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Bibliomaníaca e melómana. O resto terão de descobrir por vocês!

Monday, October 01, 2007

"A Fogueira das Vaidades" de Tom Wolfe (Dom Quixote)


A marca de uma carreira ligada ao jornalismo (Herald Tribune) está impressa numa escrita que traça uma radiografia sociológica da sociedade nova iorquina nos anos oitenta do século vinte, logo após a crise no sector do petróleo, ocorrida nos anos setenta.

O editor afirma que " o que nesta fogueira se consome no lume de uma profunda e ácida ironia é a arrogância dos novos-ricos e o ódio dos miseráveis, o poder não poucas vezes abusivo dos média e a relatividade da justiça, o ridículo de uma sociedade sem princípios, a corrupção e o arrivismo de tantos dos seus mais sólidos pilares".


Há, portanto, em A Fogueira das Vaidades, várias personagens que são caracterizadas, melhor dizendo, caricaturadas, salientando impiedosamente o ridículo de toda uma geração onde a ganância, o desejo de poder e a soberba, que se manifestam na presunção obscena de quem se julga superior. Uma presunção que é exposta, desnudada e analisada, centímetro a centímetro, em toda a sua grotesca realidade.

As três figuras-tipo mais visadas encaixam-se em três níveis sócio-económicos distintos, apesar de, no que toca ao acesso à educação, estarem relativamente equiparadas.

A diferença reside nos sinais exteriores de riqueza que ostentam ou desejam ostentar.

Ou, ainda, que ambicionam possuir.

O leitor é, em primeiro lugar, apresentado a uma família WHASP (White Anglo Saxon Protestant), liderada por um jovem executivo de Wall Street , perito em especulação obrigacional. A família reside na Park Avenue, onde os apartamentos se assemelham a mansões, às quais se tem acesso através de um elevador privativo. A esposa é o modelo perfeito de classe e sofisticação. Mas apesar de culta e socialmente admirada está, praticamente, a dobrar os quarenta e o marido julga estar na altura de a substituir por um animal sexual mais jovem.

Entramos depois, em casa de um procurador de um tribunal do Bronx. Trata-se de uma família de classe média, com uma situação profissional estável, mas que ambiciona atingir um nível de vida muito superior às suas possibilidades. Vivem num apartamento minúsculo, no centro de Nova Iorque embora não na zona "chic" , cuja renda exorbitante os impede de pagar a uma ama para cuidar do filho recém-nascido, colocando em risco a viabilidade de Rhonda continuar a trabalhar. O procurador Kramer não se cansa de reparar o quanto a mulher é desinteressante, sobretudo após o parto, enfatizando, a toda a hora a sua grosseria e vulgaridade.


Kramer vive, desde então, entusismado pela beleza, algo helénica, de uma jurada, proveniente de uma família WHASP, embora com ascendência grega por parte do pai, pensa nela como uma amante que gostaria de exibir, mas que jamais conseguiria sustentar.

Por último, entramos no apartamento de miserável, cujo ambiente infecto serve de pano de fundo à vida de Peter Fallow, o jornalista pelintra que adora "cravar" jantares aos seus colegas, financeiramente mais abonados, em restaurantes de luxo. Indolente e presunçoso, Fallow procura o êxito fácil, que o projecte definitivamente para a ribalta: o ideal seria um escândalo, a envolver algum figurão da sociedade nova-iorquina que habite a 5ª Avenida ou as Torres de Manhatan.

A presunção, a arrogância e o desejo de protagonismo destas três personagens é explorada até ao mais ínfimo detalhe, com uma precisão cirúrgica, ao longo das mais de setecentas páginas da obra.


Um volume que se lê com prazer, ao desfrutar da amarga ironia de Wolfe, cujo humor corrosivo espreita nas entrelinhas dos diálogos e monólogos que envolvem, sobretudo, estas três figuras.


A voz do narrador descreve, com minúcia, os gestos e as atitudes exteriores que são a expressão física dos diferentes tipos de vaidades aqui analisados: o queixo espetado de Sherman McCoy, a ilustrar o seu orgulho pseudo-aristocrático; o arquear do pescoço do procurador Larry Kramer, a tentar, pateticamente, exibir uma forma física e virilidade que já não possui; e Peter Fallow, com a sua madeixa loira, a cair sobre a testa, numa tentativa desesperada de esconder o avanço da calvície, ao mesmo tempo que tenta usar a sua carteira profissional de jornalista como passaporte para a aristocracia ou, na pior das hipóteses, para o mundo dos ricos, detentores de "dinheiro novo"e dos títulos comprados com o dinheiro proveniente da especulação financeira. Para tal, Fallow faz-se valer da fama conseguida à custa dos artigos que roubou a uma ex-namorada, talentosa e cega pela paixão.

