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Thursday, March 02, 2006

“Todos os Dias” de Jorge Reis-Sá (Dom Quixote)


O primeiro romance do autor famalicense Jorge Reis-Sá fala-nos da beleza das pequenas coisas que fazem parte do nosso quotidiano. Porque são os momentos que se repetem todos os dias que dão a estabilidade, a segurança o sentimento de pertença, que satisfazem a necessidade de integração, indispensável ao equilíbrio emocional do ser humano.

A beleza de Todos os Dias reflecte-se na capa do livro, da autoria de Stuart Staples, onde domina a cor lilás, em contraste com o verde das folhas carnudas do cacto no canto inferior esquerdo. Porque, tal como as plantas, o amor que votamos aos nossos, exige que nos dediquemos todos os dias.

E Todos os Dias é um romance que fala de perda. E da forma como os vários membros da família vivem a perda de um ente querido. E de como reestruturam as suas vidas em função de cada perda que sofrem.

O texto é contado a quatro vozes, isto é, possui quatro narradores: Justina, a mãe de Manuel Augusto; António, o pai; Fernando, o irmão; e Cidinha, a avó, já falecida, o único narrador omnisciente, que conhece por completo as motivações de todas as restantes personagens.

A acção desenrola-se ao longo de vinte e quatro horas e divide-se de acordo com as diferentes fases do dia: Aurora, Manhã, Almoço, Tarde, Crepúsculo, Jantar e Noite. No final, é-nos dado um epílogo intitulado “Tarde Demais”, marcado por uma quinta voz: a do já falecido Manuel Augusto, personagem à volta da qual se centra o romance.

E o romance fala da rivalidade, amor e ciúme entre irmãos, onde se nota o confronto entre o idealismo na alma lunar de Manuel Augusto, o homem que vive para o sonho. Introvertido e inadaptado, ao refugiar-se no seu próprio mundo, capta o olhar e a atenção de todos aqueles que, à sua volta, desenvolvem esforços homéricos para aceder à sua esfera, para penetrar na sua torre de marfim.

Em contraste absoluto com Manuel Augusto, está o seu irmão Fernando. O seu temperamento pragmático, solar, faz dele um homem voltado para a realização dos objectivos a que se propõe. Fernando move céus e terra para conseguir conquistar a admiração da família, ao concretizar tudo o que Manuel Augusto deixou para trás. No entanto, não consegue sair do círculo abrangido pela sombra do irmão. Manuel Augusto é a estrela que lega a obra para a posteridade. Fernando é apenas o homem comum que lega apenas os genes na pessoa de Rafael – a fusão dos dois irmãos num só, na óptica de Justina e António. Paradoxalmente, Rafael torna-se a única razão de viver dos avós que agora se podem dar ao luxo de serem pais a tempo inteiro. É com Rafael que, na velhice, conseguem expulsar o tédio das suas vidas e preencher algumas horas do dia que se tornam cada vez mais longas, penosas, infinitas.

As quatro personagens principais são o produto da sua época e do meio cultural onde nasceram – uma sociedade, semi-rural na periferia de uma pequena cidade, mas de fácil acesso a um dos maiores centros urbanos do país pela proximidade da via férrea.

Justina e a sua sogra, Cidinha, são mulheres que assumem plenamente a sua função de matriarcas, ao cuidar da casa e da família – Justina foi durante muitos anos auxiliada por Cidinha na altura em que exercia uma actividade profissional no posto médico. Trata-se de uma sociedade matriarcal onde, apesar das aparências, é a mulher quem assume a posição de chefe de família e quem toma decisões quanto à gestão da casa e distribuição de tarefas.

António, o pai de Manuel e Fernando, marido de Justina, perde completamente o rumo e o gosto pela vida com a morte do filho e a vinda da reforma.

Fernando é o homem das concretizações: sucesso profissional, um casamento feliz, pertence a uma geração diferente onde a relação com Madalena se baseia, sobretudo, na cooperação e entreajuda como é típico nas famílias nucleares (compostas unicamente pelo casal e respectivos filhos) das sociedades mais urbanizadas.

O estilo de Jorge Reis-Sá é depurado, os capítulos são curtos, o discurso é reflexivo porque compsto de memórias, que são constantemente confrontadas com o tempo presente.

A repetição anafórica da expressão “todos os dias” constitui a tónica do romance impondo-lhe um ritmo, uma musicalidade que confere um dinamismo sem precedentes na escrita de JRS. A adjectivação, na descrição do ambiente exterior e interior da casa, confere ao texto um colorido sensorial que, aliado ao pormenor das acções e movimentos das personagens, é enriquecido com a linguagem típica do Minho. Tudo isto transmite a sensação de estarmos a ver um vídeo de uma cena do quotidiano, isto é, de todos os dias, passada em casa dos nossos avós.

