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Tuesday, December 18, 2007

“Os Mares do Sul” de Manuel Vásquez Montalbán (Caminho; Biblioteca Visão)


O detective privado Pepe Carballo tenta descobrir a autoria da morte de Stuart Pedrell, um industrial catalão. A acção situa-se na época que se segue à queda do regime franquista, na Barcelona dos anos 1970.

Pepe Carballo é contratado pela viúva de um empresário assassinado misteriosamente, Stuart Pedrell, a qual pretende fazer a reconstituição, passo a passo, do percurso de vida do falecido marido, durante o último ano de vida deste no que toca à sua vivência extra-familiar.

Pepe passa, então, a dedicar o seu tempo a reconstruir o quebra-cabeças que é a personalidade do empresário e a forma como esta se articula com aqueles que com ele contactaram de perto.

Descobre, então, que tem em mãos um caso que envolve um empresário muito pouco ortodoxo. Trata-se de um diletante, um idealista, sonhador, apreciador das artes e refinado gourmet, obcecado, simultaneamente, por paisagens exóticas: os Mares do Sul. As gentes das ilhas de Gauguin.

Resta-lhe seguir, então, o itinerário que o leva às ilhas imaginárias onde Pedrell pensa encontrar a paz e a evasão, longe da hipocrisia e da frivolidade do mundo dos negócios, bem como da hipocrisia do jet-set das revistas de papier couchet.
Em Os Mares do Sul, Montalbán, aponta o chocante contraste sócio-económico patente na sociedade catalã da altura, em que a Espanha se encontra em pleno arranque da fase do desenvolvimento industrial, que lhe permitirá atingir o nível de riqueza ostentado no início do século XXI.

As condições habitacionais nos bairros operários contrastam violentamente com, por exemplo, a extravagante residência do Marquês de Mund, o sócio-capitalista de Pedrell, uma personagem a fazer lembrar um dos líderes do movimento surrealista no campo das artes. O Marquês vive alheado da realidade, isolado num mundo de luxo exuberante, deixando a gestão e multiplicação do seu vasto património herdado, a cargo dos seus dois sócios.

Já a classe trabalhadora, descrita na obra, vive num bairro operário, em condições assaz degradadas, cujas horas de ócio quase não são suficientes para dormir o tempo necessário de forma a enfrentar a rotina do dia de trabalho.

Ao contrário de Isidro Planas, o terceiro dos sócios da empresa do falecido, obcecado pela manutenção da forma física – dietas espartanas, massagens, exercício físico de rigor quase militar e…

…clísteres!

A obsessão de Planas é descrita através do humor cínico de Montalbán – embora este seja, na realidade, um falso cínico, para aqueles que sabem ler a sua prosa nas entrelinhas – o qual acaba por desvirtuar completamente a aparência viril do empresário de físico juliano.

Quanto ao protagonista, o detective Pepe Carballo, estamos perante um hedonista que, apesar da sua evidente afinidade com a ideologia marxista, é tão amante dos prazeres da vida como Pedrell.

Excepto pela forma – situada algures entre o cinismo e o cepticismo –, com que olha para as mulheres em geral – excepto em relação a Mima, a viúva de Pedrell, a qual vê como uma sedutora dama-de-ferro -, e a jovem operária que foi a última conquista romântica do empresário assassinado.

A primeira, é a mulher que paga os seus serviços de detective, uma mulher autónoma, eficiente, que “dá as cartas”. Que não está, portanto, habituada a deixar o crédito por mãos alheias. A segunda intriga-o pelo desprendimento – não é minimamente possessiva ou controladora – e, simultaneamente, pela capacidade de entrega e confiança que deposita em alguém de quem não tem quaisquer referências, como é o caso de Pedrell.E também pela capacidade que demonstra em acreditar num ideal que lhe permita – a ela e à família – resgatá-la da miséria.

Charo e Jessica são tratadas com a condescendência desdenhosa que um intelectual algo chauvinista dedica às mulheres em geral, que vê como belas e ocas.

Em Charo, Carballo vê-se a braços com a luta diária contra a excessiva possessividade e tendência para o melodrama da prostituta não assumida.

