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Bibliomaníaca e melómana. O resto terão de descobrir por vocês!

Sunday, November 01, 2009

“O Cão Vermelho” de Louis de Bernières (ASA)



No início de 1998 fui a Perth, na Austrália, com o objectivo de participar num festival literário. Previamente acordada estava uma visita a Karratha, onde deveria integrar,também, um jantar literário. Karratha é uma cidade no Norte, composta por várias áreas de terra vermelha, rocha e mato. A paisagem é extraordinária. Imagino que Marte deve ser semelhante. Decidi explorar a zona e descobri uma estátua de bronze – o Cão Vermelho – nas imediações da cidade de Dampier. Senti imediatamente que tinha de desvendar o passado daquele cão (…).

Regressei alguns meses mais tarde e passei duas maravilhosas semanas a recolher histórias sobre ele e a visitar os lugares por onde ele passara, escrevendo à medida que viajava.

Espero que o meu gato nunca descubra que escrevi uma história em honra de um cão
.


Louis de Bernières

Ao basear-se numa história de factos verídicos, Louis de Bernières, constrói uma série de relatos que, embora interligados e seguindo uma ordem cronológica, podem ser lidos separadamente como se de contos se tratassem. Os episódios reunidos neste volume são a tentativa de reconstituição do percurso da vida, curta mas atribulada, de um rafeiro australiano, andarilho e independente, mas insinuante, a ponto de construir uma vasta rede de amigos, solidários e sempre prontos a ajudá-lo, a alimentá-lo e a dar-lhe guarida.

De acordo com os dados recolhidos pelo Autor, em Karratha, o verdadeiro Cão Vermelho nasceu em 1971 e morreu em 20 de Novembro de 1979.


As estórias relatadas no livro são retiradas de episódios que realmente ocorreram, tendo apenas sido alterado o nome das personagens, com excepção de John.

A consulta às bibliotecas públicas de Perth, Dampier e Karratha, bem como o périplo pelas livrarias locais, serviram de base à pesquisa efectuada para a reconstituição da vida do cão vagabundo australiano. Os dois relatos, totalmente factuais, nos quais se baseia para elaborar O Cão Vermelho encontram-se fora do mercado livreiro, pelo que não podem ser adquiridos, mesmo que nos desloquemos propositadamente à Austrália esse objectivo. Um destes relatos foi elaborado por Nancy Gillepsie e está na Biblioteca de Perth, sendo datado de 1983; e o de Beverly Duckel (1993), disponível apenas no posto de turismo de Karratha.

As estórias são agrupadas consoante as fases conhecidas da vida do Cão Vermelho. Assim, nos primeiros três episódios, o Vermelho vive com o casal Collins, que o apelida de Tally-Ho.
Logo nas primeiras páginas, apercebem-nos que o bicharoco tem o dom de cativar a simpatia e de estimular a generosidade daqueles com quem se cruza. Andarilho e matreiro, sabe insinuar-se junto das pessoas certas para arranjar comida apesar do sério problema de flatulência – uma potentíssima arma química – de que sofre, obrigando aqueles que o hospedam a manter os espaços onde se encontra, devidamente arejados. Este facto, adicionado à impressionante voracidade que o caracteriza, obriga a que os seus benfeitores estejam sempre com um olho posto no jantar enquanto realizam outras actividades.

Ao conhecer John, dá-se um ponto de viragem no percurso de vida do Cão Vermelho o qual passa, a partir daí, a ser conhecido apenas por esse nome. John será o seu companheiro de eleição em cujo domicílio se sente realmente em casa, onde sempre regressa nos intervalos das suas explorações pelo continente australiano. Aumenta consideravelmente o número de amizades cuja fidelidade resiste a toda a prova. Sobretudo à pestilência, como é o caso de Nancy, Patsy e dos trabalhadores da central de camionagem, colegas e passageiros de John.
No entanto, a morte inesperada de John, marca o início do período de errância na vida do Cão Vermelho que já não é interrompida pelos regressos a casa do amigo.


