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Wednesday, January 04, 2012

"O Véu Pintado" de Somerset Maugham (ASA)


Tradução do Inglês por Ana Maria Chaves
"...esse véu pintado a que os que vivem chamam vida..."

Este é o mote no qual o Autor britânico Somerset  Maugham se baseia para desenvolver um romance sobre a construção de uma personalidade que vai sendo esculpida, moldada pelas situações que se apresentam ao longo de uma vida atribulada.
Afinal a Vida é pintada ou construída com as cores do ambiente social circundante e, também, de acordo com as expectativas daqueles com os quais tem de se interagir.
Esta é, sobretudo, uma trama que exibe o talento do Autor, patente na complexidade do carácter de personagens, cheias de contradições e capazes de atitudes extremas. Somerset Maugham revela um profundo conhecimento da alma humana, aliado a uma excepcional capacidade de observação.
No prólogo, o narrador, que nesta fase podemos identificar com o Autor, confessa ter-se inspirado numa passagem do Purgatório de Dante, cuja heroína, Pia, é levada pelo marido, o qual suspeita que esta lhe é infiel, para um local remoto numa cidade da província de Hong Kong, na altura ainda uma colónia britânica. Um local impregnado miasmas, já não sulfurosos como na história da heroína de Dante, mas contaminado com perigosíssimos agentes infecto-contagiosos, na esperança que estes condicionalismos lhe proporcionem uma morte lenta e discreta, pois teme o poder da família da esposa mas anseia pela vingança. Vingança essa, que é completa e fatal, e apenas se pode adivinhar como perfeita devido à aparente falta de ligação entre a motivação do perpetrador e as circunstâncias externas, onde as culpas podem facilmente ser atiradas para a fatalidade ou o destino.
Mas as coisas não correm exactamente conforme o previsto...
Protagonistas
Katherine ou Kitty, a heroína do romance de Maugham, é uma beldade, oriunda da classe alta sociedade britânica - um meio social onde parece imperar a frivolidade. No início do romance, apresenta-se como uma jovem extremamente fútil, instigada pela mãe e restantes figuras femininas do seu círculo (restrito) de amizades, procura um casamento através do qual possa ascender socialmente. Trata-se de uma personagem que vai sendo modelada à medida que se desenvolve a trama. Esta é, sobretudo, a história da humanização de Kitty e da sua caminhada em direcção à autonomia, em todas as suas dimensões: sentimental, económica e social.
Walter e Charlie são personagens que fascinam pela sua complexidade ou, se quisermos, pela sua dualidade. Walter, o marido de Kitty, de aparência agradável mas discreta, é um homem inteligente e detentor de uma enorme capacidade de amar. Mas, tal como o marido de Pia é, também, capaz de odiar muito para além dos limites da sanidade mental.
Charlie, o amante, é um homem belo e fascinante, possuidor do charme mundano de quem se move dentro dos círculos diplomáticos como um peixe no oceano e, mais do que tudo, detentor de um enorme poder de sedução e magnetismo sexual. O lado negativo de Charlie manifesta-se na frivolidade (uma característica que inicialmente o aproxima de Kitty, imersa no casamento parental, onde proliferam a falta de afinidades e as dificuldades de comunicação), no excessivo apego às convenções, bem como alguma cobardia e dissimulação q.b.
Waddington, amigo de Walter e Kitty, será como que a consciência da nossa heroína, no inferno de uma cidade cuja população está a ser dizimada pela cólera. Estamos perante uma personagem importantíssima que nos fala da presença britânica na China e da necessidade de ultrapassar preconceitos de ordem social e cultural, apesar da aparente condescendência em relação à sua amada, descendente da nobreza manchu.
Em Kitty, a mesma condescendência surge impregnada de uma forte dose de etnocentrismo que será, também, ultrapassada pelo convívio com as crianças do orfanato.
