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Bibliomaníaca e melómana. O resto terão de descobrir por vocês!

Friday, December 29, 2006

“O Pêndulo de Foucault” de Umberto Eco (Difel)


Um livro de teor cabalístico, cuja trama é desenvolvida de acordo com a estrutura da Árvore das Sephirots – segundo a tradição judaica, as diferentes formas de manifestação do divino ou os diferentes atributos de YHWH – que se divide em dez partes ou sephirots. A teoria da conspiração, construída a partir da simbologia do Pêndulo, suspenso pelo único ponto imóvel, acima do universo móvel, mutável, é o tema principal da obra.

Keter

A primeira das sephirots é Keter ou Coroa, a forma primordial de manifestação do divino. Ou, se quisermos, aquilo que deu origem ao Big Bang. A Origem. O ponto de referência. Nesta parte do romance assistimos à reflexão sobre a Imobilidade onde se procura a identificação do ponto que sustém o Pêndulo, que personifica o Universo móvel.

As reflexões de Casaubon fazem lembrar Galileu e a teoria sobre a mobilidade/imobilidade da Terra e a respectiva posição no sistema solar. A explicação de Casaubon e as suas interrogações lembram um tratado de Arquimedes. O que quase obriga à comparação da erudição deste autor piemontês com o génio de Leonardo daVinci. Umberto Eco é, no início dos anos oitenta e até aos dias de hoje, o Leonardo da Literatura.

O Pêndulo de Foucault é, praticamente um tratado de filosofia, teologia, ética, história e cosmogonia, dai a complexidade da sua análise.

Logo nos primeiros capítulos, Casaubon aguarda a chagada de um misterioso grupo ligado à Maçonaria e aos, aparentemente, extintos Templários, escondido numa das velhas máquinas do Consérvatoire des Arts et Métiers em Paris, onde terá lugar a Reunião.

Casaubon segue a pista do seu colega e amigo, o editor Jacopo Belbo, perdido na sua própria ficção.

Ambas as personagens são nitidamente facetas do próprio Autor. Poder-se-ia mesmo levantar a hipótese de Casaubon ter algo de Umberto Eco na sua juventude e Belbo O mesmo Umberto Eco, mas na meia-idade, quer pela sua origem piemontesa, quer pela erudição e paixão com que debate o dilema de dar à luz uma obra literária e de ser, ao mesmo tempo, o mago ou mentor da obra alheia.

Hokmah

Hokmah, a segunda sephirot personifica a “sapiência, a sophya, a sabedoria que se expande”. Pode ser a primeira explosão do Big Bang.

Nesta fase, a história é contada em analepse – regressão no tempo – narrando o percurso académico de Casaubon partindo da época dos Maio de 68, no bar Pilade – onde, o então jovem estudante, que deseja elaborar uma tese sobre os Templários, conhece o editor Jacopo Belbo.
E aqui que começa toda a aventura epistemológica que os empurrará para uma pista que desemboca no tema que apaixona muita gente do meio académico: os Templários, a Maçonaria e as Sociedades secretas.
O Pilade é o ponto de encontro onde convergem os intelectuais de várias facções, sobretudo de esquerda.
Belbo é uma personagem muito interessante. Um editor que incarna quase que o papel de um Lúcifer atirado para o abismo, por querer igualar-se à divindade. É alguém que tem acesso à verdade, mas que também baralha intencionalmente os dados de forma a ludibriar os ingénuos e, sobretudo, os presunçosos. É aquele que é atirado para o abismo da solidão face à sua extrema rebeldia e irreverência. Belbo é a personagem que mais se identifica com o Autor na idade madura. É o co-protagonista que tem acesso ao Conhecimento, à sophya, que está em contacto com as sephirots superiores, mas a utilização desse conhecimento é feita em benefício próprio, isto é, confunde os dados para concretizar um plano de Vingança e humilhar os falsos génios.

“Foi só para vós, filhos da doutrina e da sapiência, que escrevemos esta obra. Examinai o livro, embrenhai-vos na intenção que dispersámos e colocámos em vários lugares: o que ocultámos num lugar, manifestámo-lo no outro, para que possa ser compreendido pela vossa inteligência”. Agrippa, Heinrich Cornelius, De occulta philosophia.

