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Monday, June 20, 2011

“Zadig, ou o Destino – História Oriental” de Voltaire (Ulmeiro)


Tradução de João Gaspar Simões

A intenção do Autor ao escrever este conto foi, mais uma vez, tal como em O Ingénuo, a de demonstrar a dificuldade em triunfar por mérito àqueles que são dotados de inteligência ou conhecimento, mesmo que bastante acima da média, quando não favorecidos pelo nascimento ou não dispondo de fortuna pessoal. Recorre, para tal, a uma figura de estilo: a parábola, uma história que comporta uma alegoria e cujo conteúdo pode ser extrapolado para outras situações semelhantes. O narrador é o sábio Sadi, que conta uma história sobre o nobre Zadig, da Antiga Babilónia. Sadi vive na idade média e decide honrar a sua musa, a sultana Sheria, a quem considera o expoente máximo da Perfeição, ao dedicar-lhe a tradução da lenda de Zadig.

A história de Zadig mostra os reveses do destino de que é alvo um homem abastado e origem nobre, mas invulgarmente íntegro. Esta personagem faz o percurso inverso do do protagonista de O Ingénuo, obra já comentada neste blogue. As duas personagens têm em comum a mesma incapacidade de prever o comportamento desviante ou simplesmente a maldade nos humanos. No entanto, Zadig destaca-se pela sua inteligência invulgar.

A inteligência e a posição social de Zadig começam por despertar a inveja nos seus pares ao invés da admiração como seria, talvez, de esperar. No entanto, os feitos de Zadig são, quase sempre alvo de sabotagem, frequentemente confundida com o azar ou desprezo da Fortuna.

Na introdução ao conto e, em jeito de prólogo, o narrador Sadi exalta a beleza e o carácter de Sherea, características que a soberana partilha com a protagonista feminina de O Zadig: a rainha Astarté da Babilónia. Ambas as rainhas, parecem partilhar as mesmas virtudes, reunindo os atributos da Mulher Ideal. As figuras feminina em Voltaire aparecem bastantes estilizadas, ora como o arquétipo de Mulher Ideal, somando todas as qualidades ou então, tal como sucede nas personagens femininas secundárias, surgem como a encarnação do Mal, envoltas em complicadas teias de intrigas, falsidades e mentiras.

A rainha Astarté e a Sultana Sheria, em épocas diferentes, parecem incarnar três arquétipos arcádicos, fundindo a beleza de Aphrodite, a virtude de Artémis, e a inteligência de Athena. Segundo o narrador Sadi, a figura de Sheria merece que lhe seja dedicada a tradução de uma antiga lenda, escrita em caduceu, idioma falado na antiga Mesopotâmia.

Ao contrário da figura da rainha, as restantes personagens femininas da estória são mulheres com muito poucas virtudes. Na realidade, é característico de Voltaire a oscilação entre o vulgar e o sublime no tocante à construção do carácter feminino, não admitindo configurações híbridas. Tirando a rainha, as restantes figuras femininas de O Zadig são, talvez, demasiado terrenas e preocupadas com o imediato, o que as faz adoptar atitudes venais. São essencialmente materialistas , ou então, essencialmente fúteis e superficiais. É por essa razão que escolhem, normalmente, os seus homens tendo em conta apenas a beleza física, pondo imediatamente de lado aqueles que possam a mínima imperfeição. Ou, simplesmente deixam-se seduzir pelos bens materiais ou posição social dos seus pretedentes.

No caso de O Zadig, Voltaire recorre à sátira para identificar alguns defeitos que considera atribuíveis quase que exclusivamente ao sexo feminino: algumas das personagens que figuram no conto têm o hábito de falar dos defeitos alheios, quando estes não passam de uma mera projecção das suas próprias falhas de carácter, como é o caso de Azora. Ou então, são donas de uma personalidade marcada pelo gosto assaz vincado pela intriga, mostrando-se traiçoeiras ou caprichosas, como Misuf. No seu conjunto, as mulheres de O Zadig, excluindo a rainha e a sultana, ilustram a opinião negativa de Voltaire sobre as mulheres em geral.