Um aspecto curioso, comum a todos os tipos sociais expostos na obra, é a forma como olham as mulheres – sempre como objectos sexuais e nunca do ponto de vista das suas qualidades humanas ou intelectuais.

A afectividade é inexistente no monólogo interno de qualquer uma destas personagens masculinas principais. O culto da juventude é omnipresente. Sobretudo quando se trata da ostentação de mulheres jovens, belas e de origens sociais modestas, pelos idosos barões da alta-finança, que exibem despudoramente o seu chauvinismo e, embora não o saibam, uma extraordinária propensão para desempenharem o papel do Palhaço da célebre ópera de Leoncavallo – uma figura que é, simbolicamente, representada por um tenor da moda, durante uma luxuosa festa onde abundam este tipo de personagens e, durante a qual, o referido tenor, um dos convidados de honra, solta as gargalhadas que antecedem a conhecida ária Vesti la Giuba da ópera Os Palhaços. Wolfe mostra, neste capítulo, intitulado de A Máscara da Morte Vermelha, inspirado num conto de Edgar Allan Poe, o quanto é implacável, na sua crítica. A recepção em casa dos Bavardages (em francês, bavarder = tagarelice fútil), ambiente onde decorre todo o capítulo, poderia perfeitamente servir de cenário a uma ópera buffa, onde sobressai o lado cómico e frívolo de todas as personagens que nela participam. Com excepção de um poeta britânico, candidato ao Nobel, que alerta, de forma algo sibilina, para a morte ou extinção, inquietantemente próxima, do estilo de vida de que usufruem no momento, fruto da forte clivagem social que se acentua de dia para dia.

Para tal, o poeta faz uma analogia com o conto de Edgar Allan Poe – A Máscara da Morte Vermelha – onde os amigos de Próspero se refugiam no alto de um edifício para escaparem a uma terrível epidemia. Mas a morte apanha-os, infiltrando-se no seu refúgio. Da mesma forma, os WHASP isolam-se, nas suas torres ignorando a esmagadora maioria dos seres que vivem abaixo do limiar da pobreza, em Bairros como o Bronx, Brooklin ou Harlem.

Durante alguns segundos os convivas ficam sem fala, mudos diante das palavras do Arauto da Morte, de tudo aquilo que tentam desesperadamente preservar.

Para, depois, regressarem calmamente aos seus assuntos de sempre, fazendo ouvidos de mercador à profecia.

A festa é, toda ela, uma sátira, onde os trocadilhos, intraduzíveis, jogam com os nomes das personagens, ao acentuar o seu interior grotesco, coberto com as roupagens glamourosas da alta-costura.

Na obra A Fogueira das Vaidades os ricos dividem-se, na realidade, em duas categorias diferentes: os grandes especuladores financeiros, onde encontramos a figura de Sherman McCoy, que são apenas o peixe miúdo, comandado pelos detentores das grandes fortunas, donos de instituições bancárias e grandes multinacionais; e o pessoal ligado às artes e às letras, os intelectuais bem sucedidos - escritores, pintores e poetas de grande projecção internacional, que fazem parte do círulo de amizades de Judy McCoy,a esposa de Sherman – trata-se de uma elite uma pouco mais humanizada e, em alguns casos, um pouco mais consciente.

Os McCoy, apesar de oriundos do mesmo meio social, possuem, na realidade, interesses opostos, sem terem nada em comum, mantendo um casamento de aparências, no qual o diálogo entabulado é apenas circunstancial, a visar somente o respeito pelas regras do socialmente correcto.

Na classe média, a figura mais emblemática é a do procurador Larry Kramer, no qual observamos uma vaidade que se manifesta na exibição de um estilo de vida que não corresponde aos seus rendimentos, misturada com um profundo sentimento de inveja por tudo aquilo que representa Sherman McCoy e os seus pares. O seu desejo de esmagar a qualquer custo um membro da alta sociedade, sobretudo alguém que possua tudo aquilo que ele não consegue obter - dinheiro, prestígio social, uma bela amante e um físico invejável - é o móbil da sua conduta, ao longo do desenvolvimento da narrativa.

