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Wednesday, January 09, 2008

“O Cheiro da Sombra das Flores” de João Negreiros (Papiro Editora)


Partindo do prefácio de Joaquim Pessoa sobre este livro de João Negreiros do qual destacamos as seguintes palavras - «…um jovem poeta que conhece (…) os caminhos, os segredos, a magia e a força do discurso poético (…) transformando, com invulgar talento, as diversas vozes que há na sua voz, de modo a oferecer-nos um canto em que a dúvida, a interrogação do outro, a confrontação do indivíduo com a realidade é, às vezes dolorosa e, muitas vezes, incómoda. A repetição rítmica das s palavras, das ideias, dos conceitos, é uma arma de arremesso contra uma realidade parada num palco que se move à sua volta.» - estamos perante um jovem com uma potencial invulgar, no âmbito da poesia.

Joaquim Pessoa torna-se mais incisivo na sua apreciação crítica da obra ao afirmar:

«Talvez a palavra inconformismo seja o que melhor define o posicionamento de João Negreiros (…) perante um conjunto de vivências (…) que não são mais do que sinais exteriores de uma vida formal, sem força interior (…)»


«Não é vulgar no panorama da nova poesia portuguesa (…) esta coragem de enfrentar o leitor. Negreiros rasga, fere, incomoda (…). O seu discurso não é doce, o seu lirismo está frequentemente carregado de ansiedade, de angústia, (…) mas também é ele que sai mais magoado (…) mas não vencido (…)».

«Os outros são o alimento da sua poesia, ao contrário do culto narcisista da maior parte da poesia que hoje se faz (…) onde cada livro tem dificuldade em inovar, em criar a diferença».

O Cheiro da sombra das flores destaca-se, por isso, no universo dos jovens poetas portugueses pela ousada mestria impressa no ritmo das frases, de onde sai uma profusão de jogos de palavras e sonoridades através de um quase que xadrez homofónico, no qual as palavras são compostas e decompostas, partidas a meio e depois reagrupadas, com uma grafia diferente. A fonética de palavras aparentemente semelhantes entra em rota de colisão com a grafia e a sintaxe, multiplicando-lhes o significado como no poema A voz dos natos mudos.

Onirismo e surrealismo são as palavras que nos ocorrem face à riqueza imagética sugerida logo pelo título O Cheiro da sombra das Flores.

Contradições, imagens difusas, que se confundem e se misturam como num sonho. Ou num delírio.

De entre as diversas vozes do Autor de que falava Joaquim Pessoa, sobressai a voz da Ausência como nos poemas A Tristeza, O Anjo que até dá pena e Código Postal – a este último mistura-se também a voz do Desamor -; a voz da Revolta em poemas de intervenção como O que a humanidade precisa, O emprego das palavras, ou Infantário de infantaria.

Há, também, uma certa dose de Nihilismo que espreita nas entrelinhas de O jornalista da vossa beleza e A beldade doente internou-se.

Há, também, a voz da Esperança, traduzida na expressão da perseguição de um sonho utópico de felicidade em Trilho dos dedos dos pés. Ou a da Desesperança como em O diabo esfregou-me os olhos.

A ironia mordaz destilada pelo Autora aflora a veia sensível do leitor como o amargor do fel expelido pelo poeta como resultado do egoísmo e da indiferença da sociedade em O Cornudo e Estou por tudo.

A voz do Erotismo e da Sensualidade aparece-nos em A Toalha de Turco saltando, em seguida, para a tonalidade mais sombria da voz do Desespero ou da Solidão Acompanhada em Há sempre lugar para mais um, uma denúncia virulenta face ao comércio do sexo.
Poema irmão de A Tristeza é aquele cujo título, Botão de Campainha, não é aquilo que parece. Trata-se de mais uma polissemia derivada d’O Cheiro da sombra das flores e, consequentemente, um dos poemas que melhor incarna o espírito inerente ao título, onde contradições e paradoxos brotam de um onirismo que lembram a pintura do surrealista Onik ou, porque não, o próprio Dalí. E onde os sentidos da visão e do olfacto se confundem numa orgia sinestésica.

A crítica social como denúncia da falta de civismo ou de respeito para com o outro dá voz à Indignação em poemas como Fechou o Tasco e Eu amo no turno dos Outros, nos quais a denúncia face aos males da sociedade surge como contraponto àquilo que esta tem de positivo: a Amor. Trata-se, aliás, de um poema que apresenta as diferentes nuances do amor que vão desde o desprezo condescendente até à adoração incondicional.

Outra vertente da crítica social presente neste volume dá voz à expressão da Raiva face à indiferença autista do outro em A muda de roupa que fala nua.

O mais sublime de todos os poemas desta publicação, talvez o mais dilacerante, onde João Negreiros se ultrapassa a si próprio, é o poema dedicado à figura maternal que acolhe toda a humanidade no seu seio: Mãe.

