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Friday, September 04, 2009

“A Costa dos Murmúrios” de Lídia Jorge (Dom Quixote)


O relato de uma época, onde a paisagem física e social é pintada com as palavras que mergulham na memória, impregnada de nostalgia. A fotografia de uma realidade social, enquadrada no cenário de guerra colonial na belíssima costa moçambicana.

O Prólogo, onde a Autora dá voz a Eva Lopo, começa por descrever a faustosa cerimónia da festa de casamento de Evita e Luís Alex, da qual sobressai a exuberância patente na profusão dos frutos exóticos e mariscos; destaque também par a outra cena, o reverso da medalha, ou o outro lado do paraíso, onde a matança dos flamingos, que constitui uma metáfora a representar a embriaguez que leva ao desejo compulsivo de matar de onde se depreende parecer fácil cruzar o limite de “matar para não morrer” e exercitar, a partir dali, o prazer de apertar o gatilho para “fazer o gosto ao dedo”. Lídia Jorge consegue mostra de uma forma crua e simultaneamente bela que a facilidade com que se dizima um bando de flamingos da cor da alvorada é a mesma com que se procede à chacina de um grupo de rebeldes locais. Trata-se de uma metáfora de coragem e integridade que nem sempre se consegue reconhecer de imediato: o bando de flamingos não se desfaz facilmente, mantendo a formação em direcção ao objectivo, apesar daqueles que ficam para trás e se afundam no pântano, caídos perante as balas do inimigo…

Um tiro de revólver põe fim à introdução sob a forma de prólogo mas é o sinal que marca a partida para o romance propriamente dito…

As relações entre os géneros

Na relação inicial entre a protagonista, a jovem Evita e “o noivo” parece existir, nos primeiros tempos, uma cumplicidade baseada numa convergência de objectivos: Luís é um matemático prestes a descobrir um novo teorema; e Evita uma mulher de letras – Filosofia e História – com uma visão que ultrapassa largamente a inteligência mediana. Na verdade, ambos são detentores de um nível intelectual bastante acima da média. No entanto, diferem de forma diametralmente oposta no que respeita aos mecanismos de reacção. Por exemplo, a chegada de Luís Alex a Moçambique é consequência de uma fuga aos problemas do quotidiano e de uma certa incapacidade em estabelecer prioridades, o que o faz mudar de convicções, de objectivos e até de “persona”, deixando de ser o homem pelo qual “...qualquer mulher se teria pendurado ao pescoço…com suspiros semelhantes aos das rajadas do Índico” .

Evita, por seu lado, vê na ida para Moçambique uma forma de virar a página e recomeçar a vida a partir de horizontes mais vastos, ao voltar as costas a um meio onde nunca poderá desenvolver o seu potencial, numa universidade onde os dados estão viciados e impera a estultícia das mentalidades empedernidas que colocam entraves a toda e qualquer manifestação de pensamento crítico ou analítico, sobretudo vindos de uma mente feminina. Isto porque Eva, durante uma aula de História Contemporânea, tem a audácia de fugir aos cânones e proferir uma resposta não normalizada, dissidente em relação àquilo que seria de esperar numa jovem universitária cujas ambições deveriam consistir em encontrar um marido com uma situação financeira atraente e ser mães. Eva, por seu turno, revela um conhecimento muito mais vasto ao revelar o acesso a informação que ultrapassa em muito a que circula dentro das fronteiras do país e dos valores preconizados pelo regime, quando se refere à teoria da relatividade de Einstein, sendo a sua explicação completamente desvalorizada e ridicularizada pelo professor titular da cadeira (pág. 195).

Logo nos primeiros capítulos, são-nos dados indícios relativos a esta diferença de personalidades no seio do casal protagonista. Logo nas primeiras páginas, a narradora ao descrever “o noivo” atribui-lhe uma característica a que se associa a algo de negativo: “uns olhos de peixe”e, portanto, inexpressivos, que o afastam da humanidade. Trata-se de uma associação com um animal conotado com comportamentos esquivos, com um carácter algo “escorregadio”, imprevisível. A camuflagem conferida pelos inexpressivos “olhos de peixe” , permite-lhe, também, esconder temporariamente as “garras”, as quais só exibirá após o casamento.

