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Wednesday, July 21, 2010

“As paixões de Júlia” (“Theater”) de Somerset Maugham (ASA)



Sendo um dos maiores escritores britânicos de sempre, a figurar no panteão das figuras de referência do mundo literário do século XX como Ernest Hemingway, John Steinbeck ou T.S. Elliot, Somerset Maugham elabora um romance sobre as relações que se estabelecem nos bastidores do mundo do teatro e as vicissitudes da carreira de actor/actriz.

Em relação ao título, a escolha da ASA não parece ter sido a melhor porque redutora e sem ligação ao conteúdo essencial do romance, optando não pela temática principal mas pela periférica e pela faceta menos importante do carácter da protagonista. Os amores de Julia Lambert são apenas uma questão marginal nos interesses de Julia para quem o teatro é sempre a paixão maior, o pilar em que assenta a sua existência. É a partir do teatro e do dom da representação que Júlia constrói a sua teia de relações interpessoais dentro, à volta e fora do palco.

O principal objectivo na vida da protagonista, Julia Lambert, é representar. Esta encara o teatro como uma missão. Mas o principal desafio é o de representar o papel de …Julia.

Julia Lambert atravessa as diversas fases da vida, sempre a construir uma máscara, uma persona, com que vai cobrindo as suas verdadeiras emoções e desejos, inicialmente por questões profissionais. No entanto, começa também a utilizar essa mesma máscara nas relações pessoais, porque esta actua como facilitadora, isto é, como um catalisador do desenvolvimento dessas mesmas relações, e acaba por forjar uma personalidade fictícia e algo manipuladora. O seu talento como actriz tornar-se-á numa obsessão que requer treino contínuo, auto-observação e verificação permanentes, permitindo-lhe usar as pessoas com quem convive um pouco como cobaias.

Roger, o filho de Julia, é o único ser capaz de descodificar a verdadeira Julia, aquela que se oculta por detrás da "máscara". Ao aperceber-se do facto, Julia assusta-se, entrando em pânico por se saber analisada. Teme que o filho faça juízos de valor em relação ao lado menos brilhante ou atraente do seu carácter e manda-o estudar para longe.

Julia Lambert brilha nas salas de teatro e é aclamada pela crítica como a melhor actriz de teatro do Reino Unido, no período que antecede a segunda Guerra Mundial, sobretudo ao longo da década de 1930. A expressividade, carisma, e magnetismo que consegue transmitir convencem os líderes de opinião mais influentes. Alguns chegam mesmo a afirmar que Julia tem génio. No entanto, trata-se de uma genialidade que não surge espontaneamente mas fruto de um trabalho contínuo, de uma depuração e refinamento constantes. Todos os gestos, movimentos, expressões faciais, tonalidades de voz são reproduzidos inúmeras vezes, diante do espelho; cada bater de pestanas, cada trejeito de lábios, cada esgar, são meticulosamente estudados e catalogados para serem utilizados em ocasiões posteriores – dentro ou fora do palco – consoante o papel que Júlia esteja disposta a representar no momento.

Mesmo com os amigos, ou o marido – Michael Lambert, considerado por muitos (e muitas) o homem mais belo de Inglaterra, actor sofrível mas eficaz como empresário – consegue sempre levar a sua avante e satisfazer os seus caprichos, graças a uma invulgar capacidade de adular e ao seu evidente histrionismo. Só não consegue enganar Roger, o que lhe causa alguma inquietação. receia o silêncio, o olhar perscrutador e analítico do filho, que a examina como se fosse um aparelho de raio x, a ponto de desejar criar a distância de um continente entre ambos.

A expressão do Histrionismo de Julia

Para Julia Lambert o Teatro é a Vida. E a vida é teatro. Os conhecimentos técnicos de representação adquiridos são utilizados para persuadir ou comover os outros, quando em palco, e na sua relação com a plateia. Por vezes, torna-se demasiado forte a tentação de utilizar o talento para, na vida pessoal, conseguir os seus intentos, usando a capacidade de representar. A ponto de, mesmo as pessoas mais próximas como Michael, ou Sir Charles, o melhor amigo, nunca conseguirem aperceber-se dos contornos da personalidade da verdadeira Julia, encoberta por debaixo das suas inúmeras personae.

