num certo sentido, acontece com Kip o mesmo que aconteceu com Gandhi: este, advogado formado em Oxford, com uma formação ocidental bem acentuada, apesar da presença forte das tradições de sua cultura de origem, num primeiro momento, dirigiu sua luta para que os indianos, enquanto súditos da Coroa inglesa, tivessem reconhecidas as prerrogativas inerentes à condição de cidadãos britânicos, até que o massacre de Amritsar, ocorrido em 1919, o fez entender que não teriam jamais reconhecido o direito inerente à cidadania, com o que mudou o foco para a independência.

4:06 AM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Bravo, Ricardo.

Acertou na mouche. A minha única e, quase diria irrelevante, divergencia é que Almásy seria ariano, além de aristocrata, e apesar de tudo coloca-se não só em pé de igualdade com Kip, mas mesmo antes do acidente nunca demonstra, em relação aos povos do deserto o mínimo de chauvinismo, actuando quase semprecomo um antropólogo em busca do conhecimento que pessoas de culturas diferentes lhe possam dar. Porque para Almásy, todo o conhecimento é riqueza, é dádiva. E tanto adquire conhecimento com um professor universitário como com o boticário do deserto, com os músicos, os comerciantes nómadas, etc...


csd

12:42 PM  
Blogger Rosa dos Ventos said...

Vi o filme, não li o livro!
Creio, a partir do teu post, que é de ler...

Abraço

12:42 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Sim. O livro consegue superar o filme, de longe, Rosa.

As pessoas poderão é ficar surpreendidas pelo facto de se tratar de uma leitura muito menos comercial do que aquilo que seria de supor, sobretudo pela capa do livro, escolhida pela Dom Quixote, que levaria a pensar tratar-se de um romance do género Nicholas Sparks...

Foi pena não terem escolhido antes a capa idêntica à da edição inglesa, a mulher diante do lavatório, numa das cenas a que o autor dá relevância no livro, em que Hana cuida da sua toillette, pela manhã...

csd

12:48 PM  
Blogger Ricardo Antonio Lucas Camargo said...

Realmente, não seria de grande monta a divergência. Até porque, sendo aristocrata, também dentre os nazis - cujo plebeísmo, cuja vulgaridade não deixavam de provocar um desprezo absoluto no poeta elitista Stefan Georg - estaria Almasy algo deslocado. Ele se liga aos alemães muito mais por uma vingança contra a burocracia inglesa - neste sentido, pode-se dizer que a história exprime um certo romantismo tardio - do que por uma afinidade ideológica. Agradeço, por meu turno, a visita realizada ao meu blog.

3:04 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

É fantástico poder continuar a tertúlia sobre o livro e o filme que teve lugar, em Abril, na biblioteca, mas agora on-line e com o outro lado do Atlântico, juntando-se às pessoas que cá estiveram presencialmente!

É verdade que os nazis tinham uma postura insuportavelmente snob, tentando mostrar em muitos casos aquilo que não eram: donos de um ecletismo cultural de caracter renascentista.

No entanto, fatiavam segregavam a arte da mesma forma que segregavam as pessoas.

Grande parte deles eram incultos, faziam-se passar por grandes senhores, de que muitas vezes só tinhama aparência. Noutros casos, não. Exibiam realmente os predicados que Hitler, Himmler, Goebbels, Göering e outros invejavam, como o caso de Karajan, Heidegger entre outros.

csd

11:38 AM  
Blogger Ricardo Antonio Lucas Camargo said...

Com toda a certeza, a cúpula do Partido era composta de indivíduos dotados de uma cultura superficial, embora homens de grande estatura intelectual também se tivessem ligado ao NSDAP - além dos já mencionados Karajan (a quem agradeço meu primeiro contato com a 9ª Sinfonia de Beethoven) e Heidegger (cuja presença no pensmento de Hannah Arendt vai muito além da simples reverência da ex-aluna - e ex-amante -), Carl Schmitt, Karl Larenz, Ernst Forsthoff, Hans Frank ainda têm uma grande influência no pensamento jurídico e político, tanto no Brasil como em Portugal -. Mas, retornando ao "Doente inglês", há uma outra dimensão que se coloca, que foi explorada também no filme: a de não se confinar a irracionalidade ao lado dos alemães, revelando-a, também, no lado dos ingleses, quando Almásy é aprisionado ao pedir ajuda para Katherine. A própria eleição do NSDAP foi fruto muito mais do medo de uma possível bolchevização da Alemanha, caso o SPD lograsse êxito, do que propriamente de uma afinidade da maioria do povo alemão com os postulados daquele Partido. O grande escritor brasileiro Monteiro Lobato (1882-1948), na sua História do mundo para crianças, contemporâneo dos acontecimentos, oferece esta explicação, que me parece bem plausível. O medo engendrando a loucura, documentada por Thomas Mann no Doutor Fausto...

3:05 AM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Que Maravilha...Obrigada MESMO pela colaboração na tertúlia, Ricardo. Um abraço de terras Lusas....


:-)

CSD

1:12 PM  
Blogger Blondewithaphd said...

Esta é daquelas traduções em que o Português não me seduz. Não sei porquê, "Doente Inglês" falta-lhe o pacientar imóvel do "Patient" em Inglês (enfim, coisas de eu não ter nascido nesta língua). Depois, o filme é daquelas raras instâncias em que a imagem, o guião não se ficam naquele aquém magoado da adaptação face ao livro. Aliás, à excepção de "Out of Africa", acho sempre a palavra escrita melhor do que o filme. E sim, grande escolha literária e cinematográfica.

5:23 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Em relação à tradução do título concordo, blodewithphd, embora haja casos ainda piores.

Em relação a out of Africa, ainda não li..


csd

10:31 AM  
Blogger Nanda Fala... said...

Mas aqui no Brasil é O Paciente Inglês, que eu acho cai melhor...
Lindo livro... belíssimo filme.

Abraços!

9:03 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

isso é óptimo...

;-)


csd

10:19 AM  

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