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Monday, October 31, 2016

“JEZEBEL – The Untold Story of the Bible's Harlot Queen” by Lesley Hazlton (Doubleday)




O livro de que hoje falamos não se trata de uma biografia, uma vez que é impossível fazer uma reconstituição exacta da vida da última monarca do reino de Israel, desaparecido há quase três milénios. Trata-se antes de uma investigação que implicou uma análise crítica, linguístico-discursiva e literária ao Livro dos Reis, particularmente no que toca ao reinado de Jezebel e Ahab, procurando sempre que possível, o apoio e a sustentação objectiva com base em dados histórico-arqueológicos, afim de concretizar uma análise exaustiva documental, através do estudo comparativo de traduções de várias épocas, inclusive nas suas versões em grego, inglês e hebreu antigo ou aramaico. O resultado é a desconstrução de uma narrativa dominante que terá sido levada a cabo por clérigos os quais fixaram a versão sustentada pela classe sacerdotal israelita onde se inclui o profeta Elias e restantes sacerdotes hebreus de Yahweh, versão essa que se conclui sustentar uma agenda política marcada pelo desejo de hegemonia sionista, pela xenofobia, e profundamente misógina.

Para ficarmos com uma ideia mais precisa quanto ao teor da obra que aqui analisamos: a reconstituição histórica da vida desta personagem bíblica é feita por uma autora anglo-americana conhecedora dos textos antigos, cujo objectivo ao escrever o livro se prende com a curiosidade em aprofundar o conhecimento da realidade à volta de uma das figuras femininas mais odiadas da Antiguidade:

«There is no woman with worse reputation than Jezebel, the ancient queen who corrupted a nation and met one of the most gruesome fates in the Bible. Her name alone speaks about decadence and promiscuity. But what if the version of her story, handed down to us through the ages, is merely the one her enemies wanted us to believe? What if Jezebel, far from being a conniving harlot, was, in fact, framed?»

Esta é a problemática levantada pela autora de Jezebel à qual tentou responder com uma investigação histórico-jornalística utilizando os instrumentos análise literária e de análise de discurso aplicados ao Livro dos Reis. Trata-se de um trabalho exaustivo que foi executado não apenas com o recurso à observação documental em bibliotecas mas também com a deslocação da investigadora ao terreno, na busca de vestígios arqueológicos, na tentativa de perceber o contexto geográfico e local de um território onde o tempo parece ter cristalizado. Arrisco dizer que Lesley Hazlton terá encontrado se não algumas respostas plausíveis, pelo menos algumas hipóteses alternativas bastante prováveis, face à versão tradicional.

Dados biográficos da autora:

Nascida no Reino Unido, em 1945, Lesley Hazlton construiu uma dupla carreira de jornalista e, anteriormente, de psico-terapeuta. Obteve, a nacionalidade anglo-americana, escrevendo para várias publicações, sendo o seu trabalho jornalístico focalizado sobretudo naquilo que define como “The vast and volatile arena in which politics and religion intersect”, o que acresce um toque de irreverência a todos os seus livros, quase sempre escrito com intenções iconoclastas com vista àn desconstrução de estereótipos. Mas para além da actividade jornalística, Hazlton é uma conceituada psicóloga e autora de três livros sobre o Médio Oriente, fortemente influenciados por esta área do conhecimento, que foram alvo de rasgados elogios por parte da crítica: Israeli Women; Where Mountains Roar; e Jerusalem, Jerusalem. Três anos depois de publicar Jezebel (em 2007), a autora encetou a publicação do blogue The Accidental Theologist, o qual descreve como “an agnostic eye on religion, politics and existence”.
Em Setembro de 2011, é agraciada com a distinção “The stranger's Genius Award in Literature” e, no Outono do ano seguinte, consegue uma bolsa de residência em Town Hall, Seattle. Seguindo sempre a pulsão iconoclasta de destruição de mitos que caracteriza a sua obra, publica ainda Mary: a Flesh and Blood Biography of the Virgin Mother. Os seus últimos livros publicados abordam ainda a problemática efervescente da questão do Médio Oriente: After the Prohet – The epic Story of the Shia-Sunni Split e Agnostic – a Spirit Manifesto (2016). Dedica, agora, inteiramente ao jornalismo, à investigação e publicação das suas obras. Por último, o seu trabalho como jornalista estende-se pelas seguintes publicações: Time Magazine (correspondente em Israel ) The New York Times (política no Médio-Oriente ), Esquire, Vanity Fair, The Nation, The New Republic, The New York Review of Books, etc.

Um aspecto que me agrada de sobremaneira neste livro e que, no meu ver, lhe confere fiabilidade, consiste no conhecimento que a autora demonstra acerca das línguas antigas, facultando-lhe uma rara acessibilidade a documentos raros, permitindo efectuar uma análise comparativa na forma como diversos tradutores de textos bíblicos escolheram expressar o texto original nas línguas de chegada. Isto sem falar no à-vontade com que se movimenta em áreas onde o perigo espreita por detrás de cada curva, em regiões particularmente inóspitas.

Por outro lado, o traçar das linhas que unem (ou diluem) passado e presente em termos de construção ideológica, cultural e geopolítica é outro ponto a favor da obra ao permitir que o leitor obtenha um vislumbre da complexidade, profundidade e longevidade das causas que desembocam na explosiva situação geopolítica que atravessa hoje o Médio-Oriente.

Passemos então à análise da obra, capítulo a capítulo.

Introduction: in which how Jezebel gained a reputation”.

Assim, surge-nos capítulo zero, que a autora chama de “Introduction” para explicar a intenção de desconstruir a imagem tradicional da última rainha do antigo reino de Israel, por lhe parecer distorcida ao ser descrita exclusivamente pelo ponto de vista dos seus rivais políticos, que a fixaram para a posteridade mediante discursos dotados de forte teor emocional:

«Her real name was Itha-Baal, which means “woman of the Lord” in her native language, Phoenician. But in a pun worthy of the craftiest modern spinmeister – the kind of wordplay very common in the Hebrew bible – this was changed in Hebrew to I-zevel, or “woman of dung”, which was later written as Jezebel in Greek and so also in English. The change kept the same three-consonant Semitic root, but gave it the opposite meaning» (Hazlton, 2007:2).

E continua:

«The Hebrew meaning is the one that has persevered, molding the various forms Jezebel has taken in the imagination. She is the prototype of the evil woman, the original femme fatale, “ creature both forceful and bold” in the words of the first-century historian Josephus, who described her as going to “great lengths of licentiousness and madness”. An aura of treachery and perfidiousness enshrouds her. She is the harlot queen, the shameless fornicator, the painted hussy, the scheming seductress enticing the innocent into the depths of wickedness » (Hazlton, 2007:2-3).

À imagem desta rainha transmitida por Josefo no século I D.C., a autora compara depois a imagem da mesma figura histórica construída nos filmes de Hollywood, já no século XX e que chega então à esmagadora maioria da população cristã fixando, através da sétima arte:

«Hollywood's visions of female perversity, all play in various aspects of her image: Theda Bara's dark-eyed, blood-sucking vamp; Bette Davis's scheming southern belle in her scarlet ball-gown; Marlene Dietrich's ruthless manipulator in The Blue Angel; Sharon Stone's cold seductress in Basic Instinct. But as novelist, Tim Robbins puts it: “In the Bitch Hall of Fame, Jezebel has a room all her own – nay, an entire wing» (idem: 3).

E da mesma forma, traçando um paralelismo com outras figuras femininas históricas possuidoras de elevado poder político e económico que passaram para a posteridade com uma imagem de devassas pelos seus adversários políticos, mas sempre muito aquém do discurso extremista com que é traçado o carácter de Jezebel:

« Cleopatra was a prude by comparison, Catherine de Medicis an upstanding citizen. In historical novels, purportedly based on Jezebel's life, she becomes an Orientalist fantasy of dangerous eroticism.», (idem:3)

Apesar de alguma polarização também efectuada pela própria autora quando retrata as duas personagens principais que se defrontam em Jezebel, entre as quais se estabelece uma relação de conflito de interesses – Jezebel, apresentada por Hazlton como uma rainha culta, racional, pagã, estrangeira, princesa de origem Fenícia e promotora de uma política de abertura de Israel ao exterior; e Elias, retratado como o profeta fanático, líder religioso radical, histriónico, manipulador e populista, seguidor de um monoteísmo de vertente radical, com um discurso todo ele marcado pelo repúdio xenófobo de toda e qualquer manifestação religiosa ou traço cultural proveniente de qualquer fonte que não Israelita/Judaica – a obra tem a seu favor o mérito de colocar os leitores perante as raízes do conflito ideológico étnico-cultural que assola aquele território até aos nossos dias, sob uma luz que passa além do véu da religião, possibilitando-nos enxergar a imensa teia de interesses que por detrás dela se oculta.
Situando os acontecimentos no tempo e enquadrando-os no ambiente socio-político da época, o livro permite-nos sair desta leitura, a olhar a esta figura feminina do mundo antigo por um prisma bastante menos enviesado: a perspectiva de uma chefe de estado que governa em pé de igualdade com o marido. Segundo a tese de Hazlton é este o principal foco de tensão entre Jezebel e Elias: o facto de o sacerdote ver na Rainha uma ameaça ao seu poder religioso e aos da sua casta, ao mesmo tempo que se recusa a aceitar um governo partilhado do Rei com uma mulher estrangeira, vinda de um país com o qual Israel tradicionalmente tem uma relação conflituosa: a Fenícia, actual Líbano.


