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Wednesday, April 06, 2011

"Lettres sur l’Italie” de Charles Mercier Dupaty (Nicolas Chaudun)



Charles Mercier Dupaty foi uma figura de proa no mundo intelectual do Iluminismo , amigo de Voltaire e Montesquieu, simpatizante do liberalismo económico e científico que, então, dominava o continente inglês. Dupaty era um homem crente, embora vincadamente anti-clerical e um acérrimo crítico da interferência da Igreja no quotidiano e na vida privada dos cidadãos.

…il y a toujours à l’esprit l’idée que l’Anglaterre constitue, en 1785, la seule nation libre de l’Europe.

Foi um adepto fervoroso do desenvolvimento científico, facto que se pode facilmente confirmar pela leitura da sua correspondência. A presente edição conta com o prefácio de Hugo Lacroix do qual transcrevemos o parágrafo que se segue:

L’ancien et le noveau

Lumières sur l’Italie. Coup de vent frais sur l’an 1785. Tout ce q’écrit Dupaty paraît l’avoir été hier matin. Il écrit vite et bien, comme il respire. Voyageant, il s’impregne par touts les pores des realités humaines du pays qu’il découvre.

O prefácio de Hugo Lacroix não deixa de ser, também ele, uma peça literária, uma mais valia a acrescentar à obra pela forma como desvenda a informação que recolhe do discurso de Dupaty, de onde sobressai uma impressionante capacidade de análise votada aos aspectos mais simples da vida quotidiana. O resultado é uma belíssima descrição das motivações e estilo usado pelo escritor, o qual versa sobre comportamentos e atitudes, costumes locais e espiritualidade dos habitantes das cidades por onde passa sob a égide daquilo a que poderíamos chamar uma inesgotável “curiosidade antropológica”.

As questões sobre a Itália contemporânea do Autor não podem, no entanto, deixar de ser avaliadas segundo um olhar e critério europeus, mais propriamente francófilos e anglófilos, a que se associa um sentimento de um certo paternalismo condescendente, face a um país que, apesar da sua riqueza histórica e patrimonial continuava, então, em termos económicos, em vias de desenvolvimento e, em termos de mentalidade colectiva, um pouco desfasado em relação aos outros dois países.

Relativamente à personalidade do Autor, percebe-se que este valoriza a amizade, é bastante selectivo nas escolhas que faz de acordo com um apertado crivo de afinidades, uma vez que o Autor convive com algumas das mais brilhantes figuras do universo intelectual da época como Diderot e Condorcet, para além dos autores e pensadores supra-mencionados.

Ao falar das Mulheres em Itália, o Autor dedica-se à análise detalhada das convenções que regulam o comportamento feminino das mulheres de Génova, Roma, Nápoles, Florença e Sicília, registando curiosamente as variações que vai observando, à medida que percorre o território em direcção ao Sul daquele País.

Descreve nos mínimos detalhes o ritual da corte, do namoro, do noivado e do casamento em, praticamente, todas as cidades que visita, registando as diferenças subtis, inclusive sobre o quotidiano doméstico das famílias, nos gostos específicos locais que se projectam na decoração, no vestuário, na propensão para a frugalidade ou para o excesso, nos diversos graus do prazer da ostentação do supérfluo, na forma de gerir ou de preencher os momentos de ócio, no viver da religiosidade. Sem esquecer a ética, a moral, as costumes ou a aparência de cada um destes componentes.

Hugo Lacroix é da opinião que a escrita de Dupaty corresponde ao ideal voltairiano que sublinha que l´écriture est la peinture de la voix.

Sendo que o estilo de escrita de Dupaty é neste período caracterizado por:

Une écriture vocale, se passe rarement de reinventer la ponctuation, afin que soit saisie à la lecture une halaine, un souffle. Nous connaissons, ne serait qu’en pointillé, les suspensions et les exclamations d’un romancier comme Céline. L’Auteur de Lettres sur l’Italie nous rend sensible son proper flux à l’aide d’une cascade de point-virgules, qui ralient des series d’instantanés cinétiques, puis confie l’autorité finale au deux-points. Sa réthorique imite, avec drôlerie, l’escrime. Le poit-virgule dirige les passes. Les deux-points préparent la pointe. Pas de haîne, mais des adversaires: le clergé, lorsqu’il nous fait voir les réligieux en insectes des diverses couleurs, est combattu avec violence.

(…)

Le langage de Dupaty se modele sur dês rythmes binaires, comme un air de ballade secouée par une sténographie dês enfants.

(…)

Léfficacité du français classique, alors langue vivante, faisait presque coïncider le langage litteraire et la langue quotidienne. Ni la diffusion des Lumières, ni l’ample crise des valeurs qu’elle révèle, n’en rendent l’usage caduc.

(…)

Saint-Just le confirme: Le Français n’a rien perdu de son caractère en saissisant sa liberté, mais il a change des manières.»

(…)

Voyager en Italie ne représentait pas une aventure perilleuse en 1785 (…)

L’Italie etait un passage obligé ou l’Europe cultivée, qui allait boire aux sources de l’art et de la civilization, se précipitait.

(…)

Les beaux-arts ne sont pas un sujet sur lequel Dupaty ait innové: les quelques lettres où il exerce son admiration des chefs-d’ouvre, ne figurent pas dans l’édition propose ici: elles ne reflètent pas le caractère de la plus part des cent-quinze letters composant l’ouvrage. Entre touts les voyageurs de son temps, il est, semble-t-il, celui qui change l’humeur du voyage.

(…)

Son tour d’Italie accomplit l’ideal voltairien. (…) Dupaty rencontre en Italie des humanistes que lisent les memes livres que lui, en amateurs des philosofes.