O desenvolvimento da trama e a construção das personagens
Logo na primeira cena do romance, somos confrontados com o terror de alguém que sente estar na eminência de ser descoberta em flagrante adultério: Kitty. Os sentimentos que transparecem na jovem são evidentes, como se receasse o mesmo destino da heroína de Dante: medo, terror, pânico. A cena, apesar de inicial é, já, o corolário de uma série de encontros clandestinos entre Kitty e o funcionário da embaixada britânica em Hong Kong, Charlie Towsend. Os acontecimentos que estão na origem deste primeiro quadro cénico irão ser relatados através do recurso a uma analepse, uma regressão temporal. Charlie é casado com uma mulher carismática de família abastada e elevada posição social que será o trampolim para a sua carreira diplomática. Não é, contudo, uma mulher muito atraente. Charlie apaixona-se por Kitty pela sua frescura e vivacidade, logo à primeira vista. Irá, depois, empreender as mais elaboradas estratégias para a seduzir, apesar de a saber casada com um célebre bacteriologista. Towsend chega, inclusive, a desvalorizar e caricaturar a esposa (de quem não pretende de forma alguma separar-se) para convencer Kitty de que não tem rival. A esta, Kitty olha-la-á de forma distorcida durante bastante tempo, fruto das observações deturpadas do amante.
Kitty começa por ser uma jovem extremamente influenciável, porque imatura, devido à educação de que foi alvo, orientada no sentido de arranjar um marido de levada posição social de forma a conservar o padrão de vida a que estava habituada. Somerset Maugham é mestre em retratar ambientes emocionais e respectiva mentalidade dominante, da qual esta obra não foge à regra. Assim, a mãe de Kitty surge-nos como uma senhora de alta sociedade com personalidade de “aranha”, fria e calculista, que tenta empurrar a filha para um casamento de modo a que esta deixe de estar a seu cargo. Os expedientes a que recorre chegam a ser hilariantes, embora esta figura esteja bastante longe da divertida caricatura que Jane Austen faz da mãe de Elizabeth Bennett em Orgulho e Preconceito. Isto apesar de ambas representarem o mesmo tipo social , embora com cerca de um século de distância. A divergência com a figura maternal deve-se ao facto de Kitty amar, sobretudo, a própria liberdade. Mas a partir do momento em que a irmã mais nova contrai matrimónio com um aristocrata, a pressão exercida pela mãe torna-se insuportável.
O pai de Kitty é visto pelas filhas como uma fonte de rendimentos mostrando-se uma pessoa retraída, fria e sempre controlada. A mãe de Kitty é, na verdade, quem gere a casa. É dada a mexericos, acabando quase sempre por afastar os pretendentes das filhas ao mostrar-se francamente inconveniente. Kitty acaba por conseguir o “prémio de consolação” casar com Walter, um médico bacteriologista cuja profissão é prestigiada mas não lhe permitirá um nível de vida marcado pelo fausto.
A alteração do teor emocional da relação do casal protagonista dá-se a partir do dia em que Kitty julga ter sido surpreendida com o amante no quarto – a primeira cena do romance – embora não tenha a certeza de nada. A dúvida parece destruí-la por colocá-la em permanente estado de ansiedade – Kitty passa a viver o inferno da heroína de Dante: passa a reparar na mais subtil alteração de comportamento em Walter, a mais leve tremura muscular ou inflexão no tom de voz, qualquer modulação fora do normal.
O Autor consegue, pela descrição dos silêncios e da subtil ironia, implícita nas entrelinhas, descrever a tensão insuportável entre ambos. Sobretudo, na noite após o jantar onde as expressões, carregadas de significado, trocadas entre os dois cônjuges, transmitem um clima “de cortar à faca”.
