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Bibliomaníaca e melómana. O resto terão de descobrir por vocês!

Monday, November 08, 2010

“2666" de Roberto Bolaño (Quetzal) ~"Livro II - A parte de Amalfitano”




O segundo volume da saga, diz respeito ao passado do professor Amalfitano, antes de estabelecer residência em Santa Teresa, onde se instala definitivamente, com a filha. Daqui, o episódio que mais nos prende a atenção é aquele que aponta a diferença no tratamento alfandegário a que são sujeitas as pessoas oriundas do espaço exterior à União Europeia, sobretudo quando provém de países em vias de desenvolvimento. A narração do tratamento diferenciado a que são submetidos Rosa – cidadã europeia, porque filha de mãe espanhola – e de Amalfitano – não europeu, de naturalidade chilena, apesar da ascendência italiana – é gritante. É como se estivéssemos em Roma, onde os Romanos da cidade de Rómulo e Remo são considerados cidadãos; e os romanos livres, mas nascidos em outras cidades na Península Itálica tinham estatuto de cidadãos de segunda. Ou então, como na Grécia de Sócrates e Aristóteles, onde se distinguiam Atenienses de Metecos (cidadão da periferia). Ou porque não, os primeiros indícios de um novo III Reich onde os cidadãos da UE seriam os Atenienses, ou Romanos de primeira e os restantes simples metecos, ou humanos de categoria inferior a fazer jus às mais do que refutadas teorias raciais da história que fizeram furor no último quartel do século XIX até á década dourada do poderio nazi?



Senão vejam:



Rosa tinha sete anos e era espanhola. Amalfitano tinha cinquenta e era chileno. (…) Rosa passava as alfândegas pela porta dos cidadãos comunitários e Amalfitano pela porta reservada aos não comunitários. Rosa perdeu-se e Amalfitano demorou meia hora a encontrá-la. À vezes os guardas viam Rosa e perguntavam-lhe se ela viajava sozinha ou se alguém a esperava à saída. Rosa respondia que viajava com o pai, que era sul-americano, e que tinha de esperá-lo ali mesmo. Uma vez revistaram a mala de Rosa pois suspeitaram que o pai podia passar drogas a coberto da inocência e da nacionalidade da filha. Mas Amalfitano nunca tinha traficado drogas nem armas.



A xenofobia europeia observada “de fora”por um cidadão sul-americano parece adquirir contornos preocupantes, devido à semelhança com políticas fascizantes do passado, ainda gravado a ferro e fogo nas gerações mais seniores. Tudo começa a partir do momento em que um cidadão estrangeiro, sem qualquer ligação com o mundo do crime, é considerado culpado até prova em contrário.



As disparidades e as contradições do sistema não se ficam por aqui: a mãe de Rosa, de origem espanhola e personalidade controversa e instável indicia, desde logo, um percurso de vida recheado de dificuldades, agravado por uma irresistível atracção pelo abismo. Lola mostra ser uma mulher com graves dificuldades de adaptação e integração social, cujas escolhas a impedem de levar uma vida estável, de forma a cuidar e educar uma criança. É por estas razões que Rosa crescerá com o pai, o intelectual sul-americano ao qual o Estado, apesar de se tratar de um país em vias de desenvolvimento, concede valor suficiente para lhe garantir a subsistência. O percurso de Amalfitano liga-se ao de Lola por um período muito breve. A separação torna-se inevitável e Amalfitano mergulha numa solidão crónica, dissipada apenas pela presença da filha e uma ligação amorosa, embora sem compromisso, com uma colega de trabalho. Amalfitano é aquilo que Vila-Matas define como “máquina solteira”, isto é, aquele celibatário convicto que menciona nos seus romances sobre intelectuais e a inspiração e criatividade na escrita, marcada pela desilusão de um quotidiano com poucas expectativas. No romance de Bolaño, os dois membros do casal libertam-se um do outro para viverem cada qual à sua maneira, já que são duas personalidades demasiado individualistas a gerir o quotidiano de forma diametralmente oposta: enquanto que, para Amalfitano,são imprecindíveios a estabilidade económica e a tranquilidade no quotidiano as quais se associam ao amor às letras e ao ensino; para Lola, a vida é aventura, errância. Mais: Lola é alguém que constrói a própria realidade. Edifica na própria mente um mundo à sua medida e ao qual a maior parte das pessoas não tem acesso, tal como na visita realizada ao hospital psiquiátrico em Barcelona, onde à procura de algo que nunca teve a mais leve expressão da realidade.



