HÁ SEMPRE UM LIVRO...à nossa espera!

Blog sobre todos os livros que eu conseguir ler! Aqui, podem procurar um livro, ler a minha opinião ou, se quiserem, deixar apenas a vossa opinião sobre algum destes livros que já tenham lido. Podem, simplesmente, sugerir um livro para que eu o leia! Fico à espera das V. sugestões e comentários! Agradeço a V. estimada visita. Boas leituras!

My Photo
Name:
Location: Norte, Portugal

Bibliomaníaca e melómana. O resto terão de descobrir por vocês!

Saturday, February 18, 2006

“As velas ardem até ao fim” de Sándor Márai (Dom Quixote)


A acção decorre no coração do Império austro-húngaro, em plena viragem do século XIX para o século XX, numa altura em que a situação geopolítica da Europa Central atinge o ponto de ebulição que irá desembocar na Primeira Guerra Mundial, marcada pelo assassinato do herdeiro do Império – o arquiduque Francisco Ferdinando – por um estudante sérvio.

Este período convulsivo termina com a desagregação do mesmo Império e o desaparecimento de todo um mundo associado à mudança das regras a ele inerente.

O romance é construído a duas velocidades e o ritmo, marcado pela presença de dois narradores diferentes.

O narrador não participante descreve os episódios presentes – já depois da segunda grande guerra – algures na actual Eslováquia – pintando um cenário onde se movimentam as principais personagens, como se assistíssemos a um filme mudo, entrecortado por algumas cenas de diálogo, constituídas por frases lacónicas, mas carregadas de subentendidos.

O segundo narrador é, também, a personagem principal cujo discurso, simultaneamente introspectivo e retrospectivo, está intensamente povoado de detalhes tanto no que se refere aos espaços exteriores e interiores, quanto às emoções que o ambiente despoleta, não só no seu íntimo mas, também, nas atitudes exteriores das restantes personagens.

O principal objectivo deste segundo narrador é, precisamente, o de descodificar os motivos que levaram a determinados comportamentos, aparentemente inexplicáveis, por parte daqueles que lhes eram mais próximos.

Ao desejo obsessivo de descobrir os sentimentos ocultos atrás das acções que lhes estão vinculadas, está ligado uma intensa sede de vingança, erodida, sublimada pelo tempo, mas intacta, na sua essência.

A fome de Verdade é saciada após um longo jantar à luz de velas. Anfitrião e convidado permanecem à mesa tentando, o primeiro, reconstruir o passado, enquanto o segundo se limita a escutar sem, praticamente, intervir. O interpelado está na posição do psicanalista, que ouve o paciente no divã, enquanto as velas ardem até ao fim, iluminando todos os cantos obscuros da mente.
No final, resta apenas a cera derretida nos castiçais. A cera e a dúvida que se desvaneceu pelo calor libertado das velas azuis (azul, símbolo de liberdade) e pelo poder das memórias, cujo impacto evocativo se reflecte na expressão do convidado, como a chama da vela que acaba por iluminar todas as sombras da consciência que possam, ainda, subsistir.

O Autor dota este segundo narrador de uma capacidade soberana de pintar a casa palaciana com as cores e emoções sombrias de um mundo extinto.

A forma como Konrád – o amigo –, Krizstina – a esposa –, a mãe do general – e o protagonista – encontravam na música o refúgio ideal para as suas paixões, para a sua rebeldia, é o signo da fatalidade que marca o ritmo do romance.
A música era o lugar secreto que permitia às almas inconformistas serem aquilo que lhes era interdito pela sociedade. Onde o seu Eu recalcado encontrava lugar de expressão. Para Krizstina, era o lugar virtual onde poderia dar largas à sua fome de liberdade; para Konrád, o veículo que lhe permitia realizar o seu desejo de apreço social; para a mãe do general, a possibilidade de fuga à sensação de clausura, omnipresente, num palácio perdido no meio da floresta. A música distingue-os dos comuns mortais e proporciona-lhes momentos de fuga, grandes pequenos desvios, ao caminho que lhes foi predestinado. A música é a voz dissidente dos inadaptados, a expressão de revolta contra o sistema social. A música é a manifestação do individualismo. É por esse mesmo motivo que ela é olhada com desconfiança por uma sociedade militarizada onde o principal imperativo é obedecer. E é, também, por esse mesmo motivo que é considerada perigosa pelas personagens como o general e o seu pai, que estão perfeitamente integrados nesse mesmo sistema. O que não os impede que a admirarem, que seja amada ou mesmo idolatrada pela sociedade vienense...

Mas é a Música a ponte que une e, simultaneamente, traça a fronteira entre ambos os tipos de personagens presentes no romance.

Uma quarta personagem é Nini, a ama do general. É o oposto dos dois outros grandes rebeldes – Konrád e Krizstina. Nini é alguém que se enquadra perfeitamente naquele mundo, em vias de extinção, que é o Império Austro-Húngaro. É a alma gémea do general quanto à forma de exprimir os afectos. E mais: Nini é não só a alma do palácio, mas uma guardiã do lar, aquela que mantém aceso o fogo de Vesta, sem o qual as salas do palácio ficam como que transformadas em túmulos. A casa revive à passagem de Nini. A casa e quem nela habita.

