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Saturday, July 03, 2010

“A Gota de Ouro” de Michel Tournier (Dom Quixote)



Apesar de a obra em questão ter algumas similaridades com Désert de Jean-Marie Gustave Le Clézio, A gota de Ouro é um romance sobre as questões do poder de sedução das imagens e o impacto que estas causam no imaginário dos humanos.


O fascínio que as mesmas imagens representam para o Homem tem a ver, na perspectiva do autor, com a crença de que a imagem faz parte da própria pessoa e que, alguém, ao apropriar-se dela e usá-la para os seus próprios fins está, literalmente, a roubar uma parte dessa pessoa, da sua alma. Um ponto de vista que Tournier parece ter em comum com os povos do deserto. O raciocínio é simples: uma simples fotografia poderá fragmentar a alma do ser humano, multiplicando-a e, simultaneamente, dividindo-a em tantos fragmentos quantas as reproduções da foto original. Tournier servir-se-á da alegoria personificada pela tentativa de Idriss, o protagonista, de recuperar a sua alma, arrebatada pela loira que lhe tirou a fotografia no oásis, ao abordar, de forma subtil e poética, a questão da despersonalização do ser humano a partir do momento em que o seu rosto passa a fazer parte do domínio público.


A Trama


Os primeiros parágrafos de A Gota de Ouro lembram o cenário bíblico do final do Génesis, pela descrição da vida nómada dos povos do deserto e da relação destes com os habitantes do oásis e, inclusive, a dedicação dos habitantes daquela região à pastorícia de cabras e ovelhas com toda a simbologia associada a estas duas espécies: a ovelha personifica a docilidade e a cabra, a desobediência, a rebeldia. Idriss e o seu amigo Ibrahim podem identificar-se, respectivamente, com estes dois arquétipos.


Ibrahim, é um menino nómada, de temperamento rebelde, que escarnece das convenções ligadas à fé religiosa, desafiando o próprio Medo. A imprudência, levada ao extremo, acabará, no entanto, por fazê-lo encontrar o seu destino de forma funesta. O desfecho da curta história de Ibrahim, a criança selvagem, sem regras, que gosta de brincar com o fogo, desafiar o perigo e o poder das forças superiores, assemelha-se a um castigo divino, tal como no Antigo Testamento.


As relações entre os adolescentes eram simples e unívocas: uma admiração um pouco receosa por parte de Idriss e uma amizade protectora e condescendente por parte de Ibrahim. Porque ele era nómada, entregue a si próprio e guardador de camelos, Ibrahim sentia, em relação aos habitantes do oásis, um desprezo indulgente que não atenuava, de forma nenhuma, o facto de trabalhar parta eles e dever-lhes a sua subsistência (…). Havia, na sua atitude, como que a reminiscência de um passado glorioso em que os oásis e os escravos que os cultivavam eram indistintamente propriedades dos senhores nómadas. Não obstante, este rapaz meio louco devido ao sol e à solidão, não temia nem Deus nem o Diabo e sabia tirar partido da própria aridez do deserto. O seu único olho, o esquerdo, porque o direito ficara-lhe agarrado aos espinhos de um bosque de acácias, para onde o seu camelo se atirara - via a dois quilómetros de distância a corrida de uma gazela ou a que tribo pertencia o condutor de um burro (…).
Descobria o caminho de uma formiga, subia ao formigueiro, desventrava-o com um pontapé e conseguia uma suculenta refeição, peneirando o conteúdo das galerias, embora aqueles insectos fossem temidos em Tabelballa, porque a sua morada subterrânea os põe em contacto com os demónios. A sua impiedade espantava, muita vez, Idriss. Não hesitava em beber de pé, segurando a tigela só com uma das mãos, quando é preciso beber tendo, pelo menos, um joelho no chão e apertar o recipiente com ambas as mãos. Falava abertamente do fogo, invocando, assim temerariamente, o Inferno, enquanto os habitantes do oásis empregavam prudentemente locuções como “o velhinho que estoira” ou “o fabricante de cinzas”. Não hesitava, até, em apagar uma fogueira deitando-lhe água para cima, o que é profanador. Idriss tinha-o visto um dia, regalar-se com o cérebro de um carneiro que em Tabelballa se enterra porque enlouquece quem o come, tão certo como se devorasse o próprio cérebro.
A própria visão de Ibrahim, concentrada apenas no olho esquerdo, cria imediatamente uma analogia com uma personalidade rebelde, algo demoníaca…


