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Tuesday, March 08, 2011

Seda” de Alessandro Baricco (Dom Quixote)



Um romance que é um retrato sublime da pacata vida quotidiana, numa pequena população rural, em pleno século XIX, que vive de indústria da seda, Na trama que envolve a indústria e a actividade da sericultura, entrelaça-se uma história de amor romântico e também idealizado e erótico, que se vai tecendo, lenta e delicadamente, como o fio da seda de que são feitos os frágeis e preciosos casulos que são importados do Japão. Porque de lá chega à Europa, após uma longa travessia, a melhor seda e, também, a mais sublime forma de idealização em matéria de amor. Este é um sentimento que o escritor italiano Alessandro Baricco explora, quer do ponto de vista masculino quer feminino, numa prosa depurada, onde o minimalismo da forma contrasta, de forma dramática, com a fortíssima carga emocional, contida nas escassas cem páginas do romance.


A localização espacial da acção abrange dois continentes, situando-se especificamente entre a França e o Japão. O facto deve-se ao deflagra, à época, de uma praga que afecta os casulos de seda nas plantações europeias e do Norte de África, obrigando a importar os bichos-da-seda directamente do Japão e a empreender, anualmente, uma perigosa viagem por regiões inóspitas, usando a então moderna tecnologia da máquina a vapor, de comboio ou barco, apesar de não impedir algum troço da jornada seja feito a cavalo por terras inóspitas, como nos tempos de Marco Polo.


A viagem transiberiana de comboio obrigava, então, à travessia dos Urais é relatada de forma elementar, em pouquíssimas linhas, como se cortasse a barreira do som, mas sem deixar de dar ideia do esforço e do tempo gasto em tão esgotante empresa, pela travessia de vário fusos horários. É através da modificação da paisagem que nos é dada a ideia de movimento, como se estivéssemos à janela do comboio.


O romance é uma bela crónica de viagens e ao mesmo tempo um relato de costumes que se traduzem num ligeiro choque cultural, mediante o contacto entre duas civilizações, impulsionado por razões de interesse económico. Mas mais do que isso, Seda é um verdadeiro tratado sobre as relações íntimas conjugais.


O dinamismo da história é-nos dado pela alternância de cenário – a França rural e o Japão feudal no dealbar da industrialização – o que permite comparar a forma como é encarado o casamento e o concubinato em ambas as culturas: na Europa este é visto como uma transgressão; no Japão como sinal de prestígio social. Podemos, também, tomar consciência da estratificação social e da importância dos rituais religiosos e do cerimonial associado à rotina doméstica daquele longínquo país.


Trata-se de um relato intimista, sobre o amor terreno, presente no quotidiano,sobre o amor possível e, por outro lado, face ao amor que se deseja, inalcançável como as estrelas. O narrador, Hervé Joncour, o importador de casulos e bichos-da-seda, relata, por entre a melancolia da memória e a nostalgia do tempo perdido, o percurso do Desejo em busca de uma ilusão, ao descrever o deslumbramento por uma estrela que não existe.


Joncour conta com o apoio de um mentor também ele um industrial da seda, embora reformado, que se encarrega de trazer uma nota de realismo pragmático à acção, mediante o seu humor seco, com uma pitada de cepticismo voltairiano, ajudando à fluidez da narrativa.


Já o enquadramento da acção no devido contexto histórico, no tocante às relações comerciais entre os dois países, confere verosimilhança ao texto, permitindo tomar consciência da distância e da fadiga de tal travessia no século XIX, com as respectivas limitações tecnológicas.


Corria o ano de 1861. Flaubert escrevia “Salambô”, a iluminação eléctrica não passava de uma hipótese e Abraham Lincoln, do outro lado do Oceano, combatia numa guerra da qual nunca chegaria a ver o fim.

Hervé Joncour tinha 32 anos. Comprava e vendia. Bichos-da-seda.


O livro é a odisseia de um jovem audaz e ambicioso mas discreto, pelo mundo do ofício delicado da sericultura, dependente de um trabalho sazonal, sujeito a fortes condicionalismos geográficos, biológicos e meteorológicos, obrigando à procura dos melhores espécimes e a uma viagem de quase quatro meses, com regresso pontual “a tempo da missa grande”, no primeiro Domingo de Abril. O timing era, então, fundamental pois, duas semanas mais tarde, os ovos abririam, e os bichos morreriam, inutilizados.


O discurso narrativo, vertido ao longo da viagem, torna-se empolgante por se assemelhar a um diário de bordo num barco terrestre.


O Viajante


Apesar de a descrição física do protagonista não constar explicitamente do texto, é possível perceber, nas entrelinhas, tratar-se de um homem belo, ou pelo menos bastante atraente, pela forma como, sem fazer qualquer tipo de esforço ou traçar qualquer estratégia de sedução, e pautar-se por um comportamento e atitudes comedidas, as personagens femininas, mesmo assim, o cumulam de atenções. Trata-se de um homem reservado, de postura sóbria, calmo, mas possuidor de um apurado sentido estético, embora sem ostentação.


Era, aliás, um daqueles homens que amam assistir a sua vida, julgando imprópria qualquer ambição no sentido de a viver.

Ter-se-á notado que estes olham para o seu destino tal como a maioria costuma olhar para um dia de chuva.


