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Bibliomaníaca e melómana. O resto terão de descobrir por vocês!

Monday, October 26, 2009

“O Apocalipse dos Trabalhadores” de Valter Hugo Mãe (Quidnovi)




Num registo totalmente diverso do mundo medieval, povoado de expressões a lembrar a linguagem arcaica de épocas remotas em “o romance de baltazar serapião”, Valter Hugo Mãe revela-nos, neste seu Apocalipse… o mundo das trabalhadoras domésticas no interior do País e, simultaneamente, as dificuldades com que se deparam os imigrantes, vindos dos antigos países ditos “do Leste”(de acordo com a divisão ideológica da Europa no período da Guerra Fria) em Portugal. Com este livro, Valter Hugo Mãe permite que nos deslumbremos com a nostalgia, que nos é revelada pela sua forma de olhar os relacionamentos a partir da uma visão do amor numa franja da sociedade onde a existência é muito precária. Onde segundo o Autor, “no quotidiano está sempre presente o sentimento de perda, efectiva ou eminente.


Um dos aspectos mais cativantes do livro, é a referência a uma vida inteligível ou pelo menos espiritual, após a morte, com capacidade de pensar e raciocinar dotada de sentido de humor, sentido crítico e até, de algum veneno.


No discurso post- mortem de Maria da Graça, estão presente sob a forma de alegoria, uma virulenta crítica social, face à forma como as crenças são inculcadas pelas instituições, na mente do cidadão comum. Segundo o autor: “Era preciso muita lata para deus existir. Só deus foi incapaz de criar felicidade no mundo. Deus, a Cinderela e os Dragões estão extintos”.


A ideia de precariedade é, também, reforçada com a presença da morte, no romance, com o falecimento do Senhor Ferreira, o que irá despoletar toda a tragédia.


Valter Hugo Mãe é, também, um Autor a quem assusta a ideia do fascismo bem como a existência de algum saudosismo relativamente à época em que vigorava em Portugal um regime totalitário. Daí, também, a descrição em O Apocalipse dos Trabalhadores do mundo a que foram submetidos durante muito tempo, os trabalhadores na Ucrânia e que procuram, hoje em dia, Portugal, para eles “o país das flores”, em alusão à Revolução dos Cravos. Um país onde se faz uma revolução que é, sobretudo, poética, sem derramamento de sangue. A imigração é, simultaneamente, uma oportunidade para escapar a uma existência onde a precariedade é ainda maior e onde o fantasma da fome assombrou, durante demasiado tempo, a vida de muitas famílias. Trata-se de um encontro entre pessoas de origens diferentes, habituadas a níveis diferentes de precariedade.


O livro deveria ser, inicialmente, chamado de A Morte dos Tolos. A opção por este título deve-se à intenção de facultar uma compreensão mais imediata da temática do livro, apesar da perda de alguma da beleza poética do título inicial, mais em consonância com o estilo e o discurso, presente na prosa do Autor nesta obra.


A trama


Ao entrarmos nas estórias que se desenvolvem em paralelo neste romance, deparamo-nos, em primeiro lugar, com a aparente leveza dos diálogos entre Maria da Graça e Quitéria, cujos diálogos, apesar de se referirem aos mais triviais assuntos do quotidiano, abarcam o mais profundo do sentido da vida dos seres humanos.


Os amores controversos entre Maria da Graça e o Sr. Ferreira, do qual temos, de início, temos alguma dificuldade em descortinar a afeição por detrás daquilo que parece ser uma exibição de poder de um dos lados e interesse económico do outro. No entanto, vamo-nos apercebendo de uma forma gradual, da crescente admiração de Maria da Graça pelo patrão e da preocupação deste relativamente ao futuro da empregada.


Da mesma forma evolui o romance entre Quitéria, amiga de Maria da Graça, e o imigrante ucraniano Andryi que começa por ser apenas uma relação física mas de onde parte a afeição que surge com a convivência.


Em ambos os casos, é perceptível que a precariedade laboral condiciona a vida afectiva das pessoas, sobretudo no caso da protagonista, Maria da Graça, que chega a afirmar, no início, na altura em que envenena a sopa do marido com lixívia para que a indisposição deste a liberte da obrigação de ter relações sexuais com este, que “ o amor é para quem não tem nada que fazer”. A precariedade financeira condiciona muitas vezes a possibilidade de um divórcio e abertura de novo caminhos na busca dos afectos.


