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Sunday, May 24, 2009

“De Amor e de Sombra” de Isabel Allende (Difel)


É um dos primeiros e, também, menos conhecidos romances de Isabel Allende no qual sobressai uma escrita ora sensual e telúrica, ora visceral e amarga. Esta última característica deve-se, sobretudo, ao humor negro da Autora, cujo sarcasmo se encontra bem explícito, logo nas primeiras páginas da obra, pela referência ao piedoso nome atribuído pela mãe da protagonista ao lar de idosos de que é proprietária, A vontade de Deus. A Mãe de Irene gere a instituição como se de um armazém de carcaças à espera da morte se tratasse, cuidando deles com a mesma consideração que poderia dispensar a um monte de fatos carunchosos ou móveis semi-apodrecidos.

A ironia está presente no contraste entre o nome do edifício, revelador de um fatalismo conformista, e a rispidez com que as enfermeiras tratam os hóspedes. Beatriz Beltrán conduz o “negócio” como uma mera casa comercial.

Beatriz é aquilo a que se chama de uma “alpinista social”, oriunda da classe media-baixa, de carácter frívolo, superficial e completamente inconsciente da realidade social fora dos muros de A Vontade de Deus. Uma mulher que se preocupa apenas com o seu aspecto e com a manutenção do status quo e padrão de vida que conseguiu, a duras penas. O pai de Irene (também ele desaparecido, mas não exactamente por razões políticas) é membro de uma das mais antigas famílias chilenas, de raízes aristocráticas. Trata-se, no entanto, de um homem irresponsável, sonhador e indomável, causador da angústia de Irene e Beatriz.

Por outro lado, o título da obra remete para um drama passional, onde o desenrolar do conflito demonstra como a cumplicidade em situações adversas fortalece uma união e ajuda a consolidar laços. A passionalidade é a imagem de marca da prosa de Allende cuja precisão evocativa deixa no leitor uma marca indelével. A mesma característica explica, em grande parte, a simbologia, do título De Amor e de Sombra. Porque se trata, realmente de uma história de amor desenvolvida na “sombra” isto é, na clandestinidade. E porque Francisco Leal, o herói romântico da história se dedica precisamente a actividades clandestinas como o exercício da Psicologia – cujo ensino foi proibido depois do golpe de estado militar, que culminou com a morte do Presidente Salvador Allende –, por ser considerada uma actividade “subversiva” e “perigosa”, e a facilitar a fuga de presos políticos para fora do Chile, no tempo de Pinochet. Leal, que obteve o doutoramento em Psicologia anos E.U.A. vê-se, de um momento para o outro sem emprego e obrigado a mudar de ramo, tornando-se fotógrafo de uma revista feminina de moda para sobreviver. Lá, conhece Irene, a filha da dona de A Vontade de Deus. Irene acompanha Francisco nas reportagens e vai-se apercebendo, gradualmente, das actividades clandestinas do colega quer no que toca ao exercício da psicologia quer em algo ainda mais “obscuro”. Francisco ocupa o tempo livre a conseguir documentos falsos para os prisioneiros políticos, ajudado pelo irmão, o sacerdote José Leal, que conta com a simpatia e cumplicidade do cardeal.

Enquanto que o primeiro romance de Isabel Allende, A Casa dos Espíritos, incide nos cem anos de história do Chile que antecederam a o golpe de estado militar, De Amor e de Sombra passa-se alguns anos depois desta ocorrer, quando o novo regime parece já estar consolidado. De Amor e de Sombra chama a atenção para o violento “drama dos desaparecidos”, um episódio vergonhoso da história do Chile que diz respeito ao desaparecimento de milhares de presos políticos, “aqueles a que a Polícia política leva e não devolve”.
O sentido da impunidade e a prepotência das forças da ordem, bem como o abuso de autoridade são explorados até à exaustão. Senão vejamos:

Neste contexto não é preciso pertencer-se a um partido político da oposição para se ser encarcerado ou proscrito: basta ser membro de um sindicato”.

Como exemplo, Isabel Allende mostra a situação da família Leal onde o pai de Francisco, professor de Literatura é saneado e Javier, o cientista, o outro irmão de Francisco, é segregado do mercado de trabalho pelo simples facto de ter sido filiado num sindicato. Uma violência para uma família que valoriza o trabalho acima de tudo como símbolo da dignidade humana.

Mas o cúmulo da prepotência sob a forma de exibicionismo é o que acontece em casa de Evangelina, uma jovem deficiente, doente com epilepsia, trocada à nascença e, por isso, pouco amada pela família, torna-se vítima da rigidez e pusilanimidade dos funcionários do hospital estatal e da brutalidade e intolerância da polícia política. A desordem mental da jovem é mal interpretada pela população local que a confunde com possessão demoníaca ou, se calhar, fruto de intervenção divina, causadora de prováveis “milagres”. Uma crença que é facilmente disseminada numa população onde grassa o analfabetismo. Por outro lado, a rigidez associada ao regime militar não tolera o comportamento de Evangelina por ser incontrolável e, como tal, subversivo, devendo por isso ser “metida na ordem” pelas autoridades. Evangelina acabará por ser levada e incluída no contingente daqueles que “não voltam”. A sua detenção é o ponto de viragem da história porque o seu desaparecimento vai obrigar Irene, que assistiu, junto com Francisco, ao acontecimento, a “agir na sombra” e a integrar o grupo daqueles que passam para o outro lado da fronteira, aqueles que estão, politicamente, em situação difícil.

O encantamento que surge logo nas primeiras páginas deste romance que agarra o leitor e o faz virar sofregamente página sobre página acentua-se a partir desta altura.

