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Bibliomaníaca e melómana. O resto terão de descobrir por vocês!

Thursday, June 12, 2008

“O Alpendre Dourado” de Tatiana Tolstoi (Dom Quixote)


O Alpendre Dourado é uma das colectâneas de contos desta escritora da ex União Soviética a incidir na temática da descrição dos comportamentos, emoções e sonhos de toda uma galeria de personagens-tipo numa geração pós revolucionária, em confronto com aquela que a precedeu. São duas gerações que coexistem, no final de uma época de transição, nomeadamente, nas décadas de 60 e 70 do século vinte, altura em que a economia soviética está já a funcionar a todo o vapor.

A esmagadora maioria destas personagens tem em comum uma profunda nostalgia face ao passado, aureolado pelo
glamour do Romantismo, patente sobretudo na maneira como se vestem – roupas em segunda e terceira mão, de há várias décadas atrás, muitas vezes produto de um espólio de guerra e objectos de arte provenientes de expropriações ou, pura e simplesmente, do empobrecimento das famílias da velha elite aristocrática ou da alta burguesia, inúmeras vezes revendidos no mercado negro.

Mas aquilo que une realmente as personagens de Tatiana Tolstoi é, principalmente, uma atitude estética que atravessa a fronteira do tempo e os revezes da Fortuna, as dificuldades do quotidiano no que respeita às condições de habitação, aquecimento, a escassez de alimentos, tendo como pilar uma tentativa de nivelar as condições económicas e dos rendimentos impostas pelo Estado. Trata-se de uma atitude estética voltada para o romantismo de um passado com pouco mais de meio século que está patente na preservação do culto da Beleza, da Arte, do Amor e da Poesia, apesar da realidade sombria e gélida do ambiente circundante.

O Alpendre Dourado acaba por ser a evocação dos desejos, dos medos presentes em todas as fases da vida humana desde a infância até à velhice, daqueles que se recusam a abdicar da poesia no coração e na alma.

Desta forma, O Alpendre Dourado e Outras Estórias coloca-nos frente a frente com figuras como Maria Ivanovna, uma nanny de outros tempos que, ao tentar educar os filhos de uma família proeminente no novo regime, tem de enfrentar a arrogância de uma nova geração que, desligada das tradições, deseja cortar radicalmente com todo um passado cultural e os valores de um mundo que já não existe. A melancolia da prosa conjuga-se com a tristeza e angústia presentes nas lendas e canções tradicionais que causam o repúdio dos mais jovens, cuja mente está voltada para o pragmatismo do quotidiano para desgosto da velha ama a qual deseja, a todo o custo, preservar a cultura secular do imaginário russo.

Por outro lado, a velha cozinheira, cujo espírito maternal cumula as crianças de mimos e atenções é mais facilmente aceite. O amor consegue atingir mais facilmente o seu objectivo do que a severidade profissional da preceptora de Bem-me-quer, mal-me-quer.

Um homem idoso, evoca a beleza da vida através da voz da cantora lírica Vera Vasilievna; ao utilizar uma escrita auditiva, a Autora usa a voz de uma diva como mensageira de um passado que privilegiava a Beleza, neste caso personificada pelo Canto. Este passado chega aos ouvidos do protagonista através de um velho e obsoleto gramofone. Velho e obsoleto como a sociedade onde outrora brilhava. Mas com a beleza canora de um pássaro exótico numa selva tropical ou na tranquilidade retemperadora de um ambiente bucólico. A prosa de Tatiana Tolstoi sugere-nos um infindável caleidoscópio de imagens que, canalizadas através da música, possibilitam a evasão do mundo cinzento e sombrio da cidade para uma infinita paleta de cores no conto Rio Okervil.