Helena, ou a alegoria da Beleza e da Discórdia

Durante a festa de casamento de Luís e Evita, surge uma figura feminina que chama atenção pela beleza flamejante dos seus cabelos e se destaca de uma multidão de mulheres morenas e comuns. Helena, a quem chamam “de Tróia”, possui aquilo a que se chama uma beleza absoluta e inquestionável, a incarnação do eterno feminino. Trata-se de um tipo feminino que tem tudo para atrair a fatalidade, como dá a entender Evita, num dos inúmeros enigmáticos diálogos a quatro. Com especial incidência na cena em que estão sentados os dois casais, à mesa do hotel, quando Evita se refere ao nome da jovem como estando associado, na cultura clássica, à expressão da discórdia ou “a causa do conflito”.

Os diálogos entre as quatro personagens principais – Luís Evita, Helena e o Capitão Forza Leal– com os restantes intervenientes na trama permitem-nos olhar para dentro de uma mentalidade onde domina o relativismo cultural e o paternalismo colonialista, patentes na forma como os colonos se referem aos nativos – “os blacks”. Paralelamente, através do discurso de Eva Lopo como narradora, vinte anos depois da ocorrência dos acontecimentos que fazem parte integrante no romance, é-nos transmitida, de forma quase onírica, a opulência em que vivem os colonos sobretudo a classe militar e respectivas famílias, como num oásis, criado num hotel onde se hospedam as esposas dos oficiais. Apesar do luxo aparente, os noivos têm, no entanto, de se refugiar na casa de banho para obterem alguma privacidade na noite de núpcias, em virtude da pouquíssima espessura das paredes do hotel. O gérmen da decadência parece começar a espreitar.

É, no entanto, na madrugada do casamento, enquanto os noivos se refugiam na brancura imaculada do mundo protegido da casa de banho, que dão à costa vários corpos de gentes locais, envenenados por metanol. Está dado o início à intriga policial, à volta da qual se desenvolve o romance e cuja solução tem uma forte ligação a questões políticas e sociais.

A cortina de fumo

O boato que se procura difundir para justificar a ideia de genocídio consiste, em primeiro lugar, na desvalorização da gravidade do massacre, ao mesmo tempo que se tenta justificar a necessidade de uma limpeza étnica, a qual ajudaria a impedir uma rebelião, levando a que as pessoas aquarteladas no hotel se sintam, enganadoramente, “a salvo”.

Ao enfatizar a frase “Não se consegue ter solidariedade com quem morre por estupidez como aqueles blacks”, insiste-se na ideia que se morre por não se conseguir resistir ao vício da bebida e não por se ter sido vítima de envenenamento.

A Escrita de Lídia Jorge

Profundamente analítica, crítica, metafórica e enigmática, a prosa de Lídia Jorge exige uma leitura atenta para que se possa apreender a mensagem na sua totalidade. A mulher madura que é Eva Lopo relata, como já foi dito, os acontecimentos vinte anos depois destes terem ocorrido: “o tempo em que era Evita” e em que “tinha a cintura fina”.

Eva começa por explicar a razão pela qual alguns factos ficam retidos na memória, composta por fragmentos.

O sentido da memória não tem explicação”- Para Lídia Jorge, na pele de Eva como narradora, não existe uma explicação racional para a memória: esta parece antes fixar-se por razões afectivas, pela forma como os factos atingem as pessoas, comparando a razão da memória à “razão do pêssego” (pág. 41):

é um absurdo pensar que as pessoas são superiores às aves, às trutas, aos pêssegos (…)”;
A memória é misteriosa como o pêssego”.

Mas a importância dos sentidos como a visão, o cheiro ou o som são, também, fundamentais para a fixação dos factos na memória, condicionando a escrita ficcional da Autora.

É desta forma que Eva Lopo irá recordar, ressuscitar aquela Evita que foi vinte anos antes, trazendo de volta a memória do olhar da jovem recém-casada e cheia de sonhos que era então: “Evita seria para mim um olho, ou um olhar”. Evita é, pois, uma forma de olhar o real numa dada época da vida.

A outra face da moeda

Outro aspecto que sobressai na obra é a submissão aparente dos habitantes locais:

Quando falavam, jamais viravam as costas” (pág. 44). Por outro lado consegue-se entrever, na cena da matança dos flamingos, que esta aparente submissão tende a ser erroneamente conotada com ausência de inteligência que, no entanto, está relacionada com um forte sentido de grupo e paciência quase infinita, com o objectivo de manter a identidade cultural africana.

