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Tuesday, April 13, 2010

“A Lista de Schindler” de Thomas Keneally (Ed. Notícias)



Thomas Michael Keneally (1935), de origem Irlandesa, cresceu na Austrália encontrando-se, actualmente, a viver em Sidney. Da sua bibliofrafia constam títulos como The Chant of Jimmie Blacksmith, Confederates (que o levou a empreender uma exaustiva investigação da História doa Estados Unidos no século XIX). Schindler's Ark - o título original do romance que aqui tratamos - esteve na base da adaptação cinematográfica de Steven Spielberg com o título Schindler's List (A Lista de Schindler).
Thomas Keneally foi finalista do Man Booker Prize em 1975 e 1979, vencendo apenas em 1982, precisamente com A Lista de Schindler.

A ideia para a construção deste romance, implicou uma a reconstituição exaustiva do período que mais marcou a humanidade na conturbada história do século XX. O projecto surgiu durante um passeio turístico aos Estados Unidos, durante a qual foi ter a uma loja de malas em Beverly Hills, cujo proprietário era, nem mais nem menos, do que um dos sobreviventes de Schindler. A base do romance surge-nos, então, através de um primeiro relato de Leopold Pfeferberg, uma das personagens da trama.

A partir daí, o autor travou uma autêntica odisseia em busca dos restantes elementos da referida “lista”, um pouco por todo o Globo. O relato de Keneally acerca do período áureo do empresário Oskar Schindler, baseia-se em entrevistas a cinquenta sobreviventes dos trabalhadores da Emalia ou Emailwarenfabrik que, na altura, se encontravam distribuídos por cinquenta países diferentes: Austrália, Israel, Alemanha Federal, Áustria, Estados Unidos e Brasil.

A estrutura romanesca da obra adequa-se à magnitude de uma personagem cujo carisma acabou por transformá-lo numa figura lendária. A capacidade demonstrada por Schindler em cativar, a facilidade em estabelecer amizades e uma extraordinária capacidade de comunicação parecem ter sido os ingredientes que, combinados com um temperamento hedonista e uma boa dose de astúcia, parecem ter resultado numa atraente combinação de amoralidade e generosidade à qual se misturam uma pitada de oportunismo e um temperamento dotado de um incomensurável pendor humanista.

Os diálogos foram objecto de reconstruções ou recriações plausíveis, tendo por base fragmentos recolhidos a partir das recordações dos Schindlerjuden.

A acção desenvolve-se em várias cidades do Leste Europeu, como é o caso de Cracóvia, na Polónia, cidade onde Schindler instala a sua Emalia; em Plaszów, o campo de trabalho de Amon Göeth; em Zablocie, mais propriamente na Rua Lipowa – o gueto onde se concentravam os judeus da cidade, obrigados a deslocar-se em transportes públicos, destinados exclusivamente a esta etnia, para trabalharem na fábrica de Schindler; em Auschwitz- Birkenau, o campo de extermínio onde, devido a um mal-entendido burocrático, vão parar alguns dos trabalhadores de Schindler; em Brinnitz, na Checoslováquia, para onde é trasladada a Emalia já durante o recuo alemão nos territórios ocupados no leste, de forma a fugir ao ataque das legiões comandado por Estaline.

O autor, para além dos relatos dos sobreviventes, socorre-se também, de provas documentais: filmes, documentários e documentos em papel originais, da época.

A hitória inicia com um prólogo que consiste na descrição de numa fase mais avançada da narrativa (prolepse), em 1943, regressando depois a 1939, no primeiro capítulo. O seguimento da narrativa prossegue, depoisn de forma linear até ao final da guerra e termina com um epílogo, à laia de conclusão, com a morte de Schindler em 1974 (curiosamente no ano em que Portugal cai o regime fascista).
A tonalidade impressa no discurso narrativo é quase a de um relato jornalístico ou crónica. Revela, no entanto, algumas marcas literárias: o autor recorre frequentemente à ironia ou ao humor apimentado e seco tipicamente alemão, quase sempre de teor sexual, com que inicia logo o primeiro capítulo no diálogo entre Schindler e o motorista:

- Cuidado com o piso Herr Schindler – disse o motorista - . Está tão gelado como o coração de uma viúva.


