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Bibliomaníaca e melómana. O resto terão de descobrir por vocês!

Tuesday, September 05, 2006

Música e Silêncio” de Rose Tremain (ASA)


Após o audacioso e pouco ortodoxo Restauração, a ASA publica mais um romance histórico da Autora. Desta vez, o protagonista é o Rei Cristiano IV da Dinamarca: génio, criativo, tio do malogrado Charles I de Inglaterra e ...melómano.
Copenhaga, 1629. O Rei Cristiano IV governa o actual território dinamarquês acrescido da Noruega e da Islândia.

Casado com uma mulher frívola, que o trai com o seu inimigo, o Rei é humilhado pela derrota da última guerra religiosa, no contexto da Guerra dos Trinta Anos, entre católicos e protestantes envolvendo a Casa dos Habsburgos – em Espanha – e a Casa da Áustria. Com as finanças do país exangues, o rei Cristiano mergulha na depressão, agravada pela perda do amigo de infância, Bror Brorsen.

Além dos fantasmas da Saudade e da Solidão, é perseguido pela necessidade urgente e imperiosa de sanear a economia do país. Dentro dos projectos e reformas por ele iniciados, algumas medidas relativas contenção do esbanjamento irracional face à nobreza tornam-no assaz impopular entre os cortesãos.

Rose Tremain dá-nos a conhecer a vida de um Rei atormentado por uma corte de bajuladores, farto de hipocrisia e carente de verdadeiros pensadores e conselheiros racionais. Cristiano IV prossegue a sua busca pela perfeição expressa na exigência de produtos de qualidade, tornado-se quase que obsessivo na identificação quer dos defeitos de produtos de origem dinamarquesa, quer nas falhas dos serviços administrativos.
Idealiza uma série de projectos grandiosos – a edificação do castelo de Friedriksborg e de um observatório de astronomia - e reformas audazes podendo, em seu idealismo e criatividade, ser comparado com Ludwig II da Baviera, no século XIX.

A sua faceta criativa traduz-se, por exemplo, numa forma pouco ortodoxa de aplicação da justiça, preferindo administrá-la tendo em conta o aspecto repositivo em vez do punitivo, enquanto que o lado sonhador da sua personalidade reflecte-se no amor à investigação científica e às artes, sobretudo...à Música.

A música é para o Rei como que um lenitivo, sob a forma de catarse que, ao limpar a alma, facilita a introspecção e a comunicação com o divino, ou seja, a Perfeição, no entender do monarca. A principal finalidade do romance é precisamente a de mostrar a música como a terapia da Alma.

Paralelamente à trama que envolve personagens históricas, é desenvolvia uma história romântica entre duas personagens fictícias: Peter Claire, o alaudista inglês contratado pelo Rei, e a jovem Emília, aia de Kirsten, a consorte real – um dos poucos aspectos do romance que segue a fórmula clássica do conto de fadas depois de começar como um amor impossível, à laia de Romeu e Julieta.
Personagens
Peter é alguém cujo carisma e falta de premeditação na forma de agir conquistam a confiança daqueles que com ele convivem, sobretudo do Rei que o vê como um ser angélico e protector, um pouco à semelhança do que acontecia no passado com Bror.

Bror e Peter são classificados como seres de ouro quase que semi-divinos e a quem a divindade não consegue de deixar de reclamar para junto de si. Em termos mais racionalistas pode-se classificar estas duas personagens como seres demasiado íntegros para se defenderem da Perfídia e de facilmente despertarem o Ciúme ou Inveja.

De aparência mais discreta, mas igualmente naïf, Emília está numa situação muito semelhante pois é visada simultaneamente pelas duas grandes vilãs do romance: Kirsten e Magdalena.

Os Males da Alma

Exceptuando o par romântico constituído por Peter e Emília, quase todas as restantes personagens principais sofrem de uma determinada disfuncionalidade a nível psíquico.

