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Sunday, December 09, 2012

“o nosso reino” de valter hugo mãe (Quidnovi/Alfaguara)




«O Inferno aterrorizou algumas gerações de crentes e é um dos mais antigos pesadelos da humanidade, ligado ao medo do mundo desconhecido que se abre depois do fim da vida.»

in História dos Infernos de George Minois, (Tradução de Serafim Ferreira para Teorema, 1997).


Este primeiro romance de valter hugo mãe é o retrato psicológico da sociedade portuguesa, numa pequena aldeia de pescadores no Litoral Norte,do final do período do Estado Novo. O que retiramos da leitura deste o nosso reino é um pequeno povo atrofiado por quase meio século de ditadura, dominado pelo medo do Inferno e obcecado com a ideia de adquirir a Santidade e conquistar o direito ao Paraíso, numa vida livre da miséria. Uma outra vida. No livro, percebe-se ainda que Revolução dos Cravos acabou de eclodir, mas as suas consequências ainda não se fizeram sentir no quotidiano da população. Salvo nas escolas, onde o discurso mudou radicalmente.

O dia-a-dia dos adultos, sobretudo das mulheres, é marcado pelo medo das perdas, pela preocupação constante em afastar o pressentimento de desgraça eminente, da Fatalidade, a qual tentam esconjurar com rezas, mezinhas ou rituais onde o cristianismo se funde com tradições de origem pagã, numa devoção profunda e contínua, denunciada pela profusão de imagens de santos e amuletos com que se rodeiam, sobretudo a avó do narrador e protagonista. O romance é autodiegético, estando a narrativa a cargo de uma criança, impressionada pela profunda tristeza do olhar no homem que transporta os mortos para cemitério da aldeia. A mesma criança, ao acumular a função de narrador, coloca-nos dentro do seu mundo – família,escola e grupo de pares – a partir de uma família que sofre as dificuldades causadas elo empobrecimento, resultante da divisão da propriedade, sobretudo após o falecimento dos avós. Há um pouco de tudo e quase todas as personagens despertam no leitor sentimentos de ternura e compaixão, havendo membros do clã a debaterem-se com problemas de desemprego e encontrando no álcool o lenitivo que lhes permite escapar à realidade e entrever o tão distante o paraíso anunciado na missa pelo “senhor padre”, tão íngreme que só a etilização da mente permite a ilusão de o vislumbrar.

O peso da religião e da superstição no vida dos habitantes daquela aldeia actua, também, como tranquilizador, mantendo acesa a esperança de uma vida melhor. Mas acaba, também, por ter o efeito de uma erva daninha ao ocupar totalmente o espírito das pessoas sem deixar espaço ao pensamento crítico e à criatividade. No seu lugar, está o medo omnipresente da ideia preconcebida e do que julgam ser o “pecado”, obrigando-se segundo a orientação do senhor cura a uma vida de constante sacrifício. O peso do dever é tal que a omnipresença desta ideia só aumenta a tentação de fuga a uma virtude que se exprime quase sempre na observância de rituais, ao mesmo tempo que é espicaçada a vontade do proibido, a actuar como o aguilhão que empurra ao “vício”, mas encoberta com a maledicência e a projecção dos próprios defeitos em casa alheia.

O narrador é uma criança que frequenta o ensino básico, o qual na altura se estendia até ao quarto ano de escolaridade. O menino deseja atingir a perfeição espiritual, a santidade. Mas os sacrifícios para alcançar o Paraíso são de tal ordem que o seu dia-a-dia ameaça tornar-se um inferno de tristeza. É, no fundo uma criança infeliz, solitária, a crescer no seio de uma família disfuncional e pouco dada a demonstrações de afecto. A escola e a instrução são importantes, há uma tentativa um esforço por parte da professora para mudar o pensamento nos mais jovens, mas o peso da sociedade tradicional é muito forte. Por outro lado, a escola não consegue substituir a função fundamental da família na questão da afectividade e na forma mais primária de pensar e olhar para o mundo. E o espaço familiar, sobretudo aquele que é dominado pelo género feminino, encontra-se invadido, sobrecarregado pelo peso dos símbolos religiosos (a galeria de crucifixos da avó). O desejo de atingir a santidade na criança é-lhe assim inculcado desde cedo e é o resultado do peso cultural desta religiosidade na famílias, visualmente omnipresente e apresentado como modelo de conduta ideal. Por outro lado, quando observarmos a conduta do narrador percebemos também que o medo do inferno, levado ao extremo, pode facilmente conduzir à desumanização na forma de conduzir a vida, marcando-a com um permanente sentimento de culpa, fruto da ablacção de qualquer tipo de prazer – condição fundamental para atingir a santidade.

