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Thursday, January 19, 2006

“Cold Mountain” de Charles Frazier (ASA)


Charles Frazier é um autor que passou a fazer parte da constelação de estrelas do universo da literatura norte americana, na alvorada do terceiro milénio, precisamente com Cold Mountain.
O romance trata da odisseia de um desertor da Guerra Civil Americana, que atravessa a acidentada cordilheira a norte da Geórgia, até chegar a Cold Mountain, onde o espera a sua Penélope, Ada Monroe.

Inman decide abandonar o exército do general Lee, após ser ferido com alguma gravidade, enfrentado, ao mesmo tempo, o rigor extremo do clima e o relevo acidentado de uma cordilheira onde a Natureza se impõe ao Homem, obrigando a uma batalha sem tréguas pela sobrevivência.

Inman é uma personagem predestinada, desde a mais tenra infância, a ser um desertor. O seu temperamento indomável, rebelde, aliado a uma incapacidade em tolerar qualquer tipo de despotismo, acabam por orientar a sua vida nesta direcção. Ainda nos bancos da escola primária, atira o chapéu pela janela da sala de aulas para criar o pretexto para sair para procurá-lo, após o que aproveita a oportunidade para não voltar. Anos mais tarde, seguindo o mesmo processo mental, aproveitará, também, uma ferida no pescoço para voltar as costas ao despotismo de um general que considera a guerra como uma forma de realizar a vontade divina.

O fugitivo, não deixa, é claro, de sofrer a perseguição dos grupos armados que se dedicam à caça dos desertores, como o Bando de Teague, constituído por assassinos sanguinários, aves de rapina cuja principal ocupação é a de aterrorizar e extorquir a população. Viciados na arte da guerra, encontram no ódio a principal linha de orientação da componente emocional e comportamental das suas atitudes.

O mesmo temperamento rebelde é também traço fundamental da personalidade de Ada, uma criatura bela, inteligente, algo altiva, esquiva como uma Diana, em relação ao sexo masculino.

O romance desenvolve-se com base em duas narrativas: a de Inman – contínua e dinâmica, situada, sobretudo, no tempo presente –, com um discurso povoado de animismos, onde a natureza se harmoniza com o estado de espírito das personagens; por outro lado, a narrativa de Ada é descontínua – estagnada no presente, enclausurada na quinta-refúgio, em Cold Mountain, onde se exila após a morte do pai – sendo obrigada a fazer regressões no tempo para que possamos ficar a par dos episódios mais marcantes da vida passada da jovem.

Inman e Ada são dois eremitas, dois anacoretas – a faceta masculina e feminina do próprio autor, que se isolou em Cold Mountain, para encontrar inspiração para escrever o romance. Ambos os protagonistas são intelectuais que, por força das circunstâncias, são obrigados a travar uma dura guerra com os seres orgânicos e a adoptar um estilo de vida totalmente diverso em relação ao que inicialmente se previa.

Ruby, a terceira personagem mais importante do romance, surge no momento oportuno como adjuvante de Ada, uma fada-madrinha cujo saber prático se alia à erudição da protagonista. Ao salvá-la de morrer de fome numa quinta esvaziada de trabalhadores, onde as tarefas se acumulam de uma forma assustadoramente hercúlea, Ruby torna-se uma amiga indispensável ao quotidiano de Ada.

Tanto Ruby como Inman possuem um conhecimento aprofundado acerca das propriedades das plantas e da vida selvagem, o que os transforma numa espécie de feiticeiros do bosque, à semelhança dos antigos druidas.

Choques Culturais
Em Cold Mountain são realçados alguns conflitos sociais que envolvem as normas acerca daquilo que é socialmente correcto. Desta forma, podemos observar que os habitantes da montanha são encarados pela população de Charleston como selvagens e indomáveis, crescendo em total desrespeito pelas convenções sociais que, naquela pequena cidade do Sul, definem a noção de decoro. Os habitantes de Cold Mountain, por seu lado, descendentes de imigrantes irlandeses e galeses, mantém os seus hábitos culturais muito próximos às tradições dos seus locais de origem – onde predomina a cultura celta, ligada à natureza, de saber empírico e um imaginário povoado de lendas que sacralizam o que para eles é vital para a sua própria sobrevivência. Ostentam o seu pragmatismo e simplicidade desarmantes, manifestando um desprezo condescendente para com os evangelizadores em geral, que se crêem omniscientes das coisas do céu e da terra, de Deus e dos homens.

A crítica social também está presente no romance, sobretudo no episódio que relata a história de Odell – o rico herdeiro de uma vasta propriedade sulista – e Lucinda, uma bela escrava negra, e a forma como ambos se tornaram proscritos na sociedade.