Maria da Graça e Quitéria são mulheres terrenas, autênticos rochedos humanos como são as varinas de Vila do Conde – a terra onde habita o Autor –, mas a viver em Bragança. Aliás, a própria Maria da Graça é mulher de um pescador, Augusto, que passa largos meses em alto-mar, visitando-a de longe a longe. Enquanto isso, Maria da Graça trabalha em casa do Senhor Ferreira, o qual abusa sexualmente dela. No entanto, aquela deixa-se fascinar pela sua erudição, uma vez que é o patrão quem lhe dá a conhecer um mundo maravilhoso até então, para ela, desconhecido: o universo da Beleza e da Arte. É pela mão do Senhor Ferreira que Maria da Graça contacta com a profundidade obscura das notas do Requiem de Mozart, com os contrastes dados pelos jogos de luz e sombra nas pinceladas de Goya ou dos nostálgicos e amargos versos de Rilke.


Maria da Graça odeia cada vez mais o marido e, embora não o queira matar, envenena-o aos poucos, colocando-lhe lixívia na sopa como forma de se vingar da existência de tédio que lhe proporciona. Na cama, inclusive.


Quitéria, a amiga e confidente, também empregada de limpeza, tem um amante. Ucraniano, jovem e belo: o Andryi. Este mantém-se, inicialmente, reservado, pouco interessado nas mulheres portuguesas, de constituição atarracada, escuras e gordas. No entanto, acaba por se afeiçoar a Quitéria, quase vinte anos mais velha, pela dedicação que esta lhe vota.


O enfoque dado à imigração vinda dos países de leste vem trazer uma lufada de ar fresco ao panorama da literatura portuguesa que raramente explora esta temática, salvo honrosas excepções como Luísa Monteiro ou Maria Velho da Costa. Valter Hugo Mãe traz um pouco de luz acerca de determinado período da história, vivido na Ucrânia durante o século vinte, assolado pela forme naquele país.


O Apocalipse dos Trabalhadores é, na realidade, um fresco que envolve as classes socialmente menos favorecidas em Portugal: um autêntico quadro social isento de considerações moralistas ou moralizantes.


Maria da Graça, por exemplo, não se importa de envenenar gradualmente o marido. Fá-lo sem ponta de remorso. Não se coíbe, também, de insultar o Senhor Ferreira quando este não está presente, apesar de a fascinar. Sente-se, no entanto, diminuída face à erudição do homem a quem admira.


Quitéria, por seu lado, extorque dinheiro às famílias dos mortos, cobrado 50 euros por sessão, como carpideira, “salário de médico”, obtido à custa da exploração da dor alheia.
Os vestígios da consciência surgem por via do remorso, tema já abordado em no anterior romance de Valter Hugo Mãe, o remorso de baltazar serapião. O mesmo remorso está patente nos pesadelos de Maria da Graça que se debate, às portas do Paraíso, em acesa discussão com S. Pedro, que lhe nega a entrada e o pedido para visitar o Senhor Ferreira.


A cena que se desenrola à entrada do Paraíso constitui uma alegoria ao mercado que se gera à volta das crenças individuais e das necessidades espirituais de cada um. São Pedro é-nos apresentado como um velho rabugento (à semelhança de muitos sacerdotes farisaicos), um burocrata, cuja missão é a de dificultar a entrada para o Paraíso ou o aceso à felicidade. Assume uma postura impávida e serena, de uma indiferença total aos vendilhões diante da porta que dá acesso ao céu, os quais tentam arrecadar os últimos cobres aos moribundos, tentando-os com recordações terrenas do mundo material.


Para Maria da Graça, cuja vida deixou de fazer sentido depois da partida do Senhor Ferreira, a morte a apresenta-se como o único caminho para ir em busca do amor e deixar para trás toda uma existência medíocre.


As marcas de detergentes como recurso de estilo para descrição de um universo muito particular


A referência constante a marcas de detergentes e lixívias no texto de O Apocalipse dos Trabalhadores, acaba por sublinhar uma das principais características das mulheres portuguesas das classes trabalhadoras: a preocupação com as limpezas e o asseio das casas., num ambiente em que a reputação das mulheres está espelhada no brilho dos móveis e dos espelhos ou no rutilar dos copos, cristalinos ou não. E no caso de empregadas domésticas como Maria da Graça e Quitéria, o mundo dos detergentes é, de facto, o seu universo. O mesmo universo cujos limites Maria da Graça consegue transpor os limites com o homem a quem ama, e com o qual descobre que não veio ao mundo unicamente para ser mulher-a-dias. A partir de então apercebe-se que a mulher não tem apenas funções higiénicas ou anti-sépticas, do arranjo do espaço doméstico e do trabalho caseiro. De certa forma, pode-se considerar O Apocalipse dos Trabalhadores como mais um romance defensor dos direitos das mulheres de Valter Hugo Mãe.