Quanto a Zadig, o seu principal obstáculo é a Inveja,o principal traço de personalidade dos seus inimigos ou detractores.

Zadig incarna, também, o modelo de governante ideal, segundo a concepção de Voltaire, um governante cuja conduta emana directamente do modelo instituído durante o Século das Luzes pelo Iluminismo, isto é, do primado da Razão como o valor predominante, a deusa suprema que é projectado numa história que remonta a uma das mais Antigas civilizações conhecidas. Zadig é por isso um homem racional, íntegro, que põe o bem-comum, assente nos ideais de Justiça e Equidade como os pilares sobre os quais assentam as suas tomadas de decisão.

Espaço e Tempo

Apesar de a situação se situar na antiguidade do Médio Oriente é possível detectarmos nas entrelinhas algumas alusões à época contemporânea de Voltaire, o século XVIII. A vanguarda intelectual do Iluminismo é caracterizada por uma forte oposição à superstição, ao domínio da Igreja na mentalidade colectiva e à ignorância, colocando em destaque o saber científico, a ética e a filosofia, assentes no primado da Razão e no Homem como o centro do mundo.

Voltaire atribui ao domínio da Igreja face ao governo dos vários Estados europeus a responsabilidade pela onde de obscurantismo em que mergulhou a Europa, após a queda do Império Romano e durante toda a Época Medieval, não hesitando em apontar o dedo à Inquisição como uma das principais instituições responsáveis pelos entraves colocados ao progresso das Artes e das Ciências como se pode observar no parágrafo que se segue:

Estava firmemente convencido de que o ano tinha trezentos e sessenta e cinco dias e um quarto, não obstante a nova filosofia do seu tempo, e que o sol estava no centro do Mundo. E quando os principais magos lhe diziam, com uma altivez insultuosa, que ele tinha maus sentimentos e que era inimigo do estado quem acreditasse que o sol girava sobre si mesmo; e que o ano tinha doze meses, calava-se, sem cólera e sem desdém.

Na história de O Zadig, o Autor empenha-se, a dada altura, em demonstrar o quão insano acaba por ser o primado da crença e da superstição em relação à Ciência no que toca, por exemplo, ao exercício da Medicina – e onde a psicologia, que no tempo de Voltaire ainda não se tinha demarcado da Filosofia, acaba por explicar o efeito placebo que provocam a crenças, manifestando-se em reacções físicas do corpo humano. Neste parágrafo, parece haver uma nítida alusão aos astrónomos Galileu, Copérnico e Giordano Bruno, este último condenado à fogueira por se recusar a desmentir as suas teorias sobre a estrutura e composição do Cosmos.

Uma das principais aspectos de O Zadig, consiste em mostrar como a demonstração de sapiência baseadas na comprovação da veracidade dos factos através de indícios concretos, apelando somente à capacidade de discernimento tem apenas, como efeito imediato, a humilhação dos menos capazes, como no episódio que fala do cavalo do Rei ou da cadela da Rainha. Isto porque entraves à instauração de uma meritocracia em qualquer sociedade esbarram, quase sempre, na muralha formada pelos sujeitos medíocres que se encontram na posse de algum poder, como é o caso do invejoso Azimaze. O Autor dedica um capítulo inteiro a descrever o comportamento do anti-herói, capítulo esse a que dá o título de “O Invejoso” onde realça que “os ódios implacáveis não têm, muitas vezes, o mais importante fundamento.”

A dada altura, depois de perder e recuperar riqueza e posição social que havia perdido por sabotagem, Zadig decide mostrar-se magnânimo, quando a verdade é reposta no seu lugar. Uma atitude que, no entanto, o coloca em posição vulnerável, uma vez que o inimigo não tem humildade suficiente para reconhecer os próprios erros ou limitações. Por outro lado, a superioridade de Zadig tem o inconveniente de realçar ainda mais a mediocridade de Azimaze.