Chapter 1 - “Tyre: in which Jezebel is homesick”

O primeiro capítulo serve essencialmente para se perceber quem era de facto Jezebel, as suas origens familiares, a infância, o ambiente na corte de Tiro e explicar simultaneamente a situação geopolítica que fez com que fosse estabelecida a aliança matrimonial entre Jzebel e Ahab.

A primeira secção descreve um cenário idílico em Tiro. Na segunda, a autora avança já para a comparação do estilo de vida após o casamento em Samaria, numa prolepse. E, na terceira secção, volta-se um pouco atrás no tempo (analepse) para contar dos preparativos de casamento e descrever os termo da aliança matrimonial que parece ser muito mais um casamento entre dois Estados do que entre duas pessoas:

«This was not a marriage of love on Jezebel's part, or even one of choice. No such thing existed for a princess of her time. Like all royal marriages, this was an alliance between rulers, between her father Ithbaal, the king of Tyre, and her husband, Ahab, the king of Israel. As the princess royal, her hand in marriage was a gift to be bestowed by her father. She was the foremost sign of his friendship with Israel, and the most valuable token of his esteem. Her body would be the seal on the alliance; her presence in Samaria – hers, and that of the priests and courtiers, diplomats, and merchants, artisans, eunuchs, and servants who formed her entourage – would be the presence of Tyre» (Hazlton, 2007:25).

Além de se explorar as vantagens que a união traria, não apenas para Tiro como se depreende no último enunciado do excerto anterior, mas também para o próprio Ahab, a autora dá conta também do estado de desenvolvimento económico e civilizacional de ambas as nações naquele tempo com uma acuidade impressionante:

«The kingdom of Israel had become a force to be reckoned with. Thanks to its dominance over its weak southern sister, Judea, it controlled not only the main east-west trade route from Damascus to the Mediterranean but also vital sections of the two north-south trade routes of the region: the Via Maris north out of Egypt along the coast, and the King's Highway on the east bank of the Jordan River, from Damascus to the Red Sea. Through Jezebel's marriage to Ahab, Tyre would gain the most valuable thing of all to a merchant trading state: access to as yet untapped markets. Now Tyre would develop the Red Sea port of Etzion Geber, giving it the Phoenician name that was then adopted in the Hebrew: Eilat, meaning “the goddess” – the great mother Astarte. Tyrian ships – “the ships of Tarshish”, as Isaiah would call them – would ply the coasts of Arabia and East Africa, going as far as India in their search for spices and silk. And for the privilege of access, Tyre would pay Israel handsomely in tolls and fees. It was, in modern terms, a win-win situation.» (Hazlton, 2007:25-26).

A este cenário geopolítico reconstruído pela autora junta-se a recriação, na secção seguinte, do violento choque cultural a que é exposta uma adolescente subitamente introduzida numa corte muito mais rude e hostil do que a sofisticada Tiro:

«The one comfort left in sight is the distant gleam of snow-capped Mount Hermon far to the north, standing high above all the other peaks. The home of Baal-Shamen, it dominates even this land where they deny him, as clear from here as from Tyre or from Damascus. It will become Jezebel's Pole Star, she determines – her point of reference, of identity and belonging. Whatever happens in this strange land, the Hermon will always be there for her, beckoning of home.», Hazlton (29-30).

A intenção da autora aqui é a de mostrar claramente a forma fria e pragmática como interesses que envolvem as situações de guerra e paz entre as chefias de dois estados se sobrepõem aos desejos, aspirações imediatas ou sonhos de uma jovem ou dos respectivos povos. Jezebel, no final do capítulo é sombriamente representada como uma versão Fenícia de Ifigénia em Áulida preparando-se para oferecer seu corpo em sacrifício:

«That alliance can replace separatism. Pragmatism replace ideology. Trade replace bloodshed.
The oracles have been consulted. (…) The gods look down in approval, both her many gods and Ahab's one.
(…) Jezebel will be led to her new bridal chambers like a human sacrifice, her body the pledge of alliance» (Hazlton, 2007:31-32).


Chapter 2 - “Samaria: in which Ahab is a peaceable warrior”

O segundo capítulo da obra focaliza-se na (des)construção do retrato do Rei Ahab, que surge também diabolizado no Livro dos Reis. Este é um monarca israelita que ficou conhecido para a posteridade por sacrificar crianças ao deus fenício Baal. Hazlton apresenta-o sobretudo como um guerreiro e chefe de estado, adepto de uma estratégia política e económica de abertura ao exterior a fim de fomentar trocas comerciais com os países vizinhos e cuja política interna assentava na tolerância para com outras formas de religiosidade, facto que desagradava de sobremaneira à ortodoxia religiosa dos sacerdotes do deus de Israel, Yahweh. Samaria era então a capital do reino de Israel, que fazia fronteira com a Fenícia. A sul, encontrava-se o reino irmão, a Judeia, com a capital em Jerusalém. A autora, aqui, chama a atenção para um conjunto de paralelismos que pode ser traçado entre épocas, relativamente às questões que acabámos de enunciar, entre a Antiguidade e a Contemporaneidade, como se naquelas paragens as coisas se recusassem a mudar e a geografia e o clima condicionassem ódios ancestrais e conflitos religiosos indissolúveis, sempre motivados por razões económicas, estratégicas ou de posse e domínio territorial:

«The Yahwist ideologues who opposed the marriage of Ahab and Jezebel saw the newly expanded acropolis of Samaria as a symbol of foreign encroachment on the culture, identity and god of Israel» (Hazlton, 2007: 35).

Esta forma distanciada de enquadrar um texto literário considerado sagrado é produto de uma educação laica na autora, onde é evidente quer a influência do laicismo do Século das Luzes, da Teoria da Evolução das Espécies de Darwin, assentando ambas na ideia de que os povos se relacionam uns com os outros condicionados pelas características do meio e da distribuição dos recursos, o que acaba por moldar, as normas sociais e também as suas formas de religiosidade, como se vê no excerto que se segue:

«Strange as it may sound in terms of contemporary Middle East politics, the authors of Kings were virulently anti-Israel. Their version of history was the product of theology as much as politics – or theopolitics, that is. Writing nearly three centuries later in the southern kingdom of Judea, they so denigrated and downplayed the northern kingdom that its existence would come to be all but forgotten. It wouldn't be until the late twentieth century, when the Near East archaeology finally shook off the yoke of traditional biblical archaeology and its aim of “proving” the Bible rather than investigating it, that researchers began to appreciate the Dynasty of Omri and Ahab as the Golden Age that the era of David and Solomon never was.» (Hazlton, 2007:35-36).

E continua a análise exploratória deste ponto de vista, com ramificações que estendem ainda mais para Oriente, rumo ao império Assírio-Babilónio, região que hoje coincide com a fronteira entre a Síria e o Iraque que continua ao rubro, quase três milénios depois:

«Even Israel's enemies would acknowledge the military prowess of the Omrides. They did so in the principle that the greater your enemy, the greater you must be. The power of your foes was a measure of your own power, and both Omri and Ahab were eminently worthy foes.
One densely chiselled stone document of the time records the military campaigns of Shalmanezer III, the ruler of the dangerously expansionist Assyrian empire in what is now northern Iraq and Syria. Known as the Monolith Inscription, it lists “Ahab, the Israelite” as fielding the largest force – two thousand chariots and ten thousand infantry – in a coalition that held off the Assyrian Army at the Battle of Qarqar on the Orontes River.
Another, a black basalt stele known as the Moabite Stone, found in Jordan but now in the Louvre, recounts in the voice of Moab's King Mesha that Omri and Ahab “oppressed Moab many days,” building border strongholds there to consolidate their control of King's Highway caravan route, which ran from Arabia and the Red Sea through Edom, Moab, and Gilead to Damascus. Even after the Omride Dynasty had been destroyed, Assyrian records would continue to refer to Israel as bit-Humri – The House of Omri – and to its kings as the sons of Omri» (Hazlton, 2007, 37).