Portugal é um Cão Rafeiro


Numa impressionante alegoria, o Autor, num golpe de ousadia nunca antes visto, caracteriza o país na figura de um animal aparentemente insignificante, a que quase ninguém dá importância, mas que consegue sobreviver no meio de grandes dificuldades. Um país que revela a grandeza no meio da mais pura e reles insignificância.


A personagem Portugal, um cão cujo nome é atribuído pelo Sr. Ferreira, num rasgo de humor, abundantemente regado com o vinagre da ironia. Portugal é, assim, um cão que passa completamente despercebido, olhado com desprezo pela maioria dos seus pares – os janotas ricos - tal como o nosso País é, muitas vezes visto pelos parceiros da U.E (basta ver os termos com que Berlusconi se refere a Portugal, quando pretende desculpar a própria conduta). Assim em O Apocalipse dos Trabalhadores Portugal é o cão (ou o país) submisso, obediente mas manhoso, sensível e …impotente. Segundo o narrador: “ um rectângulo castanho, pulguento e…imprestável.” Um retrato impiedoso em relação ao nível de desenvolvimento, capacidades e mentalidade de um povo que se mantém, alegre e despreocupadamente, feliz na mediocridade.


O Apocalipse dos Trabalhadores vem, assim, confirmar o talento e o brilhantismo de um Autor, considerado por José Saramago como “um tsunami” na literatura portuguesa contemporânea, de humor displicentemente negro, que ao sintetizar a personalidade colectiva de um povo na figura de um rafeiro reflecte, por si só, a marca da genialidade.


Cláudia de Sousa Dias

15 Comments:

Blogger Rute Oliveira said...

Para mim foi uma agradável surpresa, gostei muito do apocalipse.

12:09 AM  
Anonymous silvio said...

Eu já li esse livro e, no mundo das letras pequenas, devorei-o como à muito não o fazia. Uma sugestão de leitura: "Terra do Pecado", do Saramago. Vais ter uma agradável surpresa.

11:03 AM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

eu também, sobretudo dos diálogos entre Quitéria e Maria da Graça.


sem pingo de falsos pudores.

o que é girop é que conseguimos ouvir diálogos parecidos nop dia a dioa, no autocarro por exemplo...

:-)


CSD

9:56 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

vou experimentar.

li há duas semanas "O Caderno", que vou tentar postar esta semana no orgialiteraria.


csd

9:57 PM  
Blogger Inês e Mafalda said...

MT BOM...

6:22 AM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

obrigada..


:-)


CSD

12:40 PM  
Anonymous samartaime said...

Tambem li e gostei.

8:37 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

é um livro actual e bastante recente de um autor que obteve o Prémio Saramago.

Fico contentíssima com a adesão que estou a notar e o feed-back positivo que lhe é associado.

Valter Hiugo Mãe estará presente no dia 20 de nOvembro da Biblioteca parta um debate sobre o filme "O Carteiro de Pablo Neruda" baseado na obra de António Skármeta.


csd

9:56 AM  
Anonymous samartaime said...

O Valter H.M. é um daqueles autores em quem deposito «fortes esperanças», principalmente na prosa: apresenta sinais claros de uma nova mentalidade na observação dos problemas sociais e do indivíduo e tem um ritmo de escrita e de vocabulário que se liberta, nitidamente, da geração anterior embora a continue.
É isso que me alegra.
Esperemos que haja capacidade de paciência e de trabalho para «o resto».

Sobre a tua visita lá à janela: não ouviste o lied? Ou não gostaste?
Confesso que tenho um pesado fraco por aquela interpretação! lol

Abraço!

1:18 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

não consegui ouvir por não ter som no computador...

mas logo vou tentar ouvir na rádio...



beijinhos


csd

1:35 PM  
Anonymous samartaime said...

Vais gostar! lol
Boa audição!

bj

2:03 PM  
Blogger Rosa dos Ventos said...

Acabei de o ler, vim à procura de outras informações e deparei-me com esta excelente análise do livro!
Parabéns!

12:16 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Obrigada, Rosa!

um beijinho


csd

4:51 PM  
Blogger Tiago M. Franco said...

Gostei bastante do livro
VHM é sem dúvida um grande escritor.

4:30 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Concordo :-)

5:51 PM  

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