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Bibliomaníaca e melómana. O resto terão de descobrir por vocês!

Sunday, August 10, 2008

"Crónica do Rei Pasmado" de Gonzalo Torrente Ballester (Caminho)


Ballester é um Autor que já nos habituou, de forma assaz viciante, às suas irresistíveis provocações sob a forma de sátira, que deliciam o palato literário mais requintado, tal como um chocolate amargo, perfumado com especiarias.

A arte de Ballester manifesta-se, no caso de Crónica do rei Pasmado, em “pegar” num facto, trivial, para o mais comum dos mortais – o desejo de um marido contemplar a esposa tal como veio ao mundo – num episódio romanesco. Ou melhor, burlesco, face à controvérsia, que faz lembrar o humor típico do teatro shakespeariano, uma vez que, à primeira vista, a polémica gerada à volta do assunto em questão poder-se-ia resumir em num único título do dramaturgo britânico: Muito Barulho por Nada. Porque o facto de um marido desejar contemplar a esposa nua não teria, aparentemente, nada de extraordinário. A não ser pela particularidade de o marido em questão se tratar do Rei Filipe IV de Espanha – II de Portugal – e a mulher em questão, a Rainha.

Junte-se, ainda, as contingências impostas pelo formalismo da corte espanhola no século XVII que exigia, na época, um requerimento formal de cada vez que o soberano pretendesse passar a noite no quarto da Rainha tendo, para tal, de apresentar justificação. O que implicava que um pedido, tão insólito para a época, colocasse a corte – e o clero em particular – em pé de guerra e desencadeasse toda uma rede de intrigas…

A Trama

A situação ficcional escolhida pelo autor insere-se no contexto histórico de uma Espanha dominada pela Inquisição. Tem, à cabeça do reino, um monarca semi-virgem – uma vez que, mesmo sendo pai, estava ainda londe de saber o significado da palavra erotismo –, cuja ingenuidade (ou falta de autonomia) o leva a manifestar publicamente, alto e bom som, a vontade em observar a nudez da Rainha, após ter dormido com uma prostituta ter, pela primeira vez, contemplado o corpo nu de uma mulher.

As dificuldades criadas pelo protocolo, que regula todos os actos do rei – públicos e privados – obrigam o monarca a submeter-se à humilhação de tornar públicos os seus desejos mais íntimos.

Esta ausência de distinção entre vida pública e privada, num chefe de estado, imposta tanto pelos cortesãos como pelo clero, traduz-se numa feroz luta pelo poder entre aqueles que lhe estão próximos. Esta situação encontra apenas terreno fértil quando o poder está ocupado por alguém com uma personalidade dita “demasiado branda”, para não dizer frágil. E de um povo manipulável, porque rude e ignorante, subjugado pelo terror supersticioso de uma vingança divina, face aos supostos “pecados carnais” do Rei que representaria a divindade na Terra.

Personagens – Análise actancial

O Rei Filipe IV de Espanha

O protagonista da trama, tímido e inseguro, não consegue fazer ouvir a própria voz, diante dos cortesãos, que se fingem de surdos.

A Rainha Isabel de Bourbon

Filha de Henrique IV de França, tem uma educação bastante mais liberal do que o marido, o qual exibe constantemente uma voz titubeante e veste quase sempre de luto. O humor contagiante da Rainha manifesta-se nos gestos e expressões faciais, assim como no vestuário, apesar de a sua sensualidade ser reprimida pelo protocolo.

Marfisa, a exuberante cortesã de beleza loira – bastante menos diáfana do que a da Rainha, talvez porque temperada pelo sol de Espanha e pelo estilo de vida que leva – torna-se uma das grandes aliadas de ambos os soberanos. Em relação a Filipe, ao fazê-lo descobrir o erotismo, que não se esgota no acto sexual em si, nem do primaríssimo instinto de procriar. No que toca a Isabel, Marfisa ajuda-a a refinar o seu poder de sedução (uma vez que ao elevado potencial falta uma boa dose de experiência...) de forma a que o casal usufrua plenamente do prazer sexual.

