“o remorso de baltazar serapião” de Valter Hugo Mãe (Quidnovi)
Com este romance que arrebatou o Prémio Saramago, Valter Hugo Mãe traça um retrato da época medieval, aproveitando para ir ao fundo da questão da violência doméstica ao usar uma sincretismo estilístico, adaptando o uso da ironia a uma parábola à violência doméstica.
As raízes de uma mentalidade falocrática que se estendem até às profundezas do subsolo dos arquétipos culturais que parecem manter-se vivos até aos dias de hoje, em que morrem cerca de dez mulheres por ano, vítimas de violência doméstica, é o tema base que se pretende explorar no romance.
O autor pretende com esta obra demonstrar que à necessidade de domínio à qual está subjacente a violência, prende-se muitas vezes com o desejo de posse aliado a um ciúme patológico que atinge, não raro, proporções que acabam por cair no domínio da paranóia, de onde advém a necessidade de submeter com o pretexto de “educar” as mulheres pelo medo.
o mundo que as mulheres imaginavam era torpe e falacioso, viam coisas e convenciam-se de estupidez por opção (…) cheias de vícios de sonhos como delírios de gente acordada como se (…) tivessem sido envenenadas por cobra má (…). Aos homens se pudesse ser dado maior ócio, alguma coisa boa ainda podia vir, como artes várias, destreza de pintura, por exemplo, mas às raparigas nada lhes dava o ócio, , mesmo para bordarem tão parecidas com estarem a fazer nada,, havia que lhes dar severas lições (…), de outro modo trocariam os pontos e os seus trabalhos seriam estropiados, sem beleza, ofensivos para a dignidade da mesa.
O mote para o desenvolvimento da narrativa prende-se com a citação de Jorge Melícias:
Há a boca pisada de pedras e o remorso
é uma parede mordida pelo eco.
No que toca ao estilo, o texto, totalmente desprovido de maiúsculas, foi intencionalmente dotado com esta particularidade de forma a acelerar a leitura da narrativa que está imersa em toda uma retórica de inspiração medieval cujo arcaísmo exprime o pensamento das gentes simples que atribuem uma explicação sobrenatural a tudo aquilo que não conseguem explicar, inclusive algumas marcas do raciocínio intuitivo tradicionalmente atribuídas às mulheres.
A personagem feminina principal é Ermesinda, silenciada pela via do terror, que se concretiza quer em ameaças verbais quer em torturas físicas.
No contexto social Idade Média, em que se desenvolve a acção, apesar da transversalidade que a transporta para a época contemporânea, a fêmea humana é equiparada a uma vaca ou sarga, animal que é o responsável pela alcunha da família, “os sargas”, os quais tratam a vaca como se esta fosse membro da família, inclusivamente melhor do que os membros femininos do mesmo agregado, uma vez que esta dá carne e leite.
A mãe de Baltazar é, inclusive, tratada como um ser biologicamente inferior que só serve para procriar.
a minha mãe não discernia senão sobre a lida da casa. estropiada do pé, pouco capaz de ver, ficara inutilizada para as coisas dos senhores (…), uma mulher é ser de pouca fala , como se quer parideira e calada (…) ajeitada nos atributos, procriadora, cuidadosa com as crianças e calada para não estragar os filhos com os seus erros. também para não espalhar pela vizinhança a alma secreta da família, que há coisas do decoro da casa que se devem confinar aos nossos.
E, como se depreende pela leitura do parágrafo, o silêncio é o maior inimigo das mulheres.
Brunilde, a irmã de Baltazar, vai trabalhar para os senhores, de quem a família é vassala, onde é abusada sexualmente. Resolve tirar proveito da situação mas, também, não estaria em condições de se negar aos favores do seu suserano.
Brunilde exibe, no entanto, uma submissão aparente para garantir a sobrevivência, utilizando como ferramenta o próprio poder sexual. Para Baltazar inclusive este saber começava a tornar-se suspeito: a brunilde achava que dom afonso era pouco competente e eu começava a desconfiar que alguém mais se punha nela, tão sabedora começava a soar.
Baltazar escolhe para esposa uma jovem totalmente diferente de Brunilde. Ermesinda é dona de uma beleza radiosa, é protegida pelos pais e, no limiar da adolescência, casa com Baltazar mal lhe vem a primeira menstruação.
a minha mulher haveria de ser ermesinda. eu sabia quem ela era (…). era filha de um pobre homem que o meu pai conhecia a vida toda. mais nova que eu dois anos, queriam casá-la para que se tivesse em honras antes que algum malandro lhe deitasse a mão.