A Violência de Género

Outro tema recorrente na escrita de Lídia Jorge é a forma de tratamento a que são submetidas as mulheres no âmbito conjugal. O maior exemplo desta realidade é Helena, brutalizada, maltratada e humilhada, sob todos os aspectos, pelo marido, inclusive em público.
Evita não chega a sofrer maus tratos mas, em alguns momentos ao longo da narrativa, está na eminência de o ser, uma vez que Luís Alex vê no capitão o modelo de força e prestígio social que deseja, a todo o custo imitar. O Capitão Jaime Forza Leal chega a dar, inclusive, conselho a Luís Alex, sobre como tratar a mulher, o que coloca Evita em situação de risco eminente. De notar que dentro do contexto social onde decorre a acção, aquele grupo de oficiais tem por hábito espancar as mulheres como ostentação de virilidade. Forza Leal chega mesmo a esbofetear a mulher durante o casamento de Luís e Evita, à frente dos convidados. O pretexto é o facto de a beleza dela chamar a atenção. Trata-se, no entanto, de uma forma de demonstrar domínio e posse relativamente à criatura com quem está casado. Pouco depois, outro militar sente necessidade de fazer exactamente o mesmo, por imitação e por sentir o reforço em ter o mesmo comportamento espelhado em alguém que ocupa uma posição social hierarquicamente superior. A mulher espancada fica a sangrar pelos ouvidos. Os convidados assistem à cena, impassíveis.

Um romance sobre valores

A Costa dos Murmúrios é, principalmente, um romance onde se discutem valores que assentam num continuum, onde num dos extremos está a grandiosidade e, no outro, a vileza.

“…e ninguém podia indicar se era grandiosidade ou mesquinhez o impulso de pessoas que degolavam cabeças e as espetavam em paus e as agitavam em cima das habitações dos próprios degolados”.

De onde se extrai a questão: “o que determina o gosto por degolar?”

Ou o que determina o gosto por espancar mulheres?

Luís Alex, por exemplo, decide entrar para o exército em consequência do fracasso nos estudos. Só então passa a ficar viciado na guerra, como portal de acesso ao poder, de forma a esquecer uma derrota, o desmoronar das ambições.

Também a propósito do holocausto de Auschwitz, em analogia com o sucedido com a Guerra no Ultramar, a Autora, na pág 141, pela voz da protagonista, deixa claro que: “…a ciência e o crime poderiam ter entre si apenas uns passos de dança ou umas flexões de ginasta; entre o bem e o mal, uma mortalha de papel de seda”.

A realidade social no Ultramar

A análise da realidade social é outra das temáticas exploradas no romance onde a Autora aproveita para chamar a atenção para indicadores do nível de progresso de um país, como estando reflectidas nas condições em vivem as classes mais desfavorecidas e, em termos de insegurança e instabilidade social, na sofisticação dos sistemas de segurança nas classes sociais privilegiadas (quanto maior protecção menos a segurança).

Se um país está à beira de uma guerra, basta observar o comportamento do burguês rico. É o único com a antena afinada para prever o derramamento de sangue sobre uma terra” (pág 145).

O direito à autodeterminação da mulher, à expressão da beleza, da feminilidade e o direito a uma sexualidade autónoma

A Autora disseca, sobretudo, neste romance, a sujeição, a impotência feminina, enquanto enquadrada no regime legal do Estado Novo, usando para tal a figura de Helena, uma mulher que se destaca pelo aspecto físico invulgar: cabelo vermelho e olhar verde, a sobressair mediante as características físicas da mulher portuguesa comum - morenas, de olhos castanhos e pele amarelada.

A mulher do capitão Forza Leal encerra em si três arquétipos diferentes, de acordo com a descrição de Evita: a Beleza, a Inocência e o Medo. Três características que a transformam num chamariz para personalidades prepotentes que desejam por companhia um ser vulnerável a quem possam dominar.

Helena , educada num colégio de freiras é desde cedo submetida, a uma educação normalizada, até na forma de vestir, pouco condizente com a sua verdadeira personalidade e com o desejo de livre expressão da própria feminilidade e sensualidade. Este conflito está patente no esforço notório que faz para “ser boa” e “obediente”, como resultado de pressões externas que a levam, por exemplo, a tornar-se na sombra do marido de forma a ser aceite socialmente , comportamento que se traduz na observação de comportamentos servis, como na cena em que tem de descascar crustáceos para o marido comer.