No tocante ao território, relevo e clima, a autora nunca deixa traçar analogias ou paralelismos entre épocas, dando à narrativa o efeito de diluição das fronteiras de tempo, como se este não existisse. O desenvolvimento narrativo é feito utilizando uma perspectiva sincrónica aos invés de diacrónica o que faz de Jezebel mais do que uma simples biografia ou obra de reconstituição histórica ou mesmo de análise literária e linguística, uma aliciante narrativa de viagens, onde o perigo espreita a todo o instante e se percebe o quanto é tensa ainda hoje a situação nos territórios, hoje árabes, mas ocupados pelo novo estado Israelita:

«What remains of the royal city of Samaria is still haunted by the ghosts of battle. Just getting there turns out to be a journey fraught with tension and uncertainty. Driving north from Jerusalem, you go through a long succession of Israeli military checkpoints. The soldiers are hot and tired, and this is the last place they want to be, on a Palestinian road where Israeli civilians are forbidden to drive. They are the most visible signs of the heavily resented military occupation of West Bank, and this makes them irritable, curt and rude. If you travel as I did with Palestinian archaeologists, all conversation inside the car stops at each checkpoint. You bite your tongue, wait patiently while the soldiers make a show of examining documents, answer their questions as briefly as possible. Both sides are too aware of the potential of sudden violence.
A landscape interrupted by barbed wire and concrete barricades can hardly be considered beautiful but as you make your halting way from the high desert reaches the Judean hills and into the northern part of the West Bank, the hills seem to round out and lose some of theirs harshness. The landscape begins to feel a bit softer, more inclined to human settlement» (Hazlton, 2007: 39-40).



Chapter 3. – “Gilead: in which Elijah is surrounded by Harlots”

O terceiro capítulo do livro incide na reconstituição e recriação do ambiente da corte em que se movimenta o casal real em Reis, Jezebel e Ahab. Trata-se do local onde se dá o primeiro encontro entre os dois principais antagonistas da obra: Jezebel e Elias. A seguir, a autora dedica-se a explorar o cenário inóspito onde se julga ser proveniente o profeta, e que se mantém praticamente imutável ao longo dos tempos. Na corte de Ahab, o ambiente é de cortar à faca. O primeiro encontro entre Elias e Jezebel ocorre na sala do trono e anuncia imediatamente a guerra psicológica entre ambos que se seguirá até ao desenlace da narrativa, como se vê a seguir (destaques meus):

«Word of the prophets arrival had spread like wildfire through the city. The reception chamber was packed, and a huge crowd had gathered outside, waiting for word of what was happening to be passed back by those in front. You could sense the tension in the mass of subdued voices. Many doubtless revelled in the anticipation of confrontation. The very fact of Elijah's appearance, let alone the suddenness of it, was a guarantee of drama; the prospect of a face-off between two great authorities, royal and divine, was too good to be missed. Others, more sophisticated, quailed. If Elijah appeared out of the blue like this, it could bode nothing good. They feared the moment of divine punishment for Ahab's transgression» (Hazlton, 2007: 54).

O excerto anterior sublinha a atitude, mostrada em Reis, de antecipação pelo povo do que irá acontecer. O povo, supostamente conheceria bem as duas figuras em causa, baseando-se no seu ethos prévio ou imagem pública. Sabiam pois que o conflito estava eminente. A corroborar este indício está a recriação pela autora do discurso interno que poderia ter tido a rainha, com base nas suas atitudes, nas entrelinhas do texto de Reis:

Yet, the minute she laid eyes on the man, Jezebel's first impulse was to break out into mocking laughter. This was the great Israelite prophet whose name she'd heard spoken with such fear and trembling? All she saw was an emaciated wreck of a man whose clothes – if clothes they could even be called – were mere pelts, still ripe with the blood of the animals they'd come from. His long matted hair was tangled with filth, his beard a mass of knots, his teeth stained brown by the carobs she'd heard he lived on – honey and locusts, they'd say in centuries to come, not realizing that the carobs were the fruit of the honey-locust tree.
She took in the gnarled fingers clenched around a coarse wooden staff; the long jagged fingernails curled and yellowed with neglect; the eyes burning with fever, or perhaps fervor – they were, after all, much the same thing. What kind of man would do this to himself?A delusional man, surely. A creature to be sorry for, to turn gently away with scraps from the table. A pitiable creature, teased by young boys and stoned by adolescent bullies.
She didn't laugh, of course. She had to much self-control to give in to such impulse. But she gathered the silk folds of her robe close about her with a slight shudder, as though the prophet's very presence could contaminate her. He didn't belong here, in her court, her domain. He was an intrusion, an apparition from a world that was the antithesis of hers. And she could see in his eyes that he knew it. That this was precisely why he was here» (Hazlton, 2007: 54-55).

Há porém um único ponto negativo do livro: o ser-nos dada uma visão deste episódio histórico um pouco, talvez, excessivamente centrado no ponto de vista de Jezebel e Ahab: naquele tempo era grande a diferença em termos de riqueza e prosperidade de uma nação que dispunha de um fortíssimo empório comercial como Tiro e o seu reino vizinho a Sul, Israel; comparativamente, este último estava longe de ser tão abastado quanto o seu vizinho a Norte, e o povo, em particular, passava dificuldades. O medo de Elias – sem desvalorizar as consequências negativas da componente xenófoba e misógina desse medo – era de que, a juntar ao domínio económico viesse também o domínio religioso e cultural, sem que daí adviesse uma mudança no estilo e qualidade de vida para o povo de Israel, em cuja memória estava ainda inscrito o período de escravidão no Egipto. E, como tal, os Israelitas tinham sem em mente a necessidade de ter uma figura que pudessem colocar no lugar de Moisés. Um líder espiritual, inspirador que fizesse a ponte entre o mundo terreno e o mundo do espírito, o visível e o invisível. Elias, pela impressão que causa, segundo a própria Hazlton e segundo, também, as fontes antigas, era detentor dessa aura. Daí o sentimento de reverência expresso pelos guardas no excerto seguinte:

«Not even the king's guards had dared deny him entry into the main reception hall of the Samarian palace. If there was an element of derision in the way they looked at him, there was also awe. They may have wanted to snicker at his looks and his garb, at his uncouth speech and unkempt hair, but it seemed there was a power in him that they dared not challenge. He had an aura of a man appointed by the divine, one who had heard the voice of their god and transmitted it to them. And his wretched appearance worked only to strengthen this charismatic aura. His primitive clothing was the sign of holiness, not in the sense of modesty and humility – no barefoot Franciscan, this – but as a deliberate and calculated slap in the face of all human authority and custom» (Hazlton, 2007:55-56).

E finalmente o capítulo chega conclui-se com o retrato do homem “inspirado” pelo divino, ao identificá-lo com a paisagem geográfica que é o espelho do seu ethos:

«The image of Elijah is indeed that of a stark man from a cruel land. Yet compared to the West Bank of Jordan Valley, his native Gilead on the East Bank of the river is the image of fertility. Today it is part of the Kingdom of Jordan, but it still has what the hills of Samaria had not: water.», (Hazlton, 2007: 57).

Enquanto prossegue a análise crítica do ponto de vista literário do Livro dos Reis, a autora continua a usar o conhecimento detalhado da geografia local para explicar a atitude das personagens e descodificar a intenção dos autores que o escreveram o texto bíblico. Ela própria percorre, de carro, o território para atestar a aridez e o carácter inóspito, tanto do relevo quanto da fauna locais, a moldar o carácter de quem lá vive através dos séculos. Este episódio dos cães selvagens é um dos mais impressionantes de toda a narrativa:

«I took the narrow asphalt lane leading toward Listib. I didn't think to check with my passenger. To come so far and not stand on the place where Elijah was born was inconceivable to me. But not to De'eb. So far as he was concerned, the view from the Byzantine ruins was as close as anyone would ever want to get. “No way,” he said with alarm when he realised where we were heading. “There are dogs there, and I'm afraid of dogs”.

It seemed absurd that a man named for a wolf should be afraid of dogs, but De'eb was deadly serious. We negotiated: “Okay, but I'm not setting foot outside this car,” he said, and on that understanding, I turned on to a dirt track and started up the hill. Which was when the dogs appeared.

They seemed to come out of nowhere, five or six of them – in the panic of the moment there wasn't really time to count. Some were pure white, others mottled, and it was immediately clear that they were built and moved like wolves, not mere dogs. They were wild wolf-dogs, that is, and clearly more wolf than dog.
They blocked the track, snarling ferociously, wild-eyed and jittery. It needed no imagination to see those teeth ripping an arm from your body and coming back for more. Then without warning we were surrounded by them. They launched themselves at the car – at the wheels, onto the hood, at the windows, which I managed to close just in time. They yelped as they bounced of f the sheet metal and then hurled themselves back to one-sided fray, claws searching for purchase. The car shuddered under the assault. In front of me, open jaws spattered drool on the windshield. To one side, fangs loomed inches from my eyes. To the other, De'eb was bent double, his head buried in his hands.

I looked for someone to call of the attack, but there didn't seem to be a single person around. No washing hanging out to dry, no chickens or donkeys or any other signs of human habitation. So far I could tell, the mud-brick hovels were abandoned, and the wolf-dogs owned the hill.
The car's metal casing suddenly seemed very fragile. With no room to turn on the narrow track, I finally regained my senses and backed down from the fray and off that hill as fast as I dared while I still had air in the tires. The wolf-dogs kept up the attack as far as the asphalt, then ranged themselves in a row at the threshold of the dirt track, barring it. They were snarling and panting but no longer attacking, their pose that of zealous guardians who had successfully defended their territory.
De'eb just stared at me, eyes wide open with fear, shaking his head. I only started shaking as I drove away, when I realized I no longer had any doubt that this was where Elijah was born.», (Hazlton, 2007: 60-61).



