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Wednesday, April 07, 2010

"A Ilha dos Jacintos Cortados" de Gonzalo Torrente Ballester (Difel)




Vindo de um escritor maior, da mais elevada craveira da expressão literária da Galiza que, em vida, nutriu um especial carinho pelos autores portugueses, Gonzalo Torrente Ballester deixa-nos mais um livro de qualidade superior, tanto no que diz respeito à complexidade da trama propriamente dita, como no rendilhado da prosa.


Ballester é um autor cuja prolífica actividade literária se divide por vários géneros: romance, ensaio (decorrente da sua actividade como docente) e crítica literária.Trata-se de um escritor de grande versatilidade temática cuja prosa foi considerada como sendo "de carácter intelectual, por vezes difícil.

A Ilha dos Jacintos Cortados é uma inteligente sátira social e histórica, onde os jacintos cortados representam, nada mais nada menos, que as vítimas da repressão face à liberdade de pensamento, de expressão, sexual...um romance onde se misturam realidade e fantasia, amor, erotismo e melancolia mas que se reveste, simultaneamente, de um erotismo que é, segundo os críticos, "isento de pornografia", que se conjuga com um estado de alma do narrador caracterizado por uma "melancolia sem sentimentalismo".


O foco central do romance é um amor não correspondido de um genial professor de literatura, de origem espanhola, numa universidade nos Estados Unidos pela bela e inteligente Ariadne, namorada de um não menos brilhante colega do nprotagonista que acumula, também, o papel de narrador. Ao conhecer a bela jovem de ascendência grega, o professor, de ardente temperamento latino, típico da Europa mediterrânica, não resiste a fantasiar e divagar, inventando um amor impossível pela encantadora Ariadne.


Esta característica parece fazer parte integrante do carácter desta personagem uma vez que, sempre que encontra uma mulher bela e intelectualmente dotada, tenta, invariavelmente, encontrar nela a mais pequena sombra de infelicidade e, simultaneamente, exagerar ao máximo os defeitos do respectivo objecto amado. A partir do momento em que constróiu a sua paixão por Ariadne decide escrever os seus cadernos durante a estadia outonal numa pequena estância de férias, isolada do resto do mundo. O romance é composto por cartas de amor de uma beleza ímpar, intercaladas com viagens a uma outra época histórica (a Revolução Francesa), usando o fogo ou os espelhos como veículo de transporte. Ariadne será doravante o fio condutor entre passado e presente, entre o mundo real e o onírico, tal como a homónima personagem do episódio do labirinto de Creta que conhecemos da mitologia clássica. O raciocínio do narrador está longe de ser linear, sendo, pelo contrário, recheado de meandros e tão vertiginoso como uma montanha russa.


Ao discurso poético do tempo presente opõe-se uma refinadíssima ironia aplicada quer às personagens históricas do passado quer às fictícias. Sobretudo quando se refere às Parcas (figuras mitológicas que decidiam o destino dos homens), guardiãs da moral e bons costumes, que se dedicam a espiar as relações ilícitas dos habitantes da Górgona ou Ilha dos Jacintos Cortados (ou castrados?) para depois denunciá-los às autoridades, numa época em que o adultério era punido com pena de morte.


A personalidade obsessiva, persuasiva e manipuladora do narrador impõe-se em ambos os planos, pois muitas das figuras que estão idealizadas no presente, surgem caricaturadas e com os defeitos exagerados sempre que efectua a regressão a épocas passadas. É assim que o impotente e complexado namorado de Ariadne aparece projectado na figura de Ascanio Aldobrandini, autoridade máxima da Górgona (mais uma figura castradora da mitologia clássica que transformava os homens que acontemplassem em pedra...) recalcado, mal-amado, traído pela mulher e pela amante...Da mesma forma, o amor platónico e a admiração pelas beldades cultas do presente, surge transfigurado em requintado erotismo e perversão nas figuras femininas do passado...com a sua máxima expressão na requintada festa erótica que reúne algumas das mais proeminentes personagens históricas da época como Chateaubriand ou o príncipe de Metternich...


Um livro genial porque invulgar, na forma escrita e na qualidade estilística da prosa e, por isso, comparável a alguns dos ícones da literatura universal doSec. XX. como, José Saramago ou António Lobo Antunes ou Jorge Luís Borges.


Provocador pela acutilância com que ataca tabus e falsos moralismos. Impiedoso na destruição de estereótipos e preconceitos.


Um livro para aqueles que não se contentam com lugares comuns...






Cláudia Sousa Dias

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5 Comments:

Blogger Elipse said...

está decidido: vou comprar!
Gosto de Ballester por isso vou gostar deste também. Pelo menos apresentaste-o com o habitual carinho que demonstras pelas coisas de de que gostas.

1:23 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Obrigada...!

Sobretudo porque este já é um texto mais mais de 5 anos...

CSD

1:54 PM  
Blogger Rosa dos Ventos said...

Se não estivesse a "mastigar" "Samarcanda", lançava-me a este! :-))
Digo mastigar porque estou a ter alguma dificuldade em me entusiasmar com a obra.
Contudo "noblesse oblige"...

Abraço

4:20 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

hum~... ainda não li quase nada dpo Amin Maalouf, só um libreto para ópera que ele compôs há poucos anos atrás, mas estou com vontade...

este Ballester é um delícia.

csd

2:41 PM  
OpenID projetosnopapel said...

linkei sua resenha no meu blog =)

11:35 PM  

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