Mesmo antes do incidente, Walter sempre olhou Towsend como um sujeito superficial, oriundo de uma família privilegiada, que busca sempre o caminho mais fácil para conseguir os seus objectivos:  Towsend aposta todasas suas esperanças nas ligações sociais e no charme pessoal; e Kitty, deixa-se enfeitiçar por esse mesmo encanto, meticulosamente treinado e aperfeiçoado, de um homem que sabe ser agradável.
A atitude de Towsend para com Kitty, sofre, também, alterações a partir daquele dia. Este torna-se algo desagradável, pouco lisonjeiro, sobretudo em relação aos sentimentos de Walter para com ela.
Mas é Walter torna-se na maior fonte de preocupações da jovem protagonista de O Véu Pintado: através de todo um conjunto de sinais não verbais, ela percebe que o marido está furioso consigo. Suspeita de represálias embora não lhe passe pela cabeça o requinte da vingança que está a ser desenhada no espírito profundamente cerebral, metódico e científico do marido.  A Vingança é um tema caro a Somersert Mmaugham e já tratado em outros romances como em As paixões de Julia também editado pela ASA, mas muito longe da dimensão atingida nesta obra. Maugham é um Autor cujo talento reside na exploração dos meandros das emoções mais retorcidas nas suas personagens e a que O Véu Pintado não foge certamente à regra. Kitty, por exemplo é uma mulher pouco agarrada a convenções e muito mais propensa a perseguir a própria felicidade de acordo com o Desejo, mesmo que em choque com a Sociedade. Esta heroína de SM é, também, susceptível de tomar atitudes que despoletem admiração porque possuidora de um temperamento forte, determinado e detentora de coragem para resistir à adversidade. Também possui um espírito u tudo-nada independente e, por isso, susceptível de fazer algo que contrarie as regras sociais ou empreender comportamentos socialmente afectos a censura ou reprovação pelos seus pares.
A atitude dos seus “dois homens” é diametralmente oposta no tocante aos sentimentos que lhe votam: em Walter, Kitty exerce um tal fascínio que este, no momento em que toma a decisão de casar com ela, não espera ser correspondido no amor, contentando-se apenas com a aceitação. Walter aposta numa atitude submissa por parte da futura companheira, contentando-se apenas com pequenas demonstrações de afecto. Charlie Towsend, por sua vez, preocupa-se somente com as aparências, a carreira e o prestígio que lhe dá um casamento por interesse, desejando, através das ligações com a família da mulher, chegar ao posto de governador da província. No entanto, deseja Kitty. Não reage como esta esperava, quando o romance ameaça deixar de ser secreto, aconselhando-a vivamente a manter o casamento, mas é totalmente coerente consigo mesmo. Por outro lado, Kitty apercebe-se de que o amante é experiente desembaraçar-se de situações como aquela, não estando minimamente preocupado com a sua pessoa. Charlie age como se fosse um gato a caminhar sobre um parapeito coberto de cacos de vidro, pois está convencido que “a vaidade ferida pode tornar uma mulher mais vingativa do que uma leoa a quem, roubaram as crias”. AO mérito do Autor neste romance consiste em desmistificar um pouco esta atitude de paternalismo chauvinista, e mostrar que, do lado masculino, esta característica poderá mostrar-se muito mais vincada do que normalmente é demonstrada no género feminino. Walter é a personagem que empunha a bandeira da vendetta que se come fria. A traição de Kitty acaba por transtorná-lo a tal ponto que o torna numa espécie de canídeo afectado pela raiva gelada como se alude no poema de Oliver Godsmith.
Ao levar a esposa para uma remota aldeia da província de Hong Kong , infestada de cólera, Waltersonha com uma vingança completa e fatal. Imagina que Kitty poderá contrair a doença. Durante a viagem, esta passa a sentir-se submersa pelo terror de se ver completamente à mercê do marido, não esquecendo que, à época em que decorre a acção, um pouco antes da segunda guerra mundial, era praticamente impossível uma mulher requerer o divórcio, a menos que se expusesse ao ostracismo total da sociedade.
