HÁ SEMPRE UM LIVRO...à nossa espera!

Blog sobre todos os livros que eu conseguir ler! Aqui, podem procurar um livro, ler a minha opinião ou, se quiserem, deixar apenas a vossa opinião sobre algum destes livros que já tenham lido. Podem, simplesmente, sugerir um livro para que eu o leia! Fico à espera das V. sugestões e comentários! Agradeço a V. estimada visita. Boas leituras!

My Photo
Name:
Location: Norte, Portugal

Bibliomaníaca e melómana. O resto terão de descobrir por vocês!

Tuesday, April 05, 2005

"Inventar a Solidão" de Paul Auster (ASA)


Este é mais um best-seller austeriano que, apesar de já ter sido publicado em 1982 nos EUA, só agora foi editado em Portugal.

O livro é composto por duas partes sendo a primeira intitulada de “Retrato de um Homem Invisível”. Aqui o autor tenta, ao longo de cerca de 90 páginas, recuperar a memória do seu pai, num esforço de reinventar a sua vida após uma morte súbita.

É então que dá de caras com o inesperado. A descoberta das circunstâncias que rodearam a misteriosa morte do avô e condicionaram a vida e a personalidade do pai bem como o grau de coesão da sua família e natureza dos laços afectivos que ligam os seus membros.

O teor deste livro genial é-nos dado logo na epígrafe inicial de Heraclito que avisa o leitor de que: “Na busca da verdade, prepara-te para o inesperado, pois é difícil descobri-la e, quando a encontramos, encontramos a perplexidade”.

O choque provocado pela morte do pai que impulsiona o autor a tentar reconstruir a sua vida, leva-o a recorrer à memória – tema que ocupa toda a segunda parte intitulada “O Livro da Memória” – obrigando-o a fazer uma regressão no tempo e a dissecar as diferentes facetas da personalidade do seu progenitor, expondo os seu aspectos positivos e negativos e, simultaneamente, a encontrar-se a si mesmo.

Durante o período que medeia essa mesma reconstrução, o Autor tem um encontro com o inesperado numa velha fotografia de família, rasgada e colada na qual a avó posa, rodeada de todos os seus filhos.

A fotografia faz lembrar, um espelho quebrado, na qual parece haver no entanto algo ou alguém que foi obliterado, apagado do registo fotográfico e das vidas dos restantes membros da família…

É então que a verdade vem colidir violentamente com o autor, deixando-o como que esmagado. Subitamente, tudo se torna inteligível…

Na segunda parte, já referida e intitulada “O Livro da Memória”, o autor tenta reconstruir os passos e toda a ambiência que precede o processo criativo do profissional da escrita. Trata-se de um conjunto de narrativas cujo objectivo é a construção de episódios com detalhes susceptíveis de cativarem a atenção do leitor e, sobretudo, de quem escreve.

Auster decompõe todo o acto de escrever, bem como toda a envolvente física e psíquica que fazem parte do processo de reconstrução da memória.

Para isso, tem de recuperar os momentos e episódios que marcaram a sua vida, coincidências e paralelismos que estabelecem um fio condutor quando se trata de escrita criativa, que o escritor reveste com as suas próprias significações.

Neste Livro da Memória, o discurso de Auster é, sobretudo, argumentativo, técnico, recorrendo o Autor aos saberes e experiências adquiridos. Mas também está presente o discurso emocional, como no episódio em que Auster descreve o quarto de Anne Frank ou um campo de refugiados do Cambodja no qual destaca a indiferença do mundo Ocidental face ao extermínio em massa. A banalização do Holocausto transformado em espectáculo televisivo ou em propaganda política.

Auster prossegue a exploração dos caminhos da memória estabelecendo um paralelismo entre a sua própria vida e a de algumas personagens que cruzaram o seu caminho: o pai ou o compositor com o qual compartilhou o quarto durante a sua estada em Paris; a relação de Rembrandt com o seu filho Titus justaposta com a sua e do seu próprio filho, Daniel.

