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Wednesday, August 27, 2008

"História de uma Gaivota e do Gato que a ensinou a voar" de Luís Sepúlveda (ASA)


Esta será, juntamente com O Velho que lia Romances de Amor, a obra de maior sucesso comercial de Luís Sepúlveda. Trata-se de um conto destinado ao público infanto-juvenil, mas que não deixa de seduzir, também, os adultos. Escrita durante o período em que o Autor e a família viviam em Hamburgo, a trama subjacente a este conto incide na vida de um gato que habita as imediações do porto da cidade e, também, na amizade entre o felino e uma gaivota que tem o azar de ser surpreendida por uma maré negra.

Luís Sepúlveda escreveu a estória do gato Zorbas – que habitou realmente a casa e fez, durante largos anos, parte da família Sepúlveda – para os filhos colocando “o gato grande, gordo e negro” como personagem central. O verdadeiro Zorbas viveu com os Sepúlveda e a biografia deste simpático animal é-nos mostrada num lindíssimo relato incluído na colectânea As Rosas de Atacama. Estão, no entanto, impregnadas na trama central de História de uma Gaivota e do Gato que a ensinou a voar através não só do discurso do narrador mas, sobretudo, na linha de pensamento e nos valores transmitidos pelas personagens as principais marcas ideológicas que nos habituámos a ver no discurso de Sepúlveda: a defesa do meio ambiente, sobretudo no que respeita ao ecossistema dos oceanos, a solidariedade, a aceitação e integração das diferenças.

A personagem que desencadeia a trama é Kengah, a gaivota marinheira e piloto, integrada no bando migrante que efectua viagens transcontinentais. Tem características muito especiais. É uma cidadã do mundo que assiste a convenções internacionais de gaivotas, é poliglota, reconhece as várias bandeiras que correspondem a diversas nacionalidades e associa-as às diferentes sonoridades linguísticas, o que lhe proporciona a faculdade de distinguir vários idiomas humanos – ao perceber várias sonoridades diferentes para a o objecto “peixe”, por exemplo. Sabe, também, decifrar a linguagem dos gatos o que lhe facilita a comunicação com Zorbas.

Linguagem e Discurso

Logo nas primeiras páginas deste cativante fábula, aquilo que prende a atenção do leitor, ao ler as primeiras frases, é a projecção dos conhecimentos e experiência de voo do autor projectadas na linha de pensamento da gaivota e, ao mesmo tempo, a presença da gíria, típica dos marinheiros.

Banco de arenques a bombordo! – anunciou a gaivota de vigia, e o bando do Farol da Areia Vermelha recebeu a notícia com grasnidos de alívio. Iam com seis horas de voo sem interrupções e, embora as gaivotas piloto as tivessem conduzido por correntes de ares cálidas que lhes haviam tornado agradável aquele planar sobre o oceano…” (excerto do capítulo I).

Os personagens felinos

Outro aspecto que se destaca na obra é a solidariedade dos gatos que habitam as imediações do porto de Hamburgo é o sentido de compromisso, subjacente à coesão do grupo, e que reveste um carácter quase que sagrado, no que respeita ao cumprimento da palavra dada. Esta pequena confraria de gatos não chega a confundir-se com o gang dos gatos arruaceiros, precisamente pela interiorização de uma série de valores relacionados com o civismo. Por isso, assemelha-se, talvez, um pouco à guarda do Mosqueteiros de Dumas onde, na eventualidade de algum dos seus membros se encontrar em dificuldades, os restantes unem-se para o ajudar. É o que acontece quando Zorbas se vê a braços – ou a patas – com a filha de Kengah à qual promete ensinar a filha a voar logo que chegue à idade adulta.

Os personagens felinos são os que despertam maior curiosidade pelos traços particulares que exibem.