Mais uma vez, à semelhança do que fez com O Nome da Rosa, Umberto Eco coloca diante dos nossos olhares um puzzle de erudição, ao mesmo tempo que delega ao leitor a missão de decifrá-lo, sabendo de antemão que este não o poderá fazer sem a sua ajuda
Esta é a uma das partes fundamentais do romance, o seu alicerce. Se o Princípio, a Ideia, está em Keter, o único ponto estável do universo ou a origem, o acesso ao tema propriamente dito está em Hokmah, a ramificação dos vários caminhos ou hipóteses.

Binah

Binah, a sephirot que se segue é a da Divulgação, onde são dadas as coordenadas do desenvolvimento das hipóteses ou caminhos presentes em Hokmah.

É Casaubon que, por contactar de perto com Belbo, acaba por conhecer suficientemente bem as suas motivações e processos mentais de forma a poder decifrar o acesso a Abulafia – o primitivo computador do início dos anos oitenta do século XX – que só consegue por obra do acaso pura e simples!

Casaubon é uma personagem que poderia ser o próprio Autor na juventude, um discípulo de Belbo. Ou o seu cérebro complementar, pois o editor, ao fazer arrogantemente a distinção entre cretinos, imbecis, estúpidos, e doidos (dos quais só as duas últimas categorias é que aparecem nas editoras a quererem publicar livros de qualidade execrável), só ele próprio e Casaubon é que não se encaixam nesses rótulos.

“O estúpido pode dizer uma coisa certa, mas pelas razões erradas. O estúpido é insidiosíssimo, o imbecil reconhece-se logo. O estúpido raciocina quase como nós, salvo uma diferença infinitésima. É um mestre dos paralogismos (falsa lógica ou lógica distorcida). Publicam-se muitos livros de estúpidos porque nos convencem logo à primeira. O redactor editorial não é obrigado a reconhecer o estúpido. Não o faz a Academia das Ciências, porque haviam de fazê-lo as editoras?” (…) “E Deus diverte-se como louco.”.

A frase que se segue define Belbo na perfeição: “ O génio é o que faz jogar uma componente de modo vertiginoso, alimentando-a com as outras”.

Casaubon e outro colega na editora, Diotalevi, intuem, no entanto, a natureza melancólica de Belbo debaixo do sarcasmo tipicamente piemontês.
Belbo não se limita a editar livros. Ajuda com pequenos retoques a melhorar, a aprimorar as obras dos autores com maior potencial “…dou pequenos retoques no barro, onde já alguém esculpiu a estátua”

Mas a grande obra de Belbo irá consistir num aglomerado de factos históricos recolhidos e religados por conexões espúrias. É aqui que germina o grande romance da História, dos Templários, Alquimistas e Sociedades Secretas e… a procura da Pedra Filosofal. De facto, o Autor antecipou-se em 25 anos a Dan Brown e à temática presente em Anjos e Demónios e O Código daVinci. Se bem que Umberto Eco, ao construir ficção, tem o cuidado de separar aquilo que é facto histórico e aquilo que é especulação.

Para a personagem Belbo, tudo pode ligar com tudo, e tudo é conectável porque existe um ponto fixo no Universo: o ponto que sustém o Pêndulo. E, em termos culturais existem figuram arquetípicas que unificam as principais motivações e cognições humanas possibilitando o sincretismo, religioso e cultural entre as, aparentemente, mais distantes culturas do planeta. Mas a tentativa de encontrar a origem de cada um dos elementos culturais e religiosos leva-o a um beco sem saída porque quanto mais tenta separar o elementos culturais mais estes parecem ligar-se entre si, fazendo-o quase esquecer-se que está a criar ficção e a alterar deliberadamente a disposição os dados.

Hesed

Em Hesed – “A sephirot da graça e do amor, o fogo branco, o vento Sul”, Eco começa por fazer referência à analogia de contrários onde a Alegoria como mãe de todos os dogmas, é a substituição da realidade pelas sombras; “a mentira da verdade ou a verdade da mentira” numa citação de Eliphas Levi em Dogme de la Haute Magie.

Nesta fase do desenvolvimento do romance, Casaubon faz um interlúdio na sua vida profissional e pessoal, em terras de Vera Cruz fugindo do pesadelo da Europa, a envolver templários, nazis, um assassínio juntamente com o misterioso desaparecimento do corpo, para dar aulas na Universidade, viver a embriaguez de um amor exótico e contactar com a cultura afro-brasileira, com todo o seu sincretismo, magia e irresistível envolvência.
O período vivido no Brasil é vivido como um sonho, onde os rituais de umbanda, a posse pelo espírito de pomba-gira ao som dos agôgôs baianos dão um toque de surrealismo a um romance onde o real e irreal facilmente se misturam.