A chegada da mulher loira ao oásis


A vinda de uma mulher ocidental, loira e dourada, que fotografa o jovem Idriss e promete enviar-lhe uma cópia pelo correio é o primeiro ponto de viragem, ou o interruptor que irá accionar o mecanismo de desenvolvimento da história. Uma promessa feita no momento, por delicadeza ou falsa cortesia, mas que nunca se concretizará. E parte da alma da criança partirá para o desconhecido com a mulher loira, no todo-o-terreno, o que a impele, mais tarde, a emigrar em busca da fotografia, em busca da parte de si mesmo que nunca lhe foi devolvida, rumo à Europa.


A ideia de fuga germina num conjunto de crenças locais, fruto da tradição oral e de todo um conjunto de lendas, transmitidas de geração em geração, que mais tarde se combinam com um forte desejo de evasão, alimentado por uma curiosidade insaciável. De entre estas crenças emerge, também, o apelo às artes mágicas das tribos africanas, sobretudo em tempos de crise:
Quando a pouca sorte se abate sobre uma família apela-se (…) para a pequena comunidade dos descendentes dos escravos negros do oásis. Eles vêm danças no pátio da casa.
(…)
Ahmed bem Baad casava a sua filha Aicha com o filho de Mohamed bem Souhil e um grupo de músicos e bailarinos, vindos do Alto Atlas ia dar o seu colorido e os seus ritmos às cerimónias.


O ritual do casamento e, principalmente, um hipnótico bailado, executado pela bailarina negra vestida de escarlate, durante a cerimónia, adquire um significado simbólico central no romance onde a bailarina negra ostenta uma gota de ouro ao pescoço, pendurada num fio de couro, o símbolo máximo de beleza e perfeição, a arte transformada em símbolo abstracto, perfeito na forma, sem imitar nenhum tipo de objecto real. A antítese da imagem. A bailarina movimenta-se como uma chama com as vestes escarlates esvoaçantes. Por outro lado, a gota de ouro está associada, desde a presença dos Romanos, à ideia de protecção, afastamento do mau-olhado e a sua perda significa quase sempre infortúnio. Era usada pelo adolescentes patrícios para se protegerem da má sorte.


A bulla aurea acaba, assim, por um inesperado golpe de sorte, por passar para as mãos de Idriss.
Os tocadores tinham formado em frente da casa de Mohamed (…) um semicírculo viva e fantasticamente iluminado por archotes. A música exasperava-se, subia a cada momento, comunicava uma febre irresistível aos corpos imóveis dos espectadores. O ritmo aumentava de intensidade com um objectivo evidente a todos: provocar a dança, operar a metamorfose de todo o grupo numa dança única. E a metamorfose deu-se: uma mulher negra envolta em véus vermelhos e coberta de jóias de prata, surgiu no centro do terreno. Zett Zobeida só se exibia no auge da festa, porque era a alma e a chama dela (“âme et flame”, no original).


A dança de Zett Zobeida era, a partir daí, nessa estátua velada e imóvel, o ballet de cem jóias sonoras. Mãos de Fatma e crescentes de Lua, coxas de gazela e conchas de nácar, colares de coral e braceletes de âmbar, amuletos de estrelas e granadas, conduzem a sua dança num grande conciliábulo chocalhante. Mas o que atrai, sobretudo aos olhos de Idriss é, rodopiando em volta de um laço de labaredas, uma gota de ouro, de um brilho e contorno admiráveis. Não se pode conceber um objecto mais simples e mais concisa perfeição. Tudo parece contido naquele oval levemente arredondado na base (…) Ao contrário dos berloques que imitam o céu, a terra, os animais do deserto e os peixes do mar, a gota de ouro não significa nada senão ela própria. É o signo puro, a forma absoluta.