A linguagem utilizada por Somerset Maugham
O estilo de S. Maugham caracteriza-se por frases simples, pouco elaboradas mas elegantes, num estilo ágil e minimalista. Poder-se-á dizer no entanto que escreve com um relativo pudor quando comparamos a sua escrita com as detalhadas descrições eróticas de D.H. Lawrence. Maugham prefere recorrer a eufemismos ou omissões cheias de subentendidos. Socorre-se, também, da linguagem onírica ao caracterizar, por exemplo, os medos de Kitty, expostos nos pesadelos que sofre.
A partir do momento que a o local da acção transita do meio urbano para a aldeia, onde se fixa Walter para tratar da população doente, o ritmo da acção sofre um abrandamento. O Tempo passa a escorrer lentamente, o texto torna-se mais descritivo, sendo enfatizada a solidão de Kitty, num lugar onde tudo parece simultaneamente belo e hostil.
Waddington – um aliado
A amizade desinteressada também faz parte do leque de afectos de Kitty, a comprovar, mais uma vez, o desapego às convenções. O chefe da polícia local tornar-se-á uma peça fundamental no romance pois, através dele, Kitty conseguirá enxergar a verdadeira personalidade de Towsend, por detrás do véu pintado por detrás através do qual sempre o olhara. Waddignton, ainda sem suspeitar do sucedido, vai traçar o retrato de uma pessoa assaz manipuladora, só faz o que lhe interessa e por interesse, seja para subir na carreira, seja para alimentar a própria vaidade. Waddinton é um sujeito perspicaz, apesar de parecer viver nas nuvens e não levar nada a sério, leva a vida a alimentar os seus pequenos vícios mas tem a capacidade de se aperceber facilmente o que vai na alma das pessoas com quem convive. Mesmo em relação ao casamento de Kitty e Walter, torna-se para ele evidente, mediante as reacções do casal, que apesar da implacável discrição, existe algo de anormal que lhe espicaça a curiosidade. Para Kitty, o convívio com a jovialidade de Waddington é uma lufada de ar fresco que serve de terapia a limpar o clima de tensão, desenvolvido pelo humor cáustico de Walter. Waddignton desempenha o papel de elemento facilitador da integração de Kitty na comunidade. É ele quem a põe em contacto com as freiras missionárias, instaladas no convento das redondezas e lhe ensina os rudimentos da língua chinesa, o que lhe permite olhar para a população local de uma forma menos eurocêntrica. Waddington, apesar de ostentar uma certa dependência em relação ao álcool, é o oposto da personagem anti-social, aproveitando, com uma generosa dose de humor, o pretexto da cólera e das supostas propriedades do álcool como desinfectante, para dar livre curso ao desejo de beber, ocultando assim as verdadeiras mazelas emocionais que lhe vão na alma.
Walter é, nesta fase da acção, é um homem profundamente transtornado que se recusa a exteriorizar as emoções por medo de exibir o seu lado mais vulnerável: refugia-se no trabalho e coloca em risco a própria saúde, sem falar na de Kitty. E Waddington rapidamente se apercebe do teor do relacionamento entre os dois cônjuges e intui a presença da jovem naquelas paragens como uma espécie de “punição”.
Os segredos de Waddington
Kitty, no meio de uma cidade em ruínas que deixa os seus deuses morrerem nos templos para mergulhar nas trevas, acaba por descobrir o verdadeiro drama de Waddignton: a paixão por uma jovem oriental, proveniente da antiga nobreza manchu, a qual tem de ocultar, por receio de não ser aceite pela sociedade britânica, o que pode ser-lhe extremamente prejudicial à carreira, em virtude do extremo conservadorismo do alto funcionalismo público Britânico. Kitty fica deslumbrada com a beleza da jovem e, particularmente, com a delicadeza das mãos e movimentos. A voz é, no entanto, estridente “como o chilrear dos pássaros”. É dependente do ópio com a condescendência de Waddigton. Há neste fiscal da alfândega uma certa afinidade com a filosofia taoista na busca do equilíbrio, da paz da felicidade, apesar dos seus deslizes, que o ajudam a manter este equilíbrio precário. No entanto, o caminho de Waddington passa essencialmente pela companhia desta jovem manchu.