É no Brasil que Casaubon conhece Aglié, uma personagem sinistra que se julga a reencarnação de Cagliostro e que o faz regressar aos obscuros mistérios da Velha Europa...

Mas Hesed é também o momento de expansão da substância divina que se difunde para a infinita periferia...”
Eco justifica esta definição com uma frase de Aglié que está na base da dinâmica que permite o desenvolvimento do romance: “A raça, ou a cultura, (...) constituem uma parte do nosso inconsciente. E a outra parte está habitada por figuras arquetípicas, iguais para todos os homens e por todos os séculos”.

Esta é a razão pela qual os criadores do Plano, que será a grande obra de Belbo, conseguem encontrar analogias em quase tudo, mas onde as conexões não têm qualquer base real.

Geburah

Passamos então para Geburah a sephirot do Terror, o juízo implacável onde o mal se mostra, revela e exibe. Trata-se da sephirot do mal e do medo. Geburah é a luz do Juízo Severo, a face implacável de Yhwh.

De regresso a Itália, Casaubon não reconhece o mesmo país, dez anos depois. As referências culturais e políticas mudaram, porque mudaram, também, os sinais exteriores que revelavam uma determinada forma de pensar.

Casaubon torna-se um detective cultural, isto é um pesquisador exímio de informações de carácter erudito. Um área onde se movimenta como um peixe na água: a investigação histórica /epistemológica que o faz tornar-se uma espécie de bufo (mocho) do saber.

A raiz do mal, em Geburah, nasce no escritório de Casaubon, em conversa com Belbo: “não há informações melhores que outras, o poder está em registá-las todas e depois procurar conexões. E as conexões existem sempre, basta querer encontrá-las”.

Em Geburah, penetramos no mundo tortuoso das meias verdades, de segredos insinuados, da Maçonaria e das Sociedades Secretas, cuja ubiquidade lança os protagonistas no vórtice da mais intrincada teoria da conspiração de sempre.

É, também, nesta fase do romance que o autor manifesta, através das reflexões de Belbo, ciosamente guardadas nos files de Abulafia, o seu profundo desprezo pelas editoras que sobrevivem à custa dos APC – Autores à Própria Custa – e, principalmente, pelos autores que a elas recorrem. Autores cuja presunção, no seu entender, os impede de reconhecerem a sua própria mediocridade.
Não deixa, contudo de fazer notar que as editoras que vivem do dinheiro dos leitores cometem, também, os seus pecadilhos, por exemplo, a cedência a uma certa pressão do Ministério da Cultura para que determinada obra seja publicada ou as concessões que se fazem tendo em conta as exigências do mercado.

Belbo, o grande génio incompreendido, coloca-se a si mesmo no papel de um deus que castiga “os velhos génios, justamente incompreendidos” – que encaminha para a Manuzio, editora que sobrevive de APC .O Plano surge como a vingança do deus ciumento, face àqueles que considera como os maníacos da teoria da conspiração envolvendo não só os Templários, mas também sociedades secretas, seitas gnósticas, satânicas e afins. Temas que fascinam o misterioso Aglié, que se diverte a roubar a atenção da amada de Belbo, Lorenza Pellegrini. É claro que a cólera do ciumento Deus da Cultura só poderia ser despoletada pela sua incapacidade de dividir o amor ou o sorriso de uma mulher que se comporta como uma hetaira e que facilmente pode iniciar uma guerra, à semelhança de Helena de Tróia…e é, simultaneamente, uma Eva que não consegue evitar deixar-se seduzir pelo encanto de uma serpente. Mas Belbo é a própria face do deus vingativo, que não permite a adoração de outro ídolo…então nasce o Plano. Kaballah, Temurah, Talmud são os ingredientes que fomentam o instrumento da vingança, usado para atrair os maníacos da perseguição e os fanáticos por tudo o que tiver um vago odor a secretismo. O Plano é concebido para esotéricos, satanistas, alquimistas, místicos, maçons, criando uma complicadíssima trama apanhar na mesma rede todos os cultos semi-secretos existentes e até os não existentes!

“Eu digo que existe uma sociedade secreta com ramificações em todo o mundo, que conspira para defender o boato de que existe uma conspiração universal”. E com este dito de Casaubon, em conversa com Belbo, Umberto Eco atira Dan Brown para o abismo, vinte e cinco anos antes de o escritor anglo-saxónico escrever Anjos e Demónios e O Código daVinci.

