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Saturday, February 07, 2009

“De Zero a vinte” de Armando Soares Coelho


A escrita de Armando Soares Coelho, neste seu romance autobiográfico, escrito durante a sua juventude, revela já o talento extraordinário para evocações precisas característico da sua escrita, neste caso referindo-se aos episódios da infância (apesar de algumas dificuldades com a cronologia durante os primeiros cinco anos de vida) e da adolescência e das emoções turbulentas, típicas destas idades.
De Zero a Vinte é Considerada a obra-prima deste Autor nascido no concelho de Marco de Canaveses, amante das artes, das ciências humanas e acima de tudo da Poesia, homenageado há alguns meses atrás, a título póstumo, por parte dos escritores locais na Biblioteca de Vila Nova de Famalicão, onde residiu durante grande parte da sua vida. E é nada mais nada menos do que este romance autobiográfico, escrito durante a sua juventude, retratando o período da infância e da adolescência – dos zero aos vinte anos – a viva expressão da “voz” de Armando Soares Coelho. Trata-se de um romance que se detém, sobretudo, na evocação de uma infância que se caracteriza por uma série de perdas afectivas, que se sucedem umas às outras e que desencadeiam o empobrecimento do rendimento familiar e, também, a dispersão e desunião dos membros da família mais chegada como o pai e os irmãos.

O jovem Armando S. Coelho passaria os primeiros anos de vida, após a morte da mãe, em Marco de Canaveses, ressentindo-se fortemente do seu falecimento ao dar à luz o irmão mais novo. Os irmãos, dispersos pela família, são distribuídos entre tios e avós.

Mas para o protagonista da estória, a presença dos primos revela-se fundamental para o seu desenvolvimento como pessoa: sobretudo Alcino e António, de personalidades antagónicas: o primeiro, certinho e convencional, o segundo idealista e revolucionário, mistura de Baudelaire e García Lorca, combatente na guerra civil espanhola, tuberculoso e consumidor de ópio que, acabará por ser a influência mais marcante na vida de ASC, o qual virá a dedicar-lhe este mesmo livro. António é o maior contributo para a modelação da personalidade do Autor ao decalcar-lhe na mente influências ideológicas fundamentais, tais como: o amor às letras, às artes e às ciências e, sobretudo, à liberdade de expressão. Também a prima, Edite, dez anos mais velha, de beleza romântica, uma fada de beleza moira que serve de musa ao Autor, durante toda uma vida.

António e Edite são os grandes pilares afectivos que, durante muito tempo, compensaram a perda de entes queridos como a Mãe e a Tia Julinha ou, ainda, a morte prematura da irmã “Branquinha”, do irmão, Sílvio, e do avô, “cujas ordens eram ditas em tom calmo mas que se saia de antemão que era para obedecer”.

Anos mais tarde, o primeiro emprego no consulado alemão, no Porto, vai colocá-lo em contacto com a ideologia fascista. A partir daí, temos a oportunidade de assistir ao processo de mudança ideológica, que acompanha a perda da ingenuidade infantil, de alguém que, inicialmente, se deixa fascinar pelo garbo das fardas e pela ideia de ordem e disciplina mas que vai, gradualmente, consolidando as próprias convicções, facto a que não é alheia a influência do primo revolucionário assim comoa observação da vida duríssima de pessoas do povo como o colega Zé da Carvoaria que lhe inspira um dos mais emotivos poemas da obra O Passante.

Pouco depois, o emprego na Carris como operário, que abraça com o objectivo de ajudar a cobrir as despesas dos estudos de electrotecnia – um trabalho que o pai considerava como sendo “de futuro” – leva-o ao esgotamento físico e a optar por dedicar-se exclusivamente aos estudos. Um facto que ocasiona ainda mais dificuldades económicas num orçamento, já de si, magro.

De zero a vinte é também um livro de grande riqueza histórica e documental, sobretudo, para quem se interessar pela análise dos aspectos sociológicos e da psicologia social do Portugal rural da primeira metade do século XX, nomeadamente: a forma como é vivida e encarada a infância (a criança é vista como um adulto em miniatura e, na maior parte dos casos espera-se que ela reaja como um adulto), os métodos de ensino e respectivos conteúdos, o nível de desenvolvimento económico, o conceito de higiene.

O Autor e a caracterização social do Portugal do Estado Novo

Esta é outra das vertentes do desenvolvimento da narrativa em De Zero a vinte, obra que dá a conhecer um Portugal onde a maioria da população vivia abaixo daquilo que hoje se considera como o limiar da pobreza, onde grande parte da população passa fome - sobretudo durante a segunda grande guerra. É neste momento da narrativa que nos apercebemos das vantagens em ser-se filho de uma autoridade – o suprimento de senhas estaria, então, garantido.

Por outro lado, a tacanhez de espírito, a mesquinhez das gentes que habitavam então o Portugal dominado pela beatice, pela superstição e pelo medo de algum, inesperado, castigo divino ou da danação do inferno como se nota a partir do discurso da Avó e nas atitudes de Sara ao esconder de todos aquilo que considera como sendo “o maior de todos os pecados”- a quebra do tabu absoluto em ter relações sexuais antes do casamento – a negligência por parte dos adultos no cuidado com as crianças de onde resultava, muitas vezes, morte por acidente doméstico.