Zorbas, “o gato grande, preto e gordo”, bonacheirão e guloso, é tão bon vivant como Garfield embora sensível e coração mole. O que não o impede de exibir dentes garras quando encontra pela frente o bando dos gatos de rua – os provocadores e pseudo-valentões:

Estendeu lentamente uma pata da frente, pôs de fora uma garra tão comprida como um fósforo e aproximou-a da cara de um dos provocadores” (sic).

– Gostas? Olha que tenho mais nove! Queres experimentá-las no espinhaço? – miou com toda a calma.

Com a garra diante dos olhos, o gato engoliu cuspo antes de responder.”

Depois temos Colonello, que habita as redondezas da cozinha do Ristorante ItalianoO Baloiço”. Colonello exibe quase que a postura de um pater famílias siciliano, é o chefe da confraria dos gatos do porto, torna-se o patriarca dos gatos, “por ser velho e talentoso”. Tem uma vocação especial para aconselhar e confortar os outros, apesar de nunca solucionar um problema.

A seguir vem Secretário, o moço de recados de Colonello, ao qual cabe sempre aquilo que os outros não querem fazer, isto é, as tarefas mais ingratas.
E, por último, Sabetudo, o enciclopedista, que habita o Bazar do porto onde, entre muita tralha, se encerra a biblioteca mais eclética do mundo. O Bazar é guardado por Matias, o impertinente macaco que, apesar da petulância, não consegue impedir a iniciativa nem o apurado instinto de investigação deste quatro “mosgateiros”…

A Inspiração nos contos tradicionais

Há, inequivocamente, em História de uma Gaivota e do Gato que a ensinou a voar vários elementos que denunciam a inspiração vinda dos contos tradicionais, como as três promessas exigidas pela gaivota-mãe a Zorbas, onde o número três se reveste de um carácter quase que sagrado ou, pelo menos, mágico.

Depois os adjuvantes – os gatos do porto – e os oponentes – o gang dos provocadores, a Ratazana e o Homem.

Por último, a quebra do tabu, a título excepcional – isto é, a exposição ao risco – também presente na maior parte dos contos tradicionais, como recurso extremo e em caso de força maior. Nesta situação, trata-se de entabular diálogo com uma figura humana – um poeta, um idealista – que medeia os interesses assentes na defesa do ecossistema à escala global, dos humanos e dos animais.

A quebra do tabu – falar a linguagem dos humanos e mostrar que são por eles compreendidos – implica um elevado risco para os gatos: a perda da independência e da liberdade.
O grupo tem consciência do facto por analogia com o sucedido a outros animais: golfinhos, papagaios, primatas e até os felinos de grande porte que servem de brinquedo aos humanos ou que são submetidos a torturas em laboratórios, em nome do avanço da Ciência. Mais uma achega do Autor na defesa dos direitos dos animais...

…de onde emerge a importância da escolha de uma figura humana escolhida a dedo para integrar a missão de ajudar os gatos e a gaivota.

A solução será fazer com que pareça tratar-se de um sonho…
…uma vez que não é considerado incomum que um poeta sonhe com coisas aparentemente bizarras.

Uma fábula contemporânea, a exibir uma das melhores facetas da escrita de Luís Sepúlveda.


Cláudia de Sousa Dias

17 Comments:

Blogger Teresa said...

Confesso que a escrita de Luís Sepúlveda não me transmite a chama e o questionamento que sempre procuro na leitura. Este teu texto transmitiu-mos muito mais ;-)). Este livro é um dos clássicos dele; neste sentido, devia ser conhecido por todos e é excelente que o lembres.
Beijinho Grande
TSC

6:16 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Dele é também um dos dois que mais gosto!


bjo

1:04 PM  
Blogger Wolf said...

olá Claudia

e em sequencia da confissão ok..eu tambem confesso que adoro ler as tuas notas sobre os varios livros e a forma cm deixas um sabor sobre os mesmo..

kiss

11:22 PM  
Blogger Sofia said...