Helena é, também, uma mulher com o pensamento crítico fortemente condicionado, estando constantemente a repetir discurso do inculcado pelo marido.

Esta é uma das razões pelas quais Eva prefere que Helena não fale. Para que a imagem de Helena continue como um quadro de beleza mítica, como símbolo da perfeição. Helena é uma mulher lúcida mas sacrifica os desejos e a liberdade de expressão, de livre circulação, de liberdade de escolha e de pensamento, como forma de auto-punição, ao recriminar-se por algo do passado, socialmente tido como reprovável.

No seu discurso é notório o sarcasmo e a amargura. Helena desempenha, a dada altura, o papel da serpente que irá expulsar Eva do seu paraíso genesíaco, obrigando-a a enxergar a realidade quando lhe mostra um conjunto de fotografias que expõem as atrocidades nas quais participou Luís Alex, durante o ataque a uma aldeia.

Helena é a mensageira que abre a porta para o conhecimento à até então inocente Evita.

Eva é, também, uma mulher lúcida, mas mais racional que Helena, porque detentora de uma enorme capacidade dedutiva e de todo um historial que lhe permitiu desenvolver o pensamento crítico: Eva/ Evita frequentou a universidade, tem uma cultura erudita e o hábito de colocar questões incómodas. A sua curiosidade insaciável é um dos factores que lhe permitirá desvendar o crime que tem intrigado as consciências colectivas dos habitantes da Costa dos Murmúrios, que são cuidadosamente desinformados por todas as autoridades institucionais. Evita apercebe-se, antes de todos, juntamente com o jornalista da gazeta local, poeta revolucionário, da intencionalidade criminosa que envolve a mortandade à qual parecem estar subjacentes objectivos relacionados com a necessidade de repressão de movimentações rebeldes, aproveitando a quem interessa, a oportunidade para efectuar uma limpeza étnica e ideológica. A suspeita agudiza-se após a morte de Bernardo, o competente telefonista do PBX, cujo desaparecimento se torna muito conveniente para o Exército oficial, pelo risco de que o negro pudesse passar informações ao inimigo. A dada altura da narrativa, parece existir, também, uma atracção mútua entre Eva e Helena, que será reprimida e desvanecida por condicionantes culturais.

Na pág 70, durante uma discussão travada entre Evita e Alex, a jovem afirma, numa clara atitude de afirmação da própria independência, que “…a atitude de vigilância da pessoa sobre si mesma é tão desonesta como uma castração e equivale a uma desconfiança da pessoa sobre si, a um conhecimento de fragilidade” e que “…Só os frágeis se auto-punem deste modo”. Eva, ao constatar a falta de personalidade do marido, acaba por não conseguir respeitá-lo, principalmente quando constata a forma como o noivo enlouquece gradualmente com a guerra e a sede de poder.

Na pág 71 podemos constatar a forma como se refere aos criados que trabalham na Marisqueira extrapolando a ideia para todos os africanos:

“…os filhos da mãe dos criados. Todos queriam trabalhar na Marisqueira para escorropicharem os copos”. Luís Alex deixa também escapar algo relativamente aos factos sucedidos durante a guerra, que confirmam aquilo que Evita teve a oportunidade de observar nas fotografias. E também se apercebe a forma como o cinismo e a desinformação proliferam ao deixar entrever na frase “Ninguém falava em guerra com seriedade”, a forma como o léxico utilizados pelos detentores do poder visava deliberadamente atenuar a realidade dos factos sempre que relacionados com uma possível rebelião: assim, “revolta” era substituída por “banditismo”; a repressão contra o pseudo-banditismo era chamada de “contra-banditismo” e de “contra-subversão”.

Vinte anos depois, Eva Lopo constata a degradação do hotel Stella Maris, símbolo daquilo que acontece um pouco por todo o país, identificando-a com o saneamento dos vestígios referentes à presença portuguesa: uma vingança operada pelo Tempo.

No final Helena continua a ser para Evita o símbolo da beleza absoluta, apesar de ambas se terem afastado e deixado de comunicar por imposição dos respectivos maridos e das circunstâncias da vida.

Helena tinha a alma toda de fora como uma chama que se revela e consome o objecto a que foi ateada”. O capitão Forza Leal não se consegue desligar de Helena, para poder continuar a exibir o seu domínio sobre a presa. Para ele, a perda seria uma derrota um desprestígio, uma humilhação que não conseguia suportar.

