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Bibliomaníaca e melómana. O resto terão de descobrir por vocês!

Thursday, March 11, 2010

“As Horas “ de Michael Cunningham (Gradiva)





A construção deste desconcertante romance da autoria de Michael Cunningham desenvolve-se em três planos distintos – situados, também, em três momentos distantes no tempo – , mas desenvolvidos paralelamente e em sincronia, um elemento que se torna particularmente notório no filme de Stephen Daldry.



A trama envolve, assim, a história pessoal de três mulheres que, apesar de pertenceram a gerações diferentes, experimentam os mesmos dilemas e emoções a par um conjunto de angústias inquietantemente semelhantes. Estas parecem dar consistência ao fio condutor da trama principal e permitirem não só a aproximação dos tempos em que se desenrolam as três narrativas secundárias, as quais por vezes parecem sobrepor-se, de tal forma o autor nos faculta a visão, quase em simultâneo, dos mesmos gestos ou expressões (sobretudo no filme) das três heroínas.
As questões com que se debatem Virginia Woolf, Laura Brown e Clarissa Vaughan prendem-se essencialmente como o tédio, implantado como uma doença crónica, progressivamente destrutiva, que vai corroendo o quotidiano. E, também, a escolha da identidade sexual, dificultada pelos constrangimentos impostos pelas convenções sociais, bem como um forte desejo de autonomia e auto-realização.



O primeiro plano de acção foca os dilemas e angústias da escritora britânica Viginia Woolf, entre os anos 1920 e 1940, altura em que decide por termo à vida, afogando-se no afluente do Tamisa que passa próximo da sua casa, em Richmond. A história desta personagem baseia-se, sobretudo, nos diários da escritora e estende-se às restantes narrativas secundárias, influenciando a conduta e o destino das duas outras personagens femininas que, ao contrário desta, são puramente ficcionais. O episódio relativo a Virgínia, construído por M. Cunningham a partir dos seus diários, gira à volta da escrita do romance Mrs. Dalloway numa casa onde a luminosidade feérica e se declina numa escala de cinzentos não aquece nem dá vida ao ambiente interior, o qual contrasta violentamente com o verde luxuriante, embora sombrio também, do exterior. Virgínia, refugiada em Richmond, é tratada como uma boneca de porcelana pelo marido, o qual receia a sua fragilidade emocional. A escritora sente falta da vida trepidante da cidade, das animadas tertúlias com os intelectuais e escritores seus contemporâneos (entre os quais se encontravam James Joyce e D.H. Lawrence). As suas frustrações pessoais, a incapacidade de se fazer respeitar pelas criadas e a extrema solidão a que não consegue fazer face estão na base da construção da personagem e do romance “Mrs. Dalloway”, a qual se mostra sempre a anfitriã perfeita, que a própria Virginia jamais conseguirá ser, pois é incapaz de dar ordens. Para compensar-se procura refúgio na alegria e azáfama no convívio social de que se vê privada em Richmond para esquecer o vazio, o tédio que se agarra “como uma carraça ao dorso do quotidiano doméstico”. Às horas. Que passam em vão. Dia após dia.



A Clarissa Dalloway de Virginia Woolf inspira, anos mais tarde, já em pleno período do pós guerra e expansão económica nos anos 1950, a segunda heroína de Cunningham, Laura Brown, a qual se sente fascinada pela a personagem de Woolf. Laura fica de tal forma “viciada” no romance, a ponto de um dia alugar um quarto de hotel, por uma tarde, só para poder ler sem ser interrompida. O nome Laura Brown, dado por Cunningham, está também relacionado com a obra de Woolf, multiplicando, assim, as inúmeras intertextualidades e alusões referentes ao romance Mrs Dalloway. ~



A Laura Brown desta segunda época de As Horas é uma mulher culta, amante da literatura, que opta por se casar por ser aquilo que se esperava dela e não como impulso sustentado pela paixão. Está-se em plena década de 1950 e os ex-combatentes norte-americanos na Europa e no Pacífico procuram uma vida calma e estável de forma a compensar os horrores da guerra e recuperar a economia do país.



Laura, como muitas outras mulheres na altura tem, unicamente, por missão a de tornar a vida do homem com quem casa o mais agradável e confortável possível. Ao ponto de se sentir culpada por não conseguir, um dia, levantar-se Às 7:00 para conseguir preparar-lhe o pequeno-almoço, antes deste ir para o trabalho, por ter adormecido.