Um dos aspectos mais aliciantes focados no romance, é precisamente, a forma como estes “males da alma” eram vistos pela população dinamarquesa do século XVII. Numa cultura em que a “loucura” era frequentemente conotada como possessão demoníaca, a Autora faz, de uma forma inteligente, o enquadramento dos diferentes mitos e superstições no quotidiano do povo dinamarquês logo no início do romance, ilustrando a forma como o sobrenatural constituía a explicação de todas as anomalias. Do corpo e da psique.
A Autora consegue criar um forte contraste com o diálogo entre Peter e Cristiano a propósito do mundo do racionalismo cartesiano versus o mundo das emoções. Nota-se uma inspiração na obra de António Damásio em O Erro de Descartes. A psicologia da gestalt também está presente nas entrelinhas, a propósito do saco de botões, onde se chega à conclusão que o valor do conjunto é superior à soma do valor de cada um dos elementos isolados que o compõem.

O rei Cristiano é, frequentemente, retratado em estado depressivo, passando por momentos esporádicos de ansiedade. Este encontra na Música um ansiolítico e no diálogo, primeiro com Peter e depois com Vibeke – a sucessora de Kirsten – a terapia e e o caminho para a cura.

Kirsten, a esposa, manifesta, por sua vez, sinais inequívocos de personalidade anti-social. Como se trata de uma patologia que tem a ver não propriamente com distúrbios de ansiedade mas antes com a construção do carácter e a forma positiva ou negativa de resolução/integração dos conflitos, a Música não a afecta. Porque não existe, para ela, nenhuma recordação positiva associada à Música. A Música, para que a amemos tem de estar, através da Memória, associada a algo que nos transmita prazer ou bem-estar. Para Kirsten a única fonte de prazer e bem-estar é o Sexo – o seu único deus.
Como Kirsten não possui sentido estético, a sua criatividade e imaginação não estão voltadas para as Artes nem para a aquisição do conhecimento, a não ser para a satisfaça dos seus interesses mais imediatos. Kirsten está permanentemente em guerra com o Mundo. Tudo o que afasta o pensamento dos seus jogos de estratégia para ficar em vantagem relativamente àqueles que estão à sua volta funciona como distrator, diminuindo o seu estado de alerta. É por esta razão que Kirsten não só não ama a Música como também a detesta.

A personalidade da consorte do rei é marcada pela impressionante frieza com que manipula a vida das pessoas como se se tratassem de meras peças de xadrez. Possui também uma extraordinária capacidade de transformar uma verdade em mentira e de vestir uma mentira com as roupagens da Verdade. Trata-se de uma patologia que manifesta um total desrespeito pelo Outro, visando a satisfação dos interesses individuais, camuflados muitas vezes debaixo de uma máscara de altruísmo.
Para isso recorre, frequentemente, a mecanismos de defesa do EGO como a racionalização, a sublimação e a projecção face às suas próprias atitudes.

Bror, o melhor amigo do Rei, sofre de dislexia, o que lhe causa sérias dificuldades de integração social.

Marcus, o irmão mais novo de Emília, padece de autismo, agravado pelos maus-tratos infligidos pelo pai e pela madrasta. Emília será a terapeuta do irmão ao utilizar um método tão ousado quanto pouco ortodoxo, exigindo-lhe grande dose de criatividade ao entrar no mundo dele, ajudando-o a construir, a partir daí, o seu vocabulário, ampliando-o trazendo-o de volta à realidade conjugando duas artes: a pintura e os sons/música da Natureza.

Destaca-se a beleza do capítulo intitulado O quarto dos insectos que ilustra o pequeno mundo fechado de uma criança que não consegue conviver com a dura realidade à sua volta.

A condessa O’Finley, sofre durante algum tempo de melancolia/depressão após o fim do seu relacionamento com Peter. Francesca liberta-se através da escrita, do trabalho e do aumento do convívio social.

Mas nem todas as situações evoluem favoravelmente. O Conde o’Finley afasta-se progressivamente da realidade, devido à perseguição de um sonho que não é o seu.

No caso específico do marido de Francesca, a Música não funciona como terapia. É, pelo contrário, um factor de agravamento do seu estado manifestando sinais inequívocos de esquizofrenia.

Já em relação à rainha-Mãe, Sofia, nota-se um progressivo estado de demência causado por uma doença degenerativa do sistema nervoso que a leva a manifestar comportamentos disfuncionais como a avareza.

O pai de Emília é uma personagem de índole simultaneamente passiva e egoísta que se deixa manipular pela perfídia da segunda esposa, também de personalidade anti-social Magdalena.

