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Thursday, April 28, 2005

“O Bandolim do Capitão Corelli” de Louis de Bernières (ASA)



A ASA reeditou este ano
O Bandolim do Capitão Corelli, escrito no início dos anos 90, durante a guerra na Jugoslávia. Que quase que podemos dizer que foi como um epílogo ou consequência natural das duas Grandes Guerras que assolaram o século XX sendo despoletada pelo desmoronar da “Cortina de Ferro”, depois da queda do Muro de Berlim.

E é à luz destes acontecimentos que o autor elabora o romance, situando-o no período que abarca a segunda Guerra Mundial.

O Bandolim do Capitão Corelli
é um manifesto contra o fascismo, mesmo quando este se apresenta sob a máscara de ditadura do proletariado regime governado por uma oligarquia, encarregue de pensar por aqueles que não estão na posse do conhecimento.

As personagens são fictícias, mas a maior parte das situações descritas são a reconstrução de acontecimentos reais, coloridos com a interpretação do Autor e daqueles que as recordaram.

A bela ilha de Cefalónia, situada no Mar Egeu e tradicionalmente disputada, ao longo da História, por vários impérios cujos interesses se entrechocam, é ocupada pelo Exército Italiano.

A forte tensão diplomática que antecede o eclodir da guerra, o esforço titânico do primeiro-ministro grego para manter a paz e impedir o país de ser invadido quer pelos Aliados quer pelas tropas do Eixo, são algumas das preocupações que afectam o estadista. Este cai, então, na cilada armada por Mussolini cujos verdadeiros objectivos são, até ao último minuto, ignorados pelo próprio embaixador italiano na Grécia.

Benito Mussolini é a personagem histórica mais caricaturada ao longo de todo o romance, sobretudo do monólogo com que este inferniza os ouvidos do seu camareiro. Trata-se de uma passagem verdadeiramente hilariante em que o monólogo do “Duce”, logo no segundo capítulo, mostra um homem enfatuado, colérico, descontrolado, prepotente e, ao que tudo indica, com distúrbios maníaco-depressivos.

O autor desenvolve a narrativa, alternando dois cenários. Em primeiro plano, a pacata vida em Cefalónia com as suas gentes e costumes pitorescos, a cultura dos Helenos da época com as suas marcas culturais agregadas que os povos invasores lhes foram imprimindo ao longo dos séculos. Por outro lado, o enquadramento histórico-político na Europa da época, concretamente, da Itália e da Grécia e a extrema dureza das condições de vida dos soldados no terreno acidentado dos Balcãs, pela voz do heróico soldado Carlo Guercio.

Situada em cima de uma falha sísmica e, praticamente no umbigo do mundo, a ilha Grega de Cefalónia é o ponto de intersecção entre dois continentes e duas culturas: Oriente e Ocidente, cuja posição estratégica faz com que seja alvo da cobiça das várias superpotências.

O ritmo da narrativa prossegue em alternância, mas a dada altura ocorre uma mudança: a ilha é ocupada pela divisão Aqcui do exército italiano, que altera radicalmente o quotidiano dos seus habitantes.


Os habitantes de Cefalónia, irritados com a presença dos italianos não lhes facilitam a vida mas não entram em conflito directo com eles. Em parte, devido à proximidade das duas culturas e, por outro lado, devido ao carácter extremamente divertido e muito pouco bélico dos membros da divisão Aqcui, sobretudo do Capitão Corelli, tenor e tocador de bandolim, que fica hospedado em casa do Dr. Ianis, e Pelágia – a bela e indomável aprendiz de médica e de feiticeira…

O Bandolim do Capitão Corelli é um obra de elevado interesse sociológico, pela forma como descreve o quotidiano das mulheres gregas que como zeladoras do lar e trabalhadoras enquanto que os homens se dedicam, sobretudo a uma vida de ócio. É exaltado o desprezo da sociedade pelas viúvas, discute-se a questão do aborto, a falta de oportunidades para as mães solteiras numa sociedade patriarcal, a luta de mulheres como Pelagia, Drosoula e Antónia para mudar a situação ao longo das décadas subsequentes.


O romance sofre um volte-face quando a ilha é ocupada pelos alemães. Os nativos não conseguem estabelecer um relacionamento tão amigável com os novos invasores devido ao cinismo alemães em contraste com a bonomia dos italianos.

Com o terramoto que em 1953 dá-se o desmoronamento de todo um mundo e obriga à necessidade de uma reconstrução.

A música é, ao longo de toda a obra, a linguagem que facilita as relações diplomáticas entre ocupantes e ocupados. O temperamento artístico dos membros da divisão Aqcui ameniza muito a sua relação com os habitantes da ilha. A música serve, também, como um pedido de desculpa de Günter Weber a Pelágia quando lhe oferece o seu gramofone e uma substancial colecção de discos.

E é também a música do bandolim do capitão Corelli que vem colocar nos seus devidos lugares tudo aquilo que o tempo e a história separaram.


O Autor traça um retrato de um país em vias de desenvolvimento no século vinte. Um alerta final para o facto de, através do movimento das placas tectónicas, o Continente Americano estar a isolar-se do resto do mundo sem se lembrar que mais cedo ou mais tarde irá colidir com a China…

Um livro visionário.

Ou, pelo menos, tão sibilino como o antigo oráculo de Delfos…

Cláudia de Sousa Dias

6 Comments:

Anonymous Anonymous said...

Está absolutamente bem visto.
Eu também li este livro e já vi o filme. é um livro poderoso.
Rita

5:12 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

É verdade!

Beijos e bom fds!

Cláudia

7:15 PM  
Anonymous Anonymous said...

Bonjour Claudia Sousa Dias, mon nom est Inès. que j'aime votre blog, je voudrais voir encore plus. J'ai un lien à ma photo préférée là. Au revoir

8:18 PM  
Anonymous Pedro Souto said...

Deixo apenas uma rectificação complementar do interessante comentário. Esta ilha (Cefalônia)fica no mar Jônico, pertencente ao grupo das chamadas "7 Ilhas" e não no Egeu. Situa-se a sul da ilha de Corfu por exemplo e todas elas bem perto de Itália. O mar Egeu, fica do lado oposto e faz de facto a fronteira entre oriente e ocidente, banhando essencialmente o norte da Grécia e também a Turquia. O sentido estratégico de Cefalônia reside na sua proximidade ao continente grego, funcionando como uma das portas e bases para o mar mediterrâneo e também domínio do acesso marítimo até quase Atenas, separando o sul e o norte do continente grego. O domínio deste acesso permite chegar mais rápido a Atenas e controlar o golfo de Corinto, evitando a rota marítima que passa a sul pela península do poleponeso. Por isso o interesse de italianos e alemães por esta ilha de areias brancas e bom vinho.

5:16 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Obrigada pela rectificação, Pedro!

Gostei muito, e espero um dia fazer um périplo pelo Mediterrâneo par evitar mais calinadas deste género;)

Um beijo

CSD

5:30 PM  
Blogger Carla said...

Adorei a crítica, tanto que vou ler o livro. Amei o filme, sou aficcionada pela Grécia, tanto que já visitei este país várias vezes, e fiquei com uma vontade louca de ler o livro.

Tb adorei o comentário humilde das "calinadas". Acontece a todos. :D

Bjs

10:39 PM  

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