Já Aldegundes , o irmão mais novo, é um jovem cuja sensibilidade o prende à doçura do olhar de uma vaca, mais propriamente da sarga, responsável pela alcunha da família, sofrendo de forma atroz quando tem de se mudar – e à vaca – para alojar o casal.
Outro arquétipo feminino explorado é o da mulher que vive autónoma, mas que para tal utiliza a sexualidade à custa da qual sobrevive, mantendo um certo ascendente sobre a população masculina, graças à sua actividade: a prostituta Teresa Diaba.
a teresa diaba era quem vinha muito por mim isto é, era quem valia a Baltazar para lhe satisfazer os apetites antes de casar com Ermesinda.
parecia uma cadela no cio, farejando, aninhada pelos cantos das árvores e dos muros, à espera de ser surpreendida por macho que a tivesse. Era toda carne viva (…). abria-se como lençóis estendidos e recebia um homem com valentia sem queixa nem esmorecimento. era como gostava, total de fúria e vontade, sem parar, a ganir de prazer. (…) estropiada da cabeça, torta de braços, feia, ela só servia de mamas, pernas e buracos…
A Teresa Diaba representa a atracção pelo grotesco, algo que não é preciso cuidar ou preservar. É com base nesta premissa que Baltazar estropia mais tarde Ermesinda. Para não ter de estar em cuidados quando está para fora, na esperança que ela não chame a atenção de eventuais predadores de beleza. No entanto, o ciúme patológico a raiar a esquizofrenia acaba por encontrar pretextos para justificar o prolongamento dos maus tratos, mesmo após a beleza de Ermesinda estar completamente destruída.
Baltazar tem o comportamento modelado pela forma como o pai trata a mãe ignorando, inclusive, o grave estado de saúde em que esta se encontra, com requintes de sadismo levados até às últimas consequências:
o curandeiro, eu notei, sabia que ao meu pai aproveitava muito a tortice da minha mãe. com o pé a modos de pouco andar, ela havia de estar sempre por ali e mais que a faria do meu pai, pudesse acontecer um dia, à minha mãe não lhe valeria corrida alguma.
Enquanto isso a maior preocupação da família continua a ser a vaca…
o aldegundes pedia ao curandeiro pela sarga constantemente. que fosse a vê-la (…) se nos dissesse como engordá-la, ainda que as nossas rações fossem nenhumas de tanta pobreza …
De onde a vaca toma o lugar da mãe como se pode constatar na página 36.
o curandeiro farto de garantir que a minha mãe estava seca como uma pedra, impossível vir dali uma criança, bicho ou coisa. não pode vir nada, gritava (…) como arranjou estes filhos, conte-nos o senhor sarga, porque da sua mulher nem adianta pensar nisso (…)éramos filhos da sarga (…) éramos como filhos da sarga.
Baltazar desenvolve a partir do modelo de conduta do pai um bestial complexo de Othello, o ciúme paranóico, destituído de qualquer vestígio de fundamento, que é ampliado pelo sucedido com Brunilde, que o leva a intimidar e a aterrorizar a esposa com o objectivo de a dissuadir a ser-lhe infiel – um dia. Pior ainda quando dom Afonso mostra interesse na presença de Ermesinda como serviçal na casa grande.
Aldegundes, apesar de alguma animalidade e de um profundo amor espiritual e físico pela vaca - ironia de que se serve mais uma vez o Autor para caricaturar a pseudo-virilidade lusitana, apesar de amante de uma vaca, é um homem que tem a sensibilidade que lhe permite captar aquilo que a alma das pessoas tem de belo, através do talento como pintor, ao transfigurar as figuras humanas, envolvendo-as, simultaneamente, numa aura divina.
O “lado mau” da personalidade feminina está incarnado na esposa do senhor das terras a quem Baltazar presta vassalagem, dona Catarina. A maldade desta prende-se, não tanto com a questão de género, mas de classe. Dona Catarina tem um ciúme tão patológico quanto Baltazar mas não podendo dirigir o seu ódio ao marido, que a humilha possuindo as servas, volta-o contra as criadas.