Olá Claúdia ;)
Já li alguns livros de Luís Sepúlveda nomeadamente O Velho que lia romances de amor e Diário de um Killer Sentimental. Gostei de ambos mas sinceramente considerei serem pequenos demais. Os enredos têm potencial e Sepúlveda é um excelente escritor mas senti que faltava algo. Tenho aliás outros dois livros dele na estante que ainda não me senti motivada para ler.
De qualquer forma, este que referes é um dos seus livros mais conhecidos e aclamados que faço questão de experimentar. Boa sugestão :)

12:00 AM  
Blogger Ana said...

a par com o Mundo do fim do mundo é um dos livros que mais gosto de Sepúlveda. é uma lição de vida:)

beijo*

10:55 AM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Obrigada, Wolf...

Um kiss para ti também


CSD

3:25 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Considerei "O velho que lia romances de amor" um dos livros mais belos, líricos e com uma mensagem muito significativa acerca da temática do respeito pelo Outro e de tolerência com maior pertinência dentre aqueles que li até hoje...este também embora a outro nível, mais ligeiro mais brincalhão porque direccionado para crianças...

Nem todos os livros dele atigiram este patamar...

Talvez porque a maior parte deles sejam livros dedicados a outro género: crónicas, relatos, ou simplesmente artigos de opinião..

O Diário de um killer não é, de maneira nenhuma um romance nem sequer uma colectânea de contos, mas antes uma série de três novelas policiais. Daí teres a sensação de estar perante um episódio de uma série policial para televisáo, com rasgos de humor negro ali por entre os meandros da trama...


CSd

3:31 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Esse ainda não li...está na minha lista, assim como "Nome de Toureiro"

Também gostava de ler "Os piores contos de Grimm" que ele escreveu em parceria com outro autor...

CSD

3:33 PM  
Blogger Pedro said...

Ando sempre à procura deste livro!

É muito bom, para mim muito belo e apelativo.

1:58 AM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

ainda bem que gostas Pedro...

csd

4:08 PM  
Blogger Elipse said...

Sim, e entrou na linguagem animal como se fosse um deles. Quem assim escreve tem de ser muito bom observador dos bichos.
Tal como tu és uma leitora inigualável de bons livros.

10:45 AM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Obrigada...nemsei o que dize...

quanto ao sepúlveda não poderia estar mais de acordo.

bjo

CSD

5:17 PM  
Blogger Carla said...

Muitos parabéns! É a primeira vez que visito o teu blog e vou-o visitar por mais vezes com certeza, já que sou uma "leituraoolic". Adorei a tua opinião e este já está na minha enooorme lista de livros a ler.
bj
Carla

7:20 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

obrigada Karla pela visita!

Um beijinho

CSd

6:27 PM  
Blogger Joana Pinto said...

É um livro delicioso...Revejo muito do que li nest post.
Voltarei!

12:11 AM  
Anonymous Ricardo Silva said...

Olá, Cláudia!

Muito obrigado pelo teu post a servir de "teaser" para esta pequena pérola de Luis Sepúlveda :-)

Li este pequeno conto num piscar de olhos, pois a prosa é curta, simples e directa ao coração.

A mensagem final, na última página, é fundamental para ser feliz.

Temos que arriscar para nos sentirmos vivos!
(agora só me falta arriscar mais ;-)

Foi esse ensinamento (não neste conto, mas n'"O Segredo", de Rhonda Byrne), que me fez saltar de pára-quedas por cima do Alentejo, há uns meses atrás :-)

Se te quiseres divertir com os detalhes de alguém que também quis voar (e não é uma gaivota, LOL) , passa pelo blog Quero Voar! e faz o download do PDF com o meu conto.

Mais uma vez, obrigado pelo teu post a divulgar este conto.

Até já!
Ricardo Silva
Autor do novo ebook gratuito Quero Voar! disponível para download em:
www.QueroVoar.pt

4:22 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

irei lá sim...amanhã mesmo.


csd

11:42 PM  

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