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Thursday, February 02, 2006

“Memória das minhas putas tristes” de Gabriel García Márquez (Dom Quixote)


Num registo um pouco diferente de Cem anos de Solidão, Gabriel García Márquez apresenta-nos um conto pautado pelo sentido de humor e pelo toque poético, numa prosa típica de quem ama o amor em si mesmo sem condensá-lo numa pessoa concreta, real.

É neste contexto que Memória das minhas putas tristes surge, num registo mais fluido, com uma cadência mais leve e um estilo mais depurado, contrastando com a densidade dos trabalhos anteriores mas mantendo, simultaneamente, a “voz” do Autor. Esta está patente no humor apimentado de Gabo, com aquela ânsia sempre juvenil, sequiosa e insaciável de liberdade.

Na escrita e no amor.

Gabo, ao escrever, não conhece a palavra pudor. De facto, parece mesmo ser a única que se permite censurar no âmbito do seu vasto e riquíssimo vocabulário. Bom, a única, não. A Mentira também não cabe no universo do Autor. Só a verdade dos factos o impele a escrever.

O protagonista do romance é um telegrafista reformado, professor, poliglota, cronista e crítico musical. Dotado de uma sólida cultura clássica, mostra-se extremamente progressista nas suas crónicas, o que lhe granjeia alguns conflitos com a censura.

Também a aversão à censura ou a qualquer restrição à liberdade de expressão é um aspecto típico da escrita de García Márquez. Em Memória das minhas putas tristes a personagem principal refere-se várias vezes ao censor do jornal como El Abominable Hombre de las Nueve por este chegar pontualmente ao jornal a essa hora “com o seu lápis sangrento de sátrapa godo”; ou “O seu lápis de Torquemada”, comparando-o ao célebre inquisidor pela dor naquele que escreve pela mutilação dos seus textos ou até pela completa adulteração dos factos.

Directamente relacionada com a sua necessidade absoluta de liberdade de expressão está também uma imperiosa liberdade de expressão sexual.

O jornalista deste divertido romance goza, até aos noventa anos, de uma merecida fama de Dom Juan, não conseguindo enquadrar-se nas regras ou padrões de conduta social que tentam espartilhar a sua sexualidade dentro da instituição do casamento. É por esta incapacidade social de ser como toda a gente, que comete a afronta social não comparecer à igreja no dia do seu casamento com Ximena Ortiz – uma bela e morena Vénus de Velásquez, de olhar felino.

O rebelde jornalista é, sobretudo, um homem, fora do horário de trabalho, dedicou toda a sua vida à boémia - “...as putas não me deixaram tempo para ser casado”. E que se incumbiu de transformar o amor numa troca de favores, reduzindo-o a uma mera transacção comercial – “Nunca fui para a cama com uma mulher sem lhe pagar”. É por esse motivo que a personagem aos noventa anos decide escrever a memória das suas putas tristes – a história de todos os amores que poderiam ter sido e não foram.

É por isso, também, que, no dia do seu nonagésimo aniversário, o cronista decide visitar o bordel da sua velha amiga Rosa Cabarcas, uma mulher de “olhos diáfanos e cruéis” em cujo sorriso maligno ostenta a sua índole de traficante de carne humana.

O objectivo da sua visita é o de comemorar a passagem à décima década de vida com uma noite de amor louco na companhia de uma adolescente virgem.

Gabo explora o tema do amor na terceira idade, ao relativizar a gravidade das consequências do envelhecimento, principalmente no que toca à dissolução da memória. Esta, no seu entender, torna-se volátil para o supérfluo e perene para aquilo que mais interessa o sujeito.

Memória das minhas putas tristes é a exaltação do amor platónico, construído à base de um desejo onírico de uma grande beleza plástica. A descrição de Delgadina adormecida assemelha-se quer pelas cores quer pelas características físicas da jovem, a um quadro de Frida Kahlo. O protagonista, a quem Rosa Cabarcas chama de “meu sábio triste” ama mais Delgadina adormecida do que acordada. Ama uma figura idealizada, transfigurada, tal como Pigmaleão apaixonado pela sua estátua.