Possui uma mente corrompida que a leva a cometer lenocínio aquando da visita do rei, ameaçando as criadas com castigos corporais caso algumas delas se recuse a aceder a algum pedido mais extravagante. A inveja, a cupidez e o ódio são as emoções que predominam numa mulher de carácter particularmente azedo, consciente da impunidade:
“…ouvi-o dizer da beleza de todas vós. servi-lo-eis se vos pedir, que ao rei não se recusa putice…” .
A temática das superstições medievais é, também abordada na obra, como o receio do “mau olhado”, o recurso ao ocultismo e à feitiçaria, apesar de recearem, de alguma forma, as artes mágicas.
Uma figura feminina que tem tanto de interessante como de misteriosa é a da mulher queimada, que percebe das propriedades das plantas, para efectuar mezinhas e curar doenças inflamações e dores musculares, embora não recuse também algum trabalho para afastar “males do espírito”.
“Sabe coisas de bruxa, a mulher queimada…”.
Esta mulher queimada que se depreende ter escapado aos maus tratos com a viuvez tem como função na estória criar o contraste, marcando a diferença com a charlatã, em quem os irmãos “sargas” decidem confiar. Esta última, consegue extorquir-lhes quase todo o dinheiro que possuem em troca dos segredos que envolvem um estranho ritual para afastar o mesmo tão receado mau olhado e que, ao invés, os afasta das pessoas que se convencem da sua insanidade mental ou de uma eventual possessão demoníaca, receando o contágio...
Valter Hugo Mãe serve-se da personagem da mulher queimada, na realidade uma viúva, vítima de maus tratos enquanto casada – para dar, também, realce ao estigma social a que eram votadas as mulheres solitárias que detinham alguns conhecimentos de botânica e das propriedades medicinais das plantas, como se vê pela voz do narrador na página 108.
é que às mulheres deus dá conhecimento de algo que não dá aos homens.
Já para Baltazar …a mulher queimada ligava-se ao inferno, tinha domínios desnaturais a permitirem-lhe capacidades de mais proveito que a força de mil homens.
Ao regressar da corte, juntamente com o irmão, Baltazar encontra um jovem deficiente físico o qual acaba por juntar-se a Baltazar e a Aldegundes.
A forma como Baltazar vê o corpo feminino não deixa de ser curiosa, como se admirasse a beleza de um animal que lhe é inferior:
As mulheres só são belas porque têm parecenças com os homens, como os homens são a imagem de deus. (…) se se parecessem mais com cabras do que com homens nem natureza para nós teriam precisão de nos parecer sem alcançar igualdade que para isso estamos cá nós.
Na corte, Baltazar e Aldegundes notam com estupefacção a ausência de loucos “de espírito”, isto é de doentes mentais, observando pelo contrário a presença de vários deficientes físicos.
…tanta gente estropiada na terra de el-rei.
São ambos expulsos da corte por suspeita de acordo com o inimigo divino. Regressam à própria terra numa carroça onde “ajeitam os três cus”. Durante o trajecto de regresso Baltazar especula acerca de como o amor se pode tornar uma armadilha:
expliquei ao dagoberto que o amor era uma maldade dos homens, assim como um plano esperto para fazer com que as mulheres se abeirassem deles e se mantivessem ali sem outro propósito senão ficar. O amor é uma maldade dos homens porque junta as mulheres aos homens numa direcção que só a eles compete (…) a maldade dos homens é igual à voz das mulheres.
A extinção de Ermesinda que sucumbe aos maus tratos e abusos sexuais sucessivos é a alegoria ao inferno de muitas mulheres que vem todos os anos engrossar o rio negro das vítimas da loucura dos homens.
completas seriam (as mulheres) se deus as trouxesse ao mundo mudas (pag 187. ).
Após o que a violência extrema leva a consequências extremas:
afastaram-se da minha ermesinda que, imóvel, respirou menos, respirou menos, respirou menos, não respirou.
…a sarga mugiu de modo lancinante.
Depois a hybris, a seguir a impotência.
E, com o cair do pano, o remorso.
Cláudia de Sousa Dias
As raízes de uma mentalidade falocrática que se estendem até às profundezas do subsolo dos arquétipos culturais que parecem manter-se vivos até aos dias de hoje, em que morrem cerca de dez mulheres por ano, vítimas de violência doméstica, é o tema base que se pretende explorar no romance.