Que Zett Zobeida e a sua gota de ouro fossem a emanação de um mundo sem imagem, a antítese e talvez o antídoto da mulher platinada da máquina fotográfica, Idriss começou, talvez a suspeitá-lo nessa noite.


Duas Civilizações opostas


O recurso às lendas, baseadas na tradição oral dos povos do deserto, servem para exemplificar a forma como duas culturas se estruturam de forma diametralmente oposta: a civilização do Oriente, baseada no símbolo e na palavra, predominantemente auditiva, e a civilização ocidental que é, sobretudo, visual e que apoia a apreensão do real através das imagens.


A lenda do Pirata Barba Azul, mais europeu do que Oriental, é disso exemplo. Até porque a mesma personagem, situada entre a História e a lenda acabará por terminar os seus dias no Velho Continente. A lenda de Barba Azul é o primeiro exemplo concreto do efeito que causa o sortilégio das imagens na mente humana, com o seu expoente máximo no Retrato do Rei e na imagem coo forma de propaganda política.


O autor fará o mesmo mais tarde, num exemplo ainda mais flagrante, no episódio que descreve A Lenda da rainha Loira, uma das passagens de maior beleza estética e literária da obra.


A desmistificação da figura do pirata levantino, cuja alcunha de Barba Ruiva atribuída pela tribo Roumi, um povo que acreditava ser a cor vermelha dos cabelos originária do momento da concepção da criança: assim a cor ruiva em cabelos humanos dever-se-ia ao facto de, segundo a crença local, a criança ter sido concebida durante o período menstrual da mãe. As crianças ruivas do deserto eram, então, socialmente segregadas por parte das crianças de olhos e cabelos negros.
O domínio social pelo terror com que, anos mais tarde, a mesma “criança” de cabelos vermelho, agora ocultos sob um turbante cuidadosamente enrolado na cabeça e que lhe tapa, também, o queixo, assola o Mediterrâneo, sob a alcunha de Pirata Barba-Ruiva, servindo, talvez, de mecanismo de compensação para o escárnio sofrido na infância. Ao invadir o palácio do Sultão, no ano 912 da Hégira – 1534 A.D. –, manda retirar todos os quadros do monarca para que sejam destruídos, uma vez que a majestade que emana das imagens pintadas nos mesmos quadros são geradoras do respeito dos súbditos. Urge, portanto fazer com que desapareçam.


Com a assunção do poder, o novo soberano sente, no entanto, que este lhe pode fugir das mãos, uma vez que a máquina burocrática o pressiona no sentido de fazer com que a sua autoridade se dilua. Resta-lhe manipular a vontade dos homens através da imagem. O diálogo entre o pintor e o novo rei é elucidativo quanto a esta questão:


- Mas diz-me, supondo que o alto dignitário que retratas sofre de uma defeito físico, verruga, nariz partido, olho estrábico, vazado, que sei eu. Reproduzes essa deformidade ou esforças-te por disfarçá-la?
- Senhor, eu sou retratista e não cortesão. Pinto a verdade. A minha honra chama-se fidelidade.

(…)


- E não recearás que a tua cabeça possa vacilar sobre os teus ombros?
- Não, senhor, porque só à vista do seu retrato, o rei sente-se honrado e não ridicularizado por mim.
- Como assim?
- Porque o meu retrato seria o retrato da própria realeza.
- E a verruga?- Seria uma verruga tão cheia de realeza que qualquer um se sentiria orgulhoso de ter uma igual no nariz.
O pintor e o rei prosseguem a discussão, enveredando pelos temas da Filosofia e da Política:

(…)