A evolução da trama remete-nos para Freud e para a teoria do recalcamento; para a caracterização das personagens segundo o modelo dos arquétipos de Jung; por outro lado, o tema da rebelião e da traição colocam-nos perante uma intertextualidade com o Génesis da Bíblia na pessoa de Konrád\Lúcifer e Krizstina\Eva.

As velas ardem até ao fim para além de ser um verdadeiro tratado de psicanálise é, também, uma importante obra de reflexão sociológica. Ao tratar a situação na Europa da primeira metade do século XX, o papel do colonialismo na transformação das mentalidades – através das trocas culturais – e, principalmente, a dissertação antropológica acerca das causas residuais que estão na génese da situação no Médio Oriente, transformam-no numa obra de uma actualidade impressionante, pela acuidade das suas análises e poder visionário.

Um livro fora de série de um autor que nos chega do leste europeu e cuja obra só foi devidamente reconhecida após a queda do regime comunista. Ironicamente, Sándor Márai suicidou-se poucos meses antes da queda do Muro de Berlim a confirmar a tendÊncia depressiva manifesta no discurso pessimista e impregnado de uma melancolia crónica.

Um livro imperdível. Apaixonante.


Cláudia de Sousa Dias

23 Comments:

Blogger MRF said...

Claúdia, acho que não tinha ouvido este nome até hoje, apesar de ser tão 'forte' e musical, Sándir Márai! Deixaste-me intrigada ;)

2:24 AM  
Blogger pirata vermelho said...

Marai é um despatriado (viveu a sua vida nos Estados Unidos)e, por isso, não sei se é pertinente, ou qual o peso/importância da consideração que teces sobre a origem/aceitação do escritor...

em todo o caso, obrigado pela sugestão e pela clareza do teucomentário

1:35 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Maria Diava, a escrita é intensíssima!

Vais apaixonar-te à primeira frase!

A propósito, quando é o próximo encontro de Bloggers?


Beijos e saudades.


Pirata, não sei realmente se a não aceitação terá a ver com as suas origens, mas o facto é que a sua obra só começou a ter o impacto que realmente merecia após a sua morte, que praticamente coincidiu com a queda do regime. Pode ser só coicidência...

Ou não...


Beijinhos

1:43 PM  
Blogger pirata vermelho said...

pode...
ou emblema


en tout cas, o texto deve valer por si
numa perspectiva de fruição ignoro a vida do autor

7:12 PM  
Blogger feniana said...

não conhecia e gostei de ler.
o teu blog é só sobre livros?
parabéns. irei comprar o livro por estas tuas palavras.

8:59 PM  
Blogger Maria Heli said...

afinal, linda, não ficou!
vai hoje:
eu, como não tenho o teu dom, só posso dizer:
amei, amei, amei e vou amar, este livro.
bjos

8:00 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Diva, acho que te chamei algo que não és! ;)

Obrigada pela visita Feniana! Sim, o meu Blog é só sobre livros.

Poderei, proximamente criar outro onde possa postar textos lioterários da minha autroria.

MH tu não tens o meu dom!

Desde quando!?

Escreves muito melhor!

Beijocas saudosas!

CSD

8:07 PM  
Blogger pirata vermelho said...

claudia
por contraste e por convite teu ( acima...) lembrei-me disto
1 o contrabaixo - süskind - 60 e tal págs
2 Ein weites Feld - Günter Grass - 700 e tal págs

havias de ler (cheira-me a que já! o primeiro... não?) e havias de gostar (o segundo. também.)

2:47 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

O contrabaixo?

Não conhecia!
Mas acho que sim!

Adorei "O Perfume". "A Pomba" nem tanto.

GG Vamos ver...

Obrigadíssima pela sugestão e tem um óptimo fim-de-semana!
CSD

2:04 PM  
Blogger MRF said...

Claudia, se tivesses ido ao I encontro de bloggers, terias recebido o Contrabaixo do Suskind! :)

mas não sei ainda quando será o próximo encontro (aviso-te logo, é claro)

2:56 AM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Não foi possível, querida Diva!

Mas o p´roximo vou tentar não falher!

Um beijo grande!

7:03 PM  
Blogger pipinha82 said...

Claudia,
este mês o livro discutido pelo pa_leio foi precisamente este! e fez sucesso!
já não é a primeira vez que aproveito os seus posts sobre os livros que discutimos: levo-os para os nossos encontros e a sua opinião "participa" na discussão. :)

ontem até alguém propôs percorrermos a sua lista de livros lidos para também nós decidirmos o que havemos de ler!

obrigada pelo seu contributo.
bom trabalho!

10:41 PM  
Blogger isabel victor said...

Pois ... vim aqui espreitar estas " Velas "

Fiquei com muita curiosidade em ler. Vou comprar

Lá pelo Caderno, o assunto é a solidão ...

mudei de roupa ... azul Primavera *****

2:13 AM  
Blogger Luís Alves de Fraga said...