Também a necessidade e o desejo compulsivo de estudar para progredir, determinada por uma insaciável sede de conhecimento que é, no entanto, desviada das artes e das letras para abraçar uma área técnica por pressão do pai, preocupado com a garantia do futuro profissional do filho.

Sara é o primeiro amor, com raízes na infância e nos bancos da escola, que vai marcar a entrada do jovem Armando na vida adulta.

A fatalidade surgirá, mais uma vez, como um terramoto, fruto do extremo condicionamento económico, por um lado, e do confronto dos desejos com as normas sociais, ou seja, da incompatibilidade entre a Moral vigente e o Desejo.

Estilo e Linguagem

A utilização de linguagem típica das gentes do Minho (“ougar”, “rilhar”) e todo o imaginário popular que inclui um manancial de lendas, contadas à volta da fogueira, para impressionar os mais pequenos (ciganos papões, bruxas...) onde o Autor chega mesmo a mostrar que, por vezes, a implacabilidade do braço da deusa Némesis se manifesta, por vezes, mais facilmente pela mão das crianças do que pelos tribunais. Nesta obra, é abordado e vividamente descrito o problema da pobreza, da mortalidade e trabalho infantil nas camadas sociais mais modestas a remeter-nos para um conto de Charles Dickens ou para o polémico Capitães de Areia de Jorge Amado escrito, também, durante os verdes anos do universalmente conhecido autor brasileiro.

Uma prosa recheada de ironia e ternura, com destaque especial para o nível de ignorância que grassava no Portugal da época, sobretudo ao mencionar que muitos conhecidos seus “apoiavam o Duce por ser vizinho do Papa” ou quando joga com a frase atribuída a Salazar, à porta das escolas: “Se soubesse o que custa mandar gostarias mais de obedecer”, substituindo-a por “Se soubesses o que custa obedecer gostarias menos de mandar”.

ASC não deixa, também, de lançar um ou outro virote a organizações como a Mocidade Portuguesa ou os Escuteiros cujo objectivo, na época, seria o de moldar as consciências juvenis, imprimindo-lhes o cunho do regime político da época. Tal como aos temas os temas “quentes”, para a época, como a Concordata e os privilégios concedidos pelo estado à Igreja Católica, a Censura, a propaganda do regime.

Mas o que mais salta à vista neste romance/autobiografia é a magnitude das cicatrizes deixadas pelas perdas afectivas, desde a já mencionadas como a Mãe, a Tia Julinha, os irmão, Sílvio e Branquinha a que se juntam outras fontes de afecto dos verdes anos como os animais de estimação, o primo e melhor amigo, desaparecido após uma prolongada agonia, suavizada pelo ópio, mas sobretudo, o primeiro amor, vitima dos preconceitos e apertadas convenções sociais da época.


Cláudia de Sousa Dias

8 Comments:

Anonymous Isa said...

Olá Cláudia,

Descobri recentemente o seu blog e é com muita avidez que o consulto desde então.
Fiquei entusiasmada com o que disse a respeito do livro "De Zero a Vinte", de Armando Soares Coelho. Como tal, e dado que, devido a questões profissionais, lido com inúmeros textos autobiográficos, gostaria de ler o referido livro. Será que me poderá dizer onde o encontrar?
Muito obrigada.

Isabel Santos
V.N. de Famalicão

9:00 PM  
Blogger Cleopatra said...

Há lá um prémio à sua espera,..porque o seu Blog é mágico.
Obrigada por o ter criado.

9:42 PM  
Blogger Cleopatra said...

Está lá... nos blogs mágicos.

2:03 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

pode tentar procurá-lo na Casa da Cultura em VN Famalicão.

Sugiro perguntar à pessoa responsável se existe algum exemplar no Depósito onde se guardas as edições da CMVNF.


CSD

9:25 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

obrigada,Cleópatra!

é um prazer receber semelhante tributo vindo de uma rainha!!!


:-)


cSD

9:26 PM  
Blogger Cleopatra said...

:-)) também estou aqui:- http://cleopatramoon.blogs.sapo.pt/470395.html

E foi nesse Link que considerei o seu Blog absolutamente MÁGICO!

9:37 PM  
Anonymous Anonymous said...

Olá, Cláudia:
Não imagina a surpresa que tive, ao pesquisar na net o nome do meu inesquecível amigo Armado Soares Coelho! Logo deparei com o seu blog onde com tanta clarividência fala da sua obra, nomeadamente, "DE ZERO a VINTE".
Obviamente, que eu já lhe conhecia a sua destreza crítica em relação a outra obras literárias, mas o facto de aqui mencionar este meu grande amigo, enterneceu-me, até porque acabo de lhe fazer uma singela homenagem no meu blog, depois de ter encontrado esquecido, num velhinho caderno de capa preta, um poema que me dedicou, em tempos de convívios fraternos, numa pastelaria de Vila Nova de Famalicão.
Lamentavelmente e sem explicação plausível, desconhecia que esta cidade, pela mão de alguns companheiros de tertúlias literárias, já o haviam homenageado postumamente.
Com amizade,
Bernardete Costa

5:23 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Olá Bernardette

:-)

a ideia partiu exclusivamente da Casa da Cultura que tomou a iniciativa de convidar as pessoas que contactavam com Armando Soares Coelho.

não sei, qual foi o critério,provavelmente um lapso da parte deles.

também não imagino se algum dos convidados teria o seu contacto ou morada actualizados...


csd

12:18 PM  

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