Personagens Principais

Schindler surge-nos, logo na primeira entrada em cena, como um homem acessível, a quem o motorista tem o à vontade suficiente para contar, sem perigo, uma anedota, como se fossem camaradas.
Existem, também, ao longo da obra, vários aspectos susceptíveis de torná-la adaptável ao grande écran. Por exemplo: o autor mostra ter-se deparado com a difícil missão de, em literatura, escrever sobre a virtude de um ser humano em particular, preferindo optar pelo seu significado literal, vindo do latim (Virtus = coragem), ao invés de incidir no significado atribuído pelo senso comum (bondade, castidade) ou sobre apenas a maldade humana, isto é, os “pecados” da História. Sobretudo porque Oskar Schindler não seria um homem virtuoso no sentido convencional do termo – não era casto, nem santo, nem ingénuo; gostava de mulheres, gostava de beber. Tinha duas amantes fixas, apesar de estar casado com Emilie: Ingrid, a cantora alemã e Vitória Klonowska, a fiel secretária polaca.

Era um grande amante e um grande bebedor: fazia-o socialmente, com os funcionários públicos, sócios ou burocratas e fazia-o por prazer, como na cena passada no café, onde reuniu as pessoas de quem mais gostava para uma agradável noite de pândega.

Era, também uma grande fumador, mas “controlado” (…) Era uma homem calmo. As mãos nunca denotavam tensão. Era elegante.

O sentimento de Oskar em relação a alguns SS em particular era o de um desprezo sociável e cordial por não lhes apreciar a “destemperança”.
As origens de Schindler explicam, em grande parte, o seu carácter: vindo de uma família de classe média alta e da alta burguesia da Boémia (Checoslováquia), Schindler foi, durante a juventude, o típico playboy, tornado popular pela exibição dos mais actuais – para a época – veículos de duas e quatro rodas, participando em competições, ao lado de pilotos de vanguarda europeus, durante o interregno entre as duas Grandes Guerras. O desejo de ultrapassar o pai no que respeita ao sucesso como empresário, acusando-o de perdulário e culpando-o pelo divórcio cegava-o, a ponto de não conseguir perceber que geria a sua própria vida exactamente da mesma forma.

Herr Schindler pai, durante os momentos que se seguem à reconciliação com o filho no café, incitado por vários amigos, alerta o filho para o descalabro em que se pode tornar a sua relação com figuras ligadas ao partido nazi:

O destino, dizia Herr Schindler, não era uma corda sem fim. Era um pedaço de elástico. Quanto mais se avançasse, mais violentamente se era atirado para trás, para o ponto de partida. Era isso que a vida, um casamento fracassado e a crise económica, haviam ensinado a Herr Schindler.

Trata-se de palavras sibilinas e subliminares que, provavelmente, ficaram no subconsciente do filho e o levaram a considerar sempre os dois lados da questão nazi e a ter constantemente o cuidado de não humilhar nenhum dos lados.

Itzahk Stern é uma personagem chave no romance e na vida de Shindler. Foi um dos seus maiores aliados e a peça fundamental que o ajudou a arquitectar todo o edifício da Emalia, no sentido de ser uma cobertura de uma das mais importantes bolsas de resistência e de acolhimento a refugiados cujo destino seria provavelmente um campo de extermínio. Stern começa por estabelecer com Schindler uma cautelosa relação profissional. É perito em contabilidade e finanças, um ex-empresário, cujos bens foram expropriados e confiscados pelo estado alemão e cuja competência o coloca a serviço de Oskar.
O ex-empresário judeu consegue, no entanto, detectar o imenso potencial humano, sob a aparência de frivolidade, que é espírito de solidariedade de Oskar Schindler. Ambos gostavam de se entreter a discutir religião comparada apesar de Schindler não ser nem filósofo nem erudito.

Detestaria ser padre, acrescentou Herr Schindler, numa era como esta, em que a vida vale menos do que um maço de cigarros. Stern concordou mas, dentro do espírito da conversa, sugeriu que a referência que Herr Schindler fizera à Bíblia poderia ser resumida por um verso do Talmude que dizia que aquele que salva uma vida salva o mundo inteiro.
- Claro, claro – disse Oskar Schindler.
Com razão ou sem ela, Itzahk sempre acreditou que fora nesse momento que lançara à terra a semente certa.