O livro começa por falar na estranha e intrigante personagem que é, “o homem mais triste do mundo”. Alguém cujos lhos, de tão tristes, hipnotizam as pessoas que mergulham neles sendo por eles sugadas tal como a poderosa força da gravidade de um buraco negro exerce na matéria:

era o homem mais triste do mundo, como numa lenda, diziam dele as pessoas na terra, impressionadas cm a sua expressão e cm o modo como partia as pedras na cabeça ou abria bichos com os dentes tão caninos de fome.
era o homem mais triste, diziam, incapaz de fazer mal a alguém, apenas metendo dó, com os olhos de precipício como se vazios para onde as pessoas e as coisas caíam em desamparo.”
(…)
era com os olhos como lanternas, que competia com os bichos da morte, perplexos com tal ser.
(…)
era um homem todo diferente. quantas vezes se contava de como saltava pelas árvores. quem não jurara tê-lo visto no tempo da caça a apreciar, empoleirado nas copas, e como se faria viajar agilmente pelos ramos, muitas vezes intrometido a afugentar os animais.
(…)
e eu juro que o vi voar por sobre o casario numa noite de inverno.
(…)
eu descobri muito cedo, o homem mais triste do mundo recolhia os mortos, juntava-os um a um nos braços e dava-lhes a terra e o silêncio para comerem até que parecessem a terra e o silêncio e os pedíssemos para voltar a ter entre nós, para entre nós preservarmos uma ligação entre as almas, eram como um perfume débil percebido apenas pelas gentes mais sensíveis.

Há várias leituras para interpretar a figura deste coveiro de tristeza contagiante, pois trata-se na verdade de uma figura alegórica, associada à morte. Pode ser o ícone que simboliza o atraso estrutural na mentalidade do país, de um imobilismo que leva à entropia. Ou simplesmente a encarnação do desespero, cuja profunda melancolia leva ao desvanecer da vontade de viver e da alegria. Este “homem mais triste do mundo” anda de mão dada com a morte, cuja presença é assinalada pelo uivo dos cães. Vive no fim do mundo – o cemitério, para onde leva os homens que abandonaram o mundo dos vivos. O fim do mundo, segundo a mãe do menino que narra esta história, fica para além da estrada da “vila”, onde começam as árvores. Assim, tal como acontece nos contos de fadas – pois aqui também há magia, fadas e bruxas, o absurdo, o maravilhoso e o horrível –, a floresta é o lugar onde se perdem e desaparecem as crianças. A mãe o menino e o resto das mulheres da aldeia vivem assombradas pelo terror de que os filhos sejam levados pelo homem mais triste do mundo, ou que os seus homens sejam sepultados nas águas ao buscar o peixe com que sustentam a família.

o nosso reino é o primeiro de quatro romances de valter hugo mãe subordinados ao tema do ciclo da vida, sendo este dedicado à infância. Trata-se de uma obra que está ainda muito “colada” à poesia, género com que este escritor das Caxinas se estreou na Literatura. O toque poético na prosa de o nosso reino está patente na figura alegórica do coveiro da povoação, a entidade que rouba as almas e as leva para a sua derradeira morada. As personagens da trama são tipos sociais, encarnam a forma de viver de uma determinada época e num lugar específico., mas movimentam-se algures entre o mundo real e o surreal. O conteúdo onírico do texto adiciona marcas do discurso oral das gentes da Póvoa de Varzim e de Vila do Conde, ligadas à actividade piscatória e agrícola, assim como das lendas e tradições que compõem a tapeçaria do património cultural imaterial da região. Aqui, incluem-se as rezas e receitas de mezinhas tradicionais, rituais de exorcismo e encantamento executadas pelas mulheres da aldeia com o objectivo de expulsar o demónio ou afugentar malefícios e, em última análise, o assédio da da fome, da guerra e da morte.

