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Thursday, September 04, 2008

"A Loucura do Rei Marco" de Clara Dupont-Monod (Difel)


Clara Dupont- Monod nasceu em Paris, no ano de 1973, é licenciada em Literatura Moderna pela Universidade da Sorbonne. Escreveu crónicas e artigos relacionados com a Cultura e Temas da Actualidade para a revista Cosmopolitan e para a Marianne. Actualmente, colabora na revista DS, na secção cultural Créations e, também, no jornal L´Événement du Jeudi. A Loucura do Rei Marco é o seu segundo romance.

Baseado na lenda constituída a partir da paixão de Tristão e Isolda, em plena época medieval, A Loucura do Rei Marco é um romance – monólogo que se debruça exclusivamente sobre a paixão do marido traído pela esposa de beleza mítica, filha do Rei da Irlanda, com o sobrinho e filho adoptivo do monarca.
O Rei Marco é contemporâneo e, simultaneamente, vassalo do Rei Artur – rei supremo de toda a Bretanha que chefia os pequenos reinos da Grande Ilha, coordenando a defesa das ameaças exteriores, tais como os Vikings e os Normandos. Entre estes pequenos reinos encontra-se a Cornualha, em cuja fortaleza, Tintagel, reside o protagonista e narrador da trama. O tom da narrativa é marcado pelo discurso obsessivo e egoísta de um monarca de tendência absolutista, temeroso de ser suplantado por alguém mais carismático: Tristão. O jovem veado que ameaça arrebatar a liderança do velho Rei –Veado, segundo o imaginário da mitologia celta.

A origem do drama emerge da fama da beleza perfeita – à qual é atribuída uma aura quase que sobrenatural da jovem Isolda –, então adolescente. Um carisma que atravessa fronteiras, cruza os mares e se espalha pela Europa, até às soalheiras terras hispânicas.
O Rei da Cornualha decide, então, desposar a jovem sem mesmo a conhecer, motivado pelo instinto que leva um homem a possuir um objecto que os outros invejam. Envia então, o sobrinho, filho da irmã, em missão especial para entabular negociações no sentido de trazer Isolda para a Cornualha casando-a com o por procuração, ainda em casa do pai.

Marco está tão crente na inquestionabilidde do próprio poder assim como na fidelidade absoluta do sobrinho e respectiva submissão ao seu estatuto de rei, assente na convicção de que tudo lhe é devido, que ignora a extrema beleza e carisma de Tristão cuja idade é, além do mais, compatível com a de Isolda e no impacto que possa exercer no coração da jovem.
Tudo parece conspirar para que os dois se apaixonem e só o monarca parece não se aperceber do facto. A paixão entre os dois não podia deixar de ser fulminante e imediata, eclipsando o sentimento de lealdade e amor filial…

Há no entanto, em Tristão, um conflito interior que se percebe em todas as suas atitudes visíveis nas entrelinhas do discurso de teor indiscutivelmente maníaco do Rei Marco. Até mesmo quando Tristão contrai matrimónio com uma donzela de inquestionáveis semelhanças físicas com Isolda, mas a quem está longe de amar. Percebe-se facilmente as intenções do jovem ao colocar uma barreira entre si próprio e a Rainha da Cornualha. Tristão opta, por castrar a própria paixão, num acto de submissão à autoridade patriarcal, incarnada na pessoa do Rei, sentindo-se como que dominado por um sentimento de dever e lealdade a um droît du seigneur, socialmente instituído e inquestionável, ao qual agrega um ubíquo sentimento de culpa, que lhe censura o impulso de desejar a mulher do tio.

