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Wednesday, March 11, 2009

“Melodia ao Anoitecer” de Siddhart Dhanvant Shangvi (Civilização)


Siddhart Shangvi é jornalista, vive entre Bombain e a Califórnia, tendo escrito na Elle, no San Francisco Chronicle e no Sunday Times of Índia. Melodia ao Anoitecer é o seu primeiro romance com o qual ganha o Prémio Betty Trask, atribuído em Londres pela Sociedade de Jovens Autores da Commonwealth.

Tratando-se de um romance que marca a estreia de um autor muito jovem - Siddhart Shangvi contava, na altura, com apenas 27 anos – é natural que lhe encontremos algumas falhas, que se encontram patentes, sobretudo, nos primeiros capítulos. Lacunas que se vão esbatendo com o avançar da trama, à medida que o autor vai adquirindo segurança no que respeita à libertação das emoções e dos desejos das personagens que se tornam cada vez mais complexas à medida que o romance se aproxima da sua conclusão.

È notório que, no início, o narrador não consegue evitar tecer juízos de valor em relação às restantes personagens – uma vez que se trata, quase sempre de um narrador participante – e às suas características, quer físicas quer psicológicas, sobretudo no que toca ao par romântico, protagonista da história: duas figuras que correspondem ao estereótipo de ideal de beleza quer feminina quer masculina na Índia. As origens sócio económicas e o estilo de vida das mesmas personagens obedecem, também, aos mesmos clichés transmitidos pelos ícones cinematográficos de Bollywood, aproximando-os muito mais das histórias das lendas de princesas e rajás do que de um casal da classe média alta.
Um dos aspectos positivos da obra que a crítica colocou, algo exageradamente, muito da próxima da prosa de García Márquez (vide Pier Mario Fasanoli in Panorama) é a inspiração vinda da mitologia indiana e dos contos de fadas de que é exemplo a cena em que os pavões se reúnem orquestrando um coro de despedida aquando da partida de Anuradha para a cidade. Ou a personificação da casa da praia a qual reage à presença humana como se de uma pessoa se tratasse, ou melhor de um eremita anti-social cujo maior prazer é fazer da vida dos outros um verdadeiro inferno. Trata-se de uma imponente habitação colonial cuja beleza se assemelha de forma sinistra à das plantas carnívoras, isto é, parece devorar as perspectivas de felicidade dos que nela habitam, como que imbuída numa personalidade malévola, exalando uma atmosfera impregnada de veneno.
A beleza de Anuradha perece ser, inicialmente apaziguadora das contrariedades, sobretudo ao entoar as melodias à hora do crepúsculo, que parecem dissolver as dores na alma dos que com ela convivem. Não são, no entanto, suficientes para contrariar o curso da vida – ideia de Kharma, fortemente implantada no hinduísmo.

Anuradha tem um papel unificador e apaziguador das dificuldades, no entanto, as restantes personagens parecem, apesar dos seus esforços, afundar-se num poço de melancolia, pelo menos enquanto permanecem na casa, que parece arruinar a vida daqueles que são dotados para o amor, ou melhor para despertar o amor e o desejo nos outros: Vardmahan, o marido de Anuradha refugia-se, cada vez mais, no seu próprio mundo; Nandini, a prima órfã, vê os seus planos sabotados, num momento crucial, naquela mesma casa; a própria Anuradha sofre um acidente que a deixa quase inválida. E a atmosfera maligna exalada pela alma que habita a mansão, outrora palco de uma tragédia como resultado de uma paixão socialmente mal-vista, acaba por destruir a paz de espírito da protagonista que se vê na obrigação de enviar o filho para longe daquele lugar aziago e incentivá-lo a voos mais amplos.

De facto, a casa sobretudo quando está deserta, ri sozinha, de si para si, suspira, respira, pensa, ama, odeia, completamente entregue à felicidade da sua solidão, por não suportar a felicidade alheia que a distraia de si própria.