O Primeiro-Ministro

Um dos principais oponentes é o Primeiro-Ministro – o Valido, na pessoa do Conde de Olivares –, cujo objectivo é o de conservar a posição privilegiada que detém na corte. No trono, interessa-lhe um Rei fragilizado, sem voz activa. E, uma vez que Espanha se encontra no centro da linha de fogo cruzado entre França e Inglaterra, cujos interesses económicos colidem com os da super potência Ibérica, o Valido pretende que o povo associe os fracassos da nação, ou um qualquer erro estratégico no teatro de guerra além fronteiras, em terras da Flandres, ou nalguma escaramuça com piratas ou com navios otomanos no Mediterrâneo, aos “pecados” sexuais do rei, os quais desencadeariam uma possível vingança supostamente divina, traduzida numa humilhante derrota face ao inimigo estrangeiro.

Há, portanto, que agradar ao clero para conseguir um aliado, uma vez que este controla as massas populares, ignorantes e brutais, sedentas da vingança sanguínea que as redima da condição de pobreza, fatalmente decretada pelo “destino.”

E há, também que sacrificar o seu (do Valido) desejo sexual e a imensa torrente de lascívia da própria esposa, cujo comportamento lhe parece mais digno de uma amante do que de uma respeitável aristocrata, casada e mãe de família…

Mãe que não consegue ser…por mais tentativas que faça. O Primeiro-Ministro decide, então, procurar o padre Villaescusa para intervir junto da divindade no sentido de assegurar-lhe a descendência…

O Padre Villaescusa

É o grande vilão desta novela que quase serve de argumento para uma peça teatral. Fanático, demagogo, com uma sede ilimitada de poder, faz lembrar Savonarola, até no perfil aquilino. Adepto dos autos-de-fé, gosta de sentir o cheiro a carne humana carbonizada, pelo que se revela incansável ao exigir a perseguição de Marfisa, junto do Inquisidor-Mor, numa pseudo-tentativa de purga, uma vez que defende a existência da actividade sexual unicamente para fins reprodutivos.

Aconselha o Conde de Olivares e a esposa a relatarem-lhe todos os pormenores íntimos, relativamente à sexualidade de ambos para, em seguida, os humilhar e culpabilizar, ao recomendar-lhes que o acto seja praticado exclusivamente com fins reprodutivos e de forma santificada, isto é, no altar e no meio de uma novena, recitada em voz alta por um coro de freiras, de costas voltadas para os nubentes. O que dá origem a uma das cenas mais hilariantes da obra, num ritual hierogâmico, a fazer lembrar antigos ritos babilónicos e gregos e as cerimónias dedicadas a Ishtar e Aphrofite respectivamente.

O Padre Almeida

Jesuíta, exilado durante décadas em Inglaterra, passa uma temporada na corte Ibérica e torna-se, juntamente com o Conde Peña Andrada, num dos principais aliados do Rei, ajudando à fuga de Marfisa.
Esta é a personagem-chave que acciona o mecanismo que potencia o desenrolar dos acontecimentos. È, simultaneamente, um homem de acção e o cérebro que comanda as operações, uma vez que detém as ligações de amizade e influência com as pessoas certas. Um verdadeiro estratego. A amizade com o Inquisidor-Mor, sucessor de Torquemada, mas, ao contrário deste, impregnado do banho cultural do renascimento, após viver largos anos em Itália, é muito mais esclarecido do que o seu antecessor. O que o leva a nutrir uma verdadeira estima por este jesuíta tão liberal e a apreciar a beleza de Marfisa, digna de figurar num dos quadros dos artistas italianos que este chefe supremo do clero Luso-Espanhol mais admira.

O Conde Peña Andrada

Corsário, ao serviço de Filipe IV que o ajuda nos seus encontros clandestinos e, mais tarde, a preparar o encontro dos dois monarcas a sós, longe dos olhares indiscretos dos cortesãos.