Já Kitty terá de encontrar a própria estrada para a felicidade que passa pelo esquecimento do antigo amante, algo que está implícito na frase: “só alcançarás o que queres quando deixares de desejar”. Para Waddington, a vida, mesmo votada ao sacrifício e à renúncia como a das religiosas no convento, é bela em si mesma, sempre capaz de gerar beleza pela capacidade criadora. Para ele, a vida como véu pintado é, ou pode sempre tornar-se “ a obra de arte suprema”. Waddignton é assim, uma peça fundamental no romance, que condiciona o seu desfecho, pela capacidade de acrescentar algo à vida de Kitty.
O Convento e a descoberta do trabalho como forma de integração social
A visita ao convento marca um segundo ponto de viragem no desenvolvimento da acção: a caminho do convento, Kitty passa pela zona crítica da povoação infectada. No convento, sente ter encontrado uma espécie de refúgio. E a incomensurável necessidade de afecto das crianças órfãs e a dedicação das freiras acaba por preencher as suas necessidades afectivas. Kitty sente-se impressionada pela serenidade da madre Superiora, a quem o Autor dedica uma extensa descrição, física e psicológica: “um rosto onde sobressai a inteligência e a perspicácia, a majestade (a Madre é oriunda da aristocracia rural francesa), o refinamento e o carácter impoluto. Mas, face ao ambiente conventual, onde parece reinar a paz, Kitty sente-se, de certa forma excluída e mesmo algo incomodada por estas interromperem os seus afazeres para a receberem e servir-lhe de anfitriãs. O impulso em ser útil e ultrapassar o pesadelo das intermináveis horas de ócio consegue despertar-lhe o desejo de trabalhar naquele lugar, junto das meninas órfãs e obedecer ao impulso de um instinto maternal latente.
A alusão à inquietante orfandade do sexo feminino
Uma das questões mais intrigantes de O Véu Pintado é a presença exclusiva da orfandade feminina havendo, provavelmente, uma ligação com o infanticídio feminino, praticado na China no século XX, como consequência de medidas restritivas à natalidade expressa pela inquietante frase que menciona o facto de as freiras arrancarem as meninas órfãs àqueles que as não desejavam e que, logo que chegaram, começaram a salvar as pobres meninas da torre dos bebés e das mãos cruéis da parteira, para serem acarinhadas pelo carácter doce da rubicunda irmã S. José. As crianças presentes no convento são emocionalmente frágeis, com uma percepção particularmente aguda de quando não são amadas. É o caso da criança Down, que provoca uma forte impressão em Kitty.
A inesperada gravidez de Kitty acaba surge para introduzir uma mudança radical na vida do casal – Walter deixa de desejar a morte da esposa, apesar de não estar seguro quanto à paternidade. No convento, as religiosas ficam entusiasmadas com a notícia.
Símbolos
Um dos principais ícones utilizados por Somerset  Mauhgham nesta obra tem a ver com um mausoléu, descrito como o memorial erguido por um governante local em homenagem à virtude da esposa morta (uma vaga reminiscência do Taj Mahal). Trata-se de uma espécie de aviso, ou signo que adverte para uma necessidade de expiação, gerada pelo sentimento de humilhação em Kitty, pelo facto de esta se ter enganado ao sobreavaliar Charlie Towsend. Um símbolo imbuído de uma espécie de “sardónica ironia” mas, ao mesmo tempo, transmissor de uma réstia de esperança.
O cão presente no poema “An elegy...” de Oliver Goldsmith, atacado pela raiva, é outra das grandes metáforas do livro e que se relaciona directamente com o destino do protagonista já intuído no prólogo.