O autor pretende com esta obra demonstrar que à necessidade de domínio à qual está subjacente a violência, prende-se muitas vezes com o desejo de posse aliado a um ciúme patológico que atinge, não raro, proporções que acabam por cair no domínio da paranóia, de onde advém a necessidade de submeter com o pretexto de “educar” as mulheres pelo medo.
o mundo que as mulheres imaginavam era torpe e falacioso, viam coisas e convenciam-se de estupidez por opção (…) cheias de vícios de sonhos como delírios de gente acordada como se (…) tivessem sido envenenadas por cobra má (…). Aos homens se pudesse ser dado maior ócio, alguma coisa boa ainda podia vir, como artes várias, destreza de pintura, por exemplo, mas às raparigas nada lhes dava o ócio, , mesmo para bordarem tão parecidas com estarem a fazer nada,, havia que lhes dar severas lições (…), de outro modo trocariam os pontos e os seus trabalhos seriam estropiados, sem beleza, ofensivos para a dignidade da mesa.
O mote para o desenvolvimento da narrativa prende-se com a citação de Jorge Melícias:
Há a boca pisada de pedras e o remorso
é uma parede mordida pelo eco.
No que toca ao estilo, o texto, totalmente desprovido de maiúsculas, foi intencionalmente dotado com esta particularidade de forma a acelerar a leitura da narrativa que está imersa em toda uma retórica de inspiração medieval cujo arcaísmo exprime o pensamento das gentes simples que atribuem uma explicação sobrenatural a tudo aquilo que não conseguem explicar, inclusive algumas marcas do raciocínio intuitivo tradicionalmente atribuídas às mulheres.
A personagem feminina principal é Ermesinda, silenciada pela via do terror, que se concretiza quer em ameaças verbais quer em torturas físicas.
No contexto social Idade Média, em que se desenvolve a acção, apesar da transversalidade que a transporta para a época contemporânea, a fêmea humana é equiparada a uma vaca ou sarga, animal que é o responsável pela alcunha da família, “os sargas”, os quais tratam a vaca como se esta fosse membro da família, inclusivamente melhor do que os membros femininos do mesmo agregado, uma vez que esta dá carne e leite.
A mãe de Baltazar é, inclusive, tratada como um ser biologicamente inferior que só serve para procriar.
a minha mãe não discernia senão sobre a lida da casa. estropiada do pé, pouco capaz de ver, ficara inutilizada para as coisas dos senhores (…), uma mulher é ser de pouca fala , como se quer parideira e calada (…) ajeitada nos atributos, procriadora, cuidadosa com as crianças e calada para não estragar os filhos com os seus erros. também para não espalhar pela vizinhança a alma secreta da família, que há coisas do decoro da casa que se devem confinar aos nossos.
E, como se depreende pela leitura do parágrafo, o silêncio é o maior inimigo das mulheres.
Brunilde, a irmã de Baltazar, vai trabalhar para os senhores, de quem a família é vassala, onde é abusada sexualmente. Resolve tirar proveito da situação mas, também, não estaria em condições de se negar aos favores do seu suserano.
Brunilde exibe, no entanto, uma submissão aparente para garantir a sobrevivência, utilizando como ferramenta o próprio poder sexual. Para Baltazar inclusive este saber começava a tornar-se suspeito: a brunilde achava que dom afonso era pouco competente e eu começava a desconfiar que alguém mais se punha nela, tão sabedora começava a soar.
Baltazar escolhe para esposa uma jovem totalmente diferente de Brunilde. Ermesinda é dona de uma beleza radiosa, é protegida pelos pais e, no limiar da adolescência, casa com Baltazar mal lhe vem a primeira menstruação.
a minha mulher haveria de ser ermesinda. eu sabia quem ela era (…). era filha de um pobre homem que o meu pai conhecia a vida toda. mais nova que eu dois anos, queriam casá-la para que se tivesse em honras antes que algum malandro lhe deitasse a mão.
Já Aldegundes , o irmão mais novo, é um jovem cuja sensibilidade o prende à doçura do olhar de uma vaca, mais propriamente da sarga, responsável pela alcunha da família, sofrendo de forma atroz quando tem de se mudar – e à vaca – para alojar o casal.