Com Vitória Klonowska, Schindler mantém, durante largos anos, uma relação híbrida de amante e laboral, período após o qual esta se metamorfoseia numa sólida amizade.

Victoria Klonowska, uma secretária, polaca, era a beleza do escritório principal de Oskar, que iniciou imediatamente um longo caso amoroso com ela. Ingrid, sua amante alemã, deve ter sabido disso, tal como Emilie Schindler sabia da existência de Ingrid, pois Oskar recusar-se-ia sempre a ser um amante sub-reptício. Em relação à sua vida sexual revelava uma fraqueza infantil. Não era que se gabasse. Só que nunca via necessidade de mentir, de entrar furtivamente nos hotéis pelas escadas das traseiras, de bater discretamente à porta de qualquer rapariga, a altas horas da noite. Uma vez que Oskar não fazia qualquer tentativa séria de contar mentiras à suas mulheres, as opções destas ficavam reduzidas: era difícil travar as discussões típicas dos amantes.

Já o anti-herói, o Hauptsturführer Amon Goeth, manifesta o comportamento oposto em relação às mulheres, gostando inclusive de recorrer à violência física como forma de excitação. Excessos e sadismo parecem ser as principais marcas da personalidade deste capitão das SS.

Como superior de Goeth, Scherner poderia ter ordenado a Goeth que deixasse de espancar a rapariga. Mas isso teria sido um comportamento errado, teria estragado as divertidas festas na moradia de Amon. Scherner ia lá, não como superior hierárquico, mas sim como amigo, sócio, galanteador e apreciador de mulheres. Amon era um tipo estranho, mas ninguém organizava festas como ele.

Em termos físicos Goeth está quase ao nível de Schindler, mas rodeado de uma certa aura de escuridão, o que faz entrever as nuances mais sinistras da sua personalidade, camufladas por uma delicadeza que encantava a quem queria cativar. Era tão calculista e encantador quanto Schindler, mas o encanto era dirigido apenas a quem admirava, sendo desprovido de qualquer sentimento de compaixão.

O rosto de Goeth era aberto e agradável, um pouco mais comprido do que o de Schindler. As suas mãos, apesar de grandes e musculosas, tinham dedos esguios. Era sentimental em relação aos filhos, os filhos do seu segundo casamento, os quais, por causa de estar de serviço no estrangeiro, não vira com assiduidade durante os últimos três anos. Para compensar, era por vezes atencioso com os filhos dos seus camaradas. Também podia ser um amante sentimental mas embora se assemelhasse a Oskar em termos de voracidade sexual geral, os seus gostos eram menos convencionais, abrangendo por vezes os seus camaradas masculinos das SS e, com frequência, o espancamento de mulheres.

(…)

Mas o elitismo nazi de Goeth mostra-se em toda a sua plenitude no relato da morte de Diana Reuter.

Pela forma como ela caminhou para junto dele, Amon conseguia aperceber-se da elegância falsa com que seus pais, de classe média, a tinham criado, os modos europeus que lhe tinham inculcado, mandando-a – quando os polacos honestos não a aceitavam nas suas universidades - para Viena ou Milão para lhe darem uma profissão e uma colocação mais protectora. Dirigiu-se a ele como se a sua posição e a dele os juntassem numa batalha contra sargentos aparvalhados e a mestria inferior com que qualquer engenheiro das SS supervisionara a abertura dos alicerces. Não sabia que era aquilo que ele mais odiava – o tipo de pessoa que pensava que, mesmo contrariando a evidência do seu uniforme das SS, daquelas estruturas que estavam a erguer-se, não eram visíveis as suas características judaicas.


A corrupção em tempo de crise

Os subornos são outra questão exaustivamente descrita n’A Lista de Schindler. Estes são utilizados sobretudo com alguns elementos das SS, especialmente ávidos de ouro, jóias, obras de arte e géneros alimentícios ou de consumo que rareavam na época e só se conseguiam obter no mercado paralelo. Os bens essenciais como o pão, o café ou ainda artigos de vestuário de qualidade eram, também, muito cobiçados. O funcionalismo público, o staff que servia de suporte ao nacional socialismo era, também, frequentemente objecto de suborno, principalmente em situações que implicavam o eliminar de barreiras burocráticas. O mesmo processo era, também, aplicável aos membros mais venais do Exército da Abwehr e da Força Aérea, a Wermacht.