Em relação às personagens femininas que intervêm no romance, temos três figuras principais: Amparo e Lia, ambas com quem Casaubon tem um relacionamento afectivo, em diferentes fases da vida. Trata-se de mulheres elevado nível cultural e erudição. São elas que, em diferentes momentos da trama, colocam Casaubon em contacto com a realidade.

E Casaubon é o único dos autores do Plano que não sucumbe ao próprio feitiço, conservando a lucidez, apesar de destituído da paz interior.

Lia é a consciência de Casaubon, o fio de Ariadne que o orienta no meio do emaranhado labirinto ideológico no qual está envolvido.

Já Lorenza Pellegrini é o oposto da Lia e Amparo. É a personificação da beleza, da sedução e da atracção erótica. A sua única habilidade é a de encantar com o sorriso e de enlouquecer com o corpo, ou melhor dizendo, com a sua exuberante expressão corporal.

Lorenza consegue tentar Casaubon, que se deixa fascinar sem, no entanto, sucumbir ao seu encanto. Já Belbo enlouquece por completo, sob o seu domínio.
Como o desejo de Belbo não permanece dentro dos seus limites, passando à mais pura obsessão, este manifesta-se sob a forma de Geburah, a severidade, de aparência obscura, vendo-se rodeado por um universo de demónios reais e imaginários.

Casaubon consegue manter o auto domínio quando ainda com Amparo, se mantém fora do misticismo do umbanda, também com a ajuda do agôgô e, depois, com Lia que o ajuda a não envolver-se no Plano e a conservar a sanidade mental.

Tifferet

Em Tifferet, “a sephirot da Beleza e da Harmonia, a especulação iluminante, a árvore da vida, o prazer, as luzes e a purpurina. O acordo da regra com a liberdade”. O ano Tifferet foi aquele em que os autores do Plano se entregam ao prazer da “subversão jocosa do grande texto do Universo”. O ano em que inventam e desenvolvem o Plano e a época em que a prosperidade nos negócios e a felicidade pessoal para Casaubon mais se faz sentir.
Nesta fase, Casaubon está cego pelo esplendor do seu próprio saber, movendo-se entre os grupos mais sinistros com a desenvoltura do psiquiatra que se afeiçoa aos seus pacientes.

Belbo, por sua vez, decide para além do motivo que já foi referido, conceber o Plano porque, na sua mente, a incapacidade de captar o momento certo para fazer uma opção ideológica, dentro do estreito limite daquilo que é considerado o Bem e o Mal, mantém-no no limbo, acima dos dois aspectos opostos que caracterizam esta dualidade, de acordo com o papel de divindade que atribui a si próprio.

Belbo serve-se assim, da Temurah no que toca à recombinação de factos históricos, dá-lhes uma disposição diferente, unindo-os com ligações fictícias com o objectivo de mudar a face à História.

Mas Eco é, ao contrário do que faz Dan Brown, vinte anos depois, extremamente cuidadoso no que respeita a separar o que é facto histórico daquilo que é especulação citando Baighent e Leigh autores de The Holy Blood and the holy Grail que está na base do argumento de O Código daVinci, procedimento que Dan Brown se esquece de efectuar valendo-lhe um processo em tribunal por parte dos dois autores.

É também nesta parte do desenvolvimento do romance que Eco faz a referência aos Templários em Portugal eao Cstelo de Tomar na restante que em determinada altura do romance também está envolvido no Plano…

Para Belbo, o Plano tem de envolver tudo “Ou é global ou não explica nada”. Por isso, ao deambular pelas diferentes ramificações da Maçonaria e dos Rosa-Cruzes encontram um denominador comum: o objectivo de todos é o domínio absoluto dos fenómenos naturais usando, quer as ciências naturais, quer a alquimia, quer as ciências ocultas, na luta pelo Poder Supremo, igual ao dos magos das histórias de bruxas e fadas. Daqui nascem as crenças mais bizarras. E daqui pode até entender-se o perigo de uma obra simbólica como A Flauta Mágica de Mozart, cheia de referências codificadas à Maçonaria, que faz com que ou os seus membros ou os jesuítas de Loyola queiram desembaraçar-se dele.