A imagem de Delgadina muda o teor crítico das suas crónicas. O “sábio triste” passa a romântico escrevendo sobre a sua loucura de amor aos noventa anos por uma adolescente de catorze. As audiências disparam, seduzidas pelos seus modelos codificados de cartas de amor. Crónicas de um nonagenário que não aprendeu a pensar como um velho. Renasce o culto da nostalgia entre os jovens, transformado em moda. O cronista imagina a sua amada de olhar sombrio e passos leves que se confundem com os passos de veludo do seu gato angorá. A jovem é a sua última esperança para resgatar todos os amores que não vingaram.

O diálogo com Delgadina é muito incipiente. Praticamente só o narrador é quem fala. O que reforça a tese relativa ao amor ideal e sublimado.
Delgadina encontra-se drogada por Rosa com uma elevada dose de valeriana para evitar comportamentos imprevistos. Um facto que impede a plena interacção entre as duas personagens. É uma relação vivida exclusivamente na imaginação do jornalista, apesar dos argumentos, ora persuasivos, ora sedutores, da dona do bordel que nega à sua pupila a liberdade de acção e expressão dos seus sentimentos. Tratar-se-ia de uma contradição entre as convicções da personagem e as suas atitudes se não tivermos em conta o que antes foi dito.

A história termina em aberto, embora sem nada ter sido ainda consumado. A não ser, no imaginário do protagonista, num futuro muito próximo...

…ou na eternidade.

O apurado humor de Gabo está impresso na obra como se se tratasse da sua própria assinatura vestindo a pele do cronista, na forma como coloca o jornalista a criticar a sua própria aparência ou a parodiar a sua fama de Dom Juan, em companhia das secretárias do jornal onde trabalha, no dia do seu aniversário.

O seu acutilante sentido crítico está patente quando mostra o desprezo profundo face ao artificialismo da vida social norte americana. – “Nunca tive grandes amigos e os poucos que tive estão em Nova Iorque. Quer dizer: mortos, pois é para onde suponho que vão as almas penadas.” Ou seja, onde se refugiam, aqueles que querem apagar um passado obscuro.

O nonagenário é, pelo vocabulário utilizado ao descrever as suas musas, uma pessoa sobretudo visual – a caracterização de Delgadina e de Ximena faz lembrar algumas obras dos grandes mestres da pintura. E também uma pessoa de elevada sensibilidade auditiva, não só pelas constantes referências musicais ao longo do texto, mas também pela sensibilidade ao mais pequeno cambiante na tonalidade da voz. É por esse motivo que o incomoda a “nota falsa” na voz do director do jornal. É também sensível à ausência de linguagem verbal – “Tenho má química com os animais, assim como com as crianças antes de começarem a falar” – pela dificuldade em negociar com eles. É por este motivo que demora a adaptar-se ao gato angorá, um presente que não pode recusar e cuja presença, muitas vezes, o faz pensar em Delgadina que, tal como o gato, também não fala.

É também através do gato envelhecido e incontrolável que Gabo aborda o problema da eutanásia. O jornalista identifica-se com ele ao associar a sua condição de idoso à velhice decrépita do animal, aproximando-se do bicho por solidariedade.

A história progride numa espiral de ciúme e obsessão própria das circunstâncias em que a paixão se desenvolve, havendo alturas em que se esbatem as fronteiras entre o imaginário do cronista e a realidade.

Memória das minhas putas tristes é a história do sonho de amor não vivido.

Um romance injustamente desvalorizado pela crítica.

E, contudo, o García Márquez de sempre encontra-se impregnado no discurso e nas entrelinhas das frases do velho Casanova.

Um discurso mais depurado.

Mais polido.

Menos politizado.

Mas com a marca típica de Gabo.