Nos jovens, naqueles que têm alguma dificuldade em perceber os contornos da linha estreita que separa o bem do mal, o temor do desconhecido toma a dianteira, sobrepondo-se à busca pela perfeição espiritual:

foi nessa altura que os meus avós trouxeram lá para casa um empregado novo. tinha um jeito torto de responder, diziam que a má educação haveria de o pôr no Inferno. via-o morbidamente, passava por todos os lados da casa, a biscatar o dia inteiro as coisas do avô (...) e sempre o resmungo garantido, como um serviço mal prestado por dentro, algo a que se junta um veneno ou um mau-olhado. ficávamos a comentar. lembro-me de pergunta, o meu pai entendia que as pessoas tristes durante muito tempo ficavam de mal com a vida e podiam nunca se casar, dizia-mo com uma gravidade assinalável, eu acabava sempre por ter pesadelos, profundamente impressionado., com o que descobri nas expiações da minha consciência motivos para ser feliz e me salvar do estragamento da vida. achava-o ainda muito novo, o senhor luís estava entre o meu pais e o meu avô, os cabelos não eram brancos e andava muito rápido quando queria, o que o fazia usualmente suar.
(…)
o manuel quis matá-lo, uma vez quando se assustou a sério, como eu a cada momento, e jurou que vira um fantasma. chegámos a correr para a cozinha, a buscar a faca maior de todas haveríamos de o apanhar pelas costas para que não tivesse possibilidade de fuga e quando o matássemos esvanecer-se—ia em fumo e subiria para o lugar das almas proscritas. sabes, há-de se um lugar com paredes de chumbo, todo a arder no interior e sem janelas, sem portas, só uma combustão contínua. como suplício, inimaginável. como uma caixa. ou então, desceria para o centro da terra, onde a lava de todos os vulcões se contém, eu julgava saber que se continha, à espera de saber se no fim vence o bem ou mal. ou o homem mas triste do mundo viria à nossa porta reclamar o corpo.”
(...)
a minha avó rezava ao seu cristo para que me torasse as minhocas da cabeça.

O medo parece ser a raiz de todos os problemas nas personagens de o nosso reino e o principal móbil do desvio de conduta dos jovens que não sabem muito bem como reagir àquilo que não compreendem. O narrador em particular, porque dotado de uma extraordinária capacidade de observação mas ainda sem conseguir descodificar mensagens, muitas vezes cifradas, trocadas entre adultos. A inexperiência não lhe permite compreender tudo, mas a fé absoluta dos adultos na inocência e no aspecto apagado do jovem, torna-os descuidados e aquele apercebe-se das inúmeras contradições entre as atitudes dos adultos e as palavras que proferem.

O olhar e as atitudes da criança-narradora é na verdade o olhar do adulto que relata os acontecimentos da infância com os olhos da criança que foi. O discurso do adulto, que recupera o menino que ficou no passado, denuncia uma educação repressiva, baseada no temor omnipresente de um castigo terrível e no terror de se saber permanentemente vigiado como se tivesse microfones dentro do crânio, expondo-o à censura do pensamento e à punição que se quer imensa, completa, exemplar. A isto junta-se também o medo do Outro: todo por dentro era um animal em pânico. Aqui não se trata pura e simplesmente do medo do Outro enquanto homem ou sociedade. Trata-se do medo da existência de um ser sobrenatural que entre por todas as frinchas das portas da case e também pelo nariz, boca e ouvidos e que tudo vê, tudo ouve e tudo sabe. Este ser sobrenatural – que para o narrador tanto faz que se chame de deus ou diabo – gera um medo indescritível e avassalador. Medo esse que é incutido na população a partir de idades muito precoces e que, no romance, está representado por uma figura carismática e que goza de grande prestígio no seio da comunidade: o pároco. A incipiente rebeldia e desejo de independência que desde cedo é demonstrada pelo jovem é exemplarmente reprimida por aquele:

ao padre tínhamos de contar tudo, mas eu pedia a deus que me desonerasse de tal obrigação. expliquei-lhe que não era pecado esconder algo, se pedíssemos primeiro a deus que nos permitisse o segredo (…) deus sabe que se ele quisesse muito que o senhor soubesse haveria de ter maneira de lho dizer. quando o padre me bateu a primeira vez, fiquei perplexo. fiquei uma pedra presa ao chão, os joelhos a tremerem como madeira tola a querer partir o mármore, e calei-me. saí da igreja lento, sem chorar, a acreditar que o homem mais triste do mundo poderia trabalhar com ele e que a morte poderia ser uma coisa encomendada por uma pessoa (…) eu morreria naquele dia (…) que um padre bater numa criança só poderia ser trabalho de morte.
o manuel achava que agora teríamos de matar o padre e eu sabia que fazia sentido, que o padre dominava a igreja e, por algum misterioso processo, teria direito a decidir quem vivia e quem morria.”