Em Jessica, rica e mimada filha de Pedrell, Carballo observa, por vezes com algum aborrecimento, a falta de orientação e a puerilidade da jovem que, sem ser desprovida de inteligência, não consegue encontrar um rumo para direccionar a própria vida. Ou a manobrar o barco que a leve rumo aos Mares do Sul. Ao paraíso idealizado pelo pai, pelo qual sente uma adoração em tudo semelhante à de Electra por Agamémnon.

A linguagem escatológica e o uso frequente do vernáculo, acentuam o cinismo aparente de Carballo. Esta característica de estilo é típica de Montalbán, encontrando-se patente em obras posteriores, embora não de forma tão vincada como, por exemplo, no romance histórico Ou César ou nada, onde entram personagens como a família Bórgia ou a rainha Joana, a Louca, filha dos Reis Católicos.

Mas nesta série policial protagonizada pelo detective catalão, premiada com o Prémio Planeta 1979, Montalbán serve-se da sua verve de características viperinas como arma de ataque, face ao entronizar do capitalismo desenfreado e da sociedade consumista, ao transformar um romance policial em romance de intervenção.


Cláudia de Sousa Dias

17 Comments:

Blogger JFDourado said...

BOM NATAL!!!

(:

12:08 PM  
Blogger Luís Galego said...

que bom ter passado por aqui e bebido esta escrita...

1:31 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

O brigada e um grande beijinho natalício aos dois...

Tenho pena que não tenham podido ontem vir a Famalicão ao Cineliterário!

O debate foi animadíssimo, classificaram de herético o filme "O Milegre segundo Salomé"!!!

Bjo


CSD

3:24 PM  
Blogger un dress said...

NAS












CER









de sangue ar musgo vento e água




:)beijO

5:56 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Terra

Ar

Água

e

Fogo...

Bjo


CSD

4:44 PM  
Blogger Baudolino said...

Votos (atrasados) de Boas Festas e de um 2008 fantástico!
Abraço
P.

3:33 AM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Obrigada Baudolino! Espero que tenhas tido um Natal de arromba!

Bjo grande


CSD

2:55 PM  
Blogger Nilson Barcelli said...

Eu acho que tenho a colecção da Visão completa... logo, devo ter esse livro.
Ando tão atrasado que acho que não vou ter tempo de ler todos os livros que tenho em casa...
Beijinhos.

2:04 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Beijinhos, Nilson.

Desculpa não responder como deve ser,mas estou em transe.

Acabei de ler a notícia da morte de Benazir Buhto, a líder da oposição paquistanesa e Prémio Nobel da paz, uma mulher que eu admirava e ainda não estou em mim...

Tenho de digerir a informação primeiro.

bjo

CSD

3:47 PM  
Anonymous Anonymous said...

Lê-lo-ei!

Clísteres?

Doi.

Bjs
Ana

4:39 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

eheheh!

isso já não sei...


;-)


CSD

7:06 PM  
Blogger cljp said...

Excelente recomendação. Obrigado, Cláudia, também pelas palavras deixada no 'Como morfina'

10:22 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Por nada, Cljp!

Eu gostei muito do teu texto!

Beijinho


CSD

1:02 PM  
Blogger nandokas said...

Olá Cláudia,
Grato pela tua visita ao 'cantinho dos pequeninos' lá no meu sítio.
Já li esta tua 'visão' e, se um dia destes o livro passar à frente dos meus olhos, não o vou deixar escapar. :)
Espero que tenhas tido um Feliz Natal e desejo-te um Bom Ano 2008.
Beijinho

8:09 PM  
Blogger isabel victor said...

Bom Ano 2008 !!!

Hoje lembrei-me de ti ...
entrei na " Moderna " e pensei ...

onde estará a Cláudia ? Será que está aqui ? Será ...

Um dia terei que pedir à Alcina que me ajude a encontrar-te :))


Bj* (grata pela boa companhia e pelas excelentes viagens literárias que aqui sugeres !!!)

8:36 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Hoje?!

31?

Passei lá!!!


Só não fiquei porque não tinha mesa!!!

Então cruzámo-nos e não nos reconhecemos!

:-)

OLha se não nos encontrarmos uma boa entrada no novo ano para Ti e não te esqueças de provar os mexidos da Moderna!

Estão divinais!

Melhores só mesmo os da minha tia Fernanda!

Beijinho grande.

CSD

2:47 PM  
Blogger barb michelen said...

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10:09 AM  

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