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Tuesday, November 08, 2005

"A Criança Medusa" de Sylvie Germain (Ulisseia)


A construção da personalidade de Lucie d’Aubigné, a personagem principal do romance, pode ser comparada ao percurso de vida de Perséfone, a mitológica Rainha dos Infernos.
Tal como a filha de Deméter, Lucie sofre o trauma da violação, após o qual se refugia num mundo de trevas dominado pelo ódio e pela depressão. O processo de cura e as motivações das diferentes personagens são dissecadas, numa perspectiva evolutiva, até ao mais ínfimo detalhe.


O romance é construído como se fosse uma pintura. As cores sobrepõem-se umas às outras, fazendo as variações de luz sucederem-se ao ritmo das estações do ano. As sensações predominantes são as visuais e auditivas, onde se registam todos os cambiantes de luz e sombra que alteram as cores, a perspectiva, a interpretação dos factos e o estado de espírito. Da mesma forma, o canto formado pelo coro das vozes da Natureza harmoniza-se com as emoções das personagens podendo como, por exemplo, a manifestação do cântico de alegria do sapo Melchior como solista da Noite, ou o cântico de guerra que denuncia a revolta da Natureza contra o Mal – o canto de Némesis –, personificado na violência do vento e da raiva mortífera do trovão.

O estilo poético da Autora transforma um tema de tratamento particularmente difícil num texto de grande beleza sem, com isso, lhe retirar as cores da dura realidade que revestem o acto de profanar o corpo de uma criança.

O desenvolvimento da personalidade, em todas as personagens do romance tem sobretudo como base o modelo teórico do construtivismo/cognitivismo, embora também se note a influência do modelo conceptual de Freud e Jung na construção do Ego e Superego, sobretudo em relação a Lucie, Ferdinand e Lou-Fé.

A acção desenvolve-se em quatro partes ou actos, após o que se segue o epílogo. Cada acto é precedido de uma citação bíblica – epígrafe –, de teor sibilino que deixa o leitor entrever o que se irá passar no íntimo das personagens.

A cada um dos três capítulos que compõem cada acto, corresponde um texto introdutório – a voz de um deus ou a voz da Terra como deusa-mãe ou da Natureza personificada – em prosa poética que narra, nas entrelinhas, aquilo que se está a passar com as personagens ao longo do capítulo. Trata-se do ponto de vista de Alguém que tudo vê e tudo compreende a partir de uma plano superior de uma vista panorâmica. A linguagem está codificada, esconde as motivações que despoletam as atitudes de cada um através de uma profusão de metáforas, animismos, personificações, sinestesias que só pode ser decifrada pela leitura do capítulo que lhe corresponde.

Os textos introdutórios dizem respeito à tríade de capítulos de cada acto.
Na primeira parte – que apelida de Infância, isto é, os três meses da Primavera – os três capítulos que a compõem, denominam-se Iluminuras e são construídos pelas experiências que se destinam a colorir o livro branco que é o cérebro de uma criança, inscrevendo-o de cores brilhantes e vivas, como no caso do ingénuo Lou-Fé, ou de cores sombrias, como no caso de Lucie. A mais notória impressão que marca a memória dos dois amigos é a do eclipse, fenómeno de beleza sobrenatural que consegue impressionar as crianças e condicionar a vida de ambos de forma diametralmente oposta – o gosto pela ciência e a explicação racional dos fenómenos em Lou-Fé e a paixão pela cor e pelas variações de luz reflectidas nos objectos em Lucie. Uma existência que ó se realiza com a vocação para as artes plásticas e o uso da cor como terapia.

A segunda parte intitula-se, precisamente, Luz.

Trata-se de uma luminosidade estival que ilumina cruelmente a realidade das paixões adultas: a luz sanguínea da alvorada, impregnada de dor pela morte prematura da infância. Os belíssimos textos que antecedem cada um destes três capítulos foram precisamente chamados de Sanguinas, exprimindo a tortura, a solidão e o medo, omnipresentes, da criança que é violada e a cegueira dos adultos, que dormem fechados nos quartos comas persianas corridas e onde a luz não entra.

A repetição anafórica do início de cada parágrafo realça cada um destes aspectos.

A terceira parte intitula-se Vigília.

Aqui a luz adquire a tonalidade sépia do Outono, associada ao envelhecimento e apodrecimento das folhas. Tal como o belo corpo do ogre louro de olhos de luar que jaz, impotente no leito, vítima da sua própria perfídia e distorcida luxúria.

As Sépias são os três textos introdutórios que antecedem estes capítulos outonais. Sépia como a melancolia da mãe; o lento definhar do agressor, agora transformado em vítima pela magnífica imagem metafórica dos três tempos (O tempo que passinha – a aranha que tece a sua teia para apanhar a presa; o tempo que rasteja – simbolizado pelo movimento dos ponteiros do relógio que se arrastam; e o tempo que se esvai – o soro que pinga na garrafa); e sépia é também, a luz crepuscular como a vida que se estiola, reflectida nas madeiras escuras e dourados da Igreja.

