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Bibliomaníaca e melómana. O resto terão de descobrir por vocês!

Tuesday, August 07, 2007

“Relato de um Náufrago” de Gabriel Garcia Marquez (ASA)


Este é o “relato de um náufrago que esteve dez dias à deriva numa balsa, sem comer nem beber, que foi proclamado herói da pátria, beijado pelas rainhas de beleza e ficou rico com a publicidade e depois foi malquisto pelo governo e esquecido para sempre”.

Gabriel García Márquez

Relato de um Náufrago é, apesar de escrito só em 1970, a transformação romanesca do relato de uma notícia respeitante a um facto ocorrido em 28 de Fevereiro de 1955, altura em que, a bordo de um contratorpedeiro da Marinha de Guerra da Colômbia, caíram ao mar oito tripulantes devido à intensidade da ondulação. A dificuldade em manobrar o barco causada pelo peso excessivo de uma carga de electrodomésticos de contrabando impediu que fossem tomadas as providências necessárias para salvar os marinheiros.


Somente dez dias depois da tragédia é que o único sobrevivente, de nome Luís Alejandro Velasco, dá à costa, a bordo de uma balsa, faminto e quase sem pele, devido às queimaduras solares.

A transformação da aventura em relato pela narração dos factos tal e qual aconteceram (ou tal e qual se lembra o protagonista) caiu no desagrado do governo colombiano – então sob a ditadura do General Gustavo Rojas Pinilla – transformando o até então herói em persona non grata que fica, a partir daí, relegado para o esquecimento sendo-lhe, ao mesmo tempo, vedado o acesso a qualquer tipo de carreira na Marinha.


O relato das desventuras e dificuldades de um náufrago, numa embarcação diminuta, rodeado de tubarões que aparecem pontualmente às cinco da tarde para jantar, tem tanto de romance de aventuras de Emílio Salgari como de uma epopeia de Homero.

Desprovido de qualquer traço de pieguice melodramática e dotado do sentido de aventura e capacidade de encarar as situações mais complicadas com uma pontinha de humor negro, a odisseia de Velasco torna-se, assim, irresistível depois de trabalhada pela pena de García Márquez.

A típica inverosimilhança a que já nos habituámos nos romances de Gabo também está presente neste relato, manifesta na inacreditável capacidade de resistência à adversidade por parte deste Odisseu da Caraíbas, nomeadamente, ao aguilhão da fome e da sede, ao chicote do sol sobre a pele durante do dia, à mordedura do sal na pele ferida, ao sentimento de desolação no meio da imensa solidão gelada, fortemente ampliada pelo uivar dos ventos marítimos, durante a noite. Um verdadeiro Superhomem, dotado de uma resistência física e psíquica praticamente impossíveis de conceber.

A sinistra pontualidade dos tubarões, que rondam a balsa como abutres vindos das profundezas a partir das cinco da tarde, ombreia com um sentimento de resignação mesclado de esperança que inspiram o náufrago a poupar ao máximo as energias, até chegar a altura da libertação.

O desespero em procurar comida e em mitigar a sensação omnipresente de fome leva-o a situações extremas, traduzidas em episódios caricatos como a tentativa de devorar as solas dos sapatos, uma gaivota viva (e crua) ou, até, a disputar um peixe com o cardume dos seus “amigos” tubarões, transforma este relato na narração de uma luta monstruosa pela sobrevivência com inimigos tão, implacáveis como os ciclopes, sereias, feiticeiras e monstros marinhos de Homero.

Sobretudo quando chega a altura de lutar pela vida no derradeiro momento, quando as forças já estão no limite e só a fé em si mesmo e um tenaz apego à vida o impelem a prosseguir...

...com a dificuldade acrescida em acreditar na própria capacidade de percepção e consequente ameaça de perda de lucidez desencadeada pela falta de “combustível” para as células cerebrais e pela extrema agressividade dos elementos.

Também a ausência de um médico na povoação isolada e hospitaleira que o recolhe do naufrágio, aliada à falta de acesso à informação contribuem para o prolongamento de uma agonia de dez dias de fome, à qual se junta um impulso irresistível de desfiar o rosário dos episódios da sua aventura marítima.

O resultado final deste trabalho de Gabo é uma belíssima epopeia em prosa com a linguagem e o discurso típico do mais célebre escritor colombiano de todos os tempos, a servir de veículo ao desejo irreprimível de um marinheiro de contar uma história pessoal sem ser lapidada pelos media, ao serviço do marketing político ou económico.