Uma das personagens humanas mais fascinantes é a pintora e visionária Nandini, admiradora de Yeats, uma jovem de corpo e personalidade felinos, de quem se diz, inclusive, descender da cópula de uma das suas avós com um leopardo. Nandini é uma jovem que carrega feridas profundas na alma, fruto de uma infância dolorosa. Sofre de epilepsia, que tende a manifestar-se nos momentos menos oportunos, uma doença causadora de situações de privação de sentidos o que causa o desconcerto daqueles com quem convive e que têm dificuldade em compreender a origem da doença. No entanto, a pintura de Nandini manifesta uma extraordinária acuidade relativamente ao captar das características da personalidade daqueles que retrata e que os demais não chegam a aperceber-se. Uma sensibilidade que lhe permite, inclusive, antecipar-se ao próprio ser retratado na compreensão das próprias atitudes e na previsão do próprio comportamento. Graças ao talento, Nandini acaba por conseguir infiltrar-se no meio artístico, conforme os seus desejos. Mas para tal tem de sacrificar um grande amor.
Mais um aspecto em comum com as lendas indianas.

Outra das características que se salientam na obra é o destaque dado ao erotismo em todas as suas vertentes, sendo a personagem que melhor encarna o amor sensual a felina Nandini. O que está especialmente patente no episódio relativo à estadia desta nas montanhas Matheran, por onde passeia a sombra do leopardo pantera negra. Nandini possui um aspecto andrógino, algo híbrido. Tudo em si é ambivalente, inclusive a expressão dos seus desejos sexuais, o que lhe facilita a integração no ambiente onde reina a loucura na casa e onde vive um consagrado pintor afegão e a excêntrica mecenas de origem britânica…
Já Anuradha representa o amor sublime das heroínas imortais das lendas mitológicas. O amor proibido e maldito é representado pelos dois jovens que habitaram a casa da praia, antes de irem para lá viver os dois protagonistas.

O principal elemento de beleza estética no texto reside nas descrições da floresta e do crepúsculo, em tons de diospiro, numa prosa que se vai tornando, progressivamente, mais doce e depurada à medida que o final se aproxima.

Aguardamos o segundo romance.


Cláudia de Sousa Dias

8 Comments:

Blogger Baudolino said...

Valerá a pena lê-lo só pela descrição do crepúsculo! Se passar pelo meu blog verá isso.
P.

1:52 AM  
Blogger Pedro said...

O que mais me parece fascinar neste romance é a belíssima descrição.

"De facto, a casa sobretudo quando está deserta, ri sozinha, de si para si, suspira, respira, pensa, ama, odeia, completamente entregue à felicidade da sua solidão, por não suportar a felicidade alheia que a distraia de si própria."

"O principal elemento de beleza estética no texto reside nas descrições da floresta e do crepúsculo, em tons de diospiro, numa prosa que se vai tornando, progressivamente, mais doce e depurada à medida que o final se aproxima."

Acho que não vou querer perder!!!

2:24 AM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

que delícia que tenhas gostado...baudolino


CSD

12:03 AM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

esses dois aspectos são do que há de melhor no livro
e a personagem Nandini também

não fosse aqueles primeiros capítulos...


CSD

12:04 AM  
Blogger isabel victor said...

Fiquei com imensa curiosidade.


Este persistente "Há sempre um livro", é notável. Um sítio de eleição.



obrigada

um beijo



iv*

10:30 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Obrigada, Isabel...mas só amanhã à noite é que vou actualizá-lo novamente. já há mais de uma semena que não posto nada aqui.

e já sem falar no rendez-vous...


beijo grande


csd

12:32 AM  
Blogger Marta said...

27 anos! de facto...tanto para aprender...mas, também, mesmo aos 100, ainda teríamos tanto para aprender!

gostei de, mais uma vez, ler pelos teus olhos :)

enquanto esperas pelo segundo romance, dele,
eu, espero pelo segundo texto, teu...

bjo

1:22 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Ah...acabei agora de publicar um...

espero que gostes...foi aquele que prometi à Patricia no sábado.


beijo


csd

12:04 AM  

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