O mesmo se passa com Peter Fallow. A viver no limiar da pobreza absoluta, culto, mas sem recursos (e sem escrúpulos), deseja ascender socialmente através de um golpe de sorte, um "furo" jornalístico que o projecte para a ribalta e para as primeiras páginas dos tablóides.

McCoy é o insecto que cai totalmente desprevenido na teia destas duas aranhas, que se servem do seu infortúnio para ascenderem na sua carreira profissional.

O ponto fraco de Fallow reside numa vaidade desmedida assente na convicção da sua aparente superioridade intelectual. Na realidade, Fallow é o típico oportunista cuja notoriedade é conseguida através de uma espécie de parasitismo, que consiste em aproveitar-se do trabalho dos outros. Ou da desgraça alheia.

Os três protagonistas masculinos têm em comum o sobrestimarem a importância do seu papel na sociedade.

Outros temas relevantes explorados em A Fogueira das Vaidades são, por exemplo, o racismo quase atávico e gratuito, personificado em Maria – uma jovem caçadora de fortunas oriunda da Carolina do Sul, assim como as meias verdades utilizadas no jornalismo sensacionalista, com o objectivo de manipular a opinião pública.

Algo de que as diferentes facções políticas sabem servir-se muito bem.

Sobretudo os líderes carismáticos, como o Reverendo Bacon, cuja demagogia esconde um cinismo oportunista, camuflado sob uma máscara de defesa dos direitos humanos e da igualdade de oportunidades para as minorias.

A obstrução da justiça é outra das faces do mesmo problema. A ajudar à manipulação pelos media, as lacunas que impedem a eficiência do sistema judicial americano, permitem, frequentemente, que a pressão das eleições estaduais para os magistrados impliquem, muitas vezes, que estes tenham de se curvar à simpatia/antipatia da opinião pública face ao réu, vendo-se um juiz, em sérios apuros ao tentar remar contra a maré, como no caso de Abraham Kovitszki....

Por outro lado, o referido sistema judicial permite facilmente a manipulação de um júri por parte de um procurador sem escrúpulos, verificando-se, a maior parte das vezes, a desvalorização da investigação isenta de interesses. A verdade torna-se, então, incómoda, sobretudo quando apresentada com as suas cores reais.

Também o sistema educativo a duas velocidades é outra das farpas implantadas por Wolfe num dos pilares base da sociedade americana: a igualdade de oportunidades.

A implementação de um sistema de ensino destinado às classes mais desfavorecidas e "cérebros de segunda" com testes de resposta múltipla, respostas de verdadeiro ou falso e ausência de trabalhos escritos, assim como de disciplinas que obriguem ao desenvolvimento do pensamento crítico ou de análise, permitem que sistema de ensino sirva, assim, para aumentar a clivagem social de um regime de Apartheid camuflado, no qual cada vez mais se desenvolve um sistema social semelhante ao das castas indianas, cuja impermeabilidade é cada vez mais notória.

Um livro que é para muitos um verdadeiro soco "em cheio no plexo solar".

Uma leitura indispensável nos dias que correm…

Cláudia de Sousa Dias

24 Comments:

Blogger Baudolino said...

Indispensável mas ainda não a fiz... Começa a ser um problema para mim. Entre o desejo de tudo o que queria ler e a obrigação do que tenho de ler para o dia-a-dia... Enfim, tenhamos paciência.
Um abraço
P.

10:03 PM  
Blogger Iceman said...

Esse livro, esse livro...
Eu estou como o baudolino, é indespensável mas ainda não o fiz, porém há tanta coisa que anseio ler que, invariavelmente, tenho que deixar muitos para trás, para uma qualquer oportunidade e este "Fogueira das vaidades" faz parte desse lote, entre tantos outros.

Um dia.

Mas a opinião está excelente!

Bjs.
Nuno

10:18 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Obrigada aos dois!

Mas digo-vos que é muito fácil de ler, apesar do volume!

O diálogo flui mesmo muito bem e mesmo os monólogos internos como se aproximam bastante da oralidade, tornam-se bastante "degustáveis"...

CSD

11:17 AM  
Blogger cljp said...

Comentas com paixão pela leitura.
Parabéns!
Bjs

11:25 AM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Obrigada!

também leio com a mesma paixão...


CSD

11:37 AM  
Blogger totoia said...

Li esse livro há muitos anos, mas ainda hoje o recomendo como leitura, sem saber explicar muito bem porque, foi um livro que me marcou.