Como sempre, igual a si próprio.

Único e inimitável.



Cláudia de Sousa Dias

20 Comments:

Blogger pirata vermelho said...

claudia
já viste a obra completa do borges, editada pela teorema?

se não, pede-lhes
mandam-te pelo correio, á cobrança, com desconto de editor
(ou who knows...!?)

vale por si e pela tradução de primeiríssima

11:52 PM  
Blogger pirata vermelho said...

(esqueci-me...desculpa!)

mail@editorialteorema.pt

11:53 PM  
Blogger pirata vermelho said...

vale 'por si' e por ser bonita
a obra!
(gosto de livros como objectos. também)

são três volumes

11:54 PM  
Blogger marquee gianni said...

olá Claudia!
como estás?

12:41 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Vou ler,sem dúvida,quer me mandem pelo correio ou não! Obrigada pelo contacto!

5:47 PM  
Blogger Elipse said...

Venho deixar-te um beijo, a correr. Passo depois para as leituras. Escreves longo :))

3:45 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Eu sei!

Vou tenter abreviar um pouco para as próximas crónicas!

Beijo

CSD

12:45 PM  
Blogger pirata vermelho said...

não abrevies nada, claudia!


assim está bem...

5:24 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Obrigada Pirata!
Gostas de Emílio salgari?

CSD

6:21 PM  
Blogger pirata vermelho said...

o emílio salgari é um pilar de um imaginário de grandes heróis que me encantaram e de que acabaram com o corto maltese

não sei se ainda gosto
gostava de poder ter coragem latatempoalento para o voltar a ler

assim como o somerset maugham...
e outros


c'est la vie!

9:10 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

pois... o teu nick fazme lembrar "O Corsário Vermelho"!

Mas gosto mais de Somerset Maugham!

Beijinhos!

cSD

12:59 PM  
Blogger Catarino said...

Eu pessoalmente não gosto da esscrita de Gabriel Garcia Marquez, no entante, sei que é muti reconhecido e eu admiro-o por isso, mas não gosto..
Beijo e vai aparecendo...

6:48 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Eu aprecio-lhe o humor, a fantasia, o sentido crítico e a vaia poética!

A propósito sabes que ele é autor das letras da Shakira?

E que ela é neta dele?

CSD

1:53 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

OOps...!

Errata: onde se lê "vaia" deve ler-se "Veia"!

Beijinhos!
CSD

1:54 PM  
Blogger MRF said...

o GGM é avô da Shakira? as letras são dele? :-O

Este livro dele na minha cabeceira há algum tempo. Com o GGM aconteceu-me (o que tb me acontece com outros autores) ter lido tanto dele que depois... deixou de me apetecer. Eu sei que é mau...

2:37 AM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

É verdade, Diva! Tb me caiu o queixo quando soube!

Pessoalmente tenho de ir ao Google para examiná-las mais atentamente, para ver se consigo encontrar lá a marca, o estilo característico de Gabo, uma vez que a música e o visual da Shakira provocam tal efeito de Halo que nem é possível prestar atenção à letra como deve ser!

;)
CSD

1:50 PM  
Anonymous Pedro Nicolau said...

Antes da mais boas Sra. Dra.
Dou-lh os para bens so peço e que depois me empreste o livro pa eu o ler . Gostei do que li aqui sem desejo boa pascoa

9:57 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Obrigada Pedro!

Gostei da tua visita.

O livro é muito interessante, ias gostar!

Eu vou ver o que posso fazer!

CSD

5:14 PM  
Blogger milhita said...

Contos Orientais, A insustentavel leveza do ser, Memoria das minhas utas tristes, O Amante....
Livros que marcaram a minha vida e que me acompanham nesta acaminhada de ser.
Gostei de encontrar!
Parabéns!

1:56 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

que bom que aqui encontra amiude aquilo de que gosta, Milhita!


obrigada

:-)

csd

5:56 PM  

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