Chapter 4. “Carmel: in which the gods have a showdown”

Nesta fase do livro, a autora trata de esmiuçar a desconstrução do discurso atribuído a Elias no Livro dos Reis ao expor a forma como, através dele, é construído o retrato da rainha Jezebel que se fixará para a posteridade no imaginário colectivo.

Os acontecimentos ocorridos no Monte Carmelo, onde Elias dá conta, nas suas visões inspiradas, do que seria, supostamente, o futuro de Israel: povoado de acontecimentos nefastos, por culpa supostamente da promiscuidade cultural, religiosa da Rainha e, já agora, sexual, do Rei Ahab. Um castigo imposto por Yahweh pelo facto de o rei casar com uma mulher não israelita. Os argumentos são praticamente os mesmos que os utilizados por qualquer membro de um qualquer partido da extrema-direita na actualidade, seja ele proveniente de um estado teocrático ou laico. Ao lermos as palavras de Hazlton ao falar de um profeta que profere constantemente discursos políticos, revestidos de religiosidade e apresentados sob a forma de profecia, não podemos deixar igualmente de tecer comparações com políticos peritos no discurso demagógico dos nossos dias. O texto de Hazlton adquire, aqui, a forma de comentário explicativo, como se estivesse a dar uma aula Pragmática ou Análise do Discurso ou até de Ciência Política, mas numa perspectiva psicanalítica. A temática do capítulo centra-se, praticamente, toda ela, no efeito aterrorizante ou, pelo menos, intimidatório das maldições contidas nas palavras do profeta e do efeito que provocam nos destinatários da mensagem:

«Curses are still chilling. Anyone who's been cursed at by another driver on the road knows it. The very fact of having engendered such rage in someone else is discomforting. You drive on, telling yourself that whatever was said, they were just words, but still, a pall seems to have descend on the day. You know that the words were impersonal, that they were a manifestation of the other driver's problem, not yours, yet you can't help but take them personally. They reverberate, because curses carry force even in the twenty-first century. In the ninth century B.C., they carried far more. They were a direct invitation to the gods to do their worst. Or rather, a direct promise by the gods» (Hazlton, 2007:77).

E logo a seguir ao exemplo da actualidade estabelece a analogia com o exemplo bíblico:

«The Bible is full of curses. They haunt its stories, populating them with foreshadowings of a dire and terrible future. In the mouth of someone speaking in the name of the divine, they were literally awesome – full of awe. Call down a curse in the name of your god, and that god's power was behind the curse. Call down a curse as a prophet of Yahweh, and that was Yahweh's curse» (Hazlton, 2007: 77-78).

Primeiro, na corte de Jezebel (vide capítulo anterior) e depois no monte Carmelo é precisamente essa a reacção dos presentes mediante as palavras e o discurso de ódio do profeta. Todos os destinatários da mensagem, sem excepção, inclusive a rainha, ficam paralisados pelo terror. Sobretudo aqueles que se encontravam, já de si, com a mente fragilizada pela seca prolongada que assolava a região e que ameaçava matar o povo pela fome. Um fenómeno para o qual desconheciam, naquela época, qualquer explicação científica, sendo que a materialização de uma fúria divina e a necessidade de encontrar um responsável pelo despoletar de tal ira se ajusta que nem uma luva a este tipo de discurso, encontrando ali terreno fértil para fazer medrar o clima de instabilidade e conflito, com o objectivo de derrubar a casa real e impor outro tipo de ordem social:

«But of all curses possible, the worst by far was drought. The Israel highlands were almost totally dependant on rainwater, and the winter rains were as variable then as they are still today in any semi-desert area.
(…)
Rain was beyond human control. It was the province of the gods. In the absence of science, theology provided the explanation of nature and served as both the physics and meteorology of the time. Everything was either the result of divine actions that merely happened to impact human beings, which is how Phoenicians saw the world, or the demonstrative will of God, which is how Yahwists saw it. You might say that where the Phoenicians were at the mercy of their gods, who were neither benevolent nor malign, Israel determined the actions of its god by its behaviour, and he could be both benevolent and malign. When pleased, he granted rain; when displeased, he withheld it. And never, according to Elijah, had he been displeased as he was now» ( Hazlton, 2007:78-79).

No excerto que veremos a seguir, a autora recria o pensamento de Jezebel acerca desta questão, ao comparar ambos os pontos de vista, Israelita e Fenício, que se apoiam em sistemas religiosos diferentes, neste caso antagónicos, para dois povos (ou determinados grupos neles integrados) cujos interesses colidem:

«How could humans think themselves so important in the divine scheme of things that their actions could determine drought and bounty, life and death? The very idea of the divine as a system of reward and punishment was abhorrent to Jezebel. For a god to be jealous of humans – jealous for their praise and their loyalty – seemed a terrible diminution of the whole idea of the divine. Baal Shamen played in the sky regardless of what humans did below. He didn't need their worship and devotion to assure his existence. He was beyond such reassurance; that was the essence of his divinity.
But this Israelite brother of his, Yahweh, was possessed by such a fierce jealousy and was so dependant on human loyalty, that he was driven to extraordinary wrath if crossed» (Hazlton, 2007:81).

Na óptica de Elias, Israel estava a prostituir-se, vendendo-se aos interesses de Tiro, através daquela a quem chamava de Grande Meretriz, a Rainha Jezebel. Segundo Hazlton esta não seria, mesmo do ponto de vista do profeta, uma meretriz no sentido literal do termo mas figurativo, vendendo-se em nome dos interesses da nação e praticando uma espécie de lenocínio com Israel, da mesma forma como tenta fazer a Al-Qaeda nos tempos modernos, com o mundo islâmico que não se submete à sua visão extremista da religião. E, da mesma forma, como viria a fazer o DAESH, sete anos depois de a autora ter escrito este livro:

«As Elijah saw it, Israel was selling its soul for the material benefits of trade with Phoenicia and Damascus. Thus harlotry had to be punished, and the punishment had to be a collective one – one in which everyone would suffer, guilty and innocent alike. For in Elijah's mind there were no innocents. Every Israelite was part of the covenant, and everyone was thus responsible. Only collective punishment could rouse them into action, waken them from their heathen state of well-being, and shock them back in their true faith» (Hazlton, 2007: 82).

E aproveita para fazer a analogia com a situação geopolítica no Médio-Oriente no século XXI, (destaques meus):


«Twenty-eight centuries later, Ayman Al-Zawahari, the second-in-comand of Al Qaida would redefine this stance as “internal jihad”. Shock tactics were needed to rouse Islamic masses into awareness, he declared. Muslim unbelievers were not merely heathens, but worse than heathens, since their betrayal came from inside. Religious warfare against them was thus a legitimate means to protect the purity os Islam.
(…) Any strategy was valid to break what Zawahiri called “the spell” of foreign influence, impurity, and corruption. Like Sayyid el-Qutb before him, he saw himself as fighting an epic battle against an evil empire. Foreign ideas were corrupting Muslim minds, values, and society; once corrupted, people were no longer true Muslims and so could be killed. The terror thus created would shock others into rising up and overthrowing Western-influenced regimes. Violence would become what Franz Fannon called “a cleansing force” restoring pride and dignity. It would become redemptive.
Radical Islam's most bitter criticism was reserved not for the West but, as Stern noted, for Arab leaders. “Arrogant, corrupt, westernized princes and autocrats,” Sayyid el-Qutb called them.
In Egypt, President Anwar Sadat's assassin [on the twentieth century] saw him as a traitor to Islam and the Islamic people. So too in Israel, Prime Minister Itzhak Rabin's assassin saw him as betraying Yahweh and the Jewish people. Paradoxically, radical fundamentalism bridges religious differences. Extremist Jews and Muslims may hate one another, but they are mirror images. They subordinate the core values of Judaism and Islam to their radical view of the world until extremism itself becomes a separate faith all its own» (Hazlton, 2007: 82-83).

No reinado de Jezebel e Ahab, o Monte Carmelo, situado no território onde hoje se estende a cidade de Haifa, junto ao Mediterrâneo, foi o cenário de um impressionante episódio histriónico-épico-dramático que implicou um desafio teológico, numa espécie de “competição olímpica de deuses”, a envolver Yahweh, ou melhor, os seus sacerdotes, do lado Israelita, e os sacerdotes de Baal, do lado Fenício. Elias encabeça, a tribo de sacerdotes israelitas a desafiar o a tribo adversária, para uma exibição de poder divino, de onde sairá vencedora a facção que conseguir despoletar a reacção mais espectacular do respectivo deus. Para a Autora, Baal e Astarte, do lado Fenício, com a sua tradicional indiferença à interacção humana são, à partida, os perdedores.