- O rei reina e o rei governa. E são funções bem diferentes, até opostas. Porque o rei que governa luta dia após dia, hora após hora contra a miséria, a violência, a mentira, a traição. E fica enlameado até ao alto da sua coroa. Enquanto que o rei que reina, brilha como o sol e como o sol, espelha em sua volta lua e calor. O rei que governa é secundado por uma horda de carrascos horríveis que se chamam os meios. O rei que reina está rodeado de jovens brancas que se chamam os fins. Diz-se que às vezes essas jovens justificam aqueles carrascos, mas é mais uma mentira dos carrascos. Será necessário acrescentar que eu pinto o rei que reina e não o rei que governa?
- Mas o que são, pergunto eu, fins sem meios?
- Pouca coisa, concordo, mas que valem os meios quando fazem esquecer os fins e mesmo quando eles os destruíram com a sua fúria? Na verdade, a vida é um perpétuo vaivém entre estes dois termos.


Aqui discute-se não só a veracidade e a fidedignidade da questão do real e da informação que se pretende difundir pela imagem, a qual passará a fazer parte do domínio público, mas também, do colorido, da moldura do cenário que se cria à volta dareferida imagem, mensagens subliminares que visam manipular, de forma extremamente subtil ,o julgamento a interpretação do receptor da mensagem visual: a isto se chama propaganda política, que origina a discussão sobre a prevalência dos fins em detrimento dos meios ou vice-versa. Mas a mesma técnica é, também, largamente utilizada, nos nossos dias, pela publicidade como o Autor fará notar nos capítulos seguintes ao narrar a odisseia de Idriss na Europa e a sua incursão no mundo audiovisual.


De notar que, ainda no episódio do Pirata Barba-Ruiva, o pintor acabou por não fazer o retrato do novo rei, encaminhando-o para alguém que estivesse disposto a dá-lo a conhecer sob um prisma em que a sua cabeleira aparecesse como algo apreciável. Alguém vindo da Europa, da civilização que está habituada a tratar da imagem de figuras públicas. No caso do ex-pirata Barba-Ruiva, para este assumir uma característica culturalmente vista como desprestigiante teria de a enquadrar num contexto onde fosse vista como natural: uma paisagem outonal na Europa, uma cena de caça, retratada pela tecedeira de tapeçarias Kerstine, de origem escandinava, a viver no Oriente, uma artista consagrada e admirada pelos especialistas da arte.


No século XX, Idriss, ao deambular pelas ruas de Marselha, perde de vista a sua gota de ouro, e deixa-se embrenhar no mundo das imagens, o meio de que se serve o poder – político ou económico – para facultar a alienação da realidade, e esquecer o quotidiano onde impera a miséria.


Havia ali, segundo parecia, dois mundos sem relação, de um lado a realidade acessível mas áspera e cinzenta, do outro uma feérie, suave e colorida, mas situada numa lonjura impalpável.


No fundo Michel Tournier chama a atenção para a tendência das massas em se fixarem num mundo de fantasia, falso, de pechisbeque: o kitsch de que fala Milan Kundera em A Insustentável leveza do ser.


Parece haver uma relação de proximidade ou de quase perceria entre o glamour do cinema, da moda ou da publicidade que se ligam, muitas vezes, a uma realidade grotesca, envolvendo todo um mundo de corrupção e onde impera uma torpeza libidinosa, ávida de corpos jovens, atrelada por vezes a fenómenos marginais, como a prostituição e a delinquência, seguindo de perto a miragem paradisíaca de riqueza, fama e reconhecimento.


A pedolifia e a delinquência seguem de perto o jovem Idriss quando entra nesta esfera , passando, no entanto, e durante muito tempo, incólume, graças à inocência e ao factor sorte. Mas é como andar num trapézio sem rede, tal como acontecia com Ibrahim. Idriss não tem família na Europa nem ninguém, pessoa ou instituição a orientá-lo ou a protegê-lo. Durante algum tempo, Idriss usufrui dos mesmos benefícios da fortuna que o camelo que é, também, utilizado na publicidade e escapa ao matadouro ao encontrar a felicidade num nicho ecológico específico: um jardim zoológico onde se depara com o amor de uma camela, instantaneamente correspondido.