Em Doce Chura a beleza da Poesia tem como tema o Amor, trazido à luz do dia por uma idosa de noventa anos que evoca os três maridos e o amante, homens que marcam as diferentes fases de uma longa vida, que podemos identificar da seguinte forma: a fase do fausto e do glamour, no primeiro casamento; a liberdade intelectual no segundo; a repressão e as concessões em nome da paz doméstica no terceiro tendo como contrapartida a estabilidade e ausência de solidão;. E, por outro lado, o custo da oportunidade perdida de uma promessa de paixão e aventura em terras distantes e o que se deixou de fazer em nome de uma estabilidade que dura menos do que uma vida. Na velhice a companhia da Memória e da Tristeza de não saber qual seria o percurso se a escolha tivesse sido diferente, são os sentimentos que assombram o quotidiano dos últimos dia desta personagem.

Em quase todas as personagens de Tatiana Tolstoi o empobrecimento torna-se visível através da decadência exposta sobretudo no vestuário, ilustrado em frases como «As meias caídas, os sapatos rotos, o vestido negro, lustroso e puído».

O Alpendre Dourado, o mais bem conseguido de todos os contos desta colectânea, fala da abnegação e benevolência do Tio Pacha – cuja descrição física muito se assemelha á do pais da Autora - da aversão do narrador à primeira mulher deste, do imenso amor do Tio pela segunda mulher, Margarita, do melancólico fim, um estiolar suave como o apagar da vida de um pequeno pássaro debaixo da luz dourada do alpendre dourado. Este é o conto emblemático da obra por marcar o abismo que separa duas gerações: uma devotada ao amor à família e ao trabalho; a outra, desfigurada, erodida pela indiferença do Tempo que escorre pelos dedos como areia e da eterna luz dourada no alpendre onde repousam as cinzas do Tio querido.

A Caça ao Mamute fala de uma beldade, Zoya, de um amor mirrado pela diferença de caracteres e expectativas, pela apetência pelo supérfluo, frivolidades e, ao mesmo tempo, que se sobrepõe à desesperança face à falta de oportunidades.

Em O Círculo, o humor e a sátira estão patentes na descrição da forma como um sexagenário, descontente com o casamento, consegue arranjar amantes para fugir ao tédio instalado no lar pela rotina. Tudo começa numa lavandaria…

Já em Uma Folha em branco, a comédia transforma-se em drama e a tonalidade sanguínea do vermelho emerge das trevas a anunciar a tragédia. O descontentamento e a depressão instalam-se no seio de uma família urbana que vê as oportunidades de melhoria de condições de vida a serem constantemente goradas. O sul aparece no imaginário da filha de Leon Tostoi como um Éden a alcançar, um lugar de Boa Esperança, de calor e vida, sobretudo com a paisagem marítima como cenário a sugerir um desejo de fuga, evasão. Há, aqui a expressão de dois arquétipos femininos, duas mulheres alegóricas que encontram correspondente em duas mulheres físicas que personificam os dois modelos clássicos do eterno feminino: a esposa e a amante ou, se quisermos Eva e Lillith. Uma impele para a Vida, o Prazer e a Aventura a outra, por seu lado abre a porta ao tédio e à depressão, uma doença que se instala de forma quase definitiva numa apartamento sombrio e húmido que coloca em risco a vida dos seres mais frágeis que nele habitam: as crianças. A falta de uma solução alternativa para o problema implica a fuga através do sonho. Outra solução será talvez a lobotomia que impeça o Homem - ou a Mulher – de sonhar. Que faça com que o ser humano não pense e seja apenas…uma folha em branco.

Fogo e Pó mostra-nos Svetlana Pirka, a ladra de livros, uma curiosa personagem, idealista e sem defesas, inocente, que tem a particularidade de processar lentamente a informação recebida, dando sempre uma resposta desfasada em relação às mais diversas situações, numa espécie de autismo…
A cínica indiferença dos que a rodeiam é a característica colocada em evidência neste pequeno conto onde o desrespeito pela diferença e a ausência de sentimentos de solidariedade, apenas exaltam a candura e extrema sensibilidade da protagonista.