O desejo infantil de superar o medo da morte, a intervir no destino, pretendendo decidir quem vive ou morre, é dirigido sobretudo a quem tem o poder de matar espiritualmente. Esta atitude evidencia-se de forma angustiante no comportamento destas duas crianças, cuja fragilidade se opõe ao peso da cultura ancestral e à herança de incomensurável aridez, no tocante ao pensamento crítico, legada pela ditadura. Assim, há no romance duas forças opostas que se digladiam ao longo da trama, mais psíquicas do que físicas, e que representam dois tipos de sociedade: a da obediência incondicional e a sociedade que problematiza, que coloca questões incómodas, esta última ainda incipiente mas que começa a despertar.

Nas actividades diárias das mulheres e das crianças em particular quase não há espaço para se dedicarem a outras assuntos que não a religiosidade, associada ao combate permanente contra as forças do mal e ao trabalho contínuo, extenuante sem tempo para diversão ou reflexão.
Isto reflecte-se nos aspectos mais elementares dos habitantes da aldeia, a começar pela avó do narrador, que vive para a lida da casa e para a família e é enterrada abraçada ao seu cristo favorito. As dificuldades sentidas pela família são denunciadas pelo esgotamento da mãe, da sua solidão absoluta e dedicação aos filhos. Por outro lado, a obsessão das pessoas em geral pela observação dos comportamentos e conduta alheios, leva à mais absoluta falta de solidariedade e compaixão entre elas, ao férreo controlo social e à crítica constante dos mais diversos aspectos das vidas dos outros.

No meio de tudo isto, há a criança que atrofia por falta de manifestações de afecto, carência que tenta colmatar com a busca contínua de um ideal de perfeição, mas que a vai matando lentamente por dentro, até se assemelhar, ela própria ao “homem mais triste do mundo”, quando se aproxima do seu objectivo, fazendo lembrar uma personagem do romance Thaïs de Anatole France.

A relação do narrador com as demais personagens atinge sempre uma dimensão secundária, a tal ponto que corre quase sempre o risco de exclusão, fruto da obsessão que toma conta da sua mente. A troca de afectos passa, assim, para segundo plano mesmo na relação com o grupo de pares (nunca exerce uma posição dominante mas torna-se seguidor dos líderes adoptando os comportamentos do grupo para aí ser aceite). Neste aspecto, a personagem de valter hugo mãe tem algo do adolescente Agostinho de Alberto Moravia. Com os adultos, também o afecto não está em primeiro plano ou, pelo menos à superfície. A sua relação com os adulto mais próximo é estabelecida para assegurar as condições de segurança, conforto e socialização.

Outro aspecto, que é muito relevante no romance é o evidente sincretismo religioso, que funde elementos do cristianismo com os vestígios de antigas culturas pagãs remanescentes que estão enraizados na mentalidade colectiva, como sucede no ritual em que as mulheres da aldeia tentam ressuscitar um jovem que fugiu da guerra, recorrendo a práticas de ocultismo. O realismo mágico está presente em vários momentos da obra, acrescentando-lhe beleza estilística, como o uivar dos lobos antes de acontecer uma tragédia, a fúria destruidora do ciclone que, tal como a revolução de Abril anuncia uma mudança se precedentes na sociedade durante as décadas seguintes.

Uma obra de excelência a marcar a estreia na ficção de um dos melhores escritores emergentes da actualidade que viria a obter o Prémio Saramago, em 2007 com o remorso de baltazar serapião e em 2012 o Grande Prémio PT Literatura com a máquina de fazer espanhóis.




Cláudia de Sousa Dias
12.11.2012

4 Comments:

Blogger Maria said...

Essa vida pequenina e obcecada pela salvação lembra-me o que a minha avó costumava contar-me quando eu era miúda*...

beijinhos



*eu sou mais pecado e perdição e afins :P

2:08 AM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

:-)Lillith...

Mas é bom que alguem nos passe o filme de como era. Para que não deixemos que volte a ser...

10:45 AM  
Blogger Baudolino said...

Gosto muito dos textos do vhm.

1:44 PM  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Me too...

3:09 PM  

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