Também o comércio porno acaba por ser exposto aos olhos de Idriss num peep-show, ao qual disseca como a uma carcaça na mesa de um anatomista:

(...)

livros de capas berrantes e enigmáticas cobriam as paredes (…). Em contrapartida, as fotografias das capas ostentavam um erotismo brutal e pueril que apelava mais para a abjecção e para o burlesco do que para a beleza e a sedução (…), quanto mais estavam à vista os sexos em todos os pormenores da sua anatomia, menos se viam as caras.

(…)

Era uma espécie de compensação. Parecia que o homem ou a mulher, abandonando à fotografia a parte inferior do seu corpo, conseguiam esconder-lhes o essencial da sua pessoa.
O episódio de Milan e dos seus manequins de gesso vêm reforçar, ainda mais, esta despersonalização, associada ao mundo das imagens. É, ao mesmo tempo, uma crítica bastante mordaz ao artificialismo do mundo da moda e da publicidade, uma vez que se trata de uma deturpação, estilização do real a partir do qual se constroem toda uma série de estereótipos, da qual os manequins de Milan são o expoente máximo:


Quanto aos manequins, sendo eles próprios já de si imagens, a sua fotografia é a imagem de uma imagem, o que tem por efeito duplicar o seu poder dissolvente. Resulta daí uma impressão de sonho acordado, de alucinação verdadeira.


O mesmo conceito, aplicado à informação televisiva dos noticiários, mostra, também, que as imagens de um dado acontecimento histórico podem ser manipuladas, obliteradas ou omitida a explicação do seu contexto. Na página 174 desta edição da Dom Quixote, Michel Tournier refere um episódio da história do século XX pouco referido nos manuais: a situação no Médio Oriente e a atitude do Governo de Israel face à invasão da Faixa de Gaza. Às imagens e tentativas de justificar o facto opõe-se uma voz. O cântico tradicional de Oum Kalsoum, uma voz árabe, feminina, escutada em todo o mundo muçulmano, o som de uma civilização auditiva, sensível a todas as tonalidade emocionais, que perpassam através do timbre da voz, do ritmo.
A voz dela tem tantas nuances como todo o verde da natureza (…). A palavra tem força bastante para fazer que o cego veja.

A palavra oral, o canto, o conto, a récita, mas também a palavra escrita, de que se serve um mestre calígrafo amigo de Idriss, ao qual lhe explica A lenda da rainha Loira. A mesma lenda monstram-lhe que A caligrafia é a libertação. Escrever é a libertação.
Por outro lado, A imagem é sempre retrospectiva. É um espelho voltado para o passado.

(…)

na verdade, a imagem é o ópio do Ocidente o sinal é espírito, a imagem é matéria. A caligrafia é a álgebra da alma traçada pelo órgão mais espiritualizado do corpo, a sua mão direita. Ela é a celebração do invisível pelo visível. O árabe manifesta a presença do deserto dentro da mesquita. Através dela, o infinito desdobra-se no finito. Porque o deserto é o espaço puro, liberto das vicissitudes do tempo. É deus sem o Homem. O calígrafo, que na solidão da sua cela, toma parte do deserto, povoando-o de sinais, escapa à angústia do futuro e à tirania dos outros homens (…).

A Lenda da Rainha Loira nasce, mais uma vez, de uma crença local onde os seus habitantes acreditavam ser o dourado dos cabelos proveniente do facto de a criança ter sido concebida à luz do dia e, como tal, assinalava a impudicícia como sendo o traço principal da sua personalidade, que seria, de acordo com esta perspectiva, inata.

A Criança solar é condenada a nascer loira, de um loiro acusador, indecente, fascinante.
O cabelo loiro é, nesta perspectiva, a marca do escândalo que incentivava ao desprezo dos seus pares. A jovem, no entanto, reagirá de forma diferente da de Barba Ruiva. Sem o germe do rancor, torna-se introvertida reservada. Porque o desprezo a que é vetada não provém da repugnância mas de outra coisa. O cabelo loiro está associado a um tipo de beleza fatal que apesar do impudor, desperta a cobiça, porque fascina, resplandece.