Hazlton chama a atenção para a astúcia e calculismo do profeta na escolha do local onde, devido ao conhecimento detalhado quer da geografia quer do clima na região, consegue percebe a aproximação de um fenómeno climatérico extremo, sobretudo pela longa ausência que precipitação que está prestes a terminar. Por outro lado, este é também um local estratégico em termos políticos:

«Elijah had chosen his stage shrewdly. The Carmel divided and united two kingdoms, as was sacred to both. There was no more perfect place for a confrontation between the priests of one people and the prophet of the other» ( Hazlton 2007:86).

Como já foi dito, a seca assolava a região há tanto tempo que quem conseguisse fazer manifestar o poder divino através das mudanças climatéricas, conseguiria também o controle da população. No Livro dos Reis o profeta de Yahweh consegue, após serem invocadas por seis vezes as forças divinas pelos sacerdotes rivais, “fazer acontecer” algo. O número sete aparece aqui a figurar como número mágico no texto. Sendo em Israel trivial a ocorrência de fortes tempestades após um prolongado Verão, sobretudo particularmente seco e quente, como teria sido nesse ano, o texto é arranjado posteriormente de forma a parecer que há a intervenção de um elemento sobrenatural e mágico a ajudar quer à meteorologia, quer ao sentido de oportunidade de Elias, que espera o momento em que a tempestade está prestes a rebentar para intervir, deixando os Fenícios caírem no ridículo.

«Elijah was the great magus of Israel, the sorcerer, the man who could suddenly appear and just as suddenly disappear, who could call down lightning and rain, who could raise children from the dead, multiply grain and oil, and who, when he died, would leave no body, but would be carried up to heaven in a whirlwind. And if many of his actions seem familiar from other biblical legends, that was deliberate on the part of the King's authors. They were establishing Elijah as the new Moses, the great liberator, which is why Elijah and Moses would appear together, with a third great liberator, Jesus, at the Transfiguration on Mount Tabor» (Hazlton, 2007: 97).



Chapter 5. “The Vineyard: in which Jezebel is accused of murder”.

O capítulo 5 relata e analise um dos episódios que se revelaram cruciais para a cristalização da imagem de vilã despótica da Rainha Jezebel e, talvez, o maior erro estratégico e diplomático de todo o seu reinado: a questão relacionada com os vinhedos de Naboth. A cena decorre do antigo vale de Jezreel – hoje local arqueológico de escavações – onde o casal real tinha o palácio de Inverno, situado numa fortaleza quase inexpugnável, e em cujos terrenos limítrofes se dá a disputa de um outro terreno vizinho, cobiçado pelo casal real, que despoleta um sério conflito entre o rei e o proprietário, Naboth.

O que perpassa em Reis é que a proximidade dos vinhedos de Naboth ao palácio de Inverno de Ahab e Jezebel, tornava aquela propriedade muito apetecível ao casal real, levando a uma disputa de terras que termina da pior maneira, uma vez que Naboth se recusa a vendê-las. A isto, a intervenção de Elias na contenda vem incendiar ainda mais o conflito. Mas do ponto de vista de Hazlton, esta foi uma situação muito mal gerida pelo casal real em termos de diplomacia. Uma situação que é mais uma vez habilmente aproveitada pelo sacerdote, que já havia habituado a sua audiência ao discurso populista e demagógico que o caracterizava. Na perspectiva da autora,, a rainha e Ahab queriam construir um jardim ornamental, possivelmente equipado com uma vasta colecção de ervas medicinais, à semelhança de outros que já existiam noutras casas reais, como na Pérsia ou no Egipto, mas a proposta não foi vista com bons olhos pelo establishment Israelita:

«Not that the idea of an herb garden hasn't its own intriguing possibilities. Herbs were not merely means of flavoring food. They are primarily used for healing. Medical knowledge was herbal knowledge. Healers and midwives – the “wise women” – did the everyday work of collecting and preparing herbs and administering them, but the public healing of a miracle worker like Elijah was seen as a manifestation of the divine. Which left open to the question of which divinity was at work.. Elijah healed in the name of Yahweh, but the best-known healing divinity throughout the Middle East was the Mesopotamian goddess Gula, she of the giant mastiffs, guardian of the doors between life and death. The herb garden may well have been euphemistic scribal shorthand for a temple to Gula, to be built by Ahab as another gift to Jezebel.»; (Hazlton, 2007: 107-108).

A disputa acaba de forma violenta e trágica para o pobre Naboth, gerando a oportunidade perfeita para construir a pior imagem possível de Ahab e Jezebel ao olhos do povo e das gerações vindouras. Naboth insistira em manter as terras na sua posse, apesar de o terreno não ser o mais indicado para o cultivo da vinha. A recusa em vendê-la a Ahab baseava-se na invocação do direito divino à mesma, concedido por herança. Mais uma vez, a autora estabelece uma analogia com a época actual, extrapolando o episódio para as disputas territoriais entre Israel e o Hamas pelestiniano:

«This attitude to the land of Israel is directly mirrored in the Modern Islamist one to Palestine, the same land by a different name.
(…)Both sides to Israel-Palestine conflict see this literally as holly land. In fact, not just the land but the very soil is holy.
(…)
This is why Naboth says no. He invokes the covenant: the land does not belong to him as much as he belongs to the land.»; (Hazlton, 2007: 110).

Mas apesar da marcada polarização entre ambas as personagens antagónicas (e dos dois lados do conflito Israelo-Palestiniano na época contemporânea) não se pode deixar de perceber, nos insterstícios do texto de Hazlton, que se Elias age, no Livro dos Reis (apesar da tentativa de branqueamento da sua imagem pública pelos seus autores), como um autêntico Iago, Jezebel, no tocante à posse dos vinhedos de Naboth, sem olhar a meios para levar a sua avante, não se consegue livrar da imagem orquestradora de uma intriga palaciana muito ao estilo de uma Lady Macbeth. Naboth será a vítima das intrigas de ambos os contendores, intriga essa que deixará raízes malignas para o futuro da Israel de então e que se estendem até aos dias de hoje:

«Under the influence of Ahab and Jezebel, the ancient Israelites had begun to take de land for granted. The experience of Israel as a normal kingdom in peaceful, prosperous relations with its surrounding kingdoms had lured them into forgetting the conditionality of the covenant. Prophet after prophet warned that they were being seduced by the physical solidity of the land into ignoring the precariousness of their claim to it.
(…)
This is the real story of the Kings. The anticipation, the experience and eventually the memory of exile. In the words of Walter Brueggemann: “Kings is the history of landed Israel in the process of losing the land.”»; (Hazlton, 2007: 121).


Chapter 6. “Sinai: in which Elijah rides a whirlwind”


E aqui chegamos a um dos pontos mais emocionantes desta análise da narrativa de Reis: a parte em que Elias invoca as forças divinas e, na qualidade (auto-concedida) de mediador entre a voz e a vontade divinas e os humanos, solta uma maldição dirigida a Israel em geral e ao casal real em particular, sobretudo a Jezebel, após o que desaparece no meio de um vórtice de vento e fogo.

O local que havia escolhido para mais uma demonstração de poder obedece, mais uma vez, a imperativos estratégicos: um local de passagem, na fronteira entre Israel e o Egipto, por onde os Israelitas fugiram à escravidão, como é relatado no livro do Êxodo. É o lugar ideal para transmitir a ameaça de ira divina (sobretudo num momento em que se avizinham condições climatéricas extremas como mais tarde veio a verificar-se). Na verdade, as coisas passam-se de uma forma um pouco imprevista para Elias, como se a maldição se virasse repentinamente contra si próprio mas, paradoxalmente, a sua imagem sai reforçada:

«Mount Sinai is an imposed mass of jagged granite in the Southern Sinai desert, set of from the surrounding mountains not only by giving its height but by deep ravines. At the very top, a bolt of black volcanic rock thrusts up through the granite to form the peak of the mountain, known as Jebel Musa, Arabic for Moses Peak. Stand here at sunrise and it's as though you are at the highest point of a massive altar. With majestic slowness the universe seems to reveal itself at your feet, range after range of mountains, until you have the entrancing illusion of being truly on the top of the world.

Strange things happen in these high desert mountains. Strange tricks of light, as when you walk along a narrow shaded defile and suddenly emerge into a deep red light that seems to infuse you with unearthy beauty. Strange tricks of the wind too. At times you can hear the mountain breathing, even moaning. In the dry desert heat and the thin air of altitude, it«s hard to tell what's real and what's in your mind. The slightest things – a sudden flight of three birds, a single ray of light shining through a gap in the rock – seems like omens. The mountains reputation suffuses every moment you spend on it. It becomes, as Nikos Kazantzakis called it, “the God-trodden mountain”.»; (Hazlton, 2007: 125-126).