An Elegy on the Death of a Mad Dog
  Good people all, of every sort,
  Give ear unto my song;
  And if you find it wondrous short,
  It cannot hold you long.

  In Islington there was a man,
  Of whom the world might say
  That still a godly race he ran,
  Whene'er he went to pray.

  A kind and gentle heart he had,
  To comfort friends and foes;
  The naked every day he clad,
  When he put on his clothes.

  And in that town a dog was found,
  As many dogs there be,
  Both mongrel, puppy, whelp and hound,
  And curs of low degree.

  This dog and man at first were friends;
  But when a pique began,
  The dog, to gain some private ends,
  Went mad and bit the man.

  Around from all the neighbouring streets
  The wondering neighbours ran,
  And swore the dog had lost his wits,
  To bite so good a man.

  The wound it seemed both sore and sad
  To every Christian eye;
  And while they swore the dog was mad,
  They swore the man would die.

  But soon a wonder came to light,
  That showed the rogues they lied:
  The man recovered of the bite,
  The dog it was that died.

                                                By Oliver Goldsmith
 O desfecho que Maugham reserva para a personagem Walter é, para Kitty, uma espécie de libertação, uma vez que nunca seria completamente feliz com o marido, tão pouco espontâneo em termos de afectividade. Um final que, apesar de pré-anunciado nas entrelinhas no início do romance e na alusão feita ao poema de …é algo de que o leitor não está à espera. À medida que a trama se vai desenvolvendo, este é, de certa forma, induzido a pensar que poderá surgir um renascer da paixão no casal. Mas tal não acontece. O destino de Walter é somente a maior reviravolta do romance. A partida de Kitty torna-se obrigatória, a permanência no local deixa de fazer sentido. A amizade entre Kitty e Waddignton, mantém-se, apesar da distância.
No final, Kitty consegue tornar-se amiga da mulher de Towsend ao constatar o real valor desta e a diferença abissal em face à imagem que este deixava transparecer da esposa. A relação de Kitty com Towsend modifica-se também de forma radical e é precisamente neste ponto que o leitor se apercebe do alcance da transformação do carácter nalguém que foi sendo desenhado ou pintado ao longo do tempo sobre o véu pela vida e pelos reveses da Fortuna. A intenção de Somerset Maugham , ao construir esta personagem feminina é a de demonstrar que a personalidade não é estática, que a Vida não passa em vão pelos seres humanos, como já afirmava Heráclito e como demonstra a frase do narrador que ilustra o pensamento de Kitty em relação a Towsend:
Era um homem bonito. Era uma sorte para ela saber que ele não valia nada.”
Outra mensagem importante na obra é o valor da conquista da autonomia e da importância do reconhecimento social: um prémio conquistado por Kitty, como resultado do mérito conseguido pelo trabalho junto de Walter, com os doentes e no orfanato e que lhe proporciona a força necessária para pintar o véu da vida com as cores que desejar…
Uma obra ímpar, um clássico da Literatura Britânica do século XX, um Autor consagradíssimo, falecido em Nice em 1965. Um livro povoado de personagens de grande densidade psicológica, e pleno de conflitos emocionais, que envolvem, amor, ódio, traição e morte. Uma história de crescimento interior e lucidez.

Cláudia de Sousa Dias
20.03.2011
(Artigo reformulado a partir da publicação original de 25.02.2005 neste blogue)


6 Comments:

Blogger redonda said...

Gostei muito deste livro (como de outros de Somerset Maugham, um dos meus escritores preferidos quando tinha 16/17 anos) e também desta crítica por me possibilitar relembrar alguns aspectos que gostei da obra e por me chamar a atenção para outros nos quais na altura não pensei.

3:27 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Fico contente que tenhas gostado...estava com receio de ter escrito um texto demasiado longo. de ter esmiuçado demais a história.

12:07 PM  
Blogger M. said...

O recorrente tema da traição e castigo da mulher adúltera... Havia "O Fio da Navalha" em casa dos meus pais, mas acho que nunca o li. E agora apetece-me ler este!
Beijinhos,
Madalena

10:32 AM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

lê-se muito bem...a linguagem é limpa e acessível. Não é tanto um romance sobre as questões sociais como "o Amante de Lady Chatterley", mas mais psicológico.


;-)


um beijinho, querida amiga.


csd

10:50 PM  
Blogger Ana said...

É uma das melhores análises que já li deste livro! Os detalhes e referências que você sobressaltou foram fundamentais para uma melhor compreensão da obra. Parabéns por estes e tantos outros posts. Espero que volte a postar, gostei muito do seu blog, tens talento! Abraços.

6:20 AM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

obrigada!

10:05 AM  

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