Escrever é, para o autor, evitar o desaparecimento daqueles que mais ama; é uma forma de lhes conferir imortalidade, numa luta insana contra a morte para salvar os seus entes queridos de serem tragados pelo tubarão.

É especialmente significativa a interpretação que Auster faz do episódio de Pinocchio e Gepeto no ventre do Tubarão: o filho, para crescer, tem de salvar o pai. O Autor para assumir a sua função de pai, tornando-se adulto, tem, antes de mais, de resgatar o próprio pai das garras da morte.

O título do livro “Inventar a Solidão” tem, a ver com o acto de escrever. Porque, para ele, cada livro é a imagem da solidão e cada livro escrito é um acto de solidão partilhada, construído num abismo de silêncio, como explica na parábola bíblica de Jonas no ventre da baleia.

O autor fala, sobretudo, do passado, mas lembra que falar do futuro implica a utilização de uma linguagem que aqueles que vivem no presente não entendem, por isso as profecias estão, desde logo, condenadas ao descrédito como acontecia com Cassandra, a princesa visionária. Auster faz uma análise brilhante do extracto de da “Ilíada” de Homero que corresponde ao discurso da princesa troiana. Tal como no poema, existe a tendência, neste “Livro da Memória”, para o leitor mais desatento se perder um pouco, ao contrário do que acontece na primeira parte, onde é mais fácil seguir o fio condutor do raciocínio deste genial escritor-poeta.

A escrita de Auster é fria, argumentativa, extremamente analítica e dialéctica. Mas também de carácter associativo, em que cada pensamento remete para um outro numa pluralidade de ramificações e significações que se desdobram e que se aglutinam umas às outras num alucinante vórtice cerebral.

Um livro que pretende demonstrar que escrever é inventar a solidão para depois partilhá-la. Que, sem ser directivo, mostra o caminho para o auto-conhecimento.

Porque todo o livro que implique uma escrita criativa é um livro de memória.

Para prolongar o momento até à eternidade.


Cláudia de Sousa Dias

6 Comments:

Blogger Nilson Barcelli said...

Olá quase vizinha Cláudia (eu sou de Viana).
Vim aqui pela mão da Maria Heli, que te citou no seu último post.
E ainda bem que vim porque, como já disse à Heli, não conheço o autor mas, pela excelente descrição que fizeste do livro em causa, parece-me imperdível. Daí que já o tenha na minha agenda de compras de livros em primeiro lugar.
Gostei do teu blog. Li apenas "em diagonal" e tenho que ler mais, mas já vi que esreves muitíssimo bem. Parabéns. Por isso voltarei mais vezes.
Beijinhos.

7:08 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Obrigada: Es muito bem Vindo!

Beijinhos!

1:36 PM  
Anonymous Anonymous said...

muito bom este livro
Rita

8:02 PM  
Anonymous Anonymous said...

Gostei muito de visitar o site pois ajudou-me para um trabalho. Se me permite uma sugestão deveria pôr no topo da página os textos que estão em baixo comentados para ser mais fácil a busca.
Obrigado! Devia fazer uma visita a Monchique. É uma vila linda.

4:58 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Obrigada! Tentarei fazê-lo!

Tudo de bom

CSD

5:33 PM  
Anonymous rosemary oliveira said...

Oi, muito interessante essa sua leitura dos contos de Andersen. Eu gosto muito de contos de fada e das leituras psicanalíticas que se podem tirar deles.
Se um dia quiser ler outras coisas nesse sentido sugiro Bruno Bettelheim - A Psicanálise dos Contos de Fada - e Vladimir Propp - As Transformações dos Contos Fantásticos e, um outro, Morfologia do Conto maravilhoso - bem interessante também é um livro com abordagem junguiana, se chama Mulheres que Correm com Lobos, mas infelizmente não me lembro o nome da autora, é muito interessante pois fala dos arquétipos femininos encontrados nos contos de fada, eu particularmente gosto muito do conto A Menina dos Fósforos.
Um abraço, muito bacana seu blog.
rose

8:15 PM  

Post a Comment

<< Home