Desta tentativa de unir todo o tipo de crenças e teorias sob uma base comum, nasce a identificação por parte dos autores do Plano da Doutrina dos rosa-cruzes com a dos judeus cabalistas, dos antigos gnósticos e dos maniqueus.

Conseguem inclusive estabelecer a ligação do Templários com os Assassinos da Fortaleza de Alamut, com os quais estão umas vezes em conflito e outras em surpreendente aliança.

Os Hashhashin de Alamut (a que Dan Bron também faz referência em Anjos e Demónios) dão origem à shi’a, a ala herética do Islão ou xiitas que vêem a continuidade da Revelação não no profeta Maomé mas no próprio Imã (senhor, chefe, realidade teofânica, Rei do Mundo). Esta mesma ala herética do islamismo foi infiltrada, na Europa e na bacia Mediterrânica por doutrinas esotéricas como a dos maniqueus, gnósticos, neoplatónicos e dos místicos irânicos. Eco fornece-nos a explicação histórica para a situação actual no médio oriente – na época, em que escreveu a obra, estava ainda muito recente o golpe de estado que derrubou o Shah da Pérsia, Reza Pahlevi, após o qual, o Governo de Teerão passou a estar a cargo do líder xiita Ayatollah Khomeini.

Eco explica que um dos ramos do xiismo,mais propriamente os ismaelitas que originaram os Fatimitas do Cairo e que depois se afirmam como o ismaelitas reformados da Pérsia por ordem de Hasan Sabbah em Alamut – o ninho do Falcão, onde o Imã se rodeia dos seus acólitos, fiéis até à morte, que usa para efectuar os seus assassínios políticos.

Ficaram conhecidos como os Assassinos, raça de monges guerreiros, prontos a morrerem pela fé, formando uma espécie de cavalaria espiritual que contactam com os Templários. Contacto esse de que Filipe o Belo s serve para condenar os Cavaleiros como heréticos, adoradores de Baphomet, adulteração fonética de Maomé).

Os ismaelitas, ao longo dos últimos seis séculos, sobrevivem em todo o Oriente, mesmo depois de Alamut ter cedido sob pressão mongol. Fundiram-se com o sufismo não xiita que originou a terrível seita dos drusos. Belbo e Casaubon chegam a explicar o Holocausto como um engano de Hitler ao confundir Israel com Ismael, tal como os Ocidentais católicos que, em plena época dos Descobrimentos e ao longo do Renascimento, ao perseguirem os judeus cabalistas que iniciam a tradição da Kaballah para enganarem aqueles que se julgam senhores do Mundo!

No entanto, neste momento de Tifferet, a vaidade suprema dos autores do Plano sobre os ignorantes, os crédulos e maníacos da perseguição, leva-os à soberba e, no caso de Belbo, hybris: “ não te possuí (à fatalmente bela Lorenza Pellegrini), mas posso fazer explodir a História”.

O que determinará o final do romance…

Nizah

“Na sephirot da Resistência e da Paciência dos que são submetidos a uma prova”, dá-se o verdadeiro volte-face do romance, isto é, o inverter da roda da Fortuna no entender dos antigos Romanos.

A ambiguidade desta sephirot, que também pode ser a sephirot da Vitória, do vencer dos obstáculos, coincide também com os caprichos da deusa Fortuna, a mais poderosa divindade Romana, apesar de caprichosa, na sua dualidade. A vitória, aqui, também dependerá da perspectiva, do prisma de valores éticos por onde se observa a (i)realidade…

Através dos ficheiros de Abulafia, que são como um diário onde Belbo guarda as suas reflexões mais íntimas, Casaubon fica a saber dos últimos movimentos do seu colega antes do seu desaparecimento.

É ao seguir a sua pista que o “detective da cultura” chega ao Conservatoire des Arts et des Métiers em Paris onde, enquanto aguarda escondido numa das gigantescas peças do museu, recorda as peripécias que constituem a acção, enquanto aguarda a chegada dos membros das sociedades secretas que aí se reunirão depois do fecho do museu e, entre os quais, espera encontrar o irreverente editor.

Casaubon apercebe-se que os autores do Plano, excluindo Diotalevi, por se encontrar extremamente debilitado pela doença, passarão a ser perseguidos e pressionados para revelarem o segredo inexistente sobre os Templários…

Os Autores do Plano constroem o Golem (monstro antropomórfico semelhante ao Leviathan ou ao Frankenstein), que depois não conseguem controlar…

Hod

A seguir vem Hod, a sephirot do esplendor, da majestade e da Glória que governa a magia, o cerimonial e ritual, o momento em que se descerra a eternidade.