O fim terrível de Elias, após convocar a divindade, mediante o terrível vendaval que se aproximava foi suficiente para convencer, aterrorizar e subjugar pelo medo a população. Isto porque, à luz dos conhecimentos da época, quem se atrevesse assim a tentar comandar a vontade de Yahweh poderia acabar fulminado ou desaparecer num redemoinho de vento, tal como acontecera a tão atrevido profeta. Ao longo do capítulo a autora desenvolve a ideia de como um fenómeno natural a ser aproveitado astuciosamente pela classe de sacerdotes, que foi por estes posteriormente reinterpretado editado e fixo, séculos depois dos factos ocorrerem, nos textos da Bíblia.

«To the modern reader, a book is a cohesive work, written within a limited time frame by a simgle person, unless other authors are specifically named. When we think of the biblical books, we imagine either divine authorship or a single human author, presumably writing at the time of the events narrated. Yet, decades of modern scholarship have shown that Kings was begun only in the sixth century B.C., shortly before Babylonian exile, and was finished at least some fifty years later, in exile, since that is when the narrative ends.
To assume that it was entirely written earlier, is rather like assuming that a first-person narrative by someone who gets killed at the end is true. You know it has to be a fiction, or the author couldn't have written the book. Not that author, in any case.
But this was only the first draft. Further drafts were made after the return fro exile»(Hazlton, 2007: 130).

O que a autora quer aqui dizer é que, não sendo uma Reis narrativa de primeira pessoa e tendo o livro sido escrito muito depois de os factos ocorrerem, esta é já uma versão muito modificada dos factos. Mesmo a primeira versão seria já uma recriação a partir de depoimentos de outrem, sendo esse outrem também ele recriador da sua própria narrativa. Logo os acontecimentos de Reis estão longe de ser o resultado de um testemunho em primeira mão, mas antes fruto de tradição oral e de uma recolha de um património imaterial, com um considerável desfasamento no tempo, com tudo o que isso acarreta em termos de modificação da descrição dos acontecimentos. Mais ainda: a autora explica que, para além do primeiro “draft” como lhe chama, há também as sucessivas cópias, executadas com o objectivo de se proceder à substituição de papéis deteriorados, traduções, com inúmeras alterações ao sentido do texto original, até por não se encontrar, muitas vezes, termos correspondentes na língua de chegada. Para além dos textos e fragmentos que foram desaparecendo com o tempo, até que o texto bíblico adquirisse o formato que hoje conhecemos (veja-se, a propósito desta questão, a polémica inicial causada pela nova tradução da Biblia cristã, a partir do grego, por Frederico Lourenço em Portugal).

Assim, para a autora, o Livro dos Reis, escrito na sua maior parte durante o período de exílio, obedeceu mais a uma intenção messiânica de resgate do seu próprio país e identidade cultural pelo povo de Israel do que a um relato neutro dos acontecimentos. No entender de Lesley Hazlton, esta intenção messiânica sobrepõe-se completamente aos factos, para ocupar a posição central na narrativa do mesmo livro e atira o que realmente aconteceu (incluindo o episódio do Monte Sinai) para a obscuridade.

«Like most storytellers, then, the Kings' scribes had an agenda. They were not independent historians but employees of the Jerusalem temple, consciously working of sacred texts that were central to the identity of the Judean nation. And these were indeed texts, not books, because books didn't exist then the way they do now. (…) Hardly anyone could read, let alone write, which is why a special class of professional scribes existed.
(…)
The written word was not a means of communication but a sacred object in and on itself, intended to preserve, sanctify and enshrine traditions of nation and identity. So, with each consecutive copy, the scribes “improved” the text to bring it into line with their purposes.
The basis of the Kings, often referred to in the text, is “The Chronicles of the Kings of Israel”, though no copy of this has ever been found. Assuming that it indeed exist, it is only one of the multiple strands within Kings' . Over the centuries, the scribal copiers expanded the narrative, dropping in whole sections, such as the miracle tales about Elijah and his successor Elisha, which bear the distinct signs of folk legend. They added in stand-alone chapters like the one on Ahab sparing the life of the king of Damascus, or the story of Naboth's vineyard, and because it was so difficult to scroll back to check the chronological flow of the narrative, they dropped the in where it seemed to the appropriate.
(…)
Kings reached the form we now know only in the third century B.C. When the Hebrew bible was translated into Greek an began to be canonized – set in stone, as it were. By then, it had taken on a kind of dream logic. Time is condensed or spaced out or even reversed. Geography expands or contracts at whim. What we know to be impossible takes place with the nonchalant certainty of fact. But none of this mattered. This was a narrative history of the relationship of the human to the divine, a testament to the trinity of god, people and land. And it made its own demands.
The narrative demanded that Elijah not to be defeated by Jezebel. It demanded that he have the last word, that he redeem his cowardice and fear, and that he impose the judgement of Yahweh on her. So the vineyard story was dropped in where it was by a latter editor because this is where it made more emotional sense.»; (Hazlton, 2007: 132-133).


Chapter 7. Damascus: in which Ahab fights his last battle

No capítulo 7, chega-se ao desfecho de mais uma personagem importante no plot, dentro do cenário de guerra entre Israel e o vizinho sírio: Ahab Rei de Israel, marido da protagonista. Na bíblia, a maldição de Elias, segundo Hazlton, havia já afectado consideravelmente o ânimo do monarca e a disposição do casal real, por carregar em si a força oracular de conotação profética. Os autores de Reis por seu lado não poupam a esforços para realçar essa mesma imagem de desalento e enfraquecimento anímico no casal real, que teria caído sobre eles como uma forma de castigo divino, e assim atribuir maior “veracidade” e verosimilhança às profecias do homem que começava então a ser olhado como veículo transmissor da “força divina”:

«The shadow of Elijah's words darkened every moment of Ahab's life. How not, when his death had been withheld for his own good? Ahab tolerated other faiths for pragmatic reasons, but only his faith in Yahweh could have sent him into such remorse.
(…)
For this reason alone, Elijah's words weighed heavy on Jezebel and all the heavier when, inevitably, Ahab did indeed die» (Hazlton, 2007, 146-147).

A primeira secção deste capítulo é dedicada à descrição do clima de fatalidade que antecede a acção e prepara o leitor ou ouvinte para o que vem a seguir. O discurso de Hazlton é, todo ele, construído com base em indícios que tem o efeito de aumentar a tensão no leitor impelindo-o a prosseguir obsessivamente na leitura. Na secção seguinte, continua o adensar progressivo da tensão psicológica, que atinge um nível quase insuportável, centrando-se o plot na intensificação do [eterno] conflito diplomático entre Israel e Damasco.

«When Ahab spared the life of the Damascus king, Ben-Hadad, the treaty he concluded assured continued Israelite control of Ramot Gilead. But this was to be only one phase of a hundred-year war between the two states for the stronghold. No treaty could last long in this time and this place, and this one would end with the death of the aging Ben-Hadad. His son succeeded him, taking the title of Ben-Hadad II, and immediately abrogated his father's treaty with Ahab. Seething with resentment at his father's agreement to cede such a vital fortress, the new king attacked Ramot Gilead. Damascus and Israel were at war once again» (Hazlton,2007 :147).

Por fim, o trágico desenlace respeitante ao Rei Ahab e os rituais de luto da cerimónia real a que preside a Rainha marcam o ponto de viragem radical no curso dos acontecimentos. As exéquias conduzidas segundo a tradição fenícia acicatam ainda mais no povo o sentimento rebelião e repúdio contra todo e qualquer traço cultural vindo de “fora”. O status da Rainha e o respectivo papel na condução das funções do Estado são imediatamente alterados em função do novo estatuto de viúva, uma vez que Jezebel passa a assumir, as funções de regente do reino e se torna o principal alvo do ódio dos sacerdotes, já não com Elias à cabeça, mas com o seu sucessor, Eliseu (Elisha). Por outro lado, a disputa do trono pelos filhos de Ahab fornece a este grupo de interesses, o cenário ideal para prossecução do seu principal objectivo: dividir para reinar.

Na segunda parte do capítulo, a Autora explicita a questão dos sacrifícios humanos alegadamente utilizados nos rituais religiosos Fenícios. A autora levanta a hipótese de estes não serem senão uma invenção dos sacerdotes de Yahweh para derrotarem a religião rival no sentido de causarem o repúdio desta pelo povo, ou no caso de estes sacrifícios terem efectivamente existido, ser a sua frequência largamente amplificada (a autora avança a hipótese de a tradição ser a que é descrita no Génesis com o episódio de Abraão e Isaque – sacrificar-se um animal no lugar da criança). A dúvida quanto a esta questão, levantada por Hazlton, reside no facto de não existirem registos nos reinos ou nações contemporâneos ao reinado de Ahab, sobretudo naqueles que derrotaram Israel, a menção de tais sacrifícios, salvo nos textos escritos pelos sacerdotes Israelitas.