Encontro com um pássaro é outra estória belíssima onde a Inocência se encontra face a face com a magia da Sedução. Petya é uma criança ingénua que acredita em bruxas, monstros, duendes e fadas. Conhece uma mulher misteriosa, dona de uma estranha beleza, e desenvolve uma paixão infantil pela jovem, com ar de diva do cinema dos anos 20/30 – Tamila –, cujo charme sedutor de feiticeira de tempos imemoriais, envolta em lendas e naquilo que diz serem “amuletos mágicos” estimula, ainda mais, a já fértil imaginação de Petya.
Tamila passa os dias a contar histórias intermináveis sobre pássaros mitológicos e lendas tradicionais, recheadas de personagens de beleza impossível e conquista de imortalidade. Uma Sherazade da primeira metade do século XX . Mas a Vida encarrega-se de desenganar Petya, ao apresentar-se-lhe com as suas cores reais…O Destino, de que Tamila se esqueceu de lhe falar, é omnipotente.

Sonhos felizes meu filho relata as reviravoltas da vida através do percurso de um casaco de astrakan sucessivamente roubado. Trata-se de uma estória onde se evidencia a insanidade de um projecto utópico de nivelação social que entra em franca contradição com os desejos mais comuns de todas as origens sociais, à semelhança do que acontece em Sonya …

O Faquir põe em destaque a facilidade com que as pessoas se deixam iludir por uma aparência de luxo e fausto a cobrir um ídolo que se vem a revelar possuidor de pés de barro. A ausência total de valores mais profundos e intemporais está condensada numa personagem que se mostra desde o início, grotesca no seu exibicionismo. Por outro lado a idolatria das face às coisas materiais nas gerações mais jovens e a necessidade de afirmação pela ostentação de Riqueza, proporcionam uma inversão de prioridades, levando ai fechar dos olhos face a uma vulgaridade mais do que evidente.

A estória de mais uma personagem a figurar no grupo dos excluídos está patente no conto Peters, onde a obsessão de um ser mal-amado, que não interage socialmente, molda um carácter que acaba por se revelar um perigo social…

A prosa de Tatiana Tolstoi, é sempre recheada de detalhes visuais, luz e sombra, dourados e cinzentos, uma paleta de cores visuais e emotivas que nos fazem sentir como se estivéssemos diante de uma galeria de quadros que desfilam diante dos nossos olhos como um filme mudo das primeiras décadas do cinema. Ou, se quisermos, como se estivéssemos diante da janela de um comboio…

Treze pequenas grandes pinturas sociais da Rússia soviética nos anos 1920 e 1970. Treze boas razões para iniciar a leitura da obra de uma das mais geniais descendentes do Grande Leon Tolstoi…

Cláudia de Sousa Dias

17 Comments:

Blogger Toutinegra Futurista said...

O Leste, ah... o Leste por onde and agora...
Um grande abraço, Cláudia. Lá vou seguindo os seus textos à distância. Parabéns!
Um abraço e até breve. Qd tiver paciência e tempo, faça uma visita.

9:45 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

é verdade...mas os contos lêem-se com prazer!

bjo

e
até já!!

CSD

7:16 PM  
Blogger Lucy said...

Olá Claudia!

Tenho andado por aqui... mas só hoje me deu para comentar. Razão: Tolstoi.

Este será um dos livros a ler com muito parzer.

Tenho andado por aqui a seguir este desenrolar de livros... à nossa espera.

Um beijinho,
Lucy
(vai já descobrir quem sou)

1:45 AM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Não fazia ideia, Lucy...!

:-)


E que tal a apresentação do Mia?

Mal posso esperar pra começar a ler...noa próximos dias vou andar ocupada com "A Selva" de Ferreira de Castro...

CSD

1:02 PM  
Blogger Lucy said...

Bom dia, Claudia!

Que bom, agora podemos comunicar mais vezes - nem precisa de me telefonar para os encontros do cine-literário - basta dizer-me aqui/lá.

Com que então, a 1ª da "terra" a comentar!? Que estranho!? Há-de haver um monte de gente das terras camilianas a virem aqui espreitar estes 'pedacinhos de céu' da literatura. Mas "Santos da terra" não fazem milagres - só no Santo António - como aconteceu comigo! :)

Pois é... adorei o Mia (e de que maneira! - aqueles olhos azuis são de morrer!!! Fiz questão de lho dizer). Um homem simples, olhando de frente tudo à sua volta... com aquele encanto da idade da sabedoria, na humildade de quem já sabe não ter ideias...!