Embora muito tardiamente, gostaria de dizer-lhe que concordo com a sua leitura da obra, contudo, tendo uma forte componente psicanalítica julgo que, como também diz, talvez o mais importante do livro seja a tristeza de ver valores perdidos e ultrapassados pelo tempo; o que sobressai é a dor perante o rodar inexorável dos anos e a mudança que esse movimento provoca.
Um autor que analisa a escalpelo os sentimentos humanos, tal como Márai, só poderia suicidar-se, porque envelhecer para ele era doloroso, era estar fora de tudo e fora do mundo e da vida... Escolher o momento de morrer é, afinal, a opção de quem esgotou a sua época.
Cumprimentos

11:32 PM  
Blogger Hugo Pinto said...

Olá Cláudia!
Li este livro há algumas semanas e fiquei completamente deliciado com a escrita de Sándor Márai. Entretanto comprei na Fnac um pack que trazia os Rebeldes e A herança de Eszter por um preço muito bom, que recomendo procurarem.
Já Os rebeldes e não gostei muito, comecei agora a ler A herança de Eszter e as primeiras páginas fazem-me lembrar As velas ardem até ao fim, por isso estou muito expectante.
Gostei muito da tua critica, e já agora gostava de fazer publicidade ao blog que criei recentemente, onde, tal como tu, partilho o meu gosto pela leitura, e onde gostaria que deixasses lá as tuas sugestões de leitura!
o blog é o www.capitulonosso.blogspot.com
Fico à tua espera, boas leituras!

3:02 AM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Nem de propósito.

Acabo de ler "A mulher certa" de Márai.

"A herança e Észter" tenho em casa mas não vou ler já. vou deixar passar algum tempo. "Os Rebeldes" ainda não comprei.


csd

10:49 AM  
Blogger dora said...

Gostei da tua visão! um livro tão fascinante como este deixa espaço para muitas interpretações. Já li o livro várias vezes e continua a emocionar-me, a ferir e encantar.

A amizade entre duas pessoas tão distintas significava coisas diferentes para cada um deles. Separados pela distância permaneceram ligados. Amigos. Um por dependência, quer vingança, respostas, certificar-se das suas teorias; outro por fuga ao mundo conhecido foi incapaz de se integrar nos "novos mundos" nos quais se refugiou nos momentos do passado, quer ver o "amigo" para acabar com o sofrimento.

Chegam à velhice semelhantes, presos à mesma fatalidade, que ultrapassa uma mulher, traição, tentativa de homicídio. Viveram tantos anos separados até chegar a um ponto para estarem frente a frente, de igual para igual.

Um dos melhores livros que já li, com uma escrita musical, doce, fácil, instintiva, visceral.

4:28 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

este é um dos romances mais comentados.

Penso que o interesse que desperta a escrita de Márai, prende-se com o facto de escrever sobre as obsessões que afectam normalmente a maioria das pessoas. Sobretudo no que respeita a relações falhadas ou abortadas pelas mais variadas razões.


CSD

4:39 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

as não concordo com todos os adjectivos. Intenso, instintivo e visceral, sem dúvida.

Mas não é doce. E fácil, também não.

Não é doce porque remete sempre para memórias dolorosas e pelo carácter trite, desiludido da escrita. Não é fácil porque remetesempre para o contexto histórico e para as inúmeras leituras, viagens e referências culturais que o autor acumulou durante toda uma vida.


csd

12:58 PM  
Blogger Pedro Freire said...

Gostei muito do livro. Bom para reflectir, tal como o comentário no post.

No início achei o livro um tanto datado, mas agora já não tenho a certeza...

Parece-me que a questão do adaptado vs. inadaptado não é assim tão relevante. A questão tem mais a ver com formas de ser e estar.

É mais a preponderância dos valores vs. a preponderância dos sentimentos e a forma como a vida tende a juntar os diferentes, a forma como lidamos com a diferença e o determinismo dos nossos destinos.

A amizade, questão central da reflexão tem também uma boa base de reflexão em "Quando Nietzsche Chorou" de Irvin D. Yalom. Recomendo.

2:32 AM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Pedro, a referência à inadaptação está no livro, embora não de forma expressa, por se tratar de uma sociedade militarizada e o império, da ordem e do racionalismo.

A música é emoção, as personagens são emotivas, para não dizer sentimentais, saobretudo o protagonista, que convida o amigo para o jantar à luz de velas. Numa sociedade militarizada, o controle social é apertado, não dando espaço de manobra para a livre expressão de opiniões ou já agora das formas de ser ou estar como refere o Pedro.

csd

12:50 PM  
Blogger meditador said...

Li o livro e devo dizer que foi dos melhores livros que li. Uma escrita invulgar que me tocou pelo seu estilo e pela lição de vida que quis transmitir ao leitos

3:07 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Obrigada,meditador.

Hugo Pinto, estou em falta consigo. Tem toda a razão no que respeita às emoções de Márai. O que diz na sua mensagem acerca deste post está bem patente em "A Mulher certa".

csd

12:09 PM  

Post a Comment

<< Home