Oskar lembrara-se do chefe da polícia no último Natal, enviando-lhe meia dúzia de garrafas de conhaque. Agora que o poder do homem aumentara, no próximo ano o presente seria ainda maior.

(…)

O Guetto: protecção ou matadouro?

O sentimento acerca da construção do guetto na Rua Lipowa, em Cracóvia, não foi, inicialmente, mal-vista pela população judaica da cidade. Os judeus de Cracóvia sentiam-se, na sua maior parte, mais resguardados do ódio em geral, quer dos militares quer das populações locais.
A mudança de opinião dá-se ao tomarem consciência das condições de acondicionamento: não só em termos de espaço, mas no que toca ao fornecimento de água e ausência de saneamento. Além que a aglomeração torna-os num alvo fácil durante os massacres, seguidos da rapina, imediamente após o extermínio. Um dos aspectos que confere o carácter de fidedignidade e fialidade à obra é que os relatos destes sobreviventes de Schindler não escondem, também, a venalidade na actuação de membros dos Judenraten, em franco colaboracionismo com autoridades alemãs.

Oskar ficou a conhecer bem uma nova figura, um antigo vidraceiro chamado Symche Spira, o novo homem forte da OD. Spira provinha de meios ortodoxos, tanto por razões que se prendiam com a sua história pessoal como de temperamento, desprezava os judeus liberais e europeizados que faziam parte do Judenrat. Recebia ordens não de Artur Rosenzweig mas do Untersturmführer Brandt e do quartel general das SS que ficava do outro lado do rio.
(…)
O seu uniforme deixou de ser o boné e a braçadeira, que foram substituídos por uma camisa cinzenta e calções de cavalaria, um cinturão e reluzentes botas de SS.
A secção política de Spira iria muito para além do que uma cooperação de má vontade exigia; estava pejada de homens venais, com complexos, cheios de um ressentimento já velho por causa das desconsiderações sociais e intelectuais que lhes haviam sido infligidas, noutros tempos, por membros respeitáveis da classe média judia.
(…) Iniciaram uma carreira de extorsões e de elaboração de listas, para as SS, onde constavam o nomo dos residentes do guetto que consideravam insatisfatórios ou sediciosos.

O vermelho da solidariedade: o grito de guerra contra a indiferença

A cor vermelha é por si só, reaccionária, incitando ela própria à acção. E, no livro de Keneally e, também, no filme de Spielberg, a criança de vermelho desempenha um papel que se reveste de uma carga simbólica muito forte – o vermelho é a cor da solidariedade, da fraternidade. A cor vermelha é um elemento chave do romance por estar directamente ligada à faceta da personalidade de Schindler, a compaixão e generosidade, que explica o seu comportamento nos capítulos que se seguem ao seu aparecimento, durante uma rusga na Rua Lipowa, que termina com um massacre. Genia, a criança de vermelho que chama a atenção, primeiro pela cor com que se veste e, depois, pelo seu ar inofensivo e desprotegido, consegue despertar a tomada de consciência relativamente às proporções que está prestes a atingir aquilo que Oskar encarava até ali como uma “loucura colectiva temporária”.

A criança chegara a casa dos Dresdner, no lado oriental do guetto, ao final da tarde. Fora trazida de volta para Cracóvia pelo casal polaco que estivera a tomar conta dela, no campo. Tinham conseguido convencer a Policia Azul polaca, junto do portão do Guetto, a deixarem-nos entrar para negócios, e a criança entrou como sendo deles.
Eram pessoas honestas e sentiam-se envergonhados por a terem trazido do campo, para Cracóvia e para o guetto. Era uma rapariguinha encantadora; estavam ligados a ela. Mas já não se podia ter uma criança judia na província.
(…) A criança não parecia sofrer grandemente com as imundícies que o guetto agora lhe impunha.
(…) A senhora Dresdner reparou quão estranhamente contida a criança era nas suas respostas. No entanto, tinha as suas vaidades e, como a maioria das crianças de três anos, uma cor que preferia com paixão. Vermelho. Ficava ali sentada, com um boné vermelho um casaco vermelho, pequenas botas vermelhas. Os camponeses tinham-lhe satisfeito a paixão
.