Já Roger, o filho do casal Lambert, desenvolve outro tipo de capacidades. A sua principal ambição é o conhecimento da alma humana. A mãe, sendo o mais complexo ser humano que conhece é um manancial de surpresas para uma mente curiosa e introvertida, voltada para a reflexão, fruto talvez de longas horas passadas na infância e adolescência entregues a si próprio.

Graças a esta invulgar capacidade de análise, Roger consegue apercebe-se de aspectos da personalidade da mãe que esta se recusa a admitir até para si mesma, uma vez que Julia veste diariamente a imagem idealizada de si própria, a qual a impede de assumir as próprias fraquezas ou desejos que não seriam bem vistos por aqueles com quem convive. É talvez por esta razão que coloca o seu papel de actriz como prioridade absoluta, face ao papel de mãe, esposa de amiga ou amante. Em Julia, todo o acto social é representação de um papel, de acordo com aquilo que se espera dela em casa ocasião. Julia é, segundo o modelo freudiano explicativo do comportamento, a personificação do super-ego ou dos mecanismos de defesa do ego, que são os subterfúgios que o Eu encontra para satisfazer os impulsos e desejos mais íntimos, sem ferir susceptibilidades. Para tal, Julia não hesita em recorrer à sublimação, à racionalização, à projecção para esconder, por exemplo, uma paixão extra-conjugal, ao enfatizar a importância de motivos secundários, como a necessidade de Roger ter uma companhia masculina com idade próxima da sua, em tempo de férias, de forma a esconder o motivo principal: a proximidade do amante.

Roger, em contrapartida representa a consciência, a lucidez e o sentido crítico, talvez por ser a personagem que mais se preocupa em destrinçar a ficção dos palcos da realidade da vida quotidiana e sobretudo em filtrar o mundo da ficção que os pais tentam trazer para o quotidiano.

Michael, o marido de Julia foi, durante a juventude, um actor de qualidade mediana devido a um temperamento talvez excessivamente fleumático, avesso a cenas hiper-dramáticas ou demasiado apaixonadas. Mas em contrapartida revela-se um empresário eficaz e eficiente na medida em que consegue efectuar produções de grande qualidade com poucos recursos financeiros.

Michael é para Júlia um excelente companheiro, mas como marido, na intimidade, revela-se algo entediante. Sobretudo para uma mulher efervescente como Julia, que tende a aborrecer-se com o temperamento pouco apaixonado de Michael e a sua obsessão pela poupança.

Thomas Fennel é um jovem e belo contabilista que se esforça por cumular Júlia de atenções, mas esconde uma enorme vaidade e um incomensurável desejo de ascensão social norteiam praticamente todas as suas atitudes, escolhendo as companhias de acordo com os seus interesses e segundo o grau de projecção social que estas lhe poderão proporcionar e não segundo os gostos pessoais ou afinidades. Todos os seus actos são calculados. À sua maneira também ele é um actor, usando o charme pessoal para consolidar as suas ambições. Estes traços de personalidade que acabam, segundo algumas opiniões por lhe conferir uma certa vulgaridade, não passam despercebidos à argúcia de Roger, apesar da sua aparência ingénua. A adulação e envolvência de Fennel dirigidas a Júlia começa, a dada altura, a fazer perigar o delicado equilíbrio entre a vida dentro e fora do palco. Pela primeira vez, a diva está com dificuldade em controlar as emoções que começam a tomar conta dela como uma quadriga desgovernada num circo romano.