O Padre Luís e a escrita ballesteriana

A “voz” de Ballester está, sobretudo, incarnada no discurso malicioso e satírico do Padre D. Luís, o qual gosta de compor poesia erótica bem como cantigas de escárnio e maldizer a respeito das personagens da corte e em cuja pena maliciosa o episódio de Marfisa com o Rei cairá como o mel em doce de maçã…(ou de marmelo…?)

O Padre Rivadesella

Uma personagem curiosa, este padre que dirige agradáveis e refinadas tertúlias/conversas a dois, autênticos desafios literários, com alguém que se diz ser o Diabo (uma vez que se trata de alguém que ninguém vê), debaixo de uma árvore ao entardecer.

A Camareira Real

A sedutora viúva real, prima do Valido Conde de Olivares, a lembrar vagamente a Milady de A. Dumas a grande intriguista feminina.

A Madre Superiora

Parente do Inquisidor-Mor, aliada dos reis, mulher culta e surpreendentemente tolerante.
E está completo o desfile da de uma galeria das principais personagens tipo, cuja evolução plana – porque mantêm os traços principais da sua personalidade ao longo da trama – faz com que esta obra caia na categoria de novela.

Um conjunto de figuras fascinantes que, assim, compõe esta farsa a exibir assumidamente os seus defeitos sendo, precisamente, esses mesmos defeitos que as tornam fascinantes.

Crónica do Rei Pasmado é, segundo o próprio Autor, um scherzo em Re(i) menor, alegre mas não demasiado onde a riqueza dos diálogos maledicentes é polvilhada pelas mais ardentes especiarias, colocando a nu hipocrisias inimagináveis, despindo toda a espécie de máscaras e falsos pudores, desnudando a alma de toda uma corte e dissecando a anatomia sócio cultural de uma época que acabou por se constituir como um ponto de inflexão na história de Espanha (e Portugal). E que anuncia, talvez, o começo do declínio do maior Império de todos os tempos.

Uma obra literária que foi transformada em obra cinematográfica – dirigida por Imanol Uribe, com Joaquim de Almeida no papel do Padre Almeida, um jesuíta com alma de cavalheiro – mas que é talhada à medida para ser transformada em peça de teatro...

Ficamos à espera.


Cláudia de Sousa Dias

28 Comments:

Blogger Pedro said...

Já conhecia e é a primeira vez que leio algo sobre a obra.

Gostei de teres feito uma análise sobre cada personagem, o que me dá a ideia que, realmente, estas se desenvolvem.

Fez-me lembrar, como dizes, Gil Vicente em "Auto da Barca do Inferno", e de certeza que esta é uma obra muito interessante desse ponto de vista.
Como já estava interessado há algum tempo, ficou ainda mais a vontade de ler o livro!

2:35 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

vais gostar e muito!~

;-)


CSD

4:45 PM  
Blogger Sofia said...

Olá :) Há já algum tempo que visito este blog e gosto imenso de ler as tuas críticas detalhadas ;)
Já ouvi falar imenso neste autor mas nunca li nada dele. Para começar, que livro me aconselharias?

6:05 PM  
Blogger Elipse said...

Olá Cláudia.
Voltei para ler as tuas longas e detalhadas crónicas, sempre estimulantes para novas leituras.
E este livro, tenho-o por aí mas não me tinha despertado ainda a atenção.
Vou pegar nele.
Um grande beijo para ti.

9:54 AM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Aconselhar-te-is precisamente este, Sofia!

É o ideal para te iniciares no estilo de Ballester!

CSD

12:24 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Obrigada pela visita Elipse!

Um grande beijinho para ti!


CSD

12:42 PM  
Blogger Teresa said...

Ballester é imperdível. Fascina-me a forma como descarna figuras e expõe características psicológicas e comportamentos. Li também o «Don Juan» e lá está, até ao ridículo, o narcisismo, a manha e o desnorte daquela(s) figura(s)…Quero ler «A Ilha dos Jacintos Cortados»….