A jovem loira, desprezada na infância, é cobiçada na adolescência e passará a usar o véu ao tornar-se rainha, para não atrair a desgraça sendo, depois, imitada pelos seus súbditos. Com o envelhecimento, a beleza dilui-se, mas a rainha conserva o retrato da sua juventude o qual mantém intacto o sortilégio despertado pelos seus traços regulares, simétricos e enigmáticos. De acordo com o poeta Ibn al Houbaida, o perigo da imagem reside na transfiguração do real, sendo esta, por si só, criadora de ilusão.


A imagem é dotada de uma irradiação paralisante como a cabeça da Medusa, que transformava em pedra os que passavam sob o seu olhar.Todavia essa fascinação não é irresistível senão aos olhos dos analfabetos. Com efeito, a imagem não é mais do que um emaranhado de signos e a sua força maléfica vem da função, confusa e discordante, dos seus significados (…).


Para o literato, a imagem não é nada.


À lenda junta-se a parábola do filho do pescador que aprendeu a ler e, com isso, a decifrar as imagens, complementando-as com as palavras. A mensagem final de Tournier vem coroada com a belíssima Lenda da Rainha Loira, acabando por concluir que Palavra e Imagem realizam, se calhar, um casamento perfeito e que ambas as civilizações têm mais a ganhar com a partilha do que com o conflito pela posse material das coisas.


Idriss poderá ter perdido a oportunidade, ao perder-se nos meios e ter perdido de vista os fins. Poderá ter mergulhado no abismo de Ibrahim ao brincar com o fogo, aproximando-se mais do que deveria do precipício que o leva à derrocada...


Ou talvez não. Fica a interrogação no ar. E todo um mar de possibilidades em aberto.



Cláudia de Sousa Dias

8 Comments:

OpenID yurialhanati said...

Você é uma guerreira por se propor a fazer esse tipo de coisa. Aqui no Brasil, tenho um blog sobre literatura também, embora a linguagem seja bem diferente. Visite-me se puder...
Parabéns!

4:32 AM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

obrigada...
embora muita gente ache esta minha escrita algo maçuda...

tenho de me esforçar por fazer textos mais pequenos.

10:50 AM  
Blogger HELDER HERIK said...

Que beleza de blog. Belo compromisso o seu. Adorei sua impressão sobre 'O Leopardo'

Ah, caso interesse, sou poeta, se quiseres te envio um livro, sem custo nenhum. Só por ter gostado do seu blog e de saberes que gostas de ler.

Topas?

Um abraço do Brasil

1:32 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

obrigada...

faço o melhor que posso...


csd

2:06 PM  
Blogger Sara said...

Li este livro há mais de 10 anos. Para ser honesta, já não me lembrava da narrativa. Mas o seu texto motivou-me a ir visitá-lo à estante, a abri-lo aleatoriamente e a dar de caras com uma citação de Voltaire, ali na página 129:
O universo embaraça-me e não posso pensar
Que este relógio existe e não tenho relojoeiro.

Parabéns pelo blogue!

10:35 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

não me lembro da citação...mas vou lá ver à página 129


:-)


bjs

6:52 PM  
Blogger Ricardo Antonio Lucas Camargo said...

Explorando um ponto secundário, que me parece de grande interesse. A própria mulher loira velada não deixa de fazer uma reminiscência à lenda céltica da Fada Melusina, de tal beleza que sua contemplação traz infortúnios, e mesmo as histórias de ondinas dos germânicos e sereias dos gregos. Entre as tribos da Amazônia, fala-se na Iara, cuja beleza atrai os homens para o fundo do rio.

4:11 AM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

para os árabes, a loira é Aischa, a segunda esposa de Maomé.


csd

11:57 AM  

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