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Monday, February 22, 2010

“O Carteiro de Pablo Neruda” de Antonio Skármeta (Teorema)




O livro foi recentemente reeditado pela Teorema, aproveitando o período durante o qual António Skármeta manifesta a intenção de ficar uma temporada em Portugal, com o objectivo de escrever um novo romance.


O Carteiro de Pablo Neruda comporta duas narrativas: a paixão telúrica do carteiro Mario Jimenez e Beatriz, a jovem filha da dona da taberna da povoação próxima de Isla Negra onde se refugia o poeta Pablo Neruda.


A paixão ou o desejo adolescente de Mario Jimenez é a mola que impulsiona, dando vida e movimento à narrativa principal, entrelaçando-se nesta como uma liana. Esta mesma narrativa principal ou narrativa de primeiro plano é a estória do desenvolvimento da amizade entre o carteiro, um homem simples e o cultíssimo poeta humanista que foi Pablo Neruda. Mesmo aqui, o Autor consegue criar uma intertextualidade com a obra poéticade Neruda pela preferência temática direccionada às classes trabalhadoras, como por exemplo na Ode al hombre sencillo.


Mário, quase analfabeto ou possuindo apenas competências de leitura que apenas lhe permitem descodificar palavras escritas, debate-se com uma dificuldade: como declarar-se à mulher que ama e mostrar-lhe o que sente, quando mal consegue articular uma frase diante dela, receando, cada vez mais, expor-se ao ridículo. Decide, então, recorrer à eloquência do Poeta e à invulgar expressividade de Neruda para conquistar a amada. A amizade cresce à medida que o poeta mostra ao carteiro, oriundo de uma família de pescadores, os vários níveis de compreensão da leitura, iniciando-o na magia da escrita criativa e, em particular, da poesia.


O próprio Antonio Skármeta foi um jovem tímido, apaixonado platonicamente pelas belas actrizes da época (anos 1960), mas que experimentava uma grande dificuldade em aproximar-se das jovens com quem convivia diariamente. Por outro lado, Skármeta desejava escrever livros e guiões de cinema procurando, simultaneamente, fazer com que Neruda lhe escrevesse o prefácio do seu primeiro livro. Da mesma forma, Jimenez tenta, no romance, propor ao Poeta que lhe escreva as cartas de amor a Beatriz.


Por outro lado, no segundo plano narrativo, o intenso erotismo que se coloca na relação entre Mário e Beatriz cria um intenso contraste face tranquilidade subjacente aos termos em que se estabelece a amizade entre o carteiro romântico e o Poeta. Este contraste entre os dois planos narrativos, aliado ao estilo fluido e coloquial de Skármeta, confere um ritmo trepidante à história que se lê com o mesmo prazer com que se saboreia um gelado a uma temperatura de 40 graus. Da mesma forma, o tom coloquial e a precisão com que descreve os movimentos das personagens tornam a escrita de António Skármeta especialmente talhada para uma adaptação ao cinema, patente em todo um trabalho voltado para a construção de uma narrativa dinâmica, com muito poucos momentos de pausa e sem dar margem a dispersões ou divagações como é comum num romance.

Paixão e Poesia


Em O Carteiro de Pablo Neruda a intensidade de sentimentos é demonstrada pelo erotismo e voluptuosidade colocados no discurso da personagem que é Neruda quando fala do amor. Voluptuosidade que é depois projectada depois pela imaginação do Autor que é Skármeta, no olhar de Mario Jimenez, quando focado em Beatriz. A mesma voluptuosidade Nerudiana cheia de teluricidade é expressa no cantar do espectáculo da Natureza - tema tão ao agrado do Poeta de quem se diz incarnar a alma do Chile – e que é captada no gravador de fita magnética de Mario Jimenez para que o Poeta possa ouvir os sons chilenos durante uma estadia forçada em Paris. O mar, por exemplo, para este Neruda (re)construído por Skármeta, exprime aquilo que é para o Poeta a força indomável da paixão. O mar entra no ritmo da poesia de Neruda como a maré, sendo disso exemplo diálogo entre o carteiro e o Poeta onde aquele lhe explica a noção física de ritmo e o significado de metáfora.


A personagem de Mario Jimenez consiste num homem simples – un hombre sencillo – quase analfabeto, mas com a capacidade invulgar de se deslumbrar com a beleza das palavras e das imagens que estas passam para os homens. Esta sensibilidade deve-se, talvez, a uma natureza melancólica, contemplativa e introspectiva. Daqui só poderia nascer uma forte amizade, pois trata-se de dois seres românticos, com uma apetência especial para fruir o Belo, que muito os aproxima dos gregos do período clássico, e que encontram na solidão o espaço de que necessitam para a interiorizar.


A personagem D. Rosa, dona da taberna e mãe de Beatriz representa o pragmatismo, o quotidiano e a realidade. Mas é, apesar de tudo, uma mulher capaz de se comover com os sonetos de Neruda que lia quando jovem, apesar de, no dia a dia, não dar largas à veia romântica,devido às responsabilidades acumuladas: gerir os negócios, atender os clientes, educar uma filha e zelar pela sua segurança. Em D. Rosa os sentimentos são refreados pela cautela que surge do medo da miséria.