A Simbologia: Música e Silêncio

A música opõe-se ao silêncio, funcionando, no caso do Rei Cristiano e do conde O’Finley, como catalizador dos processos mentais.

Segundo uma das personagens principais, a Música “é a alma humana falando sem palavras”. Para Peter Claire – o músico terapeuta – esta permite exprimir “alguma coisa de mim próprio que, de outra forma, não teria voz”. O diálogo ocorrido entre ambos torna-se particularmente produtivo pois, é como se fosse uma conversa entre psicólogo e paciente ou entre conselheiro não oficial e discípulo real.

O Silêncio surge ainda como a face negativa da Música. Simboliza o vazio da alma. A impassibilidade. A indiferença. A alma mergulhada no caos. Nas trevas. A música surge quase sempre para as pessoas que lhe são sensíveis como um paliativo gerador de harmonia.

Para o estado de alma de O’Finley um paliativo não é suficiente, devido a um estado de progressiva alienação da realidade.

Mas ao longo da obra, predomina a ideia de que a ausência de música significa a Solidão. No casamento de Charlotte, a irmã de Peter, acontece algo de paradoxal: a magia da música cigana consegue calar os convidados que, refugiando-se dentro de si mesmos, se aproximam pelo fascínio que os gemidos dos violinos ciganos exercem. É o apelo à emoção, à liberdade à tentação de pertencer a si mesmo que hipnotiza os convidados, fazendo parar o ruído da festa.

Podemos mencionar, ainda, a presença de outros elementos simbólicos na obra tais como o Inverno, o Gelo e as cinzas, que estão conotados com o arrefecimento da paixão. De Peter por Francesca O’Finley, Cristiano por Kirsten.

Bror é como que o anjo da guarda do próprio Rei, o símbolo da liberdade, da beleza da juventude que após o seu desaparecimento este pensa ter reencontrado em Peter.

O mês de Abril em Copenhaga está associado ao perfume dos lilases que, por sua vez, está conotado com a felicidade…Tal como o aroma das tílias aparece ligado aos amores fugazes.

O EstiloO estilo varia consoante o tipo de narrador. E há três narradores em Música e Silêncio.

Há, em primeiro lugar, o narrador não participante e omnisciente. Onde predomina o estilo narrativo. Cada cena é decomposta nos seus mais ínfimos elementos, com os verbos quase sempre no pretérito perfeito, relatando os mais ínfimos movimentos ou mudanças de emoções das personagens através de gestos ou expressões faciais. Trata-se de um discurso frio, objectivo e dessecante. A única desvantagem reside no facto de que o leitor ouve mais a voz do narrador ao invés de visualizar a cena, o que aconteceria se a Autora optasse por um estilo mais descritivo. Uma desvantagem que desaparece quando a narradora é Kirsten o a Condessa O’Finley.

A primeira ao escrever os seus Cadernos Íntimos é como se estivesse em perpétuo diálogo, ou melhor, em monólogo directo com o leitor exibindo a sua personalidade enérgica, cínica e marcadamente lasciva. O estilo que sai da pena de Kirsten é marcadamente descritivo, fazendo simultaneamente juízos de valor de acordo com a sua personalidade. Aqui estamos no plano exclusivamente individual, permitindo-nos viajar pela mente tortuosa de uma mulher cujo comportamento, politicamente incorrecto, faz lembrar o das Ménades durante as festas dionisíacas. A construção dos seus argumentos mostra uma pessoa que, além de egocêntrica, é extremamente inculta. Porque não é capaz de utilizar a simples aquisição de conhecimento em proveito dos outros. Há sempre uma total falta de generosidade nos seus propósitos, mesmo quando estes estão cobertos com a máscara do altruísmo.
Orientada pelo princípio do prazer, Kirsten é o arquétipo negativo de uma Vénus/Afrodite, materializada numa fêmea humana que poderia ser a companheira do Marquês de Sade. Ela torna-se a perfeita anti-heroína, em contraste com a ingenuidade de Emília, uma autêntica Julieta Shakespeariana, esquiva como Arthemis.