Amiga, comecei a ler o livro, ontem, fi-lo até às 3h da matina. Estou a gostar imenso - há qualquer coisa no tipo de linguagem e abordagem às personagens que me faz lembrar Jorge Amado. Com tais remédios do Diabo para os venenos de Deus, é de ler e chorar por mais - deu para perceber pelo excelente apresentador do livro. No final, se encontrar o email do nosso amigo, Mia Couto, ainda lhe escrevo umas linhas.

Não se esqueça, Claudia, que para estas coisas "boas" estou sempre pronta. Não fosse eu uma admiradora do nosso Camilo!

Um bom fim de semana para si, Menina de Tantíssimas Letras!... (como diria o Mia...)

Um beijinho,
Lucy

1:47 PM  
Blogger lupussignatus said...

Pelo que me foi dado ler, alpendre com uma magnífica paisagem sociológica...

Lá diz o ditado popular: "filho de peixe sabe nadar"...

Bom fim de semana.

4:22 PM  
Anonymous Anonymous said...

Muito gratificante ter encontrado este blog sobre livros. Há uns dias retirei do quarto dos livros, o livro de Tatiana. Comprei-o em 1993 e li-o nessa época, e ficou-me sempre na mente a história sobre Tamila e os pássaros.
Porventura já deve ter lido " O coleccionador de sons" de Fernando T. Bes. Se gostou de ler "O Perfume", este será um livro que concerteza será "devorado" de forma única!! Um livro que consegue nos prender, tal a sua intensidade. A história "gira" em torno de ludwig schmitt von Carlsburg que desde que nasceu tinha a capacidade unica de dissecar os sons, indo até à sua quinta-essencia e albergá-lo todos dentro de si. Uma narrativa exuberante, intensa, única... Um grito no meio do livro!! Espero, sim espero, um dia ver aqui a sua "critica literária" sobre este livro. Porque a minha paixão sobre ele, "extravasou" quase todos os livros lidos até hoje!! Mas isso sou apenas eu!!
Um abraço.

Maria

11:45 PM  
Blogger Pedro said...

Ainda não li Tolstoi, estou com vontade, e este livro parece muito bom. Os contos parecem ser interessantes, principalmente pelo simbolismo de cada elemento: a Poesia, o Amor, o Tempo, o humano, comédia e drama!

3:55 PM  
Blogger Hermínia Nadais said...

Blog muito elucidativo para quem gosta de aproveitar as grandes aprendizagens que se podem extrair dos livros. Um cantinho a visitar.

6:03 PM  
Blogger Teresa said...

Não conheço esse livro. Obrigada pela sugestão. Estou a ler o do Mia. Entretanto,o GRANDE PRÉMIO DE CONTO "CAMILO CASTELO BRANC0 ao angolano Ondjaki. Artigo sobre o livro premiado no meu Blogue.
Um abraço, Cláudia

Teresa Sá Couto

12:22 AM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Se sabe, Lupus, se sabe!

Tão bem como o pai!

CSD

7:20 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Logo que possa vou lê-lo sim, Maria...

Que bom encontrar alguém que tenha lido a Tatiana para saber do feed-back!

Obrigada e um beijinho

CSD

7:22 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

E está em promoção, a preço de saldo,Pedro!

Pena que a feira do livro já tenha acabado...


CSD

7:23 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Obrigada Hermínia!

Bem vinda a este cantinho!

CSD

7:24 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Passo lá daqui a bocadinho para ler!

Agora tenho de sair a correr para gravar uma rúbrica na radio daqui da minha terreola sobre ...rituais

:-)

Bjo


CSD

7:25 PM  
Blogger Dalaila said...

Tolstoi, todos todos para ler

4:49 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Concordo!

Tanto do pai como da filha.

Já vopu ter contigo ao teu farol!

Até já


CSD

10:39 PM  

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