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Friday, April 28, 2006

“Uma Mulher Nua” de Lola Beccaria (Teorema)


Martina Iranco é uma advogada de sucesso, detentora de um importante cargo político que, devido à sua posição, quer social quer no mundo do trabalho, é obrigada a vestir uma máscara que não corresponde à sua verdadeira personalidade.

Oriunda de uma família extremamente conservadora, de excelente nível sócio-económico, Martina tem, apesar de tudo, uma infância condicionada por uns pais extremamente exigentes quanto à aquisição de competências intelectuais, artísticas e regras de comportamento social. Estes gostam de exibir as capacidades da filha para as visitas mas esquecem-se da compensação afectiva necessária ao bem-estar, responsável pela segurança e autonomia de uma criança, durante a primeira infância. Ao mesmo tempo recusam-se a aceitar que esta tenha uma qualquer forma embrionária de sexualidade.

A vulnerabilidade de uma criança como Martina, em virtude desta situação, transforma-a na vítima perfeita para alguém que tem dificuldade em estabelecer o limite entre aquilo que deve ser uma relação afectiva saudável entre um adulto e uma criança.

É o que acontece quando entra em cena Damián, um charmoso e distinto médico, amigo da família, íntimo da casa. Uma pessoa acima de qualquer suspeita. E Martina é uma criança que está disposta a utilizar o último átomo da sua criatividade em troca de uma migalha de afecto.

Trata-se, no fundo, da versão actual do Lobo Mau e do Capuchinho Vermelho, com a particularidade de os limites entre o Bem e o Mal, entre o lícito, e o ilícito se apresentarem de uma forma mais diluída daquilo que é habitual.

O tema da pedofilia ou do abuso sexual de crianças é, por si só, um tema que provoca reacções “a quente” e despoleta reacções violentas. Um tema que incomoda. Tanto que, há cerca de década e meia atrás, no início dos anos noventa, a maior parte da população se recusava, sequer, a admitir a existência de tal fenómeno.

E Lola Beccaria, ao mostrar uma situação de proximidade sexual entre um adulto e uma criança em Uma Mulher Nua, é tudo menos politicamente correcta. Pode-se mesmo afirmar que é transgressora. Uma Mulher Nua é um livro cuja leitura causa algum desconforto, não só pela crueza da linguagem em alguns capítulos, mas sobretudo pela pormenorizada descrição dos breves contactos sexuais entre Martina e Damián.
E esse mesmo desconforto decorre do facto de tomarmos consciência de que um abusador pode justificar a sua conduta com a possibilidade de a criança sentir prazer com um contacto sexual que não chega às últimas consequências, isto é, em que não há penetração.

Aqui, a grande questão está em definir o que é a norma. E a personagem Damián ultrapassa largamente aquilo que no geral, é definido como sendo a norma. O perfeito e intocável gentleman soube ver na verdadeira Martina, uma criança carente e vendida de antemão, disposta a aceitar qualquer simulacro de amor. Sem saber, contudo, lidar nem com ela, nem com o próprio desejo.
Quando isto acontece, a criança está não só apta a ser abusada por outros adultos como por crianças da mesma idade ou pouco mais velhas, para além de poder vir a tornar-se num potencial abusador(a).

Por outro lado, dá-se uma divisão, uma cisão ao nível do foro psíquico: isto é, entre aquilo que é condenável pela sociedade e aquilo que é premiável pelo amante adulto. O resultado é a criação de uma mundo oculto, onde há uma busca desenfreada de sensações e a idealização do amante.

Na realidade este livro poderia ser intitulado de “A outra face de Lolita” – a mesma personagem de Nabokov – desta vez contada pelo ponto de vista de uma criança que é abusada e que cresce a pensar que o abuso de que foi vítima é a norma.

Com uma escrita de certa forma chocante, desprovida da beleza estética e poética com que a personagem Humbert Humbert de Nabokov tenta colorir as suas atitudes, recorrendo ao mecanismo de defesa do ego a que podemos chamar de sublimação, a personagem Martina Iranco consegue ser bastante incómoda, no seu papel de narradora, ao relatar os primeiros anos do desenvolvimento da própria sexualidade, o que faz de Uma Mulher Nua uma das obras mais polémicas que já surgiram no universo literário nas últimas duas décadas.

A capa do livro, inspirada num dos mais belos quadros da pintora Tamara de Lempicka – representa Andrómeda acorrentada – vai de encontro à forma como a Autora encara a Moral: “um cinto de castidade do prazer que faz com que a sociedade crucifique o próximo, praticando a censura como o sucedâneo da felicidade” (sic). Para Lola Beccaria quebrar as regras ou correntes do bom comportamento significa a exclusão numa sociedade em que, mais do que a virtude em si, importa a aparência da virtude.

Pela voz da personagem Martina Iranco, a Autora pretende contar a estória de uma mulher que procura ser a representação do objecto sexual perfeito, em troca de amor e aprovação. Um objectivo frustrado pelo desconhecimento da maneira autêntica de o conseguir.

A narrativa é, toda ela, o desnudar da alma a partir do inconsciente, “da exploração do poço dos desejos” (sic). Trata-se da exposição integral do universo que gere a líbido ao exibir o belo e o feio, isto é, os pontos fortes e débeis da alma nua da mulher. Sem defesas e sem máscaras.

Porque “uma mulher nua é fácil de ferir e de humilhar”.

Um livro chocante para alguns. Realista para quem não deseja viver de olhos vendados.

Um verdadeiro murro no estômago.


Cláudia de Sousa Dias

9 Comments:

Blogger -pirata-vermelho- said...

Bem...
és tu quem escreve...
mas!
deixa-me a desejar ver aqui descrito o Eça & Outros, não é?

7:36 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Não percebi Pirata!

Beijinhos

CSD

11:31 AM  
Blogger -pirata-vermelho- said...

Quis dizer (modestamente) que me parece um género 'menor' (uma questão apenas de gosto meu! por isso menos importante) e, daí, ter ressalvado que se trata de análise tua a qual EM SI merece atenção.

5:19 PM  
Blogger -pirata-vermelho- said...

(ainda haveriamos, um dia, de poder falar em língua de gente com fonética e com prosódia semântica)

5:20 PM  
Blogger -pirata-vermelho- said...

(itálico jocoso onde te parecer bem)

beijinho também pra ti

5:21 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Obrigada!
Mas eu gosto de variar nos géneros. Este livro,apesar de a linguagem utilizada nem sempre corresponder ao discurso literário - podendo ser incluída num género menor - não deixa de ser interessante verificar o desvio à norma e, também algumas passagens serem particularmente felizes.

CSD

12:27 PM  
Blogger Luis Nunes Alberto said...

Ola Claudia
Td bem?
Cá pela terra da laranja e da amendoeira vamos escondendo-nos do sol para não qeimarmos os fusiveis como sempre. Dia 25 de Maio mais um serão com a Luisa Monteiro, pensarei em ti especialmente, nos outros dias penso en ti aleatoriamente.
Ciao
Luis Nunes Alberto

9:52 AM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Olá Luís ! Adorei a tua visita!

Um beijinho grande para ti e para toda a gente maravilhosa que conheci debaixo do sol do Algarve!

CSD

5:17 PM  
Anonymous luis said...

ola claudia

11:20 PM  

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