Evita esforça-se por afirmar a própria independência, ao assumir a própria sexualidade e o direito de fazer as próprias escolhas ao seleccionar os parceiros.

O aliado

O Jornalista d’ “ A Gazeta” da localidade tornar-se o principal aliado de Evita e, também, o seu portal para a liberdade, a janela que lhe permite vislumbrar o mundo fora da prisão do casamento. Este é, no entanto, um homem de muitas mulheres: possui duas esposas e oito filhos.

No entanto, o seu sonho mais secreto é evadir-se de África e estabelecer-se num país nórdico, onde poderá usufruir daquilo que mais ambiciona: a liberdade de expressão. Isto porque apesar de assinar uma coluna no jornal, onde publica os seus textos que assumem a forma de uma crítica velada ao regime mas que muito poucos conseguem decifrar ,é uma situação que o satisfaz muito pouco.

O que desgosta o jornalista em relação à região onde habita é o facto de todas as atitudes serem camufladas. O título dado ao texto é a alegoria que ilustra este mesmo comportamento colectivo, uma vez que a acção e o desenrolar das verdades que estão ocultas têm de se efectuar numa sociedade onde tudo é velado – a sociedade do disfarce – onde nada daquilo que é realmente importante é dito às claras ou em voz alta. Onde as pessoas se exprimem através de sussurros. Murmúrios. Onde prolifera o boato. Como aquele que atribui ao vício do álcool a causa da morte dos corpos que aparecem a boiar na costa. Naquele lugar, murmura-se “como o vento do Índico que antecede o silêncio. Um silêncio que fala.

“…o silêncio falava, era mais articulado do que a voz. Um murmúrio, provindo da voragem invisível, ondulava no ar com as ondas amplas e falava, mas tudo para se ouvir imensamente pouco”.

Também as frases codificadas, na coluna assinada pelo jornalista, soam um pouco como os ventos que murmuram no Índico, onde os factos menos importantes, dramáticos mas triviais, ocupam um lugar de muito maior destaque do que aqueles que são susceptíveis de causarem maiores cataclismos sociais e culminar numa reviravolta política. Esses são cuidadosamente abafados e relegados para segundo plano.

A aproximação da nuvem verde de gafanhotos de que fala o jornalista ao utilizar um discurso poético para codificar uma mensagem de conteúdo político, nuvem verde que acabará por engolir o exército ultramarino, caindo sobre este como uma chuva de gafanhotos cor de esmeralda é uma das componentes de maior valor literário e estilístico na obra pela implicação que terá nos acontecimentos da trama, a todos os níveis, e que sublinha o génio de Lídia Jorge.

Deixai que cada homem marche para a linha da frente. Quer se morra quer se viva (tal como os gafanhotos ou os flamingos) como a guerra e a batalha beijam e murmuram”. A nuvem terrestre de soldados e a nuvem aérea de gafanhotos chegam ao mesmo tempo à costa dos murmúrios.

Depois virá o silêncio. Um silêncio que grita o que não se quer ouvir.

Cláudia de Sousa Dias

17 Comments:

Blogger Gustavo Carneiro said...

Sem ter lido o livro, confesso que não percebo a relação entre "... entre o bem e o mal, uma mortalha de papel de seda..." e Auschwitz. Certamente que algum significado especial dessa "mortalha de papel de seda" que me está a escapar... :-)

Quando dizes, "Helena é uma mulher lúcida mas sacrifica os desejos e a liberdade de expressão, de livre circulação, de liberdade de escolha e de pensamento, como forma de auto-punição, ao recriminar-se por algo do passado, socialmente tido como reprovável.", terá sido um sacrifício (que denotaria livre vontade), ou antes uma imposição do marido, que com recriminações e castigos corporais constantes terá moldado o comportamento de Helena?

Belo texto; ajudou a recordar o belíssimo filme que passou no Cineliterário há uns meses atrás :-)

1:17 AM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

imagina um segmento de recta.
tens num dosextremos o mal e no outro o bem.

há uma dada altura em que se torna muito difícil decidir de que lado está o bem e de que lado está o mal, a linha divisória tem a espessura de uma mortalha de seda.

em contexto de guerra por exemplo é muito complicado separar as águas...

csd

1:33 AM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

em relação a Helena opto mais pela segunda hipótese...

:-)

Obrigada


csd

1:34 AM  
Blogger Gustavo Carneiro said...