A criança de vermelho ilumina o romance como a chama de uma vela, brilhando no meio do cinzentismo e da escuridão de uma população conivente, colaboracionista, passiva. Ao vermelho ninguém consegue ficar indiferente. O vermelho é o elemento que sinaliza a extensão do grotesco que é a desumanidade que por vezes se manifesta nas formas mais impiedosas de canibalismo, mostrando o Homem como o mais terrível dos predadores em relação a si mesmo. Genia, com a sua indumentária e o seu ar perfeitamente inofensivo é o cordeiro sacrificial que ilumina, aos olhos de Oskar enquanto passeia a cavalo com Ingrid, no alto da colina por sobre a Rua Lipowa, o eficiente massacre orquestrado pelos SS (capítulo XV).

A criança é, para Schindler, o Arcanjo que lhe sopra a trombeta do Apocalipse directamente para o ouvido. O Inferno do Armageddon começa a partir do massacre na Rua Lipowa, como se vê no trecho que se segue:


Mas nesse Junho, todos os piores sonhos e boatos assumiram uma forma concreta e o boato mais inimaginável tornou-se realidade.
(…)

Enquanto se cavalgava ao longo do cume das colinas, ia-se revelando o mapa do guetto e podia ver-se, à medida que se passava por elas, o que estava a acontecer nas ruas, lá em baixo.

(…)

Ingrid e Oskar detiveram os cavalos à sombra das árvores e observaram atentamente, começando a aperceber-se dos pormenores da cena. Homens da OD, armados com bastões, colaboravam com as SS. Alguns daqueles polícias judeus pareciam cheios de entusiasmo, pois, ao fim de poucos minutos de observação, a partir das colinas, Oskar já vira três mulheres relutantes a serem espancadas nas costas. De início sentiu uma ira ingénua. As SS estavam a utilizar judeus para açoitar judeus. No entanto, ao longo do dia, viria a tornar-se claro, que alguns dos OD batiam nas pessoas para se livrarem de coisas piores.
(…)
Schindler reparou também que na Rua Wegierska, se estavam a formar continuamente, duas filas.

(…)

À medida que as pessoas eram arrancadas de dentro dos apartamentos, eram separadas à força nas duas filas, sem atender a considerações de família.

(…)

Uma fila de mulheres e crianças, não tão comprida estava a ser conduzida em direcção à Rua Piwna. Um guarda seguia à frente e outro à retaguarda. Havia um desequilíbrio na fila: encontrava-se nela muito mais crianças dos que as mulheres nela incluídas poderiam ter gerado. No final, saltitando, seguia uma criança de tenra idade, rapaz ou rapariga, vestida com um pequeno casaco e um boné escarlata. A razão porque atraiu a atenção de Schindler foi porque dizia alguma coisa, tal como acontecera com o operário que discutia na Wgierska. É claro que essa afirmação estava relacionada com uma paixão pelo vermelho.
Enquanto observavam o homem das Waffen SS que seguia na cauda da coluna estendia de vez em quando a mão e corrigia a trajectória daquela protuberância vermelha. Não o fazia com brusquidão – podia ser o seu irmão mais velho.
(…)

MAS foi um conforto fugaz porque, atrás da coluna que partira, com as mulheres e crianças, a que a criança de vermelho dava um toque expressivo, equipas de SS com cães entravam em acção a norte, ao longo dos dois lados da rua.

Entravam de rompante pelos apartamentos fétidos (…). E, correndo à frente dos cães, homens, mulheres e crianças, que se tinham escondido em sótãos e armários, dentro de cómodas sem gavetas, os que haviam escapado à primeira vaga de buscas, saíram pela rua, aos trancos e barrancos, gritando e arfando devido ao terror provocado pelos dobermann.
(…) Os que saíam eram abatidos no local onde paravam, no passeio, voando por cima das valetas devido ao impacte das balas, espirrando sangue para os esgotos.

