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Friday, January 29, 2016

"Alice no País das Maravilhas e Alice do Outro lado do Espelho" de Lewis Carroll (Relógio d'Água)

Tradução de Margarida Vale do Gato

O conteúdo da obra mais conhecida e mediática deste autor (graças às diversas adaptações ao cinema e séries de animação) já aqui foi explorado e debatido (ver arquivo de Janeiro de 2007) .

Hoje voltamos novamente a As Aventuras de Alice no País das Maravilhas para falar da tradução de Margarida Vale do Gato para a editora Relógio d'Água, a qual integra, também, a sequela Alice do outro lado do Espelho. Trata-se de uma versão, sem dúvida, cativante e inteligente na medida em que consegue encontrar soluções de tradução para a Língua Portuguesa em que, mais do que uma tradução à letra, se procura manter ao máximo a intenção do Autor, relativamente ao efeito que os jogos de palavras e as situações escolhidas causam nos leitores: desde a conversão das expressões idiomáticas da língua inglesa para outras equivalentes  na língua lusa, à adaptação dos trocadilhos linguísticos, coloquialismos, ou mesmo de poemas e canções populares, provérbios, adivinhas, ladaínhas e trava-línguas. Para isso, a tradutora,baliza-se grandemente no património cultural e imaterial presente na cultura popular portuguesa. Esta estratégia de tradução literária tem a vantagem não só de ajudar à criação e a facultar uma rápida compreensão das situações divertidas e truculentas que tanto fascinavam Carroll na língua inglesa, como também de facilitar grandemente a aproximação do publico infanto-juvenil à literatura através dos jogos linguísticos. Na versão portuguesa, Margarida Vale do Gato brilha na forma de usar truques linguísticos susceptíveis  de gerar este efeito. Por exemplo, a forma inventiva e alternativa como Alice utiliza os graus dos adjectivos: na versão original, após desaparecer num buraco no solo em perseguição do Coelho Branco e dar entrada no mudo subterrâneo, a menina experimenta uma desconcertante sensação de estranheza (curiousness) ao cair lentamente num poço aparentemente sem fundo. Além do mais, todo o ambiente que a rodeia, se lhe apresenta de forma igualmente estranha e contrária a toda a espécie de lógica: desde a ausência de gravidade, até à percepção das proporções dos objectos e, sobretudo, do próprio corpo, exclamando "curiouser and curiouser", ao invés de  recorrer à fórmula convencional "more and even more curious", como dita a norma da língua inglesa. Para a versão portuguesa, Margarida Vale do Gato opta antes por recorrer a um neologismo de forma a ilustrar esta "estranha" forma de aplicar os graus dos adjectivos: "Estranho...estranhosíssimo", ao invés do clássico "Cada vez mais estranho" utilizado em outras traduções. Outra forma particular de adaptação ao português por esta tradutora, tem a ver com as questões culturais que se relacionam não só com as duas línguas mas, sobretudo, com o aspecto antropológico e com os aspectos particulares da cultura portuguesa como a gastronomia e a doçaria as quais divergem bastante em ambos os países: em Alice do outro Lado do Espelho, o clássico "plum pudding" (pudim de ameixa), no original, transforma-se em "bolo de bolacha" na versão portuguesa do conto. Ora se este género de tradução tem o inconveniente de causar um afastamento relativo face a alguns aspectos concretos da cultura inglesa e do discurso original, terá, por outro lado, a vantagem de colocar os mais novos frente a uma situação que faz parte do seu universo, de gerar maior empatia com a personagem e facultar uma melhor percepção da complicada situação desafiante que surge na história (dividir o bolo antes de o cortar) e que tem de ser resolvida por Alice.

Por outro lado, se ambas as histórias contidas neste livro se tornam extremamente cativantes na versão traduzida por Margarida Vale do Gato - e perfeitamente passíveis de serem submetidas a uma leitura em grupo, numa sessão dirigida aos mais novos -, não se poderá dispensar o leitor adulto de mergulhar no original, tratando-se de um verdadeiro apreciador da obra de Lewis Carroll.

Mas a grande mais-valia desta edição da Relógio d'Água reside, acima de tudo, nas notas explicativas redigidas ela tradutora no final do livro, que ajudam à compreensão de ambas as histórias nela contidas.

Posteriormente, trataremos aqui da compilação do conjunto da obras literárias de Lewis Carroll, incluindo os, poemas, narrativas,  ficção e textos dispersos publicados na imprensa. Para já, fica esta sugestão em homenagem ao autor nascido a 27 de Janeiro de 1832, cujo aniversário teve lugar ainda esta semana, portanto. Happy Birthday, Mr. Carroll!





Londres, 29 de Janeiro de 2016
Cláudia de Sousa Dias





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