Lettres sur l’Italie foi editado pela primeira vez em 1785, sendo posteriormente alvo de inúmeras reedições: na época da Revolução, na época Imperial, na época Romântica ou na época Contemporânea.

Estrutura do texto

As Lettres sur l'Italie de Charles Mercier Dupaty dividem-se em conjuntos ou grupos, consoante as cidades a que se referem, estando dispostas por ordem cronológica, de forma a percorrermos o mesmo o itinerário com o Autor, o qual assume o papel de guia, numa viagem amena e cheia de sol, sob um clima temperado, onde se pressupõe, pela ausência de chuva, que a mesma viagem se realizou no final da Primavera ou no início do Outono.

A primeira paragem é Mónaco onde nos surpreendemos pela constatação de como o nível de vida dos monegascos é, à época, bastante modesto. Na verdade, o país era então extremamente pobre, embora com um povo pacífico, afectuoso e dócil. Fatalista, também, tal como os portugueses. Um povo que ama o Princípe, convencido da sua impotência para reverter a situação de pobreza crónica e estrutural que assolava a região.

A segunda parte da viagem decorre em Génova, um lugar que o Autor vê como uma terra de comerciantes. comenta o mau gosto das mulheres, denuncia o exibicionismo tão contrário à sua moral calvinista, assim como a falta de requinte dos genoveses. Não deixa de reparar também, na falta de autonomia feminina na gestão da casa nas famílias mais abastadas. Gestão essa, que é controlada pelo clérigo, o qual chega, inclusive, a dar palpites na composição da ementa da casa e no cardápio.

Já em Roma, Dupaty julga ver uma civilização imponente que perdeu já muito do esplendor de outrora, dos tempos faustosos dos antigos imperadores e da exuberância dos tempos de Nero, classificando-a de o cadáver ruinoso daquele passado imperial. Na sua óptica, a decadência está um pouco por todo o lado, uma vez que já não é a população que aí formiga, mas vermes, que a devoram. É implacável na crítica ao domínio da Igreja naquela cidade.

Em termos sociais, observa que o amor é, para as Romanas, olhado como uma espécie de “febre” que leva a que as jovens sejam cuidadosamente vigiadas pelas famílias para, assim, preservarem a virgindade para o altar. A virgindade, note-se, não a inocência. Os homens, por sua vez, casam apenas se tiverem poder de compra e, quando o têm, usam-no no exercício da própria liberdade. Critica ainda a falsidade nas relações, num ambiente social onde as pessoas se comportam como actores a tempo permanente. Menciona, também, os guettos judeus em Roma, que não são molestados pela Inquisição, como na Península Ibérica, mas em contrapartida são obrigados a pagar uma taxa por não irem à missa.

Em Florença, as coisas são um pouco diferentes. A cidade é governada pelo Grão-Duque Leopoldo, sob a égide do liberalismo económico e do despotismo esclarecido, o que gera graves dificuldades económicas aos pequenos negociantes com a abertura ao comércio ao exterior...uma pequena antevisão daquilo que aconteceria três séculos mais tarde com a globalização da economia.

Em Nápoles, a miséria local é camuflada pela beleza luxuriante da paisagem e pela opulência e ócio exibidos pela aristocracia decadente da região. O Autor brinda-nos, ainda, com a exaustiva descrição de uma espectacular erupção vulcânica do Vesúvio, num cenário de trevas absolutas, interrompidas por uma luminosidade vermelha. A aflição de escapar ao cataclismo obriga-o a perder os sapatos pelo caminho.

Uma palavra ainda para a beleza tranquila da viagem entre Pompeia e Salerno um momento de paz idílica a contrastar com a violência das últimas horas vividas em Nápoles.

E chegamos à última etapa da viagem, em terras sicilianas, onde domina a beleza nostálgica de uma paisagem agreste, a qual o Autor classifica como paradigmática do esplendor tristemente magnífico de Itália ao exclamar:

Quelles matinées fraîches! Quels midis brillants! Quels soirs calmes et silencieux! Enfin, quelles nuits amoureuses!


Cláudia de Sousa Dias

6 Comments:

Blogger Claudia Sousa Dias said...

bem, parece que falhei mais uma vez o prazo que tinha imposto a mim mesma para postar novamente...

:-(


csd

5:03 PM  
Blogger Roberto said...

Por quê?
:-)

Buona giornata

11:11 AM  
Blogger  said...

Caro Amigo/Amig@ blogueiro/blogueira,

Livros existem para aventurarem-se de mão em mão, enchendo olhos e mentes, traspassando mundos vários, continentes distantes, até mesmo galáxias perdidas deste infinito Universo, sem respeitar nem mesmo as fronteiras do senhor Tempo.


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No entanto, não queremos ser apenas um alfarrábio a mais. Para além de comprarmos, vendermos e trocarmos livros, buscamos também interagir com todos que queiram trocar ideias connosco sobre livros, artes em geral e tudo o mais relacionado com Cultura.

Convidamos-te a visitar a nossa página e, se achar interssante, ajudar a divulgá-la, seja por meio de seu blog, seja repassando esta mensagem para a sua lista de emails.
Vamos dar continuidade à aventura dos livros!
Obrigada,

Giulia Pizzignacco,
Livrilusão

11:15 AM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

extra lavoro, Roberto...

12:28 PM  
Blogger Maria said...

Como sempre, fazes com que apeteça. Apetece-me Dupaty. Mas, e agora, onde poderei encontrá-lo? (encomendo aos amigos franceses?)

Obrigada, Cláudia. Beijo enorme

9:13 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Sim...se calhar o melhor é encomendar pela net, ou mandar vir de França por alguém...

:-)


Beijo enorme


CSD

2:33 PM  

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