Thomas Fennel desempenha um papel fundamental no romance: é o detonador que fará Julia accionar um dos traços mais poderosos e implacáveis da sua personalidade: o desejo de vingança, a qual executa de forma total e irrepreensivelmente limpa. Um cheque mate absoluto que vem fechar um período marcado pela paixão, ciúme e posse, mas cessa num saldar de contas, servido a frio e saboreado com o máximo prazer na mais completa solidão: a humilhação de Fennel, feita de forma a não haver possibilidade de retaliação, é acompanhada - e comemorada com total satisfação com um solitário jantar, composto de um nutritivo bife com batatas fritas, símbolo de tudo o que é censurável e proibido na dieta de uma senhora que vive da imagem, a atingir o limiar dos cinquenta anos ameaçando fazer ruir a imagem impecavelmente conservada à custa de uma dieta espartana e exercícios draconianos. Tal como o poderia ter feito um romance com um jovem e presumido alpinista social à sua imagem profissional e à solidez da vida conjugal de que gozava.

Um dos aspectos mais curiosos do romance onde podemos intuir a forma como a verdadeira personalidade de Julia poderá entrar em choque com as mentalidades mais conservadoras da época é-nos mostrada durante a viagem a França onde vai visitar a mãe e uma tia, numa aldeia provençal. Julia é obrigada a adoptar uma atitude low profile, que contrasta violentamente com o seu temperamento exuberante, face à rotina pia das duas senhoras idosas a quem a presença de uma actriz de teatro dentro de casa causa algum embaraço.

Os romances de Somerset Maugham são, em geral, dotados de uma fascinante galeria de personagens que atraem os leitores pela sua complexidade e atitudes pouco convencionais. Este não é excepção. Desde a teatral e narcísica Julia ao racional e fleumático Michael, dois extremos opostos no mesmo continuum, passando pelo perspicaz e sombrio Roger e pelo untuoso, interesseiro, venal e presunçoso Thomas Fennel, sem esquecer o irrepreensível cavalheirismo dedicação e fidelidade de Sir Charles Woodworth, que dedica a Julia um intemporal amor platónico. O romance contém algumas cenas de irresistível hilaridade, sobretudo nos diálogos entre Julia e a camareira, que teriam mais a ver com a cumplicidade entre dois membros da mesma equipa do que as tradicionais relações de hierarquia entre uma senhora e a sua criada. Ou então a relação que se estabelece entre Michael, Julia e a produtora dos espectáculos, uma mulher extremamente rica, excêntrica, caprichosa de orientação sexual não convencional mas de coração mole que não resiste ao mel dos sorrisos de Julia.

Um romance elogiado pela crítica, apesar de a protagonista não ter granjeado muita popularidade entre os admiradores do escritor. Ao que Somerset Maugham não deixa de chamar a atenção face a alguns falsos silogismos contidos nalgumas recensões na época em que foi lançado o livro pela primeira vez, no início dos anos 1940:

“…alguns críticos queixam-se que Julia Lambert, a minha heroína, não era uma criatura de elevada estatura moral, grande inteligência e nobreza de alma e daqui concluíram que era uma actriz medíocre. Deram-me a entender que várias primeiras actrizes partilhavam desta opinião. Aliás, uma actriz idosa, celebrada pelo seu talento dramático, quando eu ainda era jovem e ainda recordada pelas pessoas de meia-idade pelos comentários desagradáveis e bem-humorados que tecia, sobretudo pelos seus colegas de profissão, foi bastante mordaz nas afirmações que me dirigiu, mas julgo que a sua acrimónia de deveu a um equívoco. Esforcei-me, no meu romance, por deixar claro, que a minha heroína, independentemente dos seus outros defeitos, ao era uma snob, o que naturalmente impediu a senhora em questão de reconhecer o facto de que a minha Julia era uma excelente actriz. Todos temos a propensão para pensar que os outros só podem ter as nossas virtudes se tiverem igualmente os nossos vícios.