A narração da história de Lola é uma narrativa secundária à qual temos acesso apenas e só através das cartas que Amalfitano vai recebendo esporadicamente da ex-mulher. Trata-se portanto de uma estória contada na primeira pessoa onde se pode observar o ponto de vista pessoal da personagem e apreciar até que ponto de manifestam as distorções da realidade por ela operadas. Amalfitano e Lola têm, também, formas diametralmente opostas de projectarem o que sentem. Amalfitano fá-lo através da escrita ensaística: é um filósofo dotado de pensamento analítico, crítico, racional. Lola é, pelo contrário, toda ela, sentimento, paixão, formatada para se tornar poeta ou romancista, característica que se manifesta através de actos apaixonados e irreflectidos, numa escrita caótica porque emocional por excelência.



Amalfitano é um pensador. Racional, lógico, mas deixando espaço para o imprevisto fruto do acaso ou da conjugação dos elementos externos à sua pessoa. A título de exemplo desta sua faceta é sintomática a colocação do tratado de geometria no estendal da roupa, ao sabor dos elementos, de forma a sublinhar esta característica da sua mente: Amalfitano está vocacionado para formular raciocínios, elaborar pressupostos, efectuar ligações analógicas, esquemas dedutivos – processos mentais usados tanto em geometria como em análise literária. Coloca, no entanto, a sua racionalidade ao sabor do vento da inspiração.



Amalfitano é natural do Chile, embora de ascendência napolitana. O pai não se coibe de mencionar que a corrupção instaurada no Chile e na América do Sul em geral, tem como paradigma a realização de acordos que estão na base das vitórias desportivas. Fala dos pugilistas como pessoas que se vendem a quem der mais, descurando o profissionalismo em detrimento do dinheiro. Opinião que o filho extrapola para o México, sobretudo na cidade de Santa Teresa, apesar de consciente que o país onde nasceu o pai é, também, o berço da Camorra.



Rosa representa o Universo dos jovens que, no México, crescem protegidos pelo estatuto social da família e, em geral, livres de privações, situando-se na classe média alta. O mesmo não se passa nas classes menos favorecidas onde as mulheres são meros instrumentos postos ao serviço do homem, encarado como o chefe de família.



Por outro lado, a noite em Santa Teresa torna-se perigosa para as mulheres, mesmo aquelas que não frequentam bares, discotecas ou casas de alterne, poiso de traficantes, proxenetas e prostitutas de luxo. Por vezes, mesmo a caminho do trabalho na fábrica, a exercer a profissão de jornalista ou até mesmo em simples passeio turístico, o perigo espreita.



Mas mesmo para jovens como Rosa parece ser fácil, através de companhias consideradas de “boas famílias” ou simplesmente detentoras de trabalho aparentemente respeitável, que escondem ligações ao crime organizado, envolvendo comércio de estupefacientes e tráfico humano, executadas na sombra, poderem ser colocadas em situações “de risco”.



De facto, o terror vai-se acumulando na mente de Amalfitano, à medida que a filha cresce e interage socialmente. Este apercebe-se que a jovem escolhe as amizades de forma completamente aleatória, ou baseada nas aparências. Amalfitano está intranquilo mesmo sabendo que a maior parte das vítimas de violação e assassínio naquela cidade são de outros bairros.



Roberto Bolaño foca, neste Livro II, a importância das companhias como factor propiciador ao contacto com meios duvidosos e elementos que norteiam a conduta pela perseguição de objectivos superficiais. Sem esquecer a pintura de uma quase infinita panóplia de nuances de corrupção endémica nas instituições a coberto de uma moral hipócrita, abrangendo políticos, polícias, magistrados e mesmo alguns pseudo-intelectuais.