O episódio que relata o acidente de John altera, também, a coloratura emocional da obra, que se tinge de tons dramáticos a partir do momento em que os amigos e colegas deste se apercebem que o animal não tem consciência da morte do amigo, julgando-o perdido ou que, simplesmente, decidiu abandoná-lo passando, então, a procurá-lo mundo fora. A trama caminha, a partir de então, seguindo o rumo de uma intensidade dramática em crescendum até atingir o ponto culminante, no final. Um processo que é entremeado por episódios divertidos, para aliviar a sobrecarga emocional, onde o Autor faz o enquadramento da trama na paisagem na paisagem geográfica com a inclusão de elementos climáticos, assim como da fauna e flora australiana, a que se junta, também, a dimensão humana e ecológica. Louis de Bernières faz uma chamada de atenção para a forma como os humanos invadem progressivamente o território selvagem, com grave prejuízo para as espécies locais. O Autor utiliza as peregrinações do Cão Vermelho como pretexto para chamar a atenção para a tragédia que é o número de mortes de Kangurus e Wallabies, nas auto-estradas da Austrália, por atropelamento.

Simultaneamente está, também, impressa no texto a dualidade da Natureza humana que permite com que se trate outros seres vivos com requintes de crueldade ou, pelo contrário, com uma afeição tão evidente como a forte ligação do Homem, à Natureza que age, nesta estória age, de forma paradoxal, como força humanizadora. A mensagem que se pretende passar é a de que o amor e os afectos são a chave, o sentido único da vida. Principalmente aquele amor que não coloca grilhetas nem entraves à acção do Outro.

O autor mostra-se, também, empenhado em revelar o ridículo e a estupidez da observância de ódios mesquinhos, da avareza, da inveja e da má vontade daqueles que envenenam cães, gatos, dingos e outros animais com estricnina ou outros métodos de crueldade inimaginável.

O Cão Vermelho é um animal invulgar. Com muito de humano. Por vezes mais humano do que a maior parte dos homens. Um rafeiro avermelhado que possui uma memória, sentido de orientação e inteligência emocional bastante acima da média: para viajar não precisa de GPS e tem grande facilidade em seleccionar amigos, excluindo automaticamente pessoas de carácter duvidoso ou mau carácter. Em relação aos outros animais, possui uma excelente capacidade de transformar inimigos em aliados – como é o caso do Gato Vermelho, num episódio digno das melhores estórias de Garfield.

Louis de Bernières não deixa de utilizar o humor, tal como já nos habituamos a ver em obras como O Bandolim do Capitão Corelli alternadas com cenas de grande intensidade dramática ou trágica.

O texto final é digno quase que de um conto de Hans Christian Andersen ou de uma tragédia de Sófocles.
No entanto, a lembrança que permanece após a leitura de O Cão Vermelho, é a de uma estória de amor que envolve o protagonista e é enfatizada pelos sentimentos opostos dos antagonistas, como contraponto. A sátira e o riso são utilizados como catalisadores da ternura e do afecto, indispensáveis a todos aqueles que, de facto, se sentem vivos e vivem a vida na plenitude, na ânsia de encontrar o amor e saciar a sede infinita de liberdade.


Cláudia de Sousa Dias

18 Comments:

Blogger Maria said...

Mais uma vez venho partilhar o que estive a ler nesta última semana. Li dois livros colossais de Stephen King: The Talisman e Black House. Há quem odeie, há quem ame. Eu amo-o de paixão, adoro os seus livros de quase 1000 páginas, cheios de personagens memoráveis. Comecei a ler o It (1344 páginas) e estou tão embrenhada na história que às vezes o H tem de arrancar-me o livro das mãos para que eu lhe dê atenção :P


beijos e boa semana

12:42 AM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

tenho um amigo que só lê desses livros.


:-)


csd

12:59 PM  
Blogger Vera Y. Silva said...

Queria ter a sabedoria desse cão. Vou ler o livro para se pode ser aprendida.
A sério: conseguiu mostrar muito bem o interesse do livro. Suponho que poucas pessoas consigam ler o seu post e não queiram ler o livro.