«No such language appears on the stele for the excellent reason that such a sacrifice most likely never took place.
Child sacrifice is part of the written legend of ancient times. For instance, when archaeological excavations unearthed jars full of ashes and burned bones of infants at Carthage, the Phoenician colony established on the coast of what is now Tunisia, they were taken as proof that the Phoenicians practised child sacrifice.
But such an argument favors fantasy over a more persuasive reality. The extraordinarily high infant mortality rate of the time – as many as three out of five – meant that newborns were not even named until the fortieth day of life. Those who died unnamed, either in childbirth or shortly after were cremated and their ashes stored separately in testament to their special status, in a kind of limbo, much as an unbaptized infant's death was once regarded in the Christian West. The assumption that these remains are proof of child sacrifice is based on ancient Greek and Roman writings accusing other cultures of precisely this practice but to accept such account as historical facts is risky business. As will the supposed practice of ritual prostitution, the rumor of child sacrifice was a means of labelling others as unbelievably primitive and barbaric, and thus rape for the civilizing influence of colonization.
(…)
If Moab's King Mesha did in fact make a sacrifice to Chemosh when on the verge of defeat, an animal would almost certainly have been substituted for the child, as in the Abraham and Isaac story. The child would then become the guarantee of his father's oath, so that if the father broke his vow to the divine, his child would be forfeit. In this Israelite culture was no different from its neighbors. (…) The Kings authors called up the old saw of child sacrifice to rationalize the Israelite defeat despite Elisha's prophecy of victory» (Hazlton, 2007: 161-162).

Neste ponto da narrativa, Lesley Hazlton prossegue a dissecação do texto de Reis, focalizando-se agora na narrativa respeitante ao sumo-sacerdote e profeta Eliseu, sucessor de Elias, que enfrenta uma situação assaz embaraçosa: a de que as suas previsões não se concretizam, saindo completamente goradas, o que o obriga a encontrar uma explicação convincente para não cair no ridículo. E nada melhor que um “castigo divino”, que virá a assentar como uma luva nos seus propósitos: afastar definitivamente a adversária, Jezebel, do trono e da chefia do Estado. No seu ponto de vista, Israel teria cometido uma falta, ao permitir rituais de execução de sacrifícios humanos em território de Yahweh. Era preciso arranjar uma explicação convincente e que causasse repúdio na opinião pública, veiculando o sentimento se horror e repulsa da população, nem que para isso se tivesse que forjar uma situação que desse a aparência de tal facto ter sucedido.

«No matter what happened, it seem that Elisha could do no wrong – or at least not be held accountable for it. His prediction of success in Moab had been demonstrably false, but if questions were raised about why so powerful a prophet could not have foreseen the rout, we know nothing of them.
(…)
With his reputation firmly established by such drastic means as killing the boys who teased him for being bald, and apparently undamaged by the events in Moab, Elisha now turned to more classic forms of miracle. Over the next few years, he multiplied loaves of bailey to feed hundreds; he made a simple jar of oil fill endless other jars; he raised a dead child back to life. He was everywhere: sometimes on Mount Carmel, sometimes in Samaria, sometimes down in the Jordan Valley. Word of his ability as a miracle worker spread far and wide, gaining his renown not only among Israelites, but also abroad - and most particularly in Damascus, Israel's constant rival.» (Hazlton, 2007: 163-164.)

Outro ponto focalizado no capítulo é a intriga junto do rei de Damasco, fomentada por Eliseu. Este é alguém que diz defender o seu povo mas que i ameaça, simultaneamente, com a ira divina. Alguém cuja preocupação com o sofrimento das pessoas é encenada para perseguição do seu desejo de poder, deixando entrever as imensas capacidades histriónicas de utilização da componente dramática no discurso, sempre que tinha diante de si uma audiência:

« From the man so ruthless as to casually kill children out of vanity, they [his tears, his grief for Israel] look suspiciously staged, as though produced on demand to give extra emphasis to his instructions ho Hazael. What he did to those boys, Elisha is now planning to do to the whole kingdom of Israel, using Damascus as the agent of his vengeance. The bald-headed prophet has the long-haired warriors of Israel at his mercy, and those of Damascus at his command. He has demonstrated the power of brain over brawn, of manipulation over muscle and might.» (Hazlton, 2007: 165-166).

Desta forma, o cerco a Jezebel vai-se apertando, os seus aliados vão desaparecendo ou sendo neutralizados, culminando com a morte de Ahab e a traição do infame Jehu, o chefe militar israelita:

«The whole of the Israelite high command is now a conspiracy to seize power. And as they prepare to ride from Ramot Gilead to Jezebel to dispatch the king and the queen mother, you realize all this has to have been done with at least the tacit acquiescence of Damascus since it would be impossible for Jehu and the other generals to leave Ramot Gilead unless Hazael had called off his troops. Jehu thus becomess the puppet of the king of Damascus, and both in turn are the puppets of Elisha, who has stayed firmly behind the scenes, pulling every string with masterful precision» (Hazlton, 2007:168-169).



Chapter 8. Jeezreel: in which the dogs feast.

E chegámos ao capítulo onde se dá o clímax da acção em que é consumado o destino de Jezebel. Na narrativa bíblica de Reis, o fim horrendo da Rainha é dado a conhecer de forma a servir de exemplo, para todas as mulheres cuja conduta não siga à risca os costumes, tradições e religião, que são a base do patriarcado, extravasando as funções típicas de esposa, mãe e zeladora do lar.

O local onde decorrem os acontecimento é na cidade fortificada de Jezreel, onde a esposa do malogrado rei Ahab aguarda o que a espera e prepara-se para as suas próprias exéquias antevendo que o seu fim estará próximo. Mas no texto bíblico o que é realçada é a forma a Rainha se arranja para receber os seus inimigos, dando a entender tratar-se de uma tentativa patética de sedução, e como o seu corpo é cruelmente despedaçado por cães especialmente treinados para o efeito. A autora explica a forma como simbolicamente a bíblia utiliza a figura destes animais para fins nemésicos:
«There were once literally such creatures as dogs of war. Specially bred mastiffs trained both by the Egyptians and the Assyrians for use in battle, they were tightly tethered to make them more aggressive, then taken into battle on long chains to lunge and tear on command at any exposed body parts. The very idea of them was terrifying, let alone the reality. American soldiers in Iraq were working in a far more ancient tradition than they knew when they used attack dogs to terrorize and torture prisoners in Abu Ghraib.
This is a region were dogs still take advantage of human bloodthirstiness to assuage their own. “The wild dogs of Najaf ate well this week,” began a New York Times front-page story on the aftermath of a three-week battle between Americans and Iraqis in August 2004”. (…) Westerners have the luxury of thinking of dogs as their best friends, but in the Middle East they have inspired a complex mix of fear and awe since the earliest times on record.(...) Certainly dogs could be trained for the use in the hunt, on the battlefield, or as guards, but their obedience was always sensed as conditional. You were never allowed to forget how easily they could turn against you and how horrifying that return to the feral state could be» (Hazlton, 2007:170-171).

Na segunda secção do capítulo, é explicada a forma como foi arquitectada a intriga palaciana em que participa activamente o traidor Jehu ao reis de Israel e da Judeia, descendentes de Ahab e Jezebel. Lesley Hazlton avança a hipótese da agora rainha-mãe, ao saber que o seu fim está próximo se arranja cuidadosamente para o seu próprio funeral e para receber o inimigo com a dignidade de uma rainha e não como a imagem de meretriz com que a descrevem os narradores deste episódio no Antigo Testamento. Hazlton chega mesmo a estabelecer um paralelismo entre o trágico fim de Jezebel e o da rainha Cleópatra, também ela vilipendiada pelos seus inimigos políticos que se serviram da sua sexualidade para lhe distorcer a imagem de chefe de estado e assim construir-lhe um ethos de licenciosidade que acabaria por vingar na literatura, pela pena dos historiadores romanos da época. A defenestração de Jezebel e posterior destruição seu corpo pelos cães é o símbolo supremo da vitória do monoteísmo sobre o politeísmo em território de Yahweh. Neste caso, Hazlton contrapõe face às fontes clássicas, esta mesma hipótese explicativa. A corroborá-la, a atitude posterior de Jehu na tentativa de esconder a forma de tratamento ignóbil a que foi submetida a filha de um chefe de Estado, o Rei Fenício, com a ordem para que se enterrasse o que restava do corpo, horas depois de recuperar da embriaguez do festim e da euforia vingativa. Uma tentativa frouxa, que é defraudada pela acção dos canídeos (animais, nos arredores do palácio e, humanos, que se banqueteiam em celebração dentro das muralhas de Jezreel) que se lhe antecipam.

«His days work done, Jehu leaves the blooded corpse crumpled by the palace walls, enters the throne room in triumph, and orders a celebratory feast. Only when his stomach is full does he give a second thought to Jezebel. “Go see this cursed woman, and bury her”, he tells his aides, “for she is a king's daughter”. Not a queen, mind you, nor a queen-mother, but her original status, before she even came to Israel: daughter of the king of Tyre. So far as Jehu is concerned, the house of Ahab has already been wiped out of history. Jezebel's corpse is a mere afterthought» (Hazlton, 2007: 185).