A terceira narradora, a condessa O’OFinley, dá-nos a conhecer a sua história através dos seus diários intitulados de La Dolorosa cuja escrita põe a nu a sua sensibilidade, romantismo e nostalgia. Os diários da condessa são dotados de uma prosa apaixonada, e arrebatadora de uma mulher madura no apogeu do seu magnetismo pessoal e poder de sedução. As suas páginas são aquelas que mais estão impregnadas de lirismo em toda a obra. Através do olhar de outras personagens, como Peter ou mesmo o próprio Rei Cristiano, apercebemo-nos que é uma mulher dotada de uma beleza serena e, ao mesmo tempo, majestosa. Francesca é o arquétipo positivo de Afrodite, uma mulher que seduz pelo charme e sofisticação, pelo saber estar e pela expressão enigmática, giocondica.

Música e Silêncio é uma obra de grande interesse, apesar de a Autora não conseguir evitar o lugar-comum no destino que reserva a Francesca O’Finley.

Sobressai a beleza da música na pena de Rose Tremain.
Só para as almas sensíveis. Que entendem a linguagem dos sons.
Que exprime o que não pode ser traduzido por palavras.


Cláudia de Sousa Dias

10 Comments:

Blogger luna said...

É interresante: acertaste em grande na minha escritora preferida. Curiosamente ainda não li "A senhora do Trillium", nem "A queda da Atlântida", mas estão na lista dos próximos a ler.

Fiquei curiosa em relação ao livro que aqui nos apresentaste. Uma história muito interessante e mesmo do estilo de livro que eu gosto!

Abraço Lunar

5:35 PM  
Blogger Nilson Barcelli said...

Podes imprimir e declamar à vontade.
Depois conta como correu.
Beijos.

6:25 PM  
Anonymous Alfredo Allen Valente said...

Confesso o meu desinteresse por romances históricos... :(

12:56 PM  
Blogger sleep well said...

Os livros sempre pelos teus olhos.

6:09 PM  
Blogger sleep well said...

Os livros sempre pelos teus olhos.

6:09 PM  
Blogger Janelas da Alma said...

Olá Claudia,

Obrigado pela visita às minhas Janelas.
Continuas a promover o gosto e a apreciação pela literatura com uma sensibilidade magnífica.
beijos,

Nuno Osvaldo

10:53 AM  
Blogger Nilson Barcelli said...

Não disse na altura, mas a análise que fazes ao romance é soberba. Muito profissional.
Beijos.

12:33 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Luna,ainda bem que gostaste!Quanto aos livros, pessoalmente acho que vais adorar "A Queda da Atlântida";

Nilson,não consegui imprimir os teus poemas mas não vou desistir!A sessão correu bem,teve acompanhamento musical, cantou-se Zeca Afonso e Elis Regina:-)

Sleep Well, um beijo para ti;


Alfredo...eu sou uma pessoa que gosta de variar dentro dos diferentes géneros literários. Quanto ao romance histórico penso que apesar de não apreciares o género irias provaelmente gostar de Umberto Eco ou Salman Rushdie...

Sugiro-te "O Nome da Rosa" ou "O último Suspiro do Mouro" outra alternativa será talvez Catherine Clément -"A Senhora" - ou Amim Maalouf - "Samarcanda".

Vais ver que vais gostar.

São "la créme de la créme" do romance histórico.

Osvaldo, as tuas fotografias só são superadas pelas tuas receitas de fazer crescer água na boca!

Beijos a todos

CSD

6:01 PM  
Blogger -pirata-vermelho- said...

Querida Cláudia,
interrogo-me acerca do destino de um meu extenso comentário a esta sua apresentação que tanto gosto me dá. Sou de fazer as coisas 'à uma', sinto-me incapaz de o reconstruir, infelizmente.
Destacoa importância que lá dei aoromance histórico, não só pelo prazer do entrecho como pelo destaque que pode dar aos afctos em que se apoiará e que pode muito bem gerar aquilo que é raro encontrar - o despertar para a história como instrumento de interpretação destacado da histórias que conta.

Um abraço
Parabéns por este seu trabalho

10:55 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Olá Pirata Vermelho!

Não cheguei a receber esse comentário!

Foi, de certeza um erro qualquer do servidor, porque eu também estou com problemas em postar!

Um abraço amigo

CSD

12:57 PM  

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