(…) Schindler sentiu um medo intolerável por eles, um terror no seu próprio sangue que lhe afastou as coxas da sela e ameaçava fazê-lo cair do próprio cavalo.
(…)
Os seus olhos subiram a Krakusa até à criança de escarlate. Estavam a fazer aquilo a menos de meio quarteirão dela: não tinham esperado que a sua coluna desaparecesse da vista, na Josefinska. (…) Enquanto a criança de escarlate parou, na sua coluna, e olhou para trás, deram um tiro no pescoço da mulher e, um deles, quando o rapaz deslizou ao longo da parede, choramingando, calcou-lhe a cabeça com uma bota, como se pretendesse com isso mantê-lo quieto, e encostou-lhe o cano da arma à nuca – a posição recomendada pelas SS – e disparou.
Oskar procurou de novo a rapariga de vermelho. Parara, virara-se e vira a bota descer. Já aumentara a distância entre ela e o resto da coluna. Uma vez mais, o guarda das SS corrigiu-lhe a trajectória fraternalmente, empurrando-a de volta para a fila. Herr Schidler não conseguia compreender por que razãi, não lhe batera com a coronha da espingarda, dado que na outra extremidade da Rua Krakusa a piedade fora abolida.
(…)
Sabia que não tinham vergonha, uma vez que o guarda que se encontrava na retaguarda da coluna não sentira qualquer necessidade de impedir que a criança de vermelho de presenciar tais coisas. Mas, pior do que isso, se não havia vergonha, havia aprovação oficial. Agora já ninguém podia encontrar refúgio atrás da cultura alemã, nem por detrás das afirmações proferidas pelos dirigentes para evitar que os homens anónimos saíssem dos seus jardins, olhassem através das janelas dos seus escritórios e vissem as realidades dos passeios. Na rua Krakusa, Oskar vira uma demonstração da política do seu Governo que não podia ser ignorada, como se de uma aberração temporária se tratasse. Oskar tinha firme convicção de que os homens das SS estavam a cumprir as ordens do chefe, porque de outro modo, o homem que seguia na retaguarda da coluna não teria deixado que a criança olhasse
.


O episódio culmina com a dramática cena de eutanásia, aplicada aos doentes terminais a escassos minutos antes das SS invadirem o Hospital para a operação de “limpeza”, lembrando o acontecido na meseta de Masada, no tempo do Imperador Adriano.

O Homem como valor económico, desprovido do seu valor intrínseco

A Emalia, a fábrica de trens de cozinha e loiças de Schindler, é considerada um refúgio para os que nela trabalham, já que o patrão consegue convencer as SS e o Governo de que a sua indústria é essencial para a economia de guerra. Os seus trabalhadores, segundo eles altamente especializados e qualificados, possuem o Blauschein – o cartão azul – que os classifica como trabalhadores essenciais e os impede de irem para os campos de morte. Este é um tempo onde o homem, sobretudo se for judeu, não vale por si mesmo mas pela sua utilidade e pela capacidade de converter a sua força de trabalho em dinheiro para usufruto exclusivo daqueles que vivem à custa do seu trabalho. Os direitos dos trabalhadores esfumam-se e passam a ser considerados uma utopia. A palavra de ordem é a do extermínio de todos aqueles que não possuem valor económico: os mais frágeis. Ou os inúteis. Dentre eles, os deficiente, os doentes, os idosos e as crianças que não tem ainda força para trabalhar. E também os artistas e intelectuais. A não ser que façam a apologia do sistema e da ideologia vigentes.

Após o massacre, a entreajuda entre Schindler e Stern desenvolve-se e Oskar passa a colaborar sim, mas com a Resistência, que se ramifica pela Europa, muito para além dos limites da Polónia.
Schindler passa a afirmar ao seus companheiros: Conheces aquele Amon Goeth. Tem encanto. Podia vir aqui agora e encantar-te. Mas é louco.

Para além de Schindler, os judeus de Cracóvia contam ainda com a ajuda, embora mais discreta, de outro empresário que está nas boas graças do regime Nazi: Raimond Titsch, o industrial amigo de Oskar. Titsch empreendeu também, ao longo dos anos de guerra um “trabalho” com os judeus muito semelhante ao de Schindler, apesar de não chegar a expor-se tanto como este, que chega ao ponto de conseguir arrebatar Helen Hirsch das garras de Goeth recorrendo a um truque aparentemente frívolo como uma aposta.