1:05 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

obrigada, Vera!


:-)


csd

1:24 PM  
Anonymous João Sequeira said...

Boa noite. Gosto muito deste blog. Só é pena que não disponibilize um endereço de email para onde lhe possamos enviar notícias e convites para lançamentos de livros.

2:13 AM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

obrigada.

o endereço está no profile.


csd

9:53 AM  
Anonymous Anonymous said...

Olá Cláudia! Que bom ter descoberto este blog! Eu também adoro ler! A partir de hoje vou ser uma visitante assídua! Pois é, eu também não encontrei o endereço de email... vou voltar a procurar! Sugiro o disco da minha vida... "Variações Goldgerg" do Bach, em qualquer versão mas nas do Glenn Gould ou do Keith Jarret em especial!!! E depois qualquer um destes dois intérpretes é fantástico. Um abraço Né (Porto)

7:53 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

provavelmente até já nos cruzámos no clube literário, ou no Púcaro's...

:-)

csd

8:08 PM  
Anonymous João Sequeira said...

Não tem que agradecer, o prazer é meu (e com certeza de muitos mais leitores). Mas olhe que não me parece que haja qualquer endereço de mail no profile, pelo menos que seja público. Seja como for, quando tiver notícias frescas posso sempre usar a técnica do "post it", não? Abraço.

6:55 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

claro que sim

csd

9:01 PM  
Blogger (Lord of BF) Pander-ADM said...

ESTE LIVRO É DEMAIS , UM LIVRO MUITO BOM É UMA HISTÓRIA LINDA DE MUITAS EMOÇÕES.PARABÉNS.

4:06 PM  
Blogger Unknown said...

Parabéns pelo post! O livro e o filme são maravilhosos e seu post soube transmitir isso! Sou grande fã do autor que se dedicou a escrever uma história tão bonita. (Brasil)

1:34 AM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

não sabia que havia um filme para esta história.

1:57 AM  
Blogger Luigi Gato said...

Acabei de assistir o filme Cão Vermelho no Youtube... Realmente é uma historia emocionante, recomendo! O livro deve ser muito bom, com certeza.

8:52 AM  
Blogger Luiz Guilherme said...

olhem a estatua do cão vermelho*_* no google maps -20.664163,116.717524 ou procurem nesse endereço: Dampier Hwy , Dampier, Austrália Ocidental, Austrália
a estatua está entre as ruas parker point rd e a rua hill rd.
Não da pra ver muito bem a estatua pelo Street View mas pra mim foi bem emocionante ver essa estatua la!

6:37 AM  
Blogger Unknown said...

Cheguei em casa ontem a noite (06/03/2014) e vi o finalzinho do filme O Cão Vermelho".
Fiquei muito interessado, afinal, sou aficionado por animais e a natureza em geral.
Procurei hoje pela manhã no Google e encontrei seu blog que, diga-se de passagem, FOI O MELHOR que encontrei falando sobre o livro e a história extraordinária desse cão.
Aqui no Brasil não encontrei o livro para comprar, mas existem em vários sites o filme, que irei assistir é claro.
De qualquer forma, como dica do Luiz Guilherme, procurei no Google Maps e encontrei o memorial com suas fotos e dizeres, me senti lá pessoalmente.
Vou passar o endereço completo, vai que alguém também se interesse não é mesmo.
Obrigado pelo post.
Um abraço e bom final se semana.

https://www.google.com.br/maps/place/Red+Dog+Memorial+Statue+%26+Information+Bay/@-20.66409,116.717624,213m/data=!3m1!1e3!4m7!1m4!3m3!1s0x2bf63c09ad61e00d:0x400f6382479c980!2sDampier+WA+6713!3b1!3m1!1s0x0:0xceb6a43412f6eeb1

8:37 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Obrigada!


Não conheço o filme. Vou tentar arranjar forma de conseguir o DVD.

1:14 AM  
Blogger Ceci Floripa said...

Assisti o filme várias vezes w chorei horrores. Imagino que o livro deve ser muito intenso. Vou ler com certeza.

1:26 PM  

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