Estilo


Os diálogos são marcados pelo nonsense, provocadores e povoados de ironia. O gosto pelo erotismo e o idolatrar da imagem do corpo feminino, incarnado na personagem de Beatriz, transformam a Mulher num objecto de culto, tal como a outra personagem com o mesmo nome o foi para Dante Alighieri. Um facto que é aludido num dos muito diálogos entre o carteiro e o poeta, que se servem da poesia para canalizar a devoção a um amor erótico sublimado. Em toda a obra, a beleza é extraída através da expressividade máxima, retirada das palavras que, em toda a sua simplicidade, são dirigidas ao coração dos homens.


Enquadramento Histórico


A estória O Carteiro de Pablo Neruda é dotada de valor documental por se enquadrar num período de convulsões políticas e económicas da História contemporânea do Chile e das circunstâncias em que se dá a morte de Pablo Neruda.
A obra de Skármeta só vem confirmar que, no Chile – tal como na maior parte dos países da América Latina –, a poesia não é do domínio exclusivo de uma elite, como se verifica na cena que descreve o funeral de Neruda e de que existem registos televisivos a confirmar a sua veracidade.
Mas na altura em que Neruda agoniza devido ao avanço da doença, isolado na sua casa em La Isla Negra, encontra-se perfeitamente lúcido em relação à situação política do país, envolvendo a morte de Allende e dos abusos de poder perpetrados por Pinochet. Apercebe-se das consequências no quotidiano das pessoas e da mudança da direcção dos ventos ideológicos, que assola o país como um maremoto. É nesta altura que escreve o livro Jardim de Inverno de onde sobressai o poema Outono, que anuncia um período de obscuridade num país onde a livre expressão dos pensamentos, sem o espartilho da censura, só pode ocorrer “na sombra”, isto é, na clandestinidade.

É neste contexto que se cria, na obra de Skármeta, a dramática cena do assomar à janela, nos últimos parágrafos antes do epílogo, quando o doente se levanta da cama para contemplar, pela última vez, o sinistro mar revolto, ameaçador.

Os esbirros de Pinochet preparam-se para lhe invadir a casa mas o Poeta já só consegue sair de ambulância, a caminho do hospital, de onde já não sai com vida. A cena do funeral, descrita no epílogo é emocionante e exibe um ligeiro travo a vingança, pela ironia do quadro constituído pelo desfile do féretro, diante de uma população que declama, em uníssono, os poemas revolucionários de Neruda por entre a ameaça das metralhadoras do exército do regime e a protecção das câmaras de inúmeras estações televisivas, vindas de todos os cantos do mundo. Pablo Neruda, Prémio Nobel da Literatura, tinha-se tornado um símbolo nacional, apesar do regime ideológico desfavorável.

Nesta cena final, perfeitamente cinematográfica, Skármeta eleva o romance à categoria de um épico, uma vez que a atitude das massas que nela intervêm serviu para edificar o mito e dar veracidade ao adágio de que “Neruda não é chileno, o Chile é que é Nerudiano”.


Cláudia de Sousa Dias

14 Comments:

Blogger CNS said...

Um belíssimo livro.

bjs

5:14 PM  
Blogger Baudolino said...

Bom livro. gostei bastante.
bjs
P.

5:39 PM  
Blogger Mr. Nonsense said...

Excelente escolha!!!
Mas pessoalmente preferi "A Dança da Victória".
É uma sugestão de leitura que deixo.

7:24 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

também acho, Cristina...


:-)


beijinho grande



CSD

8:35 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Obrigada Baudolino. E lê-se de um só fôlego.


CSD

8:35 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

esse ainda não li, Mr. Nonsense. Nem o "A Rapariga do Trombone".

mas é uma falha que pretendo colmatar.


csd

8:36 PM  
Blogger marcelo said...

Mais uma excelente escolha...
E mais um excelente trabalho. Parabens pelo blog. É dos melhores que tenho visto.

12:00 PM  
Blogger Gerana Damulakis said...

É um livro belo e prazeroso. Vale leitura e releitura.

4:03 PM  
Blogger JFDourado said...

Já o li há algum tempo mas sempre que quero recordar um livro que me tenha feito soltar estridentes gargalhadas este é dos primeiros que me vem à memória. :)*

9:48 AM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

concordo contigo, Dourado...

mas não é o único.


;-)


CSD

10:22 AM  
Blogger oxalá said...

Coisa linda essa de um poeta partir ao som dos seus poemas declamados pelo povo que o leva aos ombros a enterrar. E se pensarmos que foi em pleno golpe de Pinochet mais bonito é.
Como foi lindo a Presidente da Argentina interromper uma viagem de estado porque Mercedes Sosa estava a morrer e ela precisava estar com o seu povo.
É preciso viver-se intensamente a vida de um povo para que tal possa acontecer.

9:08 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

é...marcante, sem dúvida


csd

1:52 PM  
Blogger Petra Maré said...

Lê-se numa pressa...e chora-se ... e embarga-se-nos a compreensão da palavra, e no fim voltamos ao princípio a ver se nos escapou alguma coisa...
E sim, também é um hino à amizade...
Adorei o filme. Amei o livro. Parabéns pela análise.

5:06 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

sim... porque é impossível não se amar o Poeta Neruda. Mas também se soltam sonoras e estridentes gargalhadas.


csd

8:28 PM  

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