Titsch empenhou-se em fotografar profusa e detalhadamente, o campo de concentração de Goeth, constituindo assim um vultuoso acervo de provas documentais. O pós-guerra passou-o na quase total obscuridade, por medo de represálias, desconhecendo-se o seu paradeiro.


O livro de Keneally deixa claro, também, até que ponto existiu uma aliança entre a Alemanha nazi e a Ucrânia.


Amon Goeth é mais tarde preso, ainda durante a guerra, pelas SS, acusado de peculato, mas só no pós-guerra é acusado e condenado por genocídio.
Segundo o Autor e os relatos dos sobreviventes, a ausência de sanidade mental daqueles que chefiavam as SS, está patente na minúcia dos processos ultra-sofisticados de extermínio, cuja despesa astronómica era de todo incompatível com uma economia de guerra. Para Schindler, Titsch e Stern o anti-semitismo teria muito menos a ver com razões económicas do que com razões psicológicas.

O mundo de Auschwitz é descrito como se fosse uma visita a um outro planeta, um mundo à parte totalmente incompatível com a nossa realidade quotidiana.

De entre todo este cenário, o Oskar Schindler deste romance aparece-nos como um mestre do bluff e do malabarismo psicológico utilizado de forma altruísta e aparentemente regido por motivações emocionais.


Se os motivos que estiveram na base desta conduta foram altruístas ou não isso será, talvez, o que menos importa discutir nos dias de hoje, dado que houve depois nas décadas que se seguiram, toda uma geração que descendeu até aos nossos dias, dos Schindlerjuden, espalhados pelo mundo.

O final do romance mostra que a personalidade de um Oskar Schindler nunca lhe permitiria obter o nível de riqueza incomensurável de que usufruiu sem ser numa economia de guerra, mas o facto é que esta foi delapidada na totalidade, sem olhar a meios para conservar vidas humanas. O que desculpa sem dúvida toda e qualquer pecadilho de cupidez. Lamentamos que Oskar Schindler não tenha sido clonado. Sobretudo nos tempos que correm.


Cláudia de Sousa Dias

5 Comments:

Blogger Rosa dos Ventos said...

Só vi o filme...e goste.
Costumo ficar decepcionada com os filmes depois de ler os livros que lhe deram origem.
Neste caso não sei como será se chegar a lê-lo.
Mas concordo contigo!
Por altuísmo ou por interesse o resultado final foi bem gratificante para aqueles que se salvaram e puderam continuar a existir nos seus descendentes!

Abraço

3:17 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

é a anatomia de uma crise económica nos seus mínimos detalhes. Acompanhada de uma crise de valores, da proliferação de uma ética distorcida baseada numa interpretação falaciosa das teses do Darwinismo Social, da filosofia de Nietzsche e Hegel.

CSD

4:19 PM  
Blogger Elsa said...

Apesar de nem sempre se perceber as suas intenções e os seus pensamentos, Schindler foi, e é, uma pessoa fascinante e merecedor de louvores, fãs, imitadores,...! O 'ponto fraco' dele, nomeadamente as mulheres, levaram-no a ter uma vida íntima um pouco fora do comum para aquela época, e mesmo para os dias de hoje. No entanto, essa questão da sua 'leviandade' com as mulheres deve ter sido levantada de propósito para demonstrar que o mortal comum com todos os seus defeitos é capaz de ter atitudes nobres e defender valores que não podem nunca ser esquecidos, em prol da saúde mental da sociedade.

3:39 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

é muito bom ter mais pessoas a postar esta obra. é monumental. não só pelo volume mas pelo detalhe.

adorei reler. Agora, em tempos de crise, com outros olhar fiferente de há seis anos atrás...


csd

3:58 PM  
Blogger Rani said...

Olá!!! Me chamo Bruna Paula, e gostaria muito de saber se alguém sabe de um site onde eu possa comprar esse livro em português, pois eu vi o filme e gostaria muito de ler o livro. Já fiz algumas buscas mas ainda não encontrei. Se alguém poder me passar essa informação fico muito grata e feliz. Há caso já tenha disponível também pra Ipad, fico grata. Meu e-mail oyamabp@hotmail.com

5:07 AM  

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