Laura, apesar de se dedicar a tempo inteiro ao trabalho doméstico e ao cuidado do filho, que a idolatra com paixão absoluta e edipiana, não consegue encontrar espaço ou tempo para si mesma. As tarefas domésticas ocupam-lhe, também, os pensamentos, a tempo inteiro, sempre iguais, sem variações e Laura sente-se a atrofiar. De dia para dia. E as horas, esmagam-na. Como se morresse um pouco a cada dia que passa.



No terceiro plano, temos uma mulher de meia idade, Clarissa Vaughan, no auge da carreira, embora sem grande desafogo económico, a viver em Nova Iorque, já na viragem do milénio, no final dos anos 1990, casada com Sally (outra personagem relacionada com a obra de Virginia com que a qual a heroína tem uma breve ligação amorosa na infância). O ex-marido Richard projecta nesta Clarissa, que conheceu nos anos setenta em tempo de Woodstock, a protagonista de Mrs. Dalloway de Woolf, uma personagem que faz parte das suas fantasias.



E esta Clarissa nova-iorquina é uma editora de sucesso relativo – edita livros excelentes mas que não são sucessos de bilheteira. No entanto, as elevadas expectativas, tanto pessoais como profissionais, parecem começar a ameaçar de forma ainda incipiente mas insidiosa, o equilíbrio emocional desta terceira personagem. Por outro lado, quer a azáfama da vida profissional quer a os conflitos que começam a emergir na relação com a filha Julia, não a deixam sucumbir à depressão como acontece com as outras heroínas do romance. A Clarissa, o vazio das horas não consegue instalar-se de forma a destruí-la. Ainda não. Mas a melancolia perece por vezes querer introduzir-se e ensombrar-lhe a felicidade nos momentos mais solitários.



A dimensão psicologia e identidade sexual das personagens


A primeira das heroínas de Cunningham, Virginia Woolf, sofre de episódios mais ou menos prolongados de depressão, que se transformam progressivamente em esquizofrenia, à medida que começa a ouvir vozes e a manifestar-se outro tipo de alucinações. Virginia é um ser extremamente sensível, tendo sido violada por um meio-irmão na infância. Cresce com um imaginação exacerbada e atribui múltiplos significados a detalhes que à maioria das pessoas passam despercebidos, como a morte do melro e as homenagens fúnebres que lhe prestam as crianças. Virginia é uma mulher que, mediante as convenções sociais do período post vitoriano nos anos 1920, se vê obrigada a abdicar da sua verdadeira identidade sexual ao reprimir a paixão adolescente pela sua primeira irmã, Vitória, e optar por um casamento convencional.
Virginia só se afasta da sua personagem, Mrs Dalloway, na medida em que esta é demasiado agarrada à vida: Mrs. Dalloway sobrevive no final do romance, tal como todas as personagens femininas de Cunningham das épocas posteriores, que se identificam com ela.



Richard, o único protagonista masculino é também aquele que estabelece o elo de ligação entre elas, servindo de ponte por forma a proporcionar a interligação das três estórias. Richard é também a única personagem que se identifica, em praticamente todos os aspectos da sua personalidade, com a primeira heroína, Virginia. Este possui a mesma fragilidade emocional, que despoleta o final trágico que escolhe para si, tal como a autora de As Ondas. É também, tal como Virgínia um ser de sexualidade predominantemente homossexual. E é, também, sexualmente abusado na infância mas por uma vizinha, como é sugerido pelo narrador. No entanto, apesar desta orientação sexual, não deixa de demonstrar algum sentimento de posse em relação à ex-mulher. No ambiente doméstico onde vive Richard é notório o contraste entre o glamour das festas dos lançamentos dos livros que escreve e a degradação, a obscenidade da miséria em que vive.



Laura Brown é uma mulher de identidade sexual ambígua ou ambivalente, sendo capaz de sentir uma espécie tipo de “desejo selvagem pelo marido”, proveniente do lado feminino da sua sexualidade e, por outro lado, um impulso de oferecer protecção, proveniente do seu lado masculino, como se vê na cena em que abraça Kitty, e de onde nasce um avassalador beijo clandestino.



Mas apesar de tudo, a Laura o papel expressivo é o único que lhe cabe ou lhe é permitido desempenhar na vida conjugal. Até ao dia em que decide tomar a atitude que desencadeia a mudança.



Quanto a Clarissa “Dalloway” Vaughan é, tal como Laura, uma mulher de sexualidade ambivalente, ora homossexual ora heterossexual, conforme as fases da evolução do ciclo de vida. Cunningham dá-nos assim a entender, sobretudo no percurso das personagens femininas, que a orientação sexual do ser humano não é algo de estático, geneticamente predeterminado, ao contrário do que defendem uma boa parte dos profissionais da psicologia/psiquiatria, mas algo de dinâmico, sofrendo modificações conforme as experiências sexuais vividas. Assim, Clarissa Vaughan tem uma paixão adolescente pelo também bissexual Richard Brown, escritor como Virgínia Woolf e, numa primeira fase, casado com uma mulher que se tornará editora – mais uma semelhança com o estado conjugal de Woolf no início da história.