A grandeza é rara. Nos últimos cinquenta anos, vi a maioria das actrizes que se tornaram célebres. Vi muitas que possuíam talentos notáveis, muitas que se distinguiram num domínio que transformaram na sua especialidade, muitas que tinham encanto beleza e cultura, mas não me ocorre mais do que uma a quem possa, sem hesitação, atribuir grandeza. Falo de Eleonora Duse. Talvez Mrs. Siddons a possuísse. Talvez Rachel a possuísse, não sei; quando vi Sarah Bernhardt, já ela tinha passado a sua época áurea – a glória que a rodeava, a sua extravagância lendária, dificultavam um juízo objectivo. Era, frequentemente, amaneirada e capaz, por vezes, de um débito declamatório empolado, como qualquer prima-dona no seu apogeu; poderá ter possuído grandeza, mas eu só vi os seus apêndices; a coroa, o ceptro, a capa de arminho – as novas vestes do imperador da China, mas nenhum imperador da China. Com a única excepção que mencionei, apenas vi actrizes que eram boas, por vezes muito boas, em determinados papéis.

(…)

A qualidade do artista depende da qualidade do ser humano equem não possuir, para além dos seus talentos especiais, integridade moral, não pode distinguir-se nas artes; não negarei contudo que este facto pode manifestar-se de uma forma surpreendente e fantástica. Penso que Júlia Lambert é fiel à realidade. Gostaria que o leitor notasse que, embora os seus admiradores lhe reconheçam grandeza e embora ela aceite sofregamente a adulação, eu, pelo meu lado, não afirmei que ele fosse mais do que extremamente bem sucedida, muito talentosa, séria e diligente. Devo acrescentar que, no que e diz respeito, sinto por ela uma grande afeição: não me choca a sua estouvadice, nem me escandalizam os seus dislates; só posso considerá-la, faça ela o que fizer, com afectuosa indulgência.”

O próprio Autor justifica esta sua convicção, apesar de polémica, chegando mesmo a apontar o facto de Julia se desculpar por nem sempre conseguir desempenhar com sucesso alguns papéis, assim como o não ter conseguido triunfar no cinema. Dois indícios que parecem por em causa a sua versatilidade e corroborar a hipótese de que Julia Lambert conseguia ser, de facto, muito boa acriz, mas em papéis específicos, embora sem nunca chegar a ser verdadeiramente “grande”. Isto é, uma mulher de talento, mas sem o “génio” que lhe atribuíam.

Um romance que vem engrossar uma já se si vasta produção literária de elevada craveira com títulos como O Fio da navalha, A Servidão Humana, O Véu Pintado, A Lua e cinco Tostões e muitos outros.

Cláudia de Sousa Dias

4 Comments:

Blogger Ricardo Antonio Lucas Camargo said...

Maugham é um dos autores de língua inglesa de que mais gosto, desde que, aos 16, li "O fio da navalha". "The moon and six pence", no Brasil, recebeu a tradução por "Um gosto e seis vinténs", por conta de um rifão muito empregado por nossos folgazões - "mais vale um gosto que seis vinténs" -. Por sinal, Michael, o marido de Julia, é o exemplo típico do homem valorizado pela revolução industrial - nenhum pendor especial, exceto aquele que seja capaz de fazer frutificar o capital investido; é a formiga da fábula de La Fontaine, casada com a cigarra, curiosamente -, para quem o gosto consiste em garantir que os seis vinténs se convertam em dezenas, centenas, milhares, milhões. Tipos como Roger assustam tanto à cigarra quanto à formiga, porque, a rigor, eles as conhecem muito bem, a ponto de decifrarem com enfado a esta - pela sua previsibilidade, seu caráter extremamente "igual aos outros" - e com interesse àquela, que somente é autêntica na sua condição de sempre estar a representar, a esconder-se. Já Fennel pertenceria à galeria de tipos como o Julien Sorel de Stendhal ou o Rastignac (piorado, é claro) de Balzac.

3:47 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

O terceiro tipo, o crítico, é aquele que sempre incomoda.

O conhecimento gera sempre desconforto em quem teme ver-se descodificado.

Julia teme que os seus verdadeiros desejos venham a público, assim como a sua alma vingativa, e Michael, a sua ganância. No entanto, ambos não deixam de ter qualidades o que vem mais uma vez a confirmar a mestria de Maugham na construção de personalidades complexas.

6:52 PM  
Blogger Baudolino said...

Grande escritor.
abraço
P.

8:43 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Abraço também P.

E, se for o caso, boas férias!


csd

10:45 AM  

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