Os papéis inverteram-se. A vítima torna-se agressor e o agressor é agora presa da criança imersa num mar de ódio. O ódio que lhe transfigurou o olhar. Doravante, o olhar da Górgona Medusa.

A quarta e última parte, corresponde ao Reinado das Sombras, ao Inverno, período em que Perséfone está sob o domínio de Plutão ou Hades. Este último acto, intitula-se Apelos e exprime o desgosto infinito de três personagens que habitam o Inferno dos Vivos: o desespero de uma mãe cujo amor se esgotou num filho a quem julgava perfeito; o pai de Lucie e padrasto do violador, uma alma-sombra emurchecida pelo desamor da mulher e pelo carácter bravio da filha; e da própria criança Medusa, para quem a vingança não lhe devolveu a felicidade perdida. As tonalidades são, evidentemente, escuras – Carvões, é a designação nome atribuída aos capítulos de que é composta esta última parte – declinações dos tons de negro e cinza, extraídas dos terrenos pantanosos onde outrora reinava o sapo Melchior e dos céus de tempestade.

O epílogo é inspirado num fresco de Tadeo Gaddi. E é precisamente chamado de Fresco o texto introdutório, mostrando o quão difícil e penoso é o longo e lento processo de recuperação da identidade. Tal como a libertação da prisão de ódio e amargura pelo amadurecimento e recuperação da capacidade de sentir algo aparentemente tão simples como… alegria.
Para tal, é imperativo o regresso às origens. Torna-se necessário recorrer corajosamente à introspecção para enfrentar, muitas vezes, aquilo que de mais terrível existe em nós mesmos – o nosso lado monstruoso, segundo Carl Jung. Para este autor, ninguém é totalmente bom ou mau, podendo apenas um arquétipo dominar o outro em alguma altura da vida. E é, por vezes, é o nosso lado mais sombrio que se sobrepõe ao “outro”.

Um livro que, pela força telúrica das sensações presentes nos seus textos mais descritivos e pela capacidade de obrigar o leitor a olhar o homem como o lobo de si mesmo, só pode ser comparável a uma obra como O Perfume de Patrick Süskind ou Cem anos de Solidão de Gabriel García Marquez.

Porque as mais belas flores são, por vezes, as mais mortíferas…


Cláudia de Sousa Dias

10 Comments:

Anonymous Anonymous said...

Cara amiga,

finalmente alguém dá vida á leitura

SSS

6:12 PM  
Blogger jp said...

A criança Medusa, foi o título mais apropriado que se poderia dar a este livro. Criança de múltiplas facetas disfarçadas de cenários e personagens.
É um livro de choro, mas um livro obrigatório.
Beijos AmeixaClaudia

7:43 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Obrigada SSS

Lindo Jp. Simplesmente lindo.

Mas alguns episódios soam tão verídicos que eté magoa...

Beijinho grande!


CSD

1:30 PM  
Anonymous Aristóteles said...

Não li nem tinha ouvido falar. Esta crítica, no entanto, aguçou a curiosidade...

4:18 PM  
Blogger ..:Maat:.. said...

A criança Medusa, a menina que se armou da força do olhar para lutar contra o ogre louro. O livro é simplesmente enebriante, repleto de uma luminosidade lírica. E eu considero espantoso como um livro de tema tão real e avernal possa ser tão belo, mágico, resplandecente... O comentário está magnífico. Cumprimentos.

12:11 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Obrigada Maat!

O teu comentário também está uma delícia!

Gosto do teu nickname - Maat, adeusa da verdade, na mitologia egípcia!

Beijinhos e não te esqueças de vir visitar-me mais vezes!

:0)

1:44 PM  
Blogger Rui Baptista said...

Vim parar aqui por acaso e saio com um sorriso nos lábios. Não só descobri quem tenho também gostado de um dos meus livros favoritos, como também uma belíssima crítica.

Um abarco

12:32 AM  
Anonymous Anonymous said...

Sylvie Germain é ímpar na construção de narrativas surpreendentes pelo vigor e pela eloquência das imagens. Tanto em O Livro das Noites quanto em Criança Medusa a narrativa vai se desenhando como um painel multifacetado, que atrai o olhar do leitor conduzindo para um universo embriagador que mistura fantasia, sonho, surrealismo e delírio.

6:48 AM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

È tudo isso,mesmo!

É uma autêntica orgia de sensações visuais (perdoem-me a libertinagem da sinestesia...!!

;-)


CSD

7:26 PM  
Anonymous Anonymous said...

Parabéns pelo seu talento :)

12:56 AM  

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