Da mesma forma, a Autor faz referência ao materialismo e à hipocrisia dos federais que, debaixo da máscara da protecção dos direitos humanos, visam apenas defender e ampliar os seus privilégios económicos (espoliar os proprietários dos estados do Sul e apoderar-se de mão-de-obra barata para a indústria).

Simbologia

O romance está polvilhado de símbolos que lhe conferem uma espantosa riqueza estilística. Alegorias, metáforas, personificações proliferam, dando corpo à influência da cultura totémica e xamane, tão típica das tribos índias norte-americanas, impregnada no imaginário do Autor.
No capítulo intitulado “A Cor do Desespero”, o azul (blue) do céu e das montanhas na linha do horizonte, sugerem ou inspiram a melancolia (blue, novamente) das personagens. De Inman, sobretudo. Melancolia, na cor azul do desespero, e fatalidade, estão presentes do discurso do índio Nadador, citado por Inman, um presságio acerca do destino do protagonista.

A Garça Azul, no capítulo “Origem e Raízes”, simboliza a solidão de Ada. A ave, tal como a jovem, possui uma figura elegante, de pernas longas e as pontas das asas negras como o cabelo de Ada. E, segundo Ruby, “um bico afiado como um punhal (...) sempre a pensar que mais poderá apunhalar para comer”, mais uma alusão à protagonista e à sua luta desesperada pela sobrevivência em tempo de guerra.

A garça é uma ave, no entender de Ada, “anacoreta, mística, peregrina e solitária” sobre a qual a jovem acha, inclusive, “esquisito que se consigam tolerar para procriar”. Está, na realidade, a falar de si própria. Ada terá, à semelhança da garça, um destino paralelo ao do seu pai – solitário durante a maior parte da sua vida, detentor de uma felicidade plena, mas de curta duração.

O corvo é um símbolo da maior importância na obra, já que exerce uma influência particularmente marcante nas três personagens principais.
Do ponto de vista de Ruby, a agudeza de espírito, a falta de altivez, a astúcia e o gosto pelas partidas – atributos necessários à adaptação, exigida pelo meio agreste de Cold Mountain. Ada, por sua vez, associa a cor negra, à cor do mal, aos proscritos, àqueles que se banqueteiam com a carniça, símbolo das forças negativas.
Também Inman, habita um mundo onde é possível ver-se a si próprio com a forma de um corvo, isto é, “cheio de enganos secretos e capaz de fugir dos inimigos escarnecendo deles”.

Outros símbolos de relativa importância são, por exemplo, a rosa que, no imaginário de Ada, significa o caminho difícil e perigoso em direcção a um dado objectivo, que poderá ser o amor ou o despertar espiritual.

Ou a toupeira, que adquire um significado extremamente importante associado à personalidade de Ruby, pois trata-se de um animal impotente eremita e cego, cuja solidão e ressentimento a impelem a fazer o mundo desmoronar à sua volta (quando pergunta sarcasticamente ao interromper um casal de amantes “será que é preciso tossir?!”).

Presságios

Há, na obra, vários indícios que pressagiam a fatalidade, para além do texto do índio Nadador. Por exemplo: quando Inman, compara a paixão entre ele e Ada ao percurso de duas linhas paralelas que “quanto mais se afastam, mais se aproximam”, deixando entrever o desfecho do relacionamento entre ambos. Aliado a este indício, Inman tem uma premonição que o faz suspeitar nunca chegar ao seu destino.

Outro indício anunciador de tragédia tem a ver com a morte acidental da mãe ursa, animal com o qual o protagonista se identifica.

Mas o sinal mais significativo prende-se com a detecção da proximidade dos planetas Vénus e Saturno, no firmamento por Ada. O primeiro planeta marca a chegada do Amor, enquanto que o segundo augura um volte-face na Roda da Fortuna.

Por tudo isto, Cold Mountain – O regresso do Soldado, não é uma obra para o leitor comum.

É antes uma obra-prima para ser apreciada pelos amantes da boa literatura.

Denso.

Profundamente intimista.

Detalhadamente sensorial.


Cláudia de Sousa Dias

4 Comments:

Blogger Fallen_Angel said...

olá :o)
gostu deste livro :O)
espero q esteja tudo bem contgo :O)
beijinho

10:34 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Ainda bem!

Está tudo bem, mas a cabecinha anda numa roda viva!

Beijo
:0)

CSD

8:26 PM  
Anonymous Ana Matos said...

Olá. :D
Sei k sou uma desconhecida mas é para isto que a teia (web) serve...
Li este livro este verão e achei simplesmente fenomenal. Apaixonou-me a cada palavra. Tem razão quando diz que não é para um simples leitor (vá lá...), mas para quem goste d saborear um bom livro no sentido pleno dessa realidade que nos transporta para um mundo novo e só nosso.

10:40 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Exactamente, Ana!

Obragada pela visita!

CSD

7:41 PM  

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