Logo a seguir Negreiros cria um violento contraste ao expor os impulsos menos nobres de uma alma que é apesar de tudo, humana, nos últimos versos de Galanteio. Contradições inerentes a uma alma de poeta.

Novamente a voz do Inconformismo de Eles Verão mostra de forma inequívoca o dilema do Autor com a frase «…não quis que quem tem merda na cabeça lhe pusesse estrume nos pés…». Um conflito que envolve o narrador, no qual a preservação da identidade choca com a parede dos preconceitos de uma sociedade de “vistas curtas”.

O mito e Eco e Narciso está subjacente em Contigo é isso tudo, apesar da inversão de papéis, um poema onde o amor mútuo é como o cheiro da sombra das flores, isto é, é como se fosse uma miragem, existindo apenas no imaginário daquele que sonha, que imagina o amor, que o vive dentro de si e para si mesmo.

Um amor que se transmuta na voz da Amargura nos últimos versos do já mencionado A Beldade doente internou-se e seguindo-se a voz da acalmia após a tempestade emocional com uma momento de paz ao Pequeno-almoço.

É assim a poesia de João Negreiros.

Complexa.

Paradoxal.

Bela.


Cláudia de Sousa Dias

27 Comments:

Blogger Luís Galego said...

ficou a curiosidade por desfolhar João Negreiros...

7:13 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

:-)

Fico feliz! beijinho e obrigada pela visita!


CSD

7:30 PM  
Blogger Nilson Barcelli said...

Acho que vou tomar nota deste livro, parece ser interessante pelo que dizes.
Beijinhos.

8:30 PM  
Blogger Ana said...

Este nome não me dizia nada... Li o teu comentário (posso tratar-te por tu não posso? ;)) e depois fui procurar na imensidão da rede. Encontrei a página oficial dele (http://www.joaonegreiros.pt.vu/) e fiquei, para já, cheia de vontade de continuar a ler. Na página além de alguns poemas, existem alguns ficheiros audio simplesmente deliciosos. A ler/ouvir com muita, mas mesmo muita atenção :)Obrigada

10:45 PM  
Blogger isabel victor said...

"nos poemas A Tristeza, O Anjo que até dá pena e Código Postal – a este último mistura-se também a voz do Desamor -; a voz da Revolta em poemas de intervenção"

Gostei de te ler !
Como sempre. Gostei

Bj*

iv

11:27 PM  
Blogger Guilherme Montana said...

Eu adoraria comentar mais no seu blog, mas tem havido pouca sintonia entre nossas leituras, apesar de ser o mesmo idioma. =)

Um 2008 brilhante pra você!

3:40 AM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Pois, é verdade Nilson! E tem um bocadinho a ver com o erotismo da tua poesia, em alguns casos, como por exemplo no pema que fala da toalha turca. Embora a tonalidade do erotismo seja dioferente, talvez um pouco mais sombria...

CSD

5:39 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Claro que podes Ana!

O João vai ficar muito contente quando souber que já conquistou mais alguns fãs através do hasempreumlivro!

Beijo grande


CSD

5:41 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

és uma querida Isabel!

O teu blog também é o máximo.

Devria ser de visita obrigatória para qualquer user da blogosfera...

CSD

5:42 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Guilherme não é, de todo, necessário que tenha lido o livro para postar um comentário sobre qualquer um dos meus textos.

é claro que,se for o caso, valoriza imenso o seu juízo sobre a minha escrita, ou sobre a impressão que eu ou nós tenhamos tido sobre o livro, tornando a conversa ainda mais interessante...

Também é saudável haver, por vezes, opiniões divergentes sobre a mesma obra ou sobre determinado autor, é agradável quando um comentador mostra um aspecto de uma obra que me tenha passado ao lado...

Obrigada pela visita e já sabe que é sempre bem vindo mesmo que não tenha lido a obra em quastão.


CSD

5:48 PM  
Blogger monge said...

olá claudia

Agradeço a cortesia da tua visita e reenvio também os meus votos para que tenhas um ano cheio de sucesso.
O teu blog deixa-me sempre a pensar que não vou ter tempo de ler tudo, visto o que falta ler. Caramba!
Continuação de excelente trabalho.
Abraço

monge

8:10 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Obrigada, Monge!

És sempre bem vindo!

CSD

8:22 PM  
Blogger Iceman said...

Nunca pensaste em criar um indice de títulos no blog?

Já tens tantas opiniões que um acesso desses seria uma mais valia.

Uma sugestão.
Nuno

8:50 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Pois...Mas seria um pouco extenso...E já estou a usar um eufemismo!

Contento-me em ir aos arquivos respectivos - tenho mais ou menos presentes os textops que fui publicando em cada mês nos últimos 3 anos...


CSD

9:48 PM  
Blogger Dalaila said...