Mr. Balabadiou, o já referido mentor e inspirador de Hervé joncour, no negócio da seda e na vida e geral, é um homem de pensamento pouco convencional, produto do século das Luzes, um homem de visão. É, também, um sonhador, faceta que deixa revelar aquando do primeiro regresso de Joncour do Oriente na primeira das suas viagens anuais ao perguntar-lhe pelos golfinhos. Trata-se, no entanto, de uma pergunta dúbia, pois poderia também referir-se simultaneamente aos príncipes do oriente. Uma pergunta ambígua que junta o sonhador ao homem de negócios.


A Viagem


A descrição da travessia da Europa até aos Urais e , depois, através de todo o continente asiático até ao mar do Japão é feita em poucas linhas como se esta se realizasse em poucos segundos mas dando, ao mesmo tempo, a ideia da distância, pelo tempo cronológico mencionado na descrição da viagem. A imensidão do Lago Baikal, por exemplo, é dada pelos regionalismos das tribos locais que o apelidam de “o mar”, “o demónio” e “o último".


As mulheres de “Seda”


A concubina do senhor feudal Hasa Kei é uma jovem de “olhos ocidentais”. A beleza, capacidade de entrega e extrema solidão que estes conseguem exprimir despertam uma súbita idolatria em Joncour, que é confundida com paixão. A jovem ocidental, crescida no Oriente é, para ele, a jóia interdita. A mesma jovem, da qual não sabemos o nome, cativa-o pelo silêncio e pelos gestos que lhe parecem inequívocos como o de voltar a tigela por onde bebeu Joncour, de forma a tocar com os próprios lábios o lugar exacto onde tocaram os lábios do viajante, ou o provocante banho de olhos vendados, ou, ainda, o abrir de olhos no instante que a conhece, no exacto momento em que a curiosidade atinge o limite.


A simbologia dos pássaros, aprisionados no viveiro de Hasa Kei, representa a prisão dourada em que vivem as concubinas no Japão, uma prisão onde "voam abrigadas do céu”.


A guerra, a geografia, o sistema económico e político e, por último, a própria cultura, são os elementos que farão com que a “seda” deste romance em potencial nunca chegue a produzir-se.


Hélène Joncour, a esposa de Hervé, é o amor terreno, sempre presente e discreto, mas por estar tão próximo, o jovem não chega a aperceber-se de todo o seu esplendor.


O drama de Joncour tem a ver com o tempo perdido e a forma como deixa o fluir do momento de felicidade escapar-se-lhe por entre os dedos, numa mais do que evidente piscadela de olho do Autor a Marcel Proust..


Face à jovem do Oriente, resta-lhe a sensação de ter perseguido uma quimera:

É uma dor estranha. Morrer de saudade por alguém que nunca se chegará a amar.


Madame Blanche é o inverso, o outro lado do espelho da jovem concubina de Hasa Kei. É a cortesã oriental a viver no coração do Ocidente no século XIX: Paris. Trata-se de uma estranha aliada de Joncour que se dispõe a fazer de ponte, entre o viajante e a amante inalcançável, servindo de tradutora e aquilo que tem ao alcance da mão. A carta erótica que Madame Blanche entrega a Joncour, proveniente da mulher que o ama, contém um discurso pautado por uma paixão inexcedível, a raiar o sublime, numa linguagem cuidada e literária,mas explicitamente sensual, onde não falta o sentido poético dos Hai Kai. Um belo manto de seda, transformado em palavras que deslizam na pele.


O romance termina com um epílogo que se encaixa na alteração das relações económicas entre Oriente e o Ocidente e que são em parte responsáveis pela alteração radical do estilo de vida de Joncour. Desse tempo, agora perdido, Alessandro Baricco faz a apologia da memória de uma viagem ao Oriente longínquo, a um amor impossível e a homenagem ao amor conjugal. Numa escrita tão leve como a peça de seda que Joncour traz do Oriente para Hélène, a escrita de Alessandro Baricco flui como que caindo suavemente, amparada pela bisa ou correndo ao sabor do vento.

No final, restam apenas fragmentos de memórias de um passado, onde os momentos felizes são tão breves e fugazes como a passagem do véu de seda laranja, usado pela concubina de Hasa Kei.


Lembranças frágeis e fugazes, mas inesquecíveis como as flores azuis – miosótis? – que adornavam os dedos de Madame Blanche…


Cláudia de Sousa Dias

6 Comments:

Blogger miGuel pesTana said...

ola Claudia.

Li esse livro a uns anos atras e gostei bastante.Outro livro do autor que também me deu enorme prazer ler foi "Sem sangue".

boa semana

8:06 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Bom dia, Miguel.

Já o tenho.

Qualquer dia já o leio, também.

10:30 AM  
Blogger inominável said...

Este vou comprar... adoro estas histórias de amores interculturais e de mulheres inacessíveis :)

10:04 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

é lindíssimo, sem dúvida. E há um filme baseado na obra. Com Michael Pitt e Keira knightley...


:-)


beijos

10:19 AM  
OpenID djamb said...

Olá Cláudia, o Há Sempre Um Livro à Nossa Espera tem uma modesta distinção no Folhas de Papel :)
Até breve

11:23 AM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

oh...obrigada, Djamb!

estou babadíssima.


:-)


csd

11:38 AM  

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