Muitos Beijinhos
TSC

5:43 PM  
Blogger isabel mendes ferreira said...

b.e.i.j.o.


_____________


"aia" do bom gosto.!

7:48 PM  
Blogger Wolf said...

Cláudia

que bom ler-te .....

kiss kiss

8:26 PM  
Blogger Wolf said...

Bem depois das apresentações...
só mesmo ..lendo a Obra.
Gosto de vir aqui...ler-te.


kiss

10:55 PM  
Blogger n.fonseca said...

SEmpre tive vontade de ler o Ballester mas nunca o fiz. Acasos. Mas a análise leve da Crónica deu-me vontade de o ir apanhar à estante. Merci bien!

Pequena nota editável: um pequenissimo lapsus linguae no final do 2º parágrafo ;)

2:04 AM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Também é muito bom, Teresa...mas já pertence a outra fase da vida dele e a outro patamar de criatividade. muito mais surrealista...


CSD

7:48 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

È uma querida, Isabel!


CSD

7:48 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Caríssimo Wolf...continuo com a mesma impressão que tive ao ler o seu blog...
;-)

CSD

7:49 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Vai gostar de certeza, Nuno!

Mas o melhor que li dele até hoje é "Filomeno, Para meu Pesar".


Verdadeiramente sublime.

um beijo


CSD

7:51 PM  
Blogger Wolf said...

Claudia

hum... talvez nas já agora.. porque essa impressão.. e de onde ela surge..

bj
sp

8:42 PM  
Blogger Wolf said...

Claudia

desculpa nas de onde achas que já ouviste os meus uivos, e desde já te digo que aprecio muito o teu blogue é uma forma de amor por algo, sempre fico fascinado por isto..sempre

vá bom resto de domingo e desculpa a forma que utilizei para te fazer esta questão.

kiss e obrigado pelas tuas visitas.

8:46 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Nada mais simples, Wolf :-)

Conheci alguém com uma escrita muito semelhente à tua e que já tem pelo menos dois livros publicados...

Mas é perfeitamente possível que seja só coincidência...


CSD

12:05 PM  
Blogger Baudolino said...

É realmente uma obra fantástica!
Abraço
P.

1:31 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Obrigada Baudolino!

Um abraço...


CSd

7:13 PM  
Blogger Livros em 2ª Mão said...

Já por 2 ocasiões me recomendaram este livro e agora vejo esta opinião. Será certamente um livro a ler num futuro!

P.S: Apesar de já frequentar este blog há muito tempo e praticamente nunca comentar, devo deixar o meu apreço pelas opiniões e análises das obras. Continuações de um bom trabalho!

10:23 AM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Obrigada ,livros em 2ª mão!

ballester é um dos meus autores de eleição!


csd

6:52 PM  
Blogger Joao Ricardo said...

Desde ja os meus parabens ao responsavel pelo blog. Muito bom trabalho.
Acabei agora de ler o livro e adorei! Recomendo!!!!
Nunca tinha lido livros deste autor, mas agora que conheco, fiquei a gostar.
Queria continuar a ler livros deste autor, e para isso, queria que me recomendassem um mais ou menos do mesmo estilo.
Agradeco uma boa sugestao ;)
Joao Abreu

10:24 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Leia todos. Comece numa ponta e acabe na outra. Mas se quiser uma sugestão pode pegar em "Filomeno, para meu pesar"

10:35 PM  
Blogger Noel Moreira said...

Apenas um conselho a respeito deste livro extraordinário: para o apreciar devidamente é essencial lê-lo no idioma original. Eu já tinha lido o livro em português, mas depois fiquei deslumbrado com a escrita do Ballester!

1:54 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

De acordo. Mas não há muitos livros em castelhano à venda em Portugal.

4:35 PM  
Blogger Numa de Letra said...

Lido de fresco :-)

http://numadeletra.com/cronica-do-rei-pasmado-de-gonzalo-65578

2:50 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

E eu neste momento a ler outro dele, também: "A saga/Fuga de J.B."

3:36 PM  

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