Outro arquétipo feminino explorado é o da mulher que vive autónoma, mas que para tal utiliza a sexualidade à custa da qual sobrevive, mantendo um certo ascendente sobre a população masculina, graças à sua actividade: a prostituta Teresa Diaba.
a teresa diaba era quem vinha muito por mim isto é, era quem valia a Baltazar para lhe satisfazer os apetites antes de casar com Ermesinda.
parecia uma cadela no cio, farejando, aninhada pelos cantos das árvores e dos muros, à espera de ser surpreendida por macho que a tivesse. Era toda carne viva (…). abria-se como lençóis estendidos e recebia um homem com valentia sem queixa nem esmorecimento. era como gostava, total de fúria e vontade, sem parar, a ganir de prazer. (…) estropiada da cabeça, torta de braços, feia, ela só servia de mamas, pernas e buracos…
A Teresa Diaba representa a atracção pelo grotesco, algo que não é preciso cuidar ou preservar. É com base nesta premissa que Baltazar estropia mais tarde Ermesinda. Para não ter de estar em cuidados quando está para fora, na esperança que ela não chame a atenção de eventuais predadores de beleza. No entanto, o ciúme patológico a raiar a esquizofrenia acaba por encontrar pretextos para justificar o prolongamento dos maus tratos, mesmo após a beleza de Ermesinda estar completamente destruída.
Baltazar tem o comportamento modelado pela forma como o pai trata a mãe ignorando, inclusive, o grave estado de saúde em que esta se encontra, com requintes de sadismo levados até às últimas consequências:
o curandeiro, eu notei, sabia que ao meu pai aproveitava muito a tortice da minha mãe. com o pé a modos de pouco andar, ela havia de estar sempre por ali e mais que a faria do meu pai, pudesse acontecer um dia, à minha mãe não lhe valeria corrida alguma.
Enquanto isso a maior preocupação da família continua a ser a vaca…
o aldegundes pedia ao curandeiro pela sarga constantemente. que fosse a vê-la (…) se nos dissesse como engordá-la, ainda que as nossas rações fossem nenhumas de tanta pobreza …
De onde a vaca toma o lugar da mãe como se pode constatar na página 36.
o curandeiro farto de garantir que a minha mãe estava seca como uma pedra, impossível vir dali uma criança, bicho ou coisa. não pode vir nada, gritava (…) como arranjou estes filhos, conte-nos o senhor sarga, porque da sua mulher nem adianta pensar nisso (…)éramos filhos da sarga (…) éramos como filhos da sarga.
Baltazar desenvolve a partir do modelo de conduta do pai um bestial complexo de Othello, o ciúme paranóico, destituído de qualquer vestígio de fundamento, que é ampliado pelo sucedido com Brunilde, que o leva a intimidar e a aterrorizar a esposa com o objectivo de a dissuadir a ser-lhe infiel – um dia. Pior ainda quando dom Afonso mostra interesse na presença de Ermesinda como serviçal na casa grande.
Aldegundes, apesar de alguma animalidade e de um profundo amor espiritual e físico pela vaca - ironia de que se serve mais uma vez o Autor para caricaturar a pseudo-virilidade lusitana, apesar de amante de uma vaca, é um homem que tem a sensibilidade que lhe permite captar aquilo que a alma das pessoas tem de belo, através do talento como pintor, ao transfigurar as figuras humanas, envolvendo-as, simultaneamente, numa aura divina.
O “lado mau” da personalidade feminina está incarnado na esposa do senhor das terras a quem Baltazar presta vassalagem, dona Catarina. A maldade desta prende-se, não tanto com a questão de género, mas de classe. Dona Catarina tem um ciúme tão patológico quanto Baltazar mas não podendo dirigir o seu ódio ao marido, que a humilha possuindo as servas, volta-o contra as criadas.
Possui uma mente corrompida que a leva a cometer lenocínio aquando da visita do rei, ameaçando as criadas com castigos corporais caso algumas delas se recuse a aceder a algum pedido mais extravagante. A inveja, a cupidez e o ódio são as emoções que predominam numa mulher de carácter particularmente azedo, consciente da impunidade:
“…ouvi-o dizer da beleza de todas vós. servi-lo-eis se vos pedir, que ao rei não se recusa putice…” .
A temática das superstições medievais é, também abordada na obra, como o receio do “mau olhado”, o recurso ao ocultismo e à feitiçaria, apesar de recearem, de alguma forma, as artes mágicas.
Uma figura feminina que tem tanto de interessante como de misteriosa é a da mulher queimada, que percebe das propriedades das plantas, para efectuar mezinhas e curar doenças inflamações e dores musculares, embora não recuse também algum trabalho para afastar “males do espírito”.
“Sabe coisas de bruxa, a mulher queimada…”.