O efeito na memória colectiva é, no entanto e de certa forma, contrário em relação ao objectivo inicial daqueles que se propunham apagá-la da História:

«Yet memory persists. Once we know the details of how Jezebel died, they remain engraved in our minds. In a perfect twist of irony, Jehu's insistence that she be forgotten makes her death – and her life – unforgettable» (Hazlton, 2007:190).


Chapter 9. Babylon: In which Yahweh is reborn in exile.

É neste capítulo que nos damos conta do anti-climax da narrativa. A tensão é aliviada após o momento de terror. Agora a localização espacial da acção situa-se já fora do território de Israel, e num tempo em que aquele povo está disperso, imerso num prolongado período de exílio e sujeito à escravatura: na Babilónia. Um ano após a destruição levada a cabo por Jehu da casa de Jezebel, este entrega o território ao invasor, pagando um pesado tributo em ouro, prata e outras riquezas, depois de haver transformado aquele país num reino de terror, recheado de purgas sangrentas.

Hazlton dá aqui conta de dois pontos de vista relacionados com este período na história de Israel: o primeiro é o facto de sobressair, na narrativa de Reis, a perspectiva dominante que é a da visão masculina e patriarcal representada pelos sacerdote e profetas de Yahweh: Elias, Eliseu e Jehu, este último o chefe militar traidor; e o segundo ponto de vista, aquele que se encontra patente já não na Bíblia mas nas estelas Assírio- Babilónias e de outras fontes contemporâneas à dispersão do povo de Israel na Idade do Bronze, a dar conta da história de um modo diferente:

«Israel had never been, more isolated. In it's newly cleansed state, it was an easy pray for its traditional enemy, Damascus, where king Hazael set about fulfilling Elisha's prophecy that he would wreak havoc in Israel. (…) It seems at first to be a flat-out contradiction of the Kings' account , which places the lethal arrows solidly in Jehu's hands. But it makes sense if Jehu was indeed operating under the aegis of Hazael and thus, in effect, his agent. And, in fact, Jehu's coup d'état could only have happened if Hazael had agreed to a cessation of hostilities at Ramot Gilead, leaving the usurper free to go about his bloody work on the home front. Essentially Jehu acted as Hazael's pawn, blinded by ambition to the obvious: the agenda of the king of Damascus was not his own. (…)

His eyes were open soon enough. The moment the Omrides and their supporters had been slaughtered and Israel's alliances irrevocably broken, Damascus renewed its attack, leaving Jehu with only one desperate option: turn for protection to Assyria, the powerful empire to the east of Damascus. So the self-declared zealot for Yahweh pledged his loyalty to Assyria, fawned at Shalmenezzar's feet, and thus betrayed his god» (Hazlton; 2007:194-195).

Qualquer semelhança com a actualidade (não) é pura coincidência.

Ao longo de toda a narrativa de Jezebel, a autora demonstra de forma progressiva e servindo-se de metodologias e instrumentos de análise e investigação vários, provenientes múltiplos campos de investigação afim de provar que toda a construção do discurso de Reis está longe de ser neutra, quer no aspecto religioso quer no aspecto político, de que o capítulo 9 é apenas a cereja em cima do bolo.

«When the Kings' writers told Israel's story, they stuck close to a highly parochial point of view, obscuring the larger political reality, which was that Israel's dramas were enacted entirely in the shadow of the Assyrian Empire, administered from its capital, in Nineveh, on the Tigris River – a magnificent city of canals and aqueducts, ornate palaces and bas-reliefs, reduced today to the battle-scarred misery of the Iraqi city of Mosul...
(…)
Their interest in the area focused on gaining access to the Mediterranean and control of the trade routes; to this end, they required peace, so Shelmanezzer and his successor imposed a king of Pax Assyriana, reducing all the Near-East kingdoms to vassaldom. Israel was now entirely dependant in the good grace of the Assyrians»(Hazlton, 2007:196-198).

Posto isto, ao reinado de terror e repressão de Jehu, seguiu-se a pacificação não menos brutal do gigantesco exército Assírio, responsável pela dispersão das lendárias “dez tribos perdidas de Israel”.
O mesmo iria suceder pouco tempo depois com o reino vizinho da Judeia, onde se haviam refugiado muitos dos exilados Israelitas, sendo a Judeia também anexada pelo Império Assírio-Babilónio, em 586 A.C. A autora esclarece a forma como os descendentes de ambos os reinos, Israel e Judeia, sobreviveram durante largos séculos no exílio, sendo o seu território ocupado por vários povos e província de vários Impérios: Assírio-Babilónio, Persa, Romano, voltando a constituir-se como estado somente dois milénios depois. Sendo que a religião se revelava fulcral como símbolo de identidade do povo Judeu e Israelita, a narrativa onde este elemento era central tornou-se essencial para estes dois povos, como forma de preservar a memória através da reprodução das vozes individuais e colectivas e respectivos choques culturais e guerras económicas políticas e, claro, religiosas...

«Much of the Hebrew Bible was first written in Babylon by a people determined to preserve their identity. Before the exile, their identity had been determined by that geography; now, in the absence of that geography, their identity could lie only in their history, so that is what they wrote – the story of how they came into the land, in Kings, and then lost it. As biblical scholar Mark Smith put it, “The text was substituted by land”» (Hazlton, 2007:201).

Essa era sobretudo a missão da classe sacerdotal no exílio:

«The scribes and priests and prophets carried one god into exile, and quite another out of it, a hundred and fifty years later. By the times Persia conquered Babylon and the Judean elite acted on Cyrus the Great's permission to return to their land, the territorial national god had been written in the abstract universal god, his power all the more awesome and terrifying precisely in the invisibility of its source. Prophets would no longer speak directly with him. There would be no more manifestations in burning bushes or lightening bolts, in voices loud with thunder or even still and small. There would be no more King's and queens to rail against either. Power would now be held by temple priests, and sacred texts would be the focus of allegiance» (Hazlton, 2007: 202).



Chapter 10. “Carthage: in which the spirit if Jezebel lives in”

O capítulo final, onde são apresentadas as conclusões, surge na obra à laia de epílogo, no tocante à análise narrativa do ethos da Rainha Jezebel em Reis. A excessiva polarização feita na Bíblia afim de engrandecer os seus antagonistas, acabou por gerar o efeito oposto do que se pretendia para Jezebel: atirá-la para obscuridade. Mas a autora vai ainda mais longe no seu raciocínio ao especular que Jezebel seria provavelmente lembrada de qualquer forma, devido à proveniência de uma casa real que representava uma das maiores potências comerciais da altura: casa de Tiro, produziu vários descendentes ilustres para além de Jezebel: Elitha, sua sobrinha-neta que ficou conhecida entre os Gregos por Dido, e de quem se diz ter se diz ter-se apaixonado por Eneias, logo após a queda de Tróia; e Paymayyaton, Pygmalyon (meio-irmão de Dido). Este último, após assassinar o cunhado, precipita a fuga da irmã, a qual fundará depois a cidade de Cartago, situada naquilo que é hoje o território da Tunísia.

Para Lesley Hazlton, A memória colectiva encarregou-se ainda de conservar o seu nome ao longo dos séculos, através da Literatura sendo estes também utilizados como nomes próprios, em virtude da expansão e influência de cidades-estado como Tiro e Cartago no sul da Europa, onde ajudaram a difundir a escrita, com o alfabeto Fenício, que funcionou como proto-alfabeto latino, influenciando também as línguas nessa região (em Malta, particularmente). A versão Fenício-Cartaginesa dos nomes Elitha e Itha-baal deram origem aos nomes, hoje em dia comuns em muitas línguas Europeias, em particular nos países Mediterrânicos e sobretudo na Península Ibérica como Elisa e Isabel.

Este não é um livro de Literatura em sentido estético, ou um trabalho de requinte no tocante à beleza e exploração de nova formas de linguagem. O discurso é simples, a linguagem extremamente acessível, passível de ser lida mesmo por quem não está particularmente motivado para gostar de leituras longas. A obra está escrita em inglês americano, de construção frásica não demasiado complexa, o léxico é elementar. No entanto, não me parece que Jezebel seja um best-seller. Isto por se tratar de um livro com intenção marcadamente iconoclasta, num verdadeiro ataque frontal ao patriarcado, o que por si só gerará anti-corpos nos sectores mais conservadores das sociedades ocidentais, sem falar nas repercussões que poderia ter se a obra fosse conhecida em regimes teocráticos. Para além do mais, trata-se de uma obra que, tal como o próprio livro dos Reis, contém em si uma agenda política: desmascarar a farsa que foi a criação do clima de guerra no médio oriente nos primeiros anos do novo milénio e apoiar a candidatura à liderança do partido Democrata de Hillary Clinton, que na altura disputava a chefia do partido com Barak Obama. Mas, como vimos, há múltiplas razões para se ler um livro como este que vão muito para além da mera beleza da prosa literária.

Cláudia de Sousa Dias


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