Bolaño volta a recorrer, nesta segunda parte de 2666, à alternância de planos de acção: de um lado, a leitura imbuída de ironia e algum sarcasmo, de uma obra medíocre, sem criatividade nem espírito crítico, cujo autor excreta uma obra que peca essencialmente pela falta de rigor científico. Trata-se de um autor institucionalizado e ligado a uma determinada facção política. Do outro lado, temos os comentários deliciosamente cáusticos, quase anedóticos o narrador que vai tecendo relativamente ao comportamento dos convidados, durante um jantar em casa do reitor Negrette. Para rematar, desmantela de forma quase lúdica, embora não sem uma pontinha de perversidade, o modelo teórico do ensaísta tão aclamado, de forma brilhante e irrefutável.



Em relação ao tema dos crimes e das mortes violentas que afectam as mulheres da cidade, o autor dá a entender, nas entrelinhas, que só um trabalho de equipa envolvendo vários organismos competentes e equipados com pessoas do calibre de Amalfitano, que privilegiam o brio profissional acima dos privilégios, será capaz de destrinçar o emaranhadíssimo novelo relacionados com o ginocídio que decorre no estado de Sonora.



Durante o já mencionado jantar em casa do Reitor Negrette, na primeira parte, são-nos já dados alguns vislumbres daquilo que se passa por detrás das aparências. O autor fornece pequenas peças do puzzlle. Mas só os cinco livros no seu conjunto nos dão a visão global do problema.



O principal móbil destes assassínios, antecedidos de violação, parece residir no factor cultural e na forma como se distribuem os papéis dentro de uma família nuclear ou mesmo nas relações entre os géneros mesmo que não constituam um casal. E, daí, se extrapola para a forma como se estrutura a sociedade em si, o peso do papel da mulher fora do espaço doméstico, as profissões que desempenha, o reconhecimento social, a valorização do trabalho feminino e as condições em que este ocorre. De tudo isto, resulta a impunidade daquele género de crimes. Sobretudo quando os seus autores são figuras de tal forma ligadas ao poder que se tornam intocáveis. Durante outro jantar em que participa Amalfitano é particularmente notório o desprezo latente dos jovens mimados, filhos de pais bem colocados no aparelho de Estado, face às pessoas dos bairros pobres. Sobretudo - no diálogo entabulado entre o Amalfitano e Marco António Guerra, na página 266, da presente edição, pela forma como este se refere às empregadas da “maquiladoras”, de onde saem a maior parte das vítimas dos crimes.



A parte de Amalfitano termina com uma breve reflexão, adoptando um tom descontraído sobre as consequências do desmoronar do sistema económico comunista e dos valores a ele associados, descrevendo o comportamento de Boris Ieltsin, digno e uma ópera buffa. Ou de uma sátira:


Escuta as minhas palavras com atenção, camarada. Vou explicar-te qual é a terceira perna da mesa humana.



(…)



A vida é oferta e procura ou procura e oferta; tudo se limita a isso, mas assim não se pode viver. É necessária uma terceira perna para que a mesa não caia na lixeira da história, que por sua vez está sempre a desmoronar-se na lixeira do vazio. A expressão é esta: oferta + procura +magia. E o que é a magia? Magia é épica, e também é sexo e numa forma dionisíaca é fogo.”



(…)~



Seguidamente , tirava a garrafa de vodka da algibeira e dizia:
- Creio que está na hora de beber um copinho
.”


Amalfitano é talvez a personagem mais importante do romance, a par de Archimboldi. São dois heróis em tempos diferentes, mas com a mesma consciência humanista. Neste trecho, o autor está a criticar os sistemas excessivamente racionais que se pautam por números, estatísticas, cálculos entre perdas e lucros, tentando dizer que a alma humana é bastante mais do que isso, servindo-se para tal, de uma figura da história recente, emprenhando-se em frisar que tem de haver espaço para o sonho e para um ideal de justiça. Sobretudo de justiça social. Isso é o fogo, a épica de que fala este Ieltsin burlesco.