Isolda mostra-se por seu turno, uma mulher submissa e, poder-se-á dizer, fraca, porque incapaz de fazer valer a própria vontade, face aos dois reis que decidem o seu destino sem a consultar. Isolda foi educada para obedecer, o que se verifica logo no início quando aceita sem protestar, casar com Tristão que substituía o Tio, durante a cerimónia, havendo mesmo quem afirmasse, na altura, que este teria também tomado o lugar do Rei no leito da jovem esposa, durante a viagem…

Face a este contexto, não é de espantar que tenhamos uma Isolda aparentemente fria, indiferente, que Marco não hesita em classificar de hipócrita e falsa: Isolda não tem, praticamente, outra opção senão desdobrar-se e levar uma vida dupla, isto é, recalcar o que sente e exibir uma máscara a tempo inteiro no sentido de desempenhar o papel de Rainha.

No discurso do rei, cujo monólogo abrange as cerca de 160 páginas do romance, está omnipresente o sentimento de posse, acompanhado de uma imensa vaidade, um narcisismo que se mistura com deslumbramento, ódio, desejo de maltratar e punir, um cocktail de emoções violentas que visa substituir a atitude de indiferença pela dor, a qual confirmaria o domínio face ao objecto desejado.

Na realidade, nas emoções subjacentes a este romance de Clara Dupont-Monod podemos encontrar a raiz da maior parte dos casos de maus tratos a mulheres onde a figura feminina é tratada como um objecto ou propriedade do elemento masculino, uma mercadoria rara a qual se adquire, exibe e usufrui, não como uma pessoa com vontade e desejos próprios.

O final só poderia ser trágico, uma vez que os condicionalismos sociais de uma época histórica que constitui o auge da repressão da sexualidade e autonomia femininas no Ocidente, jamais poderiam permitir um desfecho diferente.

A Loucura do rei Marco faculta-nos uma oportunidade única para admirar a beleza da palavra da autora, projectada no discurso de um homem doente, que acaba por perder o domínio de si mesmo e até mesmo a própria identidade, ao encontrar, por uma vez na vida, algo que o poder e o dinheiro não lhe podem dar: o amor de uma mulher com “corpo de vento, de galdéria, de rainha esquecida, de criança doente”.

Um vórtice passional onde Amor e Morte se digladiam até à dissolução final.


Cláudia de Sousa Dias

14 Comments:

Blogger Pedro said...

Algo que me atraiu: a história de Tristão e Isolda. Uma história de amor como essa só pode interessar.

3:50 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

é um livro intrigante.

no mínimo.


CSd

5:49 PM  
Blogger Teresa said...

Este não conheço...nem a autora. Obrigada!
E passei, também, para dar um beijinho :))

TSC

8:59 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

eu também não o conhecia, Teresa

foi-me oferecido...e ainda bem!


CSD

1:08 PM  
Blogger Dalaila said...

quem me dera que todos os criticos literários fossem como tu, lio-os com mais certezas que não era perda de tempo

3:37 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

:-)


Já me aconteceu com alguns...mas a esses não perco tempo a comentá-los...

CSD

12:11 PM  
Blogger instantes e momentos said...

é sempre muito bom voltar ao teu blog, me anima vir aqui. Gosto do teu blog.
Maurizio

6:10 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

já cá tinhas estado?!


Beijinhos

CSD

9:08 PM  
Blogger Elipse said...

mais uma bela apresentação; ainda por cima gosto tanto destes romances que vivem da mitologia celta!
Beijinho para ti.

10:42 AM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

eutambém...embora n~ºao me tenha debruçado muito sobre o tema ultimamente...esté uma abordagem mais psicológica...ou psicótica, se quiseres! (lol)


CSD

5:15 PM  
Blogger Juan Carlo Moravagine said...

Um dos blogs mais interessante sque já vi!

Até

Moravagine

7:07 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

obrigada, MOravine!

e bem-vindo ao hasempreumlivro...

CSD

11:52 PM  
Blogger Wolf said...

Claudia ola

Um dia que me cruze com a obra, decerto irei ..debruçar-me...sem cair claro..

Kiss Kiss

12:17 AM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Combinado: mas a obra chama-se "Olhos de Cão Azul"

:-)


Quanto àquilo que me pediste, podemos trocar informações através do e-mail do blog claudia_sousa_dias@hotmail.com

CSd

12:23 AM  

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