Esta é outra vertente deste Relato mostrada sobretudo no epílogo: o aproveitamento de uma tragédia por parte de algumas entidades públicas e privadas para aumentarem as suas receitas ou prestígio.

Em momento algum do romance é mencionada (propositadamente, é claro) qualquer forma de indemnização por parte do estado colombiano às famílias dos marinheiros desaparecidos. E em momento algum é mencionado o apuramento de responsabilidades face à inexistência de qualquer tentativa de salvamento dos náufragos. Para já não falar de punição por incumprimento das normas relativamente ao volume máximo de carga no navio.


Estas são, talvez, algumas das razões que explicam o abismo temporal relativamente à ocorrência do facto e à publicação do relato.

Resta-nos uma obra literária cuja beleza nos faz lembrar obras como Robinson Crusoé ou O Corsário Negro.

Uma leitura mais do que adequada em período de férias.

Imprescindível para levar na mala de viagem num Verão invulgarmente quente...


Cláudia de Sousa Dias

28 Comments:

Blogger Miss Alcor said...

Parece-me ser um livro brilhante.
Do Gabriel G. M. só li o Amor em Tempos de Cólera, mas tenho de admitir que não gostei assim por aí além.
Apesar de ser o livro da vida de muita gente, não é o meu. Não sei porquê, mas não me consegui entranhar muito bem na escrita e na história.
Gostava de ler outro livro dele, para desmistificar a ideia com que fiquei.

Mais uma belissima sugestão! ;)

3:26 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Deste,acho que ias gostar!

Estou curiosa para ler "O Amor nos tempos de Cólera" mas ainda n´~ão comprei o livro.

Acho que só vou às compras daqui a uns meses, quando acabar de ler aqueles que ainda tenho intocados na prateleira...

Adorei receber a tua visita. Foste a primeiríssima desta vez!


CSD

4:18 PM  
Blogger -pirata-vermelho- said...

Olá Cláudia,
ah, s'eu tivesse tempo para ler este garcia Marquez...

Já viste o último livro do VPValente, 'A revolução liberal de 1834-36'?
(Ed. Aletheea)

1:16 AM  
Blogger MRF said...

Lembro-me perfeitamente deste livro, do momento em que o li, da impressão que me causou, dos episódios no mar e do ambiente do quarto que abriga o náufrago. E já o li há quase 20 anos!

A tua descrição e análise são magníficas.

Beijos, miúda linda

3:44 AM  
Blogger MRF said...

O Amor em tempos de Cólera é um romance muito distinto, porventura o mais sentimental e poético de GGM. Vais ler, e vais chorar.

Beijo II

3:45 AM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Olá Pirata, Ainda não li esse, mas logo que possa...claro que sim!

MRF,és uma querida como sempre!
E esse é uma das minhas próximas aquisições!

Beijo muito grande!

11:35 AM  
Blogger Iceman said...

Viva Cláudia!

Este já li assim como quase toda a obra de Garcia Marquez autor que, curiosamente, não faz parte dos meus favoritos mas que tem o condão de me fascinar.

Sei que e um contrasenso, mas com ele tenho uma espécie de relação amor-ódio.

Nesta linha, e falo do livro, recomendo vivamente um livro que me fascinou e que considero uma obra prima: "A vida de Pi" de Martel, um portento.

Boa opinião!

Cump.
Nuno

9:49 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Thans Nuno!

beijo

11:19 AM  
Blogger inominável said...

ò Cláudia, parece que me entendes...

7:32 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Se calhar temos sensibilidades parecidas...

Beijo grande!


CSD

6:34 PM  
Blogger © Piedade Araújo Sol said...

Ainda não li este do GGM, vou aceitar a sugestão.

5:39 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Não tenho dúvidas de que irá gostar Piedade!

Obrigada pela visita e sê benvinda ao "hasempreumlivro"!


CSD

8:05 PM  
Blogger filipelamas said...

Sempre alerta e com uma escrita que suplanta muitos autores!

1:03 AM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Obrigada, Filipe!

CSD

12:08 PM  
Blogger Elipse said...

lembro-me bem...
é um relato soberbo este!

9:27 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Então não?
Parece mesmo um romance de aventuras, como em Sandokan...


CSD

5:53 PM  
Anonymous Edite said...