è um escrita magnifica a do João negreiros, quanto mais se lê, mais cheiro tem....
esperemos pelos próximos.

e disseste tudo no teu post

Beijinho Claudia

3:15 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Obrigada, Dalaila1

bjinho

CSd

3:35 PM  
Anonymous Anonymous said...

Também adorei o livro. Acho que já não lia algo tão bom há muito tempo,é nitidamente um autor soberbo, só acho estranho ter tão pouca coisa publicada . A crítica definiu muito bem a essência da poesia

10:48 AM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Obrigada,anonymous!

Pela visita e pela apreciação da crítica!

Um abraço


CSD

11:56 AM  
Anonymous Anonymous said...

Cláudia, fiquei tão curiosa com a sua crítica que acabei por comprar o livro e estou rendida. É, de facto, impressionante. As imagens são esmagadoras, é muito comovente. Não conhecia a poesia de João Negreiros mas fiquei muito impressionada. Agora estou a ler as peças de Teatro que ele publicou, ainda não li até ao fim mas já dá para ver que é outra obra de eleição. Parabéns pelo blog e por continuar a divulgar grandes autores.

12:36 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Obrigada querida anónima!

Pelo comentário e, tenho a certeza, o João Negreiros também agradece!


CSD

1:17 PM  
Blogger matilda said...

gosto muito de ler os seus posts, infelizmente ainda nao consegui ler nem 1/3 dos livros sobre os quais escreve, mas tenciono ler alguns deles em breve.
desejo-lhe um feliz 2008; boas leituras

beijos, matilda

6:41 PM  
Anonymous Anonymous said...

Parabéns pela críticas e parabéns pelas escolhas, então este último livro de poemas é de cortar a respiração, incrível. Já agora pergunto, há mais livros deste autor?

2:36 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Penso que sim, anónimo...

No site dele encontrarás mais informações. Deve star para sair um livro dele, creio que uma peça de teatro.


Ele próprio vaoi dar aulas de teatro na Inspiro. Podes também consultar o site da empresa: www.inspiro.pt

CSD

3:48 PM  
Blogger cátia said...

Olá Cláudia. O seu comentário diz muito sobre " o cheiro da sombra das flores"...
Tive o privilégio de dizer os poemas d' "o cheiro da sombra das flores" na apresentação do livro, e foi uma experiência soberba. Acho que a poesia do João consegue apoderar-se de nós e ser tão minha(quando a digo) como de todos (quando a lêem).
Bom trabalho Cláudia

1:12 AM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Olá Cátia! Obrigada pela visita.

É a primeira blogger de Famalicão qwue recebo no hasempreumlivro!

Um beijo

e

Obrigada.


CSD

12:16 PM  
Anonymous Anonymous said...

Também adorei o livro, já tinha lido as peças de Teatro que este mesmo autor editou e achei-as realmente inovadoras, mas nunca pensei que fosse também um grande poeta. Parabéns por revelar autores tão incríveis.
Continue o bom trabalho. Cumprimentos
Artur Santos

1:55 PM  
Blogger Dina Maciel said...

olá a todos! Como vi que aqui há pessoas realmente encantadas com o génio artístico do João Negreiros, que é de longe um escritor/poeta fabuloso, deixo a sugestão de irem descobrir outros poemas dele, num espectáculo de poesia do Elenco do Teatro Universitário do Minho, da autoria de João Negreiros "percurso antológico da poesia de João Negreiros, que tem como objectivo traçar uma rota que vai desde as suas tendências Neo-Surrealistas até à lírica mais conceptual e sonora. A interpretação dos actores visa ser oral, naturalista e inovadora, tornando a literatura mais óbvia, mais universal e mais acessível. É um espectáculo de emoções extremas e dos sentimentos mais íntimos e guarda os momentos mais carinhosos que só se partilham com os amantes, os amigos e o público."
Sendo que além de poemas dos livros "O Cheiro da Sombra das Flores" e "Luto Lento" também há poemas inéditos, do livro "A verdade dói e pode estar errada"
Próximos espectáculos:
Vila Real, Casa de Pasto Chaxoila, 4 de Setembro às 21h30
Porto, Clube Literário do Porto, 6 de Setembro às 21h30
Braga, Livraria Centésima Página, 8 de Setembro às 21h30
Braga, FNAC do Bragaparque, 10 de Setembro às 21h30
Coimbra, FNAC Fórum, 12 de Setembro às 17h00
Chaves, Café Grão Bago, 13 de Setembro às 21h30
Porto, FNAC Norteshopping, 16 de Setembro às 21h30
Vila Real, Associação Espontânea, 19 de Setembro às 22h30
Lisboa, FNAC Chiado, 20 de Setembro às 17h00
Guimarães, Livraria do Centro Cultural São Mamede, 21 de Setembro às 21h30

para saber mais em http://www.blogdotum.blogspot.com/


Dina Costa

2:58 PM  

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