1:42 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Talvez pelo delicioso sabor a meledicência com o toque de realismo que o cinema comercial e as séries televisivas querem a todo o custo ocultar...

:-)

CSD

12:19 PM  
Blogger Carol Bonando said...

poxa, senti que uma amiga minha chamada Cláudia desapareceu do meu blog, será q meu bog tá tão ruim assim? huaheuaheua
como voce está querida?
ainda penso em aumentar akela história, e sobre o filme Cidade dos Sonhos, eu tenho em casa, muito bom mesmo...
será q MARIANA vira protagonista de algo?
bjs queridona, apareça!

9:38 PM  
Blogger un dress said...

sem dúvida...imprescindível!!

porque rasa e rasga caminho...


impossível deslocar-me nesata altura cláudia...!

mas há-de ser. há-de ser!!:)



abraÇo.beijO

12:43 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Não, não está nada ruim!

Eu é que tenho andado menos activa na leitura, na escrita e nessas coisas da blogosfera!

Bjo


CSD

4:15 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

EStou convicta que sim, Undress!

CSD

4:16 PM  
Blogger inominável said...

um clássico... um actual... um buraco, para mim...

3:17 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Buraco?!

...


:-)


CSD

4:32 PM  
Blogger isabel victor said...

Deixo-te aqui " Texturas "

http://www.revistatexturas.com/blog/index.php/category/blogs-de-libros/

Espreita ...

Bj*

isabel

2:13 AM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

vou espreitar sim!

E dar também uma vista de olhos ao teu "caderno"...

Abreijo grande!

6:04 PM  
Anonymous Anonymous said...

Olá Claudia, confesso que sou uma visitante assidua do seu blog pq tb eu sou uma "devoradora" de livros...
O ultimo que li, e adorei!!!, foi do Sandor Marai, AS VELAS ARDEM ATE AO FIM.
Pergunto, leu A HERANÇA DE ESZTER, deste mm autor? aqui fica uma sugestao.
bjs
Cuca

5:41 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Já estive com ele na mão para o comprar!

Vou de certeza fazê-lo. A esse e mais uns quantos. Presentemente acabei de ler o "Lolita" de nabokov. Irei postar o texto já na próxima semana.

Um abraço e obrigada pela sugestão de um dos meus autores favoritos "As Velas" é precisamente o livro cujo comentário publiquei esta semana no jornal da minha terra!

CSD

12:27 PM  
Anonymous Anonymous said...

ola, ola!!!
pois "AS VELAS..." é sem duvida uma grande historia. Eu Amei esse livro. A Herança de Ezster tb é bom mas as velas sao e serao sempre AS VELAS.
Li tb de um escritor portugues (q nunca ouvira falar ate a data) A MATERNA DOÇURA! Curioso. Muito interessante. Estou agora a iniciar-me no O BOM NOME de Jhumpa Lahiri. Entretanto pensei se nao deveria ler OS FILHOS DA MEIA noite de S. Rushdie, mas... entretanto vou espreitando o seu blog para tirar mais umas dicas.
Bem haja
Cuca

4:22 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Obrigada Cuca!Tens-me dado óptimas sugestões!

O autor de que falas é Possidónio Cachapa, não é?

Já tenho estado com alguns livros dele na mão mas ainda não me decidi a comprar...


CSD

12:45 PM  
Anonymous Anonymous said...

Claudia, olé!
Pois sim, estava eu a falar do P. Cachapa. Apenas li esse, nada mais.
Estou em "pulgas" para ter em maos o RIO DAS FLORES do MST, vai ser lançado esta 5ª feira.
Leituras actuais, pois que continuo no O BOM NOME e... so far... so good!
Bjs

5:50 PM  
Anonymous Anonymous said...

Claudia, olé!
Pois sim, estava eu a falar do P. Cachapa. Apenas li esse, nada mais.
Estou em "pulgas" para ter em maos o RIO DAS FLORES do MST, vai ser lançado esta 5ª feira.
Leituras actuais, pois que continuo no O BOM NOME e... so far... so good!
Bjs

5:50 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Pois também eu, Cuca, Também eu!


Esse e mais uns duzentos!


Mas vai ter de esperar um bocadinho!


CSD

9:31 PM  
Anonymous Ana Carolina said...

Bem comentado Cláudia!
Estou lendo o livro, é fascinante.
A questão da mulher é desesperadora.


Obrigada,

4:59 PM  
Blogger joao carrilho said...

Concordo

2:51 PM  

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