Hod manifesta-se no impressionante cerimonial dos participantes na referida reunião, uma mistura de um ritual céltico ou druídico que faz, simultaneamente lembrar os mistérios de Elêusis. Lorenza e Belbo são obrigados a participar na cerimónia, durante a qual o editor é pressionado a revelar o pseudo-segredo. Para Casaubon, que assiste à cerimónia sem visto pelos participantes, tudo se passa como num sonho sem distinguir propriamente o que é de facto real e o que é imaginação, excitada pelos poderosos alucinogéneos inalados.

Se Hod é a sephirot da Glória, Belbo obtém-na no derradeiro momento da cerimónia. Ele, como criador do Plano, situa-se então acima dos comuns mortais, ao fazer finalmente a opção ideológica e afirmar as suas convicções.

Após a cerimónia dá-se também uma alteração se na personalidade de Casaubon. Torna-se paranóico. Começa a ver perseguidores em cada esquina. É tomado por um medo incomensurável que o descubram para obrigá-lo a confessar o segredo que não existe pelo que “A única maneira de embaraçar o Diabo é fazer-lhe crer que não acreditas nele”.

Jesod

A nona sephirot é a do Fundamento, “o sinal da aliança, o arco que se estica para atirar a seta a Malkut. Jesod é a gota que jorrada seta para produzira árvore do fruto. É a força vital procriadora”.

O veneno da lucidez contamina Casaubon. Este é o único que está consciente de que o Plano não passa de um equívoco, de que foi a interpretação errónea de um texto ambíguo, onde faltam elementos essenciais assim como as ligação entre as frases, é que despoletou a situação em que se encontram os autores do Plano. E o Plano é construído com base em analogias não fundamentadas, com uma interpretação que é dada como correcta porque aparentemente todas as peças se encaixam. Lia, a esposa de Casaubon, é a âncora que o liga à Terra.

Ou seja, os autores do Plano não criam nada de novo, a não ser esta disposição dos elementos. Pura teoria da Gestalt. As formas são percepcionadas antes dos elementos mesmo que não estejamos na posse de todos os elementos que compõem a Forma. Se alteramos a disposição das peças e as de ligações a forma muda também. É assim que surgem as constelações. É assim que surge um novo paradigma que serve de base à sustentação de uma nova ideia – quando um novo elemento, antes imperceptível, não se encaixa na forma primitiva da constelação, é percepcionada uma nova forma, obrigando à uma hipótese mais abrangente, até que seja comprovada para formar a nova teoria Wertheimer, Platão, Karl Popper, Thomas Künh...Nenhum deles é mencionado na obra mas a sua estrutura conceptual está na base dos processos mentais de Belbo.

Lia, a Ariadne de Casaubon fá-lo chegar a uma conclusão, ao permitir-lhe a tomada de consciência do verdadeiro Fundamento – Jesod – do Plano. E ele, tal como um Teseu do século XX ,terá de abandoná-la para protegê-la dos maníacos do Segredo. Dos lobos famintos de Poder.
Casaubon é quem doravante terá de viver na sombra. Como Lúcifer. Porque sabe demais. E porque não soube utilizar o seu saber de forma positiva. Pelo contrário, ajudou Belbo a utilizar a Sabedoria para enganar.

A maior ironia presente no romance reside na palavra “não”. Não, como sinónimo de negação para afirmar categoricamente as nossas convicções. Não, como admissão da nossa própria ignorância, a humildade socrática, da limitação de que, de facto, não sabemos tudo.

Esta é a principal intenção de O Pêndulo de Foucault – o símbolo do Pêndulo implica imprevisibilidade, pelo facto de ser praticamente impossível prever a sua rota de oscilação.

A função de Casaubon em Jesod é a de recolocar as coisas nos seus devidos lugares e reparar o erro do demiurgo Jacopo Belbo, o tocador de clarim que provoca terramotos, à semelhança de Josué junto às muralhas de Jericó.

Malkut

A última da sephirots, é o Reino da Terra. Ou “a verdade onde a Sabedoria aparece despojada, mostrando que o seu mistério reside no não ser, senão por um momento, o último”.

No seu exílio solitário Casaubon, é agora detentor da consciência absoluta do segredo supremo da Sabedoria, cuja posse não lhe traz nenhum consolo. É incapaz de poder partilhar o que sabe.