Esta mulher queimada que se depreende ter escapado aos maus tratos com a viuvez tem como função na estória criar o contraste, marcando a diferença com a charlatã, em quem os irmãos “sargas” decidem confiar. Esta última, consegue extorquir-lhes quase todo o dinheiro que possuem em troca dos segredos que envolvem um estranho ritual para afastar o mesmo tão receado mau olhado e que, ao invés, os afasta das pessoas que se convencem da sua insanidade mental ou de uma eventual possessão demoníaca, receando o contágio...
Valter Hugo Mãe serve-se da personagem da mulher queimada, na realidade uma viúva, vítima de maus tratos enquanto casada – para dar, também, realce ao estigma social a que eram votadas as mulheres solitárias que detinham alguns conhecimentos de botânica e das propriedades medicinais das plantas, como se vê pela voz do narrador na página 108.
é que às mulheres deus dá conhecimento de algo que não dá aos homens.
Já para Baltazar …a mulher queimada ligava-se ao inferno, tinha domínios desnaturais a permitirem-lhe capacidades de mais proveito que a força de mil homens.
Ao regressar da corte, juntamente com o irmão, Baltazar encontra um jovem deficiente físico o qual acaba por juntar-se a Baltazar e a Aldegundes.
A forma como Baltazar vê o corpo feminino não deixa de ser curiosa, como se admirasse a beleza de um animal que lhe é inferior:
As mulheres só são belas porque têm parecenças com os homens, como os homens são a imagem de deus. (…) se se parecessem mais com cabras do que com homens nem natureza para nós teriam precisão de nos parecer sem alcançar igualdade que para isso estamos cá nós.
Na corte, Baltazar e Aldegundes notam com estupefacção a ausência de loucos “de espírito”, isto é de doentes mentais, observando pelo contrário a presença de vários deficientes físicos.
…tanta gente estropiada na terra de el-rei.
São ambos expulsos da corte por suspeita de acordo com o inimigo divino. Regressam à própria terra numa carroça onde “ajeitam os três cus”. Durante o trajecto de regresso Baltazar especula acerca de como o amor se pode tornar uma armadilha:
expliquei ao dagoberto que o amor era uma maldade dos homens, assim como um plano esperto para fazer com que as mulheres se abeirassem deles e se mantivessem ali sem outro propósito senão ficar. O amor é uma maldade dos homens porque junta as mulheres aos homens numa direcção que só a eles compete (…) a maldade dos homens é igual à voz das mulheres.
A extinção de Ermesinda que sucumbe aos maus tratos e abusos sexuais sucessivos é a alegoria ao inferno de muitas mulheres que vem todos os anos engrossar o rio negro das vítimas da loucura dos homens.
completas seriam (as mulheres) se deus as trouxesse ao mundo mudas (pag 187. ).
Após o que a violência extrema leva a consequências extremas:
afastaram-se da minha ermesinda que, imóvel, respirou menos, respirou menos, respirou menos, não respirou.
…a sarga mugiu de modo lancinante.
Depois a hybris, a seguir a impotência.
E, com o cair do pano, o remorso.
Cláudia de Sousa Dias

8 Comments:
Este vou ler em breve. Já andava com curiosidade e a leitura deixa-me curioso sobre a densidade das personagens, a forma como se articulam, o assumir dessa mundividência medieval. Excelente texto, Cláudia!
boa, Bau!
primeiríssimo a comentar!
parab éns pela coragem de ler um texto tão extenso como este...
:-)))
csd
É um livro fantástico, que li, compulsivamente, numa tarde. Pessoalmente, considero-o superior ao último do Valter, "o apocalipse dos trabalhadores".
ainda não li o apocalipse. terei de fazê-lo durante este final de semana...
:-)))
"O remorso" é excelente, sem sombra de dúvida...
csd
Cláudia, acabei de te atribuir um Prémio. Colhe-o aqui:
http://comlivros-teresa.blogspot.com/2009/06/premio-e-eleitos.html
Bjinhos
Teresa
Obrigada, Teresa!
vou colar o prémio aqui no blog já daqui a bocado.
o valter vai estar presente na comunidade de leitores do repórter da Visão Miguel Carvalho, este Sábado, na Almedina do Arrábida Shopping. Se quiseres também estás convidada
:-)
um grande beijinho
csd
É o tipo de livro em que não pego... sou muito emotiva quando leio e este tipo de história deixa-me em farrapos.
beijos
obrigada, maria!
mas está de facto, muito bem escrito este livro do valter, sobretudo pelo facto de ridicularizar a violência masculina e dos motivos fúteis que estão na sua origem.
beijinhos
csd
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