Os acontecimentos acabarão por desenrolar-se de forma a que os invejosos tracem involuntariamente a punição para si próprios, espelhando a própria crença de Voltaire. O final dos vilões de O Zadig é exemplar e em jeito de sátira, à maneira dos contos de fadas:

O Invejoso escarrou sangue e o nariz inchou-lhe prodigiosamente.

O castigo dos vilões baseia-se na concepção de que um comportamento socialmente prejudicial provoca uma reacção igualmente negativa, funcionando segundo o mecanismo da Lei do Pêndulo. Isto é, segundo o princípio de que toda a acção produz uma reacção e, no caso de se optar por um comportamento gerador de algum tipo de dano à sociedade, esse mesmo dano, trará inevitavelmente para o sujeito que prevaricou, consequências nefastas.

A Rainha da Babilónia, a protagonista feminina da lenda trazudida por sadi, é descrita como uma espécie de Rainha Guinevere da Mesopotâmia e Zadig como o seu Lancelot. O Rei Moabdir desempenha o papel de um Rei Artur da Antiguidade. É, também, notório que a descrição dos torneios nas cerimónias oficiais da Corte lembram muito mais as justas medievais do que propriamente a Antiguidade.

A Rainha Astarté da Babilónia é introduzida na história para mostrar como a beleza, a inocência e a virtude conjugadas se tornam altamente vulneráveis. Sobretudo quando todas as atenções de uma corte intriguista estão nela centradas nestes género de personagens, devido à posição de destaque que ocupam. Para o Autor uma amizade entre dois sexos está ,também, muito mais exposta sendo, por essa mesma razão, muito mais vulnerável às intrigas do que uma relação adúltera clandestina:

…uma paixão nascente e combatida dá na vista; um amor saciado sabe esconder-se.

As mesmas intrigas levam os dois protagonistas a ficar em situação social bastante desfavorável. No entanto, a inteligência de Zadig acaba por inverter a situação, sobretudo no empolgante episódio intitulado de “O Basilisco” onde emprega todo ode engenho e audácia de que é capaz para libertar Astarté.

Em O Zadig há, ainda, uma personagem que se destaca pela sua importância no desenlace da história: o Eremita, que detém o Livro dos Destinos. Trata-se, nada mais nada menos do que a projecção da figura alegórica do Destino, personificada na tradição bíblica pelo anjo Azrael, o Anjo da Morte.

A teoria da predestinação, a crença na divina providência, na “mão Invisível”, que favorece o esforço individual, a inteligência e a Justiça face à adversidade por se impor naturalmente como ideologia dominante está fortemente presente na obra, aproximando-se do sistema ético e moral do Zoroastrismo.

O Zadig é, assim, uma conto de um Autor que foi o paradigma intelectual de uma época mas que, em muitos aspectos, continua estranhamente actual.

Ou, se calhar, não tão estranhamente assim…



Cláudia de Sousa Dias

7 Comments:

Blogger Teresa said...

Beijinho, Cláudia :)

2:39 AM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

;-)

outro para ti!


csd

9:08 PM  
Blogger Roberto said...

Ieri ho visto un bellissimo documentario su Lisbona, i tipici patti di pesce e carne:arroz de marisco,bacalhau,vinho do Porto.ecc ecc.
Vivi in un posto stupendo Claudia.

Ps se vengo di chiamo e ti offro una cena
Un bacio
Roberto

9:53 AM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Io vivo nel norte da Portogallo, Roberto...Magari possa fare una visita a Lisbona per ci tomarsi un cafè...

Un Bacio

10:49 AM  
Blogger Roberto said...

Apri la posta ciao ciao

9:05 AM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Bene...Ciao!

10:56 AM  
OpenID Fernando said...

Belas explanações sobre o livro!

8:45 PM  

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