Por que saber não basta. O Saber é inútil se não for partilhado. E a partilha torna-se impossível se, tal como acontecia com Cassandra de Tróia, aquele que a possui não tem credibilidade.

O Pêndulo de Foucault é o livro mais hermético de sempre. Fascinante para os amantes do saber, O Pêndulo de Foucault possui tantas chaves, encerra tantos palácios dentro de si, que mil páginas não chegam para o analisar exaustivamente. Cada capítulo pode ser o prólogo para uma tese. E, por isso, este texto, está muito aquém daquilo que pode ser explorado, numa obra que nada tem de fácil ou digestivo. Porque quem lê O Pêndulo de Foucault como quem come uma refeição “de plástico”, na praia ou no meio do ruído infernal do autocarro, dificilmente conseguirá reter seja o que for da mensagem que o Autor pretende transmitir. Aconselha-se a leitura de lápis em punho e bloco-notas para fazer uma ficha de leitura de cada capítulo.

Só assim, uma obra como esta, se revela com o esplendor azul das suas dez safiras.

Cláudia de Sousa Dias

11 Comments:

Blogger jp said...

que as safiras azuis te consigam acompanhar neste ano novo que se aproxima.
Beijo grande
Salve!
:-)*

10:12 AM  
Blogger -pirata-vermelho- said...

Eh lá...! Claúdia... que fôlego.

Parabéns!

11:36 PM  
Anonymous Anonymous said...

Caros bloguers de cinema (e afins):
Aproxima-se a data das grandes definições quanto ao 1º Encontro Nacional de Blogues de Cinema (e afins), e às iniciativas que a ele estão ligadas. Como já informei, há dias, houve uma alteração nas datas do Famafest 2007 (definitivamente entre 16 e 24 de Março), o que leva a que o Encontro se realize entre 16 e 18. De resto, para mais informações, agradecia uma visita ao meu blogue, onde estão todas as informações:
http://lauroantonioapresenta.blogspot.com/2006/12/encontro-de-blogues-de-cinema-ltimas.html
Últimas votações para Work Shop e Melhores Blogues. Confirma a participação no Encontro. Vota os 10 Melhores Filmes de 2006.
Um abraço e um beijos
LA

12:07 AM  
Blogger -pirata-vermelho- said...

By the way,
Cláudi'amiga,
dê aí uma olhadela a
'O pergaminho da sedução'
Gioconda Belli
D. Quixote

7:47 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Obrigada JP!

Um beijo grande!

Pirata,vou ler sim!

LauroAntónio cá estarei à espera do encontro de cinéfilos em Famalicão!

Beijinhos a todos!

CSD

1:33 PM  
Blogger BAUDOLINO said...

Grande livro. Excelente escolha.

9:10 AM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Baudolino, com o teu nome só podes ser fã de Umberto Eco!

Infelizmente (ainda)só li este e "O Nome da Rosa"!

Mas lá chegaremos...!

bjo

4:32 PM  
Blogger o alquimista said...

Li o pendulo, livro que me foi oferecido por uma grande amiga "Dulce Pontes" e, não contes a ninguém vou ter que o ler novamente...

Doce beijo

9:30 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

O segredo, comigo, está mais do que secreto!;-)

Beijo

CSD

12:32 PM  
Blogger ALlan said...

Olá. bom dia
parabéns pelo blog!!

Sobre as edições do livro.Não consigo entender a diferença de preço. Observe que o livro mais barato tem mais páginas então suponho que não sejam letras miúdas https://www.amazon.com.br/P%C3%AAndulo-Foucault-Umberto-Eco/dp/8577991199/ref=pd_sim_sbs_14_1?ie=UTF8&psc=1&refRID=4QS1WNBVCDTCT3J1G7BD


https://www.amazon.com.br/P%C3%AAndulo-Foucault-Umberto-Eco/dp/8501034665/ref=pd_sim_sbs_14_2?ie=UTF8&psc=1&refRID=FCWSF17MDT7GZEBZGKE6

ideal era ver ao vivo o livro, mas eu não vi...

2:42 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Bem, eu apenas comento os livros, não sou vendedora. Também não sei a que editora se refere, se o exemplar é usado ou não nem em que estado está. Mas também não a pessoa adequada para responder à pergunta que está a colocar. O melhor é perguntar a um livreiro da sua área de residência.

CSD

4:01 PM  

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