Também a existência de uma multiplicidade de personagens com origens sociais muito díspares que, a dado momento, se cruzam em prol de um objectivo comum constitui um encanto adicional, sobretudo porque confere ao carácter de Irene, uma jovem de ascendência aristocrática, uma personalidade modulada que se vai aprofundando ao longo da narrativa, à medida que se envolve emocionalmente com Francisco e com as causas a que está ligado.

O intenso erotismo contido na descrição de uma cena de amor, reveladora de uma sexualidade telúrica, entre Francisco e Irene é um dos mais belos trechos do romance, tendência que se torna um pouco menos acentuada nos romances posteriores da mesma autora.

Da mesma forma, a profunda emotividade e pungente nostalgia presentes nas entrelinhas do texto que descreve a cena de despedida dos pais de Francisco, no final, coincidindo com a partida para Espanha, adquire o formato de um relato onde só não está presente a palavra “saudade” por uma questão semiótica, causando um impacto profundo em quem lê, pela sensação de despojamento deixada pela necessidade de abandonar algumas das pessoas a quem mais se ama.
A partida para o exílio e a odisseia a que obriga a extenuante travessia da cordilheira dos Andes até ao outro lado da fronteira com a Argentina, é de uma capacidade de percepção sensorial e nitidez fora do comum, onde se sente a presença quase que palpável de uma dolorosa saudade antecipada e de uma avassaladora sensação de desolação e desenraizamento…

De Amor e de Sombra só não é um romance de excelência pelo facto de, por vezes, a Autora não conseguir evitar a tentação de emitir juízos de valor, mas é o livro onde Isabel Allende melhor desenvolve um discurso poético no qual as emoções fluem como um rio em todo o seu caudal, aproximando-se da foz e onde os acontecimentos parecem conspirar para o envolvimento de ambos os protagonistas.

A obra literária pode ser complementada com o filme de Elizabeth Kaplan no qual se destaca a interpretação de Antonio Banderas, num dos seus melhores papéis, assim como o que emana de magnetismo de Jennifer Connely a iluminar todas as sombras que possam subsistir no enredo deste sedutor e absorvente romance.

Cláudia de Sousa Dias

16 Comments:

Blogger Belisa M. said...

adooorei seu blog.
pincipalmente a descrção do livro "Perfume" do Patrick suskind.
amei mesmo.
da uma olhado no meu.

beijinhus

4:52 AM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

primneiríssima a comentar!

obrigada e I.Allende tb agraqdecerá.


"O Perfume"é um livro copm um conteúdo bastante surrealista...


mas de que gostei muito.


muito mais do que do filme.



csd

3:29 PM  
Blogger CNS said...

Ao ler este texto sobre de "amor e sombra" consegui rever todas as sensações que o livro me causou...

Excelente Claudia!

4:57 PM  
Anonymous Anonymous said...

Descobri este blogue quando pesquisava "Três tristes tigres" de Cabrera. De imediato adicionei-o aos meus favoritos. Adoro ler e muitas vezes sinto que preciso de saber mais sobre os autores e as obras e este blogue vem dar uma ajuda preciosa. Faço apenas uma sugestão: porque não insere um motor de busca? É que agora queria aceder novamente ao post do Cabrera e não sei qual é.
Isabel

1:14 PM  
Blogger Nanda Fala... said...

Olá Claudia,
gosto muito do seu blog, e que surpresa boa voce comentar sobre Isabel Allende! Gosto muito da obra dela, sobretudo A casa dos Espíritos. Um grande abraço!

5:23 PM  
Blogger Baudolino said...

Não sei o que me afasta da leitura de IA. Se calhar tenho de trabalhar isso. Pode ter a ver com as opções: o tempo não nos permite ler tudo e, nas opções, alguns livros/autores ficam 'enquistados' na categoria 'Não sei bem, mas... logo vejo'.
Talvez seja isso
Bjs
P.

7:01 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

obrigada, Cristina!
vê o filme passou em Janeiro no Cineliterário e só agora é que o postei!

está tudo atrasadíssimo...


csd

10:12 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

são os dois melhores livros dela...

se bem que o "retrato a sépia" e "filha da fortuna", também sejam interessntes,mas sem a força dos romances iniciais...


csd

10:14 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

bau, é excelente para agrrar alguém ao vício da leitura, mas para um leitor de longo curso é capaz de já não preencher todos os parâmetros de excelência...


csd

10:15 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

oh...anõnimo...não sei como é que isso se faz...mas o cabrera foi em 2007 que o postei, tanto quanto sei
vou procurar e já lhe digo.


csd

10:17 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Anónimo...afinal foi em Fevereiro de 2008...!


:-)

até logo...


CSD

10:22 PM  
Blogger Zaclis Veiga said...

Adorei o teu texto. Vou correndo reler Isabel Allende, que eu adoro.
beijos

10:06 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

é muito bonita pai´~ao de Irene Francisco.

e toda a envolvente sombria em que está mergulhada.


csd

10:44 PM  
Blogger C. said...

A ideia do motor de busca parece óptima. Força.

Gosto sempre de ler as recensões que faz dos livros. Mesmo:)

Bj

8:14 PM  
Blogger Maggie said...

Gostei bastante deste livro, mas não é o meu preferido desta autora. Gostei mais do Retrato a Sépia e da Ilha debaixo do mar.
Gostei do blog.

6:02 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

obrigada, Maggie!


Há muito tempo que ninguém comentava este texto. já tem mais de ano e meio...

1:49 AM  

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