Nos anos 1990, Clarissa é casada, já em segundas núpcias, com Sally. O amor homossexual de ambas é estável e agradável, mas Clarissa sente a nostalgia da juventude, da esperança e do infinito leque de possibilidades que este estado então representava, à medida que descobria ao paixão pelo jovem intelectual, que se deixava deslumbra pela sua beleza.



Clarissa é uma mulher activa, como a Mrs. Dalloway do romance, profissionalmente reconhecida mas não é rica nem tão valorizada profissionalmente como sally que no casal assume o papel sobretudo instrumental. Em contrapartida, a maternidade também contribui para a realização pessoal de Clarissa havendo, assim, vários factores que contribuem para o seu equilíbrio.


Laura e Clarissa, encontram a porta para a sobrevivência e estabilidade ao refugiarem-se no trabalho, no reconhecimento do seu valor pessoal e ao tomarem as rédeas da própria vida.
As outras duas personagens, Virginia e Richard são, por sua vez, consumidas pela doença que as afecta e pelo vazio das horas. Optam, no entanto, por fugir-lhes e suprimir a lenta espera dos dias sempre iguais, na antecâmara da morte.



Quanto às restantes personagens, as Horas, as Moiras, ou as Parcas apenas aguardam o momento certo para actuarem. Esperam pacientemente o instante de vulnerabilidade que lhes permitam cortar o fio da Vida.


Cláudia de Sousa Dias

13 Comments:

Blogger Rosa dos Ventos said...

Belíssimo livro que também deu um belo filme!

Abraço

2:52 PM  
Blogger oxalá said...

Já não posso escrever aqui com o meu blogue: não tem mais o «anónimo» e eu não sou do blogger nem do google!

6:42 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Concrdo Rosa dos ventos, a direcção do filme está fabulosa.

do livro destaco a sub narrativa respeitante a Virginia Woolf.


csd

10:31 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Oh...Oxalá, lamento mas tive de o fazer porque estavam constantemente a tentar colocar spam nos comentários...

mas fico na mesma contente por vê-lo aqui desta forma!

Obrigada pela visita...!

csd

10:34 PM  
Blogger Dalaila said...

já o li há tanto tempo que nem me lembrava, mas recordei-o aqui todo, tudinho.

12:47 PM  
Blogger Baudolino said...

Não li. Vi o filme apenas e gostei bastante.
Estou a ler uma coisa muito engraçada do George Steiner chamado 'My Unwritten Books', no qual ele fala de sete llivros que, por razões diversas~, não escreveu. É muito curiosa esta relação com um não-livro, com o não-objecto. Curioso mesmo.
Abraço

6:21 PM  
Blogger Baudolino said...

Ah e tenho já 'em carteira' 'Antigas e Novas Andanças do Demónio, de Jorge de Sena. Estou em pulgas para começar mas... é o início do semestre e há formulários de acreditação de cursos para preencher e... coisas que não dão tréguas à leitura...

6:23 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Isso é bom, Dalaila...!

tenho saudades tuas.


csd

10:23 AM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

O livro é bom Baudolino.


Mas este é um dos casos raríssimos em que o filme consegue ser ainda melhor.

:-)

csd

10:24 AM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Olha, Bau, não sei o que aconteceu ao teu comentário sobre o livro Jorge de Sena que eu estou convencidíssima de que publiquei...

no entanto, neste blogger estão a acontecer coisas estranhíssimas. Como escrevi num e-mail que enviei há pouco, "yo no creo en brujas, pero que las hay...!"


csd

10:29 AM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

ah...cá está ele...

O título é sugestivo...


:-D

csd

2:45 PM  
Blogger Baudolino said...

E há textos muito interessantes nesse livro.
Quanto ao blogger, ele tem razões que a própria razão desconhece. Mas cá vamos ficando, acontece em todos os sítios que suportam páginas deste género, por mais que digam que x é melhor ou y mais fiável...
Se formos conformistas apenas no recurso ao blogger, podemos dormir descansados, não é?
:-)

P.

11:23 AM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

A quem o dizes!

agora o meu arquivo de Fevereiro de 2005 só está publicado parcialmente. Desapareceram 21 textos a que só tenho acesso nop editor...

csd

10:20 PM  

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