Os regionalismos tornam-se poesia porque enquadrados num cenário desaparecido ou, segundo as palavras do próprio autor, “em vias de extinção”( isto é, uma casa que, apesar de estar na orla de uma pequena cidade, conserva, nas traseiras, um pequeno quintal onde são cultivados alguns produtos hortícolas), como por exemplo, a cena em que Justina recorda o prazer de preparar um almoço de sardinhas, às quartas-feiras (dia de feira na cidade) com a ajuda da sogra Cidinha. A Poesia vem da memória que transforma o sabor marítimo de um almoço de sardinhas em Saudade.

É por esta razão que Todos os Dias se lê com prazer renovado em cada capítulo.

E é por esta razão que, Todos os Dias, é a beleza das pequenas coisas que, tal como no romance de Arundhati Roy, está impressa nos pormenores que ninguém se dá ao trabalho de registar, a não ser alguém com a sensibilidade fora do comum, como Manuel Augusto que, nesta faceta, é um pouco o alter-ego do próprio autor.

O resultado é um romance pleno de sensações. Ou a Poesia em formato de Romance.

O quotidiano tornado único pela presença dos seres amados e de tudo aquilo que se torna parte de nós mesmos.

Uma estória de todos os dias.

Para ler de um só fôlego.

Num único dia.


Cláudia de Sousa Dias

14 Comments:

Blogger pirata vermelho said...

olá claudia
já viste o contrabaixo? livro.

... a propósitos e os concertos para contrabaixo de giovanni bottesini ?

10:44 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Ainda não comprei.mas vou ler.

qto aos concertos não sei de nada...quando, onde a que horas...

Beijos e dá notícias:)

CSD

1:42 PM  
Blogger pirata vermelho said...

CDs

Bom som
Sem distracção do olhar
Menor espectáculo

Portugal, em tod'o caso

Que me lembre só foi apresentado um - 1! - concerto para contrabaixo, em Lisboa, há uma data de anos

Se não conseguires o livro (que está sempre esgotado) diz. Eu tenho e a MRF tambem (creio...). Haviade se inventar uma maneira qualquer, entre a fotocópia (qu'horror!) e o empréstimo (nãoseicomo...)

2:51 PM  
Blogger pirata vermelho said...

--
algures entre a fotocópia e o empréstimo'
--


q'ria eu dizer

2:53 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

combinado, amigo!

CSD

4:48 PM  
Blogger pirata vermelho said...

ora bem...

BOTTESINI, giovanni

- concertos p contrabaixo e orquestra nº 1
cd REM 311073
- idem nº 2
cd TELD 398421799-2
e
- gran cocerto in 4 tempi p 2 contrabaixos e orqusestra
cd SCHW 311042

4:48 PM  
Blogger Elipse said...

Também tenho o contrabaixo! ;)

6:42 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Vou precisar de o ler!
Ainda não sei quando mas vou!

Para já ainda tenho mais 16 na prateleira que que ainda nem sequer abri, mas na próxima visita à FNAC, prvavelmente no próximo fim-de-semana, não deixarei de procurá-lo!

Beijos

11:23 AM  
Blogger Maria Heli said...

ainda não li, mas já tomei nota.

um bjo

8:05 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Olá Maria! Mas a qual é que te referes? Ao "Todos os Dias" ou ao contrabaixo?

CSD

7:42 PM  
Blogger Zumbido said...

Houve tempos em que lia um livro de um fôlego, sem pausas, comendo à pressa para voltar. Um dia podia ser um livro. Agora já não é assim. E não culpo nada nem ninguém por isso. É assim.
Estou a ler há vários dias, Todos os Dias. Prazer em crescendo, como tu dizes. Cada vez gosto mais de livros que não tiveram de ser traduzidos.
Tinha-o comprado poucos dias antes de ler a tua apreciação. Porque há uns tempos fiquei a saber do Reis-Sá pela poesia e desde então procuro-o. Não tinha anotado a sua proveniência de Famalicão. Lembrar-me-ia porque em tempos tentei registar, por graça, um 'site' com o nome 'www.famali.com' e verifiquei que já existia.
O teu texto foi uma cunha que o fez saltar na fila de espera. Obrigado.

10:55 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Ainda bem, Zumbido!

é um livro que retrata fielmente o quotidiano e o pitoresco de Vila nova de Famalicão. O romance não poderia passar-se noutra cidade que não esta.

bjo

CSD

7:23 PM  
Anonymous Anonymous said...

voces por acaso nao dormem?

10:14 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Claro que sim, anónimo!

Ah...Pois...!

Não ligues ao horário porque isto não está formatado com a hora de Portugal;-)

Ainda não descobri como é que se faz!

Obrigada pela chamada de atenção!


CSD

3:50 PM  

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