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Monday, February 28, 2011

"Musk" de Percy Kemp (Bizâncio)


A tragicomédia da sedução olfactiva e animal contidas num num frasco de perfume em vias de extinção é a essência deste romance. "Musk" é história da loucura obsessiva do agente secreto Armand Eme (M de Musk) cujo hobby preferido é a sedução, num divertida paródia aos filmes de 007.
O personagem é um homem narcisista e meticuloso ao extremo - sobretudo no tocante ao cuidado da sua toilette -, vive apenas em função de si mesmo, de tal modo que a vaidade parece ser tudo o que lhe resta já que, na sua vida, não há mais ninguém suficientemente importante a quem dedicar a atenção nos tempos de ócio...

Esta é, talvez, a explicação para que esta personagem se sinta completamente desorientada quando se vê, subitamente, privada da sua principal arma de sedução: o perfume Musk.

Este aroma, devido à imposição da nova gerência da empresa que o produz, é retirado do mercado, sendo substituído por uma nova fórmula, com o objectivo de satisfazer os novos objectivos de produção e não necessariamente para proteger a espécie animal que contribui para o seu fabrico. O que obriga a que o musk, produzido pelas glândulas sexuais de uma espécie de antílope em vias de extinção, deixe de ser comercializado. Em seu lugar, é colocado um produto de odor semelhante, mas de origem sintética. A protecção da espécie e as exigências do mercado obligent.

E o senhor Eme vê-se então despojado, espoliado do seu mais eficaz afrodisíaco. Que lhe é tanto mais necessário quanto maior o inexorável avanço da idade que o vai, lentamente, privando dos seus encantos naturais. Conservados pela ilusão mágica do perfume - autêntico efeito placebo.

Consequentemente, a história gira em torno das mais extravagantes estratégias elaboradas pelo protagonista de forma a conseguir arrecadar a maior quantidade de perfume possível de tão erógeno aroma e prolongar um pouco mais a vida, a juventude e a capacidade de suscitar desejo no sexo oposto.

A história de Musk ilustra um pouco aquilo que acontece com as grandes marcas de alta perfumaria. Até há algumas décadas atrás, estas dedicavam-se a elaborar fórmulas de luxo destinadas ao consumo de uma élite. Hoje em dia, o mercado da alta perfumaria estende-se às massas. É, pois, necessário produzir em grandes quantidades e com o mínimo de custos, obrigando à substituição de alguns ingredientes, extremamente caros, ou de difícil obtenção -, como é o caso do âmbar cinzento, há algum tempo atrás mencionado nas notícias, proveniente das baleias-cachalote (presente em perfumes de marcas de tradição parfumeur), agora substituído porum ingrediente de odor semelhante proveniente das agulhas de pinheiro; ou do célebre fixador do desaparecido perfume Joy, de Jean Patou, cujo extracto implica o sacrifício de inúmeros exemplares de uma rara espécie de escorpião, o que obrigou a retirar o perfume do circuito comercial português, encontrando-se à venda apenas num número bastante restrito de países entre os quais a França e E.U.A.

A escolha do tema, por parte do Autor, teve como inspiração a substituição dos ingredientes da sua marca de chocolates preferida, juntamente com uma pequena alteração do respectivo invólucro. Esta situação levou-o a estabelecer um paralelismo com o mundo da perfumaria, construindo uma personagem que faz lembrar um pouco a obsessão de Jean-Baptiste Grenouille, o vilão de O Perfume de Patrick Süskind.

Um conto para desfutar durante o fim-de-semana do bom humor ao estilo britânico de Percy Kemp.

Cláudia de Sousa Dias

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6 Comments:

Blogger Baudolino said...

Cláudia! Faz tempo que não passava aqui! Tudo bem?

10:54 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

sim, está tudo bem...já está na altura de postar mais um texto. ainda vai demorar mais um dia ou dois, porque tenho de o passar a computador. Mas acho que vais gostar do próximo.

:-)

um beijinho e um bom fim-de-semana...

1:52 AM  
Blogger Olinda Melo said...

Olá, Cláudia

Quando comecei a ler este texto lembrei-me logo de "O Perfume", pela semelhança das duas personagens nas suas obsessões.No fim do texto o paralelismo foi realmente estabelecido.
Na vida de todos os dias encontramos, não poucas vezes, pessoas que só funcionam perante determinados estímulos que lhes servem, na sua insegurança ou patologia, como uma espécie de "bengala".
Gosto destas suas análises e do muito transmite em termos de conhecimento.
Um abraço
Olinda

2:45 AM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

sim, é verdade. Mas existem diferenças de personalidade fundamentais entre os protagonistas de ambos os romances. Este é um livro de leitura muito mais leve. O personagem é menos complexo, sofre de uma espécie de autismo social mas não é capaz de matar pessoas para obter o perfume...

10:46 AM  
Blogger Olinda Melo said...

Interessante.Por falar nisso, li em tempos um livro intitulado "Beleza", cujo autor não me ocorre agora, em que o protagonista querendo alcançar a beleza pura e perfeita fazia, para isso, operações plásticas até à saciedade.Como resultado infligiu danos físicos e psicológicos muito graves.Já em "O coleccionador de sons" de Fernando Trías de Bes, uma trama labiríntica, o personagem à procura do som perfeito,desenvolve uma perigosa obsessão e vai deixando atrás de si um rasto de extrema violência.

4:47 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

o primeiro, não conheço.

O segundo sim, mas ainda não adquiri. De qualquer forma, o tema interessa-me.

4:57 PM  

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