O foco de preocupação dos cinco volumes de 2666 acaba sempre por desembocar em Sonora , lugar onde convergem todas as personagens principais, apesar de a acção do primeiro e do último livros decorrer, na sua maior parte, na Europa. Mas todos acabam por desembarcar no ground zero da cidade onde decorrem os assassínios, unindo assim o destino da História e a própria condição Humana.

CSD

2 Comments:

Blogger O Cobridor do Fraque said...

Terminei ontem a releitura de «A Parte de Amalfitano», a qual considero bem menos interessante do que a anterior «A Parte dos Críticos».

Desta vez, os acontecimentos precedem a chegada dos críticos a Santa Teresa ocorrida no final da primeira parte. O tempo presente é o da chegada de Amalfitano, com a sua filha, à cidade de Santa Teresa, fugindo de Barcelona. Vamos conhecendo a história de vida de Amalfitano e compreendendo os motivos que o levaram a empreender uma espécie de fuga, desde a metrópole cosmopolita de Barcelona até uma cidade de importância regional da América Latina, como Santa Teresa.

Em «A Parte de Amalfitano», o humor está quase ausente, com exceção de algum "nonsense" e a narrativa ressente-se da quebra de ritmo, pois Amalfitano, ao contrário dos críticos da primeira parte, parece estar a cair no abismo sem conseguir reagir.

Também o número de personagens é significativamente menor, ilustrando a vida rotineira embora desagregada do professor universitário de filosofia Óscar Amalfitano.

Talvez o melhor desta segunda parte seja a narração da viagem empreendida por Lola (a antiga companheira de Amalfitano e mãe da sua filha Rosa), com a sua amiga Immaculada, até ao manicómio de Mondragón, no norte de Espanha, com o objetivo de declarar o seu amor ao poeta homossexual com quem garante ter feito amor durante uma festa, em Barcelona. A narração dessa viagem, com todas as suas peripécias e personagens curiosas, como Larrazábal (o fetichista do cemitério que quer possuir Lola sobre a campa da sua mãe) e Edurne e o seu marido Jon (em casa de quem Lola e Imma pernoitam) que são afinal tão normais pela sua anormalidade, torna a leitura recompensadora.

Desta parte, mais concisa e curta, quase desaparecem também as divagações e histórias laterais que abundavam na primeira parte, embora sem comprometer a fluidez e a coesão da obra. De facto, apenas as leituras e conjeturas de Amalfitano sobre um livro de Lonko Kilapán, sobre telepatia e o povo araucano, se insere nessa categoria de "histórias secundárias".

Deve contudo notar-se que o protagonista desta segunda parte, Óscar Amalfitano, já na primeira parte tinha um longo monólogo acerca dos intelectuais mexicanos, o qual se insere nas referidas "histórias secundárias".

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Ciudad Juárez é, na verdade, a cidade de Santa Teresa. Por algum motivo, Bolaño resolveu inventar um nome diferente, mudando também ligeiramente a localização geográfica. Ciudad Juarez fica no estado mexicano de Chihuahua, ao passo que a Santa Teresa de «2666» se localiza no estado vizinho de Sonora, também no México. Por outro lado, é Tucson, no Arizona, a cidade americana muito próxima de Santa Teresa, mas na realidade Ciudad Juárez está praticamente colada à cidade americana de El Paso, no Texas.

Para quem gosta de «2666», deixo a sugestão de visitar, Ciudad Juárez através da vista de rua do Google Maps e assim ter. uma perspetiva de como a cidade realmente é. Aviso já que não é bonita.

12:35 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Pois não...quem lá esteve foi a Alexandra Lucas Coelho, a jornalista do público que escreveu o livro "Viva México". Aqiulo é medonho e o ambiente muito semelhante ao que descreve Bolaño no romance 2666. É, segundo ALC, uma das cidades mais violentas do mundo, dominada pelo narcotráfico. É possível que ele tenha criado uma cidade fictícia inspirado em ambas as cidades reais. Faz sentido para proteger a identidade das pessoas em quem se inspira.

2:16 PM  

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