Ah, OK, conhecia mais a expressão "linha fina" ou "linha ténue"; "mortalha de papel de seda" não me dizia nada. Se calhar fruto de passar mais tempo a ler inglês do que português... :P

5:58 PM  
Blogger CNS said...

Excelente texto sobre um excelente livro.

10:58 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

obrigada, Cristina...

esta smena há novos textos nops três blogues...


csd

12:20 PM  
Blogger Dalaila said...

Claudinha.... tu de facto surpreendes-me a cada momento, as tuas crónicas literárias são sempre tão densas e tão cheias de espirito, que dá um retratro dos livros.

10:53 AM  
Blogger Baudolino said...

Bom livro, este. O do post anterior não conhecia.
Continua este blog a cumprir muitas das suas funções, neste caso, a 'dar novos livros ao mundo'. Se não for de outra maneira, que nos vamos, pelos livros, da lei da morte libertando...
(exageradamente pomposo, este final mas... saíu assim e assim ficou)

1:35 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Dalaila é um amo9r.

mas já vi uma recensão deste livro a partir de alguém da Universidade do Minho que mete este meu texto no chinelo!!!

daqui a dias publico-o no rendez-vous...

ou se calhar hoje mesmo!


beijinhos

9:03 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

isso é o que diz Saramago nas suas crónicas, por outras palavras

:-)


oberigada pela visita Bau!


beijinho

9:04 PM  
Blogger Elipse said...

A tudo o que dizes, numa análise completa e profunda, eu acrescento que este é o livro da minha vida e por isso te agradeço teres trazido aqui a lucidez e a mestria de Lídia Jorge que escreve um livro para explicar como se escreve um livro.
O relato com que abre a narrativa é depois retomado como se o narrador tivesse entendido tudo ao contrário e depois fosse preciso a personagem voltar a contar, mas agora com a crueza do verdadeiro real, aquele que já não é ficção (na verdade a mortalha de seda entre uma coisa e outra, também), sendo que a verdade é inútil como a casca de um pêssego, pois ela não existe. A verdade, a nossa verdade, vai mudando connosco, com as nossas vivências. Ao contarmos o que se passou connosco nós acrescentamos, modificamos, retiramos, porque o passado, que já foi presente,é uma coisa que não se pode trazer inteira, a memória não consegue; nós somos outros depois de passado o tempo.
E a verdade, contada a alguém que depois vai escrever sobre ela, nunca é apreendida. Esse que vai escrever lança o seu olhar sobre ela e interpreta-a.
Isto acaba por se aplicar à História dos homens: toda a História é também uma interpretação, pois quem a viveu já não está cá para contar e os testemunhos têm a visão de quem os escreve; e sobre essa visão nós lançamos, ainda, a nossa ...

Bem... escreveria tanto ou mais que tu sobre o assunto pois estudei-o detalhadamente num trabalho académico.
Um dia destes vou mandar-te para o email umas coisas que tenho escritas sobre este livro. Queres?

10:25 AM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Ah Elipse, que bom!

Adoraria.

é espectacular ter o feed-back de quem leu o livro e trocar ideias, opiniões, pontos de vista.

no rendez-vous tem algumas opiniões que recolhi com alguns (muitos) dos aspectos que me escaparam uma vez que este é um livro tão, mas tão rico, que as possibilidades de exploração da análise são infinitas!

um grande baijinho

csd

3:17 PM  
Blogger Elipse said...

para que email mando o texto?
já não sei qual é o que usas actualmente.

4:14 PM  
Blogger inominável said...

acho este livro super emotivo... Vi o filme em Aveiro (já tão longe) e agora revi-o.

12:24 AM  
Blogger deuS said...

um dos melhores livros de uma das melhores escritoras portuguesas.
Parabens pelo excelente trabalho, este blog é excelente...

1:02 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

obrigada pela parte que me toca...


quanto à lìdia Jorge, subscrevo totalmente.


abraço

csd

1:29 PM  
Blogger Lilian Araújo said...

Eu gostei da sua interpretação. Na verdade várias coisas começaram a fazer sentido pra mim, depois de ver suas ideias. Este livro é repleto de segundas mensagens, a violência contra a mulher, a chuva de gafanhotos que pode ser interpretada de outra forma, a morte dos flamingos... eu acho a história muito instigante, interessante, claro que se precisa ler bem calmamente para que se entenda bem, com certeza você me ajudou muito Cláudia.

3:49 PM  

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