Olá Claudia de Sousa Dias!!!
Parabéns pela sua iniciativa!
As suas reflexões exigem dedicação, tempo e saber...
Encontrei este blog há algum tempo, ao pesquisar críticas sobre o livro "Como Água para Chocolate" de Laura Esquível...
Apenas hoje me ocorreu dar-lhe os parabéns... e aproveito para deixar uma sugestão:

Acabei de ler "Inês da Minha Alma" protagonizado por Inés Suarez, mulher lutadora e incansável que conquistou o Chile no século XVI. Inés Suarez é uma jovem e humilde costureira e cozinheira que embarca com destino ao local mais procurado e desejado (o Novo Mundo) para procurar o seu marido, Juan de Málaga, que ambiciosamente, tinha partido em busca de ouro, riqueza e poder. Para além disso, Inés deseja uma vida de aventuras, o que era vedado às mulheres da época... Para sua surpresa, na América, Inés vai encontrar uma enorme paixão por Pedro de Valdivia, igualmente ambicioso e lutador, ao lado de quem, Inés enfrentará as tão desejadas aventuras, bem como riscos da conquista e fundação do Chile...
Adorei este livro!!!
Cumprimentos, Edite

4:07 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Isabel Allende, não é? Há já muito tempo que não leio nada dela...

Gosto muito, mas ainda não li nem esse nem o Zorro...

Lá virá o dia. Para já estou ás voltas com algumas obras das últimas duas décadas do século XX. è interessante verificar a forma como as coisas se têm desenrolado nos últimos vinte anos para depois se extrair, a partir daí, um padrão...

Parece mesmo a sequência Fibonacci d que fala o Dan Brown...(nem tudo o que vem dele é mau...)

;-)

Um abraço e obrigada pela visita!

CSD
CSD

5:38 PM  
Anonymous Edite said...

Olá Claudia!
Sim, Inês da Minha Alma é de Isabel Allende.
Também não li o Zorro... gostava de saber se alguém leu e se aconselham...
Atentamente, Edite

4:10 PM  
Anonymous Anonymous said...

Quando pensas ler "As velas ardem até ao fim"?

2:20 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Já li!

Não queres dar uma espreitadela ao arquivo de Fevereiro de 2006?

CSD

6:17 PM  
Blogger Lidianne Andrade said...

gostei muito, merece muma lida!

1:48 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Obrigada pela visita, Liddiane!

CSD

4:40 PM  
Blogger Patrícia Souza Silva said...

Li esse livro há mais ou menos uns 3 meses. Daí, quando termino de ler, gosto de procurar algo mais para complementar a leitura. Trocar impressões. Acabei encontrando seu blog.
Muito interessante.
O plano de fundo é o mesmo que o meu.
Gostei muito do texto.
Sabe o que mais me deixou indignada quanto a história do livro: é que não houve tempestade, não houve nada. Foi só por conta do peso do contra-bando. Preferiram salvar objetos que vidas!
E mais: jogaram os botes salva-vidas, e nem verificaram como se haviam sobrevivido..Muito menos mandaram reforços..É uma denúncia escancarada.
Gostei bastante do livro também!

Abraço

Patrícia.

11:29 PM  
Anonymous Anonymous said...

Olá olha gostei muito de ler este livro e deixo esta sujestão é de Rafael Macaco Sousa "Vida sem anoC"

11:21 PM  
Blogger Nando Al Ruda said...

Estava pesquisando na internet sobre balsas salva-vidas para entender o que se passou naquela do livro do CGM. Sempre com água no fundo, com um estrado de madeira, não consigo visualizar. E ... além da imagens, pouco esclarecedoras, de balsas modernas, cheguei até o seu interessante Blog. Acabo de reler o Relato..., mercê de uma forte gripe que me prendeu à cama. Como é bem escrito! Consegue produzir acontecimentos, apesar da obrigatória monotonia de dez dias sozinhos no mar. Nunca cansa o leitor. A Miss Alcor recomendaria Cem Anos de Solidão, obra prima do colombiano, A propósito, ainda não entendi bem a coisa da balsa...

8:36 PM  
Blogger MARIA said...

Olá!

Eu só leitora assídua do GGM, e este é sem dúvida um dos meus livros preferidos dele!

Mas se tiver de recomendar um recomendo o "Ninguém escreve ao coronel"

11:28 AM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

esse é dos poucos que ainda não li dele...

alías dos muitos, porque ainda me faltaumaboa parte, a começar por "O Amor nos tempos de cólera". Mas esse vou deixar para o fim.


csd

11:31 AM  

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